Hungria transfere escolas públicas para Instituições Religiosas

O governo húngaro está transferindo escolas públicas para instituições religiosas, reportou a revista francês L’Express.

Esta política enfureceu líderes socialistas dentro e fora da Húngria e mesmo em países europeus onde a educação pública tem obtido resultados calamitosos. As reclamações enfurecidas focam no fato de que a moral tradicional está sendo restaurada com a ajuda política do governo húngaro.

As escolas voltaram a ter seções de canto de hinos religiosos e a iniciar as aulas com uma oração. E os pais dos alunos devem escolher o catequismo a ser ensinado a seus filhos.

As escolas mantém seus subsídios escolares independente do número de alunos. Na pequena cidade de Alsoörs, que o L’Express apresenta como um caso típico, de um total de noventa e seis famílias somente duas votaram contra a transferência da escola para a Igreja, enfatizando o forte apoio popular a esta medida.

Curisomanete, um padre católico, talvez impulsionado por uma mentalidade ecumênica ou de diálogo com o mundo secularizado, após consultar-se com o bispo recusou-se a adotar uma escola.

O ministro luterano local, Miklos Rasky, imediatamente concordou e, muito satisfeito, disse: “O atual governo está abraçando os calores cristãos. Isto nos permite reconectar-nos a nosso papel tradicional no campo da educação.”

Os perplexos professores, majoritariamente católicos, foram informados de que serão substituídos por protestantes.

Oitenta escolas já foram transferidas pelas prefeituras, que também ficaram satisfeitas com o fato de não mais ter de pagar estas despesas que são insustentáveis na atual crise.

Sindicatos e partidos políticos de esquerda também estão furiosos com as aulas de catequese agora ministradas nas escolas que ainda estão nas mãos do Estado.

A Ministra da Educação Rozsa Hoffman lamenta a falta de valores morais: “Queremos restaurá-los, seja a proteção da vida humana, o respeito ao trabalho e à lei, a honestidade e o amor à pátria. A escola não é só o lugar para obter conhecimento: também deve transmitir valores”, explicou.

A lei educacional se encaixa no contexto da nova Constituição que exalta os valores cristãos e reabilita a “Santa Coroa” dos Reis Católicos, a encarnação húngara do poder soberano.


Tradução por Renan Felipe dos Santos. Fonte do artigo (em inglês):

Artigo original do L’Express (em francês):

50 tons de pensamentos políticos

Formulei essa tabela com cinqüenta idéias e modos de pensar da direita e da esquerda, a fim de auxiliar o leitor a definir melhor o que é esquerda e o que é direita na política. Abaixo da tabela, há algumas dicas e apontamentos sobre a tabela.

A tabela

Esquerda

Direita

Aspectos Políticos e Econômicos

1. Coletivismo/classismo 1. Individualismo
2. Governo expansivo 2. Governo limitado
3. Alta carga tributária 3. Baixa carga tributária
4. Muita intervenção 4. Pouca intervenção
5. Radicalismo 5. Conservadorismo
6. Desigualdade perante as leis 6. Igualdade perante as leis
7. Igualdade Social 7. Desigualdade Social
8. Centralização do poder (Unitarismo) 8. Descentralização do poder (Federalismo)
9. Proibição do porte de armas 9. Livre porte de armas
10. Leis amenas contra criminosos 10. Leis rigorosas contra criminosos
11. Muito assistencialismo 11. Pouco assistencialismo
12. Presença de Salário Mínimo 12. Ausência de Salário Mínimo
13. Serviço Militar Obrigatório 13. Serviço Militar Opcional
14. Estado anti-religião tradicional e pró-secularismo e/ou sincretismo 14. Estado Laico e conservador da cultura religiosa tradicional do lugar
15. Desincentivo às multinacionais 15. Incentivo às multinacionais
16. Protecionismo 16. Economia de livre mercado
17. Mercado bem regulado 17. Laissez-faire
18. Estatização e criação de empresas estatais 18. Privatização e incentivo à iniciativa privada
19. Regimes Antiliberais 19. Regimes Liberais
20. Hostilidade à propriedade privada 20. Proteção e valorização da propriedade privada
21. Alto número de parcerias público-Privadas 21. Baixo número de parcerias público-privadas
22. Muitas empresas estatais 22. Poucas empresas estatais
23. Estado Inchado, grande, com muitas funções 23. Estado Enxuto, mínimo, com poucas funções
24. Controle da Mídia pelo Estado 24. Liberdade de Expressão
25. Incentivo aos monopólios estatais 25. Incentivo à concorrência dentro do setor privado

