Mentalidades Coletivistas

O maior desafio de um individualista ao tentar esclarecer as pessoas sobre os benefícios de uma sociedade mais livre é tentar, primeiramente, livrá-las dos cacoetes mentais coletivistas que povoam suas cabeças. Não é tarefa fácil: as pessoas são treinadas, educadas e adestradas para pensar e comunicar-se sempre em “coletivês” de modo que parece as vezes até impossível pensar de modo diferente.

Desta mentalidade coletivista brotam jargões do tipo “Brasil para os brasileiros”, “dívida histórica/social”, “luta de classes” e outros absurdos. Eu arriscaria dizer que a mentalidade coletivista é a mãe de todos os preconceitos, do racismo ao sexismo passando pela xenofobia e pelo preconceito de classe. O artigo de hoje propõe uma divisão “taxonômica” da mentalidade coletivista.

Supremacismo
É a mentalidade coletivista que hierarquiza os coletivos humanos (gêneros, etnias, classes, nacionalidades, grupos religiosos) e declara abertamente a supremacia de um sobre os demais. Este que fica no topo tem o direito de dominação sobre os demais. Os exemplos mais claros são o racismo e suas variantes (supremacismo branco, supremacismo negro, etc.), mas também se aplica ao ultranacionalismo, ao sexismo (machismo, femismo) e ao sectarismo religioso.

A contraparte do supremacismo é o submissivismo que reconhece a si e ao coletivo com que se identifica como uma parte da hierarquia que está abaixo daquela dominante. Um submissivista, por exemplo, seria como um racialista negro que acredita que os negros são cidadãos de segunda classe e que deveriam se espelhar e imitar os brancos para melhorar sua condição.

Igualitarismo
É a mentalidade coletivista que reconhece os diferentes coletivos humanos mas propõe que a relação de valor entre eles é a de igualdade, ainda que as características naturais ou sociais deles não sejam. Do igualitarismo também vem a noção de igualdade formal, embora prejudicada pela sua impossibilidade de conceber os seus membros como indivíduos transcendentes que ora estão em um grupo, ora em outro, ou mesmo em mais de um grupo ao mesmo tempo. A relação de igualdade entre os grupos, sem o reconhecimento do indivíduo como ente primário e necessário, força a incorporação arbitrária deste a um grupo.

Vitimismo
É a mentalidade coletivista que identifica nos coletivos humanos uma relação conflitiva entre explorados e exploradores, da qual não raro brota o revanchismo histórico (“dívida social”, “dívida histórica”) ou o irredentismo. O vitimista que se crê parte do coletivo “explorado” demanda políticas compensatórias das quais é beneficiário. Exemplos claros são o protecionismo (vitimismo econômico), a xenofobia (vitimismo nacionalista), o racismo (vitimismo étnico), o feminismo (vitimismo sexista), etc.

O que aconteceu com a razão?

Texto original de Roger Scruton [1], tradução por André Assi Barreto [2].

O Iluminismo tornou explícito o que esteve por muito tempo implícito na vida intelectual da Europa: a crença que a investigação racional conduz à verdade objetiva. Até mesmo aqueles pensadores iluministas que desconfiavam da razão, como Hume, e aqueles que tentaram circunscrever seus poderes, como Kant, nunca abandonaram sua confiança na argumentação racional. Hume opôs-se à ideia de uma moralidade racional; mas ele justificava a distinção entre o certo e o errado em termos de uma ciência natural das emoções, ficando implícito que poderíamos descobrir a verdade sobre a natureza humana e construir sobre ela uma fundação firme. Kant pode ter rebaixado a “razão pura” à condição de uma história cheia de ilusões, mas colocou a razão prática em seu lugar, argumentando em favor da validade absoluta da lei moral. Nos 200 anos subsequentes, a razão manteve sua posição de árbitro da verdade e fundação do conhecimento objetivo.

Penso porque quero descobrir a verdade. Se não há verdade, porque penso? Não é verdade que penso?

A razão está agora num processo de retração, tanto como ideal quanto como realidade. Em seu lugar adveio a “visão de um ponto de vista externo” – que põe toda nossa tradição de aprendizado em xeque. Somos avisados que o apelo à razão é um mero apelo à cultura ocidental, que fez da razão sua pedra-de-toque e clama possuir uma objetividade que nenhuma cultura poderia possuir. Ademais, ao afirmar que a razão é seu fundamento, a cultura ocidental ocultou seu etnocentrismo pernicioso; travestiu as maneiras ocidentais de pensar como se tivesse força universal. A razão, portanto, é uma mentira e ao expor essa mentira revelamos a opressão que jaz no coração da cultura ocidental. Por trás do ataque à razão espreita-nos outra e mais virulenta hostilidade: a hostilidade à cultura e ao currículo que herdamos do iluminismo.

Se examinarmos os gurus do novo establishment universitário, aqueles cujos trabalhos são, amiúde, citados no interminável fluxo de artigos devotados a desbancar a cultura ocidental, descobrimos que eles são todos oponentes da verdade objetiva. Nietzsche é um favorito, já que ele asseverou explicitamente: “Não existem verdades,” ele escreveu, “apenas interpretações”. Agora, ou o que Nietzsche disse é verdade – o que no caso não o é, já que não existem verdades – ou é falso. Dito o suficiente, você pode imaginar. Mas não: a questão pode ser asseverada de maneira menos brusca e o paradoxo, velado. Isso explica o apelo a pensadores mais recentes – Michel Foucault, Jacques Derrida e Richard Rorty – que devem sua eminência intelectual não a seus argumentos (dos quais eles têm muito poucos) mas ao papel que empenham em dar autoridade à rejeição da autoridade e ao compromisso com a impossibilidade de compromissos absolutos. Em cada um deles você encontrará a visão de que a verdade, a objetividade, o valor e o significado são quimeras e que tudo que podemos ter é a morna segurança da nossa própria opinião.

É inútil argumentar contra esses gurus. Nenhum argumento, por mais racional que seja, pode conter a enorme vontade de acreditar que os torna populares para seus leitores. Afinal de contas, um argumento racional assume precisamente o que eles colocam em xeque – a saber, a possibilidade de se argumentar racionalmente. Ao menos um deles – Michel Foucault – foi objeto de uma hagiografia, Saint Foucault por David Halperin, tomando nota da mensagem libertadora contida em seu ataque ao pensamento estruturado. Mas cada um deve sua reputação a uma nova espécie de fé religiosa: a fé na relatividade de todas as opiniões, incluindo esta.

