Considerações sobre o aborto

Artigo meu (Davi Caldas) originalmente publicado no blog “Mundo Analista“. Para ler o original, clique aqui.

Um amigo meu me pediu, há uns três meses (creio eu), para escrever algo sobre a questão do aborto. Eu não só dei minha palavra que escreveria como, de fato, fiquei interessado em falar sobre o tema. Mas o tempo passou e acabei não escrevendo. Bem, antes tarde do que nunca, certo? Farei algumas considerações, de acordo com a minha visão sobre o tema.

Aqueles que são favoráveis ao aborto costumam a argumentar que a mulher tem direito sobre o seu corpo. O leitor mais inteligente deve estar pensando: “Mas que raios têm a ver uma coisa com a outra?”. Explico. Para os abortistas, uma grávida não é uma mulher com um ser humano dentro do útero. Uma grávida é apenas uma mulher. Talvez uma mulher com uma doença, mas de forma alguma, uma mulher com um ser humano dentro do seu corpo. Essa é a premissa básica do abortista.

Assim, na visão do abortista, quando uma mulher aborta, ela está apenas tirando uma doença do seu corpo. E isso, certamente é um direito da mulher. Então, me parece que o ponto principal do debate entre abortistas e não abortistas deveria ser: “O que a mulher carrega dentro de si é ou não é um ser humano?”. Se você responde “sim” a essa pergunta, então o aborto é um assassinato. Se você responde “não”, o aborto é apenas a retirada de algo que está irritando a mulher.

Como pessoas racionais, que desejam debater logicamente, este é o momento de perguntar aos abortistas quais são as evidências científicas que eles apresentam para afirmar que fetos e bebês não são seres humanos. Sim, eu sou cristão e conservador, e estou falando de evidências científicas. Afinal, o Estado é laico e é assim deve ser. As afirmações políticas, portanto, devem ser validadas à luz da razão. Estou certo que se o Deus em que acredito realmente criou o mundo, a razão sempre estará do lado da minha religião e vice-versa. Do criador também advém a razão.

Então, vamos lá. Cadê as evidências? O que é que prova, na ciência, que um bebê dentro da barriga não é um ser humano? Se ele não é um ser humano é o quê? Um macaco, um urso, um inseto? Certamente não.

O abortista pode dizer: “Ele é um feto humano. E um feto não é um ser humano, mas apenas um feto”. Ok. Mas, em primeiro lugar, um bebê de nove, oito, sete, seis ou até cinco meses de gestação não pode ser chamado de feto. É uma criança. Então, o argumento, já não serviria, à priori, para nenhuma gestação com mais de cinco meses.

Em segundo lugar, o que prova essa afirmação? Qual é a base cientifica para dizer que um feto não é um ser humano? É porque ele ainda não se desenvolveu? Ora, mas simplesmente dizer que o feto não é uma pessoa porque ainda não está totalmente desenvolvida é arbitrário. É tão arbitrário quanto dizer que um bebê que nasceu sem braços e pernas não é um ser humano porque não se desenvolveu totalmente. É tão ridículo quanto dizer que uma criança não é uma pessoa porque ainda não é adulta. Não faz sentido esse argumento. Um ser humano em desenvolvimento é tão humano quanto um ser humano já desenvolvido.

Alguns fatos interessantes: com 18 dias de gestação, o coração de um feto já começa a se formar; com 21 dias, já está batendo. O filósofo e teólogo cristão William Lane Craig nos lembra que a maioria dos abortos ocorre bem depois dessa fase. Isso quer dizer que quase todos os abortos interrompem o batimento de um coração. Um coração humano! Craig continua:

Além disso, depois de 30 dias o bebê já tem um cérebro e com 40 dias ondas cerebrais já podem ser medidas. […] Na oitava semana (de existência do feto), mãos e pés já estão quase prontos. Na nona semana, já se podem ver as pequenas unhas das mãos e dos pés, e o feto pode até mesmo conseguir chupar o dedo. A essa altura, não estamos tratando de um agrupamento de células, mas de um bebê (essa palavra é inevitável), um bebê bem minúsculo com face e características, com pequenos braços e pernas, com pequeninos pés e mãos. Todos os órgãos do corpo já estão presentes, e os sistemas muscular e circulatório estão completos. [1]

Como alguém pode dizer que isso não é uma pessoa? O fato do bebê depender da mãe biologicamente não significa que o bebê é parte do corpo da mulher. Ele é uma vida. É outro ser. Portanto, é ridículo ouvir um abortista dizer que abortar “é um direito da mulher porque estamos falando do corpo dela”. Não, não estamos. Abortar é retirar um ser humano que depende da mulher, de dentro do seu corpo, ceifando-lhe a vida. É uma ação egoísta e assassina.