Aspectos Culturais e Filosóficos

26. Crente no ser humano 26. Descrente no ser humano
27. A favor do aborto 27. Contrária ao aborto
28. Defensora da valorização de novos conceitos de família 28. Defensora da valorização da família tradicional e natural
29. Relativismo moral e/ou criação de novos tipos de moral 29. Conservadorismo e valorização dos bons costumes
30. Desvalorização e/ou militância contra a religião tradicional 30. Tolerância às religiões e valorização da religião tradicional
31. Presença de Bodes Expiatórios para os males do mundo. O mal está em alguma classe inimiga (burgueses, religiosos, opositores…). 31. Ausência de Bodes Expiatórios para os males do mundo. O mal está no indivíduo e na espécie humana em geral, não em uma classe específica.
32. A ciência pode provar qualquer coisa em qualquer área do conhecimento humano. 32. Ciência é importante, mas não pode provar tudo. Ela deve se limitar a sua área.
33. Desvalorização da tradição 33. Valorização da tradição
34. O indivíduo deve ser julgado como produto de seu meio 34. O indivíduo deve ser julgado como responsável pelos seus atos
35. Os fins podem justificar todo e qualquer meio utilizado 35. Os fins não podem justificar os meios utilizados
36. A sociedade deve ser totalmente remodelada e tornar-se um paraíso. Com as pessoas certas, isso é possível. 36. A sociedade deve ser melhorada na medida do possível e do alcançável. No entanto, ela nunca será perfeita.
37. Liberdade e ditadura não se opõem se há igualdade social entre o povo. Pode-se ser livre em um governo totalitário. 37. Liberdade e ditadura são coisas opostas e que jamais podem ser conciliadas. Não se pode ser livre em uma ditadura.
38. A cultura pode e deve se opor à conduta moral. Afinal, a moral é relativa. 38. A cultura, por mais importante que seja, jamais deve se opor à conduta moral
39. Crença em um governo “Messias” 39. Ceticismo quanto a um governo “Messias”
40. Discriminação contra quem faz parte da classe “opressora” 40. Contra qualquer preconceito, discriminação e racismo
41. Cabe ao Estado suprir todas as necessidades individuais (estatismo). O Estado deve ser como uma mãe para o povo. 41. Não cabe a ele suprir todas as necessidades individuais. A função básica do Estado é ser o protetor da ordem social.
42. Os políticos devem agir e serem encarados como pais para o povo (populismo). 42. Os políticos devem agir e serem encarados como funcionários da população.
43. Mudar é importante e o alvo de toda mudança deve ser alcançar a perfeição social. Por isso, mudar deve ser algo que se faz a todo o custo e as bases da sociedade não só podem como devem ser destruídas, a fim de que se funde uma nova ordem social. 43. Mudar é importante, mas deve ser algo refletido e não deve destruir bases da sociedade, como a moral, a família, a hierarquia, a religião, a propriedade privada, os direitos individuais, as instituições tradicionais e etc.
44. A liberdade do indivíduo deve estar subordinada àquilo que o governo julga ser bom para toda a sociedade. 44. A liberdade do indivíduo deve ser respeitada sempre, à exceção de quando essa liberdade afeta diretamente a dos outros.
45. O governo deve ser humano e solidário e me ajudar a ensinar os meus filhos a agirem dessa forma 45. Eu devo ser humano e solidário e ensinar meus filhos a serem dessa forma
46. O Estado deve estar do lado das classes oprimidas. 46. O Estado deve estar do lado do indivíduo.
47. A punição e a compensação para os que já morreram devem ser feitas aos indivíduos hoje vivos que compõem a classe. Isso porque a ênfase está na classe, de modo que compensações e penas podem ser transferidas. 47. Não se pode punir maldades e compensar opressões cujos atores já morreram há séculos, pois a ênfase está no indivíduo e não na classe a qual ele pertence, de modo que compensações e penas são intransferíveis.
48. A história do mundo se resume à luta entre classes. 48. A história do mundo se resume à luta entre indivíduos.
49. Não há problema em cultuar grandes líderes revolucionários, como Mao Tsé Tung, Stálin, Lênin, Pol Pot, Fidel Castro e Che Guevara. Mesmo que eles tenham sido responsáveis por matar muita gente e cometerem atrocidades, o fizeram em prol de um mundo melhor. 49. Todas as pessoas são falhas e não devem ser cultuadas. Líderes do governo não são nossos pais e não são heróis da nação. São apenas funcionários do povo, que devem ser regularmente substituídos e que devem ser julgados pelos seus crimes como qualquer pessoa.
50. Provérbio: “Quem não arrisca não petisca”. 50. Provérbio: “A prudência é a maior das virtudes”.

Dicas e Apontamentos

1) A tabela não diz respeito à esquerdistas e direitistas, mas sim à esquerda e a direita como posicionamentos políticos. Há diferença nisso? Há sim. Nem todo o direitista irá concordar com todos os pensamentos de direita e nem todo o esquerdista irá concordar com todos os pensamentos de esquerda. O que vai definir se uma pessoa, partido, ideologia ou governo é de esquerda ou direita é o quanto de idéias de cada lado do espectro é defendido. Por exemplo, se defendo 45 idéias de direita, e só 5 de esquerda, é evidente que sou de direita.

2) Embora seja composta por apenas dois pólos antagônicos, esta tabela serve perfeitamente para nos indicar se uma pessoa, partido, ideologia ou governo é de centro, centro-esquerda ou centro-direita. Afinal, pode-se ficar entre os dois pólos, não sendo nem  de um, nem de outro, mas ficando mais ou menos no meio.

3) Podemos usar as seguintes regras para as definições:

– De 50 a 36 idéias de direita = o objeto estudado é de direita.

– De 35 a 29 idéias de direita = o objeto é de centro-direita.

– De 28 a 22 idéias de direita = o objeto é de centro.

– De 21 a 15 idéias de direita = o objeto é de centro-esquerda.

– De 14 a 0 idéias de direita = o objeto é de esquerda.

P.S.: A doutrina anarquista, tanto de extrema-esquerda como o de extrema direita (o chamado Anarco-Capitalismo) não se enquadram nessa tabela, que leva em conta apenas as idéias pautadas em regime que se dá no interior de um Estado. Como o anarquismo é a negação do Estado, o enquadramento aqui não é viável.

4) As regras acima não são inflexíveis, pois em alguns casos será necessário levar em conta a relevância de determinado pensamento para um pólo. Por exemplo, imagine que uma pessoa tenha 30 idéias de esquerda, sendo classificada como centro-esquerda. Mas como ela defende alguns pensamentos muito relevantes para a esquerda, como a hostilidade à propriedade privada, um governo antiliberal e o radicalismo, ela pode ser classificada como esquerdista.

5) Evidentemente a tabela não esgota o número de idéias de cada pólo. Minha intenção foi selecionar os pensamentos mais importantes de cada lado para montar um panorama geral.

É possível um ateu ser conservador (e vice-versa)?

Frequentemente debato com outros colaboradores aqui do blog, ou mesmo contatos meus no Facebook, sobre mentalidades ou disposições políticas e religião. Uma pergunta que quase sempre aparece é “pode um ateu ser conservador?” ou “pode um conservador ser ateu?”. É uma pergunta bastante pertinente, já que o conservadorismo é frequentemente associado, no Ocidente, ao Cristianismo.

conservadorismo darwiniano

 

Talvez não seja muito comum no Brasil, mas nos EUA encontra-se ateus com disposições conservadoras. Inclusive há ótimos blogs e sites sobre isso como o The Atheist Conservative, o Skeptical Conservatives, o Secular Right e o Secular Conservative. Enfim, encontra-se conteúdo para os curiosos de plantão.

No artigo de hoje tentarei esboçar o que seria um conservadorismo ateu ou agnóstico, quais seriam seus princípios e características básicas.

1. Realismo
Independente de como tenha surgido o Universo, sabemos que ele existe e sabemos que ele é ordenado. Sabemos que existe uma Realidade, uma Natureza, acessível aos sentidos do Homem, e que o Universo é ordenado de alguma forma. A regularidade das estações, do florescimento, da fisiologia, do tempo e da forma, são provas desta Ordem.

(Nota: Uma Ordem particular é o que chamarei de “Espírito”, e portanto o adjetivo “espiritual” se refere aqui a uma disposição característica das coisas. O Espírito – ordem e disposição das coisas – faz contraponto portanto ao Corpo – material, essência e composição das coisas.)

2. Racionalidade
O Homem é capaz de compreender, abstrair e sintetizar a Ordem do Universo, ou seja, é capaz de raciocinar. O Homem é o animal racional por excelência, ainda que seja limitado pelas condições naturais. A Racionalidade do homem implica que ele é capaz de perceber a Ordem e adequar meios aos fins, entender causas e consequências, relações cronológicas e analógicas, etc., mas não implica que ele sempre pondera sobre seus atos e que ele não possa agir por instinto ou repetição habitual.

