A Conquista do Brasil (Parte IV)

Dando continuidade à nossa série de artigos A Conquista do Brasil, o presente artigo busca fazer um apanhado dos grupos envolvidos nesse processo de ocupação do território brasileiro. Não podemos falar sobre todos eles, dada a grande diversidade étnica e linguística do continente sul-americano quando da chegada dos europeus, mas abordaremos os de mais destaque na História.

1. Tupis e Guaranis

Uma lenda nos conta que Tupi e Guarani, dois irmãos gêmeos, ficaram inimigos por causa das contínuas brigas entre suas mulheres e decidiram separar-se. Tupi se dirigiu para o norte, e Guarani para o sul.

Os descendentes destes irmãos míticos penetraram na selva. Os guaranis, empregando canoas e balsas para viajar pelos rios, escolhiam um lugar e ali levantavam sua aldeia e praticavam a agricultura. Como em pouco tempo seus campos de cultivo perdiam a fertilidade, os guaranis tinham que pegar suas posses e mudar-se em busca de melhores terras.

A ocupação de novos territórios nem sempre foi pacífica. Às vezes encontravam tribos muito fortes que lhes impediam de avançar, e tinham de mudar a rota. Outras vezes, no entanto, conquistaram violentamente e guaranizaram os vencidos.

Sabe-se que há mais de mil anos os guaranis iniciaram uma grande migração até o sul desde o coração das selvas sulamericanas.

Mapa ilustrando possíveis rotas de dispersão dos Tupis e Guaranis.

Basicamente, todos os grupamentos indígenas de língua tupi pertencem à nação Tupi. Os tupis, no entanto, possuem divisões e conflitos intertribais, como os que ocorriam entre tupinambás e tupiniquins. Por este motivo, cada grupo é descrito com um nome distinto (maracajá, potiguara, tabajara, etc). Estes nomes distintos podem ser autônimos ou termos, às vezes pejorativos, inventados por outros povos. Os temiminós, por exemplo, são chamados de “maracajás” (gatos-do-mato).

1.1 – Tupinambás ou tamoios?
O termo tupinambá provavelmente significa o mais antigo ou o primeiro e se refere a uma grande nação de índios tupi. Os tupis dominavam quase todo o litoral brasileiro e possuíam uma língua comum, que teve sua gramática organizada pelos jesuítas e que passou a ser conhecida como o tupi antigo, constituindo a raíz da língua geral paulista e do nheengatu. Entretanto, quando se menciona o tupinambá, pode-se estar referindo na verdade às tribos que fizeram parte da Confederação dos Tamoios, cujo objetivo era lutar contra os colonizadores portugueses.

Apesar de terem raízes comuns, as diversas tribos que compunham a nação Tupi lutavam constantemente entre si, travando guerras tribais nas quais os prisioneiros eram capturados para serem devorados em rituais antropofágicos.

Ilustração do ritual antropofágico dos tupis. O cativo, amarrado, será golpeado na cabeça até a morte e posteriormente será cortado em pedaços, preparado e consumido pelos membros da tribo.

Os tupis da Região Sudeste do Brasil tinham um vasto território, que se estendia desde o Rio Juqueriquerê, em São Sebastião / Caraguatatuba, no estado de São Paulo, até o Cabo de São Tomé, no estado do Rio de Janeiro.

O grosso da nação tupinambá vivia na Baía da Guanabara e em Cabo Frio, onde fabricavam o gecay – tempero nativo feito de sal grosso moído (extraído da lagoa salgada de Araruama) e pimenta vermelha gigante – e o vendiam aos franceses, com os quais se aliaram quando estes estabeleceram a sua colônia na Baía da Guanabara: a França Antártica.

Cunhambebe.

As tentativas de escravização dos índios para servirem nos engenhos de cana-de-açúcar no núcleo vicentino levaram à união das tribos na Confederação dos Tamoios, englobando todas as aldeias tupinambás desde o Vale do Paraíba Paulista até o Cabo de São Tomé, com invejável poderio de guerra.

Líderes notáveis: Cunhambebe, Pindobuçu, Coaquira, Guayxará, Aimberê.
População estimada no século XVI, segundo IBGE:  110 mil (tupinambás) e 60 mil tamoios.

1.2 – Guaranis ou carijós – Os guaranis se assentaram sobretudo na região Sul e sudeste – o que lhes permitiu uma expansão bastante intrusiva na região do Prata. Em boa parte das regiões litorâneas do sul e do sudeste do Brasil, bem como na bacia dos rios Paraná e Prata, foram os guaranis os primeiros a serem contatados pelos europeus.

A região Guarani do passado delimitava-se originalmente a Oeste do rio Paraguai e ao Sul da confluência deste rio com o Paraná. O Oceano Atlântico era o seu limite oriental, entre Paranaguá, no litoral brasileiro e a fronteira entre o Brasil e o Uruguai de hoje. Os Guarani dominaram uma região de pelo menos 350.000 km2 (Clastres, 1974).

Maloca Guaraní, quadro de Aldo Chiappe.

O povo guarani possuiu, desde o início, um caráter intrusivo na região platense. Sua entrada foi violenta e determinou uma existência constantemente ofensiva e defensiva a respeito das populações aborígenes não guaranis que habitavam a região.

Grandes grupos de guaranis foram aldeados pelos jesuítas e reunidos nas missões (ou reduções). Nestes povoamentos foram introduzidas técnicas européias de construção e carpintaria e praticava-se a agricultura e a pecuária. Os guaranis chegaram a ser alfabetizados, de modo que há registro de suas comunicações através de cartas e bilhetes em guarani e português. No entanto, as missões jesuítas sofreram fortes golpes das expedições militares de bandeirantes, tanto portugueses quanto espanhóis, às quais opuseram resistência armada com auxílio dos jesuítas.

Líderes notáveis: Sepé Tiaraju, Nheçu, Inácio Abiaru, Nicolau Nhenguiru.
População estimada no século XVI, segundo IBGE: 81 mil (dos quais 25 mil “carijós”)

1.3 – Tupiniquins – Foram os primeiros nativos a contactar os portugueses. Antes mesmo dos portugueses desembarcarem na costa brasileira, dois índios tupiniquins haviam visitado a embarcação de Cabral, feito esse registrado na Carta de Pero Vaz de Caminha ao Rei Manuel.

Havia tupiniquins no centro-sul da Bahia, mas a maior concentração da tribo era na região da atual Grande São Paulo. Um subgrupo tupiniquim, os guaianases, dominava o litoral sul de São Paulo até regiões perto da cidade de São Sebastião (SP).

Tibiriçá.

Foram catequizados por jesuítas, em Aldeia Nova, sofrendo com pragas exógenas como a varíola e endógenas como as formigas, que lhes destruíam as plantações.

Em 1610 o Padre João Martins obteve para os nativos uma sesmaria, território cujo principal centro era a vila de Nova Almeida que, na data de sua demarcação (1760), contava três mil habitantes.

Foram importantes aliados dos portugueses na Bahia e lutaram contra os Tupinambá, que apoiavam os franceses.

Líderes notáveis: Tibiriçá.
População estimada no século XVI, segundo IBGE: 90 mil.

1.4 – Temiminós ou maracajás– Habitavam principalmente o litoral da região sudeste brasileira. Eram inimigos habituais dos tupinambás. Os temiminós aliaram-se aos portugueses contra os franceses e os tupinambás, seus inimigos.

Um de seus principais centros territoriais foi a atual Ilha do Governador, na época, chamada Paranapuã (“mar redondo”) pelos tupis e Ilha do Gato pelos portugueses. Outra região ocupada pelos temiminós foi o litoral do atual estado do Espírito Santo.

O instante melhor conhecido da história temininó se relaciona com a criação e destruição da França Antártica. Em 1554, os tupinambás da Confederação dos Tamoios, ajudados por franceses, atacaram os temiminós na ilha de Paranapuã e os expulsaram da Baía da Guanabara. Os temininós, liderados pelo chefe Maracajá-guaçu, foram ajudados pelos portugueses na viagem que fizeram até encontrarem a outra parte de sua nação, no atual estado do Espírito Santo. Nessa capitania, fundaram, com os Jesuítas, uma aldeia que deu origem à atual cidade de Serra.

Em 1567 os temininós, liderados por Araribóia (filho de Maracajá-guaçú), juntaram-se aos portugueses e destruíram as fortificações dos franceses e tamoios na Baía da Guanabara. A convite dos portugueses, Araribóia passou a residir no local onde atualmente é o bairro de São Cristóvão, na cidade do Rio de Janeiro. Alguns anos depois, em 1573, Araribóia e os temiminós se mudaram para o outro lado da entrada da Baía da Guanabara, onde tinham a missão de proteger a entrada da baía. Nessa região, os temiminós fundaram São Lourenço dos Índios, que foi o início da atual cidade de Niterói.

Líderes notáveis: Maracajá-guaçú, Araribóia.

1.5 – Potiguaras –  Habitavam o litoral do atuais estados da Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará e seu contato com europeus remonta às primeiras tentativas de colonização e comércio com a América do Sul.

Os quinhentistas e seiscentistas escreveram de posições bastante distintas sobre eles. Do ponto de vista dos cronistas e viajantes, se enquadravam na categoria “gentios bravos”, justificando-se assim a necessidade de “amansá-los”. Constituíram, ao longo das tentativas de colonização, entraves à exploração portuguesa.

O cotidiano da capitania de Itamaracá (Paraíba) era tomado pelo embate com os “gentios”, aliados dos franceses, cuja cultura tinha na honra guerreira o seu valor fundamental. A aliança do espírito guerreiro indígena com o interesse mercantil francês impediu o sucesso das expedições de conquista e ocupação portuguesa. Para se ter uma idéia do papel preponderante dos guerreiros indígenas, as tentativas de conquistar a Paraíba foram fracassadas durante todo o século XVI pela determinação dos Potiguara na defesa do seu território. A aliança com os franceses foi decisiva no ano de 1586, quando sete navios franceses aportaram na Baía da Traição com pessoas e munição para se juntarem aos índios e lutarem contra os portugueses, aliados dos Tabajara, inimigos tradicionais dos Potiguara. Foram destruídas três aldeias Potiguara na Serra da Copaoba, mas os Potiguara resistiram e saíram vitoriosos.

No final da década de 80 do século XVI, os Potiguara cercaram a cidade de N. Sra. das Neves (atual João Pessoa), enquanto as aldeias desses índios em Baía da Traição eram destruídas pelos portugueses e aliados, sendo motivo da rendição dos Potiguara e da fuga de alguns para a Capitania do Rio Grande. Em 1599, os Potiguara fizeram as pazes com os portugueses, depois de terem perdido o apoio dos franceses (derrotados em 1597) e após uma epidemia de varíola ter dizimado a sua população.

Antônio Filipe Camarão

A subjugação dos Potiguara se deu pela mediação de Ilha Grande, índio aprisionado pelos portugueses que dispunha de forte influência por sua posição de xamã. Ilha Grande foi libertado e instruído para induzir os índios à paz. O temido e respeitado xamã convenceu os chefes Potiguara do interesse e da necessidade em cessar as hostilidades contra os portugueses.

Após longos e sangrentos conflitos envolvendo os Potiguara e os invasores portugueses, a região compreendida entre os Estados de Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará foi conquistada. Mas a paz duraria até a chegada dos holandeses e sua aliança com os Potiguara.

Líderes notáveis: Zorobabé, Filipe Camarão.
População estimada no século XVI, segundo IBGE:   90 mil.

1.6 – Tabajaras – Habitavam a zona da mata e o agreste paraibano e pernambucano. Extintos pela miscigenação, seu território estendia-se da Ilha de Itamaracá até o rio Paraíba, adentrando pelo Agreste até o vale do rio Pajeú.

Os grupos que se fixaram na serra da Ibiapaba, região montanhosa que nas divisas dos atuais estados do Ceará e Piauí, ficaram conhecidos nos registros históricos como Tabajara. Nesta região, viviam ainda inúmeros grupos tapuias, que eram de certa foram subordinados aos Tabajara.

Foram os primeiros nativos da região (Paraíba-Pernambuco) a entrar em contato com os conquistadores portugueses. Por seis meses Duarte Coelho teve seus desejos de colonização da parte oriental do Nordeste frustrados pela resistência dos potiguaras, inimigos dos tabajaras. Por fim, os conquistadores conseguiram uma aliança com os chefes indígenas tabajaras Pirajibe, Tabira e Itajiba e com eles dominaram completamente os temíveis potiguaras, conquistando o litoral paraibano.

Ainda no século XVII, após as invasões holandesas, centenas de índios Potiguara da Paraíba e Pernambuco, convertidos ao calvinismo, buscaram refúgio na Ibiapaba, até então, uma área livre do controle português.

No século XVIII quando os padres jesuítas conseguem finalmente instalar uma missão na serra da Ibiapaba esta vai ser composta por uma variedade de etnias indígenas, muitas vezes citadas na documentação como Tabajara. Essa população aldeada vai sendo incorporada ao projeto colonial paulatinamente, destacando-se a sua utilização como mão-de-obra agrícola e fornecimento de tropas para combater índios rebeldes e invasões estrangeiras. Com a elevação das aldeias missionárias à categoria de vilas de índios a partir de 1759, registra-se na capitania do Ceará uma grande dispersão dos índios aldeados. Na Ibiapaba, as aldeias missionárias constituirão as vilas de Viçosa, São Benedito e Ibiapina.

Líderes notáveis: Pirajibe, Tabira, Itajiba.

2. “Tapuias”

Composto por diversos grupos e etnias que habitavam principalmente o interior do continente, em detrimento dos tupis, que habitam sobretudo a costa. Não falam a língua tupi e o termo tapuia, que é tupi, significa “bárbaro”, “forasteiro” ou mesmo “inimigo”. Este portanto era um termo genérico tupi para qualquer índio não-tupi e que foi incorporado ao vocabulário português para designar índios do sertão e menos civilizados.

Dança dos Tapuias, quadro de Albert Eckhout.

Alguns povos indígenas que eram classificados como tapuias: cariris, tarairius, caraíbas, jês, canindés, etc. Diferente dos tupinambás, os tapuias eram descritos como endocanibalistas: ou seja, devoravam inclusive aqueles de sua própria tribo. Muitos grupos “tapuias” eram nômades e não tinham o hábito de construir casas, apenas habitações rudimentares.

A maior nação entre os tapuias era a dos índios de língua Jê. Foram expulsos do litoral pelos tupis, migrando para o interior do Brasil. Na época da safra de caju, os índios macro-jês do interior realizavam incursões ao litoral dominado pelos tupis para colher a fruta, ocasionando as chamadas “Guerras do Caju”. No entanto, algumas tribos resistiram e permaneceram na costa brasileira, como os tremembés, os aimorés e os goitacás. Os “tapuias” no entanto não tardaram a sucumbir perante as forças militares européias e tupis e doenças trazidas pelos europeus, como a varíola e o sarampo. Os goitacás, por exemplo, foram derrotados em 1631 e se dispersaram pelo interior dos atuais estados brasileiros de Rio de Janeiro, Espírito Santo e Minas Gerais, passando a ser conhecidos como puris, coroados e coropós.

2.1 – Jês– Dominavam todo o planalto central; na região que corresponde atualmente ao oeste de Minas Gerais, o Estado de Goiás e do Mato Grosso. Eram encontradas algumas tribos também no Maranhão e no Piauí. Inclui grupos como os kayapós, os bororo, os xavante, os kaingang, os karajá e os xokleng. O grupo ocupava mais de 65% do território brasileiro, sobretudo as áreas sertanejas.

Acredita-se que os povos macro-jês detinham a hegemonia sobre a maior parte do atual território brasileiro, até que, por volta do ano 1000, os povos do grupo linguístico macro-tupi, provenientes do sul da Amazônia, migraram para o leste, expulsando grande parte dos macro-jês que habitavam o litoral brasileiro e forçando-os a se alojarem no interior do Brasil, que possuía condições naturais menos propícias que o litoral. Na época da chegada dos colonizadores portugueses ao litoral brasileiro, ou seja, a partir do século XVI, as únicas exceções ao domínio tupi no litoral brasileiro eram os tremembés, nos atuais litorais do Maranhão, Piauí e Ceará; os aimorés, no sul da Baía e norte do Espírito Santo e os goitacazes, no norte do Rio de Janeiro e sul do Espírito Santo. Todos pertencentes ao grupo linguístico macro-jê.

Família de Botocudos em marcha, obra de Jean Baptiste Debret, 1834. Os botocudos eram parte da nação macro-jê e considerados muito agressivos pelos colonizadores.

Os macro-jês ofereceram grande resistência à colonização portuguesa do território brasileiro, sendo responsáveis pela morte de muitos colonos e pelo fracasso de muitas capitanias hereditárias, como a de Ilhéus, a de Porto Seguro, a do Espírito Santo e a de São Tomé.

Área de dispersão das línguas Jê.

Alguma tribos jês se aliaram aos neerlandeses, quando estes invadiram o nordeste brasileiro no século XVII. Por exemplo, a nação tarairiu, que ocupava o interior dos atuais estados brasileiros da Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará.

2.2 – Tremembés – Nos séculos XVI e XVII, os Tremembés ocupavam a extensa região litorânea que segue do atual Pará ao Ceará. Acredita-se que em época anterior tenham povoado até a foz do Açú ou mesmo o Cabo de São Roque, chegando ao Gurupi, no Pará.

