Rótulos políticos: necessidades e problemas

Rotulos politicos - diagrama de Nolan

 

Como os rótulos políticos, embora às vezes necessários, podem prejudicar o debate, alimentando o pensamento coletivo e reprimindo o pensamento individual.

 

Acompanho eventualmente grupos no Facebook vinculados aos ideais de liberdade e frequentemente vejo debates, muitos acalorados, que instigam aos participantes a definir a sua visão filosófica, política ou econômica. Ancap, minarquista, libertário de esquerda ou liberal clássico? Nessa mistura de conceitos associam-se ainda desde partidários do objetivismo até as insígnias rotuladas como “conservadoras” ou de “direita”. Alguns se posicionam compreensivelmente em mais de um rótulo, pois enquanto uns possuem vertentes mais fortes no campo econômico, outros reforçam suas teses nas trilhas políticas. Alguns conceitos são mais puros e não deixam margem à duvidas, como o objetivismo, mas outros, como “liberal”, podem causar confusões, principalmente em função do local de origem. Ser liberal aqui, em função da tradição do liberalismo inglês, é uma atitude bem diferente de ser liberal nos Estados Unidos, por exemplo, onde a esfera política que se denomina de “esquerda” se apropriou desse termo. Já aqui ela o abomina. Mas será que dar extrema importância para essas classificações é válido atualmente?

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Transferência de renda, riqueza e igualdade salarial: conceitos imorais

Transferência de riqueza, transferência de renda e igualdade salarial são conceitos imorais

Os motivos que revelam porque as premissas de sua luta pela transferência de renda estão recheadas de conceitos imorais.

 

Você, pessoa bem intencionada, talvez idealize um mundo onde a justiça é  construída por meios de uma intensa política de confisco da riqueza através de impostos e uma acentuada transferência de renda através de políticas sociais, com o objetivo de alcançar a sonhada igualdade econômica. Talvez você não acredite, mas é uma impraticável e uma tola utopia. Faça um pequeno exercício mental: imagine que na virada do próximo ano fosse possível distribuir toda a riqueza do mundo em partes iguais para cada cidadão. Digamos que cada um tenha ficado com 25 mil reais. Passados doze meses, o que aconteceria quando chegasse o final de Dezembro? Você ainda acha que teríamos alguma igualdade? Você acha que todas as pessoas decidiram poupar, consumir, doar, emprestar aquela quantia da mesma forma? Qual seria a nova sugestão? Redistribuí-lo novamente? Por quanto tempo duraria esse ciclo?

Quer seja seu desejo ou não, a riqueza possui um caminho natural na sociedade, fluindo aos indivíduos que são mais eficientes e eficazes em sua área de atuação. E note, leitor, que isso é bom. Bom porque a renda é uma das formas de remuneração para pessoas que oferecem algo positivo aos outros. Em um local onde não existam interferências estatais, a riqueza é meritória, isso é, as pessoas que a conquistaram, só a conquistaram porque foram recompensadas por outras pessoas que, voluntariamente, adquiriram o seu produto ou serviço. Você, que usa seu iPad, iMac ou iPhone, colaborou decisivamente aos executivos e acionistas da Apple a ficarem mais ricos. Você colaborou para essa transferência de renda. E não, esse conceito não é apenas elitista. Você que já pagou muitas prestações de seu carnê das Casas Bahia também enriqueceu a família Klein.

A inovação em um sistema livre de mercado, na qual a Apple é apenas um exemplo entre milhões, provém inicialmente do acúmulo de capital. Esse acúmulo de capital é essencial para que nossa sociedade continue em evolução e seria totalmente arruinado em um programa de transferência de renda como a descrita no primeiro parágrafo, além de extirpar o estímulo a novos empreendimentos em função da natureza imoral do ato.

Redistribuir renda por coação é algo obsceno e movido pela inveja, pois é um confisco de quem a ganhou honestamente (não estamos aqui falando de burocratas e empresários beneficiados pelos Estado, evidentemente) e solapa qualquer incentivo para que as pessoas produzam algo bom entre o grupo em que vivem. Diferentemente de ações louváveis como a filantropia direta e atividades voluntárias, a espoliação do dinheiro dos outros é mais uma forma de sustentação de poder aos políticos, gerando mais corrupção.

Além disso, a imposição de uma igualdade salarial demanda a supressão da desigualdade das pessoas. Mas as pessoas são naturalmente desiguais, possuem metas desiguais, possuem motivações desiguais. Ora, é claro que nunca serão economicamente iguais! Impor, em qualquer grau, através de uma transferência de renda forçada esse nivelamento econômico é uma imposição perversa por natureza.

O que precisa estar garantido, é a igualdade baseada nos direitos naturais entre todos os seres humanos, que deve estar acima de quaisquer classificações como cor de pele, preferências sexuais e afins (atribuir diferenças de direitos entre supostas castas é outro discurso alienado em moda hoje em dia). A real demanda é garantir as condições necessárias, como oportunidades de educação básica de qualidade a todos, de forma que suas próprias motivações internas, viabilizadas por suas capacidades intrínsecas, construam seu futuro. E que algumas exceções sejam tratadas como… exceções!

O discurso da esquerda estatista, que faz uso de ideias aparentemente dignas para legitimar atos funestos, precisa ser desmontado. Suas boas intenções são tão boas e nobres quanto às intenções dos ditadores comunistas de Cuba, Coréia do Norte e Venezuela. É irracional pensar que premiando setores improdutivos e castigando setores produtivos poderemos alcançar uma sociedade justa. Uma parte dessa esquerda sabe o que está fazendo, e deseja protelar por tempo indefinido a dependência dos supostos beneficiados, pois possui vantagens nessa situação. A outra parte são os idiotas úteis, que realmente acreditam que essa postura é um atestado de compaixão e integridade, mas que no fundo, apenas perpetua o atraso. A história do mundo é a maior referência que pode ser citada, mas infelizmente eles não são capazes de interpretá-la. Ao menos com lógica.

Enfim, a pobreza só será eliminada através de maior liberdade econômica. Transferência de renda não trará igualdade econômica, pois cada indivíduo, com suas diferentes aptidões e motivações conceberá um caminho diferente do outro. A liberdade econômica, entretanto, age em conjunto com o crescimento econômico para melhorar a renda de toda a população em geral. Dados demonstram que os países com uma economia mais livre possuem, invariavelmente, até melhores redistribuições de renda que os demais. De longe, o quintil dos mais pobres possuem uma renda muito maior do que o mesmo quintil dos países com menor liberdade econômica. Um resumo desses dados pode ser visto aqui.

Infelizmente, mesmo sendo impossível argumentar contra os dados, a mentalidade estatista ainda é preponderante às ideias liberais em terras tupiniquins. Mas já está começando a perder a grande hegemonia. Quem viver verá.

Esse texto foi publicado originalmente no blog Viagem Lenta. Para ler mais textos sobre Liberdade e Política, clique aqui.

O Fascismo nasce da Esquerda

Por Erwin Robertson. Esta é uma resenha do livro “The birth of fascist ideology” (o nascimento da ideologia fascista) de Zeev Sternhell, Mario Sznajder e Maia Asheri. Foi publicada originalmente na revista Ciudad de los Césares, nº 48, em março de 1998.

Por Erwin Robertson. Esta é uma resenha do livro “The birth of fascist ideology” (o nascimento da ideologia fascista) de Zeev Sternhell, Mario Sznajder e Maia Asheri. Foi publicada originalmente na revista Ciudad de los Césares, nº 48, em março de 1998.

LEIA ANTES DE PROSSEGUIR: Esta resenha foi escrita e publicada por Erwin Robertson, um historiador chileno pró-fascista em uma revista de igual alinhamento ideológico e, portanto, NÃO REPRESENTA a opinião do blog Direitas Já! e de seus articulistas.

O autor do livro objeto da resenha, Zeev Sternhell, judeu polaco nacionalizado israelense, é uma das maiores autoridades acadêmicas sobre o fascismo e portanto publicamos este material para que seja de conhecimento público o que é o fascismo, como ele surgiu e qual é a sua relação histórica e ideológica com a esquerda política.

Que Mussolini foi membro do partido socialista é um fato conhecido. Fato problemático, em especial para uma das interpretações dominantes do fascismo; a saber, que este foi a reação alentada ou dirigida pelo grande capital contra o avanço do proletariado. Em tal evento, aquele fato e sua evolução consecutiva deviam ser entendidos como oportunismo, incoerência ou, no melhor dos casos, como uma questão de conversão que não deixa marcas no passado de um homem. A obra de Zeev Sternhell – professor na Universidade Hebraica de Jerusalém – e seus colaboradores colocou toda esta matéria sob outro ângulo. Em sua interpretação, a compreensão histórica do fascismo não pode dissociar esta ideologia de suas origens de esquerda.

Desde o princípio, toda uma plêiade de historiadores e filósofos abordou já há tempo o problema do fascismo: cada um segundo suas orientações espirituais particulares, com seus próprios pontos de vista e seus preconceitos pessoais, mas não sem altura: Ernst Nolte, Renzo de Felice, James A. Gregor, Stanley Payne, Giorgio Locchi e “last but not least”, o jovem pesquisador hispano-sueco Erik Norling, entre outros. Não que a “vulgaris opinio” aludida acima goze hoje de autoridade intelectual. Mas Sternhell vem a aportar a valorização de fontes até aqui descuidadas e, com elas, a nova interpretação que é objeto deste comentário. Estudioso em particular do nacionalismo francês (são suas as obras “Maurice Barrés et le nationalisme français”, “La droite revolutionarie” e “Ni droite ni gauche, L’ideologie fasciste en France”), o professor israelita não se preocupa com os critérios do politicamente correto. É notável ler sobre o tema páginas em que está ausente a edificação moral, nas quais não se há estimado oportuno advertir ao leitor que está adentrando terrenos perigosos; nos quais não há, em suma, demonização ou pressa de meter polemicamente à esquerda uma vizinhança incômoda.

O que é, então, o fascismo na interpretação de Sternhell? Nem anomalia na história contemporânea, nem “infecção” (Croce), nem resultado da crise de 1914-1918, nem reflexo ou reação contra o marxismo (Nolte). O fascismo é um fenômeno político e cultural que goza de plena autonomia intelectual (p.19); ou seja, que pode ser estudado em si mesmo, não como produto de outra coisa ou epifenômeno. Por certo, e logo de início, para Sternhell é preciso distinguir o fascismo do nacional-socialismo (Sternhell diz “nazismo”, acomodando-se ao uso contra o qual, no entanto, se rebela honestamente um Nolte). Com todos os aspectos que um e outro tem em comum, a pedra de toque está no determinismo biológico: um marxista pode converter-se ao nacional-socialismo, mas não um judeu (por outro lado, existiram fascistas judeus). O racismo não é um elemento essencial do fascismo, ainda que contribua à ideologia fascista. E algumas páginas mais adiante o autor aponta que um dos elementos constitutivos do fascismo é o nacionalismo tribal; isto é, um nacionalismo baseado no sentido de pertencimento, a “terra e os mortos” de Barrés, o “sangue e solo” do nacional-socialismo. Este sentido organicista é compartilhado com os nacionalismos de finais do século XIX, germânicos e latinos, Maurras e Corradini, Vacher de Lapouge e Treitschke. O próprio Sternhell debilita assim a distinção que acaba de fazer (reparemos, de passagem, na delicadeza do adjetivo “tribal”: seria pouco oportuno de nossa parte lembrar que uma tradução de “tribal” é “gentil”, de “gentio”?)

O fascismo então é uma síntese deste nacionalismo “tribal” ou “orgânico” e de uma revisão anti-marxista do marxismo. Sternhell se estende explicando que a finais do século XIX as previsões de Marx não se haviam cumprido: o capitalismo não parece cair, nem o empobrecimento é o sinal característico da população, enquanto o proletariado se integra política e culturalmente nas sociedades capitalistas ocidentais. Daí a aparição do “revisionismo”. Seguindo o exemplo do SPD, o partido social-democrata alemão, o conjunto do socialismo ocidental se faz reformista; isto é, sem renunciar aos princípios teóricos do marxismo, aceita os valores do liberalismo político, e em consequência, tacitamente, a ordem vigente. Mas uma minoria de marxistas irá recusar o compromisso e irá querer permanecer fiel à ortodoxia – cada um a seu modo; são os Rudolf Hilferding e os Otto Bauer, os Rosa Luxemburgo e os Karl Liebknecht, os Lenin e os Trotsky, todos da Europa Oriental.

