Está OK socar nazistas?

Cada vez mais, temos visto invadir as redes sociais a propaganda de grupos de extrema-esquerda como o Antifa. Cada vez mais, parentes e amigos que antes eram apenas pessoas normais com ideias de esquerda estão “curtindo” a ideia de que socar nazistas está OK, é legal, etc. A premissa embutida neste raciocínio é a de que os nacional-socialistas são uma ameaça premente à democracia e à vida dos seus cidadãos, e que portanto a agressão física contra eles se justifica como legítima defesa. A outra premissa embutida, admitida pelos esquerdistas com muito menos frequência, é a de que a extrema-esquerda tem o direito de rotular de nazista quem ela bem entender, incluindo aí todo mundo de quem ela discorda. Ou seja, estendendo o raciocínio até as suas últimas consequências, está OK socar eleitores do Trump, apoiadores do Bolsonaro, católicos, evangélicos, ativistas pró-vida, ativistas anti-desarmamento civil, conservadores e liberais com gravata-borboleta. Ou seja, está OK agredir fisicamente todo mundo de quem eu discordo.

Antifa
Grupos extremistas como o “Antifa” se orgulham de exibir as armas com as quais praticam a violência política nas ruas. E o pior: justificam suas agressões com ideologia barata.

Não é preciso pensar muito para ver o quanto esta ideia, totalitária já na concepção, está errada: ela legitima o uso da violência política contra opositores em geral. Este tem sido o raciocínio padrão da esquerda marxista-leninista desde sempre, razão pela qual episódios históricos de politicídio fratricida são frequentes nos países onde estas ideias proliferam: Lenin terminou à bala o experimento anarquista de Nestor Makhno na Ucrânia, Stalin mandou executar trotskistas dentro e fora da URSS, social-democratas e comunistas se matavam pelo apoio proletário nas ruas da Berlim do entreguerras, Maduro persegue e assassina opositores da esquerda moderada venezuelana, e assim por diante.

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O nazismo e o fascismo no espectro político

Texto publicado também no blog Mundo Analista. Para ler o original, clique aqui.

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Já escrevi alguns textos sobre a relação entre nazismo, fascismo, direita e esquerda [1]. Como está na moda da semana, resolvi sintetizar aqui o que sei. Antes de começar, julgo importante explicar algo. Muitas pessoas tem dito que é inútil discutir qual é a posição do fascismo e do nazismo no espectro, pois cada lado diz uma coisa, não há consenso, tampouco utilidade prática em buscar uma resposta final. Mas na verdade a discussão é importante sim. Não pelo rótulo, mas pelo mapeamento das ideias.

Pouco importa os nomes que fascismo e nazismo receberão, mas é muito relevante descobrir de onde suas ideias se originaram, a fim de que possamos evitar o surgimento de movimentos semelhantes. A classificação é possível mediante modelos baseados no diagrama de Nolan, no qual há quatro quadrantes, dividindo os dois lados do espectro em pelo menos dois grandes grupos. Dito isso, começo a elencar os pontos principais.

Pontos principais sobre nazismo e fascismo

1. A teoria nazista, exposta por Adolf Hitler em sua obra Mein Kampf, faz parte da tradição de ideologias seculares redentoras que se iniciou a partir do iluminismo e teve seu ponto alto no século XX. Essas ideologias possuem em comum os seguintes pressupostos: (A) a sociedade precisa ser redimida do mal e reestruturada; (B) há um inimigo que perpetra esse mal, mantendo uma velha estrutura social; (C) o ser humano pode redimir o mal da sociedade e reestruturá-la através de um bom projeto de governo nesse sentido e governantes capazes de representar fielmente os anseios do povo; (D) esse governo redentor deve ter grande poder político, econômico e cultural para emplacar esse grande projeto. Em suma, a ação política salvará o mundo.

Fizeram/fazem parte dessa tradição o jacobinismo, os diversos tipos de socialismo, o positivismo, o marxismo, o darwinismo social, o sindicalismo revolucionário, a socialdemocracia original, o fascismo italiano, o nazismo e outras correntes. Todas elas podem ser conceituadas como religiões políticas.

2. Ainda conforme as ideias expostas em Mein Kampf, os judeus pretendiam subordinar todas as nações ao que Hitler chamava de “Capitalismo Internacional Judaico”. Ou seja, para o nazismo hitlerista havia um plano judaico de dominação mundial. Hitler chega a essa conclusão baseado no fato de que os judeus estavam espalhados por toda a Europa, ocupando posições importantes como donos de jornais, banqueiros, políticos, sindicalistas, etc. Então, era um povo gigante fora de sua terra de origem, sugando as riquezas de outros povos e ocupando todas as posições.

3. Segundo a doutrina nazista, o marxismo e a socialdemocracia eram dois movimentos mentirosos, criados por judeus para dar uma falsa impressão de luta contra o capitalismo é a favor do proletariado. A intenção, contudo, era a mesma dos judeus burgueses: subordinar o mundo ao grande capital internacional judaico. A prova disso, conforme a explicação dada em Mein Kampf, era justamente o fato de que as lideranças desses movimentos todos tinham raízes judaicas. Karl Marx, aliás, era de família judia, o que só reforçava o mito criado por Hitler.

4. A oposição da doutrina nazista em relação ao marxismo e a socialdemocracia, portanto, não se dava pelos princípios proclamados de luta contra a desigualdade ou da defesa de uma economia planificada, do controle governamental sobre o empresariado e da construção de uma nova sociedade (mais justa). A oposição se dava, conforme explicado detalhadamente em Mein Kampf, por esses dois movimentos serem falsos, ferramentas judaicas para engano do povo. Daí a conclusão de que o único socialismo verdadeiro era o nacional socialismo (nazismo).

5. O nazismo se colocava como o socialismo verdadeiro porque lutava de verdade contra o capitalismo mundial. Combater de fato esse sistema global era, para o movimento, se opor ao internacionalismo, que atendia aos interesses dos capitalistas imperialistas, desejosos de um mundo sem fronteiras dominado por meio de seus escritórios. Combater de fato esse sistema global era atacar os principais capitalistas imperialistas do mundo: os judeus. Combater o capitalismo realmente era se opor à farsa do marxismo e da socialdemocracia, que de socialistas não tinham nada, pois defendiam o internacionalismo, dando assim o poder nas mãos do imperialismo judaico.

6. A doutrina nazista, à semelhança da marxista, buscava se firmar “cientificamente” também. Para Marx, o comunismo não era uma ideia. Já que ideias, para Marx, apenas justificavam as condições materiais de determinado tempo. O comunismo era uma ciência, uma ciência exata, a observação dos fatos como eles são. Essa definição está clara no Manifesto do Partido Comunista e também é uma tradição iniciada no iluminismo. Cada autor procurava dar à sua ideologia de redenção um status de ciência exata. Isso pode ser visto claramente, por exemplo, no positivismo, de Comte, e no Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens, de Rousseau.

Seguindo a tradição, o nazismo se fiou no darwinismo social. Para a doutrina, o ser humano era composto por raças mais evoluídas e menos evoluídas. A raça ariana, da qual fazia parte os alemães, era o supra sumo da humanidade em inteligência, moralidade, força, beleza, etc. A raça judaica, por sua vez, era a pior das raças, a mais depravada. Talvez por isso tenham se tornado capitalistas. O nazismo, portanto, combatia não apenas um sistema econômico com sanha imperialista, mas um sistema econômico usado por uma raça vil e ordinária.

7. O projeto econômico nazista era de cunho antiliberal. O livre mercado era um mal. Apenas o forte controle do Estado poderia impedir distorções sociais, manter a ordem e usar empresários e empregados para o bem da sociedade.

8. O fascismo italiano, proposto por Benito Mussolini, mantinha pelo menos uma grande diferença em relação ao nazismo de Hitler: não focava nos judeus como o grande mal do mundo. Pelo menos não em sua origem. A visão fascista de combate era mais generalista: o capitalismo internacional é o monstro. E contra esse grande monstro as armas eram o socialismo e o nacionalismo.

9. Para entender o socialismo fascista é preciso entender o processo de mutação pelo qual passou o pensamento de Benito Mussolini. O ditador italiano foi um marxista ortodoxo e militante durante toda a juventude, fazendo parte do PSI (Partido Socialista Italiano) e editando jornais socialistas. No entanto, influenciado por ideais revolucionários mais pragmáticos, como o “sindicalismo revolucionário”, de Georges Sorel, ele passou a defender conceitos que se distanciavam do marxismo ortodoxo. A expulsão de Mussolini do PSI se deu após sua forte adesão à participação da Itália na Primeira Guerra Mundial. Para o partido, aquela guerra era capitalista e a Itália não deveria se intrometer. Para Mussolini, contudo, a participação poderia trazer benefícios à Itália.

10. O pragmatismo adotado por Mussolini o levou a desenvolver um novo tipo de socialismo, menos utópico e mais realista. Na nova doutrina, concebia-se o Estado como uma entidade insuperável, em oposição ao mito utilizado por marxistas de que o Estado se desfaria naturalmente após a ditadura do proletariado. Ele percebeu que isso era mentira e que o objetivo do socialismo é (e sempre foi) o poder supremo do Estado.

Pelo pragmatismo soreliano, Mussolini moldou sua visão sobre o uso de mitos políticos como força motriz para a condução das massas. Para Sorel, que foi um sindicalista revolucionário e marxista heterodoxo, o mito político era um conjunto de imagens com capacidade para gerar reações antes de qualquer análise refletida. Em outras palavras, não importava que uma ideia fosse mentirosa. Desde que ela servisse para impulsionar as massas, isso era suficiente para os fins desejados pelo socialismo. Mussolini captou essa ideia e, por esta razão, passou a se utilizar das ideias de religião, pátria e raça, que evocavam sentimentos fortes e capazes de unir a sociedade italiana em prol do projeto político fascista.

11. Na visão econômica, o fascismo italiano entendeu que se o Estado concentrava tudo em suas mãos, não havia necessidade de uma estatização direta da economia. Um controle corporativista se mostrava mais simples, eficiente e gerava uma aparência aceitável para o empresariado. Tanto o fascismo italiano, quanto o nazismo alemão perceberam que a manutenção de empresas privadas na sociedade não só evitaria uma difícil e custosa luta contra grandes empresários, como também abriria a possibilidade de o Estado se beneficiar do dinheiro, da organização, do poder e do apoio desses grandes empresários para os fins do regime. Para isso, bastaria garantir seus lucros e a proteção contra a concorrência, o que uma economia planificada faz muito bem.

12. A visão econômica proposta pelo fascismo e o nazismo são exatamente a mesma de outros tipos de socialismo e do marxismo em seu estágio intermediário. Todo socialismo propõe uma intervenção cada vez maior e mais ampla do governo na economia até o estágio de uma economia planificada. O marxismo, o mais extremo dos socialismos na área econômica, sustenta não só a escalada até uma economia planificada, mas até uma economia totalmente estatizada. O que difere cada tipo de socialismo, na área econômica, é apenas o grau de intervenção e o objetivo final. Isso implica que o natural de uma economia marxista é que ela passe por estágios corporativistas.

Na verdade, essa é a lógica inescapável da planificação da economia. Na medida em que o governo intervém mais com impostos, regulações, burocracias, agências reguladoras, expansão de crédito, etc., mais dificulta a atividade empresarial no geral, o que torna o empreendedorismo uma atividade restrita à poucos grandes homens com boas relações com o governo. Estes darão ao governo apoio moral e financeiro. Receberão do governo a garantia de que nenhuma outra grande corporação aparecerá para tirar seus lucros. Sem o governo, essas grandes corporações não existem, pois é a relação com o governo que decide quem sobrevive. Então, elas se tornam sustentáculos do regime. Aqui já se encontra a planificação da economia. Lenin chamava esse estágio de capitalismo de Estado e o definia como o estágio anterior ao socialismo. As relações entre a planificação da economia e os diversos tipos de socialismo é lógica e perceptível.

Considerações sobre os pontos elencados

No lado direito do Diagrama de Nolan há o quadrante dos conservadores e o quadrante dos liberais. Os conservadores se definem historicamente por ser contrários à ideologias políticas redentoras, revoluções sanguinárias como métodos eficientes para reestruturar a sociedade e qualquer projeto que intente resolver problemas sociais destruindo pilares da sociedade, tais como a família, a religião e a moral judaico-cristã. A política conservadora é a política da prudência, da forte orientação pelos ensinamentos do passado e das reformas necessárias sempre baseadas na conservação dos pilares sociais.

Uma leitura nos escritos de Edmund Burke, Alexis de Tocqueville, Eric Voegelin, Erik von Kuehnelt-Leddihn, José Ortega Y Gasset, Raymond Aron e Russell Kirk, grandes nomes do conservadorismo, deixam claro esse espírito de prudência e anti utopia presente nessa posição política. Um mergulho em escritos políticos de filósofos cristãos anteriores ao iluminismo também demonstram a inexistência de um ideal de redenção política, já que para a visão judaico-cristã, o mundo sempre terá problemas, a redenção plena vem apenas de Deus e o paraíso não será erguido por nós. É nesta visão judaico-cristã cética e prudente em relação ao ser humano e o mundo que o conservadorismo mantém suas raízes. O conservadorismo, em suma, é a política do possível.

Ante o exposto, parece bastante claro que nazismo e fascismo não se enquadrariam jamais no quadrante conservador do lado direito. Edmund Burke, pai do conservadorismo moderno faria, certamente, as mesmas criticas que fez à Revolução Francesa em relação a esses movimentos que, aliás, descendem de uma mesma tradição de políticas redentoras surgidas no iluminismo. Winston Churchill, primeiro ministro britânico entre os anos de 1940-1945 e 1951-1955, é a maior prova de que, na prática, o conservadorismo rechaçava o nazismo e o fascismo. Um dos maiores nomes do conservadorismo, Churchill lutou vorazmente contra os dois movimentos e como governante se limitou a fazer a política do possível.