3. Ciência e Tradição
A constância do Universo nos permite estudar o passado e estimar o futuro, e portanto acumular Conhecimento (Ciência), Experiência (Sabedoria) e Hábito (Tradição).

A Tradição ou Hábito é a Sabedoria cristalizada dos antepassados e não deve ser descartada sem ponderação. Se por um lado a Antiguidade não configura argumento que defenda a Tradição, a Modernidade também não é uma qualidade em si. O conservador prefere o testado ao não testado, o certo ao duvidoso, o possível ao imaginado, e portanto o ônus da prova recai sempre naquele que contesta o atual estado das coisas.

Uma Sociedade não é composta só pelos Homens. Ela é caracterizada pela sua forma, pela Ordem em que estão dispostos, pelo Espírito: uma cultura é caracterizada pelos seus conhecimentos, experiências e hábitos acumulados. O modo como vivem, as festas que celebram, os mitos que contam, etc., toda esta riqueza acumulada é o que forma uma cultura e portanto uma identidade coletiva e uma memória partilhada. Para manter uma Civilização, portanto, não basta assegurar a integridade física dos seus membros – o Corpo -, mas também a integridade espiritual, sua cultura.

4. Contrato Social
Uma sociedade é composta por seus membros vivos, mortos ou futuros. Os homens transmitem ao longo da vida a Ciência, a Sabedoria e a Tradição para os outros, e isto implica que os mortos tem participação no todo do Conhecimento, Experiência e Hábito acumulado pela Sociedade. Os vivos se encarregam de desenvolver e ampliar esta riqueza acumulada e legá-la para as futuras gerações, que por sua vez farão o mesmo, e assim numa sucessão infinita. Esta cooperação entre os que já se foram, os que estão entre nós os que ainda virão é o que se chama Contrato Social.

5. Conservação
O Progresso não deve ser um ídolo. Não se sacrifica o Corpo e o Espírito de uma Sociedade apenas para por à prova uma nova tecnologia ou ideologia. Mudanças só são positivas na medida em que sirvam ao propósito da conservação da Sociedade. Em detrimento de uma visão progressista da Sociedade, que postula uma melhora constante com a modernização, o conservador tem uma visão mais ‘darwinista’: a evolução é a adaptação da Sociedade ao meio para sua própria manutenção. Deve-se recusar qualquer forma de engenharia social, de eugenia, de recriação do Homem e da Sociedade “do zero”.

6. Ceticismo
Somos tributários de milênios de evolução civilizacional, e não estamos destinados a ser muito mais do que as gerações passadas ou muito menos do que as gerações futuras. Devemos fugir do idealismo e da utopia para evitar que, na tentativa de criar um Paraíso terreno, criemos um Inferno como tantas vezes ocorreu ao longo da História. O conservador é cético quanto ao Poder e não acredita em políticos reformadores e iluminados, déspotas esclarecidos, burocratas, tecnocratas, planejadores centrais, etc.

7. Laicidade
O Estado deve ser laico e manter-se separado das instituições religiosas (Igreja, Mesquita, Sinagoga, etc…). A Religião, aspecto Cultural e como tal parte da Tradição, é de responsabilidade da Sociedade e não do Estado. Assim como a Tradição e a Educação, a Religião deve estar fora do alcance do dirigismo estatal, livre para operar na Sociedade e sem o risco de ser transformada em ferramenta dos fins políticos, partidários ou ideológicos.

8. Sociedade Orgânica
O conservador é contrário aqueles que ditam que o Estado tem de formar os cidadãos. Os cidadãos é que tem de formar o Estado. Não é o Estado que tem de patrocinar a Cultura, mas a Cultura que tem de adentrar no Estado. Não é o Estado que tem de divulgar a Tradição, mas a Tradição que tem de penetrar o Estado.

Uma sociedade saudável só é possível quando os seus membros se responsabilizam pela manutenção de sua vida, educando a si e aos outros, enriquecendo a si e aos outros, cuidando de si e dos outros. Quando o Estado monopoliza em si as atribuições da Sociedade e as impõe de modo dirigista está substituindo o Espírito de uma sociedade natural e orgânica por uma reprodução mecânica e artificial que termina matando a Civilização.

9. Aristocracia Natural
É de se esperar que em qualquer sociedade as pessoas escolham seguir representantes e líderes. Líderes religiosos, chefes familiares, guias espirituais, mestres e professores, instrutores profissionais, empreendedores, etc., são parte de uma aristocracia natural baseada no talento e na autoridade legítima dos líderes e no consentimento e confiança dos liderados.

O conservador crê, portanto, que nunca uma sociedade será totalmente igualitária e que sempre haverá alguma forma de hierarquia. Este “governo dos virtuosos” – significado original da palavra Aristocracia – não deve ser confundido com a aristocracia de sangue (nobreza hereditária), mas ser entendido como um conjunto de organizações normais na sociedade, que se formam na busca por relações estáveis e de mútuo ganho, como ocorre nas relações familiares, nas associações sem fins lucrativos e nas empresas.

Antony Flew, Barry Goldwater, Henry Louis Mencken e Theodore Dalrymple são exemplos de homens que mantiveram posições conservadoras sem filiação religiosa.
Antony Flew, Barry Goldwater, Henry Louis Mencken e Theodore Dalrymple são exemplos de homens que mantiveram posições conservadoras sem filiação religiosa.

Creio que estes são os pontos principais. Embora uma pessoa possa se considerar ateísta ou agnóstica e conservadora e divergir em algum destes pontos, de modo geral todas elas concordarão que as mudanças na sociedade devem ser feitas de maneira lenta e gradual, e que há um governo natural, uma ordem espontânea entre os Homens que necessariamente os reúne em Sociedade. Não há dúvidas portanto de que um ateu pode ser conservador, ou que um conservador possa ser ateu.

Religião e Libertarianismo

por Walter Block. Texto original, em inglês, disponível aqui.

A relação entre libertarianismo e religião é longa, antiga e tormentosa.

É inegável que Ayn Rand teve uma duradoura, forte e profunda relação com o libertarianismo.  Embora ela nos rejeitasse e nos tratasse como “hippies da direita”, muitos de nós ainda somos fascinados com ela, inspirados por ela e em dívida para com ela por ter nos apresentado a defesa moral da livre iniciativa.  Eu certamente me incluo nessa categoria.

Uma das mais fortes influências que ela teve sobre o movimento libertário foi o seu ateísmo beligerante.  Para muitos seguidores da filosofia da liberdade, uma agressiva rejeição a Deus e a todas as coisas religiosas pode perfeitamente ser vista como um axioma básico dessa visão de mundo.  Confesso que essa também foi a minha posição nesse assunto durante muitos anos.