Eram originalmente nômades, alimentavam-se de peixe e carne, embora fossem mais pescadores do que caçadores. Usavam cerâmica grosseira, cabaças e apreciavam muito o caju e a tartaruga. Plantavam mandioca e algodão e criavam cães. Moravam em choças construídas com ramos ou folhas de palmeira e dormiam nas areias das praias.

De espírito belicoso, chamaram a atenção dos viajantes espanhóis, franceses e portugueses. Pouco se conhecia sobre o seu sistema de parentesco e organização política. Sua língua também é desconhecida, restando apenas alguns vocábulos recolhidos na dança do Torém, ainda hoje executada na cidade de Almofala.

Com a colonização portuguesa, aldeamentos missionários foram criados ao longo das terras. No Ceará os índios se fixaram no aldeamento Aracati-mirim na chamada Missão Nossa Senhora da Conceição dos Tremembé, e foram aldeados pelos Jesuítas no século XVII nas missões de Tutoya (Tutóia-Maranhão), Aldeia do Cajueiro (Almofala) e Soure (Caucaia).

Líderes notáveis:

2.3 – Aimorés – Aimorés era o nome pelo qual os portugueses denominavam os nativos que habitavam a região sul da Bahia, Minas Gerais e Espírito Santo, principalmente nos vales do rio Jequitinhonha e do rio Doce. Foram os responsáveis pelo fracasso das capitanias de Ilhéus, Porto Seguro e Espírito Santo.

Para instalar a indústria açucareira na região sul do que hoje é a Bahia, era preciso arregimentar mão de obra escrava e, para isso, os colonos portugueses começaram a penetrar no território dos Aimoré. A reação foi imediata: já em 1546 os ataques dos aimorés se tornaram constantes e o donatário da capitania de Porto Seguro, Pero do Campo Tourinho, escreveu ao rei D. João III narrando a devastação ocorrida na Bahia e solicitando o envio de “artilharia, pólvora e munição”. Em pouco tempo, Ilhéus e Porto Seguro já estavam devastadas, e os aimorés chegaram até a realizar incursões à capitania da Bahia. Por volta de 1570, o senhor de engenho Gabriel Soares de Sousa escreveria em seu “Notícia do Brasil”:

Os oito engenhos que existiram na capitania dos Ilhéus, estes não fazem mais açúcar, nem há morador que lá ouse plantar cana, porque em indo os escravos ou os homens ao campo, não escapam do gentio Aimoré, dos quais foge toda a gente dos Ilhéus para a Bahia, e tem a terra quase despovoada”. De acordo com ele, Ilhéus fora “vila muito abastada e rica, que teve 400 até 500 vizinhos – e agora não conta com mais de cem.

Os que buscavam refúgio nas ilhas de Tinharé e Boipeva, logo foram também sitiados. Os Aimorés interrompiam as comunicações entre as capitanias de Ilhéus e Bahia – que eram unidas por uma trilha bem demarcada. Os Tupiniquim, ainda aliados dos portugueses, fugiram da luta e refugiaram-se no sertão.

O temor era justificado. Os aimorés, assim como os goitacás, eram inimigos fomidáveis, virtualmente imbatíveis quando confrontados em seu próprio território. Eram descritos como “gente esquisita e agreste, inimiga de todo o gênero humano”. Aqueles que caíam em seu poder nunca voltavam com vida para contar. O jesuíta Fernão Cardim os descreveu, em 1585, da seguinte maneira:

[…]gente barbaríssima, alheia a toda a humanidade, e onde o uso da razão parece estar mui apagado, e é a mais fera e cruel que há em todo o Brasil.

Faz também a seguinte descrição de seus costumes:

Os Aimoré ocupam 80 léguas de costa, e para o sertão quanto querem, e são senhores de matos selvagens, muito encorpados, e pela continuação do costume de andarem pelos matos bravos, tem os couros muito rijos, e para este efeito açoitam os meninos em pequenos com uns cardos para se acostumarem a andar pelos matos bravios; não tem roça, vivem de rapina e pela ponta de flecha, comem mandioca crua sem lhes fazer mal, e correm muito e aos brancos não dão senão de salto, e usam de uns arcos muito grandes e trazem uns paus muito grossos, para que em chegando logo quebrem as cabeças. Quando vêm à peleja, estão escondidos debaixo de folhas. São muito covardes em campo, e não ousam sair nem cruzam água, nem usam de embarcações, nem são dados a pescar, toda sua vivenda é do mato.

A descrição parece a de um grupo num estágio civilizacional realmente mais primitivo que o dos tupis dispersos pela costa do Brasil.

População estimada no século XVI, segundo IBGE:  30 mil.

2.4 – Goitacás – Habitavam a região costeira brasileira entre o Rio São Mateus, no atual estado brasileiro do Espírito Santo e o Rio Paraíba do Sul, no atual estado do Rio de Janeiro. Fisicamente, possuíam pele mais clara, e eram mais altos e robustos que os demais índios do litoral.

Mantinham comércio com os europeus, mas com uma peculiaridade: não se comunicavam com eles. Deixavam seus produtos em lugar mais elevado e limpo ficando a distância, observando as trocas. Davam mel, cera, peixe, caça e frutos em troca de enxadas, foices, aguardente e miçangas.

Trabalhavam o barro, enterrando seus mortos dentro de igaçabas (urnas funerárias). Faziam machados de pedra, jangadas, trabalhavam com bambu e trançavam redes de fibra e cordas.

Jean de Léry os descreve assim:

Andam nus, assim como fazem todos os brasileiros, e trazem os cabelos compridos e pendentes até as nádegas,contra o costume mais ordinário dos homens desse país, os quais”… “tosuram o cabelo na frente e o cerceiam na nuca.

2.5 – Aruaques (arahuacos, arawak, aruak) – São encontrados em diferentes partes da América do Sul – Bolívia, Brasil, Colômbia, Guiana, Paraguai, Peru, Venezuela e, outrora, também das Antilhas.

Ocupavam uma extensa zona geográfica compreendida em  parte do Amazonas e a ilha de Marajó. Fora do território brasileiro localizavam-se desde a Bolívia até  a costa setentrional da Venezuela, para o Norte chegaram  até a Flórida e para a o Sul atingiram a região do Paraguai. Eram considerados excelentes navegadores e em estágio bem adiantado de desenvolvimento possuindo agricultura organizada.

Indiaanse vrouwen, obra de P. J. Benoit, 1839. Duas mulheres aruaques do Suriname em trajes típicos. A da esquerda traz um adorno nasal.

Os aruaques foram os primeiros ameríndios a ter contato com os europeus: quando Cristóvão Colombo chegou às Bahamas, o navio atraiu a atenção dos nativos que foram ao encontro dos visitantes a nado.

No fim do século XV, os aruaques encontravam-se dispersos pela Amazônia, nas Antilhas, Bahamas, na Flórida e nos contrafortes da Cordilheira dos Andes. Os grupos mais conhecidos são os Tainos, que viviam principalmente na ilha de Hispaniola (Rep. Dominicana e Haiti), em Porto Rico e na parte oriental de Cuba.

2.6 – Caraíbas (caribes, karibs) – Povos indígenas das Pequenas Antilhas, que deram o nome ao mar do Caribe. Sua origem estaria no sul das Índias Ocidentais e na costa norte da América do Sul. Ocupavam a região do baixo Amazonas e parte do território do Amapá e Roraima.

Dispersão das línguas Caribe pelo continente sul-americano.

Acredita-se que os caraíbas tenham deixado as florestas tropicais do Orinoco, na Venezuela, para se estabelecer no Caribe. Nos séculos que antecederam a chegada de Cristóvão Colombo no arquipélago caribenho, em 1493, os caribes podem ter expulsado os igneris, povo de fala maipureana, da região norte das Pequenas Antilhas.

Os ilhéus também saqueavam e comerciavam com os tainos das Ilhas Virgens e de Porto Rico. Os caribes eram a fonte do ouro que Colombo encontrou em posse dos tainos: o ouro não era fundido pelos ameríndios das ilhas, mas sim obtido, através do comércio, de tribos do continente. Os caribes eram hábeis navegadores e construtores de embarcações, e aparentemente deviam sua hegemonia da bacia caribenha ao domínio das artes da guerra.

Os próprios caribes foram desalojados pelos europeus, e eventualmente foram todos exterminados ou assimilados durante o período colonial pelos espanhóis. Conseguiram, no entanto, manter o controle de algumas ilhas, como Dominica, São Vicente, Santa Lúcia e Trinidad.

2.7 – Charruas– Constituiam uma família formada por várias etnias: charruas, bohanos, guenoas e minuanos. Apesar de não serem etnias canoeiras, passavam de uma comarca a outra do Prata com facilidade.

Assentaram-se na margem setentrional do Rio da Prata, entre Maldonado e San Salvador, de acordo com muitos testemunhos da época da Conquista, ainda que depois do ano 1600 também tenham ocupado regiões mais setentrionais, até perto do rio Ibicuy e da Mesopotâmia argentina, ocupando então ambas as bandas do Uruguai.

Dispersão dos grupos Charrua.

Bohanos – Habitavam a costa costa oriental do Uruguai, ao norte do Rio Negro nas zonas de Salto, Paysandú e Río Negro. Algumas fontes os localizam também em Entre Rios. Foram absorvidos pelos charruas desde os princípios do século XVIII.

Guenoas – Localizavam-se entre o rio Uruguai e as costas do mar, entre Cabo Santa Catalina e o rio da Prata. Em fins do século XVII viviam errantes nos campos localizados a oeste do Rio Uruguai e ao sul das Missões Guaranis, de onde se transladaram ao território oriental, fixando-se finalmente na zona de Castillos (departamento de Rocha).

Minuanos – Localizavam-se nas planícies do norte do Paraná e Entre Ríos. Até 1630, passaram à margem oriental do rio Uruguai, onde se uniram aos charruas. Em sua maior extensão chegaram às lagoas Mirim e dos Patos. A fins do século XVIII e princípios do século XIX vagavam junto com os charruas na região nordeste do Uruguai, regressando então à Mesopotâmia argentina.

Charruas – Dedicavam-se principalmente à caça, ainda que também à pesca e à coleta. Suas armas eram as boleadeiras, arco e flechas, dardos, lanças, fundas e tacapes. Sua vestimenta compreendia um avental de couro e o “quillapí” ou manto de peles, que vestiam com o pêlo para dentro e adornado exteriormente de desenhos geométricos. Os homens usavam o tembetá e as mulheres adolescentes tinham o rosto tatuado.

Ao introduzir os espanhóis os cavalos e as vacas em território uruguaio (1611 e 1617), os charruas se adaptaram à equitação, domesticação de animais e uso do laço.

Os charruas se caracterizavam pela nudez, ainda que em épocas muito frias utilizassem um manto formado por pequenas peles (toropí ou quillapí). Conforme interagiam com os espanhóis, os charruas adaptaram chiripás, ponchos, pañuelos, camisetas, etc., mas não abandonaram seus quillapís, que davam boa proteção contra o frio e a chuva do território.

População estimada no século XVI: 35 mil.

3. Tapuiatingas, os europeus

Termo tupi para “inimigo branco”, ou “forasteiro branco”. Descreve europeus inimigos das nações tupi. Alguns exemplos de tapuiatinga são os perós (portugueses) e os maíras (franceses).

Os europeus chegaram ao território brasileiro no final do sécul XV, mais especificamente no ano de 1500 que marca o Descobrimento. Os primeiros europeus a entrar em contato com nativos do Brasil foram os portugueses. Como o processo de colonização não iniciou antes de 1532, os principais europeus que chegavam ao Brasil eram degredados, viajantes e missionários portugueses ou comerciantes franceses. A disputa pela colonização do Brasil entre portugueses e franceses inseriu-se no contexto dos conflitos indígenas e colocou-os como aliados ou inimigos potenciais.

3.1 – Maíras, os franceses– A colonização francesa nas Américas começa no século XVI, e continua nos séculos seguintes conforme a França estabelece um império colonial no hemisfério ocidental. A França fundou colônias no leste da América do Norte, em diversas ilhas do Caribe e na América do Sul. A maioria das colônias foram desenvolvidas para exportar produtos como peixe, açúcar e peles. Conforme colonizavam o Novo Mundo, os franceses estabeleceram fortes e assentamentos que viriam a tornar-se cidades como Québec e Montreal no Canadá; Detroit, St. Louis, Mobile, Baton Rouge e Nova Orleans nos Estados Unidos, Port-au-Prince e Cap-Haïtien no Haiti e São Luís no Brasil.

As invasões francesas ao Brasil registram-se desde os primeiros tempos da colonização portuguesa, chegando até ao ocaso do século XIX. Inicialmente dentro da contestação de Francisco I de França ao Tratado de Tordesilhas, ao arguir o paradeiro do testamento de Adão e incentivar a prática do corso para o escambo do pau-brasil, ainda no século XVI evoluiu para o apoio às tentativas de colonização no litoral do Rio de Janeiro (1555) e na costa do Maranhão (1594).

Da esquerda para a direita: o navegador Nicolas Durand de Villegagnon, o rei Louis XIII e o corsário René Duguay-Trouin.

A colônia que tentaram estabelecer no Rio de Janeiro foi chamada França Antártica. Ficaram a seu lado algumas tribos tupinambás, e ao lado dos portugueses os temiminós (maracajás).  A colônia estabelecida no Maranhão chamava-se França Equinocial.

No século XVIII o Brasil ainda sofreria tentativas de invasão por parte de corsários franceses como Duclerc e Duguay-Trouin em 1710 e 1711 respectivamente, além de uma invasão à Fernando de Noronha pela Companhia Francesa das Índias Ocidentais em 1736. Nos últimos anos do século XIX, a partir de 1895, ainda surgiriam conflitos fronteiriços entre o Brasil e a França nas regiões limítrofes entre o Amapá e a Guiana Francesa.

Líderes notáveis: Nicolas Durand de Villegagnon, Daniel de La Touche, rei Luis XIII.

3. 2 – Neerlandeses – Postos comerciais e plantações holandesas nas Américas precedem as mais conhecidas atividades coloniais holandesas na Ásia. Enquanto o primeiro forte holandês foi construído na Ásia em 1600, os primeiros fortes e assentamentos no rio Essequibo (Guiana) e na Amazônia são da década de 1590. Colonização, de fato, com assentamentos holandeses em novas terras, não era tão comum como foi com outras nações européias. Muitos dos assentamentos holandeses foram perdidos ou abandonados no fim do século, mas a Holanda conseguiu reter a possessão do Suriname até sua independência em 1975 e ainda mantém as Antilhas Holandesas e Aruba, que permanecem dentro do Reino da Holanda até hoje.

Os neerlandeses mantiveram colônias no Caribe pelo menos desde 1628. Dominaram as Antilhas Holandesas, Tobago e as Ilhas Virgens Holandesas. Mantiveram também colônias na América do Norte em regiões hoje dentro dos territórios estadunidenses e canadenses, como a colônia de Nova Holanda (entre a Virgínia Inglesa e o Canadá Francês). O primeiro assentamento holandês nas Américas foi fundado em 1615 e chamava-se Forte Nassau e ficava onde hoje é Albany, no estado de Nova Iorque. Outro Forte Nassau foi construído em 1623 no rio Delaware, Nova Jersey. Outras tantas foram fundadas na ilha de Manhattan, no rio Connecticut, no rio Little, etc. A perda da Nova Holanda na América do Norte levou à Segunda Guerra Anglo-Holandesa (1665-1667), conflito que terminou com o Tratado de Breda. O tratado cedia o território da Nova Holanda na América do Norte em troca do Suriname na América do Sul.

Jacob Willekens e Johan Maurits van Nassau-Siegen.

Em 1616 a Companhia das Índias Ocidentais Holandesas construiu um forte no rio Essequibo, Guiana. Lá foram estabelecidas plantações de cana de açúcar com trabalho escravo africano. A presença de ingleses na região das Guianas e do Suriname levou a diversos conflitos entre estas duas potências coloniais. O Suriname esteve sob controle inglês desde 1799 mas foi devolvido à Holanda em 1816. O Suriname foi vendido em 1683 para a Companhia das Índias Ocidentais e passou a chamar-se Guiana Holandesa.

Os neerlandeses também tentaram manter uma colônia no Brasil. Invadiram Salvador (então capital da Colônia) em 1624 aí ficando até 1º de maio 1625. A posterior invasão, em Pernambuco, de Olinda e Recife, constituiu um projeto de colonização que durou de 1630 a 1654. A Nova Holanda foi administrada de 1637 a 1644 por Maurício de Nassau, notável administrador.

Líderes notáveis: Jacob Willekens, Johan Van Dorth, Johan Maurits van Nassau-Siegen.

3.3 – Perós ou portugueses – Os portugueses já foram estudados no terceiro artigo da série, quando tratamos da Era das Navegações. Embora já houvessem aqui degredados, os historiadores situam o início da colonização por volta de 1530, quando começou a cultura da cana-de-açúcar e a instalação de engenhos para a fabricação do açúcar. Mas a implantação deste esquema exigia atividades complementares, secundárias porém fundamentais para a produção açucareira: a pecuária e a agricultura de subsistência, o que acabaria por demandar algum tipo de colonização.

Pedro Alvares Cabral, Rei Dom João III e Mem de Sá.

Líderes notáveis: Pedro Álvares Cabral, Duarte Coelho, Mem de Sá.