Friederich Nietzsche: o niilismo não vale nada.

A verdade, nos diz Foucault, não é um absoluto que pode ser compreendido e avaliado de alguma forma transhistórica, como que por meio dos olhos de Deus. A verdade é filha do “discurso” e como o discurso muda, o mesmo vale para a verdade contida nele. O que o termo “discurso” significa? Olhe para qualquer periódico acadêmico da área de humanidades e você o encontrará no centro de milhares de debates artificiais: “Falocentrismo ocidental e o discurso de gênero,” “O discurso da supremacia branca nos romances de Conrad,” “O discurso da exclusão: uma perspectiva homossexual,” etc. Ao descrever os argumentos como “discurso” você os observa por detrás, no estado mental em que surgiram. Você não confronta mais a verdade ou razoabilidade da opinião de alguém mas foca diretamente na força social que fala por meio dela. A questão deixa de ser “O que tu estas a dizer?” e torna-se, em vez disso, “De que perspectiva estas a falar?”. Este foi o triunfo de Foucault, prover uma palavra que nos capacita a reanexar todo pensamento a seu contexto e fazer do contexto algo mais importante que o pensamento.

Oras... se tudo é questão de opinião, então é melhor deitar o sarrafo logo de uma vez e pular a parte da discussão!

O discurso, para Foucault, é o produto de uma época e existe em virtude do poder social vigente. É o que Marx chamou “ideologia”: uma coleção de ideias que não possuem autoridade por si mesmas mas que disfarçam e mistificam a realidade social.  Não há nada mais para a verdade a não ser o poder que a considera conveniente; e ao desmascarar o poder, desestabelecemos a verdade. Em qualquer época existem aqueles que recusam o poder vigente. Estes são denunciados, marginalizados – até mesmo encarcerados como loucos. A voz deles é a voz da “não-razão” e para os que estão na posição de autoridade o que eles proferem não é verdade, mas um delírio. Entretanto, Foucault deixa claro, não há nada de objetivo nessa denúncia de loucura: não é nada além de um dispositivo pelo qual o poder estabelecido, o poder da ordem burguesa se sustenta, salvaguardando sua própria “verdade” contra o discurso rival que o rejeita.

Foucault e seus seguidores generalizaram este argumento, ao sugerir que a visão tradicional do homem, da família, das relações sexuais e da moralidade sexual não possuem autoridade além daquela fornecida pelo poder que a sustenta. Em seus três volumes do History of Sexuality, Foucault dá um passo adiante. O prazer sexual, ele afirma, não é intrinsicamente problemático, não há razão na natureza das coisas para controlá-lo ou suprimi-lo. Se o sexo for “problematizado”, a fim de se proibir alguns prazeres e encorajar outros, então este é um fato social curioso, que pode ser explicado mas nunca justificado. Ele descreve seu próprio estudo do sexo, tomando emprestado de Nietzsche, como uma “genealogia” da moral – como uma explicação das crenças que, por não terem nenhuma validade intrínseca ou verdade, devem ser explicadas em termos de seu contexto social, e só assim justificadas.

Tal modo de vida foi extremamente útil a Foucault, cuja homossexualidade descontrolada não sofrera nenhuma censura. Sua morte por SIDA pôs um fim à sua predação sexual. Mas não limitou sua influência: pelo contrário, coroou seu pensamento com um halo de correção política. Foucault não estava meramente a advogar em favor de prazeres imediatos, foi um mártir deles. Ainda, essa nuvem de correção não deve levar-nos a aceitar sua desmistificação da moral sexual. Para a “genealogia” de Foucault não há distinção entre causa e efeito. Por mais que Foucault diga o contrário, pode ser objetivamente verdadeiro que a sociedade e as realizações pessoais são mais facilmente garantidas pelo casamento heterossexual do que pela transgressão sexual e que o capital político e cultural de uma época é mais facilmente garantido onde as pessoas devotam-se a criar seus filhos em seus lares. Em vez de ser um efeito do poder social, a velha moral poderia ser sua causa. No que concerne a isso – causa e efeito – o método diagnóstico de Foucault não pode nos dizer nada. A suposição é que, ao ligar uma crença ao poder dos que o sustentam, a alegação em favor da objetividade é desfeita. Mas esta suposição pode ser o polo oposto ao da verdade.

Popular pela mesma razão que a análise do poder de Foucault é a desconstrução associada com Jacques Derrida. Ninguém sabe – ou ao menos ninguém explicou até agora – o que a desconstrução é. Mas é sua excessiva obscuridade que constitui uma ampla parte do seu apelo. Ao oferecer muitas palavras sem sentido, o desconstrucionista é capaz de fortalecer sua suposição mais importante: que a significação é impossível. Não existe tal coisa como o significado objetivo, decifrável de uma palavra ou de um argumento. No jargão oficial, não existe “significado transcendental”. Cada palavra, uma vez proferida, está refém de uma interpretação e a decisão de interpretar uma palavra de uma maneira ou outra é, em última instância, análise política – as únicas questões reais são aquelas levantadas por Lênin: “Quem?” e “A quem?” Quem está interpretando e contra quem enquanto vítima? Se os velhos homens brancos (Dead white males) monopolizaram a interpretação de Jane Austen, por exemplo, surpreende que as interpretações oficiais dos romances de Austen não reconheçam algum lugar real para as mulheres, bem como para suas aspirações? Surpreende que estes romances sejam construídos como justificativas, em vez de repúdios ao casamento nos moldes burgueses? Confrontados por um texto do cânone tradicional, podemos desconstruí-lo de acordo com nossa vontade, pois as únicas restrições que os afligem são aquelas que nós escolhemos. O criticismo desconstrutivo é como uma produção moderna do teatro tradicional: o texto é lido contra si próprio, de modo que signifique qualquer coisa que a crítica ou o produtor bem escolha. E, invariavelmente, o propósito é político: desbancar as velhas autoridades em nome da liberação.

Questione TODA autoridade. É? Por que eu deveria?

O “pragmatismo” de Richard Rorty opera de maneira similar [3], alcançando conclusões políticas antevistas por meio de um truque manual repetido. Mas como o pragmatismo é um produto nativo americano com uma história respeitável, as pessoas nem sempre o consideram com tanta suspeita que ele agora (graças a Rorty) merece. Vale a pena, portanto, examinar suas credenciais subversivas.