Ao mesmo tempo, na França e logo na Itália surgem aqueles que, de dentro do marxismo, empreenderão sua revisão em sentido não materialista nem racionalista, sem discutir a propriedade privada ou a economia de mercado, mas conservando o objetivo da derrubada violenta da ordem burguesa: são os sorelianos, os discípulos de Georges Sorel, o teórico do sindicalismo revolucionário e autor das célebres “Reflexões sobre a violência”.

As diferenças entre os dois setores revolucionários são grandes. Os primeiros, quase todos membros da “intelligentsia” judaica, destaca Sternhell, mantém o determinismo econômico de Marx, a ideia da necessidade histórica, o racionalismo e o materialismo, enquanto os sorelianos começam por uma crítica à economia marxiana que chega a esvaziar o marxismo de grande parte do seu conteúdo, reduzindo-o fundamentalmente a uma teoria da ação. Os primeiros pensam em termos de uma revolução internacional, têm “um horror a esse nacionalismo tribal que florece ao longo da Europa, tanto no campo subdesenvolvido do leste como nos grandes centros industriais do oeste… Não se ajoelham jamais ante a coletividade nacional e sua torrão, seu fervor religioso, suas tradições, sua cultura popular, seus cemitérios, seus mitos, suas glórias e animosidades” (p.48). Os segundos, comprovando que o proletariado já não é uma força revolucionária, o substituirão pela Nação como mito em uma luta contra a decadência burguesa e assim confluirão finalmente no movimento nacionalista.

Tal é a tese fundamental de Sternhell. No desenvolvimento de “O nascimento da ideologia fascista”, o capítulo I está dedicado à análise da obra de Sorel: talvez não propriamente um filósofo nem autor de um corpus ideológico fechado, sua verdadeira originalidade, assinala Sternhell, reside em ter constituído uma espécie de “lago vivente”, receptor e fonte de ideias na gestação das novas sínteses ideológicas do século XX. Nietzsche, Bergson e William James o marcaram sem dúvida mais profundamente que Marx, com ânimo de julgar o que considerava um sistema inacabado.

O autor de “Reflexões sobre a violência”, de “As ilusões do progresso”, de “Materiais de uma teoria do proletariado”, etc., se sublevava contra o marxismo vulgar (que enfatiza o determinismo econômico) e sustentava que o socialismo era uma “questão moral”, no sentido de uma “transvaloração de todos os valores”. A luta de classes era para ele questão principal e, por extensão, saber mobilizar o proletariado na guerra contra a ordem burguesa.

Em um contexto social em que os operários mostram um alto grau de militância sindical (1906, o ano de edição de “Reflexões sobre a violência”, marca também na França o recorde de greves que frequentemente supõem enfrentamentos sangrentos com as forças da ordem), mas também onde uma economia em crescimento permite à classe dirigente fazer concessões que reduzem a combatividade operária, não bastam a análise econômica nem a previsão do curso racional dos acontecimentos.

Sorel descobre então a noção do “mito social”, esta imagem que põe em jogo sentimentos e instintos coletivos, capaz de suscitar energias sempre novas na luta cujos resultados não chegam a divisar-se. Como o mito do apocalipse para os primeiros cristãos, o mito da greve geral revolucionária será para o proletariado esta imagem mobilizadora e fonte de energias. Com fervor análogo ao das ordens religiosas do passado, com um sentimento parecido ao do amor à glória dos exércitos napoleônicos, os sindicatos revolucionários, armados do mito, se lançarão à luta contra a ordem burguesa.

Assim, à mentalidade racionalista, que o socialismo reformista compartilha com a burguesia liberal, Sorel opõe a mentalidade mítica, até mesmo religiosa. Sua crítica ao racionalismo que remonta a Descartes e Sócrates e, contra os valores democráticos e pacificistas, reivindica os valores guerreiros e heróicos. De boa vontade reivindica também o pessimismo dos gregos e dos primeiros cristãos, porque só o pessimismo suscita as grandes forças históricas, as grandes virtudes humanas: heroísmo, ascetismo, espírito de sacrifício.

Sorel vê na violência um valor moral, um meio de regenerar a civilização, já que a luta, a guerra por causas altruístas, permite ao homem alcançar o sublime. A violência não é a brutalidade nem a ferocidade, não é o terrorismo; Sorel não sente nenhum respeito pela Revolução Francesa e seus “provedores de guilhotinas”. É, em suma e no fundo, contra a decadência da civilização que Sorel dirige seu combate; decadência na qual a burguesia arrasta atrás de si o proletariado. E não será surpreendente encontrar aos discípulos de Sorel reunidos com os nacionalistas de Charles Maurras no “Círculo Proudhon”, que leva o nome do grande socialista francês anterior a Marx. Tampouco será estranho que em seus últimos anos Sorel lance seu alegado “Pro Lenin”, desejando ver a humilhação das “democracias burguesas”, ao mesmo tempo que reconhecia que os fascistas italianos invocavam suas próprias idéias sobre a violência.

A síntese Nacional e Social

Estes discípulos são também estudados por Sternhell (capítulo II). São os “revisionistas revolucionários”, a “nouvelle école” que tentou tornar operacional uma síntese nacional e social, não sem tropeços e desilusões. Ali está Edouard Berth, que junto a Georges Valois, militante maurrasiano (futuro fundador do primeiro movimento fascista francês, morto em um campo de concentração alemão), deu vida ao “Círculo Proudhon”, órgão de colaboração entre sindicalistas revolucionários e nacionalistas radicais nos anos anteriores a 1914.

Aventada esta experiência pela guerra européia, Berth passará pelo comunismo antes de voltar ao sorelismo. Está também Hubert Lagardelle, editor da revista “Mouvement Socialiste”, homem de luta no interior do partido socialista, onde se esforçou por fazer triunfar as teses do sindicalismo revolucionário (pelo contrário, em 1902 triunfaram as teses de Jaurés, que apresentam o socialismo como complemento da Declaração dos Direitos do Homem). Ante a colaboração sorelista-nacionalista, Lagardelle se recolhe a posições mais convencionais; mas no pós-guerra o encontraremos na redação da revista “Plans”, expressão de certo fascismo “técnico” e vanguardista – nela colaborarão nada menos que Marinetti e Le Corbusier – e, durante a guerra, terminará sua carreira como titular do ministério do trabalho do regime de Vichy.

Trejetórias em aparência confusas mas que revelam a busca sincera do “novo”. Da Alemanha vem a eles o reforço do socialista Robert Michels, quem, à espera de construir sua obra prima “Os partidos políticos”, anuncia o fracasso do SPD, o partido de Engels, Kautsky, Bernstein e Rosa Luxemburgo. Michels observará também que só o egoísmo econômico de classe não basta para alcançar fins revolucionários; daí a discussão sobre se o socialismo pode ser independente do proletariado.

O ideal sindical não implica forçosamente a abdicação nacional, nem o ideal nacionalista comporta necessariamente um programa de paz social (julgado conformista), explica por sua vez Berth, quem espera um despertar conjunto dos sentimentos guerreiros e revolucionários, nacionais e operários, o fim da “era dourada”. Em fim, a “nova escola” desenvolve as ideias de Sorel, por exemplo, na fundamental distinção entre capitalismo industrial e capitalismo financeiro. Resume Sternhell sua contribuição: “… a esta revolta nacional e social contra a ordem democrática e liberal que eclode na França (antes de 1914, é bom lembrar) não falta nenhum dos atributos clássicos do fascismo mais extremo, nem sequer o anti-semitismo” (p.231). Nem a concepção de um Estado autoritário e guerreiro.

No entanto, no geral, os revisionistas revolucionários franceses foram teóricos, sem experiência real com movimentos de massa. De outro modo ocorre com o sindicalismo revolucionário na Itália (capítulos III e IV da obra de Sternhell). Ali Arturo Labriola encabeça desde 1902 a ala radical do partido socialista; com Enrico Leone e Paolo Orano levam adiante a luta contra o reformismo, o qual acusam de apoiar-se exclusivamente nos operários industriais do norte, em desfeita ao sul camponês, e pelo triunfo de sua tese de que a revolução socialista só seria possível por meio de sindicatos de combate.

De Sorel tomam essencialmente o imperativo ético e o mito da greve geral revolucionária. A experiência da greve geral de 1904, das greves camponesas de 1907 e 1908, inflamam os dirigentes sindicalistas revolucionários, entre os quais a nova geração de Michele Bianchi, Alceste de Ambris e Filippo Corridoni. À margem do Partido Socialista Italiano e de sua central sindical a CGL – ancorados em posições reformistas, os radicais formam a USI (União Sindical Italiana), que chegará a contar com 100.000 membros em 1913.

Por sua vez, os sindicalistas revolucionários animam jornais e revistas. Labriola e Leone empreendem a revisão da teoria econômica marxiana, especialmente a teoria do valor, seguindo ao economista austríaco Böhm-Bawerk; daí, diz Sznajder, o aspecto mais original da contribuição italiana à teoria do sindicalismo revolucionário. Aí se encontra também a noção de “produtores” (potencialmente todos os produtores), contraposta à classe “parasitária” dos que não contribuem ao processo de produção. Por fim a tradição antimilitarista e internacionalista, cara à toda a esquerda européia, não será mais unanimemente compartilhada pelos sindicatos revolucionários. Em 1911, a guerra da Itália contra o Império Otomano pela posse da Líbia produzirá uma crise no sindicalismo revolucionário: alguns dirigentes (Leone, De Ambris, Corridoni), fiéis à tradição socialista, se opõem energicamente a esta empresa – por mais que lhes desagrade estar junto aos socialistas reformistas; outros (Labriola, Olivetti, Orano) estão pela guerra, tanto por razões morais (a guerra é uma escola de heroísmo) como por razões econômicas (a nova colônia contribuirá para a elevação do proletariado italiano), e assim coincidem com os nacionalistas de Enrico Corradini, a quem já se haviam aproximado pela crítica ao liberalismo político.

Mas em agosto de 1914 ainda aqueles que – no seio do sindicalismo revolucionário – haviam militado contra a guerra da Líbia, estão a favor da intervenção no conflito europeu ao lado da França e contra a Alemanha e a Áustria; o combate contra o feudalismo e o militarismo alemão se agrega à possibilidade de completar graças à guerra a integração nacional italiana e de forjar uma nova elite proletária que substituirá a burguesia no poder. Em outubro de 1914, um manifesto do recém fundado Fascio Revolucionário de Ação Internacionalista, assinado pelos principais dirigentes sindicalistas revolucionários, proclama: “… Não é possível ir mais além dos limites das revoluções nacionais sem primeiro passar pela etapa da própria revolução nacional… Ali onde cada povo não vive no quadro de suas próprias fronteiras, formadas pela língua e pela raça, ali onde a questão nacional não foi resolvida, o clima histórico necessário ao desenvolvimento normal do movimento de classe não pode existir…” Nação, Guerra e Revolução… já não serão mais idéias contraditórias.

Até o final da guerra o sindicalismo revolucionário deve ser considerado já um nacional-sindicalismo, enquanto a Nação figura para eles em primeiro plano. Seja como for, os nacional-sindicalistas aceitam que a guerra há de trazer transformações internas: desde 1917 De Ambris lançou a consigna “Terra dos Camponeses”; e em seguida elabora um programa de “expropriação parcial” tanto no setor agrícola quanto no setor industrial, que se dirige ex proposito contra o capital especulativo e em benefício dos camponeses e operários que deram seu sangue pela Itália. Se trata também de manter e estimular a produção.

O “produtivismo” é um dos fatores que leva os sindicalistas revolucionários a opor-se à revolução bolchevique, que julgam destrutiva e caótica. Frente à ocupação de fábricas do biennio rosso de 1920-1921, Labriola, que chegou a ser Ministro do Trabalho no governo do liberal Giolitti, apresenta um projeto que reconhece aos operários o direito de participar na gestão das empresas. Parlamento com representação corporativa, “classes orgânicas” que enquadrem a população, um Estado que seja responsável por assignar aos proprietários capazes de produzir o direito de usar os meios de produção, são, por outra parte, as bases do programa do “sindicalismo integral” que propõe Panunzio em 1919. Por fim, o sindicalismo revolucionário vibra com a aventura do comandante Gabriele D’Annunzio em Fiume (1920-1921). De Ambris participa na redação da “Carta de Carnaro”, este fascinante documento literário que é a constituição que o poeta e herói de guerra outorga à Regência de Fiume. É um projeto político que, coerente ao ideal do sindicalismo revolucionário, quer resolver de uma vez a questão nacional e a questão social.