Essa era também a posição de um rico e potencial doador do Mises Institute, o qual teria contribuído fartamente caso o Instituto mudasse sua visão em relação a esse assunto e passasse a adotar uma postura agressivamente contrária a todas as religiões.  Felizmente, Lew Rockwell se recusou a desvirtuar a missão de seu Instituto em relação a esse quesito, e ficou sem a doação.  Embora seja ele próprio um católico devoto, Rockwell se manteve fiel aos seus princípios: o Mises Institute continuaria envolvido nos estudos da ciência econômica e da liberdade, e nada teria contra qualquer religião em absoluto.

O que fez com que eu mudasse minha postura?  Por que continuo hoje sendo tão ateu quanto sempre fui, porém, ao mesmo tempo, um amigo e defensor da religião?  Nada tem a ver com o fato de que, dos últimos 19 anos, passei 15 deles sendo empregado por instituições jesuítas católicas.  Fui professor do College of the Holy Cross de 1991 a 1997 e, desde 2001, sou professor da Universidade Loyola em Nova Orleans.

Para alguns — aqueles ainda encantados com a visão randiana acerca de religião e liberdade —, já é ruim o suficiente que um libertário tenha uma visão positiva sobre a religião.  Para a maioria, pode parecer uma total contradição lógica um ateu como eu ser um grande defensor e até mesmo um admirador da religião.  Permita-me explicar tudo.

Nesse assunto em especial, sou guiado pelo aforismo “o inimigo do meu inimigo é meu amigo”.  Embora tal raciocínio nem sempre seja verdadeiro, nesse caso em específico creio que seja.

Assim, qual instituição é a maior inimiga da liberdade humana?  Só pode haver uma resposta: o estado em geral; e, em particular, a versão totalitária deste.  Talvez não haja melhor exemplo de tal governo do que a URSS e seus principais ditadores, Lênin e Stalin (embora a supremacia em termos de números absolutos de inocentes assassinados pertença à China de Mao).  Podemos em seguida perguntar: quais instituições esses dois respeitáveis russos escolheram para o opróbrio?  Em primeiro lugar, a religião.  Em segundo lugar, a família.  Não foi nenhuma coincidência os soviéticos terem aprovado leis que premiavam os filhos que delatassem os pais por atividades anticomunistas.  Certamente não há melhor maneira de destruir uma família do que por meio dessa política diabólica.  E como eles tratavam a religião?  Essa é uma pergunta meramente retórica: a religião foi transformada no inimigo público número um, e seus praticantes foram cruelmente caçados e exterminados.

É possível a liberdade plena sem a liberdade de crer? John Locke afirma categoricamente: não.

Por que escolheram a religião e a família?  Porque ambas são as principais concorrentes do estado na busca pela lealdada e obediência das pessoas.  Os comunistas estavam totalmente corretos — se formos nos basear em suas próprias perspectivas diabólicas — em centrar sua artilharia sobre essas duas instituições.  Todas as pessoas que são inimigas de um estado intrusivo, portanto, fariam bem em abraçar a religião e a família como seus principais amigos, sejam essas pessoas ateias ou não, pais ou não.

A principal razão por que a religião é um contínuo e eterno incômodo para os líderes seculares advém do fato de que essa instituição define a autoridade moral independentemente do poder dessa gente.  Todas as outras organizações da sociedade (com a possível exceção da família) veem o estado como a fonte suprema das sanções éticas.  Não obstante o fato de que alguns líderes religiosos de fato já se ajoelharam perante oficiais de governo, existe uma hostilidade natural e básica entre essas duas fontes de autoridade.  O papa e outros líderes religiosos podem não ter nenhum regimento de soldados, mas eles têm algo que falta aos presidentes e primeiros-ministros, para grande desespero destes.

Eis aí minha posição.  Eu rejeito a religião, todas as religiões, pois, como ateu, não estou convencido da existência de Deus.  Aliás, vou mais fundo.  Sequer sou agnóstico: estou convencido da não-existência Dele.  Entretanto, como um animal político, eu entusiasticamente abraço essa instituição.  Trata-se de um baluarte contra o totalitarismo.  Aquele que deseja se opor às depredações do estado não poderá fazê-lo sem o apoio da religião.  A oposição à religião, mesmo se baseada em fundamentos intelectuais e não almejada como uma posição política, ainda assim equivale a um apoio prático ao estado.

Gálatas 5:1

Mas e quanto ao fato de que a maioria das religiões, senão todas, apóia a existência do estado?  Não importa.  Apesar de que algumas religiões organizadas podem frequentemente ser vistas como defensoras do estatismo, o fato é que esses dois ditadores, Lênin e Stalin, já haviam entendido tudo: não obstante o fato de pessoas religiosas frequentemente apoiarem o governo, essas duas instituições, estatismo e religião, são, no fundo, inimigas.  “Concordo” com Lênin e Stalin nesse quesito.  Estritamente do ponto de vista deles, ambos estavam totalmente corretos ao suprimirem brutalmente as práticas religiosas.  Isso faz com que seja ainda mais importante que todos nós libertários, ateus ou não, apoiemos aqueles que adoram a Deus.  O inimigo do meu inimigo é meu amigo.

Bem sei que, nesse ponto, muitos ateus irão energicamente protestar apontando para o fato de que inúmeras pessoas inocentes foram assassinadas em nome da religião.  É verdade.  Infelizmente, é muito verdade.  Entretanto, seria válido colocarmos um pouco de perspectiva nessa conjuntura.  Quantas pessoas foram mortas por excessos religiosos, tais como a Inquisição?  Embora as estimativas variem amplamente, as melhores (ver aqui) dão conta de que o número de mortes ocorridas durante essa triste época, a qual durou vários séculos, está entre 3.000 e 10.000.  Alguns especialistas, aqui, garantem números ainda mais baixos, como 2.000.

É claro que estamos falando de seres humanos assassinados, e cada assassinato deve ser lamentado; porém, se considerarmos apenas as magnitudes relativas, podemos positivamente dizer que tais números são completamente insignificantes quando comparados à devastação infligida à raça humana pelos governos.

De acordo com as melhores estimativas (ver aquiaquiaquiaquiaqui e aqui), as vítimas do estatismo apenas no século XX se aproximam do ultrajante marco de 200 milhões.  Não, não houve erro tipográfico.  200 milhões de cadáveres produzidos diretamente pelo estado!  Querer comparar algumas milhares de mortes injustificáveis produzidas pela religião com várias centenas de milhões produzidas pelo estado é algo totalmente desarrazoado.  Sim, o assassinato de uma única pessoa é deplorável.  Porém, se quisermos comparar religião e governo, devemos ter em mente essas diferenças astronômicas.

