Educação na Idade Média, preservação e consolidação dos saberes

Por Alessandro Barreta Garcia. Contribuição espontânea enviada por e-mail. Publicado originalmente no blog do Movimento Aliança Cidadã. Para ler o artigo original, clique aqui.

Muito se escuta no senso comum, bem como em livros didáticos[1], que a Idade Média se traduziu em um período estático e educacionalmente restrito aos dogmas religiosos. Entretanto, já apresentamos inclusive que em elação a educação das mulheres, muitas das informações que recebemos são absolutamente refutáveis[2]. Quanto à imutabilidade da educação, nada é mais falso.

Dessa forma, e na contramão das ideologias alienantes, a Idade Média foi o período que mais contribuiu para a consolidação de um ideário educacional essencialmente racionalista, e não absolutista. Tal tipo de educação, não nos parece mais ser considerado importante, sobretudo, em países com os piores índices educacionais do planeta. Como exemplo o Brasil, pois, certamente nos falta a razão.

Uma das grandes bases de uma educação sólida e eficiente é seu caráter mais ou menos estático, imutável e estabilizador. Qualquer país com o mínimo de formação intelectual reconhece tal premissa. Os que não reconhecem são aqueles que não compartilham das melhores posições nos testes internacionais. Por isso, defendem o indefensável, contrariam a lógica, e apenas se afundam no mais triste tipo de educação, o progressista e irracional. Esse tipo já foi discutido anteriormente[3].

Afinal, que tipo de educação ocorria na Idade Média?

Com os chamados pais da Igreja, fase patrística dos já chamados padres, observamos aqueles que foram os primeiros a refletir, discutir e formalizar os dogmas, essa era a chamada fase inicial da Igreja. Tinham alguns deles o contato imediato com os apóstolos. Nessa época surgem as cartas por Clemente de Alexandria (primeiro grande educador cristão), as discussões dialéticas sobre as heresias dentro da Igreja, destacando Minúcio Félix e Santo Irineu, e ganhando seu caráter cientifico com Tertuliano, Clemente de Alexandria e Orígenes (defensor da educação das mulheres assim como São Jerônimo). Com o Édito de Milão em 313 por Constantino, o Cristianismo passou a se ampliar significativamente. A fase patrística se estendeu do séc. V ao séc. VIII. Essa era para Cambi (1999), a paideia cristã. Nesse período, uma série de embates dialéticos tomava conta do ambiente educacional, e certamente contribuíram muito para o desenvolvimento das técnicas de um bom debate. O fruto desse ambiente será certamente a escolástica.

Como bem nos lembra Woods Jr (2008):

Como educadora da Europa, a Igreja foi a única luz que sobreviveu às constantes invasões bárbaras dos séculos IV e V e, nos séculos IX e X, às mais devastadoras ondas de ataques, desta vez dos vikings, magiares, mulçumanos… (WOODS JR, 2008, p. 21-22).

A Igreja enquanto administradora, educadora e moralizadora da Idade Média, foi capital para a reconstrução e o aprimoramento do conhecimento, bem como da arte de civilizar. Nesse sentido, foram os mosteiros que legaram a nós os benefícios de uma civilização culta. O estudo se dava a partir do latim, literatura, gramática, dialética e retórica. Deve-se ainda aos beneditinos a organização final das sete artes liberais: gramática, dialética, retórica aritmética geometria, astronomia e música.

Observa-se entre os monges o ideal educacional disciplinado. Neste ideal, era possível ser copista, uma espécie de continuador das tradições, um herdeiro do conhecimento, pelo qual deveria possibilitar ao próximo o acúmulo e preservação da informação. Essa conservação foi inestimável, ou até inigualável. Ademais, o sistema de trocas e intercâmbio de cópias entre ordens era além de necessário, fundamental para conservar o legado histórico até aquele momento. Como legado, imprescindível até nossos dias.