Nestas lutas do imediato pós-guerra, os sindicalistas revolucionários coincidiram com os fascistas. Mas a tomada do poder pelo fascismo acarretára a dissolução do sindicalismo revolucionário. De Ambris e seu grupo passarão à oposição; o primeiro terminará exilando-se. Labriola também partirá para o exílio, e só na guerra da Etiópia se reconciliará com o regime. Por outro lado, Bianchi aparece em 1922 como um dos quadrumviri que organiza a Marcha sobre Roma, Panunzio se apresenta junto a Gentile como um dos intelectuais oficiais do fascismo, Orano (que era judeu), alcança altos postos no partido fascista, enquanto Michels, antigo membro do SPD, professor na Universidade de Perusa, se inscreve como afiliado no PNF (Partido Nacional Fascista).

A Encruzilhada Mussoliniana

Assinala Sternhell que sempre se tendeu a subestimar o papel central que Mussolini desempenhou entre todos os revolucionários italianos. O futuro Duce “aporta à dissidência esquerdista e nacionalista italiana o que sempre faltou a seus homólogos franceses: um chefe”. Um homem de ação, um líder carismático, mas ao mesmo tempo um intelectual capaz de lidar com intelectuais e ganhar o respeito de homens como Marinetti, o fundador do futurismo, Michels, o antigo militante do SPD alemão tornado um dos clássicos da ciência político, ou ainda Croce, representante oficial da cultura italiana sob o fascismo. E Mussolini é toda uma evolução intelectual, não o achado repentino de uma verdade, nem o oportunismo, nem sequer a conjuntura do pós-guerra.

Mussolini é antes de mais nada um militante socialista, mesmo como líder dos fascistas. Quando jovem se tem evidentemente por marxista, de um marxismo revisto por Leone e, sobretudo, por Sorel, em quem vê um antídoto contra a perversão social-democrata alemã do socialismo. Outra influência decisiva é Wilfredo Pareto e sua teoria de circulação das elites (por outro lado, Sternhell não destaca a influência de Nietzsche, a quem Mussolini leu prematuramente na Suíça). O jovem socialista se situa portanto na órbita do sindicalismo revolucionário, ainda quando discrepa das táticas: duvida da virtude das organizações econômicas por si e vê no Partido um instrumento revolucionário.

O jovem Mussolini é o líder indiscutível que se opõe à greve geral contra a intervenção na Líbia, pois crê que a tentativa burguesa de desencadear uma guerra pode gerar uma situação revolucionária. Em 1912 é o principal líder do partido socialista, impondo-se sobre os reformistas e fazendo-se com a direção do seu jornal oficial “Avanti!” o líder indiscutido de toda a esquerda revolucionária italiana, mas ao mesmo tempo o mais forte crítico da ortodoxia marxista.

Mussolini publica desde as páginas do “Avanti!” sua profunda decepção com a atitude da classe operária para “moldar a história” e valoriza a idéia de Nação: “Não há um evangelho socialista único ao qual todas as nações devam conformar-se sob pena de excomunhão”. A finais de 1913 Mussolini lança a revista “Utopia”, com a intenção de propôr uma “revisão revolucionária do socialismo”. Ali reúne a futuros comunistas como Bordiga, Tasca e Liebknecht; futuros fascistas como Panunzio, futuros dissidentes do fascismo como seu velho professor Labriola.

Em junho de 1914 Mussolini crê que é chegado o momento da insurreição, comprometendo-se na settimana rossa contra a opinião do congresso do Partido Socialista Italiano. Quando eclode a guerra européia, as dissidências são já tão palpáveis que Mussolini é desautorizado oficialmente pelo partido, e não hesita em romper com seus antigos companheiros para unir-se aos sindicalistas revolucionários na campanha a favor da entrada da Itália na guerra.

Sternhell assinal que o nacionalismo de Mussolini não é o nacionalismo clássico da direita. Ocorre que ante as novas realidades nacionais e sociais a análise marxista demonstrou-se falha, pois as classes operárias na Alemanha, França e Inglaterra marcham alegremente para a guerra. Mussolini não renuncia ao socialismo, mas o seu é um socialismo nacionalista, obra dos combatentes do front: “Os milhões de trabalhadores que regressarão aos sulcos dos campos depois de ter vivido nos campos das trincheiras darão lugar à síntese da antítese classe e nação”, escreve em 1917.

E não será a revolução bolchevique a levar Mussolini à direita, dado que o essencial do seu pensamento se forjou antes de 1917: idéias de hierarquia, de disciplina, de colaboração das classes como condição da produção… Os Fasci Italiani di Combattimento, fundados em março de 1919, recolhem todas as idéias do sindicalismo revolucionário e se situam inclusive à esquerda do partido socialista (defendem sufrágio universal para ambos os sexos, abolição do senado, constituição de uma Milícia Nacional, conselhos corporativos com funções legislativas, jornada laboral de 8 horas, confisco de espólios de guerra, etc). Mas com o biennio rosso as filas fascistas se transbordam com a afluência das classes médias, especialmente de jovens oficiais desmobilizados.

O Partido Nacional Fascista, organizado como tal em 1921, conhecerá um sucesso (eleitoral incluso) vetado aos primitivos “Fascis”. “Esta mutação não deixa de recordar-nos a dos partidos socialistas no início do século: a virada à direita constitui o preço habitual do sucesso” (p.400). Mussolini, homem de realidades que antepõe a prática à teoria, viu fracassar a ocupação “vermelha” de fábricas como a gesta nacionalista de Fiume, e decide levar a cabo a revolução possível. Assim, na perspectiva de Sternhell, a captura do poder pelo chefe fascista não é tanto o resultado de um golpe de Estado como de um processo; é a simpatia de uma ampla parte da massa política, dos meios intelectuais, dos centros de poder, o que permite a Mussolini instalar-se e sustentar-se no governo. Para Sternhell é sintomática a atitude do senador Croce que, ainda em junho de 1924, deu seu voto de confiança ao primeiro ministro quando o caso Mateotti pôs em crise o governo e Mussolini estava a ponto de ser deposto pelo rei, porque, pensava Croce, “havia de dar tempo ao fascismo para completar sua evolução rumo à normalização”.

A idéia de Estado, que parece ser característica só do fascismo é, entretanto, o último elemento que toma forma na ideologia fascista. Em todo caso assinala Sternhell que toda a ideologia fascista estava elaborada antes da tomada do poder: “A ação política de Mussolini não é o resultado de um pragmatismo grosseiro ou de um oportunismo vulgar mais do que foi a de Lenin.”(p.410)

O jurista Alfredo Rocco, proveniente das filas nacionalistas, “codificou” e traduziu em leis e instituições os princípios fascistas e nacionalistas (visão mítica e orgânica da nação, afirmação da primazia da coletividade sobre o indivíduo, recusa total e sem paliativos da democracia liberal). Mas é um Estado que, ao mesmo tempo, se quer reduzido somente a sua expressão jurídica e política; que quer renunciar a toda forma de gestão econômica ou de estatização, como anunciava Mussolini desde 1921. Não é, portanto, ou não ainda, o Estado totalitário.

O fascismo no poder, em suma, não se assemelha ao fascismo de 1919, menos ainda ao sindicalismo revolucionário de 1910. Mas, pergunta Sternhell: “o bolchevismo no poder reflete exatamente as idéias que, dez anos antes da tomada do Palácio de Inverno, animavam a Plekhanov, Trotsky ou Lenin?” Houve uma grande evolução, sem dúvida. E contudo – conclui o autor -, o regime mussoliniano dos anos 30 está muito mais próximo do sindicalismo revolucionário ou do “Círculo Proudhon” que o regime estalinista está dos fundamentos do marxismo.

O encanto secreto do Fascismo

Como conclusão, Sternhell lança um olhar sobre as relações entre o fascismo e as correntes estéticas de vanguarda no século XX. O futurismo, desde cedo (futuristas e fascistas lutaram juntos pelo “intervencionismo”, e Marinetti é um dos fundadores dos Fasci), mas também o vorticismo, lançado em Londres por Ezra Pound, que é em certo modo uma réplica ao futurismo, ainda que compartilhe com ele alguns traços essenciais. “Os dois atacam de frente a decadência, o academicismo, o esteticismo imóvel, o morno, a moleza geral… tem uma mesma voz de ordem: energia, e um mesmo objetivo: curar a Itália e a Inglaterra de sua languidez” (p.424). De Pound conhecemos de sobra sua opção política.

Sternhell destaca também o papel de Thomas Edward Hulme, antirromântico, antidemocrata em política, tradutor ao inglês de Sorel. “Revolucionário antidemocrata, absolutista em ética, que fala com desprezo do modernismo e do progresso e utiliza conceitos como da honra sem o menor toque de irrealidade”(p.429). Hulme é, portanto, para o autor, um representante desta rebelião cultural que brota por toda parte, antirracionalista, antiutilitarista, antihedonista, antiliberal, classicista e nacionalista e que precede a rebelião política.

As gerações dos anos 20 e 30, que já conhecem a experiência fascista, refazem o caminho do inconformismo. Assim um Henri de Man, em 1938 presidente do partido socialista belga, um dos grandes teóricos do socialismo na época, menor somente que Gramsci e Lukacs, reemprende sua própria revisão do marxismo e não será ilógico que, quando seu país capitule ante a Alemanha em 1940 convide os militantes socialistas belgas a aceitar a nova situação como um ponto de partida para construir uma nova ordem: “O caminho está livre para as duas causas que resumem as aspirações do povo: a paz europeia e a justiça social.” Não muito diferente é na França no caso de Doriot.

Como pôde surgir o fascismo na história européia e mundial? A explicação conjuntural não pode senão desembarcar em trivialidades. Deve-se compreender o fascismo primeiro como um fenômeno cultural. É, de início, uma rejeição à mentalidade liberal, democrática e marxista; rejeição da visão mecanicista e utilitarista da sociedade. Mas expressa também “a vontade de ver a instauração de uma civilização heróica sobre as ruínas de uma civilização baixa e materialista. O fascismo quer moldar um novo homem, ativista e dinâmico.” Apesar de apresentar esta vertente tradicionalista, este movimento contém em suas origens um caráter moderno muito pronunciado, e sua estética futurista foi o melhor cartel para a captura de intelectuais, de uma juventude que se sente submetida às baixezas da burguesia.

O elitismo, no sentido de que uma elite não é uma categoria social definida pelo lugar que ocupa no processo de produção, senão um estado de espírito, é outro componente maior desta força de atração. O mito, como chave de interpretação do mundo; o corporativismo, como ideal social que dá a amplas camadas da população o sentimento de que há novas oportunidades de crescimento e participação, constituem também parte do segredo do fascismo, porque o fascismo reduz os problemas econômicos e sociais a questões sobretudo de ordem psicológica. E, sobretudo, “servir à coletividade formando um corpo com ela, identificar os próprios interesses aos da pátria, comungar no mesmo culto os valores heróicos, com uma intensidade que toma o lugar do boletim de voto na urna”.

É por tudo isto que o estilo político desempenha um papel tão essencial no fascismo. O fascismo veio a provar que existe uma cultura não fundamentada nos privilégios do dinheiro ou do nascismento, senão sobre o espírito de grupo, de camaradagem, de comunidade orgânica, de “Bund”, como se dizia na Alemanha da época.

Estes valores presentes no fascismo tocam a sensibilidade de muitos europeus. É pouco conhecido que em 1933 Sigmund Freud saudava a Mussolini como um “herói da cultura”. Se fosse mesmo, porque Croce teria votado contra ele em 1924, porque Pirandello teria recusado o assento que o Duce lhe ofereceu na Academia Italiana? As realidades dos países europeus entre as duas guerras não são de uma mesma peça: a cultura italiana está representada por Marinetti, Gentili e por Pirandello não menos que por Croce, e por Croce senador não menos que por Croce antifascista, do mesmo modo que pela cultura alemã podem falar tanto Spengler, Heidegger ou Moeller van der Bruck como os irmãos Mann, e a cultura francesa é tanto Gide, Sartre o Camus como Drieu la Rochelle, Brasillach ou Céline…

Assim, “O nascismento da Ideologia Fascista” outorga a seu objeto uma dignidade que nem sempre se encontra nos variados estudos sobre o tema. Isto só pode ser saudável para a história das idéias. Façamos por nosso lado algumas observações. Primeiro, que, como é evidente, Sternhell trata na sua obra do fascismo latino, isto é, das correntes inconformistas surgidas na França e na Itália. Um tema de discussão é ver se o fascismo italiano e o nacional-socialismo alemão são coisas totalmente diferentes (esta é a tese de De Felice), ou se o nacional-socialismo é uma espécie dentro do fascismo genérico (tese de Payne e Nolte). Do nacional-socialismo se discutiu se foi “antimoderno” ou se apresentava traços de uma modernidade radical, dado que é inegável que o movimento desenvolveu um radicalismo antiburguês operativamente muito atrativo para os militantes comunistas.

