Da série: coisas que nunca escutarei um esquerdista dizer

 

Mal posso esperar para acontecer a revolução bolchevista! Assim posso ser um dos operários obedientes que trabalhará sem descanso para o bem comum e sem perspectiva nenhuma de crescimento pessoal! Caso eu não dê muito certo, o pior que pode acontecer é trabalho forçado!

Disse militante comunista nenhum na história. Não sei porque, mas eles sempre se imaginam como o Querido Líder.

Desaprendemos a ser Conservadores

Desde que a esquerda tomou de assalto o jogo político e os conservadores foram deixados de lado (assim como os liberais), desenvolveu-se uma ânsia pela retomada na participação que fez com que os conservadores deixassem de se-lo. Isso em muito se justifica pela aliança excessiva que se formou com movimentos de cunho liberal, com os quais podemos ter certos aspectos em comum, mas que, retomando espaço no jogo político, certamente tomariam caminhos distintos devido à sua natureza, até certo ponto, progressista. Outro ponto que deve ser levado em consideração é também o apego a causas que em nada contribuem para com a retomada de um espaço político.

Há no pensamento conservador alguns pilares centrais, dos quais derivam toda e qualquer decisão e ação política considerada. Mas toda boa construção possui uma sólida fundação para seus pilares. Essa fundação pode ser vista como a mínima moral necessária, composta pelos princípios fundacionais de um determinado agrupamento social. A fundação de um agrupamento social acarreta, imediatamente, no estabelecimento de uma ordem, que será espontaneamente mantida caso sejam mantidos intactos os princípios fundamentais convencionados por esse grupo.

O resultado prático desse raciocínio, na política, é que o conservador vai pensar cada medida proposta do prisma da manutenção da ordem. E para a manutenção da ordem, é necessário que os princípios básicos se mantenham intactos, o que ocorre através do travamento de qualquer proposta que venha a alterá-las e colocar a sociedade nos trilhos de um suposto progresso. É necessário o travamento de qualquer proposta que vise alterar a moral da sociedade pelas vias legislativas.

Mas isso não significa engessar a moral através da lei. O conservador valoriza o que é socialmente construído ao longo das décadas, inclusive a gradual mudança de pensamento. Isso faz com que, novamente pensando na manutenção da ordem e em uma estratégia de contra-revolução, se façam concessões em aspectos que se mostrem devidamente enraizados no imaginário popular. Para evitar a revolta e a derrubada de todo um sistema, faz-se uma reforma que visa manter a saúde do corpo social.

O Ocidente, desde sua formação na era medieval, foi conservador de forma esplêndida, provavelmente inimitado em sua competência para manter sua essência intacta. Os artigos escritos sobre um novo renascimento em parte buscam dissertar sobre isso, a capacidade de o ocidente se reinventar de modo a evitar seu próprio colapso. Quando a população já não mais suportava a aliança entre a Igreja e o Estado, o ocidente os separou, e enraizou no Estado uma estrutura semelhante à da Igreja para manter as estruturas civilizacionais intactas. Quando a moda no oriente foram as revoluções socialistas, o Ocidente inventou o Estado de Bem Estar, que se mostrou mais eficiente em salvar os inaptos do que a burocracia soviética.

O grande problema é que o Estado de Bem Estar Social está a entrar em colapso devido às excessivas benesses que passou a oferecer ao longo dos anos, e os conservadores se mostram inertes e incapazes, sufocados entre liberais e socialistas, de definir quais causas podem servir como concessão e reforma legítima visando a manutenção da ordem, e quais servem justamente à destruição dessa ordem mantida ao longo de séculos. Como resposta a essa asfixia, alguns conservadores abraçam um nacionalismo já a muito superado e estigmatizado, outros aderem totalmente às bandeiras liberais,  outros se mantém completamente agarrados ao status quo, enquanto alguns pretendem voltar atrás quase meio milênio. Todas essas medidas que resultam em um suicídio político.

Há de se retomar o raciocínio que Aristóteles empreendeu em A Política para verificar quais são as instituições basilares da civilização nos dias de hoje, após séculos de liquidez com análises quase que exclusivamente marxistas e interessadas na queda dessas instituições, desvalorando-as a priori. A verificação dessas instituições nos permitirá perceber o que deve ser mantido a qualquer custo e como realizar essa manutenção. Não cabe ao pensamento conservador pregar uma espécie de balbúrdia do poder contra os costumes e tradições vigentes para levar a sociedade ao que seria um ideal, isso é papel de engenheiros sociais.

Por isso não se deve descartar a priori nenhuma linha de pensamento que surja. Deve-se verificar quais delas podem ser utilizadas para um propósito de conservação, que muitas vezes é contrário ao que se propõe em um primeiro momento (muitos pensamentos teoricamente contestatórios podem servir para a manutenção da ordem ao invés de sua destruição). E ao se utilizar de um pensamento supostamente contrário para sustentar uma conservação velada conquista-se uma base de apoio não só para a reforma pretendida, mas muitas vezes para outras medidas acessórias.

Os conservadores de antigamente souberam fazer isso de forma magistral. Cabe a nós, que combatemos o progressismo nos dias de hoje, relembrar como fazê-lo.