Mussolini, Hitler e Wilson. Wilson?

Autor: ALEXANDRE BORGES *

Uma das maldições da segunda-feira é o Roda Viva da TV Cultura, em quase todas as edições um convescote de esquerdistas que atestam a debilidade da alta cultura e do jornalismo no país. Há duas semanas, o convidado foi o ex-presidente e imortal Fernando Henrique Cardoso, que estufa o peito e se autodeclara “progressista”, um intelectual iluminista acima das ideologias que busca apenas o bem comum.

Não é de hoje que o progressismo é a bandeira dos que entendem a história como uma locomotiva que segue em direção a um futuro glorioso, racional, em que as ideologias são superadas, assim como as religiões, o nacionalismo, e uma sociedade próxima da perfeição emerge. Quem se coloca contra essa visão progressista da vida é um inimigo do futuro, um obstáculo a ser removido, uma pedra no caminho, uma inquietante voz do passado a ser calada. Quando FHC diz no Roda Viva que progressista é quem “olha para frente”, meus caros, é isso que ele quer dizer.

O progressismo pode ser entendido como um fenômeno típico do final do século XIX até os anos 30 do século XX, mesmo que suas raízes possam ser traçadas nas décadas e até séculos anteriores e muitos esquerdistas até hoje, como FHC, prefiram se apresentar assim.

Muitos enxergam no progressismo também um desdobramento do socialismo fabiano, a vertente criada pelo grupo britânico fundado há 130 anos que contou com intelectuais como H.G. Wells, Bertrand Russell e George Bernard Shaw, e que defendia que o socialismo seria uma evolução natural e inexorável do capitalismo e que, portanto, não seria necessário pegar em armas para que seu tempo chegasse. Para os fabianos, reformas graduais seriam o caminho indicado para a implementação do socialismo – como, por exemplo, a esterilização dos “povos inferiores” para não se ter que matá-los, já que bastava impedir que se reproduzissem.

Mesmo tendo um parentesco próximo com a social-democracia européia, o progressismo americano trazia a ideia do encantamento arrogante e quase religioso com a razão, com a ciência e o deslumbramento com a tecnologia, embalado pela época que traz descobertas como as do telefone (1876), do fonógrafo (1877), da lâmpada elétrica (1879), do gramofone (1887), do cinematógrafo (1895), do avião (1906), entre outros. Em 1889, comemorando o centenário da revolução francesa, acontece também a Exposição Universal de Paris, visitada por 28 milhões de pessoas e que construiu nada menos que a Torre Eiffel para a entrada.

O termo progressismo é entendido hoje como um contraponto ao conservadorismo, mas é, para todos os efeitos, um descendente legítimo do Positivismo “original”, aquele da escola de pensamento fundada pelo inventor da sociologia, o francês Augusto Comte (1798-1857), que traz a ideia do “governo científico” liderado por uma aristocracia intelectual que possui todas as respostas do mundo e que pode cuidar de tudo enquanto você, pobre mortal, vai tocando sua vida bovina e ruminante, obedecendo o grande plano traçado pelos guardiões da sociedade, sem questionar nada para que o governo não tenha que se livrar de você.

A ideia de um governo de reis-filósofos pode ser encontrada em tempos tão remotos quanto em “A República” de Platão (427-347 a.C.), que imagina a “cidade ideal”, uma pretensa sociedade justa e saudável em que o estado provê as necessidades básicas do cidadão enquanto ele é destinado a realizar tarefas simples baseadas nas suas habilidades. O indivíduo abre mão da sua liberdade e aceita ser parte integrante de um plano maior estatal, desenhado e gerenciado por uma aristocracia de notáveis. Sedutor para alguns na teoria, é na prática um regime totalitário.