O fato de o nazismo e o fascismo terem flertado com algumas (poucas) posições e discursos geralmente defendidas por conservadores não faz desses movimentos conservadores, já que as principais características que definem o conservadorismo político eram rechaçadas pelas duas ideologias. Não só o discurso e as ações propostas, mas o próprio modus operandi do nazismo e do fascismo eram revolucionários. Eram dois movimentos baseados na rebelião das massas, algo típico da Revolução Francesa e das rebeliões socialistas, atitudes nada conservadoras.

Ainda no lado direito, há também os liberais. Historicamente, esse grupo sempre se definiu por ser contra uma forte intervenção do governo na economia. A economia deveria ser o mais livre quanto possível, a fim de gerar maior competição, um dos fatores responsáveis pelo surgimento de mais empregos, melhores produtos e serviços, avanços tecnológicos e maiores salários. Os liberais também perceberam, com o tempo, que governos antiliberais não só atrasavam o desenvolvimento econômico da sociedade, como se tornavam autoritários. Não demorou para que o liberalismo econômico entendesse que quanto mais poder econômico tinha o Estado, mais poder político ele também o tinha. E isso certamente descambaria em tirania estatal. Aliás, todos os projetos redentores de governo propunham exatamente isso: tirania estatal para salvar o mundo. Uma leitura nos escritos de Adam Smith, Frederic Bastiat, Carl Menger, Eugen Von Bohn Bawerk, Ludwig Von Mises e Friedrich Hayek, grandes nomes do liberalismo econômico, demonstra como esta corrente sempre defendeu um estado pequeno e uma economia livre.

Então, fica claro que também é impossível incluir o nazismo e o fascismo no quadrante liberal da direita, já que esses regimes eram absolutamente contrários ao livre mercado e um Estado pequeno. Todo o pensamento nazista e fascista está baseado em um altíssimo grau de controle estatal da economia e da sociedade, e na visão de que o capitalismo liberal é o grande mal do mundo. Mises e Hayek, que viveram à época do nazismo e do fascismo, destacaram o antliberalismo desses movimentos e como esse tipo de política econômica altamente interventora sempre gera autoritarismo e despotismo políticos.

O fato de, vez ou outra, o nazismo e o fascismo terem se utilizado de algumas decisões mais liberais não torna esses movimentos liberais, já que no quadro geral a economia não tem liberdade. Governos intervencionistas usam um pouco de pragmatismo econômico sempre que necessário, já que economias planificadas não se sustentam por muito tempo. Uma privatização aqui para reduzir gastos e contar com a melhor organização do setor privado ou uma redução de impostos sobre um setor ali para criar incentivo são atos que podem ser colocados em prática de modo bem controlado, quando for preciso. O próprio Lenin retrocedeu um pouco ao capitalismo após a revolução russa através da NEP (Nova Política Econômica), já que a estatização radical gerou uma crise.

Pequenas concessões à práticas do liberalismo econômico são aceitáveis pelo socialismo quando controláveis. Desde que o poder continue firme nas mãos do estado, não há problema. Daí os novos governos marxistas pós-URSS não mais pregarem a estatização completa da economia e a destruição do empresariado, mas uma sociedade em que o governo “faça justiça social com a ajuda de empresários responsáveis”, o que na prática significa um amplo controle sobre a economia de modo indireto. Na prática, em suma, corporativismo, o mesmo modelo adotado pelo fascismo e pelo nazismo. O fato inescapável é que todos os governos de esquerda são, em maior ou menor grau, corporativistas. E no corporativismo, os mais sórdidos ditadores, políticos e empresários saem ganhando. Só quem perde é o povo.

Ora, se nazismo e fascismo não se encaixam em nenhum dos dois quadrantes da direita, devem se encaixar em algum dos dois quadrantes da esquerda. Bom, há o quadrante comunitário (ou autoritário) e o quadrante liberal/libertário. Os libertários de esquerda são aqueles que se dedicam hoje mais ao discurso de defesa de minorias e questões culturais do que aos discursos econômicos. É a nova esquerda, germinada por autores como Lukacs e Gramsci, e concebida por homens como Marcuse, Adorno e Foucault. É a esquerda que toma o lugar dos comunistas de discurso mais ortodoxo e economicista, passando a focar mais em temas como feminismo, aborto, divórcio, revolução sexual, homossexualidade, liberação das drogas, religiões alternativas, etc. A intenção é moldar a cultura da sociedade, forjar uma aparência de defesa das minorias, da democracia e da liberdade, ganhar apoio popular por meio de jovens libertários e ascender ao poder através de um discurso mais ameno. Quando no poder, colocarão em prática o mesmo tipo de planificação da economia.

Obviamente, por ser um fenômeno mais moderno, nazismo e fascismo não se enquadram nesse grupo. Como também não se enquadra o comunismo leninista, trotskista, stalinista, maoísta e castrista. Nenhum desses regimes se preocupou com aparência democrática, guerra cultural e o discurso de defesa de minorias. O discurso era radical. Lênin, por exemplo, entendia que o poder deveria ser tomado pela força, tão logo uma vanguarda revolucionária se formasse e tivesse condições de empurrar a população nessa direção. Nesses regimes, houve perseguição aberta de judeus, homossexuais e etnias religiosas. O tipo de discurso moldado pela nova esquerda ainda não existia. Ele nasceria a partir do fim dos anos 60 e começo dos anos 70, quando a própria esquerda contestaria a eficácia do modus operandi dos regimes comunistas mais velhos. Assim, todos os movimentos de redenção anteriores, incluindo aí o fascismo e o nazismo, não se enquadram na nova esquerda.

Sobra, por fim, o quadrante comunitário/autoritário do lado esquerdo do diagrama. Os movimentos presentes nesse quadrante se caracterizam pelo viés mais coletivista e radical de seu discurso e ação. Não se fala muito em direitos em individuais, mas sempre na luta coletiva contra o sistema capitalista. O foco não são minorias, mas o povo trabalhador no geral. Essa é a massa a ser defendida pelo discurso. Aqui a mudança não vem pela cultura. A cultura só é realmente importante depois que o partido ascende ao poder, pois o regime controlará a vida cultural. Assim o discurso é mais autoritário e despudorado. A mudança vem pela força, pela ruptura radical com a política e a economia atuais, com um governo que se oponha fisicamente aos que não desejam a mudança. Não há verniz democrático para disfarçar o regime autoritário, nem antes do poder, nem durante. O golpe de força não está descartado como forma de se alcançar o governo absoluto.

Nesse quadrante se encontram os comunismos descritos há pouco: leninista, trotskista, stalinista, maoísta e castrista. Uma frase de Engels sintetiza o tipo de discurso e ação presentes nesse grupo: “A democracia seria inteiramente inútil ao proletariado se não fosse imediatamente empregada para obter toda uma série de medidas que ataquem diretamente a propriedade privada e assegurem a existência do proletariado” [2]. Pois é exatamente nesse quadrante que o nazismo e o fascismo melhor se enquadram. O quadrante revolucionário e abertamente autoritário, que enxerga a sociedade apenas de maneira coletiva, e não procura esconder seus objetivos totalitários. O quadrante da economia extremamente planificada, seja de modo direto ou indireto. O quadrante que vende o discurso utópico de uma sociedade ideal. O quadrante da tradição iluminista de ideologias redentoras, da religião política, da salvação pelo Estado. O quadrante antiliberal e anticonservador por excelência. Esse quadrante está na esquerda e não há como negar isso.

Assim, o nazismo e o fascismo se originam a partir do ninho de projetos diferentes das mais diversas esquerdas para redimir a sociedade do caos. Não há, nesses movimentos, nada realmente basilar que venha da direita. Não há o compromisso conservador com os pilares, com a prudência, com a política do possível. Não há o compromisso liberal econômico com um Estado pequeno e uma economia livre. São projetos absolutamente revolucionários e estatistas. Qualquer comparação destes movimentos com ideias de direita é superficial. Quando, por exemplo, Donald Trump ou governos de países como Polônia, Hungria e República Tcheca tomam decisões pela soberania de seus países (tidas como nacionalistas), não o fazem por alguma ideologia de supremacia étnica ou por uma luta contra o capitalismo mundial. Trata-se apenas de defesa contra políticas diretamente prejudiciais às suas nações. E isso é o que se espera de todos os governantes: que zelem por suas nações. Não há nada de fascista ou nazista nisso.

O conhecimento das origens do fascismo e do nazismo, como já dito na introdução desse texto, nos ajuda na missão de evitar o aparecimento de regimes semelhantes. Fica claro, após essa análise, que os responsáveis pela concepção desses movimentos foram ideais utópicos de sociedade, rebeliões das massas, estatismo, intervencionismo exagerado, etc. Pois são contra essas ideias que devemos lutar. Nazismo e fascismo surgiram das ideias da esquerda. São de esquerda. Embora hoje, felizmente, esquerdistas não defendam esses movimentos, defendem regimes autoritários originados das mesmas bases. Por isso a discussão não é inútil. As ideias não surgem num vácuo. Elas possuem lastro. Elas possuem origem. Devemos estar sempre atentos a isso.

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Referências:

1. Publiquei os seguintes textos sobre o tema:

2. MARX, Karl e ENGELS, Friedrich; tradução de NOGUEIRA, Marcos Aurélio e KONDER, Leandro. Manifesto do Partido Comunista. Petrópolis: Vozes, 2011, p. 101.

20 verdades históricas inconvenientes

Este texto também foi publicado no blog Mundo Analista. Para ler o original, clique aqui.

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Resolvi selecionar 20 verdades históricas inconvenientes. É aquele tipo de verdade que irrita muita gente porque contraria suas ideologias. Essa gente tem o péssimo hábito de tentar moldar à realidade às suas ideologias, em vez do contrário. Talvez por isso, as verdades aqui expostas não sejam muito propagadas. Seus professores de história, geografia, filosofia, sociologia provavelmente não te ensinaram isso, aliás. Então, estou fazendo minha boa ação do dia. Lá vai:

1) Hitler era contrário ao marxismo por uma razão apenas: ele entendia que tal doutrina era um embuste criado por judeus para destruir os Estados nacionais, prostrando o mundo todo diante do que ele chamava de Capitalismo Internacional Judaico. Para Hitler, o verdadeiro socialismo não poderia se desfazer do conceito de nação ou de raça. Isso valia não só para a Alemanha. Ele elogiava o regime fascista italiano por valorizar seu próprio povo.

Tanto Hitler como Mussolini fizeram o mesmo que Stalin: perceberam a força do sentimento de nação para agregamento social e do próprio conceito nacional para melhor administração da sociedade. Ademais, seria muito mais fácil fazer uma nação grande e por meio dela conquistar o mundo todo, do que tentar dominar o mundo todo sem uma nação central que conduzisse o processo.

Friedrich Hayek (Nobel em Economia em 1974) já explicava, do ponto de vista econômico, nos anos 40, que o socialismo internacionalista tende a se tornar nacionalista depois que se instaura. Essa tendência só irá mudar um pouco na história com a introdução do conceito de multiculturalismo na politica e a infiltração do progressismo na ONU, os quais habilitaram a mesma a se tornar uma entidade promotora do enfraquecimento dos Estados nacionais. O projeto nacionalista e o internacionalista de domínio mundial só se diferem na estrategia utilizada. A finalidade é a mesma: a promoção de um órgão central que controle o mundo todo.

2) Benito Mussolini foi, durante boa parte da vida, um marxista ortodoxo. Escreveu para jornais socialistas e foi integrante do Partido Socialista Italiano (PSI). Começou a se afastar da ortodoxia marxista ao perceber que a guerra imperialista poderia ser interessante para os propósitos socialistas. Influenciado por doutrinas de esquerda heterodoxas, como o sindicalismo de Georges Sorrel, percebeu que combater o conceito de nação era contraproducente e que algumas ideias populares, ainda que míticas, poderiam ser servir de força motriz para movimentar as massas. Usando de pragmatismo, também percebeu que o Estado jamais seria derrubado e que o capitalismo, em vez de destruído, poderia ser controlado pelo governo, o que era muito mais viável. Assim, surgiu o fascismo italiano.

3) Nazismo e fascismo foram movimentos antiliberais (em economia) e progressistas (em política) desde sua origem e não é de hoje que intelectuais de renome perceberam as relações íntimas entre esses dois movimentos e o socialismo marxista. Dentre mais antigos e mais novos autores, podemos citar autores do calibre de Ludwig von Mises, Eric Voegelin, Murray Rothbard, Friedrich Hayek, Hannah Arendt, Ernest Nolte, Joachim Fest, Anthony James Gregor, Helmut Fleicher, Klaus Hildebrand, Andreas Hillgruber, Rainer Zitelmann, Hagen Schulze, Thomas Nipperdey, Imanuel Geiss, Robert Gellately, Richard Overy, Jonah Goldberg, Erik Norling, Zeev Sternhell, Mario Sznajder, Maia Asheri, Erwin Robertson e etc.

4) Winston Churchill (primeiro ministro britânico entre os anos de 1940-1945 e 1951-1955) foi um dos maiores conservadores políticos do mundo. E também foi um dos mais ferrenhos opositores ao fascismo e o nazismo.

5) Marx e Engels defendiam o armamento do proletariado para derrubar a burguesia. Após chegarem ao poder, os ditadores marxistas se empenharam em desarmar seus povos. O regime militar no Brasil não desarmou a população.

6) O islamismo já surgiu, nos anos 600, como uma religião de guerra, que prevê o domínio mundial por meios bélicos. Se difere em sua raiz, portanto, do cristianismo, que surgiu e se expandiu como um movimento pacifico, e também do judaísmo, que surgiu num contexto histórico de guerras, porém jamais teve pretensões de dominação mundial e imposição de sua teocracia em todos os países. O que o islamismo faz hoje através de seus governos teocráticos e seus grupos extremistas é apenas continuação do que se iniciou nos anos 600. Toda a historia do islamismo, desde o inicio, é uma historia dr invasões e dominações.