Grosso modo, o pragmatismo é o ponto de vista de que “verdade” significa “útil”. A crença mais útil é aquela que me proporciona a melhor maneira de lidar com o mundo: a crença que, quando colocada em ação, assegura o maior sucesso. Obviamente que essa não é uma caracterização suficiente da diferença entre o verdadeiro e o falso. Qualquer um que esteja a buscar uma carreira numa universidade americana descobrirá que as crenças feministas são úteis, da mesma forma como as crenças racistas eram úteis ao apparatchik universitário na Alemanha nazista. Contudo isso dificilmente mostra que essas crenças sejam verdadeiras.

Mas então, o que realmente queremos dizer com “útil”? Uma sugestão é esta: uma crença é útil quando é parte de uma teoria de sucesso. Mas uma teoria de sucesso é aquela que faz previsões verdadeiras. Dessa maneira andamos em círculos, definindo a verdade por meio da utilidade e a utilidade por meio da verdade. De fato, é difícil encontrar um pragmatismo plausível que não incorra nisso: uma proposição verdadeira é aquela que é útil de forma que proposições verdadeiras são úteis. Impecável, mas vazio.

A ameaça da vacuidade não detém Rorty, que vê o pragmatismo com uma arma contra a ideia tradicional de razão. Mesmo tendo falhado miseravelmente em sua tentativa de dizer o que o pragmatismo realmente é, esta falha não é de interesse de seus seguidores, que usam isso em seu favor, da mesma maneira que o seguidores de Foucault usam em seu favor a ausência de conteúdo da “genealogia” da moral de Foucault e a impenetrável ausência de sentido da desconstrução. É suficiente que Rorty invoque seu pragmatismo como um tipo de encanto mágico contra a ideia tradicional de razão e a favor da causa do relativismo cultural. É isso que o garante o status de guru em nossos departamentos de humanidades.

A modinha é ser "mente-aberta", mesmo que isso signifique não ter nada na cabeça.

Em suas palavras: “Os pragmatistas[1] veem a verdade como… o que seja bom para acreditar… eles veem a lacuna entre a verdade e a justificação não como algo a ser transposto por isolamento de uma forma de racionalidade natural e transcultural que pode ser usada para criticar certas culturas e elogiar outras, mas simplesmente como a lacuna entre o bom real e o melhor possível… Para os pragmatistas, o desejo pela objetividade não é o desejo de escapar as limitações de uma comunidade, mas simplesmente o desejo de acordo intersubjetivo possível, o desejo de estender a referência do “nós” tanto quanto pudermos”. Em outras palavras, o pragmatismo nos permite rejeitar a ideia de “uma racionalidade… transcultural”. Não há lugar para as ideias tradicionais de objetividade e verdade universal; tudo que importa é aquilo com que concordamos.

Mas quem somos nós? E com o que concordamos? Voltemo-nos aos ensaios de Rorty e você logo descobrirá. “Nós” somos todos feministas, esquerdistas [4], advogados da liberação gay e do currículo aberto: “nós” não acreditamos em Deus ou qualquer religião herdada; tampouco as tradicionais ideias de autoridade, ordem e autodisciplina têm peso para nós. “Nós” mudamos de opinião de acordo com o significado dos textos ao criar por meio das nossas palavras um consenso que nos inclua. Nada nos constrange, além da comunidade a qual escolhemos viver. E como não existem verdade objetiva mas apenas nosso próprio consenso auto-engendrado, nossa posição é inacessível de qualquer ponto de vista exterior. O pragmatista não apenas pode decidir o que pensar; ele pode proteger a si mesmo de qualquer um que não pense o mesmo que ele.

Um verdadeiro pragmatista, sem dúvida, inventará a história da mesma forma que ele inventa todo o resto, ao persuadir-‘nos’ e fazer com que concordemos com ele. Entretanto, vale a pena observar a história, apenas para verificarmos o quão paradoxal e perigosa é visão de Rorty acerca do intelecto humano. A ummah islâmica – a sociedade de crentes – era e continua sendo o consenso mais extenso que o mundo já conheceu. Ela reconhece expressamente que o consenso (ijma‘) serve de critério para a verdade, em realidade, um substituto para ela, além de estar engajada em um incessante esforço de incluir o maior número de possíveis na sua abrangente primeira pessoa do plural. Ademais, o que quer que Rorty entenda por crenças “boas” ou “melhores”, o muçulmano pio deve, certamente, acreditar que detém algumas das melhores: crenças que trazem segurança, estabilidade, felicidade, suporte para o mundo e uma consciência satisfeita que explode os kafirs, que pensam de maneira diferente.

Ainda assim, não permanece, em algum lugar, aquele incômodo sentimento de que aquelas crenças agradáveis podem não ser verdade e de que as opiniões frágeis do ateu pós-moderno podem tirar vantagem delas? De acordo com a concepção pragmatista de Rorty, isto não é algo que um pragmatista possa dizer. Afinal, ateus pós-modernos, à parte de muçulmanos pios, não compõem uma comunidade – nem mesmo uma comunidade imaginária. Eles não têm credo ou catecismo, nenhum texto sagrado, nenhum consenso estabelecido. Ainda assim Rorty é um ateu pós-moderno. Por quê? Não porque ele pertença a uma comunidade de descrentes, mas porque ele acredita que o ateísmo seja verdade. O pragmatismo que ascende o consenso ao lugar da verdade torna-se um logro.

Em seus próprios olhos, o iluminismo envolveu a celebração de valores universais e uma natureza humana comum. A arte do iluminismo percorreu vários outros lugares, outros tempos e outras culturas, numa heroica tentativa de justificar uma visão do homem como livre e autocriado. Esta visão inspirou e foi inspirada pelo currículo tradicional, cujo qual tem sido o primeiro alvo de questionamento e preocupação da universidade pós-moderna. Essa preocupação explica a popularidade de outro guru relativista – Edward Said, cujo livro Orientalism, mostrou como descartar o iluminismo em si, como uma forma de imperialismo cultural. O Oriente aparece na arte e literatura Ocidental, diz Said, como algo exótico, irreal, teatral e, portanto, frívolo. Longe de ser um generoso reconhecimento de outras culturas, a arte orientalista da Europa iluminista é uma tentativa de apequená-las, reduzi-las a episódios decorativos dentro do grande império do progresso Ocidental.