Bandeirantes – São normalmente retratados como figuras altivas, vestindo trajes, chapéu e botas. No entanto, não eram exatamente assim. Há trezentos anos, os “paulistas” tinham a fama de bárbaros.

Entre seus feitos estão a colonização do Piauí, a contenção de conflitos com os índios na Bahia, e incursões até o Sul do país que garantiram a posse de terras que de outra maneira teriam sido colonizadas por espanhóis.

Domingos Jorge Velho, como representado por Benedito Calixto em quadro de 1903.

Eram em geral pessoas pobres e analfabetas. Muitos deles mestiços descendentes diretos de índios. A influência indígena sobre o bandeirante é indispensável para a sua atuação, e ele incorpora diversos traços da vida indígena.

As tropas caminhavam descalças por extensos territórios, sujeitas a todo desconforto, vulneráveis a ataques de animais, tribos inimigas e à fome. Durante o processo de colonização, o bandeirante desenvolveu uma cultura própria muito distante dos padrões europeus.

Uma bandeira, nome que pode vir do costume tupiniquim de lavantar a bandeira em sinal de guerra, possuía divisão de tarefas e hierarquia. Seguem alguns exemplos:

Cabo da tropa ou capitão do arraial – o comandante, quase sempre um sertanista experiente. Incorporava às tropas seus filhos, parentes e agregados como auxiliares, o que tornava as bandeiras um negócio eminentemente familiar.

Capelão – Encarregado de dar assistência espiritual à tropa.

Alferes-mor – Presente em grupos maiores, responsável pela partilha dos índios capturados

Escrivão – Também presente em grupos maiores, era responsável por tomar notas das transações, fazer levantamentos de perdas, ganhos, fazer relatos, etc.

Mulheres índias ou mestiças (temericó) – acompanhavam os bandeirantes na condição de escravas (sexuais, provavelmente).

Tropa – A maioria era constituída de escravos indígenas, geralmente guaranis, que formavam tropas auxiliares encarregadas de combater e capturar índios no sertão.

Armadores – Os armadores forneciam correntes, pólvora e índios sertanistas com a expectativa de receber metade do lucro da expedição. Ou seja, metade dos índios trazidos do sertão.

Guias, intérpretes, iscas humanas e “agentes infiltrados” – Mamelucos, descendentes de pai branco e mãe índia, muitas vezes atuavam como guias e intérpretes. Serviam também de isca para as capturas: vestidos com batina preta e e cabelo cortado em tonsura, passavam por jesuítas e assim escravizavam os inimigos sem maiores resistências.

Os conhecimentos herdados pelos mamelucos eram cruciais para a sobrevivência no sertão: orientação e observação dos movimentos do Sol, dos astros e dos rastros, técnicas de caça e pesca, construção de embarcações e mareagem pelos rios, comunicação por meio do fogo e da sinalização com gravetos, além da classificação da flora e da fauna, para a seleção de alimentos, bebidas e medicamentos.

Para se ter uma idéia de como era um bandeirante veterano, podemos ficar com a descrição que o bispo de Olinda, D. Francisco Lima, fez de Domingos Jorge Velho quando o viu em Piauí, no ano de1697:

Este homem é um dos maiores selvagens com que tenho topado […] porque nem falar sabe, nem se diferencia do mais bárbaro tapuia […], e não obstante o haver-se casado de pouco, lhe assistem sete índias concubinas, e daqui se pode inferir como procede no mais; tendo sido a sua vida […] até o presente, andar metido pelos matos à caça de índios, e de índias, estas para o exercício de suas torpezas, e aqueles para os granjeios dos seus interesses.

Líderes notáveis: Domingos Jorge Velho, Raposo Tavares.

Jesuítas – Verdadeiros entraves para o sistema escravista, os jesuítas reuniam os índios em aldeias missionárias, e pressionavam a Coroa para proibir o cativeiro dos índios. A “Lei sobre a Liberdade dos Gentios” de 1570 estabeleceu um dos fundamentos da política indigenista. Esta declarava todos os índios livres, salvos os que estivessem sujeitos à “Guerra Justa” – grupos inimigos que apresentavam resistência armada.

Criada em 1534 por Inácio de Loyola, a Companhia de Jesus foi um modelo de ordem religiosa nascida da Contrarreforma (Reforma Católica). A Societas Iesu procurava reforçar o catolicismo na Europa por meio do ensino. Nas conquistas ultramarinas ibéricas, procuravam expandi-lo pela catequese. Aqui abriram colégios e se distribuíram por quase todas as regiões. Participaram da fundação de cidades como Salvador, Rio de Janeiro e São Paulo. Foram decisivos na interiorização da colonização, até então concentrada na faixa litorânea. Estiveram também em Nova Granada (atual Colômbia) e no Sul do continente, em regiões de colonização espanhola.

O missionário jesuíta José de Anchieta.

Os jesuítas se espalharam pelo território brasileiro desde 1549, por meio de missões volantes centralizadas nos colégios da Bahia e do Rio de Janeiro. Desde 1556 foram fundadas Casas nas capitanias de Espírito Santo, São Vicente, Porto Seguro e Bahia. Em Olinda, desde 1558; em Rio de Janeiro e Pernambuco, desde 1568 e 1572, respectivamente. Estes lugares ofereciam ensino elementar complementar da catequese entre os indígenas. Eram os núcleos da expansão missionária que originariam residências, missões, colégios, igrejas e seminários. Mas havia uma vasta região a conquistar que se estendia do Pernambuco até Maranhão pela costa, e os confins que se estendiam para o interior. Acompanhando a expansão das forças coloniais, os jesuítas foram constituindo novas frentes e integrando-as ao projeto de fazer cidades e cidadãos católicos.

Líderes notáveis: Inácio de Loyola, Manuel de Nóbrega, José de Anchieta, Antônio Vieira.

4. Análise geral

Embora seja muito difícil colocar todos os grupos envolvidos num esquema pronto, podemos reduzir a nossa análise aos três grupos principais: tupis-guaranis, “tapuias” e europeus. Os tupis e guaranis ocupavam sobretudo o litoral; tapuias ocupavam a região interior do continente e os europeus , vindos de fora, estabeleciam-se na costa e penetravam no território progressivamente.

Povos indígenas do Brasil na época do descobrimento.

OUTRAS PARTES DA SÉRIE:

FONTES E REFERÊNCIAS:

Web

Livros, revistas, artigos e entrevistas

  • Bueno, Eduardo. Brasil: uma História. São Paulo: Ática, 2002.
  • Bueno, Eduardo. Capitães do Brasil – A Saga dos Primeiros Colonizadores. Coleção Terra Brasilis. Objetiva, 1999.
  • Staden, Hans. Duas Viagens ao Brasil.
  • Silva, Isabelle Braz Peixoto da. Vilas de índios no Ceará Grande: dinâmicas locais sob o diretório pombalino. Campinas: Unicamp, 2003.
  • Galvão, R.. Arte Tremembé. Fortaleza: SEBRAE-CE.
  • FIGUEIRA, José Joaquín. Breviario de Etnología y Arqueología del Uruguay.
  • Guia do Estudante, seção Aventuras na História – Tupinambás x Tupiniquins: questão de estilo
  • Brandão, Carlos Rodrigues. Os Guarani: índios do Sul – religião, resistência e adaptação
  • Perusset, Macarena; Rosso, Cintia N. Guerra. Canibalismo y Venganza Colonial: Los Casos Mocoví y Guaraní.
  • Monteiro, John. Bandeiras Mestiças. Dossiê Bandeirantes in Revista de História da Biblioteca Nacional. Ano 3, nº 34. pp.17 a 21.
  • Kok, Glória. Descalços, violentos e famintos. Dossiê Bandeirantes in Revista de História da Biblioteca Nacional. Ano 3, nº 34. pp.23 a 24.
  • Neves, Erivaldo Fagundes. Guerra aos Tapuias. Dossiê Bandeirantes in Revista de História da Biblioteca Nacional. Ano 3, nº 34. p.35.
  • Silva, Reginaldo Miranda da. Piauí de paulista. Dossiê Bandeirantes in Revista de História da Biblioteca Nacional. Ano 3, nº 34. p.36.
  • Resende, Maria Leônia Chaves de. Sertão mineiro loteado à força. Dossiê Bandeirantes in Revista de História da Biblioteca Nacional. Ano 3, nº 34. p.37.
  • Neumann, Eduardo Santos. Vale o escrito. Dossiê Jesuítas in Revista de História da Biblioteca Nacional. Ano 7, nº 81, p. 19.
  • Clastres, Pierre. A Sociedade Contra o Estado, p. 48.
  • SILVA, Isabelle Braz Peixoto da. Vilas de índios no Ceará Grande: dinâmicas locais sob o diretório pombalino. Campinas: Unicamp, 2003.

A Conquista do Brasil (Parte III)

Dando continuidade à nossa série A Conquista do Brasil. Como já abordamos a situação dos nativos americanos no artigo anterior, o artigo de hoje abordará o período das grandes navegações, a era dos descobrimentos, a chegada dos portugueses na costa brasileira e finalmente seu primeiro contato com os nativos.

Quadro “Desembarque de Pedro Álvares Cabral em Porto Seguro em 1500” (1922, óleo sobre tela de Oscar Pereira da Silva. 330 x 190 cm.)

I. A Era dos Descobrimentos
Era dos descobrimentos (ou Grandes Navegações) é o período entre o século XV e o início do século XVII, durante o qual os europeus exploraram o globo buscando novas rotas comerciais. É marcada pelas explorações marítimas realizadas por portugueses e espanhóis entre os séculos XV e XVI, que estabeleceram relações com África, Américas e Ásia, em busca de uma rota alternativa para as “Índias”, movidos pelo comércio de ouro, prata e especiarias. Estas explorações no Atlântico e Índico foram seguidas por países do norte da Europa, França, Inglaterra e Holanda, que exploraram as rotas comerciais portuguesas e espanholas até ao Oceano Pacífico, chegando à Austrália em 1606 e à Nova Zelândia em 1642.

Este período marca a passagem do feudalismo da Idade Média para a Idade Moderna, com a ascensão dos estados-nação europeus. Durante este processo, os europeus encontraram e documentaram povos e terras nunca antes vistas. A expansão européia criou impérios coloniais, com o contato entre o Velho e o Novo Mundo produzindo o “intercâmbio colombiano” (Columbian Exchange): a transferência de plantas, animais, alimentos e populações humanas, doenças transmissíveis e culturas entre os hemisfério ocidental e oriental, num dos mais significativos eventos globais da ecologia, agricultura e cultura da história.

Plantas domesticadas do Novo Mundo, em sentido horário: 1. Milhoe (Zea mays) 2. Tomate (Solanum lycopersicum) 3. Batata (Solanum tuberosum) 4. Baunilha (Vanilla) 5. Seringueira do Pará (Hevea brasiliensis) 6. Cacau (Theobroma cacao) 7. Tabaco (Nicotiana rustica).

Entre os famosos exploradores deste período, destacam-se Cristóvão Colombo, Vasco da Gama, Pedro Álvares Cabral, John Cabot, Yermak, Juan Ponce de León, Fernão de Magalhães, Willem Barents, Abel Tasman, Vicente Yáñez Pinzón e Willem Jansz.

1.1 Antecedentes
Os europeus tinham conhecimentos remotos sobre o continente Asiático, vindos de relatos muitas vezes obscurecidos por lendas, ainda dos tempos de Alexandre o Grande  de relatos árabes do tempo da ocupação cristã da Palestina e dos reinos cristãos do tempo das cruzadas. Pouco era conhecido além da Anatólia e do Mar Cáspio. O continente africano era conhecido parcialmente: não se conhecendo o seu limite a Sul, existindo apenas relatos de grandes reinos africanos além do Sahara. O conhecimento das costas africanas atlânticas era pouco e provinha de mapas antigos e de relatos do tempo distante em que os exploravam a Mauritânia. Do Mar Vermelho, sabia-se da sua existência e pouco mais, sendo que só com o desenvolvimento dos laços comerciais das repúblicas marítimas italianas, Gênova e Veneza principalmente, se começou a verdadeira exploração dessa zona.

1.2 Exploração marítima no Mediterrâneo
Do século VII ao século XV a República de Veneza e repúblicas marítimas vizinhas detiveram o monopólio do comércio europeu com o Oriente Médio. O comércio de seda e de especiarias (incensos, ervas, drogas, ópio) tornou estas cidades-estado do Mediterrâneo muito ricas.

As especiarias estavam entre os mais caros e procurados produtos da Idade Média: eram usadas na medicina, em rituais religiosos, como cosméticos e perfumaria, temperos e conservantes. Eram todas importadas da Ásia e da África. Comerciantes muçulmanos dominavam as rotas no Oceano Índico, indo às regiões de origem no Extremo Oriente e transportando-as para a Índia e daí para oeste. Por rotas terrestres, eram transportadas para as costas mediterrâneas. Mercadores venezianos faziam a distribuição pela Europa até a ascensão do Império Otomano, que viria a tomar Constantinopla em 1453, barrando aos europeus importantes rotas marítimas e terrestres, elevando o preço dos produtos para valores astronômicos.

Gênova e Veneza, antigas Repúblicas Marítimas italianas, dominaram as rotas comerciais do Mediterrâneo. O contato com navegadores árabes legou tecnologias importantíssimas que permitiriam aos navegadores portugueses e espanhóis navegar até o desconhecido ‘Novo Mundo’.

Forçados a reduzir as suas atividades no Mar Negro, os mercadores da República de Gênova voltaram-se para o comércio norte africano de trigo, azeite (valorizado também como fonte de energia) e na busca de prata e ouro. Os europeus tinham um déficit constante de metais preciosos, pois a moeda saía da Europa para pagar o comércio oriental de que agora estavam cortados. As minas européias estavam esgotadas e a falta de moeda levou ao desenvolvimento de um sistema bancário complexo para gerenciar os riscos envolvidos no comércio. Navegando entre o norte da África e os portos de Bruges (Flandres) e Inglaterra, genoveses e florentinos estabeleceram comunidades em Portugal, que se beneficiou da iniciativa empresarial e da experiência financeira destes.

Em 1297, com a Reconquista concluída, o rei de Portugal D. Dinis interessara-se pelo comércio externo, organizando a exportação para países europeus. Em 1317, faz um acordo com o navegador e mercador genovês Manuel Pessanha (Pesagno), nomeando-o primeiro almirante da frota real, com o objetivo de defender as costas do país contra ataques de piratas muçulmanos. Na segunda metade do século XIV, surtos de peste bubônica levaram a um grave despovoamento. Só o mar oferecia alternativas, com a maioria da população fixada nas zonas costeiras de pesca e comércio. Entre 1325-1357 D. Afonso IV de Portugal ordenou as primeiras explorações marítimas. Em 1341, as ilhas Canárias, já conhecidas dos genoveses, foram oficialmente descobertas sob o patrocínio do rei Português.

1.3 Primeiras expedições portuguesas do Atlântico (1419-1460)
Os portugueses foram os primeiros a se aventurarem pelo Atlântico. Enquanto a maior parte da Europa se encontrava, no século XV, dividida em várias pequenas regiões rivais entre si, Portugal já era um reino unificado desde o século XII, o que possibilitou seu crescimento e desenvolvimento.

Em 1415, Ceuta foi ocupada pelos portugueses, evento convencionado como o início da expansão portuguesa. O príncipe D. Henrique, que participou da conquista, tomou conhecimento das possibilidades de lucro das rotas trans-Saharianas. Durante séculos, rotas de escravos e do comércio de ouro controladas por muçulmanos do Norte da África ligavam a África Ocidental ao Mediterrâneo. D. Henrique propôs então saber até onde os territórios muçulmanos se estendiam, esperando ultrapassá-los e negociar diretamente por mar, encontrar aliados nas terras ao sul e sondar a possibilidade de chegar às Índias. Investiu seu patrimônio em viagens exploratórias na costa da Mauritânia, reunindo um grupo de comerciantes, armadores e interessados em novas rotas marítimas.

Infante Dom Henrique, a mais importante figura do início da era das descobertas, popularmente conhecido como Infante de Sagres ou O Navegador.

Em 1418 redescobriu-se a ilha do Porto Santo e mais tarde a ilha da Madeira. Os arquipélagos da Madeira e das Canárias despertaram o interesse tanto dos Portugueses como dos Castelhanos; por serem vizinhos da costa africana, possuíam importância econômica e estratégica. Em 1427 é atingido o arquipélago dos Açores.

Desde 1422 navegações na costa africana lograram ultrapassar o Cabo Não, o limite sul considerado intransponível por europeus e árabes. Em 1434 foi contornado o temido Cabo Bojador. Em 1435, descobriu-se Angra de Ruivos e este chegou-se ao Rio de Ouro, no Saara Ocidental. Após a derrota portuguesa de Tânger em 1437, adiou-se o projeto de conquistar Marrocos. Em 1441, chegou-se ao Cabo Branco e a partir disso foram feitas incursões ao Rio do Ouro. A partir de então generalizou-se a convicção de que essa área da costa africana poderia sustentar uma atividade comercial.

Em 1453 Constantinopla é tomada pelos Otomanos, abalando as relações comerciais européias. Em 1455 é emitida a bula Romanus Pontifex pelo Papa Nicolau V reforçando a anterior Dum Diversas de 1452, declarando que as terras e mares descobertos além do Cabo Bojador pertenciam aos reis de Portugal, autorizando o comércio e as conquistas contra muçulmanos e pagãos, iniciando a política de mare clausum no Atlântico.