7) A escravidão foi comum no mundo inteiro por milênios e, na maior parte desses milênios nada tinha a ver com cor de pele. Foram os princípios judaico-cristãos que começaram a humanizar gradualmente os escravos ao longo dos séculos até chegar o momento em que vários setores da sociedade começaram a clamar pelo fim da prática. Em geral, os países que mais tempo praticaram a escravidão foram os não-cristãos. Quando os europeus iniciaram expedições marítimas, tribos africanas que mantinham a prática em voga passaram a vender seus escravos de guerra aos navegantes da Europa. O resultado foi o incremento da escravidão em terras cristãs. E, uma vez que esses escravos comercializados eram negros, tornou comum no ocidente identificar escravidão à etnia africana e a cor negra. O racismo surge por conta disso e é algo novo na história do mundo.

8) O cristianismo foi o grande responsável pelo avanço da ciência e da filosofia no mundo, pois popularizou o pressuposto de que um Deus racional criou leis fixas pelas quais a natureza funciona. Não fosse pelo cristianismo, o mundo provavelmente permaneceria trilhando pelas crendices politeístas irracionais, nas quais elementos da natureza como o sol, a lua, a chuva, os mares e etc. eram deuses ou atendiam aos desejos arbitrários de deuses. Lembre-se que Sócrates procurou estabelecer o mesmo pressuposto séculos antes e acabou sendo condenado. O mundo pagão não era muito racional.

9) O Brasil não passou apenas pelo golpe de 1964. Antes dele houve o golpe de 1937, dado por Getúlio Vargas, que se tornou um ditador, implementou censura, criou um Estado policial e perseguiu opositores. Antes ainda, houve o golpe militar de 1889, que derrubou a monarquia de maneira de maneira ilegítima, inciando uma república instável, corrupta e repleta de microgolpes. A República brasileira, desde sua concepção, é ilegítima.

10) Em 1964, a maioria dos grupos políticos, tanto de direita, quanto de esquerda, não tinham muito apreço pela resolução dos problemas dentro da normalidade instituicional. Seguindo a cultura brasileira de golpes e autoritarismo que nasceu com a República, os grupos que se opunham apenas esperavam uma brecha para implementar seu próprio projeto autoritário de governo. Em um contexto de plena guerra fria, a URSS tinha claro interesse em transformar o Brasil num país comunista (o maior das Américas), bem como os EUA tinham o claro interesse em não permitir isso. Os militares que forçaram a saída de João Goulart em 1964 impediram um muito possível e provável avanço dos comunistas neste projeto de poder. Mas também iniciaram um regime militar desnecessário e que traiu muitos dos que apoiaram a intervenção como solução cirúrgica.

11) Apesar de ter sido autoritário, o regime militar não possuiu características plenas de ditadura. Seu modelo foi um híbrido entre democracia e ditadura, um tanto brando quando comparado às ditaduras comunistas e à ditaduras mais à direita, como a chilena, de Pinochet. Não houve um ditador supremo, mas cinco presidentes, cada qual cumprindo o seu mandato. Cada um dos cinco possuía visões distintas, sendo dois de linha dura e três favoráveis à reabertura democrática. Os dois últimos deram contribuições para desmanchar o regime. Havia dois partidos: o do governo (ARENA) e o da oposição (MDB). Por algum tempo, houve eleições para governadores e foi comum o partido de oposição ao governo vencer. O governo não recolheu as armas dos cidadãos. O número de mortos pelo regime, durante 21 anos, gira em torno de 500 pessoas, das quais boa parte era composta de terroristas com projetos totalitários de poder.

12) Os regimes comunistas mataram, juntos, cerca de 100 milhões de pessoas durante o século XX, o que é amplamente reconhecido e documentado. Alguns países do Leste Europeu consideram os regimes comunistas tão totalitários e terríveis quantos os regimes fascistas e nazistas.

13) Há diversos fatos históricos comprovados sobre Jesus. Ele realmente existiu, foi um judeu, foi condenado a uma cruz, sua tumba foi encontrada vazia, diversas pessoas alegaram tê-lo visto, os primeiros cristãos acreditavam na ressurreição e os mártires cristãos morreram afirmando serem testemunhas do que pregavam. Tais fatos são históricos porque passam pelos testes comumente de historicidade comumente utilizados pelos historiadores, tais como: multiplicidade de fontes, multiplicidade e antiguidade de manuscritos, relatos com contextos detalhados, relatos que causaram prejuízos aos seus autores, comprovação em fontes não cristãs, comprovação de fontes inimigas, etc.

14) O Novo Testamento é o livro que mais possui documentos manuscritos antigos no mundo. São cerca de 5700 cópias. O segundo lugar pertence à obra Iliada, de Homero: cerca de 640 cópias. O Antigo Testamento possui cópias antigas preservadas que datam de até 300 anos antes de Cristo, bem como alguns fragmentos mais antigos. O que lemos em nossas Bíblias hoje é a mesma mensagem que os judeus liam no primeiro século (e antes, no caso do Antigo Testamento).

15) Os primeiros cristãos eram judeus e conversos gentios ao judaísmo que frequentavam sinagogas aos sábados e mantinham diversos hábitos judaicos. Pelo menos nas primeiras quatro décadas após a morte de Jesus, o cristianismo não era encarado como uma religião diferente, mas como uma vertente do judaísmo. O panorama mudou gradualmente e as primeiras separações mais sérias e evidentes ocorreram após o ano 70 d.C.

16) A Revolução Francesa matou cerca de 50 mil pessoas por repressão só entre os anos de 1793 e 1794, no chamado Período do Terror. Após muito sangue derramado, perversões públicas e instabilidade política, durante uma década, a Revolução terminou com a subida de Napoleão Bonaparte ao poder, muito mais poderoso do que os tradicionais absolutistas. A Revolução Francesa deu em nada, no fim das contas.

17) O capitalismo trouxe ao mundo uma riqueza jamais vista nos séculos passados, fazendo com que tanto pobres quanto ricos em diversas partes do mundo tivessem acesso aos mesmos produtos (embora os produtos dos ricos sejam melhores). Assim, podemos ver ricos e pobres com computador, internet, televisão, rádio, celular, chuveiro quente, água encanada, microondas, liquidificador, carro e, principalmente, alimento. Os níveis de miséria se reduziram drasticamente com o advento do capitalismo. E se ela persiste ainda hoje é justamente porque há lugares em que simplesmente não há capitalismo.

18) Os maiores capitalistas do mundo geralmente são anticapitalistas. Muitos deles alcançaram o lugar onde estão através não do livre mercado, mas de conchavos com o governo. Outros gozaram realmente do livre mercado e de suas capacidades empreendedoras, mas ao chegarem no topo, perceberam que não é mais conveniente defender essa liberdade econômica (pelo menos não para todos). Afinal, se eles chegaram ao topo, alguém pode chegar também e tirá-los de lá. Assim, esses bilionários frequentemente se convertem em “metacapitalistas”, homens que desejam Estados fortes, que controlem a economia e o mantenha no topo. Alguns desses, como George Soros, vão mais além, abraçando ideologias de esquerda e promovendo-as através de seus investimentos.

19) O primeiro movimento feminista, chamado também de primeira onda, era composto por muitas mulheres religiosas e conservadoras. Elas lutavam contra abusos e desejavam dignidade civil/humana. Aos poucos, o secularismo e o progressismo foi tomando conta do movimento e deixando de atender aos interesses de todas as mulheres, tornando-se meramente um braço da esquerda. Hoje o feminismo se converteu em uma caricatura feia e distorcida do que já foi e só mostra interesse em defender pautas de esquerda e mulheres de esquerda.

20) Não há evidência histórica de que o ser humano pode construir um paraíso na terra, varrendo toda imperfeição do interior dos seres humanos. Em milênios de história, a humanidade testemunhou uma constante e incessante imperfeição mundial e tudo permanece igual nos dias de hoje. A crença de que o progresso tecnológico, a razão e a aquisição de conhecimentos trariam também um progresso moral e um mundo cada vez mais perfeito continua a ser refutada todos os dias. Não há relação entre progresso científico, filosófico e tecnológico com o progresso moral. E se todos permanecem fadados à imperfeição, crer que imperfeitos trarão a perfeição é como crer em Papai Noel.

Guia Prático para a Esquerda alcançar o Poder Totalitário

Este texto foi publicado originalmente no blog “Mundo Analista“. Para ler no original, clique aqui

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Você é marxista, mas está frustrado porque precisa fingir ser democrático? Está irritado e triste porque não vê mais maneira de instaurar a ditadura do proletariado? Percebeu que seu sonho de ver conservadores e burgueses um dia fuzilados está indo por água abaixo? Seus problemas acabaram!!! Aqui vai o “Guia Prático para a Esquerda alcançar o poder totalitário”. São 30 passos para você colocar seu partido no poder e instalar uma ditadura sem ser taxado de ditador e golpista. Vamos acompanhar.

(1) Encha as faculdades de professores marxistas e os instrua a enfiar ideias de esquerda no meio de suas aulas, mesmo que não tenha nada a ver. Com isso, as faculdades formarão militantes esquerdistas. Eles virarão advogados, juízes, jornalistas, sociólogos, psicólogos, filósofos, cineastas e artistas de esquerda, e começarão a ocupar outros lugares importantes, tornando-se influentes na sociedade. No meio de todos esses, a faculdade também estará formando professores! Esses professores continuarão o ciclo de doutrinação de alunos, muitos agora sem nem perceberem. Em pouco tempo, tanto nas faculdades, quanto nas escolas, os professores serão majoritariamente de esquerda.

(2) Modere seu discurso e procure apoio de grandes empresas e de algum grande partido. “Ah, mas eu estarei mentindo…”. Dane-se! Você não quer o poder totalitário? Vale tudo! Tudo pela revolução. Os fins justificam os meios. O partido é o novo Príncipe, de Maquiavel. Com apoio de um grande partido e grandes empresas, seu partido terá dinheiro para fazer campanha e votos. Ficará fácil ganhar a eleição. E lembre-se: você encheu faculdades de marxista. Os intelectuais formados ali e espalhados em vários lugares de influência te darão apoio e farão você ter uma boa imagem para a sociedade.

(3) Chegou ao poder? Trate de agradar os empresários e o partido que te ajudaram a chegar lá. É sua parte no acordo e você precisa gerar confiança. Mas não se acomode. Há um totalitarismo à conquistar.

(4) Para não parecer elitista e também para conseguir a confiança do povo, invista em programas sociais. Se já existem, renomeie cada um deles, injete mais grana e diga que foi seu partido que os criou. Não se preocupe com questões supérfluas como: “De onde tirarei o dinheiro?”. Se a economia estiver boa, dá para engordar esses programas por um bom tempo. Se não estiver boa, aumente impostos, mande imprimir mais dinheiro, pegue empréstimos com bancos privados, pedale com os bancos públicos, enfim… Há muitas maneiras de se conseguir dinheiro. Não se preocupe se todas essas maneiras vão destruir a nação, causando inflação, quebradeira nas empresas, desemprego e etc. O importante é ter o dinheiro para manter os programas sociais. Isso garante voto e será usado pelos intelectuais que você criou para defender o partido. O que ocorrer de ruim com a economia por sua culpa, você transfere a culpa para o governo anterior, ou para o sistema capitalista, ou para alguma crise global. As crises são suas amigas, não se esqueça.

(5) Mantenha altos os impostos, as burocracias e as regulamentações por parte do governo. Quanto mais você puder asfixiar o setor privado, melhor. Onde você puder colocar a mão do Estado, coloque. É claro que nesse cenário só as empresas grandes sobreviverão. Não há problema. São essas empresas grandes que você vai procurar agradar por um tempo para conseguir apoio. Concomitantemente, são elas que os intelectuais à favor do partido vão culpar por todas as desgraças do país, como se o governo não tivesse qualquer participação. Dificultar a livre concorrência com altos impostos, burocracias e regulamentações é perfeito para impedir o desenvolvimento pleno do capitalismo e, ao mesmo tempo, culpar o próprio capitalismo, fortalecendo o discurso de que o governo precisa intervir ainda mais na economia. Cria-se aqui um ciclo. Quanto mais você intervir, mais problemas causará. E quanto mais problemas causar, mais poderá culpar o capitalismo e vender a ideia de que precisa intervir mais. Mantenha esse ciclo vivo sempre e o caminho do totalitarismo será inevitável.

(6) Não tenha escrúpulos se precisar agraciar algumas grandes empresas “amigas” do governo com empréstimos à baixos juros, isenções fiscais, licitações fraudadas e obras superfaturadas. Lembre-se que em todas essas manobras o seu partido sairá ganhando, pois terá mais dinheiro e apoio.

(7) Utilize as empresas estatais para desviar verbas, distribuir cargos dos altos escalões para pessoas de confiança do partido, lotar os baixos escalões de militantes, sugar mais dinheiro de impostos do povo e consolidar a cultura do “meu sonho é passar num concurso para ser funcionário público”. Tudo isso é muito importante. Com o aparelhamento das empresas estatais ao partido é possível criar os mais diversos esquemas de desvio de verbas, o que facilitará o financiamento das eleições do partido e a expansão de suas atividades legais e ilegais. Lembre-se: dinheiro é muito importante. Sem ele, o partido não poderá comprar o povo pobre, nem empresários, nem parlamentares, nem artistas, nem ninguém.

(8) Compre parlamentares sempre que necessário. Se uma lei importante precisa ser aprovada e tem gente indecisa no plenário, compre. Não hesite. Há um monte de políticos oportunistas só esperando quem irá pagá-los mais. Você pode pagar com dinheiros ou outros benefícios. Veja o que será melhor conveniente em cada caso. O importante é conseguir o voto dele e aprovar as leis que você precisa para chegar ao totalitarismo.