O leitor quer saber quais são os direitos da mulher? Pois eu digo. É direito da mulher, escolher se terá relações sexuais ou não. É direito da mulher, escolher se em suas relações ela usará camisinha ou não. É direito da mulher escolher se ela fará uma operação para ligar suas trompas ou não. É um direito da mulher escolher se fará ou não sexo com um homem que não fez vasectomia. Esses são direitos legítimos de toda e qualquer mulher.

Agora, a partir do momento em que a mulher escolhe, por livre e espontânea vontade, fazer sexo sem nenhuma proteção, sabendo que poderá ficar grávida, e acabar engravidando mesmo, ela não tem o direito de matar o seu filho. Não importa se sua gestação está no oitavo mês ou no segundo. Isso é um homicídio.

Entretanto, os delírios abortistas não param por aqui. Em uma busca frenética pelo direito de matar crianças, eles argumentam que não podemos considerar um ser como pessoa se o mesmo não tiver consciência e autoconhecimento. Assim, um feto ou um bebê com oito meses de gestação não seriam pessoas ainda.

Isso é ridículo. Se aceitarmos este argumento, um ser humano que está dormindo ou em estado de coma não poderá ser considerado uma pessoa. Afinal, não estamos conscientes nestes momentos e nosso autoconhecimento não está funcionando. Somos como seres inanimados. Segue-se, portanto, que se alguém me matar quando eu estiver dormindo ou em coma, ela não cometeu homicídio, porque eu não era uma pessoa.

Craig vai mais longe. Ele demonstra que esta visão implica na justificação do infanticídio. Isso porque bebês recém nascidos não apresentam consciência em relação ao mundo ao seu redor e autoconhecimento. Eles acabaram de nascer, oras! Sair do útero para o mundo não é passar por um portal mágico que nos faz, de uma hora para outra, aprender tudo e deixar a condição de um recém-nascido. Autoconhecimento e consciência (ou autoconsciência, como diz Craig) são atributos que um recém nascido ganha ao longo do tempo, conforme cresce. O filósofo critica:

[…] três dias não é um tempo longo para desenvolver autoconsciência. Um ano, talvez dois, serão necessários. Durante todo esse tempo, a criança não é uma pessoa. Desse modo, alguém pode matá-la, como se põe um animalzinho indesejado para dormir. Certamente, alguém cujo coração não foi totalmente endurecido por um comportamento obsessivo com o aborto reconhecerá a terrível imoralidade e, consequentemente, a intolerância dessa rota de escape proposta! [2]

Mas os abortistas não param. Na medida em que rebatemos seus argumentos, eles montam argumentos mais inescrupulosos, mostrando o verdadeiro caráter de suas idéias. O argumento que vem a seguir é pragmático. Algo do tipo: “O aborto deve ser legalizado justamente para evitar que meninas grávidas recorram ao aborto ilegal (que é perigoso para a menina), ou que joguem seus bebês em sacos de lixo e rios, ou ainda, que os deixem em orfanatos, lotando ainda mais esses lugares”.

Acredite, eu já ouvi este tipo de argumento da boca de um professor da minha faculdade (um esquerdista, naturalmente, como todos os outros que tive). Não é preciso ser muito inteligente (e nem muito moral) para perceber que o argumento tenta justificar um crime pelo fato do mesmo solucionar alguns problemas sociais. Neste ponto, nem vale mais à pena continuar a discussão.

Em resumo, dito de maneira direta, curta e grossa, a mentalidade abortista que vem sendo apregoada vorazmente pelos esquerdistas (não só por eles, mas, sobretudo por eles) é a seguinte: “Você fez merda, se descuidou e agora terá um filho indesejado? Livre-se desse problema matando o seu filho”. Simples assim.

Como se isso não bastasse, a imoralidade não acaba por aí. Mas é evidente que não. Porque quando a esquerda consegue fazer a sociedade aceitar o aborto como algo natural e até moral, a mesma mentalidade começa a ser utilizada na resolução de outros problemas. “A religião é o ópio do povo. Mate os religiosos”. “A direita atrapalha o projeto da esquerda. Mate os direitistas”. “Há empresas de notícias que falam mal do governo de esquerda. Mate os jornalistas que criticam o governo”. E por aí vai.