O argumento de Said anda de mão em mão junto com aqueles que advogam um currículo multicultural. O currículo tradicional, um produto do iluminismo, é, somos ensinados, monocultural, devotado a perpetuar o ponto de vista da civilização Ocidental como inerentemente superior às suas rivais. Ela também é patriarcal, produto dos velhos homens brancos europeus que há muito perderam sua autoridade. E sua pressuposição de uma perspectiva racional universal, ponto o qual de onde toda a humanidade pode ser estudada, não é melhor que a racionalização das suas ambições imperialistas. Em contraste, nós, que vivemos num ambiente amorfo e multicultural da cidade pós-moderna, devemos abrir nossos corações e mentes a todas culturas e não ater-nos a nenhuma delas. O resultado inescapável disso é o relativismo: o reconhecimento que nenhuma cultura tem qualquer apelo especial à nossa atenção e que nenhuma cultura pode ser julgada ou descartada desde fora.

Mas uma vez mais há um paradoxo. Aqueles que advogam esta abordagem multicultural são, via de regra, veementes em descartar a cultural Ocidental. Said não é uma exceção. Enquanto exortam-nos a julgar outras culturas em seus próprios termos, também pede que julguemos a cultura Ocidental de um ponto de vista desde fora – pô-la contra alternativas e julgá-la, adversamente, como etnocêntrica e racista.

Mas as críticas feitas à cultura Ocidental são verdadeiras confirmações do que pretendem criticar. É graças ao iluminismo e sua concepção de valores humanos como universais que a igualdade sexual e racial tem tanto apelo sobre nosso senso comum. É a visão universalista do homem que faz exigir tanto da literatura e da arte Ocidental – mais do que nós jamais deveríamos exigir da arte e da literatura de Java, Bornéu ou da China. É a tentativa de tentar abarcar outras culturas – uma tentativa que não tem paralelo na arte tradicional da Arábia, Índia ou África – que faz da arte Ocidental refém da crítica severa e capciosa de Said. E é apenas uma visão muito estreita da nossa tradição artística que não descobre nela um multiculturalismo que é muito mais imaginativo que qualquer coisa agora ensinada sob essa alcunha. Nossa cultura invoca um sentimento histórico de comunidade, enquanto celebra valores humanos universais. É enraizada na experiência cristã que bebe de uma fonte rica em sentimentos humanos que ela difunde por mundos imaginários. Do Orlando Furioso de Ariosto ao Don Juan de Byron, do Poppea de Monteversi ao Hiawatha de Longfellow, do The Winter’s Tale ao Madama Butterfly, nossa cultura tem, continuamente, aventurando-se em território espiritual que não tem lugar no mapa cristão.

O próprio conceito de harmonia entre valores culturais comuns, a idéia de direitos humanos naturais e a Justiça como valor transcedental são frutos da cultura ocidental tão abominada pelos acadêmicos. Ao atacar o eurocentrismo em favor de uma abordagem que valorize mais outras culturas, estamos novamente usando valores eurocêntricos de raízes humanistas (greco-judaico-cristãs?).

O iluminismo, que pôs diante de nós um ideal de verdade objetiva, também dispersou a névoa da doutrina religiosa. A consciência moral, livre da observância religiosa, começou a ver a si própria desde fora. Ao mesmo tempo, a crença numa natureza humana universal, tão poderosamente defendida por Shaftesbury, Hutcheson e Hume manteve o ceticismo cercado. Seus contemporâneos iluministas teriam considerado absurda a sugestão que, ao traçar o curso da simpatia humana, Shaftesbury e Hume estavam meramente descrevendo um aspecto da cultura “Ocidental”. Para eles, as “ciências da moral”, incluindo o estudo da arte e da literatura, incorporavam o que T. S. Eliot posteriormente chamou de a “busca comum pelo julgamento verdadeiro”. E essa busca comum ocupou os maiores pensadores da era vitoriana, que, mesmo quando davam os primeiros passos na sociologia e na antropologia, acreditaram na validade objetiva dos seus resultados e numa natureza humana universal que seria revelada neles.

Tudo isso mudou completamente. Em lugar da objetividade nós só temos “intersubjetividade” – em outras palavras, consenso. Verdades, significados, fatos e valores são agora considerados como negociáveis. O curioso, entretanto, é que este confuso subjetivismo está de mãos dadas com uma censura vigorosa. Aqueles que colocam o consenso no lugar da verdade encontram-se distinguindo o consenso falso do verdadeiro. Assim, o consenso de Rorty exclui rigorosamente todos os conservadores, tradicionalistas e reacionários. Apenas os esquerdistas podem pertencer a ele, apenas feministas, radicais, gays, ativistas e antiautoritários podem tirar vantagem da desconstrução; tal como apenas os oponentes do “poder” podem fazer uso das técnicas de sabotagem moral de Foucault; e tal como apenas os multiculturalistas podem beneficiar-se das críticas de Said aos valores do iluminismo. A conclusão inescapável é que os gurus de hoje em dia advogam a subjetividade, relatividade e o irracionalismo não para permitir todas as opiniões mas precisamente para excluir as opiniões de pessoas que acreditam nas autoridades tradicionais e na verdade objetiva.

Se você estudar as opiniões que prevalecem nas academias modernas, descobrirá que elas são de dois tipo: aquelas que emergem do constante questionamento dos valores tradicionais e aquelas que emergem da tentativa de prevenir qualquer tentativa de questionar as alternativas esquerdistas. Todas as crenças subsequentes são efetivamente proibidas nos campus normais da América: (1) A crença na superioridade da cultural Ocidental; (2) a crença de que podem existir distinções moralmente relevantes entre sexos, culturas e religiões; (3) a crença no bom gosto, seja em literatura, música, arte, amizade ou comportamento e (4) a crença nos costumes sexuais tradicionais. Você pode dar crédito a essas crenças, mas é perigoso confessá-las e ainda mais perigoso defendê-las, pois você pode ser acusado de discurso odioso (“hate speech”) – em outras palavras, de julgar adversamente alguns grupos de seres humanos. E a hostilidade a essas crenças não está fundada na razão e nunca é suscetível a justificação racional. A universidade pós-moderna não derrotou a razão mas a substituiu por um novo tipo de fé – uma fé sem autoridade e sem transcendência, uma fé ainda mais tenaz, exatamente por não se reconhecer enquanto tal.