(9) Escolha bem os juizes da Suprema Corte do país, bem como os ministros e mais quem comporá cada órgão. Os escolhidos devem ser pessoas leais à cleptocracia do partido. São eles que darão status legal à tudo o que o partido quiser fazer. Os juízes, no entanto, devem fazê-lo de modo a não comprometer a imagem de imparciais. Deve-se lembrar ainda que nem sempre o partido poderá ser salvo por esses juízes, ou porque ficaria muito na pinta em determinadas circunstâncias, ou porque a pressão popular seria grande, ou porque a Corte ainda não está tomada inteiramente por juízes do sistema, o que impede uma maior liberdade. Por isso, é preciso cautela.

(10) Financie projetos de artistas, sobretudo se forem de esquerda. Isso colocará boa parte da classe artística à favor do governo. E o seu exército de intelectuais de esquerda (já produzidos pela faculdade) farão a sociedade achar que não se trata de uma moeda de troca, mas de “incentivo à cultura e à arte”, o que soa muito importante. Coloque na cabeça das pessoas o mito de que a cultura e a arte não sobrevivem sozinhas se não tiverem incentivo do governo, que o Estado é essencial para que haja vida cultural no país, que quem se opõem a esses incentivos está querendo destruir a cultura, a arte e os artistas. Não negligencie esse ponto. O apoio dos artistas é essencial para ganhar as massas e fazer circular projetos de orientação esquerdista, sejam filmes, peças, séries, seriados, telenovelas, livros, músicas ou o que for.

(11) Crie uma forte campanha para desarmar a população, utilizando um discurso de que a violência no país se dá porque o povo tem acesso às armas. Desarmar a população é essencial para alcançar o poder totalitário no futuro sem grandes problemas. Uma população armada poderia se revoltar contra o governo e gerar uma luta sangrenta contra a ditadura. Não seria algo interessante para o partido. Então, armas só nas mãos da polícia, ok? Se não for possível desarmar por completo, crie o máximo de dificuldade possível. Não se preocupe com o fato de que os bandidos continuarão armados. Os bandidos não te causarão problemas. Eles estão pouco se lixando para política. A intenção é desarmar a população honesta mesmo.

(12) Só a polícia tem acesso às armas? Ótimo. O próximo passo é centralizar as polícias nas mãos do poder federal. Do que adianta, por exemplo, tirar as armas do povo, mas ter polícias independentes em cada Estado-Membro da União? Totalitarismo é o oposto a isso. Significa poder total nas mãos do Estado. Essa independência militar dos diferentes estados e regiões que compõem uma nação não pode existir. Isso tornaria muito difícil a tomada de decisões autoritárias por parte do governo federal. Crie um discurso de unificação das polícias e da criação de uma grande força nacional. A ideia vai colar bem se você defender isso alegando desejar uma maior organização e humanização da polícia. Se conseguir esse feito, toda a polícia do país estará nas mãos do partido.

(13) Fomente a indisciplina e a falta de limites no ensino básico e fundamental. Crianças e adolescentes precisam crescer sem limites, abusados, inconsequentes. Qualquer disciplina deve ser gradualmente considerada opressora. Os intelectuais de esquerda formados pelas faculdades ajudarão nisso, no âmbito da cultura. A ideia é que os estudantes sejam insubmissos à autoridade, amantes dos prazeres e pouco inteligentes. Isso os fará uma boa massa de manobra e enfraquecerá o conservadorismo. Os que escaparem ao emburrecimento, poderão ser doutrinados por professores marxistas ainda no ensino fundamental e/ou na faculdade.

(14) Crie projetos de lei para incluir educação sexual no curriculo escolar de crianças e adolescentes. Essa é uma das táticas importantes para enfraquecer o conservadorismo, o cristianismo, a moral judaico-cristã e a família tradicional – historicamente pedras no sapato do socialismo. Quanto mais devassos você conseguir transformar os jovens, menos resistência haverá na sociedade aos projetos do seu partido. Por esta causa, explore a imagem de o socialismo e o seu partido serem à favor da liberdade sexual.

(15) Espalhe, através de seu exército de intelectuais, a devassidão pela cultura. E faça o que for possível para fortalecer isso. Usar recursos públicos para esse tipo de coisa é belo e moral (para a causa do partido, claro).

(16) Fomente conflitos e problemas que possam ser usados para culpar o capitalismo, o conservadorismo, o cristianismo e os valores judaico-cristãos. A criminalidade, o racismo, a homofobia, a intolerância, enfim, tudo isso pode ser fomentado e depois colocado na conta da direita, do “neoliberalismo”, da religião cristã e etc. Você pode e deve criar um caos na sociedade. O seu exército de intelectuais vai criar uma teia de explicações que culpará seus inimigos.

(17) Para garantir as eleições (caso a doutrinação da população demore ainda algumas décadas e os problemas econômicos coloque o povo insatisfeito com o governo), procure manter um sistema de urnas eletrônicas que possam ser facilmente fraudáveis. É óbvio que não será possível fraudar todas, mas sempre é possível fraudar algumas. Isso poderá ser muito útil.

(18) Crie projetos de lei que pretendam regular a mídia e a internet. Para esses proejtos fugirem ao rótulo de “censura”, use o termo “democratização”. Diga que a intenção dessas leis é impedir abusos de grandes grupos de comunicação e o ódio de indivíduos “fundamentalistas”. É claro que a intenção real é fazer uma censura velada à opiniões, comentários, análises e notícias que possam ser muito prejudiciais ao governo.

(19) Financie com dinheiro público blogs, sites e revistas impressas que sejam favoráveis ao governo. Não hesite. Meta a mão na grana e gaste muito nisso, pois esses meios servirão de propaganda para o partido, mas com status e aparência de veículos sérios de informação. Encha a internet desse tipo de jornalismo.

(20) Não foque apenas nos meios de comunicação favoráveis ao governo. Uma forma de amenizar as críticas de meios de comunicação adversários é enchê-los de publicidade estatal. Seus proprietários, acionistas e mesmo editores-chefes tenderão a não pegar muito pesado. Mas se o dinheiro estatal não impedir muito as críticas, você ainda tem uma carta na manga: tirar o dinheiro. A redução de publicidade fará os meios de comunicação perceberem que o governo não gostou da postura, o que os impulsionará a pegarem mais leve. Relembro: dinheiro é muito importante.

(21) Aumente o número de cargos comissionados e pessoal de gabinete com militantes do partido. Dobre ou até triplique o número se for possível. Quanto mais inchado de militantes o Estado tiver, melhor. Isso dará substância e verba ao partido, servirá de moeda de troca e agradará os amigos.

(22) Depois de ter se esbaldado com dinheiro de empresários e eleito uma enorme bancada de parlamentares, se coloque favorável a uma lei que vete doação de empresas à campanhas. A ideia é aumentar o fundo público partidário. O maior beneficiário será seu partido, que já possui ampla bancada e receberá mais. Os partidos menores terão menos e sem poder contar com dinheiro de empresas, terão dificuldade de eleger parlamentares.

(23) Crie e mantenha financeiramente organizações que apoiam a esquerda, ou cooptar organizações já existentes para a esquerda, sejam elas ONGs, sindicatos trabalhistas, união geral de estudantes, movimentos feministas, movimentos LGBT e etc. A ideia é alimentar essas organizações, fazê-los aceitar a agenda do seu partido e criar uma rede fiel de organizações que aparentam lutar pelos interesses das minorias.

(24) Apoie tudo o que possa ir contra a moral judaico-cristã, o capitalismo, o conservadorismo, a família tradicional, o cristianismo ou os EUA. Pode ser ditaduras islâmicas, ditaduras comunistas, narcotraficantes, terroristas, multiculturalismo, relativismo moral, relativismo da verdade, vandalismo pró-socialismo, aborto, promiscuidade, sexualização de crianças e adolescentes, casamento gay, casamento poliamoroso, pedofilia, zoofilia, enfim, tudo. Não importa o quão contraditórias todas essas coisas juntas possam ser.

(25) Invista no politicamente correto e no policiamento ideológico. Tudo o que for ruim para o partido, chame de retrógrado, fundamentalista, intolerante, preconceituoso, discriminador, fascista, machista, desumano e etc. Policie a linguagem das pessoas, crie proibições sobre alguns termos e imponha os próprios chavões do partido e da esquerda. Sobretudo, mantenha-se senhor das definições e dos rótulos, a fim de que você ganhe as discussões na base dos termos e não dos conteúdos.

(26) Invista nas faculdades. Não no sentido de tornar o ensino melhor. Até porque, para isso, seria necessário investir primeiro nos ensinos básico, fundamental e médio. Invista nas faculdades no sentido de aumentar a oferta de vagas e facilitar a entrada de pessoas lá. As faculdades são grandes centros de doutrinação. Quanto mais universitário tiver, melhor. Vão sair todos militantes ou, no mínimo, simpatizantes do partido.

(27) Enfie um monte de livros enviesados na grade curricular das escolas e colégios. Quanto mais livros contiverem uma visão favorável à esquerda e ao marxismo, e antipática ao capitalismo, aos EUA e ao conservadorismo, melhor. O sistema de educação deve estar todo enviesado. Ele deve se tornar uma máquina de emburrecimento e doutrinação. Quem escapar do emburrecimento puro e simples, não escapará à doutrinação. Só há duas metas que a educação deve ter: criar massa burra de manobra e criar intelectuais militantes.

(28) Infiltre marxismo no interior das religiões, mas principalmente do cristianismo. Crie vertentes teológicas dentro do cristianismo que sirvam de braços para a esquerda, que possam influenciar e cooptar cristãos sem que eles precisem sair de suas religiões. A ideia é alcançar aqueles que não desejam se tornar ateus ou deixar crer em Cristo. Desde que o cristianismo deles esteja repleto de marxismo, secularismo e sincretismo, não há problema nisso. É até melhor, pois eles poderão influenciar cristãos dentro de suas igrejas com um discurso de que marxismo e cristianismo não se excluem, ao contrário, se complementam.

(29) Não permitam que associem a imagem do partido e da esquerda ao ateísmo. Embora o marxismo ortodoxo seja ateísta, a história deixou claro que tentar extirpar a religião do povo não dá certo. Então, a ideia é apresentar o partido e a esquerda como favoráveis à tolerância religiosa. É claro que essa tolerância não inclui o cristianismo verdadeiro. Mas isso não precisa ser dito. Para tanto, procure, através do exército de intelectuais de esquerda, incentivar o conhecimento e a tolerância às religiões africanas e tribais, ao budismo, ao hinduismo, às variadas formas de exoterismo e etc. Aos mais céticos, aí sim, sirva ateísmo (de preferência, ateísmo militante – neoateísmo). E aos cristãos que não vão deixar o cristianismo de forma alguma, sirva, como já dito, formas marxistas de cristianismo. Assim resolvemos o problema das religiões.

(30) Legal. Você chegou até aqui. Ocupou faculdades e escolas; doutrinou alunos; fomentou rebeldia e burrice; formou militantes esquerdistas e espalhou-os pela sociedade; subiu ao poder com apoio e financiamento de empresários; aparelhou as estatais; comprou o povo com populismo; comprou empresários com esquemas de corrupção; comprou parlamentares; comprou artistas; comprou parte da mídia; invadiu as religiões; fortaleceu conflitos, dividindo a sociedade; criou censura velada; desarmou a população; centralizou as polícias; garantiu um sistema eleitoral manipulável; expandiu a intervenção do Estado; colocou a culpa de todo o mal em seus inimigos. Neste ponto, você está pronto para dar o golpe final e instaurar o totalitarismo pleno. O Estado e a sociedade estão nas suas mãos. Abrir-se-ão três opções:

A) Você pode começar a se voltar contra os empresários que te ajudaram. Eles não são coitados, claro. Eles te ajudaram para obter benefícios e iriam te descartar no momento em que as crises causadas pelo seu partido começassem a afetá-los. Como um bom político estrategista, você os larga antes de eles te largarem. Iniciará um discurso firme contra o capitalismo e usará seus poderes despóticos para expropriar as empresas e bens deles;

B) Você pode resolver parar onde chegou, percebendo que estatizar tudo não dará certo e que é possível engambelar os seus amigos empresários (ou engambelar o povo), mantendo um poder totalitário de caráter corporativista. Aqui o populismo continua e o sistema permanecerá até que abe o dinheiro da população;

C) Você pode perceber que estatizar tudo não dará certo, que as crises causadas pelo seu governo irão destruir a nação e te tirar do poder, e que, portanto, é melhor fazer algumas reformas pontuais, liberalizando um pouco o mercado para que o país respire, mas sem tirar muito a mão do Estado, mantendo um corporativismo mais ameno.

Se escolher as opções (B) ou (C) você não deixa de ser esquerdista. Não se preocupe. Às vezes temos uma meta e depois descobrimos que ela não é possível ou viável. Acontece. Não se ache um farsante.

Mas talvez você tenha seguido todos esses passos desde o início por puro interesse em poder. Ou ainda: talvez você tenha inciado a trajetória realmente querendo mudar o mundo para melhor, mas acabou mudando de ideia no caminho, percebendo que ter poder é um bem em si mesmo e que você gostou do sistema incompleto que criou. Neste caso, também não precisa se preocupar. Lembre-se que nesse processo todo você abriu mão da moral, colocou-se acima do bem e do mal. Sendo assim, não há do que culpar. Você é tão inescrupuloso quanto qualquer político oportunista. Já que Deus não existe (segundo a ótica marxista), nem a moral, nem nada, aproveite a vida. Mantenha o poder, compre tudo do bom e do melhor e, quando precisar aliviar a consciência (essa coisa chata que insiste em nos atormentar), lembre a ela que você ajudou muitas famílias com populismo. E minta descaradamente para si mesmo. Não é difícil. Você mentiu a vida inteira para todos. Poderá mentir para você mesmo sem maiores dificuldades.

O conservador, a prudência e a reforma agrária

Texto publicado também no blog “Mundo Analista“. Para ler por lá, clique aqui.

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Uma das maiores virtudes do conservador político é a prudência. Ser prudente, entre outras coisas, é ver além do óbvio, além do aqui e agora; é avaliar os possíveis desdobramentos de uma ação antes de realizá-la, usando a lógica, a moral e experiência.