O fascismo nasce à esquerda, a partir de uma revisão do marxismo. Este revisionismo se desenvolve e se constitui em uma corrente intelectual e política independente à qual concorrem outras tendências que cohabitam com o socialismo: Nietzsche, Bergson, James, e o nacionalismo integral. A respeito é interessante comparar as diferentes evoluções do marxismo que seguiu sendo tal e as diferentes ramificações “apóstatas”. O fascismo em uma revisão do marxismo descobriu que todos os partidos socialistas consideravam o marxismo uma herança a qual deviam permanecer fiéis. Entretanto, em sua evolução recente todos estes partidos renunciaram à herança de Marx, acomodando-se à economia neoliberal. Seguem apegados, desde sempre, à matriz iluminista, materialista e igualitária. Ao contrário, os fascistas, animados de outra cultura, mantiveram sempre o espírito revolucionário de ruptura com a ordem burguesa.

Sternhell insiste permanentemente no respeito dos sindicalistas revolucionários, dos socialistas nacionais e dos fascistas pela propriedade privada e pelo capitalismo. Não haveria que distinguir entre propriedade privada e capitalismo que, no fim das contas, historicamente não se identificam? Todos os fascismos sublinharam sempre a diferença entre a propriedade ligada ao homem e a propriedade ligado ao grande capital financeiro; entre o trabalho produtivo e a servidão ao interesse do dinheiro (G. Feder). Não parece adequado ignorar isto. Talvez Payne tenha sido o autor mais justo neste sentido.

Finalmente, é verdade que uma coisa é reconhecer o componente irracional da vida humana e outra fazer do antirracionalismo uma política. Sternhell, que durante toda sua obra se mantém distanciado de qualquer afeição moralizante, ao final nos adverte do perigo do irracionalismo: “Quando o antirracionalismo se converte em um instrumento político, um meio de mobilização das massas e uma máquina de guerra contra o liberalismo, e marxismo e a democracia; quando se associa a um intenso pessimismo cultural a par de um culto pronunciado pela violência, então o pensamento fascista fatalmente toma forma.”(p.451). A questão seria se só os valores políticos do iluminismo e do liberalismo são legítimos; se só o plano otimismo hedonista pode passar por perspectiva cultural, se as massas só devem ser mobilizadas em nome do esporte.

Aqui, obviamente, a ciência não pode dizer nada: estamos no campo da opção política.


Algumas obras citadas no artigo (em ordem de aparição):

Outras obras e documentos de interesse:

Leia também

Por que me tornei de direita? – Parte 2

Este texto foi originalmente publicado no blog “Mundo Analista“. Para ler na página original, clique aqui.

L x LightNa última postagem, iniciei um texto explicando quais foram as razões que me levaram a virar de direita. Como o texto ficou muito grande, eu o dividi em duas partes e o subdividi em oito capítulos e uma conclusão. Na parte 1, vimos os cinco primeiros capítulos.

Agora, veremos os últimos três e a conclusão. Se o leitor não leu a parte 1, clique aqui e leia. É essencial para entender a parte 2, já que se trata de um texto só. Ao fim desse texto, colocarei também uma lista de textos meus que falam mais pormenorizadamente sobre cada tema que citei nesse texto. Agora, vamos à continuação do texto.

Capítulo 6: A cultura mortífera de esquerda

Quando você se torna conservador em política, começa a entender que as ideias esquerdistas são ruins e mortíferas não apenas em economia, política e filosofia. Elas também são uma desgraça moral e cultural. Esquerdistas procuram destruir tudo o que é bom, alegando ser opressivo e preconceituoso. Assim, eles vivem disseminando ideias contra a religião e os religiosos, as artes clássicas europeias, a castidade antes do casamento, a moral judaico-cristã, a noção de verdade e moral absolutas, a repreensão de filhos mal criados, a criminalização das drogas pesadas e etc.

O resultado é o rebaixamento dos padrões de cultura, a idiotização das pessoas, a disseminação de uma vida sexual promíscua, a elevação do prazer individual acima da dignidade humana, a geração de músicas, danças e artes burras e que nada acrescentam às pessoas, o desestímulo ao estudo e à leitura; o aumento de divórcios, de gravidez na adolescência, da AIDS, dos desequilíbrios familiares, dos pais irresponsáveis, das crianças, adolescentes e jovens sem limite, dos viciados em drogas, do desrespeito aos religiosos, de colegiais e universitários baderneiros, em suma, a destruição em longo prazo dos valores da sociedade.

A esquerda quer ver isso mesmo, porque pretende destruir a sociedade, para construir uma nova. Assim, tudo o que milite contra a moral, a religião, a verdade, a tradição, a ordem e a família, é positivo. E quando esses graves problemas causados e/ou aumentados à décima potência pela esquerda são apontados pela população, o que fazem os esquerdistas? Culpam a direita. Assim, se os jovens crescem cada vez mais revoltados, a culpa não é da destruição da família, mas do capitalismo. Se as meninas engravidam cedo, antes de casar, e o pai ainda vai embora, a culpa não é da família desestruturada, do incentivo à imoralidade sexual, da idiotização do povo, mas da religião, dos conservadores, da burguesia, do anti-aborto, ou qualquer outra coisa. Essa postura é essencial aos planos da esquerda de destruir tudo.

Karl Marx e Friedrich Engels, em “Manifesto do Partido Comunista”, ao responderem a objeção de que o comunismo era contra as ideias tradicionais da religião, da moral, da filosofia, da justiça, da família, da liberdade e etc., ideias essas que eram verdades eternas, afirmam: “A revolução comunista é a ruptura mais radical com as relações tradicionais de propriedade; não é de espantar que no curso de seu desenvolvimento ela rompa da maneira mais radical com as ideias tradicionais”.

Antonio Gramsci, ideólogo marxista italiano da época do fascismo, ao analisar porque o marxismo não tinha dado certo na Europa, concluiu que a cultura proletária ainda estava baseada nas ideias tradicionais. Assim, ensinou a esquerda a travar uma guerra cultural que minasse ao longo das décadas a religião, a moral judaico-cristã, a família, inculcando no senso comum o marxismo. A ideia não era transformar o povo em profundo conhecedor do marxismo, mas apenas um senso comum que estivesse de acordo com o que o partido comunista quisesse fazer.

Posteriormente homens como Adorno, Marcuse e Horkheimer colocaram para frente os princípios gramscistas de destruir a cultura, sobretudo a ocidental, baseada fortemente no cristianismo e no capitalismo. Daí surgiu a revolução sexual, as revoltas jovens, à apologia ao uso de drogas, ao ateísmo ou religiões tribais e sincretistas, às artes insanas, ao desrespeito aos pais, à destruição do patrimônio público, ao nudismo público e etc.

A União Soviética faliu no início dos anos 1990, mas como bem lembra Olavo de Carvalho, o que acabou foi a URSS, não o comunismo. É idiotice pensar que pessoas que foram comunistas por dez, vinte, trinta, quarenta anos deixariam facilmente os princípios marxistas e abraçariam de bom grado o capitalismo que tanto odiavam. O que ocorreu foi que comunistas continuaram marxistas, mas agora se orientando dentro dos moldes de Antonio Grasmci, no qual a guerra agora é cultural. A ideia não é dar um golpe violento e assumir o governo com toda aquela retórica de destruição da burguesia e estatização da economia. A ideia é mudar a mentalidade das pessoas gradualmente a fim de que o partido de marxista (ou mais esquerdista que houver no país) se torne “a autoridade onipresente e invisível de um imperativo categórico, de um mandamento divino”. A hegemonia deve ser alcançada primeiramente na cultura. Conseguindo isso, o partido poderá sonhar em se manter eternamente no poder. E não é isso que temos visto acontecer, sobretudo no Brasil?

Capítulo 7: A esquerda e a criminalidade

A criminalidade é um problema filosófico, cultural, político e econômico (ao mesmo tempo) que a esquerda só faz aumentar (quando ela mesma não é a responsável por criar). Uma vez que para a esquerda, o ser humano não é mal, mas corrompido pelo capitalismo e outros fatores externos, geralmente o esquerdista enxerga o criminoso ou como vítima, ou como herói. Enxerga como vítima quando o criminoso é de origem pobre e/ou é um menor de idade. Ele é vítima da pobreza, das falta de condições, da exploração capitalista, do preconceito ou, simplesmente, do fato de ainda ser menor de idade (o menor de idade não tem capacidade de discernir entre certo e errado).

Por esse motivo, a esquerda costuma a brigar para que criminosos tenham penas leves e breves, a fim de que voltem logo à sociedade. E ela entende que a função primordial da prisão não é proteger o cidadão honesto de novas injustiças do criminoso, mas sim a de reeducar o criminoso.

Não que reeducar o criminoso não seja algo nobre e desejável. Mas essa não é a função primária da cadeia. Isso seria priorizar o criminoso em detrimento da vítima. A principal função de isolar o criminoso não é reeducá-lo, mas proteger o cidadão. A reeducação é segundo plano. Por não entender isso é que a esquerda não combate a criminalidade com rigidez, criando uma sociedade na qual o criminoso reina e o cidadão honesto é punido.

Já os criminosos ricos, quando são políticos de esquerda, são defendidos pela esquerda, em primeiro lugar, com a desculpa de que não fizeram nada; foram acusados injustamente. E, depois, quando o governo esquerdista já alcançou grande poder e popularidade, como uma medida necessária para alcançar a justiça social e manter o povo no poder (os fins justificam os meios utilizados, entende?).

Assim, os criminosos se tornam heróis e a criminalidade continua reinando. E como se alcança isso? Como já dito, destruindo a família, a moral, a religião, a correção aos filhos, as leis firmes; ganhando poder, através de impostos e regulamentações, se infiltrando na educação para doutrinar alunos politicamente, mantendo a população sob o jugo da inflação, dos péssimos serviços públicos e dos monopólios privados (para botar a culpa de tudo na direita) e etc. Aliás, criar criminosos é ótimo para ajudar a destruir a sociedade tradicional, o que é o objetivo máximo da esquerda.

Capítulo 8: Um direitista consciente

Eu entendi isso, sobretudo, depois de ter contato com renomados pensadores conservadores como Edmund Burke e Russel Kirk. Então, deixei de colocar muita confiança no liberalismo. Eu o continuo defendendo e não tenho dúvidas de que o livre mercado é muito superior ao intervencionismo. Mas não o defendo sozinho. Economia é apenas um dos vários aspectos que formam uma sociedade. Não é o único e, portanto, não deve ser tratado como tal.

Neste ponto acredito que me tornei um direitista totalmente consciente. Eu agora podia expressar de maneira legítima o que a direita defendia e porque eu acreditava em suas ideias. Eu agora eu conhecia os gigantes do pensamento de direita (os quais não me foram mostrados na escola) tais como Edmund Burke, Frederic Bastiat, Alexis de Tocqueville, Eugen Von Bonh-Bayerk, Barão de Mauá, G. K. Chesterton, Ludwig Von Mises, Ruy Barbosa de Oliveira, Murray Rothbard, Winston Churchill, C. S. Lewis, Eric Voegilin, Eric Von Kuehnelt-Leddihn, Friedrich Hayek, Milton Friedman, Ronald Reagan, Margaret Thatcher, Ângela Merkel, Thomas Sowell, Olavo de Carvalho, Roger Scruton e etc.

O senso comum não conhece quase nenhum desses autores e quando conhecem alguns deles, só os conhecem através dos comentários de terceiros. Eu era assim. Não conhecia o que a direita falava através de suas próprias palavras e ações. Não conhecia a história contada pelo outro lado. Não tinha como comparar as visões de diversos autores porque eu só conhecia Karl Marx e Friedrich Engels (e, mesmo assim, muito mal. Eu sabia das suas ideias em forma de propaganda, sempre como algo bom).

Minha posição de direitista, no entanto, não me fez uma pessoa acrítica quanto aos problemas da direita, tampouco intolerante em relação à todas as coisas o que vem da esquerda. Talvez alguns amigos liberais não gostem do que vou falar, mas não sou totalmente contra leis trabalhistas, por exemplo, embora elas dificultem um pouco o crescimento econômico. Direito a férias e folga semanal, férias pagas, décimo terceiro salário, limitação das horas de trabalho semanais, adicional noturno e o seguro desemprego são leis de cunho esquerdista que eu, particularmente, acho válidas, ainda que se possa perder um pouco economicamente (não obstante, são necessários arranjos nessas leis para que elas não engessem sobremaneira às empresas, sobretudo, as de pequeno porte – que, a meu ver, poderiam ser liberadas dessas leis). Essas são posições particulares minhas.