Mais prisões políticas que Mussolini

Um dos mais poderosos e influentes políticos “progressistas” da história, abertamente entusiasta da visão política de que “seres superiores” deveriam governar sem limites em nome do bem estar social, foi Woodrow Wilson (1856-1924), presidente dos EUA de 1913 a 1921, um dos políticos que, quanto mais você conhece, mais se assusta com o fato de que alguém como ele tenha ocupado a Casa Branca. Um presidente americano que encarcerou mais inimigos políticos por delito de opinião que Benito Mussolini merece atenção.

Wilson foi uma criança disléxica que só aos 10 anos de idade aprendeu a ler mas que viria a ser um ensaísta, autor de livros políticos influentes, além de um acadêmico que se tornou reitor da Universidade de Princeton e o primeiro PhD a chegar a presidência dos EUA. Em resumo, o primeiro intelectual a comandar o país.

Woodrow Wilson era, como os fascistas, assumidamente racista e comprometido intelectualmente com teses de supremacia branca e eugenia. Criado num lar de pais sulistas e confederados que pegaram em armas em defesa dos escravistas contra Abraham Lincoln, o voto dos negros para ele foi “o pior mal que aconteceu na história do país”. Ele era um defensor, por exemplo, da “purificação darwiniana das raças inferiores”.

Os pais fundadores da nação e a Constituição, para ele, eram motivo de chacota e desprezo por serem “antiquados”. A Declaração da Independência e o Bill of Rights eram recheados de “nonsense” e um eco do século XVIII que precisava ser superado. Para ele, nada deveria limitar os poderes do presidente, apenas sua própria capacidade e vontade. A própria divisão da república em três poderes seria um anacronismo incômodo, já que o Congresso não deveria atrapalhar o caminho inexorável para o futuro que o presidente representaria. “Se você não é um progressista, é melhor você tomar cuidado”, ameaçou Wilson já no seu discurso de posse.

Este intelectual também acreditava, como comunistas e fascistas, que havia povos atrasados que mereciam ser subjugados e ter seus territórios invadidos para que sociedades “adultas” pudessem cuidar destes que estavam na “infância” do desenvolvimento. Como presidente, invadiu a Nicarágua, o México, o Panamá e o Haiti e foi o comandante-em-chefe do país na Primeira Guerra Mundial.

Sua visão do povo era tão autoritária quanto possível e quase inimaginável para um presidente americano. Chegou a afirmar que a população, para um verdadeiro líder, era uma “ferramenta do estado”, numa simbiose perfeita que fazia do governo um organismo vivo e inseparável na nação, entre outras ideias típicas de um rei absolutista. Dizia também, quando presidente, que sua gestão representava a “mão de Deus” e que ser contra ele, portanto, era não só ser contra o estado mas ser contra Deus.

Segundo ele, que enquanto presidente montou uma das maiores máquinas de propaganda política que se tem notícia, o povo não precisava saber de toda verdade, com todas as visões e lados da questão, que isso confundiria o cidadão comum. Uma meia verdade, que mais apelasse para a emoção do que para a razão, e que motivasse o povo a seguir o caminho traçado pelo governo, era o mais recomendável. Seu ídolo e líder inspirador era ninguém menos que Otto von Bismarck.

Do positivismo ao progressismo e, depois, fascismo.

Poucos termos são tão desgastados quando “fascista”, que hoje em dia virou nada mais que um xingamento. Mesmo assim, o entendimento do fenômeno fascista ainda desafia os historiadores: o que é, afinal, esse tal de fascismo?

Mesmo com diferenças pontuais, é possível traçar como características comuns dos regimes fascistas italiano e alemão:

  1. A identificação clara de inimigos internos e externos do estado, que deveriam ser perseguidos, calados, presos e, em última instância, eliminados.
  2. A criação ou fomento de mitos que encarnassem os “valores nacionais” e que simbolizassem o orgulho da nação.
  3. Um projeto de reeducação da sociedade, que deveria aceitar um novo conjunto de valores culturais e morais impostos pelo estado.
  4. Liderança política exercida de forma carismática e personalista, com forte apelo ao culto à autoridade maior do regime.
  5. Militarização da sociedade, com a criação de milícias apartadas das forças armadas tradicionais do país e comandadas diretamente pelo líder do regime.