Para exemplificar, vamos pegar um tema concreto. Reforma Agrária. Quando eu era pequeno ouvia falar nessa reforma com muitos louvores. E, nos meios universitários, isso é visto como inquestionavelmente bom. A ideia, como vocês sabem, é expropriar (arrancar, tirar) terras de grandes latifundiários para redistribuir aos sem terra e pessoas pobres. Se haverá indenização ao latifundiário por parte do Estado, não importa para esta definição, pois a medida não deixa de ser expropriação e uma imposição por parte do Estado. Na cabeça de quem defende, três atos de justiça: punir o rico, ajudar o pobre e criar igualdade.

Para o conservador, essa ideia é absurda. Por quê?

Em primeiro lugar, ela é um roubo. Ser rico e ter muitas terras não é um crime. A não ser que se prove que aquela pessoa enriqueceu ilicitamente.

Apelar para o passado não adianta aqui. Não podemos punir alguém hoje por erros cometidos por seus antepassados. Isso implicaria ter de investigar minuciosamente a vida dos antepassados de cada indivíduo da sociedade para saber se houve alguma injustiça que gerou favorecimento para a pessoa.

Essa investigação teria de alcançar todas as gerações até os primórdios do mundo e precisaria lidar com dificuldades de deslocamentos entre nações e continentes. Impossível, claro. Mas, mesmo que isso fosse possível, resultaria em ter de colocar funcionários do governo para entrar nas casas de todo o tipo de pessoa para arrancar bens, o que não incluiria só ricos, mas qualquer que tenha um benefício advindo de uma injustiça cometida por um antepassado. Será que todos estariam dispostos a isso?

Ademais, a ideia ainda esbarra na questão da culpa: que culpa um indivíduo tem dos erros cometidos por seus antepassados?

Então, não, não se pode fazer esse acerto de contas retroativo. O que vale é o que cada pessoa faz em sua própria vida. Isso nos leva a concluir que expropriar as terras de um rico só porque ele é rico é roubo. E, obviamente, qualquer rico tem direito de achar isso ruim e errado.

Em segundo lugar, mesmo que aceitemos, à título de argumentação, que é justificável roubar ricos para ajudar pobres, que o ato é válido porque visa o bem maior da igualdade social, pense nas implicações disso. Dar a um governo e ao Estado o poder de tomar propriedades de uns para dar a outros é algo muito perigoso. Um governo e um Estado que podem expropriar terras podem fazer qualquer coisa. Esse poder absurdamente grande escancara  portas para outras ações autoritárias como a expropriação de lojas, fábricas, empresas em geral, casas, prédios, poupança bancária, móveis e bens. Escancara portas também para prisões arbitrárias, perseguição à dissidentes do governo, cassação dos mandatos de políticos opositores e o uso crescente das forças policiais e militares para reprimir o cidadão. E se tudo isso se origina de uma luta pelo bem comum, e por isso é legitimado, o governo terá prerrogativa para fazer o que julgar necessário para alcançar esse bem.

Daí decorre que o governo poderá intervir em diversos aspectos da economia e da vida individual, a fim de acabar com desigualdades e garantir a manutenção das reformas (bem como estendê-las). Ações como aumentar impostos de grandes empresas, proibir demissões, impor admissões, tabelar preços são algumas das políticas que serão usadas. E quando isso acabar falindo diversas empresas, aumentar os impostos de todos os cidadãos para ajudar as empresas em apuros será a regra, claro.

Aqui é interessante ressaltar: quando é dado ao governo o poder de expropriar terras pelo bem comum, ele poderá expropriar o que achar necessário e de quem achar necessário. Isso inclui também os pobres. O governo poderá fazer isso através de aumento dos impostos (e vai fazer) ou de maneira direta, quando um pobre estiver, de algum modo, atrapalhando seus planos. E na medida em que a economia entrar em colapso, o número de ricos diminuir e o número de pobres aumentar, só sobrará mesmo os pobres para expropriar. Em suma, se o governo antes tirava dos ricos para dar aos pobres, agora tirará dos pobres para dar a alguns ricos, a fim de salvar a economia.

Em terceiro lugar, há que se diferenciar governo de Estado. O governo é formado pelo conjunto de governantes de uma determinada época e lugar. O Estado é formado pelo corpo de leis que, além de delimitar uma sociedade, prescreve os direitos e deveres dos governantes e governados da mesma sociedade. Ora, os governos mudam na medida em que mudam os governantes. Mas o Estado pode permanecer o mesmo por décadas, séculos, milênios. Por que é importante saber disso? Porque ainda que um governo conduza a reforma agrária (ou alguma outra reforma de cunho totalitário) e não se torne tão poderoso e opressor como descrevi, esse governo um dia será substituído. Sobretudo se for um governo democrático de um Estado democrático, onde há constante troca de governantes. Então, quando um governo dá ao Estado qualquer poder, não está dando poder apenas para si, mas para governos que virão; está criando um sistema novo, que poderá ser usado de maneira mais intensa e extrema por governos futuros.

Em quarto lugar, um governo que aumente seu poder dessa maneira inevitavelmente viverá com medo de levantes, revoltas e oposição. Isso o conduzirá a criar um estado policial e a restringir a liberdade de seus cidadãos (pobres e ricos). Algumas dessas restrições provavelmente serão: desarmamento da população, imposição do ensino formal às crianças, proibição de saída do país e, no futuro, proibição de greves e manifestações. Uma característica interessante do totalitarismo é que ele só pode ser sustentando com cada vez mais totalitarismo. A tendência, então, são as restrições só aumentarem.

Em quinto lugar, dar ao estado o direito de expropriar em prol do bem comum o coloca acima da lei, criando instabilidade jurídica e dando margem para o surgimento de déspotas e de governantes irresponsáveis. Além disso, o direito à propriedade privada é solapado e deixa de fazer sentido. Não há mais qualquer garantia de que o que é seu é seu. Na verdade, tudo pertence ao Estado e você só usufrui enquanto o Estado lhe permite. Aliás, isso já é algo bem próximo do comunismo, não?

Em sexto lugar, dar ao governo o poder de expropriar terras pelo bem comum vai gerar, inevitavelmente, agitação social e conflitos entre grupos. Afinal, interesses opostos estarão em jogo e o uso da força será usado. E, para completar, o governo não se privará de usar e incentivar o ódio entre classes, a fim de evitar o foco do povo nas suas ações totalitárias e garantir apoio de uma classe. Em outras palavras, o governo alimentará, por um tempo, a agitação social, o conflito e o ódio entre grupos.

Reformas sociais que se baseiam em ódio entre grupos, conflitos físicos, agitações populares, extorsão de propriedade privada, autoritarismo, violência civil, desprezo das leis, sentimento de revanche e ações abruptas e impensadas dificilmente terão como efeito uma sociedade pacífica, estável, respeitadora da lei, com um Estado que garante o direito individual e governos que não excedem os limites do poder. Os efeitos das reformas mencionadas acima geralmente são o sentimento generalizado de desconfiança, a instabilidade das instituições, a falta de disciplina do povo, o autoritarismo estatal e o risco sempre alto de golpes de Estado e brigas ilícitas pelo poder. Foi o que aconteceu após a Revolução Francesa. E também a Russa.

Em sétimo lugar, o empreendedorismo e o lucro passam a ser desestimulados entre empresários e cidadãos comuns. Como o governo pode tirar tudo o que um indivíduo tem, quase ninguém quer correr o risco de investir. Nem os de dentro da nação, nem os de fora. Esse desestímulo ao investimento cria a necessidade do governo fazer algo para garantir a saúde da economia antes que ela entre em colapso. Dessa necessidade quase sempre surge uma relação promiscua entre o governo e alguns grandes empresários que começam a ser protegidos pelos governantes em troca de ajudá-los a gerir a economia. O resultado é a consolidação de um mercado pouco competitivo e  alguns grandes monopólios privados que irão extorquir o cidadão com preços altos e produtos/serviços de péssima qualidade.

Outras ações desse tipo de governo para tentar evitar um futuro colapso na economia seriam: criar diversas empresas estatais, estatizar empresas que considera estratégicas, implementar inúmeras obras públicas, aumentar os gastos do governo e reduzir de modo artificial as taxas de juros através da inflação de moeda. As bases que orientam essas ações são: (1) Se o meio privado não está criando empregos suficientes, o governo pode e deve criá-los. Fará isso através da instituição de empresas estatais, de obras públicas e do aumento de gastos do governo. Tudo isso gerará empregos. (2) O governo tem muita aptidão para administrar empresas, inclusive mais aptidão do que o meio privado, que é ganancioso e irresponsável. Portanto, é bom que o governo crie estatais e que estatize empresas privadas de ramos considerados estratégicos. (3) A derrubada de juros irá criar incentivo para que o meio privado invista, o que o fará respirar.

Essas três ideias possuem graves problemas. A primeira, por exemplo, ignora que para o governo manter qualquer empresa estatal, implementar obras públicas e aumentar gastos do governo, ele precisa arrumar dinheiro. E qual é a única fonte de dinheiro de qualquer governo? O dinheiro do povo; os impostos. Ou seja, para criar os tais empregos, o governo precisa tirar dinheiro das pessoas (o que inclui os pobres). E quanto mais ele se meter na economia, mais impostos ele precisará cobrar do trabalhador. Procedendo assim, o governo dá empregos para uns arrancando o dinheiro de outros. Nisso, o setor privado é muito mais justo, pois cria empregos com capital privado e se mantém com o dinheiro daqueles que escolhem, por conta própria, comprar seus produtos/serviços.

A segunda ideia ignora que a gestão pública tende a ser menos eficiente que a gestão privada. Por várias razões. Para começar, empresas públicas não vão à falência quando dão prejuízos (como é o caso das empresas privadas). Elas recebem mais dinheiro do governo para cobrir seus déficits. Isso não apenas torna mais custoso para o cidadão o serviço prestado pela empresa, como premia a ineficiência. Não importa o quão ruim seja a empresa, ela continuará recebendo dinheiro. Sem risco de falência e sem precisar concorrer com outras empresas para se manter à frente, é comum que tanto os gestores, como os funcionários de empresas públicas, não se esforcem tanto para obter bons resultados como nas empresas privadas. Alguns sequer se esforçarão.

O relaxamento e a falta de cuidado com os gastos também sempre tenderá a ser maior nas empresas públicas, já que o dinheiro vem do governo e é ilimitado. Costumamos a cuidar mais dos gastos e do que compramos quando o dinheiro é limitado e, sobretudo, quando o dinheiro é nosso. Afinal, sabemos o quão duro foi conseguir nosso dinheiro e como ele pode acabar rápido se não formos responsáveis. Não se tem essas noções nas empresas públicas.

Outra razão é que na coisa pública é mais fácil ocorrer corrupção. Obras podem ser superfaturadas, empresas podem servir como cabides de emprego, verbas podem ser desviadas. No setor privado isso é mais difícil, pois os gestores e donos tomam todos os cuidados possíveis para não permitir roubos no interior da empresa, o que colocaria em risco a vida da instituição. Como esses riscos não existem na coisa pública, tampouco a coisa pública tem donos específicos, a fiscalização é bem mais frágil. Do ponto de vista do governo, aliás, é muito difícil fiscalizar todos os agentes que fazem parte de cada instituição pública. A estrutura pública é muito grande e complexa, o que permite que diversos desvios éticos sejam perpetrados em cada ponto distante dessa enorme teia de pessoas, cargos, lugares e funções.

Conta-se que quando o Regime Militar brasileiro reuniu sua cúpula para decidir sobre a instituição do AI-5 (que pretendia aumentar os poderes do presidente), o civil Pedro Aleixo, vice-presidente do General Costa e Silva, se colocou contra. Alguns na sala perguntaram se Aleixo desconfiava da integridade do General. Ele teria respondido o seguinte: “Não desconfio da integridade e das boas intenções do Sr. Presidente, mas tenho desconfiança do guarda da esquina”. O princípio é claro. Por mais que um regime realmente tenha boas intenções, quando ele aumenta seu poder político ou o tamanho do aparato estatal, cria brecha para que diversas pessoas que tem alguma participação na coisa pública, cometam desvios éticos. E isso é praticamente incontrolável.

A terceira ideia, por fim, ignora que derrubar juros expandindo moeda gera inflação de preços. Embora, num primeiro momento, a derrubada artificial de juros pode gerar um efeito positivo na economia, incentivando o investimento, a inflação acabará aparecendo e destruindo a vida do cidadão comum e dos próprios empresários. Não obstante, para um governo interventor, expandir moeda sempre parecerá uma medida tentadora e, de certa forma, inevitável. Uma das razões para isso é que, quando o governo já não tem como arcar com as dívidas criadas pela má gestão pública e pela corrupção, imprimir dinheiro resolve temporariamente o seu problema: as dívidas são pagas. Resultado: a hiperinflação será cada vez mais comum na medida em que o Estado aumentar a sua máquina pública.

O conservador como profeta político

Ao perceber a inviabilidade moral da reforma agrária (o exemplo que usamos nesse texto) e todos os seus efeitos desagradáveis, o conservador se torna um profeta político. Ancorado na lógica e, muitas vezes, no que ele já viu acontecer em outras partes do mundo e/ou em outras épocas, ele se torna capaz de prever o futuro e avisar aos seus conterrâneos e contemporâneos da desgraça iminente.

Aqui está a grande virtude do conservador: ele vê além do óbvio. Muitas vezes o que, inicialmente, pode parecer uma ideia, acaba se mostrando imoral e extremamente perigosa. São estas nuances, estes detalhes e efeitos não visíveis em um primeiro momento, que um conservador observa, antes de defender uma reforma.

Apresentei o exemplo da reforma agrária, do qual queria falar há algum tempo, mas o mesmo tipo de análise pode (e deve) ser aplicada sobre qualquer reforma ou ação governamental. E é por essa razão que conservadores geralmente são avessos à políticas baseadas em estatismo e intervenção governamental. As consequências desse tipo de política quase sempre são os mesmos que elencamos nesse texto.