Então, querido amigo leitor, quando alguém vier te falar sobre a legalização do aborto, lembre-se que a mentalidade que está por trás dessa proposta é: “Se tem alguém te incomodando… Mate-o”.

Mas e quanto aos casos extremos?

Sim, eu sei que o leitor deve estar se perguntando: “Mas e quanto àqueles casos em que a mulher é estuprada, ou o seu bebê nascerá sem cérebro, ou o nascimento do bebê oferece risco à vida da mulher? Você também é contra o aborto?”. Bem, vamos por partes.

No caso da anencefalia, é necessário ressaltar que nem sempre o bebê realmente nasce sem cérebro. Na maioria das vezes o que se chama de anencefalia é apenas uma má formação no encéfalo. Muitas crianças que foram diagnosticadas com esta doença, não foram abortadas por suas mães e hoje vivem normalmente. Elas têm cérebro. Só não é um cérebro totalmente desenvolvido.

Se o argumento é de que, do ponto de vista científico, uma criança sem cérebro já está morta (já que ninguém vive sem cérebro) e, por isso, não é imoral recorrer ao aborto, então é necessário que se prove que o bebê realmente é anencéfalo (no sentido literal da palavra). Se isso for provado, creio que, neste caso específico, a mulher deve ter o direito de abortar. Mas se o bebê tem um cérebro, ainda que mal formado, permitir o aborto seria uma espécie de eugenia, isto é, escolher bebês perfeitos para viver e bebês defeituosos para morrer. Certamente isso seria terrível.

No caso da gravidez que oferece sérios riscos à vida da mulher, o que temos aqui é uma tensão moral. Se por um lado, a criança tem todo o direito de viver, por outro lado, a mulher também o tem. Quem opta por defender a criança, tira da mulher um direito legítimo de defender-se de um alto risco de morte. Quem opta por defender a mulher, tira da criança o seu legítimo direito de viver. Quem tem razão?

Esse é o tipo de questão para o qual eu não tenho resposta. Na posição pessoal de cristão, creio que o mais correto seria a mulher manter-se em oração e confiar que Deus irá livrar tanto o bebê quanto ela. Mas isso é uma opinião pessoal e não deve ser imposta a ninguém. Assim, dada a complexidade e delicadeza da questão, acredito que, nesse caso específico, a mulher deveria ter o direito de escolher se abortaria ou não.

A situação dos casos de estupro é bem semelhante. Nestes casos, a mulher não escolheu ser abusada sexualmente. É uma situação muito diferente daquela em que uma mulher assume o risco de engravidar (ao não se preservar sexualmente) e depois não aceita assumir as conseqüências de seu erro. O direito da segunda de escolher não ficar grávida termina no momento em que ela escolhe assumir o risco de engravidar. Mas o direito da primeira de escolher não ficar grávida continua intacto, pois ela não fez escolha alguma; foi violentada.

Não obstante (e aqui reside a delicadeza da situação), a criança nada tem a ver com o fato de ser fruto de um estupro. Ela é uma pessoa com direitos como qualquer outra. Ela tem direito de viver. E então? Quem tem razão? Se defendemos a mulher, tiramos o direito da criança viver. Se defendemos a criança, tiramos o direito da mulher escolher (direito que, neste caso, ela tem).

Mais uma vez, na posição de cristão, acredito que o correto seria não optar pelo aborto, por mais difícil que essa decisão possa ser. Estamos falando de uma vida que é inocente. Mesmo que esta vida tenha vindo de uma forma horrorosa, o problema não está na criança, mas no estupro. Contudo, enfatizo que esta também é uma opinião estritamente pessoal. Não deve ser uma imposição legal. Assim, dada a complexidade e delicadeza da questão, penso que, também neste caso, a mulher deveria escolher legalmente se abortaria ou não.

Certamente, é muito triste que uma vida inocente possa ser ceifada nesses dois casos específicos. Moralmente falando, creio que a melhor opção é sempre não abortar o bebê. E seria este o conselho que eu daria para uma mulher que estivesse pensando em abortar. Mas sabemos que estes casos específicos citados são bem diferentes dos casos em que a mãe fez besteira e não quer assumir as conseqüências. Por isso não penso que deva haver imposição legal nestes casos. Ao menos, na posição de cristão, sei que a vida que for abortada, já está salva por Deus (“das crianças já é o reino dos céus”) e estará no paraíso quando ele ressuscitar os justos.