Em maior ou menor grau, diversos ditadores além de Mussolini e Hitler poderiam ser classificados como fascistas – ou como você definiria, por exemplo, o Getúlio Vargas do Estado Novo, o general argentino Leopoldo Galtieri ou o coronel Hugo Chávez? Mas colocar essa pecha num governo americano, do Partido Democrata, é ser politicamente incorreto, mesmo que essa seja totalmente defensável.

Woodrow Wilson não entrou para a história como um fascista (em parte, um erro resgatado por Jonah Goldberg em “Liberal Fascism”), mas seu governo puxou a democracia americana até o limite e além, quase duas décadas antes de Mussolini e Hitler chegarem ao poder.

Para resumir o que esse progressista fez na Casa Branca, ele foi o primeiro presidente americano a:

  • Ridicularizar os pais fundadores e a Constituição, lutando ferozmente para apagar o legado de ambos.
  • Criar um departamento estatal de propaganda política e controle da imprensa
  • Prender opositores por crime de opinião como em qualquer estado policial
  • Criar milícias para espionar cidadãos comuns e descobrir “traidores da nação” (quase 200 mil americanos foram presos por acusações de traição)
  • Inaugurar uma política de intervenção e controle estatal da economia e controle de preços
  • Instituir a famigerada Lei Seca
  • Last but not least, idealizou o conteúdo do que viria a ser o Tratado de Versailles, que humilhou a Alemanha no final da Primeira Guerra e que, em última instância, causou a Segunda Guerra Mundial.

Em 1933, o ex-ministro de Wilson, Franklin Delano Roosevelt, devolve a presidência ao Partido Democrata depois de três gestões republicanas seguidas. Com FDR, parte do kit fascista é reeditado, especialmente no cenário econômico caótico do que viria a ser a Grande Depressão, que afundou a economia americana até o final dos anos 30 e deu aos anticapitalistas Mussolini e Hitler o discurso que precisavam para demonizar a economia de mercado e subir ao poder.

Os regimes fascistas de Mussolini e Hitler, a despeito do governo de Woodrow Wilson, foram devidamente condenados pelo tribunal da história. Tanto a Alemanha quanto a Itália aprenderam tão duramente a lição que é difícil imaginar que políticos com as mesmas características consigam novamente densidade eleitoral. Mas os EUA, aprenderam com a sua própria experiência fascista?

É possível garantir que hoje o povo americano está livre para sempre de aventuras que incluam presidentes festejados em cultos populistas à personalidade em regimes que demonização adversários, têm relações promíscuas com a imprensa, constroem de grandes aparatos de espionagem e controle dos cidadãos com forte intervenção e regulação estatal da economia?

Respostas para a Avenida Pensilvania, 1600.

* DIRETOR DO INSTITUTO LIBERAL

A Dog Whistle To The Left

Intelectuais e raça – o estrago incorrigível

Por Thomas Sowell. Versão em português publicada originalmente no site do Instituto Ludwig von Mises.

Thomas Sowell, um dos mais influentes economistas americanos, é membro sênior da Hoover Institution da Universidade de Stanford.
Há tantas falácias ditas sobre raça, que é difícil escolher qual é a mais ridícula. No entanto, uma falácia que costuma se sobressair é aquela que afirma haver algo de errado com o fato de que as diferentes raças são representadas de forma numericamente desproporcional em várias instituições, carreiras ou em diferentes níveis de renda e de feitos empreendedoriais.

Cem anos atrás, o fato de pessoas de diferentes antecedentes raciais apresentarem taxas de sucesso extremamente discrepantes em termos de cultura, educação, realizações econômicas e empreendedoriais era visto como prova de que algumas raças eram geneticamente superiores a outras.