Sobre o marxismo heterodoxo (ou: o que alguns pretensos estudantes de história ignoram)

Este texto foi publicado originalmente no blog “Mundo Analista“. Também pode ser lido aqui.

keep-calm-e-vai-estudar-históriaQuando um conservador diz que ainda existe socialismo marxista hoje, sempre aparece algum sujeito para dizer: “Vá estudar história!”, como se o conservador estivesse dizendo uma grande baboseira do ponto de vista historiográfico e como se ele, o sujeito a proferir a imperativa frase, fosse um expert. É compreensível essa postura. Afinal, esses indivíduos acreditam que só existe um único marxismo: o marxismo ortodoxo. Mas por que pensam isso?

Pensam isso porque nunca leram obras como “Marxism, Fascism and Totalitarianism: Chapters in the Intellectual History of Radicalism”, de Antony James Gregor, que explora o conceito de marxismo heterodoxo.

Pensam isso porque desconhecem as ideias de Georges Eugene Sorel, marxista heterodoxo que fundou as bases do chamado sindicalismo revolucionário. Entre suas ideias se encontra o conceito de exploração dos mitos políticos como força motriz para mobilizar o povo. Seu movimento influenciaria o pensamento de grandes ideólogos marxistas (como Antonio Gramsci, Walter Benjamin e José Carlos Mariategui) e também de Benito Mussolini, o qual, fora marxista ortodoxo durante muitos anos.

Pensam isso porque não tomaram conhecimento das bases da social-democracia e do trabalhismo, que pretendiam alcançar o socialismo através de reformas graduais dentro do próprio capitalismo.

Pensam isso porque não leram as obras do teórico marxista Antonio Gramsci, ou dos teóricos marxistas da Escola de Frankfurt, que fizeram releituras do marxismo, criaram novas estratégias e abordaram a necessidade do combate cultural para a tomada de poder pelos partidos socialistas.

Pensam isso porque não chegaram a estudar sobre a falibilidade prática de sistemas econômicos totalmente estatizados e as consequentes concessões feitas ao setor privado pelos dirigentes comunistas, a fim de conseguirem manter a economia de seus Estados. Não estudaram isso, tampouco estudaram que estes fatos já eram previstos e explicados, em parte, pelos estudos do economista Ludwig von Mises (na década de 1920) a respeito do cálculo econômico em sistemas socialistas. Esses estudos, aliás, continuaram sendo feitos pelo economista Friedrich Hayek, ganhador do Nobel de Economia em 1974 e autor do clássico livro “O Caminho da Servidão”, no qual explica com clareza porque o crescente controle da economia pelo Estado leva a sistemas políticos totalitários.

Pensam isso porque eles ignoram que a falibilidade do modelo econômico socialista contribuiu para reformulações na teoria marxista e a adoção de estratégias mais pragmáticas e gradualistas por parte dos novos pensadores e políticos marxistas.

Pensam isso porque não prestaram sequer atenção ao próprio “Manifesto do Partido Comunista”, em que Marx e Engels demonstram, no final, que em todos os países os comunistas estavam dispostos a colaborar até mesmo com capitalistas, se isso se mostrasse efetivo para os planos do partido no futuro. Ali estava a gênese do pragmatismo marxista e do surgimento de marxismos heterodoxos.

Acreditam esses indivíduos que nos mandam estudar história que o comunismo acabou juntamente com a URSS e que, de um dia para o outro, como num passe de mágica, marxistas de todo o mundo se conformaram com o capitalismo, abandonaram todas as ligações com as ideias de Karl Marx e deixaram de lado qualquer pretensão de mudar o mundo. Esquecem-se (ou ignoram propositalmente) que os principais conceitos marxistas continuam sendo ensinados amplamente, como é o caso da luta de classes, da mais-valia, do materialismo dialético, do materialismo histórico, da sociedade dividida em superestrutura e infraestrutura, da religião como ópio do povo, da capacidade do ser humano de remodelar o mundo, do Estado como ferramenta para implementar as políticas da revolução proletária, do forte controle da economia pelo Estado e da centralização do poder nas mãos do proletariado (representados pelo Partido).

Os simples fatos de (1) não se falar mais em estatização completa da economia, (2) tolerar a existência de empresas privadas e (3) deixar de lado a utilização do mito de um estágio final do socialismo onde o Estado é superado, é entendido por esses sujeitos como prova irrefutável de que o socialismo marxista não existe mais. Tolice. O que isso na verdade mostra é que marxistas compreenderam que a estatização completa da economia é inviável e, ao mesmo tempo, desnecessária. Para quê estatizar tudo se o Estado pode controlar empresas privadas através de regulamentações, altos impostos, troca de favores com grandes empresas, proteção de cartéis, oposição ao livre mercado e grande poder de intervenção na economia? Para quê estatizar tudo se o Estado pode estatizar (ou manter estatizado) apenas aquilo que julgar mais importante? Para quê o Estado terá o trabalho de administrar tanta coisa, se é possível delegar essa função à empresas privadas sem prejuízo algum de seu plano de poder? Para quê estatizar tudo se o Estado pode contar com a existência de empresas privadas para resolver os problemas econômicos causados por sua ineficiência e corrupção?

Não é preciso estatizar tudo para conquistar o controle político e econômico que marxistas almejam para, supostamente, tornar a sociedade mais justa e igualitária. E isso, por mais heterodoxo que possa soar, encontra sua gênese no “Manifesto do Partido Comunista”. Lá Marx e Engels já falavam sobre o gradualismo. O controle político e econômico do Estado seria conquistado aos poucos. As empresas privadas não seriam todas destruídas ao mesmo tempo, mas conviveriam com o governo socialista por período indeterminado, sendo cada vez mais controladas pelo Estado e reduzidas em número, até que tudo passasse diretamente para as mãos dos dirigentes estatais. A diferença entre o marxista ortodoxo e o heterodoxo aqui é que o primeiro vê o controle direto do Estado sobre as empresas como uma necessidade, ao passo que o último crê que é possível e conveniente que parte do controle sobre as empresas seja indireto. Em outras palavras, é possível fazer uso do capital privado para benefício do Estado e da manutenção do poder.

Quando voltamos a Gramsci e lemos sobre suas estratégias para a manutenção do Partido no poder (inclusive dizendo que o Partido é o novo Princípe, de Maquiavel) e a transformação gradual da mentalidade do proletariado através da cultura, confirmamos o parágrafo acima e percebemos que o socialismo marxista ainda existe e tem sido implementado por diversos partidos, embora por meios mais gradualistas, pragmáticos e aparentemente despretensiosos. Uma vez que os sujeitos dos quais falamos nesse texto, não admitem a existência de heterodoxia no marxismo, zombam dos conservadores e olham para governos de orientação socialista como se não o fossem. O resultado se verá à longo prazo. Economias cada vez menos livres, crises econômicas e governos com poderes despóticos. Temos visto prévias desse cenário na Venezuela, na Bolívia, na Argentina e no próprio Brasil.

Obs.: O leitor mais atento certamente percebeu que as semelhanças entre o fascismo italiano de Benito Mussolini e o marxismo heterodoxo. Na verdade, é exatamente isso. O fascismo italiano é um tipo de marxismo heterodoxo. Suas raízes estão fincadas nas ideias do sindicalismo revolucionário de Sorel, que serviu de inspiração para que Mussolini remodelasse o marxismo que seguia. Mussolini percebeu o que os marxistas perceberiam em massa após a falência da URSS: que não era necessário estatizar toda a economia, destruir as empresas privadas e utilizar o mito do fim do Estado após a ditadura do proletariado. A diferença entre Mussolini e os marxistas heterodoxos atuais reside na escolha dos mitos políticos para empurrar o povo. O Duce italiano utilizou-se do nacionalismo e da guerra.

Algumas das obras que dão conta desta análise são: “Revolutionary Fascism”, de Erik Norling; “The birth of fascist ideology”, de Zeev Sternhell, Mario Sznajder e Maia Asheri; e o já citado “Marxism, Fascism and Totalitarianism: Chapters in the Intellectual History of Radicalism”, de Antony James Gregor. Deixo como indicação alguns artigos sobre o tema:

Quando o Fascismo era de Esquerda
Tudo que você deveria saber sobre o Fascismo, mas não quer
O Fascismo nasce da Esquerda
Fascismo do Século XXI
O nazismo e o fascismo eram movimentos conservadores políticos?

O Fascismo nasce da Esquerda

Por Erwin Robertson. Esta é uma resenha do livro “The birth of fascist ideology” (o nascimento da ideologia fascista) de Zeev Sternhell, Mario Sznajder e Maia Asheri. Foi publicada originalmente na revista Ciudad de los Césares, nº 48, em março de 1998.

Por Erwin Robertson. Esta é uma resenha do livro “The birth of fascist ideology” (o nascimento da ideologia fascista) de Zeev Sternhell, Mario Sznajder e Maia Asheri. Foi publicada originalmente na revista Ciudad de los Césares, nº 48, em março de 1998.

LEIA ANTES DE PROSSEGUIR: Esta resenha foi escrita e publicada por Erwin Robertson, um historiador chileno pró-fascista em uma revista de igual alinhamento ideológico e, portanto, NÃO REPRESENTA a opinião do blog Direitas Já! e de seus articulistas.

O autor do livro objeto da resenha, Zeev Sternhell, judeu polaco nacionalizado israelense, é uma das maiores autoridades acadêmicas sobre o fascismo e portanto publicamos este material para que seja de conhecimento público o que é o fascismo, como ele surgiu e qual é a sua relação histórica e ideológica com a esquerda política.

Que Mussolini foi membro do partido socialista é um fato conhecido. Fato problemático, em especial para uma das interpretações dominantes do fascismo; a saber, que este foi a reação alentada ou dirigida pelo grande capital contra o avanço do proletariado. Em tal evento, aquele fato e sua evolução consecutiva deviam ser entendidos como oportunismo, incoerência ou, no melhor dos casos, como uma questão de conversão que não deixa marcas no passado de um homem. A obra de Zeev Sternhell – professor na Universidade Hebraica de Jerusalém – e seus colaboradores colocou toda esta matéria sob outro ângulo. Em sua interpretação, a compreensão histórica do fascismo não pode dissociar esta ideologia de suas origens de esquerda.

Desde o princípio, toda uma plêiade de historiadores e filósofos abordou já há tempo o problema do fascismo: cada um segundo suas orientações espirituais particulares, com seus próprios pontos de vista e seus preconceitos pessoais, mas não sem altura: Ernst Nolte, Renzo de Felice, James A. Gregor, Stanley Payne, Giorgio Locchi e “last but not least”, o jovem pesquisador hispano-sueco Erik Norling, entre outros. Não que a “vulgaris opinio” aludida acima goze hoje de autoridade intelectual. Mas Sternhell vem a aportar a valorização de fontes até aqui descuidadas e, com elas, a nova interpretação que é objeto deste comentário. Estudioso em particular do nacionalismo francês (são suas as obras “Maurice Barrés et le nationalisme français”, “La droite revolutionarie” e “Ni droite ni gauche, L’ideologie fasciste en France”), o professor israelita não se preocupa com os critérios do politicamente correto. É notável ler sobre o tema páginas em que está ausente a edificação moral, nas quais não se há estimado oportuno advertir ao leitor que está adentrando terrenos perigosos; nos quais não há, em suma, demonização ou pressa de meter polemicamente à esquerda uma vizinhança incômoda.

O que é, então, o fascismo na interpretação de Sternhell? Nem anomalia na história contemporânea, nem “infecção” (Croce), nem resultado da crise de 1914-1918, nem reflexo ou reação contra o marxismo (Nolte). O fascismo é um fenômeno político e cultural que goza de plena autonomia intelectual (p.19); ou seja, que pode ser estudado em si mesmo, não como produto de outra coisa ou epifenômeno. Por certo, e logo de início, para Sternhell é preciso distinguir o fascismo do nacional-socialismo (Sternhell diz “nazismo”, acomodando-se ao uso contra o qual, no entanto, se rebela honestamente um Nolte). Com todos os aspectos que um e outro tem em comum, a pedra de toque está no determinismo biológico: um marxista pode converter-se ao nacional-socialismo, mas não um judeu (por outro lado, existiram fascistas judeus). O racismo não é um elemento essencial do fascismo, ainda que contribua à ideologia fascista. E algumas páginas mais adiante o autor aponta que um dos elementos constitutivos do fascismo é o nacionalismo tribal; isto é, um nacionalismo baseado no sentido de pertencimento, a “terra e os mortos” de Barrés, o “sangue e solo” do nacional-socialismo. Este sentido organicista é compartilhado com os nacionalismos de finais do século XIX, germânicos e latinos, Maurras e Corradini, Vacher de Lapouge e Treitschke. O próprio Sternhell debilita assim a distinção que acaba de fazer (reparemos, de passagem, na delicadeza do adjetivo “tribal”: seria pouco oportuno de nossa parte lembrar que uma tradução de “tribal” é “gentil”, de “gentio”?)

O fascismo então é uma síntese deste nacionalismo “tribal” ou “orgânico” e de uma revisão anti-marxista do marxismo. Sternhell se estende explicando que a finais do século XIX as previsões de Marx não se haviam cumprido: o capitalismo não parece cair, nem o empobrecimento é o sinal característico da população, enquanto o proletariado se integra política e culturalmente nas sociedades capitalistas ocidentais. Daí a aparição do “revisionismo”. Seguindo o exemplo do SPD, o partido social-democrata alemão, o conjunto do socialismo ocidental se faz reformista; isto é, sem renunciar aos princípios teóricos do marxismo, aceita os valores do liberalismo político, e em consequência, tacitamente, a ordem vigente. Mas uma minoria de marxistas irá recusar o compromisso e irá querer permanecer fiel à ortodoxia – cada um a seu modo; são os Rudolf Hilferding e os Otto Bauer, os Rosa Luxemburgo e os Karl Liebknecht, os Lenin e os Trotsky, todos da Europa Oriental.