Em 1456 atingiu-se o arquipélago de Cabo Verde. Na década seguinte vários capitães a serviço de D. Henrique descobrem as restantes ilhas e segue-se o povoamento ainda no século XV. O Golfo da Guiné seria atingido nos anos 1460.

1.4 Explorações após o Infante D. Henrique (1460-1488)
Em 1460 atingiu-se Serra Leoa. Em novembro desse ano faleceu o infante D. Henrique. Em 1469 Afonso V, Rei de Portugal concedeu o monopólio do comércio no Golfo da Guiné ao mercador Fernão Gomes. Segundo João de Barros, estava ele obrigado a continuar as explorações, pois o comércio monopolista era garantido com a condição de que descobrisse terras.

Este avanço teria começado a partir de Serra Leoa, onde já haviam chegado Pêro de Sintra e Soeiro da Costa. Com a colaboração de navegadores como João de Santarém, Pedro Escobar, Lopo Gonçalves, Fernão do Pó e Pedro de Sintra, Fernão Gomes fez até mais do que o contratado: com o seu patrocínio, os portugueses chegaram ao Cabo de Santa Catarina, no Hemisfério Sul. João de Santarém e Pêro Escobar exploraram a costa setentrional do Golfo da Guiné, atingindo a “mina de ouro” de Sama (Sama Bay), a costa da Mina, a de Benin, a do Calabar e a do Gabão e as ilhas de São Tomé e Príncipe e de Ano Bom. Quando as expedições chegaram a Elmina na Costa do Ouro em 1471, encontraram um florescente comércio local de ouro.

Mapa das explorações portuguesas na costa da África, das Ilhas Canárias ao Cabo da Boa Esperança.

Em 1474, D. Afonso V entregou a seu filho, futuro D. João II, a organização das explorações por terras africanas, que assim passaram da iniciativa privada para a coroa. Este fez o reconhecimento de toda a costa até à região do Padrão de Santo Agostinho. Em 1483, Diogo Cão chegou ao rio Zaire e dois anos depois até à Serra Parda. Em 1487, Bartolomeu Dias, comandando uma expedição com três caravelas, atingiu o Cabo da Boa Esperança. Estabelecia-se assim a ligação náutica entre o Atlântico e o Índico. O projeto do caminho marítimo para a Índia foi delineado por D. João II para reduzir custos no comércio com a Ásia e como tentativa de monopolizar o comércio das especiarias. D. João almejava o domínio das rotas comerciais e a expansão do reino de Portugal, que já se transformava em Império. Porém, o empreendimento não seria realizado durante o seu reinado, mas no de seu sucessor D. Manuel I, que iria designar Vasco da Gama para esta expedição, mantendo o plano original.

1.5 Colombo chega às “Indias Ocidentais” (1492)
O reino de Castela foi mais lento a começar a explorar o Atlântico. Só no final do século XV, após a unificação das coroas de Castela e Aragão, depois da Reconquista, que os espanhóis começaram a busca por novas rotas comerciais  e expansão. A coroa de Aragão foi uma potência marítima do Mediterrâneo, controlando territórios no leste da Espanha, sudoeste da França e ilhas principais como Maiorca, Sicília e Malta, o Reino de Nápoles e a Sardenha, em domínios que se estendiam até a Grécia. Em 1492, os reis católicos conquistaram o reino mouro de Granada e decidiram financiar a expedição do genovês Cristovão Colombo – que por duas vezes, em 1485 e 1488, se apresentara ao rei D. João II de Portugal, sem sucesso – “na esperança de desviar o comércio de Portugal com África e daí com o Oceano Índico, chegando à Ásia viajando para oeste.”

Navegando para a coroa espanhola, Colombo partiu de Palos de la Frontera em 3 de agosto de 1492, com três pequenas embarcações: a nau Santa Maria e as caravelas Niña e Pinta. A 12 de outubro de 1492, chegou às “Índias ocidentais”, um ilhéu das Bahamas a que deu o nome de São Salvador. Continuando a navegar acostou em Cuba e chegou à Hispaniola (Haiti e Rep. Dominicana). Supondo ter chegado à Índia deixou uma pequena colônia e regressou à Europa. Na segunda viagem em 1493, avistou as Antilhas e abordou a Martinica. Rumou depois para o norte e alcançou Porto Rico. Retornou a Hispaniola e dali navegou para o ocidente e chegou à Jamaica. Nessa viagem fundou Isabela, atual Santo Domingo, na República Dominicana, a primeira povoação europeia no continente americano.

Rota da primeira viagem de Cristóvão Colombo.

Os espanhóis ficaram inicialmente decepcionados com as descobertas: ao contrário de África ou da Ásia, as ilhas do Caribe pouco comércio permitiam. As ilhas tornaram-se foco de esforços de colonização. Mais tarde quando o interior do continente foi explorado é que que a Espanha encontraria a riqueza que tinha procurado: prata e ouro abundante.

Nas Américas, os espanhóis encontraram uma série de impérios tão grandes e populosos como os da Europa. No entanto, pequenos corpos dos conquistadores espanhóis, com grandes exércitos de ameríndios, conseguiram vencer estes estados. Os mais notáveis foram o império asteca no México (1521) conquistado por Hernán Cortés e o império inca no Peru (1532) conquistado por Francisco Pizarro. Uma vez a soberania espanhola estabelecida, a exploração centrou-se na extração e exportação de ouro e prata.

1.6 O Tratado de Tordesilhas (1494)

Depois da chegada às “Índias Ocidentais”, uma divisão da zona de influência tornou-se necessária para evitar conflitos entre espanhóis e portugueses, o que foi resolvido em 1494 com a assinatura do Tratado de Tordesilhas.

Após o regresso de Colombo, em 1493, os reis católicos tinham obtido do papa Alexandre VI a bula pontifícia Inter caetera afirmando que as terras a oeste e sul de um meridiano 100 léguas a oeste do Açores ou das Ilhas de Cabo Verde deveriam pertencer à Espanha e, mais tarde, incluindo todos territórios da Índia. Não mencionava Portugal, que não podia reivindicar terras recém-descobertas nem sequer a leste desta linha. O rei D. João II de Portugal não ficou satisfeito e negociou diretamente com o rei Fernando de Aragão e a rainha Isabel de Castela para mover esta linha para oeste, permitindo-lhe reivindicar as terras descobertas a leste do mesmo.

Folha de rosto do Tratado de Tordesilhas de 1494.

No Tratado de Tordesilhas de 1492 os portugueses recebiam todos os territórios fora da Europa a leste de um meridiano que corria 270 léguas a oeste das ilhas de Cabo Verde, o que dava o controle sobre a África, Ásia e leste da América do Sul (Brasil). Aos espanhóis foram atribuídos todos os territórios a oeste dessa linha que se revelariam ser a parte ocidental do continente americano e as ilhas do Oceano Pacífico.

II. O Descobrimento do Brasil

A 22 de Abril de 1500 a Armada comandada por Pedro Álvares Cabral, rumando à Índia com o objetivo de efetivar a ligação comercial à costa do Malabar, após a viagem pioneira de Vasco da Gama, avistou terra no Atlântico Sul. O desembarque que se seguiu, naquela que seria inicialmente chamada de Terra de Vera Cruz, marcou o momento de descoberta oficial do que viria a ser o Brasil.

2.1 A armada
A armada de Pedro Álvares Cabral começou a ser preparada logo após o regresso de Vasco da Gama, tendo como objetivo firmar os interesses portugueses na Índia, recentemente alcançada. Foram reunidos um total de treze navios dos quais nove eram naus e três caravelas, contando com um navio de menor dimensão, para abastecimentos. Esta armada representava a maior força naval a partir de Portugal até então. Com exceção dos nomes de duas naus e de uma caravela, não se sabe como se chamavam os navios comandados por Cabral. Estima-se que a armada levasse mantimentos para cerca de dezoito meses.

Não se sabe o nome da nau capitânia, mas a nau sota-capitânia, capitaneada pelo vice-comandante da armada Sancho de Tovar, se chamava El Rei. A outra cujo nome se sabe é a Anunciada, comandada por Nuno Leitão da Cunha. Esta última pertencia a Dom Álvaro de Bragança e fora equipada com os recursos de banqueiros florentinos que investiam no comércio de especiarias. As cartas que eles trocaram com seus sócios e acionistas italianos preservaram o nome do navio.

Memória das Armadas que de Portugal passaram à Índia…, pormenor da nau de Pedro Álvares Cabral.

Conservou-se ainda o nome da caravela capitaneada por Pero de Ataíde, a São Pedro. A outra caravela, comandada por Bartolomeu Dias, teve o seu nome perdido. A armada era completada por uma naveta de mantimentos, comandada por Gaspar de Lemos. Coube a ela retornar a Portugal com as notícias sobre a descoberta do Brasil.

Baseado em documento incompleto que localizou na Torre do Tombo, em Lisboa, Francisco Adolfo de Varnhagen identificou cinco das dez naus que compunham a frota cabralina. Seriam elas Santa Cruz, Vitória, Flor de la Mar, Espírito Santo e Espera. A fonte citada por Varnhagen nunca foi reencontrada, portanto a maioria dos historiadores prefere não adotar os nomes por ele listados. A armada, assim, continua quase anônima.

A viagem de Cabral de Lisboa a Calicute. Em vermelho, a ida e em azul, a volta.

Pouco antes da partida, o Rei mandou rezar uma missa, no Mosteiro de Belém, presidida pelo bispo de Ceuta, D. Diogo de Ortiz, que benzeu uma bandeira com as armas do Reino e entregou-a em mãos a Cabral, despedindo-se o rei do fidalgo e dos restantes capitães.

Vasco da Gama teria tecido considerações e recomendações para a longa viagem que se chegava: a coordenação entre os navios era crucial para que não se perdessem uns dos outros. Recomendou então ao capitão-mor disparar os canhões duas vezes e esperar pela mesma resposta de todos os outros navios antes de mudar o curso ou velocidade (método de contagem ainda atualmente utilizado em campo de batalha terrestre), dentre outros códigos de comunicação semelhantes.

2.2 Terra à vista!
A expedição de Cabral chegou, primeiramente, às Ilhas Canárias, depois foi para o Arquipélago de Cabo Verde, onde uma caravela sumiu no meio do mar. Seguiram uma rota sudoeste, cruzando a linha do Equador, como fizera Vasco da Gama.

Em 21 de abril, avista-se os primeiros sinais de terra firme deste a partida do Cabo Verde. No dia seguinte, a expedição ancora em um monte, ao qual deram o nome de Pascoal. Pedro Álvares Cabral, Bartolomeu Dias e seus homens descobriam o Brasil.

Caminha noticia em sua carta o “achamento” da terra que recebeu o nome de Vera Cruz:

E assim seguimos nosso caminho, por este mar, de longo, até que, terça-feira das Oitavas de Páscoa, que foram 21 dias de abril, estando da dita Ilha obra de 660 ou 670 léguas, segundo os pilotos diziam, topamos alguns sinais de terra, os quais eram muita quantidade de ervas compridas, a que os mareantes chamam botelho, assim como outras a que dão o nome de rabo-de-asno. E quarta-feira seguinte, pela manhã, topamos aves a que chamam fura-buxos.

Neste dia, a horas de véspera, houvemos vista de terra! Primeiramente dum grande monte, mui alto e redondo; e doutras serras mais baixas ao sul dele; e de terra chã, com grandes arvoredos: ao monte alto o capitão pôs nome  o Monte Pascoal e à terra – a Terra da Vera Cruz.

A Carta do Achamento, de Pero Vaz de Caminha.

A carta relata também a nomeação do que viria a ser a cidade de Porto Seguro,  município situado no extremo sul da Bahia:

E, velejando nós pela costa, obra de dez léguas do sítio donde tínhamos levantado ferro, acharam os ditos navios pequenos um recife com um porto dentro, muito bom e muito seguro, com uma mui larga entrada. E meteram-se dentro e amainaram. As naus arribaram sobre eles; e um pouco antes do sol posto amainaram também, obra de uma légua do recife, e ancoraram em onze braças.

III. Contato com os nativos – a narrativa de Pero Vaz de Caminha
No dia 24 de Abril, Andreza Balbino e Cabral receberam os nativos no seu navio.O grupo de índios reconheceu de imediato o ouro e a prata no navio — um fio de ouro de D. Pedro e um castiçal de prata — o que fez com que os portugueses inicialmente acreditassem que havia muito ouro naquela terra. A curiosidade tocou-lhes pelos objetos não reconhecidos – como umas contas de rosário, e para surpresa dos portugueses pelos objetos reconhecidos – os metais preciosos:

Acenderam-se tochas. Entraram. Mas não fizeram sinal de cortesia, nem de falar ao Capitão nem a ninguém. Porém um deles pôs olho no colar do Capitão, e começou de acenar com a mão para a terra e depois para o colar, como que nos dizendo que ali havia ouro. Também olhou para um castiçal de prata e assim mesmo acenava para a terra e novamente para o castiçal como se lá também houvesse prata.

Entretanto, em sua carta, Caminha confessa que não sabia dizer se os índios diziam mesmo que ali havia ouro, ou se o desejo dos navegantes pelo metal era tanto que eles não conseguiram entender diferentemente:

Viu um deles umas contas de rosário, brancas; acenou que lhas dessem, folgou muito com elas, e lançou-as ao pescoço. Depois tirou-as e enrolou-as no braço e acenava para a terra e de novo para as contas e para o colar do Capitão, como dizendo que dariam ouro por aquilo.

Isto tomávamos nós assim por assim o desejarmos. Mas se ele queria dizer que levaria as contas e mais o colar, isto não o queríamos nós entender, porque não lho havíamos de dar. E depois tornou as contas a quem lhas dera.

Os portugueses entravam, desta forma, pela primeira em contato com ameríndios. A região era habitada pela tribo dos Tupiniquins, pertencentes ao vasto grupo linguístico Tupi-Guarani, com os quais se realizaram as primeiras trocas comerciais.

3.1 Os “índios”
Caminha nos dá a descrição dos índios que subiram ao barco e de todos os outros que avistou nas terras recém descobertas pelos portugueses, dando detalhes de sua fisionomia e dos seus ornamentos:

[…] e tomou dois daqueles homens da terra, mancebos e de bons corpos, que estavam numa almadia. Um deles trazia um arco e seis ou sete setas; e na praia andavam muitos com seus arcos e setas; mas de nada lhes serviram. Trouxe-os logo, já de noite, ao Capitão, em cuja nau foram recebidos com muito prazer e festa.

A feição deles é serem pardos, maneira de avermelhados, de bons rostos e bons narizes, bem-feitos. Andam nus, sem nenhuma cobertura. Nem estimam de cobrir ou de mostrar suas vergonhas; e nisso têm tanta inocência como em mostrar o rosto. Ambos traziam os beiços de baixo furados e metidos neles seus ossos brancos e verdadeiros, de comprimento duma mão travessa, da grossura dum fuso de algodão, agudos na ponta como um furador. Metem-nos pela parte de dentro do beiço; e a parte que lhes fica entre o beiço e os dentes é feita como roque de xadrez, ali encaixado de tal sorte que não os molesta, nem os estorva no falar, no comer ou no beber.

Os cabelos seus são corredios. E andavam tosquiados, de tosquia alta, mais que de sobrepente, de boa grandura e rapados até por cima das orelhas. E um deles trazia por baixo da solapa, de fonte a fonte para detrás, uma espécie de cabeleira de penas de ave amarelas, que seria do comprimento de um coto, mui basta e mui cerrada, que lhe cobria o toutiço e as orelhas. E andava pegada aos cabelos, pena e pena, com uma confeição branda como cera (mas não o era), de maneira que a cabeleira ficava mui redonda e mui basta, e mui igual, e não fazia míngua mais lavagem para a levantar.

Há outra descrição mais detalhada de nativos e seus ornamentos mais adiante na carta. Pero Vaz de Caminha repara num segundo tipo de adorno labial indígena, em forma de disco (que ele chama ‘espelho’).

Os adornos labiais que Caminha descreve são os tembetás. Ele descreve dois tipos: os que tem formato pontiagudo (à direita) e os que tem o formato ‘de espelho’ (à esquerda).

Na pintura, ele repara no padrão geométrico que para ele lembra um jogo de xadrez (ele refere-se a ‘escaque’, que é o nome das quadras do jogo de xadrez):

Muitos deles ou quase a maior parte dos que andavam ali traziam aqueles bicos de osso nos beiços. E alguns, que andavam sem eles, tinham os beiços furados e nos buracos uns espelhos de pau, que pareciam espelhos de borracha; outros traziam três daqueles bicos, a saber, um no meio e os dois nos cabos. Aí andavam outros, quartejados de cores, a saber, metade deles da sua própria cor, e metade de tintura preta, a modos de azulada; e outros quartejados de escaques.

A pintura indígena também é descrita com fascínio na carta de Pero Vaz de Caminha. Ele identifica ao menos dois tipos de pintura: a de padrões geométricos (canto superior direito) feita com a tinta escura do genipapo (canto superior esquerdo) e a pintura vermelha geralmente feita no rosto (canto inferior direito) a partir do extrato do urucum (canto inferior esquerdo).

Outro choque para Vaz de Caminha foi ver as mulheres nativas totalmente nuas e, para espanto do português, sem pelos pubianos:

Ali andavam entre eles três ou quatro moças, bem moças e bem gentis, com cabelos muito pretos, compridos pelas espáduas, e suas vergonhas tão altas, tão cerradinhas e tão limpas das cabeleiras que, de as muito bem olharmos, não tínhamos nenhuma vergonha.