A religião do politicamente correto não está confinada à América. Recentemente, Glen Hoddle, o treinador de futebol inglês, expressou uma visão (perfeitamente aceitável quando proferida por um representante de alguma minoria étnica) que pessoas deficientes estão sofrendo nesta vida por pecados cometidos em outra. Ele foi castigado por seus empregadores, pela mídia e pelo governo, em uma notável série de julgamentos. Então ele foi demitido. Tais caças às bruxas estão cada vez mais frequentes na Grã-Bretanha, são conduzidas de fora por cortes de burocratas e comissões quase-independentes como a Comissão para Igualdade Racial. E o princípio orientador é sempre “culpado até que se prove inocente”.

Similarmente, você irá constatar que todos aqueles que aderem aos “métodos” relativistas que Foucault, Derrida e Rorty introduziram nas humanidades são veementes apoiadores de um código politicamente correto que condena a divergência em termos absolutos e intransigentes. A teoria relativista existe com o propósito de suportar uma doutrina absolutista. Daí a extrema confusão que adentrou o campo da desconstrução quando foi descoberto que um de seus líderes, Paul de Man, já foi simpático aos nazistas. É manifestamente absurdo sugerir que um desacordo semelhante seria causado caso a descoberta fosse que Paul de Man já foi comunista – mesmo se ele tivesse feito parte de algum dos grandes crimes comunistas. Em tal caso, ele teria se aproveitado do mesmo endosso cheio de compaixão que foi oferecido a comunistas e companheiros de viagem como Lukács, Merleau-Ponty e Sartre. O ataque ao significado feito pelos desconstrucionistas não é um ataque aos “nossos” significados, que permanecem exatamente o que eles sempre foram: radicais, igualitários e transgressivos. É um ataque aos significados “deles” – significados sequestrados de uma tradição de pensamento artístico e filosófico e passados de uma geração à outra pelas maneiras tradicionais de ensino.

Vale a pena manter tudo isso em mente quando consideramos o estado atual da vida intelectual na Europa e na América. Embora áreas como a filosofia tenham, por muitos anos, permanecido imunes ao subjetivismo que prevalece, elas também estão começando a sucumbir a ele. Professores que permanecem apegados ao que Rorty chama “um tipo natural e transcultural de racionalidade” – em outras palavras, quem crê poder dizer algo permanentemente e universalmente verdadeiro acerca da condição humana – consideram cada vez mais difícil despertar interesse nos estudantes, para quem a negociação tomou o lugar da argumentação racional. Expor a ética de Aristóteles e mostrar que as virtudes cardeais por ele defendidas fazem parte da nossa felicidade para nós modernos tanto quanto elas faziam para os antigos gregos é fazer um convite à incompreensão. O máximo que um estudante moderno pode administrar é a curiosidade: esta, ele confessará, é a maneira como eles encaravam a questão. No que diz respeito a mim, quem sabe?

Declarar amor ao Ocidente: etnocentrismo, machismo patriarcalista, xenofobia e intolerância. Declarar ódio ao Ocidente: ?

Desse estado de ceticismo confuso, o estudante pode dar um salto de fé. E o salto nunca é para o currículo tradicional, o antigo cânone, a crença em padrões objetivos e formas de vida estabelecidas. É sempre um passo adiante, no mundo da escolha e da opinião livres, no qual nada tem autoridade e nada é objetivamente certo ou errado. Nesse mundo pós-moderno, não existe julgamento adverso – a menos que haja um juiz adverso. É um mundo que se assemelha a um parque de diversões, no qual todos têm direito à sua cultura, ao se “estilo de vida” e às suas opiniões.

E esta é a razão, paradoxalmente, pela qual o currículo pós-moderno promove a censura – da mesma forma que o esquerdismo o faz. Quando tudo é permitido, é vital proibir o proibidor. Todas culturas sérias são fundadas em distinções entre certo e errado, verdadeiro e falso, bom e mau gosto, conhecimento e ignorância. Era à perpetuação dessas distinções que as humanidades estavam, no passado, devotadas. Dessa forma, o ataque pós-moderno ao currículo e a veemente tentativa de impor um padrão “politicamente correto” – significa, com efeito, um padrão de não-exclusão e não-julgamento.

Mas o ataque ao currículo tradicional é infundado, pois o currículo tradicional jamais foi monocultural. Nossos ancestrais estudaram – e quero dizer que estudaram de fato – culturas que lhes eram inteiramente estranhas. Aprenderam as línguas e a literatura da Grécia e de Roma, vieram a compreender, amar e até mesmo, à sua maneira, adorar os deuses pagãos; traduziram a partir do hebreu, sânscrito e árabe; vagaram pelo mundo com uma curiosidade insaciável, acreditando com toda força que nada que fosse humano lhes seria estranho. Fazia parte da natureza do estudante universitário do século XIX aprender a língua do país para o qual viajasse, bem como estudar sua literatura, religião, história e costumes – a ponto de, amiúde, tornar-se um nativo, como muito dos britânicos na Índia e muito dos indianos na Grã-Bretanha. O iluminismo europeu, levado pelo comércio e pelas aventuras coloniais ao litoral do mediterrâneo oriental, inspirou a classe intelectual do Egito e do Líbano, tendo o aprendizado universal sempre em vista. Edward Said é um produto disso: ele é uma prova viva contra suas próprias teorias.

Tudo isso traz sobre nós a natureza profundamente paradoxal do novo relativismo. Enquanto afirma que todas as culturas são iguais e que fazer julgamentos entre elas é absurdo, o novo relativismo apela secretamente à crença oposta. Seu empreendimento é convencer-nos de que a cultural ocidental e o currículo tradicional são racistas, etnocêntricos, patriarcas e, portanto, além do limite da aceitabilidade política. Por mais falsas que essas acusações sejam, elas pressupõem a visão universalista que declaram ser impossível.

A consciência subliminar desse paradoxo explica a popularidade dos gurus que discuti. Seus argumentos pertencem a uma nova espécie de teologia: a teologia do politicamente correto. Como em toda teologia, não é a qualidade do argumento, mas a natureza da conclusão que torna a discussão aceitável. As crenças relativistas existem porque sustentam uma comunidade, a nova ummah dos desenraizados e dos descontentes. Dessa maneira, em Rorty, Derrida e Foucault, nós encontramos uma duplicidade de propósitos: de um lado, desmontar todas as alegações de verdade absoluta e por outro, sustentar as ortodoxias sobre as quais suas congregações dependem. O mesmo raciocínio que pretende destruir as ideias de verdade objetiva e valor absoluto impõe o politicamente correto como absolutamente obrigatório e o relativismo cultural como objetivamente verdadeiro.