Algumas raças eram consideradas tão geneticamente inferiores, que a eugenia foi proposta como forma de reduzir sua reprodução. O antropólogo Francis Galton chegou a exortar “a gradual extinção de uma raça inferior”.

E as pessoas que diziam essas coisas não eram meros lunáticos extremistas. Muitos deles eram Ph.D.s oriundos de várias universidades de ponta, lecionavam nas principais universidades do mundo e eram internacionalmente reputados.

Reitores da Universidade de Stanford e do MIT estavam entre os vários acadêmicos defensores de teorias sobre inferioridade racial — as quais eram aplicadas majoritariamente aos povos do Leste Europeu e do sul da Europa, uma vez que, à época, era dado como certo o fato de que os negros eram inferiores.

E este não era um assunto que dividia esquerda e direita. Os principais proponentes de teorias sobre superioridade e inferioridade genética eram figuras icônicas da esquerda, de ambos os lados do Atlântico.

John Maynard Keynes ajudou a criar a Sociedade Eugênica de Cambridge. Intelectuais adeptos do socialismo fabiano, como H.G. Wells e George Bernard Shaw, estavam entre os vários esquerdistas defensores da eugenia.

Foi praticamente a mesma história nos EUA. O presidente democrata Woodrow Wilson, como vários outros progressistas da época, eram sólidos defensores de noções de superioridade e inferioridade racial. Ele exibiu o filme O Nascimento de uma Nação, que glorificava a Ku Klux Klan, na Casa Branca, e convidou vários dignitários para a sessão.

Tais visões dominaram as primeiras duas décadas do século XX.

Agora, avancemos para as últimas décadas do século XX. A esquerda política desta era já havia se movido para o lado oposto do espectro das questões raciais. No entanto, ela também considerava que as diferenças de sucesso entre grupos étnicos e raciais era algo atípico, e clamava por uma explicação única, vasta e arrebatadora.

Desta feita, em vez de os genes serem a razão predominante para as diferenças nos êxitos pessoais, o racismo se tornou o motivo que explicava tudo. Mas o dogmatismo continuava o mesmo. Aqueles que ousassem discordar, ou até mesmo questionar o dogma predominante em ambas as eras, era tachado de “sentimentalista” no início do século XX e de “racista” na era multicultural.

Tanto os progressistas do início do século XX quanto os novos progressistas do final do século XX partiram da mesma falsa premissa — a saber, que há algo de estranho quando diferentes grupos raciais e étnicos alcançam diferentes níveis de realizações.

No entanto, o fato é que minorais raciais e étnicas sempre foram as proprietárias — ou gerentes — de mais da metade de todas as principais indústrias de vários países. Dentre estas minorias bem-sucedidas, temos os chineses na Malásia, os libaneses na África Ocidental, os gregos no Império Otomano, os bretões na Argentina, os indianos em Fiji, os judeus na Polônia, os espanhóis no Chile — entre vários outros.

Não apenas diferentes grupos raciais e étnicos, como também nações e civilizações inteiras apresentaram níveis de realizações extremamente distintos ao longo dos séculos. A China do século XV era muito mais avançada do que qualquer país europeu. Com o tempo, no entanto, os europeus ultrapassaram os chineses — e não há nenhuma evidência de ter havido alterações nos genes de nenhuma destas civilizações.

Dentre os vários motivos para estes diferentes níveis de realizações está algo tão simples quanto a idade.  A média de idade na Alemanha e no Japão é de mais de 40 anos, ao passo que a média de idade no Afeganistão e no Iêmen é de menos de 20 anos. Mesmo que as pessoas destes quatro países tivessem absolutamente o mesmo potencial intelectual, o mesmo histórico, a mesma cultura — e os países apresentassem rigorosamente as mesmas características geográficas —, o fato de que as pessoas de determinados países possuem 20 anos a mais de experiência do que as pessoas de outros países ainda seria o suficiente para fazer com que resultados econômicos e pessoais idênticos sejam virtualmente impossíveis.