Considerações Finais

Acredito ter deixado bem claro que não existe nenhum motivo plausível para considerarmos um feto, ou um bebê que ainda não nasceu, como não sendo uma pessoa, um ser humano. Não há evidências cientificas que comprovem isso. Portanto, o aborto não pode ser definido como outra coisa que não homicídio.

Exceto para os casos extremos específicos que observamos (que são a minoria, diga-se de passagem), não há sentido em legalizar o aborto. Mas é exatamente o que os abortistas almejam. Eles não lutam para que a mulher decida sobre casos onde ela foi violentada ou irá morrer (o que seria até compreensível). Eles lutam para que a mulher possa decidir se vai abortar ou não em qualquer caso. Isso é como querer legalizar o homicídio em qualquer situação.

Por exemplo, sabemos que matar por legítima defesa não é crime, pois defender sua vida é um direito seu. O que o leitor diria, no entanto, se uma pessoa viesse a público defendendo a tese de que devemos ter direito de matar qualquer ser humano em qualquer situação? Não seria absurdo? Pois o aborto é exatamente isso.

Por estas razões, a legalização do aborto deve ser veementemente rechaçada. E aqueles que defendem políticas deste tipo precisam ser orientados de que a mentalidade que estão ajudando a propagar é homicida. Quem defende o aborto como algo natural, moral e bom para a sociedade, não está muito longe de quem defende o infanticídio, a eugenia e o genocídio. O princípio é o mesmo.

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1. Craig, William Lane. Apologética para questões difíceis da vida. São Paulo: Vida Nova, 2010.

2. Idem

Intelectuais e raça – o estrago incorrigível

Por Thomas Sowell. Versão em português publicada originalmente no site do Instituto Ludwig von Mises.

Thomas Sowell, um dos mais influentes economistas americanos, é membro sênior da Hoover Institution da Universidade de Stanford.
Há tantas falácias ditas sobre raça, que é difícil escolher qual é a mais ridícula. No entanto, uma falácia que costuma se sobressair é aquela que afirma haver algo de errado com o fato de que as diferentes raças são representadas de forma numericamente desproporcional em várias instituições, carreiras ou em diferentes níveis de renda e de feitos empreendedoriais.

Cem anos atrás, o fato de pessoas de diferentes antecedentes raciais apresentarem taxas de sucesso extremamente discrepantes em termos de cultura, educação, realizações econômicas e empreendedoriais era visto como prova de que algumas raças eram geneticamente superiores a outras.

Algumas raças eram consideradas tão geneticamente inferiores, que a eugenia foi proposta como forma de reduzir sua reprodução. O antropólogo Francis Galton chegou a exortar “a gradual extinção de uma raça inferior”.

E as pessoas que diziam essas coisas não eram meros lunáticos extremistas. Muitos deles eram Ph.D.s oriundos de várias universidades de ponta, lecionavam nas principais universidades do mundo e eram internacionalmente reputados.

Reitores da Universidade de Stanford e do MIT estavam entre os vários acadêmicos defensores de teorias sobre inferioridade racial — as quais eram aplicadas majoritariamente aos povos do Leste Europeu e do sul da Europa, uma vez que, à época, era dado como certo o fato de que os negros eram inferiores.

E este não era um assunto que dividia esquerda e direita. Os principais proponentes de teorias sobre superioridade e inferioridade genética eram figuras icônicas da esquerda, de ambos os lados do Atlântico.

John Maynard Keynes ajudou a criar a Sociedade Eugênica de Cambridge. Intelectuais adeptos do socialismo fabiano, como H.G. Wells e George Bernard Shaw, estavam entre os vários esquerdistas defensores da eugenia.

Foi praticamente a mesma história nos EUA. O presidente democrata Woodrow Wilson, como vários outros progressistas da época, eram sólidos defensores de noções de superioridade e inferioridade racial. Ele exibiu o filme O Nascimento de uma Nação, que glorificava a Ku Klux Klan, na Casa Branca, e convidou vários dignitários para a sessão.

Tais visões dominaram as primeiras duas décadas do século XX.