Mas Caminha não abriu mão também de ser o primeiro a reparar na beleza nativa daqui, traçando um comparativo com as portuguesas:

E uma daquelas moças era toda tingida, de baixo a cima daquela tintura; e certo era tão bem-feita e tão redonda, e sua vergonha (que ela não tinha) tão graciosa, que a muitas mulheres da nossa terra, vendo-lhe tais feições, fizera vergonha, por não terem a sua como ela.

Mais da pintura corporal e da nudez das mulheres Caminha descreve:

Ali veríeis galantes, pintados de preto e vermelho, e quartejados, assim nos corpos, como nas pernas, que, certo, pareciam bem assim.

Também andavam, entre eles, quatro ou cinco mulheres moças, nuas como eles, que não pareciam mal. Entre elas andava uma com uma coxa, do joelho até o quadril, e a nádega, toda tinta daquela tintura preta; e o resto, tudo da sua própria cor. Outra trazia ambos os joelhos, com as curvas assim tintas, e também os colos dos pés; e suas vergonhas tão nuas e com tanta inocência descobertas, que nisso não havia nenhuma vergonha.

Diversas vezes ao longo da carta, Caminha menciona que os índios não são ‘fanados’, ou seja, que não são circuncidados.

Caminha faz também a primeira descrição de uma embarcação indígena, que ele chama ‘almadia’:

E alguns deles se metiam em almadias — duas ou três que aí tinham — as quais não são feitas como as que eu já vi; somente são três traves, atadas entre si. E ali se metiam quatro ou cinco, ou esses que queriam não se afastando quase nada da terra, senão enquanto podiam tomar pé.

Destes outros índios, Caminha repara um novo padrão de pintura. Em vez de preto ou azulado (tinta extraída do jenipapo), estes índios estão pintados de vermelho (urucu):

Andava aí um que falava muito aos outros que se afastassem, mas não que a mim me parecesse que lhe tinham acatamento ou medo. Este que os assim andava afastando trazia seu arco e setas, e andava tinto de tintura vermelha pelos peitos, espáduas, quadris, coxas e pernas até baixo, mas os vazios com a barriga e estômago eram de sua própria cor. E a tintura era assim vermelha que a água a não comia nem desfazia, antes, quando saía da água, parecia mais vermelha.

Outro aspecto frequentemente mencionado por Caminha, com relação aos nativos, é a sua limpeza:

Porém e com tudo isso andam muito bem curados e muito limpos. E naquilo me parece ainda mais que são como aves ou alimárias monteses, às quais faz o ar melhor pena e melhor cabelo que às mansas, porque os corpos seus são tão limpos, tão gordos e tão formosos, que não pode mais ser.

3.2 O comércio com os nativos
O choque cultural foi evidente. Os indígenas não reconheceram os animais que traziam os navegadores, à exceção de um papagaio que o capitão trazia consigo:

Mostraram-lhes um papagaio pardo que o Capitão traz consigo; tomaram-no logo na mão e acenaram para a terra, como quem diz que os havia ali. Mostraram-lhes um carneiro: não fizeram caso. Mostraram-lhes uma galinha, quase tiveram medo dela: não lhe queriam pôr a mão; e depois a tomaram como que espantados.

Ofereceram-lhes comida e vinho, os quais os índios rejeitaram:

Deram-lhes ali de comer: pão e peixe cozido, confeitos, fartéis, mel e figos passados. Não quiseram comer quase nada daquilo; e, se alguma coisa provaram, logo a lançaram fora.

Trouxeram-lhes vinho numa taça; mal lhe puseram a boca; não gostaram nada, nem quiseram mais. Trouxeram-lhes a água em uma albarrada. Não beberam. Mal a tomaram na boca, que lavaram, e logo a lançaram fora.

Mais tarde, retornados os índios em terra, é narrada a primeira verdadeira transação comercial entre os navegadores portugueses e os nativos americanos. Ao contrário do que diz a mitologia popular, os índios não trocaram ouro por espelhos, e sim água potável e arcos por cascavel (guizos), manilha (um tipo de bracelete) e carapuças de linho:

Então se começaram de chegar muitos. Entravam pela beira do mar para os batéis, até que mais não podiam; traziam cabaços de água, e tomavam alguns barris que nós levávamos: enchiam-nos de água e traziam-nos aos batéis. Não que eles de todos chegassem à borda do batel. Mas junto a ele, lançavam os barris que nós tomávamos; e pediam que lhes dessem alguma coisa. Levava Nicolau Coelho cascavéis e manilhas. E a uns dava um cascavel, a outros uma manilha, de maneira que com aquele engodo quase nos queriam dar a mão. Davam-nos daqueles arcos e setas por sombreiros e carapuças de linho ou por qualquer coisa que homem lhes queria dar.

Exemplos de produtos que podem ter sido trocados pelos indígenas: arcos, flechas, cerâmica, cestos, colares, maracás, cocares, frutas, peixes, frutos do mar, água potável.

Caminha relata também a primeira vez que os portugueses consomem frutos do mar nativos da América do Sul:

Neste ilhéu, onde fomos ouvir missa e pregação, a água espraia muito, deixando muita areia e muito cascalho a descoberto. Enquanto aí estávamos, foram alguns buscar marisco e apenas acharam alguns camarões grossos e curtos, entre os quais vinha um tão grande e tão grosso, como em nenhum tempo vi tamanho. Também acharam cascas de berbigões e amêijoas, mas não toparam com nenhuma peça inteira.

E tanto que comemos, vieram logo todos os capitães a esta nau, por ordem do Capitão-mor, com os quais ele se apartou, e eu na companhia.

Outra coisa de que se alimentam os portugueses é o palmito:

Andamos por aí vendo a ribeira, a qual é de muita água e muito boa. Ao longo dela há muitas palmas, não muito altas, em que há muito bons palmitos. Colhemos e comemos deles muitos.

Alguns dos primeiros alimentos consumidos pelos portugueses no Brasil: o palmito, o peixe e o camarão.

O comércio entre portugueses e nativos é constante. Os produtos mais trocados são, da parte dos índios, arcos, flechas, cocares, colares, aves e provisões (comida e água) e da parte dos portugueses carapuças, guizos, braceletes, instrumentos de ferro e vinho:

Andariam na praia, quando saímos, oito ou dez deles; e de aí a pouco começaram a vir mais. E parece-me que viriam, este dia, à praia quatrocentos ou quatrocentos e cinqüenta.

Traziam alguns deles arcos e setas, que todos trocaram por carapuças ou por qualquer coisa que lhes davam. Comiam conosco do que lhes dávamos. Bebiam alguns deles vinho; outros o não podiam beber. Mas parece-me, que se lho avezarem, o beberão de boa vontade.

Os aspectos rudimentares da economia e da agricultura nativa são apontados por Caminha:

Eles não lavram, nem criam. Não há aqui boi, nem vaca, nem cabra, nem ovelha, nem galinha, nem qualquer outra alimária, que costumada seja ao viver dos homens. Nem comem senão desse inhame, que aqui há muito, e dessa semente e frutos, que a terra e as árvores de si lançam.

Apesar dos esforços, os portugueses não encontram aqui qualquer metal precioso que desejavam encontrar. Nem prata, nem ouro, nem mesmo ferro:

Nela, até agora, não pudemos saber que haja ouro, nem prata, nem coisa alguma de metal ou ferro; nem lho vimos. Porém a terra em si é de muito bons ares, assim frios e temperados como os de Entre Douro e Minho, porque neste tempo de agora os achávamos como os de lá.

3.3 Os índios descobrem os portugueses e seus costumes
Mais tarde, em uma ilha cujo nome não é mencionado na carta, os portugueses   “pescaram peixe miúdo, não muito” e então participaram da missa rezada pelo frei Henrique “em voz entoada, e oficiada com aquela mesma voz pelos outros padres e sacerdotes, que todos eram ali”. Missa essa que segundo o parecer de Caminha “foi ouvida por todos com muito prazer e devoção”. Após a missa houve uma pregação do frei. Tanto a missa quanto a pregação são acompanhadas por nativos, conforme menciona Caminha:

Enquanto estivemos à missa e à pregação, seria na praia outra tanta gente, pouco mais ou menos como a de ontem, com seus arcos e setas, a qual andava folgando. E olhando-nos, sentaram-se. E, depois de acabada a missa, assentados nós à pregação, levantaram-se muitos deles, tangeram corno ou buzina, e começaram a saltar e dançar um pedaço.

A Primeira Missa no Brasil, quadro de Victor Meirelles.

Os portugueses tentam passar aos nativos um pouco de sua crença:

Quando saímos do batel, disse o Capitão que seria bom irmos direitos à Cruz, que estava encostada a uma árvore, junto com o rio, para se erguer amanhã, que é sexta-feira, e que nos puséssemos todos de joelhos e a beijássemos para eles verem o acatamento que lhe tínhamos. E assim fizemos. A esses dez ou doze que aí estavam, acenaram-lhe que fizessem assim, e foram logo todos beijá-la.

Parece-me gente de tal inocência que, se homem os entendesse e eles a nós, seriam logo cristãos, porque eles, segundo parece, não têm, nem entendem em nenhuma crença.

Pela primeira vez, os nativos ouvem música dos recém-chegados, tocadas por um gaiteiro:

Passou-se então além do rio Diogo Dias, almoxarife que foi de Sacavém, que é homem gracioso e de prazer; e levou consigo um gaiteiro nosso com sua gaita. E meteu-se com eles a dançar, tomando-os pelas mãos; e eles folgavam e riam, e andavam com ele muito bem ao som da gaita. Depois de dançarem, fez-lhes ali, andando no chão, muitas voltas ligeiras, e salto real, de que eles se espantavam e riam e folgavam muito.

Durante um dia de trabalho, os portugueses começam a lavar roupas e a trabalhar com carpintaria para confeccionar uma cruz e obter lenha. Durante este processo os índios ajudam com o carregamento de madeira, mas também se impressionam com a tecnologia européia dos instrumentos de ferro, dos quais não dispunham:

Muitos deles vinham ali estar com os carpinteiros. E creio que o faziam mais por verem a ferramenta de ferro com que a faziam, do que por verem a Cruz, porque eles não tem coisa que de ferro seja, e cortam sua madeira e paus com pedras feitas como cunhas, metidas em um pau entre duas talas, mui bem atadas e por tal maneira que andam fortes, segundo diziam os homens, que ontem a suas casas foram, porque lhas viram lá.

Outra missa é realizada pelo frei Henrique. Dessa vez diante da Cruz construída pelos portugueses e com a presença de dezenas de nativos:

Chantada a Cruz, com as armas e a divisa de Vossa Alteza, que primeiramente lhe pregaram, armaram altar ao pé dela. Ali disse missa o padre frei Henrique, a qual foi cantada e oficiada por esses já ditos. Ali estiveram conosco a ela obra de cinqüenta ou sessenta deles, assentados todos de joelhos, assim como nós.

E quando veio ao Evangelho, que nos erguemos todos em pé, com as mãos levantadas, eles se levantaram conosco e alçaram as mãos, ficando assim, até ser acabado; e então tornaram-se a assentar como nós. E quando levantaram a Deus, que nos pusemos de joelhos, eles se puseram assim todos, como nós estávamos com as mãos levantadas, e em tal maneira sossegados, que, certifico a Vossa Alteza, nos fez muita devoção.

Estiveram assim conosco até acabada a comunhão, depois da qual comungaram esses religiosos e sacerdotes e o Capitão com alguns de nós outros.

Alguns deles, por o sol ser grande, quando estávamos comungando, levantaram-se, e outros estiveram e ficaram. Um deles, homem de cinqüenta ou cinqüenta e cinco anos, continuou ali com aqueles que ficaram. Esse, estando nós assim, ajuntava estes, que ali ficaram, e ainda chamava outros. E andando assim entre eles falando, lhes acenou com o dedo para o altar e depois apontou o dedo para o Céu, como se lhes dissesse alguma coisa de bem; e nós assim o tomamos.

Acabada a missa, tirou o padre a vestimenta de cima e ficou em alva; e assim se subiu junto com altar, em uma cadeira. Ali nos pregou do Evangelho e dos Apóstolos, cujo dia hoje é, tratando, ao fim da pregação, deste vosso prosseguimento tão santo e virtuoso, o que nos aumentou a devoção.

Caminha parece realmente entusiasmado com a possibilidade de conversão dos nativos ao cristianismo e de sua plena integração à sociedade portuguesa, com direito a religião católica e fidelidade ao rei. O único obstáculo, assim pareceu a Caminha, era o fato de não entenderem ainda a língua portuguesa:

E, segundo que a mim e a todos pareceu, esta gente não lhes falece outra coisa para ser toda cristã, senão entender-nos, porque assim tomavam aquilo que nos viam fazer, como nós mesmos, por onde nos pareceu a todos que nenhuma idolatria, nem adoração têm. E bem creio que, se Vossa Alteza aqui mandar quem entre eles mais devagar ande, que todos serão tornados ao desejo de Vossa Alteza. E por isso, se alguém vier, não deixe logo de vir clérigo para os batizar, porque já então terão mais conhecimento de nossa fé, pelos dois degredados, que aqui entre eles ficam, os quais, ambos, hoje também comungaram.

3.4 Navegadores e degredados
Parece explícito no texto que a cordialidade dos portugueses com os índios é uma medida sobretudo de segurança, para manter os índios “apacificados” e para facilitar o comércio na expectativa de encontrar alguma riqueza estimada pelos portugueses, como o ouro. A integração com os americanos parece um processo já conhecido pelos portugueses de suas navegações na África, um processo que busca facilitar a estadia, a obtenção de suprimentos e a segurança da tripulação. Segue mais alguma observação de Pero Vaz de Caminha:

Estiveram assim um pouco afastados de nós; e depois pouco a pouco misturaram-se conosco. Abraçavam-nos e folgavam. E alguns deles se esquivavam logo. Ali davam alguns arcos por folhas de papel e por alguma carapucinha velha ou por qualquer coisa. Em tal maneira isto se passou, que bem vinte ou trinta pessoas das nossas se foram com eles, onde outros muitos estavam com moças e mulheres. E trouxeram de lá muitos arcos e barretes de penas de aves, deles verdes e deles amarelos, dos quais, creio, o Capitão há de mandar amostra a Vossa Alteza.

Via de regra, a tripulação do navio não se arriscava a ir diretamente nos povoamentos indígenas, ficando esta tarefa a cabo dos degredados. Inúmeras vezes estes são mandados para dormir entre os índios, mas estes recusam e os enviam de volta. Provavelmente, uma medida de segurança e parte da servidão punitiva imposta aos degregados. Os mesmos são os primeiros a ver e descrever as habitações dos nativos:

E o Capitão mandou aquele degredado Afonso Ribeiro e a outros dois degredados, que fossem lá andar entre eles; e assim a Diogo Dias, por ser homem ledo, com que eles folgavam. Aos degredados mandou que ficassem lá esta noite.

Foram-se lá todos, e andaram entre eles. E, segundo eles diziam, foram bem uma légua e meia a uma povoação, em que haveria nove ou dez casas, as quais eram tão compridas, cada uma, como esta nau capitânia. Eram de madeira, e das ilhargas de tábuas, e cobertas de palha, de razoada altura; todas duma só peça, sem nenhum repartimento, tinham dentro muitos esteios; e, de esteio a esteio, uma rede atada pelos cabos, alta, em que dormiam. Debaixo, para se aquentarem, faziam seus fogos. E tinha cada casa duas portas pequenas, uma num cabo, e outra no outro.

Diziam que em cada casa se recolhiam trinta ou quarenta pessoas, e que assim os achavam; e que lhes davam de comer daquela vianda, que eles tinham, a saber, muito inhame e outras sementes, que na terra há e eles comem.

Caminha menciona também dois degredados que vieram com os navegadores, e que aqui poderiam ser deixados ou simplesmente trocados com os índios. Considerou-se também a hipótese de levar, à força se necessário, alguns nativos da América “de amostra” para o rei de Portugal:

E entre muitas falas que no caso se fizeram, foi por todos ou a maior parte dito que seria muito bem. E nisto concluíram. E tanto que a conclusão foi tomada, perguntou mais se lhes parecia bem tomar aqui por força um par destes homens para os mandar a Vossa Alteza, deixando aqui por eles outros dois destes degredados.

Sobre isto acordaram que não era necessário tomar por força homens, porque era geral costume dos que assim levavam por força para alguma parte dizerem que há ali de tudo quanto lhes perguntam; e que melhor e muito melhor informação da terra dariam dois homens destes degredados que aqui deixassem, do que eles dariam se os levassem, por ser gente que ninguém entende. Nem eles tão cedo aprenderiam a falar para o saberem tão bem dizer que muito melhor estoutros o não digam, quando Vossa Alteza cá mandar.

E que, portanto, não cuidassem de aqui tomar ninguém por força nem de fazer escândalo, para de todo mais os amansar e apacificar, senão somente deixar aqui os dois degredados, quando daqui partíssemos.

E assim, por melhor a todos parecer, ficou determinado.