Qual deve ser nossa resposta a isso? Claramente, a primeira conclusão a que devemos chegar é que o novo relativismo é autocontraditório. Seu caráter absolutamente censorioso já é prova disso, também o é sua constante pressuposição da perspectiva “transcultural” que ele nega que seja possível. Sem tal perspectiva, a própria ideia de pluralidade de culturas não poderia ser expressa. E qual perspectiva é essa – a “do ponto de vista além da cultura” – senão a perspectiva da razão?

A segunda conclusão que podemos tirar é que, intelectualmente falando, o projeto do Iluminismo, como Alastair MacIntyre chamou – o projeto de derivar uma moralidade objetiva a partir da argumentação racional – é uma realidade para nós tanto quanto fora para Kant ou Hegel. O problema se encontra em fornecer fundamentos racionais para a moralidade ou para princípios objetivos de crítica. O problema se encontra em persuadir as pessoas a aceitá-los. Embora existam aqueles que, como John Gray, que nos dizem que o projeto falhou, a falha se encontra neles e não no projeto. É possível fornecer uma defesa racional da moralidade tradicional e mostrar por que a natureza humana e as relações pessoais a requerem. Mas o argumento é difícil. Nem todos podem segui-lo, tampouco todos têm o tempo, a inclinação ou a sensibilidade necessária para perceber o que está em questão. Dessa maneira, a razão, que gera questões fáceis enquanto provê apenas respostas difíceis, muito provavelmente mais destruirá do que fundamentará nossas devoções.

O que está errado com o projeto Iluminista não é a crença que a razão pode prover uma moralidade transcultural. Pois bem, essa crença é verdadeira. O que está errado é a suposição de que as pessoas têm algum interesse, ainda que débil, na razão. A falsidade dessa suposição está aí, para todos verem, em nossas academias: no relativismo de seus gurus e no absolutismo equivocado – absolutismo sobre as coisas erradas e pelas razões erradas, absolutismo que exclui tudo ao seu redor, exceto os relativistas.


Notas:

[1] Retirado de: http://www.city-journal.org/html/9_2_urbanities_what_ever.html

[2]    É estudante de Filosofia e responsável pelo site http://www.andreassibarreto.org/.

[3]    Uma apreciação crítica, em meu entender, definitiva, do pragmatismo de Rorty pode ser lida em “Rorty e os animais”, In: CARVALHO, Olavo de. O Imbecil Coletivo, 3ª ed., Rio de Janeiro: ed. Faculdade da Cidade, p. 60-68, 1996. (N. Do T.)

[4]    A palavra usada por Scruton aqui é liberal, que em inglês tem o significado do português “esquerdista”. É aos esquerdistas (mormente americanos) que Lionel Trilling se refere em seu The Liberal Imagination (1950), como mostrou Olavo de Carvalho em “Uma lição tardia” (http://www.midiasemmascara.org/artigos/cultura/12531-uma-licao-tardia-1.html).

Racismo: o monstro que renasce

I – O vocabulário
“Racismo é a crença de que diferentes traços inerentes a grupos raciais humanos justificam a discriminação. É aplicado especialmente à prática ou defesa de discriminação racial de maneira perniciosa (p. ex.: que agride a um grupo particular de pessoas), e que é frequentemente justificada com a recorrência ao estereótipo racial ou pseudo-ciência.”
Assim diz a Wikipédia.

Segue:
“O uso moderno da expressão frequentemente iguala racismo e discriminação racial, e define o último apenas como a aplicação de práticas perniciosas. Tratamento diferencial de grupos raciais com o intuito de aliviar a discriminação passada, em vez de causar danos, leva outros nomes (p. ex.: ação afirmativa); a caracterização desta prática como “racismo”, “discriminação racial” ou “discriminação reversa” é normalmente feita apenas por seus opositores, e tipicamente implica a crença em uma natureza danosa desta prática com respeito aos grupos que não recebem assistência.”
Entenderam bem a coisa? Discriminação racial só é discriminação racial se a minoria em questão estiver sendo prejudicada. Se ela estiver sendo beneficiada usa-se o eufemismo “ação afirmativa”. Bom, eu sou um opositor destas políticas. E sim, eu tenho a “crença” de que estas práticas tem uma natureza danosa, não só aos grupos que não recebem assistência como aos próprios supostos beneficiários.

II – Os termos
Primeiramente, vamos dissecar os termos e fazer a análise dos que serão usados ao longo do artigo (definições retiradas do dicionário Priberam da língua portuguesa):

Discriminação  – do latim discriminatio, separação.
1. Ato ou efeito de discriminar (ex.: o exercício envolve discriminação visual). = DISTINÇÃO
2. Ato de colocar algo ou alguém aparte.
3. Tratamento desigual ou injusto dado a uma pessoa ou grupo, com base em preconceitos de alguma ordem, notadamente sexual, religioso, étnico, etc.

Discriminar, portanto, é tratar de maneira distinta, diferente.

Raça
1. Grupo de indivíduos cujos caracteres biológicos são constantes e se conservam pela geração: Raça branca, raça amarela, raça negra, raça vermelha. (Os progressos da genética levam hoje a rejeitar qualquer tentativa de classificação racial.) = CLASSE, DESCENDÊNCIA, ESTIRPE, FAMÍLIA, GERAÇÃO, LINHAGEM
2. Subdivisão de uma espécie animal: Raças bovinas.
3. Conjunto de ascendentes e descendentes de uma família, um povo; geração.

Normalmente, faz-se a atribuição de “raça” às pessoas de acordo com a sua cor da pele. O próprio conceito de raça na espécie humana é fortemente rejeitado pela comunidade científica já desde os anos de 1950.

Segregação – do latim segregatio, separação
1. Separar ou separar-se de um todo. = APARTAR, DESMEMBRAR
2. Pôr ou pôr-se de parte. = SEPARAR

Segregação, portanto, é quando de algum modo você separa as pessoas, ainda que trate elas igualmente (ou seja, não é o mesmo que a discriminação).