Agora, avancemos para as últimas décadas do século XX. A esquerda política desta era já havia se movido para o lado oposto do espectro das questões raciais. No entanto, ela também considerava que as diferenças de sucesso entre grupos étnicos e raciais era algo atípico, e clamava por uma explicação única, vasta e arrebatadora.

Desta feita, em vez de os genes serem a razão predominante para as diferenças nos êxitos pessoais, o racismo se tornou o motivo que explicava tudo. Mas o dogmatismo continuava o mesmo. Aqueles que ousassem discordar, ou até mesmo questionar o dogma predominante em ambas as eras, era tachado de “sentimentalista” no início do século XX e de “racista” na era multicultural.

Tanto os progressistas do início do século XX quanto os novos progressistas do final do século XX partiram da mesma falsa premissa — a saber, que há algo de estranho quando diferentes grupos raciais e étnicos alcançam diferentes níveis de realizações.

No entanto, o fato é que minorais raciais e étnicas sempre foram as proprietárias — ou gerentes — de mais da metade de todas as principais indústrias de vários países. Dentre estas minorias bem-sucedidas, temos os chineses na Malásia, os libaneses na África Ocidental, os gregos no Império Otomano, os bretões na Argentina, os indianos em Fiji, os judeus na Polônia, os espanhóis no Chile — entre vários outros.

Não apenas diferentes grupos raciais e étnicos, como também nações e civilizações inteiras apresentaram níveis de realizações extremamente distintos ao longo dos séculos. A China do século XV era muito mais avançada do que qualquer país europeu. Com o tempo, no entanto, os europeus ultrapassaram os chineses — e não há nenhuma evidência de ter havido alterações nos genes de nenhuma destas civilizações.

Dentre os vários motivos para estes diferentes níveis de realizações está algo tão simples quanto a idade.  A média de idade na Alemanha e no Japão é de mais de 40 anos, ao passo que a média de idade no Afeganistão e no Iêmen é de menos de 20 anos. Mesmo que as pessoas destes quatro países tivessem absolutamente o mesmo potencial intelectual, o mesmo histórico, a mesma cultura — e os países apresentassem rigorosamente as mesmas características geográficas —, o fato de que as pessoas de determinados países possuem 20 anos a mais de experiência do que as pessoas de outros países ainda seria o suficiente para fazer com que resultados econômicos e pessoais idênticos sejam virtualmente impossíveis.

Acrescente o fato de que diferentes raças se desenvolveram em diferentes arranjos geográficos, os quais apresentaram oportunidades e restrições extremamente diferenciadas ao seu desenvolvimento, e as conclusões serão as mesmas.

No entanto, a ideia de que diferentes níveis de realização são coisas atípicas — se não sinistras — tem sido repetida ad nauseam pelos mais diferenciados tipos de pessoas, desde o demagogo de esquina até as mais altas eminências do Supremo Tribunal.

Quando finalmente reconhecermos que as grandes diferenças de realizações entre as raças, nações e civilizações têm sido a regra, e não a exceção, ao longo de toda a história escrita, restará ao menos a esperança de que haja pensamentos mais racionais — e talvez até mesmo alguns esforços construtivos para ajudar todas as pessoas a progredirem.

Até mesmo um patriota britânico como Winston Churchill certa vez disse que “Devemos Londres a Roma” — um reconhecimento de que foram os conquistadores romanos que criaram a mais famosa cidade britânica, em uma época em que os antigos bretões eram incapazes de realizar esta façanha por conta própria.

Ninguém que conhecesse os iletrados e atrasados bretões daquela era poderia imaginar que algum dia os britânicos criariam um império vastamente maior do que o Império Romano — um império que abrangeria um quarto de toda a área terrestre do globo e um quarto dos seres humanos do planeta.

A história apresenta vários exemplos dramáticos de ascensão e queda de povos e nações, por uma variada gama de motivos conhecidos e desconhecidos. Mas há um fenômeno que não possui confirmação histórica, um fenômeno que, não obstante esta ausência de exemplos práticos, é hoje presumido como sendo a norma: igualdade de realizações grupais em um dado período do tempo.

As conquistas romanas tiveram repercussões históricas por séculos após a queda do Império Romano.  Um dos vários legados da civilização romana foi o alfabeto latino, o qual gerou versões escritas dos idiomas da Europa ocidental séculos antes de os idiomas do Leste Europeu serem transformados em letras. Esta foi uma das várias razões por que a Europa ocidental se tornou mais desenvolvida que a Europa Oriental em termos econômicos, educacionais e tecnológicos.