Os degredados parecem ter um papel importante na missão, embora inferiorizados pelo seu status. Os degredados ficam para aprender a língua e transmitir a crença dos portugueses, de modo a facilitar as relações entre os nativos e os navegadores:

E portanto, se os degredados, que aqui hão de ficar aprenderem bem a sua fala e os entenderem, não duvido que eles, segundo a santa intenção de Vossa Alteza, se hão de fazer cristãos e crer em nossa santa fé, à qual praza a Nosso Senhor que os traga, porque, certo, esta gente é boa e de boa simplicidade. E imprimir-se-á ligeiramente neles qualquer cunho, que lhes quiserem dar. E pois Nosso Senhor, que lhes deu bons corpos e bons rostos, como a bons homens, por aqui nos trouxe, creio que não foi sem causa.

Ao que parece, alguns portugueses gostaram tanto da vida dos índios que acharam melhor ficar por aqui a voltar de navio para Portugal. Além dos degredados que ficariam mesmo contra a própria vontade, dois grumetes fugiram da tripulação antes desta partir:

Creio, Senhor, que com estes dois degredados ficam mais dois grumetes, que esta noite se saíram desta nau no esquife, fugidos para terra. Não vieram mais. E cremos que ficarão aqui, porque de manhã, prazendo a Deus, fazemos daqui nossa partida.

A Coroa portuguesa foi informada do descobrimento por intermédio de Gaspar de Lemos, mas a noticia apenas foi divulgada quando do regresso dos primeiros navios da armada de Pedro Álvares Cabral, em meados de 1501. Mantinham-se, no entanto, dúvidas sobre a natureza da terra recém-descoberta, se de uma ilha ou de terra firme se tratava, e acerca da sua dimensão, apenas esclarecidas pelas viagens de exploração que se sucederam nos anos seguintes, das quais a primeira, sob o comando de Gonçalo Coelho, partiu em Maio de 1501.

OUTRAS PARTES DA SÉRIE:

FONTES E REFERÊNCIAS:

Web

Livros, revistas, artigos e entrevistas

  • Arnold, David. The Age of Discovery, 1400-1600.
  • Jensen, De Lamar. Renaissance Europe 2nd ed.
  • Diffie, Bailey. Foundations of the Portuguese Empire, 1415-1580.
  • M. D. D. Newitt. A history of Portuguese overseas expansion, 1400-1668.
  • Butel, Paul. The Atlantic.
  • Semedo, J. de Matos. O Contrato de Fernão Gomes.
  • Frances Gardiner Davenport. European Treaties Bearing on the History of the United States and Its Dependencies to 1648.
  • Crow, John A. The Epic of Latin America.
  • Arciniegas, Germán. Amerigo and the New World: The Life & Times of Amerigo Vespucci. Traduzido por Harriet de Onís.
  • Zweig, Stefan. Conqueror of the Seas – The Story of Magellan.
  • Fernandez-Armesto, Felipe. Pathfinders: A Global History of Exploration.
  • Grunberg, Bernard. La folle aventure d’Hernan Cortés, in L’Histoire n°322.
  • Restall, Matthew. Seven Myths of the Spanish Conquest.
  • Crosby, Alfred W., Jr. The Columbian Exchange: Biological and Cultural Consequences of 1492.
  • Fernández Álvarez, Manuel. Felipe II y su tiempo.
  • Boxer, Charles Ralph. O império marítimo português, 1415-1825.
  • Braudel, Fernand. Civilização material, economia e capitalismo, séculos XV-XVIII.
  • Cipolla, Carlo. European Culture and Overseas Expansion.
  • Jensen, De Lamar. Renaissance Europe: age of recovery and reconciliation.
  • Carmen Bernand, Cristina Murachco. História do Novo Mundo, V.1.
  • Parry, J. H. The Discovery of the Sea.
  • Caminha, Pero Vaz de. Carta a El Rei D. Manuel.

A Conquista do Brasil (Parte II)

Dando continuidade à série de artigos sobre a História dos nativos do Brasil, hoje vamos tratar dos primeiros povos que habitaram estas terras.

O Brasil pré-cabralino

A história pré-cabralina do Brasil é o período da História do Brasil que se inicia com o primeiro povoamento do território brasileiro e termina no ano do Descobrimento: 1500. Este território já havia sido “descoberto” e colonizado por numerosas e diversas etnias. No entanto, nem os americanos nem os portugueses de 1500 concebiam o “Brasil” da forma como o concebemos hoje.

A Pré-história tradicional geralmente se divide em Paleolítico, Mesolítico e Neolítico. No Brasil, prefere-se trabalhar com as categorias geológicas Pleistoceno e Holoceno. A periodização se divide em:

  • Pleistoceno – caçadores-coletores com pelo menos 12 mil anos
  • Holoceno – de 12 mil a.C. a 1500 d.C.

Este último se divide em:

  • Arcaico Antigo – 12 mil a 9 mil anos atrás
  • Arcaico Médio – 9 mil a 4500 anos atrás
  • Arcaico Recente – a partir de 4 mil anos atrás, normalmente relacionado à agricultura e ao desenvolvimento da cerâmica.
Linha do tempo da história do Brasil desde as primeiras ocupações humanas (as datas são controversas) até o fim do Período Colonial.

I. Pleistoceno
Achados em Minas Gerais e na Bahia foram datados entre 25.000 e 12.000 anos A.P. No sítio arqueológico Alice Böer, em São Paulo, foram encontradas peças datadas de 14.200 A.P. Em São Raimundo Nonato, no Piauí, arqueólogos defendem a idade de 50.000 anos para um abrigo ocupado por paleoíndios. Neste mesmo sítio, os arqueólogos encontraram artefatos humanos que remontam a mais de 48 mil anos A.P.

Descobertas no Brasil tem abalado a teoria tradicional da ocupação da América. Passou-se a defender outras teorias, como a de que o homem teria chegado à América entre cerca de 150 mil e 100 mil anos atrás, sendo de origem malásio-polinésia ou australiana. Pode-se admitir hoje que o Brasil foi ocupado há 60 mil anos atrás, no que diz respeito ao Piauí. As correntes migratórias teriam atingido Minas Gerais há 30 mil anos e o Rio Grande do Sul há 15 mil anos. Todo o país estava ocupado há 12 mil anos.

Luzia e o sitio de Lagoa Santa
Luzia é o nome do fóssil humano mais antigo encontrado nas Américas. Encontrado na década de 1970 em Lapa Vermelha, no sítio arqueológico de Lagoa Santa (Minas Gerais), o fóssil contribuiu para reacender um antigo debate em torno das origens do homem americano. A morfologia do crânio de Luzia a aproximaria dos atuais aborígenes da Austrália e nativos da África.

Estudos realizados na região do sitio de Lagoa Santa demonstram que os paleoíndios desta cultura desconheciam a cerâmica, e que sua indústria lítica era relativamente simples. Pesquisas recentes, contudo, afirmam que esses homens eram sedentários. Achados como enterros numerosos e uso de matérias-primas existentes apenas neste local reforçam estas idéias.

II. Holoceno

2.1. Nordeste e centro
A idade paleolítica brasileira é normalmente situada entre 12 mil e 4-2 mil anos A.P., quando surge e se difunde a prática agricultora na região. Antes disso, os homens viviam de caça, pesca e coleta. Nesta época, os arqueólogos constataram a existência de diferentes tipos de indústria lítica por todo o Brasil. No nordeste, vários sítios arqueológicos indicam o desenvolvimento da pedra lascada, contendo raspadores, lascas, furadores e fogões para assar caça.

A Pedra do Ingá, no Estado da Paraíba, é hoje um dos mais conhecidos monumentos arqueológicos doBrasil. Suas grafias têm fascinado estudiosos do mundo todo.

Na região nordeste, as técnicas de trabalho com o material lítico se tornam cada vez mais diversificadas e complexas com o passar do tempo. O número de fogões, por exemplo, aumenta conforme as datações se aproximam do ano 8 mil antes do presente. Fogueiras também são encontradas.

2.2. Sul
As datas mais antigas no Sul (tradição Ibicuí) ficam entre 13.000 e 8.500 A.P., período rico em artefatos simples, encontrados na Bacia do Uruguai. A fase Uruguai, de 11.555 a 8.640 A.P. apresenta muitos raspadores, facas bifaciais e pontas de projéteis. Em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul foram localizados artefatos (facas, raspadores, pontas de flecha) de 8.500 a 6.500 anos atrás, estabelecidos como tradição Vinitu. A tradição Humaitá, mais recente (entre 6.500 e 2.000 anos atrás) se estende de São Paulo ao Rio Grande do Sul. Os homens dessa tradição produziram raspadores, furadores e zoólitos (estátuas de pedra assumindo formas animais). Outra tradição identificada no sul foi chamada de Umbu; esta teria sido responsável pela confecção de fogões e pontas de projéteis.

2.3. Litoral
Os principais sítios arqueológicos do litoral são os sambaquis, montes de conchas de moluscos formados por ação humana. Normalmente são encontrados junto dos sambaquis esqueletos humanos, peças líticas, restos de alimentos, etc. Grande parte dos sambaquis se encontram cobertos pelo mar, devido às mudanças climáticas ocorridas durante o pleistoceno tardio e o holoceno. Os sambaquis existem em quase todo o litoral brasileiro. Os sambaquis são associados à tradição Itaipu. Os povos que habitavam o litoral são normalmente definidos como pescadores semi-nômades.

III. As Tradições
Por tradição, os arqueólogos entendem as práticas e técnicas padrão dos antigos para a confecção, por exemplo, da indústria lítica e da pintura rupestre.

Ao longo de toda a pré-história e história do Brasil, diversas tradições coexistiram e algumas persistiram após a colonização e resistem até hoje. Algumas das tradições mais importantes são:

3.1. Tradição Nordeste
Localizada nos estados de Minas Gerais, Bahia, Ceará, Rio Grande do Norte, Pernambuco e Piauí. Nesta tradição são enquadradas as pinturas encontradas no principal sítio arqueológico do Brasil, o Sítio Boqueirão da Pedra Furada (PI). Dada a complexidade destas representações, pesquisadoras como Anne Marie Pessis e Gabriela Martin, além da própria Niéde Guidon, estabeleceram subtradições nessa área.

É caracterizada pela presença de grafismos reconhecíveis como figuras humanas, animais, plantas e objetos, e de grafismos puros, os quais não podem ser identificados. Estas figuras são muitas vezes dispostas de modo a representar ações, cujo tema é às vezes reconhecível. Os grafismos puros são nítidamente minoritários. As figuras humanas e animais aparecem em proporções iguais e são mais numerosas que as representações de objetos e de figuras fitomorfas (que assemelha-se à plantas). Algumas representações humanas são revestidas de atributos culturais como enfeites de cabeça, objetos cerimoniais nas mãos, etc. As composições de grafismos representando ações ligadas ao quotidiano e ao cerimonial são abundantes e constituem a especificidade da tradição Nordeste. Quatro temas principais aparecem durante os seis mil anos atestados de existência desta tradição: dança, práticas sexuais, caça e manifestações rituais em torno de uma árvore.

3.2. Tradição Agreste
Localizada nos estados do Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba e Pernambuco. Possui pinturas geométricas e antropóides, além de representações da fauna.

Supõe-se que os grafismos denominados de Tradição Agreste surgiram na região Agreste do estado de Pernambuco e também da Paraíba. São registros rupestres mais toscos, rudes, e em dimensões maiores que a Tradição Nordeste. Na maioria das vezes representam seres estáticos, sem movimento, ou sugerindo pouco movimento.

Bonecões típicos da Tradição Agreste. Sítio Toca da Entrada do Baixão da Vaca. PI.

Nesta classificação, os antropomorfos apresentam-se de forma isolada, de difícil compreensão, não tão bem elaborados como na Tradição Nordeste. Existem também muitas representações de sáurios (lagartos e répteis) que são animais muito comuns no ambiente semi-árido coberto pela caatinga.

Na sua versão mais característica, as figuras da Tradição Agreste aparecem isoladas ou formando pequenos conjuntos dominados por uma ou duas grandes figuras antropomorfas (ditas “bonecões”).

3.3. Tradição Itacoatiara
Integrada por gravuras representando figuras que não permitem nenhum reconhecimento. Raramente alguma figura reconhecível é representada de maneira isolada.

As itacoatiaras (pedra pintada, na língua Tupi) estariam espalhadas por várias regiões do país. Seriam petroglifos de tamanhos e feituras diferentes que teriam em comum a sua profunda ligação com a água, e são portanto grafadas sobretudo em margens de rios.

3.4. Tradição Litorânea Catarinense
Seus vestígios vão do litoral até ilhas a quinze quilômetros de distância da costa. É caracterizada por inscrições em rocha, com quatorze temas estudados que vão de antropomorfos a geométricos.

Os painéis gravados da Tradição Litorânea Catarinense estão situados em ilhas, em locais de difícil acesso e até mesmo perigosos, longe da costa e orientados para o alto-mar. As gravações foram feitas em granito, através da técnica do polimento.

3.5. Tradição Geométrica
Presente desde o planalto sul, atravessa Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Goiás e Mato Grosso até o nordeste. Dada sua extensão, Prous a subdivide em Meridional e Setentrional. Caracterizada por pinturas que representam uma maioria de grafismos puros, figuras humanas e algumas mãos, pés e répteis extremamente simples e esquematizados.

Inscrições na Pedra de Ingá: figuras estilizadas ou escrita não decifrada?

3.6. Tradição Meridional
Ocorre no sul do Brasil e em outros países da fronteira. Os sítios do Rio Grande do Sul se apresentam alinhados nas escarpas do planalto, sendo também encontrados em blocos isolados e em abrigos e grutas. As gravuras foram feitas no arenito, através da técnica de incisão ou de polimento. Em alguns sítios foram encontrados vestígios de pigmentos de diferentes cores (preto, branco, marrom e roxo) que formam gravuras geométricas lineares.

Tradição Planalto
Passa pelo Planalto Central, pelos estados de Minas Gerais, Paraná e Bahia. Gravuras principalmente de animais em vermelho, preto, amarelo e raramente em branco. Nesta região, encontra-se o famoso sítio arqueológico de Lagoa Santa (MG), local de origem do fóssil humano mais antigo do Brasil.

A Tradição Planalto foi definida a partir dos sítios de pinturas rupestres do Planalto Cárstico de Lagoa Santa, daí seu nome. Seus elementos definidores são os grafismos zoomorfos, sobretudo cervídeos e peixes, de composição monocrômica, acompanhados de outros zoomorfos (sobretudo fquadrúpedes, menores que os cervídeos) e de antropomorfos muito esquematizados.

3.7. Tradição Aratu
A Tradição Aratu foi a primeira grande ocupação do Planalto Central e caracterizava-se por ser bastante propensa a influências externas e, em contrapartida, certa homogeneidade interna. Há indícios da Tradição Aratu nos estados do Piauí, Maranhão, Bahia, Minas Gerais e São Paulo.

Urna funerária da tradição Aratu.

Os grupos indígenas que confeccionaram a cerâmica da Tradição Aratu tiveram diversas fases, possivelmente por ocuparem uma grande área e por sofrerem influências de outras tradições.

O povo da tradição Aratu provavelmente foi expulso do litoral por povos
da tradição Tupiguarani, antes da chegada dos portugueses à costa brasileira.

3.7. Tradição São Francisco
Apresenta-se nos estados de Minas Gerais, Bahia e Sergipe, principalmente no vale do Rio São Francisco.

Nos grafismos predominam os motivos geométricos, mas verificam-se também desenhos que representam formas humanas e animais (peixes, pássaros, cobras, sáurios e algo parecido com tartaruga). Não existe nenhuma cena e, na maioria dos casos, as figuras são feitas em duas cores. Como outras tradições, também apresenta variedades regionais que contam com representações de pés humanos, armas e instrumentos.

3.8. Tradição Amazônica
Antropomorfos simétricos e geometrizados caracterizam esta tradição ainda pouco estudada. Nas margens dos rios Cuminá, Puri e Negro, as cabeças de figuras humanas gravadas geralmente são radiadas, enquanto nas proximidades de Monte Alegre são pintadas. Há também em outras localidades painéis compostos por bastões e gravações curvilineares.

Tradição Tupiguarani
A cerâmica da tradição Tupiguarani, no momento dos primeiros contatos com os europeus, foi encontrada exclusivamente entre grupos indígenas da família linguística Tupi-guarani, apesar de que nem todos os que falavam Tupi ou Guarani posuíssem cerâmica. Continuou depois sendo produzida e utilizada por alguns destes grupos desde o século XVI até o início do século XX. A designação Tupiguarani, escrita sem hífen, distingue a tradição ceramista da família linguística, que se se escreve com hífen: Tupi-guarani.

Vasilhame cerâmico da tradição Tupiguarani. Usado para armazenar grãos e fermentar bebidas, como para sepultar os mortos. Recuperado no munícipio de Capanema – PR

No Brasil Central, dados arqueológicos demonstram a presença de vestígios cerâmicos com características da tradição Tupiguarani entre os séculos XIV e XV.

Alguns autores perceberam as variações existentes nas características dessa tradição cerâmica, como o fundo cônico que reproduz a forma da cuia utilizada para tomar o mate, hábito típico e exclusivo dos índios da bacia platina. Na tentativa de adotar procedimentos classificatórios mais precisos, foi dividida em duas subtradições: a Tupinambá e a Guarani.

Carimbos cerâmicos Guarani. Usados para pintura corporal ou de tecidos, redução jesuítica do Guairá, século XVII, vale do rio Ivaí.