Bom, tendo estes 3 conceitos bem definidos (raça, discriminação e segregação) podemos prosseguir.

Típico infográfico dos antigos livros de ciência, exibindo homens de diversas “raças”.

III – Discriminação x Segregação
O que é, então a discriminação racial? Discriminação racial é quando você trata de maneira diferenciada as pessoas com base no julgamento daquilo que tomamos por “raça”. Ou seja, tratar as pessoas de maneira diferente de acordo com a cor da sua pele. Não importa se esta distinção de tratamento é positiva ou negativa, ela é discriminação racial. Um exemplo prático é fixar uma lei que diga que pessoas de raça X devem ter um salário maior, ou que devem ter algum benefício que as pessoas de outras “raças” não tem.

Os pigmeus africanos sofrem discriminação sistemática na África até hoje. Desprezados pela etnia majoritária Bantu na Rep. Democrática do Congo, não têm cidadania reconhecida nem documentos de identidade. Não raramente, são submetidos a trabalho escravo e servidão.

E a segregação racial, o que é? Segregação racial é quando você separa as pessoas com base no julgamento daquilo que tomamos por “raça”. Ou: separar as pessoas de acordo com a cor da sua pele. Um exemplo prático é proibir que pessoas de raças distintas coabitem, casem ou frequentem os mesmos lugares ao mesmo tempo. Geralmente, a segregação também envolve discriminação.

Reflexo das Jim Crow Laws, estes banheiros estão divididos de acordo com a raça dos usuários. À esquerda, somente brancos. À direita, somente negros.

 IV – A História
Durante o século XIX, muitos cientistas aderiram à crença de que as populações humanas eram divididas em raças separadas. Isto era usado para justificar a crença de que algumas raças eram inferiores a outras, e que um tratamento diferenciado era consequentemente justificado. Tais teorias são geralmente chamadas racismo científico.

Quando a prática de tratar certos grupos de maneira preferencial ou negar aos outros grupos os seus direitos baseando-se em características raciais foi institucionalizada, deu-se o nome de racismo institucional.

O racismo institucional já foi usado para muitos propósitos: esterilizar ou abortar negros, proibir a imigração de chineses, confinar judeus em guetos, apartheid, etc. Tudo isto foi feito com apoio legal do Estado, com sanção da maior parte da comunidade científica e, na maioria dos casos, com a reprovação da Igreja.

Antes do surgimento do Estado-nação, a coesão social, ao menos na Europa, era mantida através da doutrina religiosa. As pessoas não se viam como alemães, franceses e italianos, mas como cristãos. A medida que a história avança, o Estado se separa da Igreja na Europa e o poder sai das mãos da religião para cair no colo da política secular, dos príncipes e reis. Segue a revolução francesa e a unificação de países como a França, a Alemanha e a Itália. Surge o Estado-nação, e com ele, o nacionalismo. Mas o que é uma nação? Esta foi a grande pergunta que mobilizou a política ao longo dos últimos dois séculos. Antes, não era necessária uma afinidade nacional para gozar de direitos. Agora, para ser cidadão, era necessária uma identidade nacional. Para tanto, era necessário definir o que era esta identidade. Era a etnia? A língua? A crença? Enquanto o pau comia na Europa e nas suas colônias para acertar estas questões, grupos menos privilegiados de poder acabaram por ficar simplesmente ao relento e sem um Estado para servir de lar à sua nação. Claro, nem todos os grupos passaram por esta experiência durante este período, mas é fato que existem muitas “nações” sem Estado-nação ao longo da história, como os judeus, os curdos, os rutenos, os ainu, etc.

França: terra dos franceses. Mas quem são os franceses?

V – As políticas

Pois bem, chega o século XX. Ciência à toda e racismo no ápice da sua popularidade no meio científico. Não faltam teorias muito bem elaboradas para explicar a relação entre a largura do nariz e a propensão à criminalidade ou a largura dos quadris e a promiscuidade. É dentro deste contexto que nascem as leis racistas e segregacionistas mais conhecidas da história. No III Reich, alemães são proibidos de miscigenarem (ou seja, casar e ter filhos com não-alemães). Nos EUA, as Jim Crow Laws determinam qual vagão de trem era para negros e qual era para brancos. A esta última política dava-se o nome “separate but equal“: separados mas iguais.

Podemos identificar algumas políticas mais comuns:

Higiene racial e não-miscigenação – Para manter a “higiene racial”, os indivíduos não deveriam casar com pessoas de outras raças. Acreditava-se que a miscigenação era nociva, pois destruía a pureza da raça e levava à degradação da mesma. Com base nestas políticas, criavam-se leis contra o matrimônio interracial.

Consoante com a complexa “ciência” do racismo e com os programas sociais do governo nacional-socialista, este cartaz ilustra a Lei de Nurembergue que determina com quem alemães podem ou não podem casar.

Segregação – Coerente com a primeira, a segregação era só uma extensão desta política familiar para o âmbito social. Com o intuito de “preservar” as raças, estas políticas faziam, oficialmente, a segregação entre as raças. Assim, certas lojas nos EUA  atendiam somente brancos e outras, somente negros. Na Alemanha, judeus foram pouco a pouco excluídos do mercado de trabalho desta forma.

Apartheid na África do Sul. A placa diz: “negras, coloridas e asiáticas”.

Compensação/benefício – Indivíduos recebiam tratamento diferenciado com base na sua raça. Assim, alemães ganhavam mais, ao passo que os eslavos eram submetidos a um trabalho servil. Diferenças de salário, carga horária e condições de trabalho eram claros indicadores de certas políticas, muitas vezes oficializadas.

Cartaz nacional-socialista escrito em russo “convida” mulheres ao trabalho como babás no Reich Alemão. Estas mulheres deveriam ser “germanizáveis” e recebiam um terço do salário geralmente pago a um profissional alemão. Trabalhadores arianos, além de maior salário e carga horária menor, contavam com a rede de assistência social do governo.

VI – Consequências

As consequências do racismo institucional são bem conhecidas. Elas tem efeitos nocivos tanto para os supostos beneficiários como para os que são excluídos da lista de beneficiados. Não são poucos os seus danos:

Complexo de inferioridade e culpa – os excluídos do sistema de benefícios (sejam materiais ou sociais) sentem-se diminuídos, inferiorizados, marginalizados. Isto pode desencadear uma série de outros problemas como a depressão, o suicídio, o uso de drogas. Exemplo disto pode ser verificado com o chamado “teste da boneca“. Se reflete também no que é chamado “culpa branca”.