Eu também não penso que a sociedade deva ter apenas direitistas. Ao contrário, a coexistência de direita e esquerda é essencial à manutenção de uma boa democracia e do Estado de direito. É preciso haver oposição de ideias. Isso é o que gera equilíbrio e evita extremismos, idealismos, dogmatismos e ditaduras. Sim, a direita também pode se tornar ditatorial, por mais que preze a liberdade econômica (que só funciona bem junto com a liberdade política).

O que penso que deveria ser expressamente proibido é o comunismo e a mentalidade revolucionária. Seguir as ideias de Marx e flertar com pensamentos revolucionários que intentem destruir tudo (criando classes inimigos e apelando à desordem), deveriam ser crime. Muitos países do leste europeu que sofreram com o comunismo equiparam, em suas leis, o comunismo ao nazismo. Lá, exibir a foice e o martelo, símbolo do comunismo, é tão ofensivo quanto exibir a suástica nazista. Nada mais correto, levando em conta que o comunismo matou mais de 100 milhões de pessoas.

Com relação aos EUA, devo dizer que não sou um defensor deste país acima de todas as coisas. Essa é a visão que a esquerda propaga dos direitistas: de que eles são puxa-sacos dos americanos. Alguns podem até ser. Mas não são todos. E faço parte dos que não se curvam diante dos americanos. No entanto, não aceito olhar os americanos como os piores inimigos do mundo. Em minha visão, todos os países são igualmente cruéis, pois seus governos são formados por homens e todos os homens falham.

O que diferencia um país do outro no que se refere a capacidade de infligir o mal é justamente a posição política e econômica. Qualquer país que assuma a liderança política-econômica do mundo terá um exército poderoso e, com isso, quererá dominar os mais fracos e se proteger dos que tem mais potencial. Se a Etiópia alcançasse a hegemonia política e econômica, teria sido tão cruel quanto foram os EUA, ou a URSS em diversas ocasiões. Colocar os EUA como o grande vilão é ignorar a verdade básica e realista de que todos os países são vilões e de que não há heróis no mundo.

Além disso, conquanto os EUA tenham usado de sua autoridade para subjugar povos e gerar guerras, este país apresentou ao mundo muitas virtudes econômicas e políticas desde seu processo de independência, teve um papel de destaque no conflito contra o comunismo e, através de seus conservadores, ainda sustenta o mundo hoje de colapsar diante do projeto destrutivo da esquerda (incluindo a esquerda americana, que é muito forte, embora muitos acreditem que nos EUA só há direitistas). Essa é a minha visão sobre o EUA.

Com relação à ditadura militar brasileira, evidentemente eu não a endosso. Creio que foi um regime desnecessário e nocivo. Não sou um desses idealizadores do passado, que pintam o período como maravilhoso e até pedem a volta do regime. Entretanto, é necessário fazer uma distinção entre a intervenção militar de 1964 e o regime que se seguiu. O primeiro impediu um genocídio. O segundo sufocou a democracia. Vamos entender o contexto.

O Brasil vivia um intenso embate entre políticos comunistas e conservadores. E o mundo vivia em plena guerra fria entre americanos e soviéticos. A URSS tinha claro interesse em tornar o Brasil uma potência comunista na América do Sul, o que sufocaria totalmente os EUA. Os EUA, por sua vez, tinham claro interesse em evitar a escalada comunista no Brasil, a fim de manter sua hegemonia no ocidente. Então, o presidente Jânio Quadros renuncia o cargo e assume a presidência João Goulart, um esquerdista que mantinha fortes relações diplomáticas com o regime comunista chinês e pretendia expropriar terras para fazer a reforma agrária. Este cenário oferecia uma série de perigos ao Brasil:

(1) a escalada democrática do comunismo ao poder, através de uma política populista, intervencionista e que não mostrava ao povo as desgraças que o comunismo estava causando em outros lugares;

(2) um golpe comunista no âmago do governo, através de políticos comunistas brasileiros e auxílio soviético, chinês ou cubano;

(3) uma mescla dos dois pontos acima;

(4) um golpe americano que tornasse o Brasil uma colônia dos EUA;

(5) a deflagração de uma guerra entre tropas americanas e tropas soviéticas em pleno Brasil, numa luta sanguinária pela posse do território brasileiro.

Tudo isso era possível. E em todas essas hipóteses, o Brasil se tornaria um mar de sangue. Se a intenção dos principais militares que interviram politicamente no Brasil em 1964 era simplesmente tomar o poder, por pura ambição, ou se queriam salvar a pátria deste risco, ou se havia ambiciosos e patriotas juntos, nada disso importa. As intenções dos militares interventores são irrelevantes. A questão é: havia riscos e à soberania brasileira, tanto do lado americano, quanto do lado soviético, e a intervenção militar os evitou.

No entanto, o regime que se seguiu durante 21 anos foi desnecessário. Seja por ambição, ou por um erro estratégico, ou pela união das duas coisas, os altos militares do governo não entregaram o país à democracia como prometido, tampouco tomaram providências inteligentes e efetivas para desmascarar o comunismo, equipará-lo ao nazismo e vencer a guerra cultural. Apenas agiram com brutalidade, criaram ódio nos estudantes e deram espaço para que a esquerda vencesse no campo da cultura.

O regime militar venceu na guerra física contra o marxismo, mas perdeu na guerra ideológica. Permitiu que a direita perdesse todo o crédito perante o povo brasileiro, contrariou conservadores que haviam apoiado a intervenção só para manter a democracia, fez a maioria dos estudantes universitários se identificar com a esquerda, abriu o caminho para a doutrinação marxista na cultura e não permitiu que o liberalismo econômico se instaurasse no país. Resultado: quando os altos militares deixaram o poder, quase todo mundo se considerava de esquerda.

Assim, minha opinião sobre o regime militar que se seguiu à intervenção é que ele de que ele se constituiu uma verdadeira catástrofe, sobretudo para a direita brasileira, que sofre até hoje por conta dessa herança maldita. Tivessem os militares se limitado a expulsar os comunistas do país, desmascarar a esquerda radical, equiparar comunismo ao nazismo, destruir ideologicamente os professores marxistas, munir os universitários de conhecimento sobre grandes autores de direita, incentivado o liberalismo econômico e mantido a democracia, convocando eleições diretas dentro de um período máximo de um ano, a direita hoje seria forte no Brasil e o PT não estaria transformando o país no mar de lama que é hoje.

Conclusão

Eu não esperava que meu texto ficasse tão extenso, mas acredito ter oferecido uma visão bem ampla sobre minha posição política. Obviamente não esgotei o assunto. Outros textos meus falam mais pormenorizadamente dos temas aqui tratados, tais como a definição e origem da esquerda e da direita, os problemas do comunismo, os pontos positivos do capitalismo e do empreendedorismo, a análise dos movimentos fascistas e nazistas, a definição de conservadorismo e etc. Deixo alguns deles ao fim do texto.

Devo dizer ainda que minha posição política não flerta com a utopia. Não creio que a direita pode mudar o mundo. Como sendo cristão, entendo que este mundo já está fadado ao fracasso. A minha obrigação é torná-lo menos pior para as pessoas até que Jesus Cristo venha e ponha fim a toda a miséria e injustiça ou que eu morra. E esse é mais um dos motivos que me fazem ser mais conservador e cético em relação a projetos de mundo melhor. Como diz Olavo de Carvalho: “Quando alguém diz que tem um projeto de mundo melhor, eu já me escondo debaixo da cama”. O conservador, em suma, é aquele que tem medo de piorar a coisa. Ele é realista. Sabe que a mudança só pode ocorrer dentro de certos moldes já conhecidos e certos limites humanos. O que passa desses moldes e limites, sem dúvida, vai dar errado.

Estou aberto a discordâncias, desde que construtivas e que levem em conta os autores que citei durante o texto. Críticas baseadas em senso comum serão consideradas imbecis à priori. Espero ter sanado dúvidas.
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Outros textos importantes:

Por que me tornei de direita? – Parte 1

Este texto foi originalmente publicado no blog “Mundo Analista“. Para ler na página original, clique aqui.

L Death NoteResolvi expor aqui as razões pelas quais eu me tornei de direita (ou conservador político, reacionário, coxinha… O que vocês preferirem). Vou fazer isso porque algumas pessoas não entendem a minha posição política e não poucas acham que eu me tornei de direita por mera modinha, sem ter qualquer base razoável para isso, mas apenas baseado em bordões, frases de efeito e ideias estereotipadas. Espero com este texto possa sanar algumas dúvidas e deixar claro para todos a minha posição.

Sobre a organização do texto, uma vez que ele ficou bem maior do que eu pensava que ficaria, resolvi dividi-lo em duas partes. Além disso, ele é subdividido em oito capítulos breves, que vão revelando aos poucos o passo a passo da minha transformação política, e uma conclusão. Vamos começar.

Capítulo 1: Como era o meu pensamento?

Até os meus 17 anos de idade eu não tinha o menor interesse em política. Minha visão sobre o assunto era a visão comum à maioria dos brasileiros. Ela se resumia no seguinte conjunto de ideias:

(1) só existem dois tipos de políticos: os honestos e os desonestos. No Brasil, os  desonestos são a maioria;

(2) os desonestos são aqueles que desviam verbas para encher os próprios bolsos e enriquecerem. Os honestos são aqueles que querem beneficiar o povão com coisas públicas;

Em outras palavras, eu acreditava que para o Brasil mudar apenas precisávamos de políticos honestos. Mais nada. Afinal, políticos honestos não roubariam dinheiro, mas, em vez disso, iriam criar e ampliar um monte de coisas públicas, beneficiando as pessoas pobres. Simples assim! “Se isso não acontece no Brasil”, pensava eu, “é porque há muita corrupção”.

A partir desses dois pensamentos acríticos eu concluía quase inconscientemente:

(3) que a raiz de todos os problemas do Brasil é, indiscutivelmente, a corrupção;

(4) que quem luta por coisas públicas é honesto e a favor dos pobres;

(5) que um governo bom é o que faz muitas coisas públicas;

(6) que qualquer manifestação de pessoas pobres contra pessoas ricas e/ou a   favor de coisas públicas é sempre algo bom, pois parte de gente honesta;

(7) que grandes empresários são o pior tipo de gente que pode existir (junto com   os políticos corruptos). Afinal, eles são donos de grandes riquezas privadas, e o   privado é ruim, o público é que é legal;

(8) que privatização é algo muito ruim;

(9) que o capitalismo é algo ruim;

(10) que os EUA são o pior inimigo do mundo;

(11) que o governo FHC não foi bom, pois privatizou empresas;

(12) e que o comunismo, embora tenha dado alguns “pequenos problemas” (mas “nada” tão grave e horrendo, como foram o nazismo, a ditadura militar brasileira ou as guerras feitas pelos norte-americanos), ele tem muitos princípios bons que podem ser usados no capitalismo para ajudar os pobres. Assim, ser marxista é algo bom; e só empresários e políticos corruptos são antimarxistas.

Pois bem. Essa era minha visão até os 17 anos de idade. E é válido ressaltar que eu achava política uma chatice. Quando alguém dizia a palavra política, geralmente me vinha à mente a visão de esquemas de corrupção revelados pelo “Fantástico”, na Rede Globo, ou de propagandas partidárias. Ou seja, eu era um prisioneiro do “senso comum”, da opinião medíocre, da unanimidade. Minhas crenças faziam parte de um saco de crenças que todo mundo que não entende e não tem interesse em política compartilha com alegria, achando-se muito inteligente.

Capítulo 2: Como e quando minha visão começou a mudar?

As coisas começaram a mudar quando eu estava no 3° ano do ensino médio. Eu me preparava para o vestibular e contraí uma preocupação: o atual ambiente acadêmico costuma a ser hostil ao cristianismo e aos cristãos. Como eu não queria ter embates com professores e alunos sobre minha fé sem que ter como responder racionalmente, passei a estudar sobre o assunto. Acabei descobrindo a apologética, um ramo da teologia que se ocupa em explicar, embasar e defender o teísmo e o cristianismo de maneira racional, baseando-se em campos de estudo como: filosofia, lógica, ciências naturais, história, arqueologia, literatura, filologia, princípios interpretativos básicos e etc.