Eis uma lista de pessoas devotamente religiosas que eu conheço pessoalmente e que fizeram grandes contribuições para a causa da liberdade:

William Anderson, Peter Boettke, Art Carden, Stephen W. Carson, Alejandro Chafuen, Paul Cwik, Gary Galles, Jeff Herbener, Jörg Guido HülsmannRabino Israel KirznerRobert MurphyGary NorthRon Paul, Shawn Rittenour, Lew Rockwell, Joann Rothbard, Hans Sennholz, Edward Stringham, Timothy Terrell, David Theroux, Jeff TuckerLaurence VanceTom Woods, Steven Yates.

Ron Paul, o candidato mais libertário a disputar as Primárias Republicanas, é cristão, foi obstetra e claro, é pró-vida.

E não podemos também deixar de mencionar a Escola de Salamanca, povoada e divulgada, principalmente, por padres como estes:

Dominicanos: Francisco de Vitoria, 1485—1546; Domingo de Soto, 1494—1560; Juan de Medina, 1490—1546; Martin de Azpilcueta (Navarrus), 1493—1586; Diego de Covarrubias y Leiva, 1512—1577; Tomas de Mercado, 1530—1576.

Jesuítas: Luis Molina (Molineus), 1535—1600; Cardeal Juan de Lugo, 1583—1660; Leonard de Leys (Lessius), 1554—1623; Juan de Mariana, 1536—1624.

Essa escola de pensamento é genuinamente nossa predecessora moral e intelectual.  Para a contribuição da Escola de Salamanca para o movimento austro-libertário, ver aquiaquiaquiaqui e aqui.

Juan de Mariana, um dos grandes nomes da Escola de Salamanca.

Já é hora — aliás, já passou da hora — de o movimento austro-libertário rejeitar a virulenta oposição randiana à religião.  Sim, Ayn Rand fez grandes contribuições para os nossos esforços.  Não precisamos agir precipitadamente; não precisamos jogar fora o bebê junto com a água da banheira.  Mas é certo que o sentimento anti-religião pertence a essa última atitude, e não à primeira.

As opiniões acima expressadas são consistentes com o ponto de vista do meu eterno mentor, Murray Rothbard.  Esse brilhante erudito, que frequentemente era chamado de “Senhor Libertário”, justamente por representar a epítome do libertarianismo, era uma pessoa extremamente favorável à religião, sendo especialmente pró-catolicismo.  Ele atribuía os conceitos do individualismo e da liberdade (bem como quase tudo de positivo que havia na civilização ocidental) ao cristianismo, e argumentava com veemência que, enquanto os libertários fizessem do ódio à religião um princípio básico de organização, eles não chegariam a lugar algum, dado que a vasta maioria das pessoas em todas as épocas e lugares sempre foi religiosa.

Por que eu não sou um neo-ateu

Alguns ficam confusos com a minha posição quanto à religião. Alguns chegam a pensar que sou católico e quando digo que sou ateu se assustam. Isto porque não me engajo em militância ateísta, não me identifico com os “neo-ateus” e acho a antirreligião uma babaquice que vai contra os princípios de liberdade individual ao culto, à associação e à expressão.

Sou um ateu despreocupado. Não me preocupo se as pessoas adoram Javé, Allah, ou Iansã. Isto não é relevante para mim. Deuses não são relevantes para mim. Eu os desconsidero em toda e qualquer atividade cotidiana da minha vida. Penso que a religião é um hábito, uma tradição da maioria das pessoas, embora hajam aqueles que de fato tenham e vivam a fé.

Tive minha fase de contestação da religião e de “neo-ateísmo”, mas nunca tive uma oposição forte à “rebeldia” inicial por causa da educação que minha mãe, descrente, me deu. Por isso acho muito infantil o modo como se portam hoje ateus de mais de 20 anos na cara que parecem pré-adolescentes com oxiúros. Por isso listei dez razões para que você, ateu level 1, não seja um neo-ateu por muito tempo.

1. Ateísmo não é diploma
Descobriu que é ateu ontem? Ótimo. Não precisa usar as palavras “lógica”, “razão” e “argumento” cinco vezes por frase. O fato de ser ateu não te faz mais inteligente, melhor informado ou maior conhecedor da ciência. Na verdade, grandes gênios da humanidade foram crentes até o final de suas vidas e grandes nomes da ciência hoje continuam sendo crentes. Considere que ateísmo, apesar de não ser recente, é uma filosofia minoritária entre as pessoas. A maioria das pessoas é crente e não deixa de desenvolver habilidades fantásticas por causa disso.

O grande problema dos neo-ateus é justamente o proselitismo. A maioria está recém se descobrindo como ateu e precisa se afirmar de um jeito ou de outro. O resultado é um púbere falando besteira e ofendendo os outros porque acha que é um iluminado que descobriu a verdade.

2. Religião não é doença
O neo-ateu acha que foi milagrosamente curado, e acredita que deve curar os outros “doentes”. Insiste que a religião é um mal no mundo e que ela precisa ser eliminada. Na sua cabeça, a religião é instrumento de poder, de dominação, de enganação, etc.

Iludido pela novidade, embarca numa verdadeira pregação do Devangelho. É um dever moral fazer o maior número possível de desconversões.

Não sabe portanto que a religião nunca foi o mal, e sim a repressão religiosa. Repressão religiosa é feita de religião para religião e de ideologias políticas para religiões em geral. Quando sustentamos que a religião é um mal a ser eliminado, estamos perpetuando justamente a repressão religiosa.

3. Ignorância não é força
Caindo na ilusão de que tudo que é contra a religião é “científico”, o neo-ateu pensa que crer em figuras do “ateísmo” é um tipo de ceticismo ou livre pensamento. Repete ipsis literis as besteiras de Sam Harris e Richard Dawkins sem considerar se estas pessoas estão habilitadas para discutir o assunto ou se o que dizem é lógico e faz sentido. Acreditar no que diz Dawkins sobre Teologia é como acreditar no que diz Craig sobre zoologia. Ambos podem emitir opinião sobre o assunto, mas nenhum está qualificado para discuti-lo com propriedade. Dawkins é um excelente zoólogo, e só isso.

 

Para deixar o estado de credulidade do neo-ateu, é necessário que ele entenda que o ateísmo é uma postura filosófica como as outras, que precisa ser estudada se pretende levá-la à sério. Não se pode discutir religião sem entender religião. E entendê-las não através de esteriótipos desenhados por aqueles que as atacam. Sem conhecer os argumentos do outro lado, jamais se pode ter segurança e convicção da própria posição, mas sim uma opinião escorada na credulidade, como a de um crente fanático  sem conhecimento da própria doutrina religiosa.

É mais fácil ler críticas contundentes à religião em autores que escreveram há séculos como Locke, Paine e Mill, ou até religiosos como Erasmo de Roterdã, do que nos livros de comédia e ficção de nova seita antiteísta.