Acrescente o fato de que diferentes raças se desenvolveram em diferentes arranjos geográficos, os quais apresentaram oportunidades e restrições extremamente diferenciadas ao seu desenvolvimento, e as conclusões serão as mesmas.

No entanto, a ideia de que diferentes níveis de realização são coisas atípicas — se não sinistras — tem sido repetida ad nauseam pelos mais diferenciados tipos de pessoas, desde o demagogo de esquina até as mais altas eminências do Supremo Tribunal.

Quando finalmente reconhecermos que as grandes diferenças de realizações entre as raças, nações e civilizações têm sido a regra, e não a exceção, ao longo de toda a história escrita, restará ao menos a esperança de que haja pensamentos mais racionais — e talvez até mesmo alguns esforços construtivos para ajudar todas as pessoas a progredirem.

Até mesmo um patriota britânico como Winston Churchill certa vez disse que “Devemos Londres a Roma” — um reconhecimento de que foram os conquistadores romanos que criaram a mais famosa cidade britânica, em uma época em que os antigos bretões eram incapazes de realizar esta façanha por conta própria.

Ninguém que conhecesse os iletrados e atrasados bretões daquela era poderia imaginar que algum dia os britânicos criariam um império vastamente maior do que o Império Romano — um império que abrangeria um quarto de toda a área terrestre do globo e um quarto dos seres humanos do planeta.

A história apresenta vários exemplos dramáticos de ascensão e queda de povos e nações, por uma variada gama de motivos conhecidos e desconhecidos. Mas há um fenômeno que não possui confirmação histórica, um fenômeno que, não obstante esta ausência de exemplos práticos, é hoje presumido como sendo a norma: igualdade de realizações grupais em um dado período do tempo.

As conquistas romanas tiveram repercussões históricas por séculos após a queda do Império Romano.  Um dos vários legados da civilização romana foi o alfabeto latino, o qual gerou versões escritas dos idiomas da Europa ocidental séculos antes de os idiomas do Leste Europeu serem transformados em letras. Esta foi uma das várias razões por que a Europa ocidental se tornou mais desenvolvida que a Europa Oriental em termos econômicos, educacionais e tecnológicos.

Enquanto isso, as façanhas de outras civilizações — tanto da China quanto do Oriente Médio — ocorreram muito antes das façanhas do Ocidente, embora a China e o Oriente Médio posteriormente viessem a perder suas vantagens.

Há tantas reviravoltas documentadas ao longo da história, que é impossível acreditar que um único fator sobrepujante seja capaz de explicar tudo, ou quase tudo, do que já aconteceu ou do que está acontecendo. O que realmente se sabe é que raramente, para não dizer nunca, ocorreram façanhas iguais alcançadas por diferentes pessoas ao mesmo tempo.

No entanto, o que mais temos hoje são grupos de interesse e movimentos sociais apresentando estatísticas — que são solenemente repercutidas pela mídia — alegando que, dado que os números não são aproximadamente iguais para todos, isso seria uma prova de que alguém foi discriminatório com outro alguém.

Se os negros apresentam diferentes padrões ocupacionais ou diferentes padrões gerais em relação aos brancos, isso já basta para despertar grandes suspeitas entre os sociólogos — ainda que diferentes grupos de brancos sempre tenham apresentado diferentes padrões de realizações entre si.

Quando os soldados americanos da Primeira Guerra Mundial foram submetidos a exames mentais durante a Primeira Guerra Mundial, aqueles homens de ascendência alemã pontuaram mais alto do que aqueles de ascendência irlandesa, sendo que estes pontuaram mais alto do que aqueles que eram judeus.  Carl Brigham, o pioneiro do campo da psicometria, disse à época que os resultados dos exames mentais do exército tendiam a “desmentir a popular crença de que o judeu é altamente inteligente”.