Revolta e violência – os que são menosprezados pelo sistema de benefícios sentem-se injustiçados e revoltam-se contra ele. Em decorrência disto o crime e a violência explodem na sociedade. O exemplo mais vivo disso é o aumento da adesão por parte de jovens a grupos violentos como os skinheads, a Ku Klux Klan e os Panteras Negras.

À esquerda: membros do Black Panthers. À direita: membros da Klu Klux Klan.

Morte cultural – as classes ou “raças” rebaixadas institucionalmente veem-se obrigadas a abandonar, também, a sua cultura (religião, língua, literatura, música) e a adotar um comportamento padrão que imita aquelas classes de maior prestígio. Também ocorre aquilo que se chama de “passing“.

As últimas consequências da revolta, quando levadas para os palanques políticos, pode ter fins realmente trágicos como já vimos inúmeras vezes na história e continuamos a ver até hoje. Robert Mugabe é um exemplo, hoje, de como o racismo prejudica em muito uma sociedade quando ele é elevado ao status de ideologia política.

VII – O renascimento do racismo institucional

O racismo político de Robert Mugabe talvez seja o exemplo mais gritante que tenhamos hoje. O ditador do Zimbábue, na presidência desde a década de 80, segue com sua política de expropriar agricultures “brancos” para a sua reforma agrária. O programa lembra em muito a política nacional-socialista do Blut und Boden (sangue e solo, em alemão), quando judeus, ucranianos e polacos eram expropriados de suas terras para dar lugar aos agricultores alemães.

Porém, o racismo institucional se manifesta por aqui no Brasil de uma maneira muito mais sutil. Embora o racismo seja proibido pela Constituição, segundo a qual não deve haver distinção no tratamento dos brasileiros por conta de cor, credo, raça, sexo, etc. temos a política de cotas raciais que é exatamente a antítese desta regra.

As cotas raciais são, portanto, uma política de discriminação racial. Mas, seriam elas positivas?

VIII – Alerta
Num primeiro momento, as cotas raciais parecem ser positivas. Mas, se analisarmos bem, o buraco é bem mais embaixo. Voltemos na história. O que é que acontecia antigamente que impedia os negros (exemplo) de ascenderem socialmente?

O que impedia, antigamente, a ascenção social, era a estrutura social rígida, baseada em estamentos. Quem nascesse nobre permaneceria nobre até a morte. Quem nascesse escravo, assim seria até a morte (antes da Lei do Ventre Livre). Assim, de pouco adiantaria para um africano escravizado tentar ser livre porque, de fato, ele não tinha reconhecido o direito de ser livre e qualquer um que quisesse poderia submetê-lo novamente à escravidão. Para acabar com isto foram necessários anos de luta de ativistas abolicionistas, sobretudo cristãos, para que fossem reconhecidos os direitos destas pessoas.

Pessoas como Abraham Lincoln, Eusébio de Queirós, William Wilberforce e Frederick Douglass precisaram lutar contra todo o establishment político, acadêmico e midiático de sua época para garantir um tratamento igual perante a lei para negros e brancos.

Estas novas leis de hoje, que mais parecem ter saído da Europa do século XX, estão sendo hoje implantadas no Brasil como “ações afirmativas” e como uma forma de reparação, de pagamento por uma suposta “dívida histórica”.

Eu pareço um Senhor d’Engenho pra você!?

Dívidas históricas, no entanto, ficam na história. O branco de hoje não é o mesmo de ontem, e o negro ou índio de hoje também não é o mesmo de ontem. Impor estas políticas hoje é um non-sense total denunciado mesmo por acadêmicos negros renomados como Walter Williams e Thomas Sowell. Já começa que, para institucionalizar uma política dessas é necessário primeiramente aceitar a premissa racista de que as populações humanas se dividem em raças.

O que eram as políticas racistas de antigamente senão “ações afirmativas” para brancos? E hoje, elas são melhores porque são para negros ou índios? E olha que não estamos nem entrando na parte mais complexa do assunto que é a miscigenação, que aniquila por completo o conceito de raça. Pretendo tratar sobre isto em outro artigo.

A questão é que para se adotar cotas raciais, alguém tem que ser privado de algo que era seu por mérito acadêmico. A consequência da adoção de cotas é que
a) alguém que estaria preenchendo a vaga por mérito acadêmico a perdeu para alguém que entrou por ser de determinada raça – ou – b) as universidades estão operando acima da capacidade, com superlotação de alunos que ingressaram através do sistema de cotas. Tertium non datur.

Para piorar, a nossa casta política hipócrita que enche o peito para se auto-promover à custa destas minorias, esquece que estas pessoas precisam também de representação política. Será que nossos políticos terão a audácia de levar o racismo institucional às suas últimas consequências e estipular também cotas raciais no Congresso, no Senado e nos Orçamentos Participativos? Vejamos no que dá!

 IX – Qual a saída?
O objetivo deste artigo não é, de maneira alguma, fazer vista grossa para os problemas sociais que atingiram as minorias étnicas no Brasil e no mundo. Certamente, o passado pesa muito sobre o presente e a situação sócio-econômica destas pessoas é fortemente influenciada pela discriminação que seus antepassados sofreram.

No entanto, apelar para racismo institucional não é a melhor solução para este problema. Se a discriminação acarretou em problemas sócio-econômicos para as gerações atuais, o que se tem a fazer é manter um sistema propício para a ascensão social. Educação de qualidade, segurança, estrutura familiar e saúde… tudo isto conta. Substituir o sistema de cotas raciais inteiramente pelo de cotas sociais que desconsidera a “raça” como fator decisor é o mais sensato a se fazer. Isto é importante não só para evitar frustrações e angústias, mas também para evitar que aumentem as tensões e o racismo exploda violentamente como aconteceu e acontece nos EUA e na Europa.

Um sistema que garanta mais oportunidades, sim, é necessário. Mas sem descuidar do que é mais importante: o reconhecimento do mérito, do talento e do esforço. E isto, não há dúvidas, não falta no nosso povo brasileiro. Um povo composto de 230 etnias não pode ser o país do racismo e não pode ser um país bicolor. Precisamos parar de tentar fazer aquilo que agrada os fidalgos da elite política e midiática americana e européia e levar a sério o nosso país como ele é.