Enquanto isso, as façanhas de outras civilizações — tanto da China quanto do Oriente Médio — ocorreram muito antes das façanhas do Ocidente, embora a China e o Oriente Médio posteriormente viessem a perder suas vantagens.

Há tantas reviravoltas documentadas ao longo da história, que é impossível acreditar que um único fator sobrepujante seja capaz de explicar tudo, ou quase tudo, do que já aconteceu ou do que está acontecendo. O que realmente se sabe é que raramente, para não dizer nunca, ocorreram façanhas iguais alcançadas por diferentes pessoas ao mesmo tempo.

No entanto, o que mais temos hoje são grupos de interesse e movimentos sociais apresentando estatísticas — que são solenemente repercutidas pela mídia — alegando que, dado que os números não são aproximadamente iguais para todos, isso seria uma prova de que alguém foi discriminatório com outro alguém.

Se os negros apresentam diferentes padrões ocupacionais ou diferentes padrões gerais em relação aos brancos, isso já basta para despertar grandes suspeitas entre os sociólogos — ainda que diferentes grupos de brancos sempre tenham apresentado diferentes padrões de realizações entre si.

Quando os soldados americanos da Primeira Guerra Mundial foram submetidos a exames mentais durante a Primeira Guerra Mundial, aqueles homens de ascendência alemã pontuaram mais alto do que aqueles de ascendência irlandesa, sendo que estes pontuaram mais alto do que aqueles que eram judeus.  Carl Brigham, o pioneiro do campo da psicometria, disse à época que os resultados dos exames mentais do exército tendiam a “desmentir a popular crença de que o judeu é altamente inteligente”.

Uma explicação alternativa é que a maioria dos imigrantes alemães se mudou para os EUA décadas antes da maioria dos imigrantes irlandeses, os quais por sua vez se mudaram para os EUA décadas antes da maioria dos imigrantes judeus. Alguns anos depois, Brigham viria a admitir que a maioria dos mais recentes imigrantes havia sido criada em lares onde o inglês não era a língua falada, e que suas conclusões anteriores, em suas próprias palavras, “não possuíam fundamentos”.

Nessa época, os judeus já estavam pontuando acima da média nacional dos exames mentais, e não abaixo.

Disparidades entre pessoas do mesmo grupo, em qualquer área que seja, não são obviamente uma realidade imutável. Mas uma igualdade geral de resultados raramente já foi testemunhada em qualquer período da história — seja em termos de habilidades laborais ou em termos de taxas de alcoolismo ou em termos de quaisquer outras diferenças — entre aqueles vários grupos que hoje são ajuntados e classificados como “brancos”.

Sendo assim, por que então as diferenças estatísticas entre negros e brancos produzem afirmações tão dogmáticas — e geram tantas ações judiciais e trabalhistas por discriminação — sendo que a própria história mostra que sempre foi comum que diferentes grupos seguissem diferenciados padrões ocupacionais ou de comportamento?

Um dos motivos é que ações judiciais não necessitam de nada mais do que diferenças estatísticas para produzir vereditos, ou acordos fora de tribunais, no valor de vultosas somas monetárias. E o motivo de isso ocorrer é porque várias pessoas aceitam a infundada presunção de que há algo de estranho e sinistro quando diferentes pessoas apresentam diferentes graus de êxito pessoal.

O desejo de intelectuais de criar alguma grande teoria que seja capaz de explicar padrões complexos por meio de algum simples e solitário fator produziu várias ideias que não resistem a nenhum escrutínio, mas que não obstante têm aceitação generalizada — e, algumas vezes, consequências catastróficas — em vários países ao redor do mundo.

A teoria do determinismo genético, que predominou no início do século XX, levou a várias consequências desastrosas, desde a segregação racial até o Holocausto. A teoria atualmente predominante é a de que algum tipo de maldade explica as diferenças nos níveis de realizações entre os vários grupos étnicos e raciais. Se os resultados letais desta teoria hoje em voga gerariam tantas mortes quanto no Holocausto é uma pergunta cuja resposta requereria um detalhado estudo sobre a história de rompantes letais contra determinados grupos odiados por causa de seu sucesso.