4. Antiteísmo não é ateísmo
Chame como quiser: neo-ateísmo, ateísmo militante, humanismo secular, fundamentalismo ateu, etc. Antiteísmo não é ateísmo. Ateísmo, com prefixo -a-, indica uma ausência: ausência de crença, de religião, de deus ou deuses. Um ateu não acredita que deuses existem (ou acredita que deuses não existem, dá na mesma), e não segue religião teísta alguma. É só isso. Ateísmo acaba aí.

O único mandamento ateu: não seja um c*zão.

Hoje em dia pouca gente pensa nisso, mas um ateu poderia acreditar em espíritos, forças sobrenaturais e planos não-materiais. É suficiente para ser ateu que não se acredite em divindades. Nada impede a existência de um espiritismo ateu, por exemplo. De fato, existem até religiões ateístas como o positivismo (religião da humanidade), o humanismo, a cientologia, etc.

Antiteísmo é oposição às religiões teístas e ao pensamento teísta. Na prática, significa que o antiteísta acredita que a religião e a crença em deuses são um mal a ser eliminado. O antiteísmo é portanto tão intrusivo quanto uma religião expansionista, já que busca a conversão. Ou, neste caso, a “desconversão”.

5. Se fosse para pregar, eu seria crente
O antiteísta não se contenta em pregar que a religião é nociva e (des)converter os outros para a sua seita. O neo-ateu também se congrega em igrejas, virtuais ou não. Eles se juntam em congregações como a ATEA, a Liga Humanista Secular, etc.

Se fosse para pregar, ter liturgia, ir numa congregação e ter discurso oficial, eu seria crente. Qual o sentido de se congregar em torno de uma descrença? É como juntar pessoas num clube de não-torcedores do Flamengo, ou numa associação de não-moradores da Vila Cruzeiro. É óbvio que as associações se dão em razão de características comuns e positivas: torcedores do Flamengo e moradores da Vila Cruzeiro. Anticomunistas se associam, antifascistas se associam, anticapitalistas se associam. No caso dos neo-ateus, são antiteístas e antirreligiosos se associando em prol de uma doutrina política antirreligiosa.

O que não falta é religião ateísta. Desde as mais respeitáveis e milenares como Budismo, Taoísmo e Confucianismo às mais recentes e cientificistas Religião da Humanidade, Culto da Razão, Cientologia, etc. É inevitável: quanto mais ateus dogmatizam o próprio pensamento para combater religiões e quanto mais incentivam o “ateísmo organizado”, mais os “ateus” entram em esquemas prontos que formatam seu pensamento numa doutrina religiosa. Se religião fosse um problema, antiteísmo não teria virado uma.

6. O antiteísmo tem um passado imundo (e um presente também)
Toda perseguição religiosa trouxe efeitos devastadores  quando tomou o poder político. Da Guerra Cristera provocada por Plutarco Elías Calles no México aos verdadeiros massacres cometidos na União Soviética, na China, na Albânia e em todo lugar onde o comunismo se instalou ou tentou se instalar, podemos tirar a lição de que o sectarismo ateu não é menos nocivo que o religioso.

Se neo-ateus acham que podem julgar cristãos por causa das Cruzadas ou da Inquisição, desconhecem que a militância ateísta fez coisa semelhante em lugares onde crentes foram fuzilados e a religião, proibida.

Palden Choetso, monja budista, suicida-se por auto-imolação em protesto contra a repressão religiosa e a ocupação chinesa no Tibet. Protestos deste tipo são frequentes, mas pouco reportados pela mídia.

É difícil calcular quantas foram as mortes decorrentes da repressão à religião. Mas podemos citar alguns eventos desagradáveis decorrentes dela:

  • A Guerra Cristera provocada por Plutarco Elías Calles, que matou mais de 30 mil cristeros e 50 mil soldados federais.
  • O massacre de religiosos pelos republicanos espanhóis durante a Guerra Civil Espanhola que totaliza umas 6,8 mil pessoas.
  • Campanhas de “reeducação” e campanhas “anti-reacionárias” do Partido Comunista Chinês durante o governo de Mao Zedong. Um exemplo é a Revolução Cultural que matou cerca de 500 mil pessoas, o que inclui muitos religiosos já que a China era e é um Estado Ateu.
  • Os expurgos socialistas na Mongólia para erradicar o Lamaísmo, que custaram entre 30 mil e 35 mil vidas.
  • A repressão religiosa do governo de Enver Hoxha na Albânia.
  • A repressão comunista no Camboja, que mandou para os campos da morte  Chams (cambojanos muçulmanos), cambojanos cristãos e monges budistas.
  • As campanhas antirreligiosas da União Soviética de 1917-1921, de 1921-1928, 1928-1941, de 1958-1964, e de 1970-1990, cujo número de vítimas não é conhecido.
  • A completa repressão religiosa na Coréia do Norte, que impôs o culto ateísta ao Estado (Juche).
  • A repressão religiosa por Estados Ateus como a República Popular da China, o Laos, o Vietnã, e a Coréia do Norte, que resiste até hoje.

7. O neo-ateísmo desrespeita a liberdade de pensamento
Longe de ser um grupo aberto ao diálogo, os neo-ateus são combativos e desrespeitosos. Não admitem diálogo: para eles a religião é uma enganação, e um mal a ser extirpado.

Nesta posição, sua reação é o fechamento ao debate. As verdades estão evidentes e as peças estão dispostas no tabuleiro: de um lado os religiosos fanáticos, do outro os iluminados defensores da razão e da ciência. Incapaz de um diálogo interreligioso, ele resume sua linguagem à mera afronta à doutrina religiosa que escarnece. Não dialoga: xinga; não argumenta: faz deboche; não aceita negociação: ou você está do lado da razão ou você é um crente que precisa ser desiludido.

Não havendo espaço para diálogo, o objetivo dele é um só: calar a boca dos crentes. Ele quer que retirem as cruzes dos tribunais, que retirem a palavra “Deus” da Constituição e das notas de real, que se acabe com o ensino religioso, que se proíba os crentes de manifestar publicamente a fé ou divulgar as suas opiniões e a sua ideologia na mídia. Combatem, assim, não só a liberdade de culto como também a liberdade de expressão.

8. Darwin não é deus e ciência não é religião
A mentira mais repetida por e para neo-ateus é que religião é inimiga da ciência. É claro, se você fingir que a comunidade científica ocidental não nasceu dentro da Igreja Católica e que todo o sistema universitário ocidental não é baseado num modelo acadêmico estabelecido pela Igreja.