Uma explicação alternativa é que a maioria dos imigrantes alemães se mudou para os EUA décadas antes da maioria dos imigrantes irlandeses, os quais por sua vez se mudaram para os EUA décadas antes da maioria dos imigrantes judeus. Alguns anos depois, Brigham viria a admitir que a maioria dos mais recentes imigrantes havia sido criada em lares onde o inglês não era a língua falada, e que suas conclusões anteriores, em suas próprias palavras, “não possuíam fundamentos”.

Nessa época, os judeus já estavam pontuando acima da média nacional dos exames mentais, e não abaixo.

Disparidades entre pessoas do mesmo grupo, em qualquer área que seja, não são obviamente uma realidade imutável. Mas uma igualdade geral de resultados raramente já foi testemunhada em qualquer período da história — seja em termos de habilidades laborais ou em termos de taxas de alcoolismo ou em termos de quaisquer outras diferenças — entre aqueles vários grupos que hoje são ajuntados e classificados como “brancos”.

Sendo assim, por que então as diferenças estatísticas entre negros e brancos produzem afirmações tão dogmáticas — e geram tantas ações judiciais e trabalhistas por discriminação — sendo que a própria história mostra que sempre foi comum que diferentes grupos seguissem diferenciados padrões ocupacionais ou de comportamento?

Um dos motivos é que ações judiciais não necessitam de nada mais do que diferenças estatísticas para produzir vereditos, ou acordos fora de tribunais, no valor de vultosas somas monetárias. E o motivo de isso ocorrer é porque várias pessoas aceitam a infundada presunção de que há algo de estranho e sinistro quando diferentes pessoas apresentam diferentes graus de êxito pessoal.

O desejo de intelectuais de criar alguma grande teoria que seja capaz de explicar padrões complexos por meio de algum simples e solitário fator produziu várias ideias que não resistem a nenhum escrutínio, mas que não obstante têm aceitação generalizada — e, algumas vezes, consequências catastróficas — em vários países ao redor do mundo.

A teoria do determinismo genético, que predominou no início do século XX, levou a várias consequências desastrosas, desde a segregação racial até o Holocausto. A teoria atualmente predominante é a de que algum tipo de maldade explica as diferenças nos níveis de realizações entre os vários grupos étnicos e raciais. Se os resultados letais desta teoria hoje em voga gerariam tantas mortes quanto no Holocausto é uma pergunta cuja resposta requereria um detalhado estudo sobre a história de rompantes letais contra determinados grupos odiados por causa de seu sucesso.

Estes rompantes letais incluem a homicida violência em massa contra os judeus na Europa, os chineses no sudeste asiático, os armênios no Império Otomano, e os Ibos na Nigéria, entre outros.  Exemplos de chacinas em massa baseadas em classes sociais e voltadas contra pessoas bem-sucedidas vão desde os extermínios estalinistas dos kulaks na União Soviética até a limpeza promovida por Pol Pot de pelo menos um quarto da população do Camboja pelo crime de serem pessoas cultas e de classe média, crime este que era evidenciado por sinais tão tênues quanto o uso de óculos.

Minorias que se sobressaíram e se tornaram mais bem-sucedidas do que a população geral são aquelas cujo progresso provavelmente em nada está ligado ao fato de terem ou não discriminado as maiorias politicamente dominantes. No entanto, foram exatamente estas minorias que atraíram as mais violentas perseguições ao longo dos séculos e dos países ao redor do mundo.

Todos os negros que foram linchados durante toda a história dos EUA não chegam ao mesmo número de homicídios cometidos em apenas um ano contra os judeus na Europa, contra os armênios no Império Otomano ou contra os chineses no sudeste asiático.