Naquele momento, um novo mundo se abriu diante dos meus olhos. Eu percebi que, embora a maior parte das pessoas não saiba (mesmo os cristãos), há milhares de sites e livros que tratam de temas apologéticos, respondendo com tranquilidade todas as críticas lançadas por acadêmicos antirreligiosos ao teísmo e ao cristianismo; críticas essas que são tolamente alardeadas pelas grandes mídias, a fim de vilipendiar a religião, causar polêmicas e ganhar audiência. Os livros apologéticos que descobri, aliás, são de autores renomados em suas faculdades, com títulos de doutorado e pós-doutorado nas mais diversas áreas de estudo.

O interesse que ganhei pela área apologética dura até hoje. Eu passaria os dois anos seguintes àquela descoberta em intenso estudo individual. Ora, seria justamente este estudo que me introduziria também à política. Como? Vamos ver.

Os três sites que eu mais lia sobre apologética eram “Quebrando o encanto do neoateísmo”, “Luciano Ayan” e “Teísmo”. Os três sites tinham como objetivo não só apresentar argumentos racionais para o cristianismo, mas atacar argumentos falhos e desonestos de neoateus.

Quem são os neoateus? Peço muita atenção do leitor agora. Neoateus são ateus antirreligiosos e militantes. Eles não apenas descreem de Deus, mas também odeiam a religião, são hostis aos religiosos e passam a maior parte de seu tempo livre tentando “desconverter” pessoas e lançando ofensas diversas contra crentes, crenças e símbolos religiosos. Para eles, todas as religiões são nocivas e precisam ser extintas da terra. E eles lutam diariamente por isso.

O problema dos neoateus não é só a agressividade e o desrespeito à liberdade religiosa. Além disso, eles também são desonestos intelectualmente. Eles não estudam nada do que dizem renomados intelectuais religiosos, lançam argumentos falaciosos e mentiras, fazem interpretações absurdas da Bíblia (a fim de forçar contradições) e põem na conta das religiões todos os males do mundo.

Se o leitor é ateu, mas não se sente representado por este tipo de gente, não é necessário ficar chateado comigo. Há uma diferença grande (ou melhor, enorme) entre um ateu e um neoateu. Um ateu é aquele cara que simplesmente não acredita em Deus, mas que não se importa se outras pessoas acreditam. Desde que a crença das outras pessoas não interfira na sua vida, ele não vê problema na existência de religiões. Ele até consegue ver bons ensinamentos em cada uma delas e apenas condena fanatismos. Um ateu às vezes até se esquece de que é ateu. Isso é algo que não ocupa muito a sua mente, assim como uma pessoa que não acredita em alienígenas não costuma a se ocupar muito pensando nesse fato.

Pois bem, os três sites do qual eu falava criticavam radicalmente neoateus apenas, e não meros ateus. Para os autores desses sites, os neoateus não eram sequer considerados dignos de respeito, em função de sua postura suja; eram tratados como desonestos e picaretas intelectuais, e ninguém deveria se ocupar em convertê-los, mas em desmascará-los diante daqueles que pretendiam enganar com suas mentiras.

Ora, não demorou muito para que os autores desses três sites (que mantinham uma boa correspondência entre si) começassem a perceber que o neoateísmo estava fortemente relacionado a doutrinas políticas de esquerda, como o marxismo, o humanismo social, o anticlericalismo revolucionário, o globalismo, os diversos socialismos, o feminismo radical, o gayzismo e etc. Como se dá essa relação? Vamos entender.

A esquerda política, desde seu surgimento, sempre pregou uma visão otimista do ser humano, na qual ou ele é bom por natureza (tendo sido corrompido por fatores sociais), ou ele é moralmente perfectível (isto é, que é capaz de caminhar para a perfeição ou algo bem próximo disso). Daí decorre a crença esquerdista de que o ser humano é plenamente capaz de transformar o mundo, através da destruição dos fatores sociais que causam a crueldade, a injustiça e a exploração, e, em última instancia, da própria sociedade hoje existente, a fim de se construir outra. E como fazer isso? Ora, colocando as pessoas certas no governo, dando muito poder a essas pessoas e destruindo os grupos inimigos que impedem a ação desse governo iluminado. Essa é a receita de todas as revoluções de esquerda desde a revolução francesa, mãe de todas.

O neoateísmo tem muitas ideias semelhantes ao pensamento revolucionário de esquerda. Ele não entende a natureza do homem como a principal culpada pelos males do mundo, mas acredita que a crença em Deus é a responsável por criar injustiças, guerras e crueldades. Ele também enxerga o homem como um ser perfectível, que pode mudar o mundo se destruir todas as religiões.

Finalmente, pelo fato de negar a Deus, o neoateísmo tende a substituir Deus por outra autoridade (ou mais de uma), e a substituir a esperança da vida eterna no paraíso pela esperança de um paraíso efêmero aqui na terra. Por estas semelhanças, muitos neoateus acabam por aderir a doutrinas da esquerda política, passando a usar sua fúria antirreligiosa a favor do esquerdismo. Seu objetivo pessoal é conseguir formar um governo de esquerda antirreligioso que destrua a religião e crie o paraíso ateu desejado.

Por outro lado, a esquerda sempre teve muita influencia do pensamento ateísta e do pensamento antirreligioso. Não que todo o esquerdista seja ateu, porém quanto mais uma pessoa se torna esquerdista, mais ela tende a se afastar da religião. Afinal, para o esquerdista radical, não há espaço para um paraíso que não seja aqui na terra, nem para uma autoridade maior que o seu partido, seus líderes revolucionários e seu ideal de justiça social.

Assim, muitos esquerdistas acabam se tornando ateístas, e logo adiante, neoateus, associando a crença em Deus a um dos fatores que oprimem a sociedade. Aliás, os criadores do comunismo, Marx e Engels, afirmavam que a religião era uma das ilusões criadas pelo cenário econômico de exploração. A religião era, portanto, um ópio para as classes exploradas, bem como um mecanismo de manobra de massas utilizado pelas classes exploradoras.

Ademais, devemos ressaltar que tanto esquerdistas radicais, quanto neoateus, estão muito interessados em criar uma cultura onde a liberdade sexual sem limites seja vista como normal, saudável, bela e aceitável por todos. Ou seja, eles não querem só ter liberdade para fazer o que quiserem em matéria de sexo, mas querem destruir o direito de qualquer pessoa achar errado aquilo que fazem. Essa é uma das razões pelas quais esquerdistas radicais e neoateus odeiam a moral judaico-cristã. Há outras também.

Capítulo 3: Tonando-me um antirrevolucionário

Quando entendi essa relação íntima entre neoateísmo e esquerdismo, comecei a perceber que política não se resumia apenas a “honestos x desonestos”. Ela envolvia um conflito de visões de mundo também; visões estas que permanecem bem vivas hoje e que fazem muita diferença na prática.

Foi ali que eu compreendi o que estava em jogo na política e qual era o meu papel naquilo tudo. Eu não poderia votar em um partido ou um indivíduo que acreditasse na ideia de que o ser humano é bom por natureza e capaz de transformar o mundo. Essa é uma ideia ridícula. Há milênios o ser humano tem se mostrado incapaz de erradicar a injustiça e a maldade. E isso ocorre por um motivo simples: todos são, em maior ou menor grau, imperfeitos. Assim, todo aquele que se levanta para tentar erradicar a injustiça, tende também a cometer injustiças.

Desde a idade mais tenra, já nos vemos contando mentirinhas aos nossos pais, brigando com o coleguinha, desejando o que não é nosso, fazendo pirraça, não querendo limites, fazendo vingançazinhas. Não somos uma tábua rasa. Nascemos inclinados à imperfeição. Isso pode ser atestado tanto por meio da observação do nosso cotidiano e dos exemplos da história, como pela ciência. A ciência reconhece que o ser humano compartilha com os animais uma série de instintos. Esses instintos naturais não são morais e podem facilmente se transformar em atos cruéis. O instinto sexual, o instinto de bando, o instinto gregário e outros são exemplos de inerências que nos impelem a fazer coisas erradas.

A diferença entre homens e animais é que os primeiros apresentam razão, podendo refletir sobre seus atos e fazer escolhas. Mas isso não é um motivo para crermos em sua perfectibilidade. Ao contrário, a razão faz do homem um ser muito mais cruel e perigoso do que os animais, pois com ela o mesmo pode avaliar o prazer que o mal pode lhe proporcionar e maquinar o mal contra a sua própria espécie. Do ponto de vista da ciência, somos tão animais como os animais irracionais, o que significa que a selvageria está em nós e isso não pode ser mudado.

Do ponto de vista da Bíblia, o ser humano sempre foi visto como pecador. Ou seja, o homem passou a ser inclinado à imperfeição por natureza após sua raça ter escolhido cometer o primeiro pecado. A sua obrigação desde então é se esforçar individualmente para não fazer o mal e, a nível político, criar leis que tornem mais difícil a propagação do mal. Mas esse mal não tem como ser extinto.

Ainda que o mal não fosse algo natural, mas social, isso não prova que o homem é capaz de se descorromper socialmente para poder descorromper a outros. A história evidencia que isso não é possível. E a própria lógica também. Para descorromper a outros, uma pessoa deveria se descorromper totalmente primeiro. Se você não consegue se descorromper nem a si mesmo, como ajudará os outros?

Portanto, a ideia esquerdista de encher alguns homens de poder para mudar a sociedade e destruir supostos inimigos é totalmente utópica e perigosa. Dar muito poder a homens é pedir para fazer deles pessoas mais cruéis e autoritárias. É dar ao Estado o aval para administrar mal, roubar verba pública, perseguir dissidentes e causar enormes genocídios. Até Montesquieu, que não acreditava que o homem fosse naturalmente inclinado ao mal, sabia que o poder corrompe. Ele diz em um de seus livros que: “Todo o homem que tem poder é levado a abusar dele; vai até encontrar limites”. Isso é algo lógico! Qualquer pessoa de bom senso entende isso. Eu jamais poderia, então, endossar a crença no homem.

A partir daquele ponto, através de leituras e mais leituras, minha atenção foi sendo chamada para os problemas que regimes baseados nessas ideias causaram em diversos países. Era lógico sendo provado na prática! Em todo lugar em que muito poder foi colocado nas mãos do Estado, a fim de que este mudasse a sociedade, o que aconteceu foi uma série de desgraças.

Os males do comunismo eram os que mais saltavam aos olhos. Tanto na URSS, como na China, no Camboja, na Coréia do Norte, no Vietnã, em Cuba e etc., o regime comunista gerou grotescas ditaduras, genocídios por repressão, inanição forçada e desastres econômicos. Pela primeira vez tive acesso à informação de que os regimes comunistas pelo mundo geraram mais de 100 milhões de mortos. Pela primeira vez eu fiquei sabendo sobre o genocídio de Holodomor, na Ucrânia, entre 1930 e 1932, e do genocídio chinês, entre 1956 e 1962, e do genocídio cambojano, em 1975 (este último matando um quarto da população!). Qualquer pessoa honesta e com um mínimo de senso das proporções conseguiria perceber que o comunismo foi um mal tão ruim ou até pior que o nazismo.

Não obstante, observei que os esquerdistas se agarravam tanto a suas crenças que não sentiam qualquer embaraço ao elogiar e se guiar pelas ideias de Marx. E mesmo aqueles que não eram comunistas, permaneciam defendendo a maioria das ideias de Marx, disseminando ódio entre classes, lutando para formar um Estado cheio de poder, atacando religião e religiosos, simpatizando com ditadores de esquerda, defendendo os antigos regimes comunistas, militando contra a liberdade de expressão de conservadores, colocando sua fé em líderes revolucionários, orientando suas ações em prol de futuro utópico imaginado por eles e etc.

Em vista disso tudo me tornei anticomunista, antimarxista, antirrevolucionário e totalmente contrário a governos que pretendem inchar o Estado com enormes poderes políticos e econômicos. Se eu era de direita? Ainda não. Eu apenas era um cético da esquerda e do pensamento revolucionário. O direitismo ainda viria posteriormente.

Capítulo 4: Adesão ao liberalismo econômico

Embora eu tivesse entendido o tamanho do mal que representava a crença no homem propagada pela esquerda, eu não sabia bem o que defendia a direita, tampouco tinha noção do que um governo deveria fazer na prática para administrar um país, estado ou cidade. Nessa parte, curiosamente, eu ainda estava bastante preso a muito senso comum. Eu ainda achava que privatizações eram ruins, não sabia fazer distinção entre um governo de direita e um de esquerda moderada, e tinha aquela visão distorcida de que a direita é a favor de ditaduras (desde que não sejam comunistas).

Meu pensamento sobre a direita poderia ser resumido assim: “Se ser de direita é concordar e desejar uma ditadura militar, definitivamente não sou de direita. E se a extrema direita é o nazismo, então prefiro me distanciar dessa posição. Sou de centro”.