Outra idiotice é militar pelo evolucionismo como se fosse a corporificação da ciência e da razão. Uma teoria científica, válida hoje, pode estar refutada amanhã. O que farão se o evolucionismo for posto em cheque? Admitirão que militavam por uma mentira ou vão cair na real, que não existem “fatos científicos”, verdades incontestáveis? Outra é atacar ad nauseam o criacionismo como se todo cristão fizesse interpretação literal do Gênesis, e esquecendo que quem formulou a teoria do Big Bang era um padre. Um indivíduo pode perfeitamente ser crente e lidar com ciências sem problemas.

Típicos crentes anti-ciência: Pascal, Descartes, Newton, Mendel, Faraday, Lamaître e Schrödinger.

O pior não é ver alguém militar pelo “evolucionismo”, mas ver que o mesmo sujeito não entende a Teoria da Evolução: diz que “animais passam por mutações” ou que “o homem descende do macaco”. Para piorar, louva este ou aquele cientista e sua teoria como se fossem santos e padroeiros da ciência. Darwin, Newton e Einstein foram importantes, mas fazer desta pessoas e de deturpações de suas teorias uma bandeira de militância é idiota, deturpa a visão das pessoas da ciência, tornando-a cada vez mais impopular entre crentes.

Por fim, o cientificismo. A idéia idiota de derivar padrões morais da ciência. A ciência, assim como a filosofia e a religião, tem um escopo, um campo limitado de atuação. Ciência serve para descobrirmos coisas novas e acumular conhecimento, e não ditar como devemos empregar o conhecimento. Podemos usar energia nuclear para iluminar cidades inteiras ou para fazer armas de destruição em massa. O que determina o que fazer com os avanços científicos depende de um padrão moral extrínseco à ciência: vem de uma doutrina política, filosófica ou religiosa.

9. O ateísmo não propõe coisa alguma
Você propõe alguma coisa? Fale por si. O ateísmo não propõe coisa alguma. Ateísmo é não acreditar em deuses e religiões teístas. Ponto. Qualquer coisa além disso é parte de uma doutrina, ideologia e filosofia pessoal sua. Não existe medida científica para o bem e o mal e não vai ser você quem vai inventar.

Se você defende a política X ou Y, você fala de um conjunto de idéias políticas suas. Ateísmo é outra coisa.

10. O antiteísmo sabota a causa da razão.
Qual o sentido de difamar algo que não existe? Que tipo de pessoa escreve livros, faz vídeos e dá palestras para criticar algo que não existe? Das duas uma: ou esta pessoa quer ganhar dinheiro de trouxas, ou ela está conduzindo uma cruzada contra a lógica. Você conhece alguém que escreve livros ou faz vídeos para contestar a existência de duendes, de fadas do dente, do coelhinho da páscoa ou do papai noel? Então porque seria menos ridículo alguém que escreve para contestar a existência de deuses ou espíritos?

Dentre os males causados pelo neo-ateísmo, podemos mencionar:

  • Emperra o diálogo interreligioso.
  • Inculca nos crentes o ódio pela ciência, em vez de estimular a sua apreciação.
  • Deturpa as ciências pela propagação de versões caricaturizadas de teorias científicas.
  • Cria um tumulto em torno de um ente que não existe, provocando mais militância de ambos os lados.
  • Desvia o foco do estudo das ciências de questões mais proveitosas para questões que tem pouca aplicação prática.
  • Pseudoceticismo: fomenta a blindagem cerebral ao aceitar credulamente qualquer coisa com o rótulo de “científica” e ao rejeitar qualquer coisa com o rótulo de “religiosa”.
  • Dogmafobia. O medo de ter princípios morais  e fazer o julgamento da realidade com base em princípios, em vez de fins. O resultado é que o sujeito ataca qualquer coisa “moral” e defenderá qualquer coisa imoral que tenha a pecha de “científica”.
  • Tornar-se um pé no saco. O sujeito começa a evitar igrejas, grupos de amigos, foge quando alguém reza antes do almoço, critica até a avó porque ela lê a Bíblia, quer discutir com pastor, etc.

Conclusão:
Se você ainda está na fase de contestar os dogmas, mitos e tradições religiosas da sua sociedade para afirmar-se, esqueça esta militância. O ateísmo não é um fenômeno novo, não apresenta nenhum tipo de avanço ou progresso da sociedade moderna. É mais provável que ele seja anterior a qualquer religião que tenha existido, e é portanto mais antigo do que qualquer tradição religiosa. Não se preocupe em desconverter as pessoas, preocupe-se em transmitir os valores que tornam a sociedade melhor: a tolerância, o diálogo, a liberdade individual, a liberdade de expressão. As verdades, “científicas” ou não, cedo ou tarde vão sendo descobertas.


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O neo-ateísmo e o Estado Laico

Algo tem me incomodado nos últimos tempos. Não como uma verdade incômoda que abre nossos olhos, mas uma inverdade que vem ganhando inúmeros adeptos. Inverdade promovida às cegas por grupos ateus militantes (sim, neo-ateus pregam o ateísmo, como se fosse uma religião). Esses grupos tentam manipular a população através de um conceito que ganhou corpo no fim do século XIX, o laicismo. Não sei se por desonestidade intelectual ou verdadeira desinformação, confundem – a todos e a si mesmos – o termo com o que seria um Estado Ateu.

O que é um Estado Ateu? Um estado que se oponha a qualquer manifestação religiosa ou crença em uma divindade espiritual (normalmente divindades políticas são aceitas, então o motivo fica claro: ninguém deve ofuscar o brilho do grande líder). Não só deixa de adotar símbolos como reprime qualquer comportamento religioso. Exemplos disso foram os governos comunistas da URSS, da China e da Albânia. Este, diferente do Estado Laico, um conceito simples.

Enver Hoxha, ditador da Albânia socialista, criou o primeiro Estado oficialmente ateu do mundo. Diversas perseguições contra cristãos e muçulmanos foram perpetradas durante o seu regime pela Sigurimi.

O Estado Laico é um Estado que não se deixa interferir por instituições religiosas, assim como não interfere nas instituições religiosas. Tem como objetivo assegurar e respeitar a liberdade de culto. Assim sendo, não só deve garantir que ninguém seja discriminado por sua escolha, como deve também respeitar traços religiosos que se confundem com traços culturais de um povo. Isto o é, religiões que fazem parte da tradição de uma nação. Estes aspectos não são difíceis de assimilar, apesar de aí morar a confusão.

Plutarco Elías Calles, ateu da esquerda mexicana que presidiu o México oficialmente até 1928 e extra-oficialmente até 1935, acabou com a liberdade de culto no México através de leis autoritárias que culminaram na Guerra Cristera.