Há algo inerente aos sucessos de determinados grupos que inflama as massas em épocas e lugares tão distintos. O que seria? Esse fenômeno inflama não apenas as massas, como também leva a genocídios cometidos por governos, como os da Alemanha nazista ou o regime de Pol Pot no Camboja. Podemos apenas especular as razões, mas não há como fugir desta realidade.

Aqueles grupos que ficam para trás frequentemente culpam seu atraso nas malfeitorias cometidas por aqueles grupos mais bem-sucedidos. Dado que a santidade não é comum a nenhum ramo da raça humana, é óbvio que nunca haverá escassez de pecados a serem mencionados, inclusive a arrogância e a insolência daqueles que calham de estar no topo em um determinado momento. Mas a real pergunta a ser feita é se esses pecados — reais ou imaginários — são de fato o motivo destes diferentes níveis de êxitos pessoais.

O problema é que os intelectuais — pessoas de quem normalmente esperaríamos análises racionais que se contrapusessem à histeria das massas — frequentemente sempre estiveram na vanguarda daqueles movimentos que promovem a inveja e o ressentimento contra os bem-sucedidos. Tal comportamento é especialmente perceptível naquelas pessoas que possuem diplomas mas que não possuem nenhuma habilidade economicamente significativa que lhes permita obter aquele tipo de recompensa que elas esperavam ou julgavam ter o direito de auferir.

Tais pessoas sempre se destacaram como líderes e seguidoras de grupos que promoveram políticas anti-semitas na Europa entre as duas guerras mundiais, o tribalismo na África, e as mudanças sociais no Sri Lanka, um país que, outrora famoso por sua harmonia intergrupal, se rebaixou, por influência de intelectuais, à violência étnica e depois se degenerou em uma guerra civil que durou décadas e produziu indescritíveis atrocidades.

Intelectuais sempre estiveram por trás da inflamação de um grupo contra outros, promovendo a discriminação e a violência física em países tão díspares quanto Índia, Hungria, Nigéria, Tchecoslováquia e Canadá.

Tanto a teoria do determinismo genético como sendo a causa dos diferentes níveis de realizações pessoais quanto a teoria da discriminação como o motivo destas diferenças, ambas contraditórias e criadas por intelectuais, geraram apenas polarizações raciais e étnicas. O mesmo pode ser dito da ideia de que uma dessas teorias tem de ser a verdadeira.

Essa falsa dicotomia de que uma delas tem de ser a verdadeira deixa aos grupos mais bem-sucedidos duas opções: ou eles se assumem arrogantes ou se assumem culpados criminalmente. Da mesma forma, deixa aos grupos menos exitosos a opção entre acreditar que sempre foram inerentemente inferiores durante toda a história ou que são vítimas da inescrupulosa maldade de terceiros.

Quando inumeráveis fatores fazem com que a igualdade de resultados seja virtualmente impossível, reduzir estes fatores a uma questão de genes ou de maldade é a fórmula perfeita para se gerar uma desnecessária e perigosa polarização, cujas consequências frequentemente são escritas em sangue ao longo das páginas da história.

Dentre as várias e ignaras ideias a respeito de grupos raciais e étnicos que polarizaram as sociedades durante séculos e ao redor de todo o mundo, poucas foram mais irracionais e contraproducentes do que os atuais dogmas do multiculturalismo.

Aqueles intelectuais que imaginam que, ao utilizar uma retórica multicultural que redefine e até mesmo revoga o conceito de atraso, estarão ajudando grupos raciais e étnicos que ficaram para trás estão, na realidade, levando estas pessoas para um beco sem saída.

O multiculturalismo é um tentador paliativo aplicado àqueles grupos que ficaram para trás porque ele simplesmente afirma que todas as culturas são iguais, ou “igualmente válidas”, em algum sentido vago e sublime. De acordo com este dogma, as características culturais de todas as etnias e raças seriam apenas diferentes — nem melhores nem piores.