Ocorre que minha opinião não era baseada no que os autores de direita diziam, mas apenas em senso comum. Eu não conhecia nenhum autor de direita. Simplesmente não sabia o que a direita defendia. Na medida em que entendi isso e tive mais contato com direitistas, passei a ler os autores de direita. E isso fez toda a diferença!

Comecei entendendo mais sobre a economia. Pela primeira vez soube qual era a versão direitista sobre as privatizações. Longe de ser uma defesa dos milionários e um ataque aos pobres que não tem dinheiro para pagar coisas privadas, as privatizações pretendem sanar dificuldades inerentes ao setor público e melhorar a condição de toda a sociedade. Como? Vamos analisar os problemas do setor público.

Empresas públicas não precisam se preocupar com o risco de ir à falência ou com a competição para estar entre as maiores empresas. Sua situação é estável, pois seu dinheiro é público, nunca acaba. Aliás, se uma empresa pública contrai muitas dívidas, quem paga somos nós. Se uma empresa pública vai mal, ela é beneficiada com mais dinheiro do governo. Isso cria uma tendência, tanto de seus administradores como de seus funcionários de se acomodarem, não fazendo um bom trabalho ou não dando o melhor de si. A estabilidade dos funcionários públicos apenas reforça isso. Além do mais, o governo não tem capacidade para gerir tantas empresas e mais os problemas do país. Desta forma, é comum que os serviços públicos sejam inferiores aos privados e que deem muitos déficits públicos.

O resultado é que o povo não é bem atendido pelos serviços públicos e ainda é obrigado a pagar altos impostos para manter essas empresas. Como se não bastasse, as empresas públicas deficitárias também geram inflação de moeda. A inflação é um modo que o governo tem de saldar suas dívidas injetando mais dinheiro no mercado. Para o governo é bom, para o povo não, pois só os primeiros a utilizarem o novo dinheiro criado se beneficiam. Quando o dinheiro chega ao povo, todos os preços já aumentaram para equilibrar a nova quantidade de dinheiro na economia. Mas as empresas privadas e o povo em geral continuam recebendo os mesmos salários. Então, se você ganhava R$ 1.000,00 por mês e comprava carne por R$ 15,00, continua a ganhar R$ 1.000,00 por mês, mas agora compra carne por R$ 20,00.

Serviços públicos ruins, impostos, inflação… Como se já não fosse muito, quanto mais empresas públicas se têm, mais a estrutura pública se torna grande e complexa de ser administrada e mais dinheiro vai para as mãos do governo. Isso aumenta a dificuldade de fiscalização, as chances de desvios ou gastos desnecessários, esquemas de corrupção e o pior: o poder do governo. Um governo com muito dinheiro e que tem tentáculos em tudo quanto é setor, se torna mais poderoso. O risco de ele se tornar totalitário e ditatorial, tanto econômica como politicamente, é muito grande.

É claro que isso não quer dizer que nada possa ser público ou que uma empresa pública não possa ser relativamente bem gerida. Mas a tendência é o setor público ser inferior. Os riscos de um país ter esses problemas quando possui muita coisa pública são bem grandes e os exemplos da história comprovam que (para ser claro) geralmente isso dá merda!

Agora, empresas privadas não possuem esses problemas. Uma empresa privada, precisa estar constantemente preocupada em não falir e ficar bem na concorrência entre as outras empresas. Se não fizer isso, ela não terá dinheiro público (ou, pelo menos não deveria ter) para resolver a situação. O dinheiro das empresas privadas é finito. Assim, tanto administração como os funcionários são instados a trabalharem bem. Quanto mais concorrência há, mais as empresas tendem a buscar melhoras nos serviços, agilidade e maneiras de diminuir preços. Isso é óbvio!

Que o setor privado também tem problemas isso é evidente! Mas são problemas muito menores e mais facilmente contornados. A regra geral é que o setor privado tende a ser mais eficiente e menos perigoso. E o que o Estado pode fazer para permitir esse cenário de maior eficiência? Basicamente reduzir dificuldades burocráticas e financeiras para que as pessoas abram, mantenham e desenvolvam empresas. Fazendo isso, muitas empresas surgem e se desenvolvem, gerando empregos e concorrência. A concorrência tende a sufocar a manutenção perpétua de monopólios, fazendo com que a luta por maior eficiência seja maior. O resultado é que o povo tem mais empregos, melhores serviços, preços mais baixos, menos impostos, menos inflação.

Isso não ocorre da noite para o dia. Uma economia, para se dinamizar, demora muitos anos. É por isso que trabalhistas odeiam o setor privado, o livre mercado, os baixos impostos e a pouca burocracia estatal. Por que tudo isso leva a um vagaroso e penoso desenvolvimento econômico. Sobretudo se o país em que isso for implantado não apresentar uma boa industrialização.

É neste ínterim que entendemos como a privatização é um processo que só demonstra resultados em longo prazo. No início, uma empresa privatizada pode gerar cortes de funcionários e até mesmo aumento no valor dos produtos. Isso ocorre porque os resultados negativos da má gestão pública precisam ser equilibrados. A empresa privada não dispõe mais do dinheiro eterno que a empresa pública dispunha. Mas em longo prazo, se (e somente se) o governo abrir o mercado e incentivar a competição, a empresa privatizada equilibrará o orçamento e lutará para ser mais eficiente, gerando o cenário que já comentei.

Vê-se, portanto, que apenas a privatização não é suficiente. O governo precisa garantir o surgimento de concorrência. No princípio eu não percebi isso. Achava que bastava privatizar era o suficiente. Com mais leitura eu entenderia posteriormente que a abertura do mercado e o incentivo máximo a competição são essenciais para que o processo de privatização seja positivo. Se o governo não incentiva a concorrência, vão surgir os monopólios privados, que são tão nocivos quanto os monopólios públicos

É importante salientar que hoje eu acho aceitável a manutenção de uma ou outra empresa pública, contanto que ela não seja um monopólio no ramo em que atua, podendo ser comparada a concorrentes privadas, e que não haja a estabilidade empregatícia. Isso diminui consideravelmente os problemas que podem ser causados pela empresa por ser pública.

Mas voltando à questão do setor privado, quando compreendi a verdade de que a privatização sozinha não é o suficiente, aí entendi como que o intervencionismo estatal na economia é um dos maiores responsáveis por monopólios privados. Quando o governo dificulta a vida das empresas privadas, apenas as empresas mais ricas e poderosas conseguirão permanecer lá no alto da competição. As empresas menores ou não terão chances de crescer e galgar os primeiros lugares, ou desaparecerão.

Isso significa que a grandes empresas ficam protegidas dentro de um governo intervencionista. Elas aceitam pagar altos impostos e lidar com grande burocracia porque, em contrapartida, vão continuar no topo para sempre. É por isso que o Olavo de Carvalho afirma que apenas os pequenos e médios empresários desejam o livre mercado, isto é, o capitalismo mais puro. Os grandes, os mega, aqueles que já construíram um império e estão sólidos, estes querem mais um governo interventor, a fim de não precisar lidar com uma concorrência constante. Por mais irônico que pareça, os grandes capitalistas atuais são anticapitalistas.

O governo intervencionista, por sua vez, aceita que essas empresas continuem no alto porque fecham conchavos com elas, tanto para que as mesmas financiem suas campanhas políticas, quanto para que juntos eles possam desviar verbas. Além disso, um governo que detém seus empresários privados nas mãos é tão poderoso quanto um governo que tem muitas empresas públicas. O leitor compreende?

Aqui aprendi algo importante. Quem defende o livre comércio? A direita. Quem defende o intervencionismo estatal? A esquerda. Então, pelo menos economicamente, o fascismo e o nazismo pertencem a qual espectro? Exatamente, leitor: essas doutrinas pregam aquilo que a esquerda prega em matéria de economia. Elas falam em forte controle do Estado sobre as empresas privadas, usando o discurso de “reestruturar a sociedade”. Mas na prática esse intervencionismo é um casamento entre grandes empresas e o governo. E o livre mercado não defende isso. Nunca defendeu. O nome já diz: “livre” mercado. Se você coloca o governo na equação e tira a concorrência da jogada, isso não é liberdade de mercado.

Ora, o nazismo alemão era um socialismo. E agiu estendendo seus tentáculos por todo o setor privado. O criador do fascismo italiano, Mussolini, era um tinha sido um marxista que entendeu que o Estado nunca seria superado e que ele precisava ser mais pragmático para mudar a sociedade. Sua frase síntese do fascismo era “Tudo no Estado, nada fora do Estado, nada contra o Estado”; e isso é rigorosamente a mesma coisa que a ditadura socialista do proletariado propunha (só que dizendo que isso era um estágio “temporário”). Então, compreendi que, chamar essas doutrinas de direitistas é uma tolice sem tamanho. Pelo menos no aspecto econômico. O mesmo se poderia dizer da ditadura militar brasileira, extremamente intervencionista.

Em suma, entendi que a direita defende uma economia mais livre e que a mesma é muito superior às economias intervencionistas. Descobri neste ponto também que há alguns rankings anuais interessantes que indicam o grau de liberdade econômica de um país, a facilidade de se fazer negócios e a competitividade empresarial. São, por assim dizer, medidores de capitalismo. E invariavelmente os países mais bem colocados nos tais rankings são os que oferecem maior qualidade de vida para o povo. E os piores colocados são os países mais injustos, antidemocráticos e pobres. Coincidência? Claro que não! Em outras palavras, o capitalismo não era, então, o monstro que pintavam!

Capítulo 5: Adesão ao conservadorismo político

Quando alguém percebe como o capitalismo foi um dos responsáveis, em longo prazo, pela melhora na qualidade de vida de muitos países, existe uma tendência a enxergá-lo com otimismo demasiado. Foi assim com o Adam Smith (que merece ser desculpado, pois o capitalismo ainda estava surgindo) e é assim até hoje com diversos direitistas. Não foi muito diferente comigo, embora eu não tenha chegado a me tornar um extremista.

Dentro da direita, assim como na esquerda, existem graduações no que tange o pensamento econômico. Eu vejo quatro tipos na direita: os conservadores políticos, os liberais econômicos, os libertários e os anarco-capitalistas. O que os diferencia é o nível de ceticismo/confiança em relação ao livre mercado.

Os conservadores geralmente são adeptos da liberdade econômica, mas reconhecem que ela tem muitas limitações e que gera muitos problemas se não andar de mãos dadas com uma boa base moral, espiritual e cultural na sociedade, um respeito pelo o que o passado nos ensina, pelas tradições e instituições milenares e pela dignidade do ser humano e, finalmente, um bom conjunto de leis democráticas e não tirânicas. O liberalismo econômico não deve suprimir essas coisas em hipótese nenhuma, pois o princípio da revolução é justamente esse: destruir tudo o que levou tempo para construir e colocar o destino da sociedade nas mãos de um futuro que não conhecemos, desprezando as lições do passado.

Os liberais econômicos já pensam mais na liberdade econômica do que nessas outras questões, tendendo a ignorá-las ou reduzir sua importância. Acreditam que só o livre mercado já é capaz de resolver quase todos os problemas causados pelo estatismo da esquerda. Sustentam também que a liberdade é o bem mais importante que existe e deve ser colocado em um pedestal. O liberal extremo é um libertário. E o libertário extremo é um anarco-capitalista. Um anarco-capitalista acredita tanto no livre mercado que acha possível criar uma sociedade sem estado, apenas baseada nas leis que já vimos de competição econômica. Nesse cenário, tudo seria privado e competiria entre si. Até mesmo (pasmem!) a polícia e a justiça. Não haveria governo e impostos.

Quando descobri isso, entendi que essa é a verdadeira “extrema-direita”. E aí comecei a analisar um pouco do pensamento conservador. O conservadorismo, a meu ver, é muito mais sensato que o mero liberalismo, pois ele não cai no mesmo otimismo no homem e idealismo utópico que as revoluções de esquerda. Ao contrário, mantendo o ceticismo em relação a um mundo perfeito, ele leva o conservador a aprender as lições do passado e daquilo que precisa ser conservado (como a família, a moral, as tradições, as instituições milenares, a hierarquia, o Estado, a educação familiar e individual, a espiritualidade, a dignidade humana e a visão realista do ser humano como um ser inclinado ao mal e imperfeito). Isso impede que o conservador deposite confiança em projetos mirabolantes e idealismos utópicos.