Ao mesmo tempo, na França e logo na Itália surgem aqueles que, de dentro do marxismo, empreenderão sua revisão em sentido não materialista nem racionalista, sem discutir a propriedade privada ou a economia de mercado, mas conservando o objetivo da derrubada violenta da ordem burguesa: são os sorelianos, os discípulos de Georges Sorel, o teórico do sindicalismo revolucionário e autor das célebres “Reflexões sobre a violência”.

As diferenças entre os dois setores revolucionários são grandes. Os primeiros, quase todos membros da “intelligentsia” judaica, destaca Sternhell, mantém o determinismo econômico de Marx, a ideia da necessidade histórica, o racionalismo e o materialismo, enquanto os sorelianos começam por uma crítica à economia marxiana que chega a esvaziar o marxismo de grande parte do seu conteúdo, reduzindo-o fundamentalmente a uma teoria da ação. Os primeiros pensam em termos de uma revolução internacional, têm “um horror a esse nacionalismo tribal que florece ao longo da Europa, tanto no campo subdesenvolvido do leste como nos grandes centros industriais do oeste… Não se ajoelham jamais ante a coletividade nacional e sua torrão, seu fervor religioso, suas tradições, sua cultura popular, seus cemitérios, seus mitos, suas glórias e animosidades” (p.48). Os segundos, comprovando que o proletariado já não é uma força revolucionária, o substituirão pela Nação como mito em uma luta contra a decadência burguesa e assim confluirão finalmente no movimento nacionalista.

Tal é a tese fundamental de Sternhell. No desenvolvimento de “O nascimento da ideologia fascista”, o capítulo I está dedicado à análise da obra de Sorel: talvez não propriamente um filósofo nem autor de um corpus ideológico fechado, sua verdadeira originalidade, assinala Sternhell, reside em ter constituído uma espécie de “lago vivente”, receptor e fonte de ideias na gestação das novas sínteses ideológicas do século XX. Nietzsche, Bergson e William James o marcaram sem dúvida mais profundamente que Marx, com ânimo de julgar o que considerava um sistema inacabado.

O autor de “Reflexões sobre a violência”, de “As ilusões do progresso”, de “Materiais de uma teoria do proletariado”, etc., se sublevava contra o marxismo vulgar (que enfatiza o determinismo econômico) e sustentava que o socialismo era uma “questão moral”, no sentido de uma “transvaloração de todos os valores”. A luta de classes era para ele questão principal e, por extensão, saber mobilizar o proletariado na guerra contra a ordem burguesa.

Em um contexto social em que os operários mostram um alto grau de militância sindical (1906, o ano de edição de “Reflexões sobre a violência”, marca também na França o recorde de greves que frequentemente supõem enfrentamentos sangrentos com as forças da ordem), mas também onde uma economia em crescimento permite à classe dirigente fazer concessões que reduzem a combatividade operária, não bastam a análise econômica nem a previsão do curso racional dos acontecimentos.

Sorel descobre então a noção do “mito social”, esta imagem que põe em jogo sentimentos e instintos coletivos, capaz de suscitar energias sempre novas na luta cujos resultados não chegam a divisar-se. Como o mito do apocalipse para os primeiros cristãos, o mito da greve geral revolucionária será para o proletariado esta imagem mobilizadora e fonte de energias. Com fervor análogo ao das ordens religiosas do passado, com um sentimento parecido ao do amor à glória dos exércitos napoleônicos, os sindicatos revolucionários, armados do mito, se lançarão à luta contra a ordem burguesa.

Assim, à mentalidade racionalista, que o socialismo reformista compartilha com a burguesia liberal, Sorel opõe a mentalidade mítica, até mesmo religiosa. Sua crítica ao racionalismo que remonta a Descartes e Sócrates e, contra os valores democráticos e pacificistas, reivindica os valores guerreiros e heróicos. De boa vontade reivindica também o pessimismo dos gregos e dos primeiros cristãos, porque só o pessimismo suscita as grandes forças históricas, as grandes virtudes humanas: heroísmo, ascetismo, espírito de sacrifício.

Sorel vê na violência um valor moral, um meio de regenerar a civilização, já que a luta, a guerra por causas altruístas, permite ao homem alcançar o sublime. A violência não é a brutalidade nem a ferocidade, não é o terrorismo; Sorel não sente nenhum respeito pela Revolução Francesa e seus “provedores de guilhotinas”. É, em suma e no fundo, contra a decadência da civilização que Sorel dirige seu combate; decadência na qual a burguesia arrasta atrás de si o proletariado. E não será surpreendente encontrar aos discípulos de Sorel reunidos com os nacionalistas de Charles Maurras no “Círculo Proudhon”, que leva o nome do grande socialista francês anterior a Marx. Tampouco será estranho que em seus últimos anos Sorel lance seu alegado “Pro Lenin”, desejando ver a humilhação das “democracias burguesas”, ao mesmo tempo que reconhecia que os fascistas italianos invocavam suas próprias idéias sobre a violência.

A síntese Nacional e Social

Estes discípulos são também estudados por Sternhell (capítulo II). São os “revisionistas revolucionários”, a “nouvelle école” que tentou tornar operacional uma síntese nacional e social, não sem tropeços e desilusões. Ali está Edouard Berth, que junto a Georges Valois, militante maurrasiano (futuro fundador do primeiro movimento fascista francês, morto em um campo de concentração alemão), deu vida ao “Círculo Proudhon”, órgão de colaboração entre sindicalistas revolucionários e nacionalistas radicais nos anos anteriores a 1914.

Aventada esta experiência pela guerra européia, Berth passará pelo comunismo antes de voltar ao sorelismo. Está também Hubert Lagardelle, editor da revista “Mouvement Socialiste”, homem de luta no interior do partido socialista, onde se esforçou por fazer triunfar as teses do sindicalismo revolucionário (pelo contrário, em 1902 triunfaram as teses de Jaurés, que apresentam o socialismo como complemento da Declaração dos Direitos do Homem). Ante a colaboração sorelista-nacionalista, Lagardelle se recolhe a posições mais convencionais; mas no pós-guerra o encontraremos na redação da revista “Plans”, expressão de certo fascismo “técnico” e vanguardista – nela colaborarão nada menos que Marinetti e Le Corbusier – e, durante a guerra, terminará sua carreira como titular do ministério do trabalho do regime de Vichy.

Trejetórias em aparência confusas mas que revelam a busca sincera do “novo”. Da Alemanha vem a eles o reforço do socialista Robert Michels, quem, à espera de construir sua obra prima “Os partidos políticos”, anuncia o fracasso do SPD, o partido de Engels, Kautsky, Bernstein e Rosa Luxemburgo. Michels observará também que só o egoísmo econômico de classe não basta para alcançar fins revolucionários; daí a discussão sobre se o socialismo pode ser independente do proletariado.

O ideal sindical não implica forçosamente a abdicação nacional, nem o ideal nacionalista comporta necessariamente um programa de paz social (julgado conformista), explica por sua vez Berth, quem espera um despertar conjunto dos sentimentos guerreiros e revolucionários, nacionais e operários, o fim da “era dourada”. Em fim, a “nova escola” desenvolve as ideias de Sorel, por exemplo, na fundamental distinção entre capitalismo industrial e capitalismo financeiro. Resume Sternhell sua contribuição: “… a esta revolta nacional e social contra a ordem democrática e liberal que eclode na França (antes de 1914, é bom lembrar) não falta nenhum dos atributos clássicos do fascismo mais extremo, nem sequer o anti-semitismo” (p.231). Nem a concepção de um Estado autoritário e guerreiro.

No entanto, no geral, os revisionistas revolucionários franceses foram teóricos, sem experiência real com movimentos de massa. De outro modo ocorre com o sindicalismo revolucionário na Itália (capítulos III e IV da obra de Sternhell). Ali Arturo Labriola encabeça desde 1902 a ala radical do partido socialista; com Enrico Leone e Paolo Orano levam adiante a luta contra o reformismo, o qual acusam de apoiar-se exclusivamente nos operários industriais do norte, em desfeita ao sul camponês, e pelo triunfo de sua tese de que a revolução socialista só seria possível por meio de sindicatos de combate.

De Sorel tomam essencialmente o imperativo ético e o mito da greve geral revolucionária. A experiência da greve geral de 1904, das greves camponesas de 1907 e 1908, inflamam os dirigentes sindicalistas revolucionários, entre os quais a nova geração de Michele Bianchi, Alceste de Ambris e Filippo Corridoni. À margem do Partido Socialista Italiano e de sua central sindical a CGL – ancorados em posições reformistas, os radicais formam a USI (União Sindical Italiana), que chegará a contar com 100.000 membros em 1913.

Por sua vez, os sindicalistas revolucionários animam jornais e revistas. Labriola e Leone empreendem a revisão da teoria econômica marxiana, especialmente a teoria do valor, seguindo ao economista austríaco Böhm-Bawerk; daí, diz Sznajder, o aspecto mais original da contribuição italiana à teoria do sindicalismo revolucionário. Aí se encontra também a noção de “produtores” (potencialmente todos os produtores), contraposta à classe “parasitária” dos que não contribuem ao processo de produção. Por fim a tradição antimilitarista e internacionalista, cara à toda a esquerda européia, não será mais unanimemente compartilhada pelos sindicatos revolucionários. Em 1911, a guerra da Itália contra o Império Otomano pela posse da Líbia produzirá uma crise no sindicalismo revolucionário: alguns dirigentes (Leone, De Ambris, Corridoni), fiéis à tradição socialista, se opõem energicamente a esta empresa – por mais que lhes desagrade estar junto aos socialistas reformistas; outros (Labriola, Olivetti, Orano) estão pela guerra, tanto por razões morais (a guerra é uma escola de heroísmo) como por razões econômicas (a nova colônia contribuirá para a elevação do proletariado italiano), e assim coincidem com os nacionalistas de Enrico Corradini, a quem já se haviam aproximado pela crítica ao liberalismo político.

Mas em agosto de 1914 ainda aqueles que – no seio do sindicalismo revolucionário – haviam militado contra a guerra da Líbia, estão a favor da intervenção no conflito europeu ao lado da França e contra a Alemanha e a Áustria; o combate contra o feudalismo e o militarismo alemão se agrega à possibilidade de completar graças à guerra a integração nacional italiana e de forjar uma nova elite proletária que substituirá a burguesia no poder. Em outubro de 1914, um manifesto do recém fundado Fascio Revolucionário de Ação Internacionalista, assinado pelos principais dirigentes sindicalistas revolucionários, proclama: “… Não é possível ir mais além dos limites das revoluções nacionais sem primeiro passar pela etapa da própria revolução nacional… Ali onde cada povo não vive no quadro de suas próprias fronteiras, formadas pela língua e pela raça, ali onde a questão nacional não foi resolvida, o clima histórico necessário ao desenvolvimento normal do movimento de classe não pode existir…” Nação, Guerra e Revolução… já não serão mais idéias contraditórias.

Até o final da guerra o sindicalismo revolucionário deve ser considerado já um nacional-sindicalismo, enquanto a Nação figura para eles em primeiro plano. Seja como for, os nacional-sindicalistas aceitam que a guerra há de trazer transformações internas: desde 1917 De Ambris lançou a consigna “Terra dos Camponeses”; e em seguida elabora um programa de “expropriação parcial” tanto no setor agrícola quanto no setor industrial, que se dirige ex proposito contra o capital especulativo e em benefício dos camponeses e operários que deram seu sangue pela Itália. Se trata também de manter e estimular a produção.

O “produtivismo” é um dos fatores que leva os sindicalistas revolucionários a opor-se à revolução bolchevique, que julgam destrutiva e caótica. Frente à ocupação de fábricas do biennio rosso de 1920-1921, Labriola, que chegou a ser Ministro do Trabalho no governo do liberal Giolitti, apresenta um projeto que reconhece aos operários o direito de participar na gestão das empresas. Parlamento com representação corporativa, “classes orgânicas” que enquadrem a população, um Estado que seja responsável por assignar aos proprietários capazes de produzir o direito de usar os meios de produção, são, por outra parte, as bases do programa do “sindicalismo integral” que propõe Panunzio em 1919. Por fim, o sindicalismo revolucionário vibra com a aventura do comandante Gabriele D’Annunzio em Fiume (1920-1921). De Ambris participa na redação da “Carta de Carnaro”, este fascinante documento literário que é a constituição que o poeta e herói de guerra outorga à Regência de Fiume. É um projeto político que, coerente ao ideal do sindicalismo revolucionário, quer resolver de uma vez a questão nacional e a questão social.

Nestas lutas do imediato pós-guerra, os sindicalistas revolucionários coincidiram com os fascistas. Mas a tomada do poder pelo fascismo acarretára a dissolução do sindicalismo revolucionário. De Ambris e seu grupo passarão à oposição; o primeiro terminará exilando-se. Labriola também partirá para o exílio, e só na guerra da Etiópia se reconciliará com o regime. Por outro lado, Bianchi aparece em 1922 como um dos quadrumviri que organiza a Marcha sobre Roma, Panunzio se apresenta junto a Gentile como um dos intelectuais oficiais do fascismo, Orano (que era judeu), alcança altos postos no partido fascista, enquanto Michels, antigo membro do SPD, professor na Universidade de Perusa, se inscreve como afiliado no PNF (Partido Nacional Fascista).

A Encruzilhada Mussoliniana

Assinala Sternhell que sempre se tendeu a subestimar o papel central que Mussolini desempenhou entre todos os revolucionários italianos. O futuro Duce “aporta à dissidência esquerdista e nacionalista italiana o que sempre faltou a seus homólogos franceses: um chefe”. Um homem de ação, um líder carismático, mas ao mesmo tempo um intelectual capaz de lidar com intelectuais e ganhar o respeito de homens como Marinetti, o fundador do futurismo, Michels, o antigo militante do SPD alemão tornado um dos clássicos da ciência político, ou ainda Croce, representante oficial da cultura italiana sob o fascismo. E Mussolini é toda uma evolução intelectual, não o achado repentino de uma verdade, nem o oportunismo, nem sequer a conjuntura do pós-guerra.