A divisão da tradição Policrômica Amazônica em subtradições Guarani e Tupinambá foi elaborada por Brochado (1984), na qual os sítios guaranis apresentam a predominância de recipientes de cerâmica com a superfície externa corrugada, com vasilhas (tigelas de beber, tigelas, panelas e talhas) com fundo predominantemente cônico; por outro lado, entre as vasilhas tupinambás, predominam as com formato esférico ou em meia calota, sendo raras as com fundo cônico.

Urna funerária Tupiguarani.

As tigelas para beber, encontradas nos sítios guaranis e tupinambás, se diferenciam ainda, respectivamente, por possuírem pintura externa, boca redonda e fundo cônico ou pintura interna, boca quadrangulóide e fundo semi-esférico.

Fragmentos de cerâmica com pintura policrômica.

Cabe observar que as vasilhas guaranis possuíam como funções principais preparar ou servir alimentos, podendo também ser empregadas como urnas funerárias: yapepó (panelas), cambuchí (talha para fermentar bebidas alcoólicas, armazenar e servir), cambuchí caguaba (copo para cauim), iisé e õeembé (pratos). As vasilhas com tratamento de superfície digital eram levadas ao fogo, o que não acontecia com as peças com pintura na superfície externa.

3.9. Tradição Itararé
Os vasos cerâmicos ligados a Tradição Itararé são geralmente utilitários e de pequeno tamanho. As paredes são finas (de 4 a 8 milímetros), se compararmos com a cerâmica da Tradição Tupiguarani.

As vasilhas apresentam corpo cônico, semi-elípticas, em meia-calota ou meia-esfera. As peças com formas cônicas de abertura constrita ou levemente ampliada são denominadas kruku, no Rio Grande do Sul e korã, em São Paulo. As formas semi-elípticas, também denominadas tigelas rasas ou fundas, que possuem contorno simples e abertura ampliada, são conhecidas como pentky no Rio Grande do Sul e em São Paulo.

De forma geral, a decoração ou o tratamento de superfície é representado pelo tipo liso com brunidura (processo mecânico de polimento por abrasão, empregado no acabamento de peças). As decorações são diversas, mas o tipo liso com brunidura é a característica mais marcante no Estado de São Paulo. Quanto à forma, o tipo cônico é o mais comum.

IV. O Arcaico Recente
O aparecimento de plantas cultivadas em Minas Gerais data de 4 mil anos atrás. Em São Raimundo Nonato, a agricultura parece ter sido praticada desde a pelo menos 2.090 anos. Embora a cerâmica amazônica seja mais antiga que a agricultura, o mesmo fenômeno não ocorre no resto do país, onde a cerâmica mais antiga data de 3 mil anos atrás. Os arqueólogos consideram que o surgimento da cerâmica está ligado ao sedentarismo e à agricultura, pois a cerâmica é de difícil transporte e, normalmente, tem a função de armazenar víveres. A tradição Taquara-Itararé é talvez a mais estudada tradição de cerâmica do país.

V. Amazônia
5.1. Período Pré-Cerâmico
As datações mais antigas da região amazônica situam os primeiros habitantes da região em 12.500 AP. É provável que o território houvesse sido colonizado anteriormente. Arqueólogos identificam um desenvolvimento da técnica de lascar, começando pelo lascamento por percussão e seguindo para o lascamento por pressão. As mudanças nas técnicas de lascamento são associadas a diferentes modalidades de caça: uma voltada para os animais de grande porte, e outra para os animais de pequeno porte. Mas nada é certo sobre o estilo de caça dos antigos povos amazônicos. Acredita-se que esses povos se alimentavam de moluscos, pequenos animais e frutos. Os sambaquis continuam sendo os principais sítios arqueológicos desse período na Amazônia.

Foto de um sambaqui. Os sedimentos que podem ser identificados na parede mostram sucessivas camadas de restos de conchas dos moluscos consumidos.

5.2. Período Cerâmico Incipiente
Durante essa época os povos amazônicos adotaram um estilo de vida similar aquele de muitas tribos do território atualmente. Os indígenas teriam vivido em estado de relativa fixação, realizando a horticultura de raízes. Esses grupos desenvolveram a primeira cerâmica elaborada da América, com temas geométricos e zoomórficos, pinturas em tinta branca e vermelha. Os vasos assumiram formatos ovais e circulares.

Cerâmica do estilo hachurado zonado.

Os grupos de estilos cerâmicos mais conhecidos são chamados de Hachurado Zonado e Saladóide-Barrancóide. Cerâmicas do estilo Saladóide, encontradas no baixo e médio Orenoco, parecem ter sido criadas entre 2.800 a 800 a.C. Os estilos Hachurados Zonados de Tutoshcainyo e Ananatuba datam, respectivamente, de cerca de 2.000-800 a.C. e 1.500-500 a.C.

Cerâmica Barrancóide.

Essas sociedades praticavam, além da horticultura, caça e pesca. O consumo de mariscos foi reduzido e esses povos passaram a se instalar nas várzeas e margens dos rios. Assadeiras de cerâmica grossa foram identificadas, de forma que levanta-se a hipótese da presença da mandioca. Sítios desses complexos culturais foram encontrados na bacia do Ucayali, na ilha de Marajós, no Orenoco e no Amazonas.

5.3. Cacicados Complexos: 1000 a.C. – 1500 d.C
Sociedades que habitavam regiões da bacia amazônica organizaram-se de forma cada vez mais elaborada entre o ano 1000 a.C. e o ano 1000 d.C.. Possuíam domínios culturais até mesmo maiores que os de muitos Estados do Velho Mundo, como as civilizações minóica e micênica e os Estados africanos de Ashanti e Benim. Essas sociedades tornaram-se mais hierarquizadas, constituíram chefias centralizadas na figura do cacique, e adotaram posturas expansionistas. O cacique, além de dominar amplos territórios, organizava continuamente seus guerreiros visando conquistar novos territórios.

Uma destas civilizações, a marajoara, protagonizou quase mil anos de história, tendo desaparecido antes da chegada dos europeus. Seu apogeu parece ter ocorrido ao redor do ano 1000. Esculturas de pedra eram esculpidas na foz do rio Trombetas, onde havia também centros de produção de muiraquitãs, pequenas esculturas lapidadas em pedra polida em forma de animais ou seres humanos.

Arte Marajoara

Dados arqueológicos e etno-históricos revelam indícios da presença dessas sociedades ao longo das várzeas dos rios Amazonas e Orenoco, nos contrafortes orientais dos Andes, e na região costeira do Caribe. Na Amazônia, por volta de 1000 a.C., desenvolvem-se as culturas dos construtores de tesos (aterros artificiais construídos em áreas inundáveis), sucedidas por sociedades complexas e hierarquizadas, associadas a uma indústria de cerâmica muito refinada. Tais sociedades seriam exemplificadas pela Marajoara, na ilha do Marajó, e pela Tapajônica, na região de Santarém.

Muiraquitã em formato de sapo, o mais comum.

A cerâmica dessas sociedades era altamente elaborada, com técnicas complexas de produção. Havia urnas funerárias elaboradas, comércio e uma densidade demográfica de escala urbana. Acredita-se que a monocultura era praticada, além da caça e da pesca intensivas, a produção intensiva de raízes e o armazenamento de alimentos.

Crônicas do início do período colonial são empregadas na reconstrução das antigas civilizações brasileiras. Muitos cronistas descreveram elementos indígenas desse período. A dissolução dessas organizações sociais normalmente é relacionada à conquista, que teria abalado sua estrutura demográfica.

Arte Tapajônica

A cerâmica produzida por estas civilizações é classificada em dois grupos principais: o Horizonte Policrômico e o Horizonte Inciso Ponteado. São exemplos do Horizonte Policrômico os Marajoaras (foz do Amazonas) e os Guarita (Médio Amazonas), entre outros localizados fora da Amazônia brasileira. Exemplos do Horizonte Inciso Ponteado são Santarém (Baixo Amazonas) e Itacoatiara (Médio Amazonas). Acredita-se que o Horizonte Inciso Ponteado estivesse associado aos antepassados dos povos de língua Caribe, enquanto o Horizonte Policrômico teria sido produzido pelos antepassados dos povos de língua Tupi.

Grandes sítios amazônicos da época dos cacicados complexos parecem ter tido regiões especializadas para o enterro, o culto, o trabalho e a guerra. A ocupação pré-histórica tardia do território era sedentarizada. A entrada do milho e de outras sementes na região, assim como sua popularização entre os americanos, data do primeiro milênio antes de Cristo.

VI.  Kuhikugu e Monte de Teso dos Bichos

6.1. Kuhikugu
No alto Xingu, grandes aldeias circulares eram construídas com urbanismo sofisticado e inovador. O sítio arqueológico de Kuhikugu, localizado no parque Nacional do Xingu, foi um grande complexo urbano e pode ter abrigado até 50.000 habitantes, antepassados dos atuais kuikuros. O sítio abriga construções complexas como estradas, fortificações e trincheiras para proteção.

À esquerda, reconstrução de Kuhikugu. À direita, uma aldeia kuikuro moderna.

Para alimentar a grande população, havia campos cultivados e pomares na cidade. Talvez a mais incrível descoberta seja a de barragens para a criação de peixes. Como a descoberta é recente, estudos sobre as formas de vida dessas populações ainda são necessários. Os estudiosos acreditam que esse povo cultivava a mandioca.

Kuikuros: prováveis descendentes dos habitantes de cacicados complexos como o Kuhikugu.

O desaparecimento dessa civilização, assim como de outras grandes civilizações amazônicas, é relacionado à entrada de doenças europeias no continente. As características naturais da floresta Amazônica explicariam porque os antigos europeus não travaram contato com esta civilização brasileira.

6.2. Monte de Teso dos Bichos
O Monte de Teso dos Bichos, localizado na Ilha de Marajós, é o local onde floresceu uma das mais elaboradas civilizações da Amazônia pré-cabralina, ocupando 2,5 hectares. Ali, entre 400 a.C e 1300 d.C, existiu uma população, estimada entre quinhentas e mil pessoas, que fazia parte de um complexo de povoados pertencentes a uma sociedade de tuxauas. Essa sociedade apresentava um alto desenvolvimento tecnológico e uma ordem social bem definida. As mulheres encarregavam-se dos trabalhos agrícolas, cuidavam do preparo da alimentação e habitavam casas coletivas. Os homens cuidavam da caça, da guerra, das práticas religiosas e e viviam em habitações masculinas próximas ao centro cerimonial, constituído de uma plataforma de barro.

Uma das características marcantes das sociedades complexas da Ilha de Marajós são os “tesos”, aterros artificias de grande porte construídos para a colocação de habitações, provavelmente para evitar inundações. Os tesos marajoaras são considerados estruturas monumentais e, por esse motivo, são essenciais para a interpretação do passado marajoara.

VII. Período Pré-Cabralino Recente
A história do Brasil pré-cabralino recente costuma ser estudada através das línguas nativas. O estudo sobre as línguas nativas permite compreender aspectos dessas culturas, seus parentescos históricos e suas migrações. Quando cronistas europeus descreveram os antigos povos brasileiros, utilizaram sobretudo denominações linguísticas e, graças ao trabalho missionário de alguns jesuítas, temos hoje conhecimento das antigas línguas brasílicas.

Família de um chefe Camacã se prepara para uma festa. Obra de Jean-Baptiste Debret. O original é em preto e branco.

Resta a tarefa de associar os achados antigos aos povos recentes, que conhecemos a partir de grupos linguísticos. Apenas um grande grupo pré-cabralino recente foi associado aos achados antigos: os grupos da família linguística Tupi-Guarani. Estes dominavam o atual litoral brasileiro, conhecido por Pindorama. Outra fonte para a reconstrução da história recente dos povos pré-cabralinos é a mitologia indígena. É possível estabelecer relações entre os elementos dos mitos e acontecimentos que consideramos históricos. As fontes mitológicas tem sido empregadas para estudar movimentos migratórios e as relações estabelecidas entre os povos brasileiros e o Império Inca, por exemplo.

Quando os europeus passaram a ocupar a costa oriental da América do Sul, encontraram etnias vinculadas a quatro principais grupos linguísticos: arawak,  tupi-guarani, jê e karib. Dentro de um mesmo grupo linguístico havia diferentes unidades identitárias possuindo dialetos, práticas culturais e filosofias próprias.

Múmia de um chefe de Coroados. Obra de Jean-Baptiste Debret. O corpo está dentro de uma urna funerária.

7.1 Macro-Tupi
Um dos grandes grupos linguísticos do Brasil, que parece ter se expandido imensamente sobre o território brasileiro antes de 1500. Devem ter primeiramente habitado a região das cabeceiras dos rios Madeira, Tapajós e Xingu. A expansão Tupi-Guarani aconteceu há 3~2 mil anos, pouco depois desse grupo ter se diferenciado de outros na região entre o Xingu e o Madeira, formando novos subgrupos linguísticos que expandiram por toda a América: os Kokama e os Omágua até o rio Amazonas, os Guaiaki até o Paraguai, os Xirinó à Bolívia, Tapirapés e Teneteharas se deslocaram em direção ao nordeste, os Pauserna, Kajabi e Kamayurá até o extremo sul do Brasil, os Oyampi até a região das Guianas. A última fase de dispersão dos Tupi-Guarani ocorreu por volta do ano 1000. Os falantes de línguas associadas ao Tupi-Guarani estariam já instalados no sul do Brasil, na bacia amazônica e também no litoral do país (potiguaras, tupinambás, tupiniquins). A maior parte dos artefatos arqueológicos desses povos são datados entre o ano 500 e o ano 1500. A extensão para o litoral é constatada pela maior concentração de artefatos nessa região entre os séculos XI e XIII.

Cunhambebe, chefe tupinambá historicamente conhecido por liderar a Confederação dos Tamoios numa negociação de paz com os portugueses, representados pelos jesuítas Nobrega e Anchieta.

Dados linguísticos permitem avaliar essas sociedades como expansivas e em constante movimento. Graças a uma impressionante rede hidroviária fluvial, os povos desse grupo linguístico puderam se difundir e, ao mesmo tempo, manter contato uns com os outros. O uso de canoas (ygara em tupi antigo) para navegar rios permitia o envio de missões militares e diplomáticas de uma região para outra. Muitos artefatos arqueológicos do período cerâmico são filiados a esses povos. Os sítios arqueológicos associados a essas populações constituíam-se em aldeias extensas, normalmente localizadas em regiões de planalto ou em terraços. Nesses sítios arqueológicos a cerâmica é abundante, as unidades habitacionais são cabanas de até 60 m² de diâmetro e as áreas dos sítios são definidas em espaço cerimonial, público e residencial. O espaço dos vivos é separado daquele dos mortos. A arqueologia identificou sepultamentos em urnas e outros em terra. Artefatos líticos são encontrados junto dos sepultamentos.

7.2 Macro-Jê
As línguas associadas à matriz linguística Macro-Jê devem ter sofrido diferenciação por volta de 6 mil anos atrás. Sua expansão inicia-se há 3 mil anos, pela Região Centro-Oeste do Brasil. O grupo Jê propriamente dito é possivelmente originário das regiões das nascentes dos rios São Francisco e Araguaia. Grande parte dos povos de língua Jê se afastaram dos Kaingang e Xokleng, seguindo para o sul da região central brasileira. Alguns grupos devem ter se separado destes últimos e seguido até a região amazônica há pelo menos mil anos atrás. Os povos Jês preferiam se instalar em regiões de Planalto, como nos permite constatar o estudo de suas línguas. Alguns grupos jês são Kayapós, Xerentes e Timbiras.

Índia Xerente.

7.3 Karib
Os povos de língua Karib também passaram por um processo de expansão há 3 mil anos. Essa família linguística é talvez originária da região das guianas e do extremo norte do Brasil. Os Yupka e os Karijona, remificações dessa família linguística, teriam se diferenciado e migrado para a Colômbia, enquanto os Bakairi teriam seguido para o centro do Brasil. O empréstimo de termos Tupi nas línguas Karib (e vice-versa) aponta para a existência de redes complexas de comércio e tráfico de pessoas entre tais povos.

Índios Bakairi em dança ritual.

7.4 Arawak e outros
As línguas de matriz Arawak concentram-se hoje na região sudoeste da Bacia amazônica. A principal família linguística associada a esse grupo é a Maipure, dividida em quatro subgrupos regionais.

Taínos, povos de língua arawak que habitam certas regiões do Caribe.

Existe grande polêmica em relação às origens, às migrações e aos descendentes desses povos, além de suas relações com outros grupos linguísticos do Brasil Antigo.

Outros grupos linguísticos menores, sem parentescos com os outros maiores, são os Mura, Chapkura, Pano, Yanomani, etc.

VIII. Pindorama
Segundo Luís da Câmara Cascudo, os tupis foram o primeiro agrupamento indígena que teve contacto com os portugueses. A influência tupi se deu na alimentação, no idioma, nos processos agrícolas, de caça e pesca, nas superstições, costumes, folclore, etc. Os povos do grupo Tupi-Guarani habitavam a região chamada por eles de Pindorama (terra das palmeiras). Sabemos os nomes de alguns dos principais grupos que habitavam Pindorama na véspera da chegada europeia: os potiguaras, os tremembés, os tabajaras, os caetés, os tupiniquins, os tupinambás, os aimorés, os goitacás, os tamoios, os carijós e os temiminós.