Para o conservador, a mudança é boa, mas deve ocorrer de modo muito pensado, geralmente gradual e respeitando os limites da realidade. Destruir a sociedade como conhecemos para construir outra, totalmente distinta, é algo que nunca dá certo. Todos os movimentos revolucionários como a Revolução Francesa, a Revolução Russa, o Stalinismo, o Nazismo, o Fascismo, o Maoísmo e etc. geraram apenas destruição, crueldades, miséria, violência, abuso de poder e genocídios.

A premissa básica de toda a revolução é esta: destruir esta sociedade, com seus maiores inimigos (sejam burgueses, ou negros, ou judeus, ou gays, ou cristãos, ou religiosos, ou a moral, ou uma cultura, ou um sistema e etc.) e construir outra no lugar, com novas regras, crenças, moral, cultura, religião e heróis revolucionários. Todo o sistema que se propõe a fazer isso pisa no passado e põe sua confiança em um futuro idealizado. E isso é algo totalmente contrário ao pensamento conservador.

Corrupção não é de esquerda nem direita, mas…

Rodrigo Constantino esclareceu bem um artigo que tenta ser “imparcial” quanto a corrupção e a ideologia política por de trás dos corruptos.

Eu creio que é possível sintetizar melhor essa diferença:

– A esquerda busca institucionalizar a corrupção, premiando os corruptos e criminalizando as vitimas da corrupção;

– Enquanto a direita não hesita em punir os corruptos que surjam em suas fileiras;

Basta ver o caso recente do DEM, nosso partido mais direita no espectro político, e mesmo assim ainda se limitando ao centrismo ou mesmo centro esquerda. Expulsaram os corruptos Demóstenes Torres e José Roberto Arruda sem hesitar, cortaram na carne o mal. Já a esquerda comuno/socialista…

E mesmo os casos de corrupção do políticos mais a “direita” são “delitos leves” perto do que é perpetrado pelos comuno/socialistas.

Corrupção não é de esquerda nem direita, mas…

Para o PT, seus corruptos são "heróis injustiçados"

Um artigo de Sergio Fernando Moro publicado hoje na Folha traz uma reflexão interessante. Ele compara o caso brasileiro com o italiano na década de 1990, que deu origem à “Operação Mãos Limpas”. Na Itália, havia uma crença generalizada de que “todos roubavam”, ou seja, nada podia ser feito de concreto para combater a farra.

Pouco tempo depois, mais de 6 mil pessoas estavam sendo investigadas e quase 3 mil mandados de prisão tinham sido expedidos. Claro que a corrupção não foi eliminada da política italiana, nem de perto. Mas foi inegável o avanço frente ao caos que reinava antes. Voltando ao Brasil atual, o autor escreve:

A corrupção não tem cores partidárias. Não é monopólio de agremiações políticas ou de governos específicos. Combatê-la deve ser bandeira da esquerda e da direita. Embora existam políticos corruptos em qualquer agremiação, não há partido que defenda a corrupção.

Isso é parcialmente verdade. Em primeiro lugar, claro que a corrupção em si não tem cor partidária, e pode vir tanto da esquerda como da direita. Mas há duas distinções ao menos: 1) a direita, ao propor menos estado, compreende que o poder corrompe, e que somente a redução do escopo do estado, do prêmio para o corrupto, pode aliviar a situação; 2) ao erguer a bandeira da impunidade como uma das mais importantes, a direita quer atacar o mal da corrupção em sua raiz, reduzindo os incentivos para tanto.

Combater a corrupção, portanto, pode ser uma bandeira da esquerda e da direita, mas acredito que quem apresenta os melhores remédios é, sem dúvida, a direita, por compreender suas verdadeiras causas. Ao demandar mais estado e concentração de poder, a esquerda acaba fomentando a corrupção. Ao tratar criminosos muitas vezes como “vítimas da sociedade”, a esquerda também acaba estimulando a corrupção, pois o clima de impunidade é geral.

Além disso, discordo do autor quando diz que nenhum partido defende a corrupção. É verdade que nenhum o faz abertamente, de forma escancarada. Mas alguns chegam bem perto disso. É o caso do PT, que mesmo após condenação em última instância de membros da alta cúpula do partido, prefere tratá-los como “heróis injustiçados”, em vez de expulsá-los. Isso é, sim, defender a corrupção como método aceitável.

José Dirceu, José Genoino e Delúbio Soares não são execrados pelo PT, vistos como traidores da bandeira ética que o partido dizia defender. Ao contrário: são protegidos, elogiados, defendidos. O que o partido está dizendo é que tolera a corrupção, que endossa o desvio de recursos públicos se for pela “causa”, para beneficiar o próprio partido.

O que sempre foi parte da mentalidade revolucionária da esquerda. Os fins “nobres” justificam quaisquer meios, por mais torpes que sejam. Logo, há uma ala da esquerda que claramente compactua com a corrupção como método aceitável para seu projeto de poder. São coniventes com os desvios, enaltecem seus corruptos e preferem criticar a Justiça que os julgou e condenou. O autor conclui:

Defendo, em concreto, que o rigor se imponha em casos de crimes graves de corrupção. Especificamente, presentes evidências claras de crimes de corrupção, não se deve permitir o apelo em liberdade do condenado, salvo se o produto do crime tiver sido integralmente recuperado. Não é antecipação da pena, mas reflexão razoável de que, se o condenado mantém escondida fortuna amealhada com o malfeito, o risco de fuga ou de nova ocultação do produto do crime é claro e atual.

É fácil apresentar projeto de lei a respeito e igualmente viável defender, mesmo sem lei, posição jurisprudencial nesse sentido. Gostaria de ver isso defendido pelos candidatos à Presidência da República ou, mesmo antes, no Congresso Nacional e nos tribunais.

Enfim, a corrupção não é um dado da natureza ou consequência dos trópicos, mas um produto de fraqueza institucional e cultural. Como Brutus bem sabe, não é dos astros a culpa.

Eis o ponto: tanto a esquerda como a direita pode – e deve – abraçar tais propostas, que intensificam o rigor contra a corrupção e combatem a impunidade. Mas é inegável que uma ala da esquerda, representada pelo PT, não aplaude tais medidas, não deseja mais rigor, não condena a corrupção de verdade. Ao contrário: quer aliviar as penas dos corruptos, pois são os “seus” corruptos!

PS: O ex-diretor da Petrobras, Paulo Roberto Costa, parece ter aceitado a delação premiada e deve colocar a boca no trombone. Dizem que tem relação com mais de cem deputados, e que atingiria gente bem próxima da presidente. Ele mesmo teria dito antes que, se abrisse a boca, não haveria eleição. Que fale! Que entregue todos! Mesmo que centenas de políticos tenham de ser investigados. O Brasil precisa, urgentemente, de uma limpeza geral.

Rodrigo Constantino

Situação de Graça Foster fica insustentável: ela tem que ser demitida!

A esquerda e a derrota

O raciocínio de esquerda a respeito da derrota é similar em todos os campos em que há vencedores e perdedores. A estrutura lógica do pensamento é a seguinte: se alguém, principalmente se for mais fraco, perde, a culpa não é dele. De quem é? Do capitalismo, da sociedade, enfim, de qualquer terceiro, nunca daquele perdeu.

O Partido da Causa Operária, por meio do jornal Causa Operária, após a humilhante derrota da seleção brasileira na Copa do Mundo de 2014 para a Alemanha por um placar histórico, publicou um artigo sobre a partida. Não é de se surpreender que ele está situado na mesma estrutura de raciocínio acima.

De acordo com o artigo, escrito pelo candidato à presidência do Brasil nas eleições de 2014 e presidente do PCO Rui Costa Pimenta, a derrota veio muito antes do início da partida. A derrota da seleção brasileira foi o resultado das ações da “direita nacional, dos monopólios capitalistas, da imprensa” e até mesmo de outros setores da própria esquerda, numa disputa entre semelhantes ideológicos que muita se assemelha (só que mais amigável) ao embate entre Josef Stalin e Leon Trotsky após a morte de Vladimir Lenin na União Soviética, que terminou com a vitória de Stalin, e com Trotsky sendo expurgado da ex-URSS e posteriormente assassinado no México.

O artigo continua como é de praxe no futebol entre aqueles que não conseguem assumir a derrota por incompetência, ou seja, atribuindo a culpa à arbitragem. De fato, por vezes a arbitragem influencia sim no resultado final, mas não em um massacre desse nível. A seleção, “que não pode ser culpada por nada”, teve que lutar “contra todos os juízes e tramoias obscuras” sem o seu melhor jogador, igual ao povo brasileiro, e aí surgem os apelos emotivos característicos.

Já outro artigo, publicado logo após a derrota, esbanja a caricatura do argumento. De qualidade argumentativa inferior, tanto por conhecimento sociopolítico quanto por até mesmo do próprio futebol, descreve com um ufanismo inicial que a seleção brasileira jogava melhor que a alemã até sofrer o primeiro gol, e que poderia dominar um jogo contra uma seleção que possui alguns dos melhores jogadores do mundo com facilidade. Mas o Brasil jogava desfalcado, sem seu capitão Thiago Silva – como se a ausência de um único jogador entre 11 fosse suficiente para desestabilizar um time que dominaria com facilidade. O capitão foi, segundo o autor, suspenso “coincidentemente” no jogo contra a seleção colombiana, num lance em que atrapalhou o goleiro colombiano enquanto o mesmo mantinha a posse de bola e iria fazer a reposição, e já que “a regra é clara”, se trata de uma infração a ser punida com cartão amarelo, que tirou o jogador da semifinal.

No mesmo jogo, o Brasil perdeu Neymar, o craque do time, num lance em que o árbitro não marcou falta pois aplicou a lei da vantagem, errando apenas em não advertir o jogador posteriormente – como se dar cartão ao jogador fosse trazer o Neymar de volta da lesão. Todavia, novamente segundo o autor, Brasil foi altamente prejudicado nisso, algo que colocaria a participação país em risco – como se a própria seleção brasileira não tivesse ganho a Copa do Mundo de 1962 após perder o gênio Pelé também por lesão logo no segundo jogo e como se a Alemanha não estivesse perdendo vários jogadores para a disputa do mundial meses antes da disputa.

Aqueles que julgam que a Alemanha, país tradicionalíssimo no futebol e com jogadores titulares entre os melhores clubes do mundo, possui melhor seleção não é porque realizaram um trabalho recente mais sério em relação ao esporte do que o Brasil. Não, é superior pois existe um sentimento da época nazista da superioridade germânica, algo que a classe média coxinha (termo que se popularizou entre a esquerda recentemente) aceitou. Aliás, a classe média coxinha é aquela que não supostamente não apoiava o time, e o belo canto do hino brasileiro antes dos jogos, por exemplo, deve ser pura ilusão.

Já no que diz respeito à economia da Alemanha, a mesma é, segundo o mesmo raciocínio vitimista, a responsável por milhões de mortes por fome na Europa e no mundo todo. Sobre a Europa, é algo completamente em desacordo com a realidade. Talvez a fonte da informação seja uma declaração de Vigdís Hauksdóttir, islandesa do Partido Progressista islandês, que afirmou que a Europa sofre de fome atualmente e que Malta não é um país. Vigdís foi criticada por Sigríður Víðis Jónsdóttir, diretora de comunicações da UNICEF na Islândia, pelo uso trivial e irresponsável da palavra fome. Também afirmou que, estatisticamente falando, se realmente esse fosse o cenário, com o tamanho da atual população europeia, aproximadamente dez mil pessoas estariam morrendo todos os dias em cidades como Roma, Atenas e Madrid, o que de fato não prossegue.

De qualquer forma, o que faz a Alemanha com o seu maldoso programa de austeridade, que causa fome em terceiros? Tenta manter as contas públicas em ordem, sem gastar muito e sem usurpar muitos recursos do setor produtivo da sociedade por meio de altos impostos, preza por produtividade caso queira mais salários e produção, e qualquer outra coisa economicamente sensata. Aliás, a austeridade alemã não é tão resistente quanto a suíça ou a báltica, mas está muito distante das insanidades cometidas por Reino UnidoEspanha, Grécia, França e outros países da União Europeia. Mais detalhes de austeridade na Europa e suas consequências neste link.

Na mentalidade vitimista, países que passam por dificuldades econômicas são vítimas. Antes, apenas dos Estados Unidos imperialista neoliberal “e insira aqui mais alguns termos pejorativos”, mas agora a Alemanha se tornou o mais novo alvo, principalmente no contexto europeu. Esses países mais pobres não passam por dificuldades pois em alguns momentos no passado erraram e esses erros refletem na atualidade, passam por dificuldades pois terceiros impuseram essa realidade. Se você não faz o certo e erra a culpa não é sua, é dos Estados Unidos. Ou, nos casos mais recentes, da Alemanha.