Mussolini é antes de mais nada um militante socialista, mesmo como líder dos fascistas. Quando jovem se tem evidentemente por marxista, de um marxismo revisto por Leone e, sobretudo, por Sorel, em quem vê um antídoto contra a perversão social-democrata alemã do socialismo. Outra influência decisiva é Wilfredo Pareto e sua teoria de circulação das elites (por outro lado, Sternhell não destaca a influência de Nietzsche, a quem Mussolini leu prematuramente na Suíça). O jovem socialista se situa portanto na órbita do sindicalismo revolucionário, ainda quando discrepa das táticas: duvida da virtude das organizações econômicas por si e vê no Partido um instrumento revolucionário.

O jovem Mussolini é o líder indiscutível que se opõe à greve geral contra a intervenção na Líbia, pois crê que a tentativa burguesa de desencadear uma guerra pode gerar uma situação revolucionária. Em 1912 é o principal líder do partido socialista, impondo-se sobre os reformistas e fazendo-se com a direção do seu jornal oficial “Avanti!” o líder indiscutido de toda a esquerda revolucionária italiana, mas ao mesmo tempo o mais forte crítico da ortodoxia marxista.

Mussolini publica desde as páginas do “Avanti!” sua profunda decepção com a atitude da classe operária para “moldar a história” e valoriza a idéia de Nação: “Não há um evangelho socialista único ao qual todas as nações devam conformar-se sob pena de excomunhão”. A finais de 1913 Mussolini lança a revista “Utopia”, com a intenção de propôr uma “revisão revolucionária do socialismo”. Ali reúne a futuros comunistas como Bordiga, Tasca e Liebknecht; futuros fascistas como Panunzio, futuros dissidentes do fascismo como seu velho professor Labriola.

Em junho de 1914 Mussolini crê que é chegado o momento da insurreição, comprometendo-se na settimana rossa contra a opinião do congresso do Partido Socialista Italiano. Quando eclode a guerra européia, as dissidências são já tão palpáveis que Mussolini é desautorizado oficialmente pelo partido, e não hesita em romper com seus antigos companheiros para unir-se aos sindicalistas revolucionários na campanha a favor da entrada da Itália na guerra.

Sternhell assinal que o nacionalismo de Mussolini não é o nacionalismo clássico da direita. Ocorre que ante as novas realidades nacionais e sociais a análise marxista demonstrou-se falha, pois as classes operárias na Alemanha, França e Inglaterra marcham alegremente para a guerra. Mussolini não renuncia ao socialismo, mas o seu é um socialismo nacionalista, obra dos combatentes do front: “Os milhões de trabalhadores que regressarão aos sulcos dos campos depois de ter vivido nos campos das trincheiras darão lugar à síntese da antítese classe e nação”, escreve em 1917.

E não será a revolução bolchevique a levar Mussolini à direita, dado que o essencial do seu pensamento se forjou antes de 1917: idéias de hierarquia, de disciplina, de colaboração das classes como condição da produção… Os Fasci Italiani di Combattimento, fundados em março de 1919, recolhem todas as idéias do sindicalismo revolucionário e se situam inclusive à esquerda do partido socialista (defendem sufrágio universal para ambos os sexos, abolição do senado, constituição de uma Milícia Nacional, conselhos corporativos com funções legislativas, jornada laboral de 8 horas, confisco de espólios de guerra, etc). Mas com o biennio rosso as filas fascistas se transbordam com a afluência das classes médias, especialmente de jovens oficiais desmobilizados.

O Partido Nacional Fascista, organizado como tal em 1921, conhecerá um sucesso (eleitoral incluso) vetado aos primitivos “Fascis”. “Esta mutação não deixa de recordar-nos a dos partidos socialistas no início do século: a virada à direita constitui o preço habitual do sucesso” (p.400). Mussolini, homem de realidades que antepõe a prática à teoria, viu fracassar a ocupação “vermelha” de fábricas como a gesta nacionalista de Fiume, e decide levar a cabo a revolução possível. Assim, na perspectiva de Sternhell, a captura do poder pelo chefe fascista não é tanto o resultado de um golpe de Estado como de um processo; é a simpatia de uma ampla parte da massa política, dos meios intelectuais, dos centros de poder, o que permite a Mussolini instalar-se e sustentar-se no governo. Para Sternhell é sintomática a atitude do senador Croce que, ainda em junho de 1924, deu seu voto de confiança ao primeiro ministro quando o caso Mateotti pôs em crise o governo e Mussolini estava a ponto de ser deposto pelo rei, porque, pensava Croce, “havia de dar tempo ao fascismo para completar sua evolução rumo à normalização”.

A idéia de Estado, que parece ser característica só do fascismo é, entretanto, o último elemento que toma forma na ideologia fascista. Em todo caso assinala Sternhell que toda a ideologia fascista estava elaborada antes da tomada do poder: “A ação política de Mussolini não é o resultado de um pragmatismo grosseiro ou de um oportunismo vulgar mais do que foi a de Lenin.”(p.410)

O jurista Alfredo Rocco, proveniente das filas nacionalistas, “codificou” e traduziu em leis e instituições os princípios fascistas e nacionalistas (visão mítica e orgânica da nação, afirmação da primazia da coletividade sobre o indivíduo, recusa total e sem paliativos da democracia liberal). Mas é um Estado que, ao mesmo tempo, se quer reduzido somente a sua expressão jurídica e política; que quer renunciar a toda forma de gestão econômica ou de estatização, como anunciava Mussolini desde 1921. Não é, portanto, ou não ainda, o Estado totalitário.

O fascismo no poder, em suma, não se assemelha ao fascismo de 1919, menos ainda ao sindicalismo revolucionário de 1910. Mas, pergunta Sternhell: “o bolchevismo no poder reflete exatamente as idéias que, dez anos antes da tomada do Palácio de Inverno, animavam a Plekhanov, Trotsky ou Lenin?” Houve uma grande evolução, sem dúvida. E contudo – conclui o autor -, o regime mussoliniano dos anos 30 está muito mais próximo do sindicalismo revolucionário ou do “Círculo Proudhon” que o regime estalinista está dos fundamentos do marxismo.

O encanto secreto do Fascismo

Como conclusão, Sternhell lança um olhar sobre as relações entre o fascismo e as correntes estéticas de vanguarda no século XX. O futurismo, desde cedo (futuristas e fascistas lutaram juntos pelo “intervencionismo”, e Marinetti é um dos fundadores dos Fasci), mas também o vorticismo, lançado em Londres por Ezra Pound, que é em certo modo uma réplica ao futurismo, ainda que compartilhe com ele alguns traços essenciais. “Os dois atacam de frente a decadência, o academicismo, o esteticismo imóvel, o morno, a moleza geral… tem uma mesma voz de ordem: energia, e um mesmo objetivo: curar a Itália e a Inglaterra de sua languidez” (p.424). De Pound conhecemos de sobra sua opção política.

Sternhell destaca também o papel de Thomas Edward Hulme, antirromântico, antidemocrata em política, tradutor ao inglês de Sorel. “Revolucionário antidemocrata, absolutista em ética, que fala com desprezo do modernismo e do progresso e utiliza conceitos como da honra sem o menor toque de irrealidade”(p.429). Hulme é, portanto, para o autor, um representante desta rebelião cultural que brota por toda parte, antirracionalista, antiutilitarista, antihedonista, antiliberal, classicista e nacionalista e que precede a rebelião política.

As gerações dos anos 20 e 30, que já conhecem a experiência fascista, refazem o caminho do inconformismo. Assim um Henri de Man, em 1938 presidente do partido socialista belga, um dos grandes teóricos do socialismo na época, menor somente que Gramsci e Lukacs, reemprende sua própria revisão do marxismo e não será ilógico que, quando seu país capitule ante a Alemanha em 1940 convide os militantes socialistas belgas a aceitar a nova situação como um ponto de partida para construir uma nova ordem: “O caminho está livre para as duas causas que resumem as aspirações do povo: a paz europeia e a justiça social.” Não muito diferente é na França no caso de Doriot.

Como pôde surgir o fascismo na história européia e mundial? A explicação conjuntural não pode senão desembarcar em trivialidades. Deve-se compreender o fascismo primeiro como um fenômeno cultural. É, de início, uma rejeição à mentalidade liberal, democrática e marxista; rejeição da visão mecanicista e utilitarista da sociedade. Mas expressa também “a vontade de ver a instauração de uma civilização heróica sobre as ruínas de uma civilização baixa e materialista. O fascismo quer moldar um novo homem, ativista e dinâmico.” Apesar de apresentar esta vertente tradicionalista, este movimento contém em suas origens um caráter moderno muito pronunciado, e sua estética futurista foi o melhor cartel para a captura de intelectuais, de uma juventude que se sente submetida às baixezas da burguesia.

O elitismo, no sentido de que uma elite não é uma categoria social definida pelo lugar que ocupa no processo de produção, senão um estado de espírito, é outro componente maior desta força de atração. O mito, como chave de interpretação do mundo; o corporativismo, como ideal social que dá a amplas camadas da população o sentimento de que há novas oportunidades de crescimento e participação, constituem também parte do segredo do fascismo, porque o fascismo reduz os problemas econômicos e sociais a questões sobretudo de ordem psicológica. E, sobretudo, “servir à coletividade formando um corpo com ela, identificar os próprios interesses aos da pátria, comungar no mesmo culto os valores heróicos, com uma intensidade que toma o lugar do boletim de voto na urna”.

É por tudo isto que o estilo político desempenha um papel tão essencial no fascismo. O fascismo veio a provar que existe uma cultura não fundamentada nos privilégios do dinheiro ou do nascismento, senão sobre o espírito de grupo, de camaradagem, de comunidade orgânica, de “Bund”, como se dizia na Alemanha da época.

Estes valores presentes no fascismo tocam a sensibilidade de muitos europeus. É pouco conhecido que em 1933 Sigmund Freud saudava a Mussolini como um “herói da cultura”. Se fosse mesmo, porque Croce teria votado contra ele em 1924, porque Pirandello teria recusado o assento que o Duce lhe ofereceu na Academia Italiana? As realidades dos países europeus entre as duas guerras não são de uma mesma peça: a cultura italiana está representada por Marinetti, Gentili e por Pirandello não menos que por Croce, e por Croce senador não menos que por Croce antifascista, do mesmo modo que pela cultura alemã podem falar tanto Spengler, Heidegger ou Moeller van der Bruck como os irmãos Mann, e a cultura francesa é tanto Gide, Sartre o Camus como Drieu la Rochelle, Brasillach ou Céline…

Assim, “O nascismento da Ideologia Fascista” outorga a seu objeto uma dignidade que nem sempre se encontra nos variados estudos sobre o tema. Isto só pode ser saudável para a história das idéias. Façamos por nosso lado algumas observações. Primeiro, que, como é evidente, Sternhell trata na sua obra do fascismo latino, isto é, das correntes inconformistas surgidas na França e na Itália. Um tema de discussão é ver se o fascismo italiano e o nacional-socialismo alemão são coisas totalmente diferentes (esta é a tese de De Felice), ou se o nacional-socialismo é uma espécie dentro do fascismo genérico (tese de Payne e Nolte). Do nacional-socialismo se discutiu se foi “antimoderno” ou se apresentava traços de uma modernidade radical, dado que é inegável que o movimento desenvolveu um radicalismo antiburguês operativamente muito atrativo para os militantes comunistas.

O fascismo nasce à esquerda, a partir de uma revisão do marxismo. Este revisionismo se desenvolve e se constitui em uma corrente intelectual e política independente à qual concorrem outras tendências que cohabitam com o socialismo: Nietzsche, Bergson, James, e o nacionalismo integral. A respeito é interessante comparar as diferentes evoluções do marxismo que seguiu sendo tal e as diferentes ramificações “apóstatas”. O fascismo em uma revisão do marxismo descobriu que todos os partidos socialistas consideravam o marxismo uma herança a qual deviam permanecer fiéis. Entretanto, em sua evolução recente todos estes partidos renunciaram à herança de Marx, acomodando-se à economia neoliberal. Seguem apegados, desde sempre, à matriz iluminista, materialista e igualitária. Ao contrário, os fascistas, animados de outra cultura, mantiveram sempre o espírito revolucionário de ruptura com a ordem burguesa.

Sternhell insiste permanentemente no respeito dos sindicalistas revolucionários, dos socialistas nacionais e dos fascistas pela propriedade privada e pelo capitalismo. Não haveria que distinguir entre propriedade privada e capitalismo que, no fim das contas, historicamente não se identificam? Todos os fascismos sublinharam sempre a diferença entre a propriedade ligada ao homem e a propriedade ligado ao grande capital financeiro; entre o trabalho produtivo e a servidão ao interesse do dinheiro (G. Feder). Não parece adequado ignorar isto. Talvez Payne tenha sido o autor mais justo neste sentido.

Finalmente, é verdade que uma coisa é reconhecer o componente irracional da vida humana e outra fazer do antirracionalismo uma política. Sternhell, que durante toda sua obra se mantém distanciado de qualquer afeição moralizante, ao final nos adverte do perigo do irracionalismo: “Quando o antirracionalismo se converte em um instrumento político, um meio de mobilização das massas e uma máquina de guerra contra o liberalismo, e marxismo e a democracia; quando se associa a um intenso pessimismo cultural a par de um culto pronunciado pela violência, então o pensamento fascista fatalmente toma forma.”(p.451). A questão seria se só os valores políticos do iluminismo e do liberalismo são legítimos; se só o plano otimismo hedonista pode passar por perspectiva cultural, se as massas só devem ser mobilizadas em nome do esporte.

Aqui, obviamente, a ciência não pode dizer nada: estamos no campo da opção política.


Algumas obras citadas no artigo (em ordem de aparição):

Outras obras e documentos de interesse:

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