Estes rompantes letais incluem a homicida violência em massa contra os judeus na Europa, os chineses no sudeste asiático, os armênios no Império Otomano, e os Ibos na Nigéria, entre outros.  Exemplos de chacinas em massa baseadas em classes sociais e voltadas contra pessoas bem-sucedidas vão desde os extermínios estalinistas dos kulaks na União Soviética até a limpeza promovida por Pol Pot de pelo menos um quarto da população do Camboja pelo crime de serem pessoas cultas e de classe média, crime este que era evidenciado por sinais tão tênues quanto o uso de óculos.

Minorias que se sobressaíram e se tornaram mais bem-sucedidas do que a população geral são aquelas cujo progresso provavelmente em nada está ligado ao fato de terem ou não discriminado as maiorias politicamente dominantes. No entanto, foram exatamente estas minorias que atraíram as mais violentas perseguições ao longo dos séculos e dos países ao redor do mundo.

Todos os negros que foram linchados durante toda a história dos EUA não chegam ao mesmo número de homicídios cometidos em apenas um ano contra os judeus na Europa, contra os armênios no Império Otomano ou contra os chineses no sudeste asiático.

Há algo inerente aos sucessos de determinados grupos que inflama as massas em épocas e lugares tão distintos. O que seria? Esse fenômeno inflama não apenas as massas, como também leva a genocídios cometidos por governos, como os da Alemanha nazista ou o regime de Pol Pot no Camboja. Podemos apenas especular as razões, mas não há como fugir desta realidade.

Aqueles grupos que ficam para trás frequentemente culpam seu atraso nas malfeitorias cometidas por aqueles grupos mais bem-sucedidos. Dado que a santidade não é comum a nenhum ramo da raça humana, é óbvio que nunca haverá escassez de pecados a serem mencionados, inclusive a arrogância e a insolência daqueles que calham de estar no topo em um determinado momento. Mas a real pergunta a ser feita é se esses pecados — reais ou imaginários — são de fato o motivo destes diferentes níveis de êxitos pessoais.

O problema é que os intelectuais — pessoas de quem normalmente esperaríamos análises racionais que se contrapusessem à histeria das massas — frequentemente sempre estiveram na vanguarda daqueles movimentos que promovem a inveja e o ressentimento contra os bem-sucedidos. Tal comportamento é especialmente perceptível naquelas pessoas que possuem diplomas mas que não possuem nenhuma habilidade economicamente significativa que lhes permita obter aquele tipo de recompensa que elas esperavam ou julgavam ter o direito de auferir.

Tais pessoas sempre se destacaram como líderes e seguidoras de grupos que promoveram políticas anti-semitas na Europa entre as duas guerras mundiais, o tribalismo na África, e as mudanças sociais no Sri Lanka, um país que, outrora famoso por sua harmonia intergrupal, se rebaixou, por influência de intelectuais, à violência étnica e depois se degenerou em uma guerra civil que durou décadas e produziu indescritíveis atrocidades.

Intelectuais sempre estiveram por trás da inflamação de um grupo contra outros, promovendo a discriminação e a violência física em países tão díspares quanto Índia, Hungria, Nigéria, Tchecoslováquia e Canadá.

Tanto a teoria do determinismo genético como sendo a causa dos diferentes níveis de realizações pessoais quanto a teoria da discriminação como o motivo destas diferenças, ambas contraditórias e criadas por intelectuais, geraram apenas polarizações raciais e étnicas. O mesmo pode ser dito da ideia de que uma dessas teorias tem de ser a verdadeira.

Essa falsa dicotomia de que uma delas tem de ser a verdadeira deixa aos grupos mais bem-sucedidos duas opções: ou eles se assumem arrogantes ou se assumem culpados criminalmente. Da mesma forma, deixa aos grupos menos exitosos a opção entre acreditar que sempre foram inerentemente inferiores durante toda a história ou que são vítimas da inescrupulosa maldade de terceiros.

Quando inumeráveis fatores fazem com que a igualdade de resultados seja virtualmente impossível, reduzir estes fatores a uma questão de genes ou de maldade é a fórmula perfeita para se gerar uma desnecessária e perigosa polarização, cujas consequências frequentemente são escritas em sangue ao longo das páginas da história.

Dentre as várias e ignaras ideias a respeito de grupos raciais e étnicos que polarizaram as sociedades durante séculos e ao redor de todo o mundo, poucas foram mais irracionais e contraproducentes do que os atuais dogmas do multiculturalismo.