Os potiguaras habitavam a região entre o Rio Acaraú e o Rio Paraíba e controlavam a navegação fluvial. Durante a conquista, aliaram-se aos franceses, sendo que alguns relatos falam de casamentos entre potiguaras e franceses, envolvendo acordos bélicos anti-portugueses. Os Tabajaras habitavam a margem meridional do rio Paraíba, na região atual do litoral pernambucano. Foram importantes aliados dos portugueses durante a conquista. Os Caetés habitavam a região de Pernambuco desde Olinda, até onde encontra-se hoje o estado de Alagoas. Tornaram-se célebres na História do Brasil por terem devorado o Bispo Sardinha. Os Tremembés habitavam a margem ocidental do rio Acaraú. Os tamoios habitavam a Baía da Guanabara; seus líderes, Cunhambebe e Aimberê, aliaram-se com os franceses no combate aos portugueses. Os carijós habitavam o litoral sul do país. Os tupiniquins habitavam a atual região do Estado de São Paulo, e os Tupinambá a região sudeste do Brasil. Nosso conhecimento do tupi antigo é principalmente baseado na língua dos Tupinambás.

Os povos tupis viviam em aldeias que reuniam de 600 a 700 habitantes. Algumas aldeias eram fortificadas em razão das guerras inter-tribais. Nenhuma autoridade aparecia com força absoluta ou consideravelmente forte sobre os outros integrantes da sociedade, embora houvesse hierarquias em função do gênero, do mérito guerreiro e dos poderes xamânicos. Os Pajés (Paye em tupi antigo) e os Caciques (morubixaba em tupi antigo) ocupavam  o papel de autoridades das tribos. A subsistência baseava-se na caça e na horticultura. Os homens acreditavam em bons e maus espíritos (tupã, anhang, etc.) que influenciavam os acontecimentos no cosmos. Cada homem trazia um maracá, no qual acreditavam habitar um espírito protetor de cada indivíduo. Acredita-se que apenas os filhos dos homens mais importantes da tribo fossem enterrados nas urnas funerárias. Os acontecimentos religiosos tinham alcance amplo, e reuniam diferentes etnias. Os antigos indígenas foram responsáveis por inúmeras manifestações artísticas, como peças de cerâmica, danças, canções, poesias (registradas por Léry) e a plumária extremamente sofisticada e rica. A Literatura Tupi aparece com a chegada da escrita europeia, quando missionários passam a escrever em tupi para converter os nativos, e as crônicas transcrevem canções indígenas.

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FONTES E REFERÊNCIAS:

Web

Livros, revistas, artigos e entrevistas

Por que eu não sou um neo-ateu

Alguns ficam confusos com a minha posição quanto à religião. Alguns chegam a pensar que sou católico e quando digo que sou ateu se assustam. Isto porque não me engajo em militância ateísta, não me identifico com os “neo-ateus” e acho a antirreligião uma babaquice que vai contra os princípios de liberdade individual ao culto, à associação e à expressão.

Sou um ateu despreocupado. Não me preocupo se as pessoas adoram Javé, Allah, ou Iansã. Isto não é relevante para mim. Deuses não são relevantes para mim. Eu os desconsidero em toda e qualquer atividade cotidiana da minha vida. Penso que a religião é um hábito, uma tradição da maioria das pessoas, embora hajam aqueles que de fato tenham e vivam a fé.

Tive minha fase de contestação da religião e de “neo-ateísmo”, mas nunca tive uma oposição forte à “rebeldia” inicial por causa da educação que minha mãe, descrente, me deu. Por isso acho muito infantil o modo como se portam hoje ateus de mais de 20 anos na cara que parecem pré-adolescentes com oxiúros. Por isso listei dez razões para que você, ateu level 1, não seja um neo-ateu por muito tempo.

1. Ateísmo não é diploma
Descobriu que é ateu ontem? Ótimo. Não precisa usar as palavras “lógica”, “razão” e “argumento” cinco vezes por frase. O fato de ser ateu não te faz mais inteligente, melhor informado ou maior conhecedor da ciência. Na verdade, grandes gênios da humanidade foram crentes até o final de suas vidas e grandes nomes da ciência hoje continuam sendo crentes. Considere que ateísmo, apesar de não ser recente, é uma filosofia minoritária entre as pessoas. A maioria das pessoas é crente e não deixa de desenvolver habilidades fantásticas por causa disso.

O grande problema dos neo-ateus é justamente o proselitismo. A maioria está recém se descobrindo como ateu e precisa se afirmar de um jeito ou de outro. O resultado é um púbere falando besteira e ofendendo os outros porque acha que é um iluminado que descobriu a verdade.

2. Religião não é doença
O neo-ateu acha que foi milagrosamente curado, e acredita que deve curar os outros “doentes”. Insiste que a religião é um mal no mundo e que ela precisa ser eliminada. Na sua cabeça, a religião é instrumento de poder, de dominação, de enganação, etc.

Iludido pela novidade, embarca numa verdadeira pregação do Devangelho. É um dever moral fazer o maior número possível de desconversões.

Não sabe portanto que a religião nunca foi o mal, e sim a repressão religiosa. Repressão religiosa é feita de religião para religião e de ideologias políticas para religiões em geral. Quando sustentamos que a religião é um mal a ser eliminado, estamos perpetuando justamente a repressão religiosa.

3. Ignorância não é força
Caindo na ilusão de que tudo que é contra a religião é “científico”, o neo-ateu pensa que crer em figuras do “ateísmo” é um tipo de ceticismo ou livre pensamento. Repete ipsis literis as besteiras de Sam Harris e Richard Dawkins sem considerar se estas pessoas estão habilitadas para discutir o assunto ou se o que dizem é lógico e faz sentido. Acreditar no que diz Dawkins sobre Teologia é como acreditar no que diz Craig sobre zoologia. Ambos podem emitir opinião sobre o assunto, mas nenhum está qualificado para discuti-lo com propriedade. Dawkins é um excelente zoólogo, e só isso.

 

Para deixar o estado de credulidade do neo-ateu, é necessário que ele entenda que o ateísmo é uma postura filosófica como as outras, que precisa ser estudada se pretende levá-la à sério. Não se pode discutir religião sem entender religião. E entendê-las não através de esteriótipos desenhados por aqueles que as atacam. Sem conhecer os argumentos do outro lado, jamais se pode ter segurança e convicção da própria posição, mas sim uma opinião escorada na credulidade, como a de um crente fanático  sem conhecimento da própria doutrina religiosa.

É mais fácil ler críticas contundentes à religião em autores que escreveram há séculos como Locke, Paine e Mill, ou até religiosos como Erasmo de Roterdã, do que nos livros de comédia e ficção de nova seita antiteísta.

4. Antiteísmo não é ateísmo
Chame como quiser: neo-ateísmo, ateísmo militante, humanismo secular, fundamentalismo ateu, etc. Antiteísmo não é ateísmo. Ateísmo, com prefixo -a-, indica uma ausência: ausência de crença, de religião, de deus ou deuses. Um ateu não acredita que deuses existem (ou acredita que deuses não existem, dá na mesma), e não segue religião teísta alguma. É só isso. Ateísmo acaba aí.

O único mandamento ateu: não seja um c*zão.

Hoje em dia pouca gente pensa nisso, mas um ateu poderia acreditar em espíritos, forças sobrenaturais e planos não-materiais. É suficiente para ser ateu que não se acredite em divindades. Nada impede a existência de um espiritismo ateu, por exemplo. De fato, existem até religiões ateístas como o positivismo (religião da humanidade), o humanismo, a cientologia, etc.

Antiteísmo é oposição às religiões teístas e ao pensamento teísta. Na prática, significa que o antiteísta acredita que a religião e a crença em deuses são um mal a ser eliminado. O antiteísmo é portanto tão intrusivo quanto uma religião expansionista, já que busca a conversão. Ou, neste caso, a “desconversão”.

5. Se fosse para pregar, eu seria crente
O antiteísta não se contenta em pregar que a religião é nociva e (des)converter os outros para a sua seita. O neo-ateu também se congrega em igrejas, virtuais ou não. Eles se juntam em congregações como a ATEA, a Liga Humanista Secular, etc.

Se fosse para pregar, ter liturgia, ir numa congregação e ter discurso oficial, eu seria crente. Qual o sentido de se congregar em torno de uma descrença? É como juntar pessoas num clube de não-torcedores do Flamengo, ou numa associação de não-moradores da Vila Cruzeiro. É óbvio que as associações se dão em razão de características comuns e positivas: torcedores do Flamengo e moradores da Vila Cruzeiro. Anticomunistas se associam, antifascistas se associam, anticapitalistas se associam. No caso dos neo-ateus, são antiteístas e antirreligiosos se associando em prol de uma doutrina política antirreligiosa.

O que não falta é religião ateísta. Desde as mais respeitáveis e milenares como Budismo, Taoísmo e Confucianismo às mais recentes e cientificistas Religião da Humanidade, Culto da Razão, Cientologia, etc. É inevitável: quanto mais ateus dogmatizam o próprio pensamento para combater religiões e quanto mais incentivam o “ateísmo organizado”, mais os “ateus” entram em esquemas prontos que formatam seu pensamento numa doutrina religiosa. Se religião fosse um problema, antiteísmo não teria virado uma.

6. O antiteísmo tem um passado imundo (e um presente também)
Toda perseguição religiosa trouxe efeitos devastadores  quando tomou o poder político. Da Guerra Cristera provocada por Plutarco Elías Calles no México aos verdadeiros massacres cometidos na União Soviética, na China, na Albânia e em todo lugar onde o comunismo se instalou ou tentou se instalar, podemos tirar a lição de que o sectarismo ateu não é menos nocivo que o religioso.

Se neo-ateus acham que podem julgar cristãos por causa das Cruzadas ou da Inquisição, desconhecem que a militância ateísta fez coisa semelhante em lugares onde crentes foram fuzilados e a religião, proibida.

Palden Choetso, monja budista, suicida-se por auto-imolação em protesto contra a repressão religiosa e a ocupação chinesa no Tibet. Protestos deste tipo são frequentes, mas pouco reportados pela mídia.

É difícil calcular quantas foram as mortes decorrentes da repressão à religião. Mas podemos citar alguns eventos desagradáveis decorrentes dela:

  • A Guerra Cristera provocada por Plutarco Elías Calles, que matou mais de 30 mil cristeros e 50 mil soldados federais.
  • O massacre de religiosos pelos republicanos espanhóis durante a Guerra Civil Espanhola que totaliza umas 6,8 mil pessoas.
  • Campanhas de “reeducação” e campanhas “anti-reacionárias” do Partido Comunista Chinês durante o governo de Mao Zedong. Um exemplo é a Revolução Cultural que matou cerca de 500 mil pessoas, o que inclui muitos religiosos já que a China era e é um Estado Ateu.
  • Os expurgos socialistas na Mongólia para erradicar o Lamaísmo, que custaram entre 30 mil e 35 mil vidas.
  • A repressão religiosa do governo de Enver Hoxha na Albânia.
  • A repressão comunista no Camboja, que mandou para os campos da morte  Chams (cambojanos muçulmanos), cambojanos cristãos e monges budistas.
  • As campanhas antirreligiosas da União Soviética de 1917-1921, de 1921-1928, 1928-1941, de 1958-1964, e de 1970-1990, cujo número de vítimas não é conhecido.
  • A completa repressão religiosa na Coréia do Norte, que impôs o culto ateísta ao Estado (Juche).
  • A repressão religiosa por Estados Ateus como a República Popular da China, o Laos, o Vietnã, e a Coréia do Norte, que resiste até hoje.

7. O neo-ateísmo desrespeita a liberdade de pensamento
Longe de ser um grupo aberto ao diálogo, os neo-ateus são combativos e desrespeitosos. Não admitem diálogo: para eles a religião é uma enganação, e um mal a ser extirpado.

Nesta posição, sua reação é o fechamento ao debate. As verdades estão evidentes e as peças estão dispostas no tabuleiro: de um lado os religiosos fanáticos, do outro os iluminados defensores da razão e da ciência. Incapaz de um diálogo interreligioso, ele resume sua linguagem à mera afronta à doutrina religiosa que escarnece. Não dialoga: xinga; não argumenta: faz deboche; não aceita negociação: ou você está do lado da razão ou você é um crente que precisa ser desiludido.

Não havendo espaço para diálogo, o objetivo dele é um só: calar a boca dos crentes. Ele quer que retirem as cruzes dos tribunais, que retirem a palavra “Deus” da Constituição e das notas de real, que se acabe com o ensino religioso, que se proíba os crentes de manifestar publicamente a fé ou divulgar as suas opiniões e a sua ideologia na mídia. Combatem, assim, não só a liberdade de culto como também a liberdade de expressão.

8. Darwin não é deus e ciência não é religião
A mentira mais repetida por e para neo-ateus é que religião é inimiga da ciência. É claro, se você fingir que a comunidade científica ocidental não nasceu dentro da Igreja Católica e que todo o sistema universitário ocidental não é baseado num modelo acadêmico estabelecido pela Igreja.

Outra idiotice é militar pelo evolucionismo como se fosse a corporificação da ciência e da razão. Uma teoria científica, válida hoje, pode estar refutada amanhã. O que farão se o evolucionismo for posto em cheque? Admitirão que militavam por uma mentira ou vão cair na real, que não existem “fatos científicos”, verdades incontestáveis? Outra é atacar ad nauseam o criacionismo como se todo cristão fizesse interpretação literal do Gênesis, e esquecendo que quem formulou a teoria do Big Bang era um padre. Um indivíduo pode perfeitamente ser crente e lidar com ciências sem problemas.

Típicos crentes anti-ciência: Pascal, Descartes, Newton, Mendel, Faraday, Lamaître e Schrödinger.

O pior não é ver alguém militar pelo “evolucionismo”, mas ver que o mesmo sujeito não entende a Teoria da Evolução: diz que “animais passam por mutações” ou que “o homem descende do macaco”. Para piorar, louva este ou aquele cientista e sua teoria como se fossem santos e padroeiros da ciência. Darwin, Newton e Einstein foram importantes, mas fazer desta pessoas e de deturpações de suas teorias uma bandeira de militância é idiota, deturpa a visão das pessoas da ciência, tornando-a cada vez mais impopular entre crentes.

Por fim, o cientificismo. A idéia idiota de derivar padrões morais da ciência. A ciência, assim como a filosofia e a religião, tem um escopo, um campo limitado de atuação. Ciência serve para descobrirmos coisas novas e acumular conhecimento, e não ditar como devemos empregar o conhecimento. Podemos usar energia nuclear para iluminar cidades inteiras ou para fazer armas de destruição em massa. O que determina o que fazer com os avanços científicos depende de um padrão moral extrínseco à ciência: vem de uma doutrina política, filosófica ou religiosa.

9. O ateísmo não propõe coisa alguma
Você propõe alguma coisa? Fale por si. O ateísmo não propõe coisa alguma. Ateísmo é não acreditar em deuses e religiões teístas. Ponto. Qualquer coisa além disso é parte de uma doutrina, ideologia e filosofia pessoal sua. Não existe medida científica para o bem e o mal e não vai ser você quem vai inventar.

Se você defende a política X ou Y, você fala de um conjunto de idéias políticas suas. Ateísmo é outra coisa.

10. O antiteísmo sabota a causa da razão.
Qual o sentido de difamar algo que não existe? Que tipo de pessoa escreve livros, faz vídeos e dá palestras para criticar algo que não existe? Das duas uma: ou esta pessoa quer ganhar dinheiro de trouxas, ou ela está conduzindo uma cruzada contra a lógica. Você conhece alguém que escreve livros ou faz vídeos para contestar a existência de duendes, de fadas do dente, do coelhinho da páscoa ou do papai noel? Então porque seria menos ridículo alguém que escreve para contestar a existência de deuses ou espíritos?

Dentre os males causados pelo neo-ateísmo, podemos mencionar:

  • Emperra o diálogo interreligioso.
  • Inculca nos crentes o ódio pela ciência, em vez de estimular a sua apreciação.
  • Deturpa as ciências pela propagação de versões caricaturizadas de teorias científicas.
  • Cria um tumulto em torno de um ente que não existe, provocando mais militância de ambos os lados.
  • Desvia o foco do estudo das ciências de questões mais proveitosas para questões que tem pouca aplicação prática.
  • Pseudoceticismo: fomenta a blindagem cerebral ao aceitar credulamente qualquer coisa com o rótulo de “científica” e ao rejeitar qualquer coisa com o rótulo de “religiosa”.
  • Dogmafobia. O medo de ter princípios morais  e fazer o julgamento da realidade com base em princípios, em vez de fins. O resultado é que o sujeito ataca qualquer coisa “moral” e defenderá qualquer coisa imoral que tenha a pecha de “científica”.
  • Tornar-se um pé no saco. O sujeito começa a evitar igrejas, grupos de amigos, foge quando alguém reza antes do almoço, critica até a avó porque ela lê a Bíblia, quer discutir com pastor, etc.

Conclusão:
Se você ainda está na fase de contestar os dogmas, mitos e tradições religiosas da sua sociedade para afirmar-se, esqueça esta militância. O ateísmo não é um fenômeno novo, não apresenta nenhum tipo de avanço ou progresso da sociedade moderna. É mais provável que ele seja anterior a qualquer religião que tenha existido, e é portanto mais antigo do que qualquer tradição religiosa. Não se preocupe em desconverter as pessoas, preocupe-se em transmitir os valores que tornam a sociedade melhor: a tolerância, o diálogo, a liberdade individual, a liberdade de expressão. As verdades, “científicas” ou não, cedo ou tarde vão sendo descobertas.


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