Ultimamente grupos de neo-ateus (como a ATEA) têm compartilhado nas redes sociais imagens pedindo a retirada de símbolos que se referem à Igreja Católica de prédios públicos, atestando que ostentá-los agride o conceito de Estado Laico. Não agride. A Igreja Católica foi uma instituição que, assim que instalada no Brasil, caminhou junto com nossa formação como povo. O Brasil já foi um país oficialmente católico. Uma cruz em um tribunal não agride a ideia de Estado Laico, mas alude à nossa história, à formação de uma nação que até hoje mantém traços conservadores (diferente de seu governo). Uma cruz em um tribunal apenas representa o respeito por uma instituição que se confunde com a história do Brasil desde os tempos do descobrimento.

Imagens religiosas, cristãs ou não, não ferem o Estado Laico. O Estado Laico não proíbe a manifestação religiosa no meio político, apenas separa os poderes do Estado daqueles das Instituições Religiosas.

Para entender porque meros símbolos não agridem o secularismo de um Estado, vejamos o funcionamento de uma teocracia, em que assuntos religiosos interferem diretamente não apenas nos assuntos do governo, como na vida do cidadão comum.

Um governo teocrático não o é por ostentar símbolos religiosos. Em um estado não secular a religião é obrigatória. As leis do país são os dogmas da religião. Aqueles que se recusam a seguir a religião podem o fazer apenas em casa ou em (raramente liberados) templos específicos, tendo que pagar pesada tributação por sua escolha. São países onde a liberdade religiosa não existe. Quase como um Estado Ateu às inversas. E para isso não precisa existir nenhum símbolo religioso em prédios públicos.

Aiatolá Khomeini, fundador da República Islâmica do Irã – um exemplo de Estado Teocrático. A Sharia, lei muçulmana, é aplicada a todos.

Entendido esse conceito fica fácil perceber que por mais que o Estado (no caso o Brasil) aluda a uma religião específica, não deixa de constituir um Estado Laico. A constituição garante a liberdade religiosa, isso é, ninguém pode ser discriminado por sua fé. Por mais que exista uma cruz em um tribunal, um ateu não será julgado de maneira diferente de um católico. Aliás, o provável é que ninguém saiba que o sujeito é ateu, já que não é isso que está em jogo. Não existem benefícios aos seguidores de uma religião. Não existem favorecimentos políticos a católicos. O Brasil é um Estado Laico. Se uma cruz em um prédio público ofende a um ateu, quem sabe logo também preguem que em nome da secularidade sejam proibidos todos os símbolos religiosos (mesmo os portados por particulares), já que esses símbolos os ofendem.

James Madison, forte defensor do laicismo.
John Locke, defensor da liberdade de culto e tolerância religiosa. Um dos maiores representantes do liberalismo clássico.

Essa é a parte simples do secularismo. A parte complicada (que a maioria dos neo-ateus parece desconhecer) é quando surgem as legislações de um país. O direito evoluiu ao longo do tempo procurando coesão social. E apesar de o moderno ter rompido o Estado e o Direito da moral e da religião, herdou conceitos já antigos e relacionados justamente com a moral e a religião. Ao contrário do que tentam fazer parecer, Estado Laico não é a separação entre Estado e Religião: é separação entre Estado e Igreja (ou outra instituição religiosa), o que significa que decisões tomadas pelo Estado não devem influenciar no poder da Igreja e vice-versa.

É inegável o efeito que a religião exerceu sobre a organização dos povos ao longo da história, inclusive fazendo o papel de Estado antes da ascensão do Estado-nação na Europa. A religião cristã moldou o pensamento ocidental, e por isso é impossível a dissociar totalmente da vida dos cidadãos, mesmo daqueles não cristãos. O Estado Laico acaba por ser uma teoria impossível de ser levada às últimas conseqüências em todos os seus aspectos, principalmente se deseja cumprir sua principal função, que é a de garantir e respeitar a escolha religiosa dos cidadãos.

Richard Dawkins, zoólogo ateu e figura chave no movimento fanático antirreligioso dos “neo-ateus”. Possui tanta autoridade moral e acadêmica para discutir religião quanto um teólogo tem para discutir zoologia: nenhuma.

Perdidos naquilo pelo que lutam, os neo-ateus tentam desmerecer a inteligência de deístas, considerando a si mesmos como pessoas superiores, mais cultas, mais “racionais”. Esquecem-se que alguns dos maiores filósofos e cientistas da história foram deístas em sua maneira. Não cabe aqui citá-los, pois o objetivo não é assumir a mesma postura arrogante que assumem os neo-ateus em sua nova religião. Um neo-ateu não é apenas alguém alheio à religião ou que nega a concepção de Deus. Ele é um indivíduo que ostenta orgulhosamente o título de ateu, assim como o cristão já ostentou a cruz ou o judeu a estrela de Davi. É um indivíduo que reverencia Hitchens e Dawkins como profetas, assim como é reverenciado Jesus pelos cristãos. E seu deus é Darwin, tão grande quanto o Deus cristão, para os ateus. Enfim, o neo-ateísmo é um movimento que tem gosto de religião, cheira como religião, se parece com religião, mas seus seguidores juram (quem sabe em nome de Darwin) que não é uma religião.

Os egos racionalistas dessa parcela da população esquecem que descobertas científicas, apesar de paradigma orientador da razão ocidental, são descartáveis: uma descoberta só existe para ser superada. E ao esquecerem deste detalhe, esquecem que a ciência diversas vezes serviu para apoiar práticas absurdas como o racismo “científico” (uma abordagem sobre isto é feita neste artigo) . Esquecem que a ciência é financiada pelos governos, portanto não é totalmente imparcial. Esquecem que a ciência é fruto da percepção humana: passível de erros.  Esquecem que a ciência tem um escopo limitado de trabalho, que não trata de definir padrões morais nem o que deve ser feito das suas descobertas. E esquecem, principalmente, que o ser humano apesar de um ser racional, não utiliza da racionalidade durante todo o tempo. E que por esse motivo a moral cristã, contra a qual lutam ferozmente, foi e é extremamente necessária para a existência de uma coesão social. Isto pode parecer um tanto quanto utilitarista ao invés de simplesmente espiritual, mas essa moral continua a guiar a vida em sociedade, mesmo daqueles que veementemente renegam a cristandade.

Não consigo ver o ateísmo militante senão com a desconfiança de que é um movimento que não sabe o que busca. Não tem identidade própria: vive da negação da identidade daquilo que ataca (a Religião). É mais lógico referir-se a este movimento como antiteísta ou antirreligioso, pois o cerne de seus dogmas é justamente assumir que a Religião é um mal e que o mundo seria melhor se todo mundo fosse ateu. Ateus não são discriminados pelo Estado. Não são discriminados como indivíduos, muito menos como cidadãos. São pessoas que gozam de plenos direitos, de plena liberdade de expressão (inclusive para fazer ataques gratuitos contra instituições religiosas que mal sabem de sua existência). Mas fazem um barulho tremendo para reclamar de uma cruz em prédio público. Simples assim.