No entanto, tomar emprestadas características particulares de outras culturas — como os algarismos arábicos que substituíram os algarismos romanos, mesmo nas culturas ocidentais oriundas de Roma — implica que algumas características não são simplesmente diferentes, mas sim melhores, inclusive os números utilizados. Algumas das mais avançadas culturas de toda a história pegaram emprestados comportamentos e características de outras culturas; e isso pelo simples fato de que até hoje nenhuma coleção única de seres humanos foi capaz de criar as melhores respostas para todas as questões da vida.

Todavia, dado que os multiculturalistas veem todas as culturas como sendo iguais ou “igualmente válidas”, eles não veem nenhuma justificativa para as escolas insistirem, por exemplo, que as crianças negras aprendam seu idioma materno. Em vez disso, cada grupo é estimulado a se apegar ferreamente à sua própria cultura e a se orgulhar de suas próprias glórias passadas, reais ou imaginárias.

Em outras palavras, membros de grupos minoritários que são atrasados educacionalmente e economicamente devem continuar se comportando no futuro como sempre se comportaram no passado — e, se eles não conseguirem os mesmos resultados dos outros, então a culpa é da sociedade. Essa é a mensagem principal do multiculturalismo.

George Orwell certa vez disse que algumas ideias são tão insensatas, que somente um intelectual poderia acreditar nelas. O multiculturalismo é uma dessas ideias. A intelligentsia sempre irrompe em indignação e ultrajes a qualquer “diferença” ou “disparidade” de resultados educacionais, econômicos ou outros — e denuncia qualquer explicação cultural para esta diferença de resultados como sendo uma odiosa tentativa de “culpar a vítima”.

Não há dúvidas de que algumas raças ou até mesmo nações inteiras foram vitimadas por terceiros, assim como não há dúvida de que câncer pode causar morte. Porém, isso é muito diferente de dizer que as mortes podem automaticamente ser imputadas ao câncer. Você pode pensar que intelectuais seriam capazes de fazer essa distinção. Mas muitos não são.

Ainda assim, intelectuais se veem a si próprios como amigos, aliados e defensores das minorias raciais, ao mesmo tempo em que empurram as minorias para a estagnação cultural. Isso permite à intelligentsia se congratular e se lisonjear de que estão ao lado dos anjos contra as forças do mal que estão conspirando para manter as minorias oprimidas.

Por que pessoas com altos níveis de capacidade mental e de talentos retóricos se entregam a este tipo de raciocínio deturpado é um mistério. Talvez seja porque elas não conseguem abrir mão de uma visão social que é extremamente lisonjeira para eles próprios, não obstante quão deletéria tal visão possa ser para as pessoas a quem elas alegam estar ajudando.

O multiculturalismo, assim como o sistema de castas, encurrala e amarra as pessoas naquele mesmo segmento cultural e social no qual elas nasceram. A diferença é que o sistema de castas ao menos não alega beneficiar aqueles que estão na extremidade inferior.

O multiculturalismo não serve apenas aos interesses ególatras dos intelectuais; ele serve também aos interesses de políticos que têm todos os incentivos para promover uma sensação de vitimização — e até mesmo de paranóia — entre grupos de cujos votos eles precisam em troca de apoio material e psicológico.

A visão multicultural do mundo também serve aos interesses daqueles que estão na mídia e que prosperam ao explorar os melodramas morais. O mesmo pode ser dito de todos os departamentos universitários voltados para estudos étnicos e sociais, bem como de toda a indústria de assistentes sociais, de especialistas em “diversidades” e da ampla gama de vigaristas que prosperam ao fazer proselitismo racial.

Os maiores perdedores de toda essa história são aqueles membros das minorias raciais que se permitem ser conduzidos para esse beco sem saída do ressentimento e da raiva, mesmo quando há várias outras avenidas de oportunidades disponíveis. E todos nós perdemos quando a sociedade fica polarizada.


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