Aqueles intelectuais que imaginam que, ao utilizar uma retórica multicultural que redefine e até mesmo revoga o conceito de atraso, estarão ajudando grupos raciais e étnicos que ficaram para trás estão, na realidade, levando estas pessoas para um beco sem saída.

O multiculturalismo é um tentador paliativo aplicado àqueles grupos que ficaram para trás porque ele simplesmente afirma que todas as culturas são iguais, ou “igualmente válidas”, em algum sentido vago e sublime. De acordo com este dogma, as características culturais de todas as etnias e raças seriam apenas diferentes — nem melhores nem piores.

No entanto, tomar emprestadas características particulares de outras culturas — como os algarismos arábicos que substituíram os algarismos romanos, mesmo nas culturas ocidentais oriundas de Roma — implica que algumas características não são simplesmente diferentes, mas sim melhores, inclusive os números utilizados. Algumas das mais avançadas culturas de toda a história pegaram emprestados comportamentos e características de outras culturas; e isso pelo simples fato de que até hoje nenhuma coleção única de seres humanos foi capaz de criar as melhores respostas para todas as questões da vida.

Todavia, dado que os multiculturalistas veem todas as culturas como sendo iguais ou “igualmente válidas”, eles não veem nenhuma justificativa para as escolas insistirem, por exemplo, que as crianças negras aprendam seu idioma materno. Em vez disso, cada grupo é estimulado a se apegar ferreamente à sua própria cultura e a se orgulhar de suas próprias glórias passadas, reais ou imaginárias.

Em outras palavras, membros de grupos minoritários que são atrasados educacionalmente e economicamente devem continuar se comportando no futuro como sempre se comportaram no passado — e, se eles não conseguirem os mesmos resultados dos outros, então a culpa é da sociedade. Essa é a mensagem principal do multiculturalismo.

George Orwell certa vez disse que algumas ideias são tão insensatas, que somente um intelectual poderia acreditar nelas. O multiculturalismo é uma dessas ideias. A intelligentsia sempre irrompe em indignação e ultrajes a qualquer “diferença” ou “disparidade” de resultados educacionais, econômicos ou outros — e denuncia qualquer explicação cultural para esta diferença de resultados como sendo uma odiosa tentativa de “culpar a vítima”.

Não há dúvidas de que algumas raças ou até mesmo nações inteiras foram vitimadas por terceiros, assim como não há dúvida de que câncer pode causar morte. Porém, isso é muito diferente de dizer que as mortes podem automaticamente ser imputadas ao câncer. Você pode pensar que intelectuais seriam capazes de fazer essa distinção. Mas muitos não são.

Ainda assim, intelectuais se veem a si próprios como amigos, aliados e defensores das minorias raciais, ao mesmo tempo em que empurram as minorias para a estagnação cultural. Isso permite à intelligentsia se congratular e se lisonjear de que estão ao lado dos anjos contra as forças do mal que estão conspirando para manter as minorias oprimidas.

Por que pessoas com altos níveis de capacidade mental e de talentos retóricos se entregam a este tipo de raciocínio deturpado é um mistério. Talvez seja porque elas não conseguem abrir mão de uma visão social que é extremamente lisonjeira para eles próprios, não obstante quão deletéria tal visão possa ser para as pessoas a quem elas alegam estar ajudando.

O multiculturalismo, assim como o sistema de castas, encurrala e amarra as pessoas naquele mesmo segmento cultural e social no qual elas nasceram. A diferença é que o sistema de castas ao menos não alega beneficiar aqueles que estão na extremidade inferior.

O multiculturalismo não serve apenas aos interesses ególatras dos intelectuais; ele serve também aos interesses de políticos que têm todos os incentivos para promover uma sensação de vitimização — e até mesmo de paranóia — entre grupos de cujos votos eles precisam em troca de apoio material e psicológico.

A visão multicultural do mundo também serve aos interesses daqueles que estão na mídia e que prosperam ao explorar os melodramas morais. O mesmo pode ser dito de todos os departamentos universitários voltados para estudos étnicos e sociais, bem como de toda a indústria de assistentes sociais, de especialistas em “diversidades” e da ampla gama de vigaristas que prosperam ao fazer proselitismo racial.

Os maiores perdedores de toda essa história são aqueles membros das minorias raciais que se permitem ser conduzidos para esse beco sem saída do ressentimento e da raiva, mesmo quando há várias outras avenidas de oportunidades disponíveis. E todos nós perdemos quando a sociedade fica polarizada.


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