Isto explica porque a educação sob uma perspectiva tradicional, rígida em alguns momentos, imutável sobre determinados aspectos e mais ou menos estável, é fundamento para uma transmissão sólida e eficaz dos conhecimentos. Já quando uma sociedade nega essa premissa, nega a racionalidade, e contrapõe-se a conservar conhecimentos acumulados ao longo da história, só há um resultado. E esse resultado o Brasil já conhece, pois, nos encontramos entre últimas colocações nos testes internacionais ou uma das piores posições do mundo no requisito educação. Como melhorar? Olhe para o passado. Conserve, melhore ou aprimore o que já foi bom. Sem conservar as coisas boas do passado, nenhum presente será sólido, justo e bom.


Referências:

CAMBI, F. História da pedagogia. Tradução: Álvaro Lorencini – São Paulo: Fundação Editora da UNESP (FEU), 1999.

WOODS JR., T E. Como a Igreja Católica construiu a Civilização Ocidental. Trad. Èlcio Carillo; rev. Emérico da Gama. – São Paulo: Quadrante, 2008.


Notas:

Números desse Brasil

Ao longo dos últimos anos o governo do PT vem usando de números e dados (muitas vezes mais maquiados que uma drag Queen), para mostrar como o Brasil melhorou e se auto-creditar por essa “melhora”. No entanto esses mesmos números que autora os ajudava, agora passam a ser um empecilho.

O PIB

Em 2010 o PIB brasileiro cresceu 7,5% e a presidente Dilma Rousseff em março do ano passado comentou sobre esse crescimento, na ocasião a presidente disse que o país tinha condições de ter um crescimento de 4,5 a 5 por cento, mas o PIB de 2011 foi de apenas 2,7%. Com o resultado oficial de 2011, Dilma Rousseff creditou (como uma boa socialista jogou a culpa dela nos outros) a culpa do baixo crescimento a crise européia e para agravar a situação foi anunciado ontem (20) que o Governo reduziu a previsão de crescimento do PIB desse ano para 3%, sendo que a previsão inicial era de 4,5%. O Banco Central estima um crescimento de apenas 2,5% e o mercado é mais pessimista projetando apenas 1,9%.

No dia 12 desse mês, já com as projeções baixas para o PIB, Dilma disse que durante a Conferência Nacional os Direitos das Crianças que o PIB não mede a grandeza de uma nação

“Porque uma grande nação, ela deve ser medida por aquilo que faz para suas crianças e para seus adolescentes. Não é o Produto Interno Bruto, é a capacidade do país, do governo e da sociedade de proteger o que é o seu presente e o seu futuro, que são suas crianças e adolescentes”

Como estão as crianças e os jovens no Brasil

A greve nas universidades e instituições de ensino federal já chega ao terceiro mês e o problema não parece que irá ser resolvido em breve, mas eu me lembro que o Governo Federal e Lula se gabavam em 2010 (durante as eleições) de terem criados 14 universidades federais, porém muitas dessas universidades federais não foram concluídas antes de suas inaugurações, sofrem com uma estrutura muitas vezes precária, falta profissionais e professores e quem trabalha nessas instituições reclamam dos baixos salários. Tá ai um dos principais motivos da greve e podemos notar que  o futuro de presente dos nossos jovens não está bem garantido nessa área.

Ainda na área de educação, segundo o Inaf (Indicador de Alfabetismo Funcional)  38% dos alunos no ensino superior não sabem ler e escrever plenamente, esse número mostra o baixo nível que estão as universidades brasileiras e mostra que devemos investir em qualidade e não em quantidade, pois do jeito que está vamos formar uma geração medíocre e de pouco valor se comparada aos outros países.

Para finalizar o homicídio de jovens (0 até 19 anos) cresceu  346% em 30 anos. Mais informações http://www.estadao.com.br/noticias/geral,homicidio-de-jovens-cresce-346-em-30-anos,901886,0.htm

O que esses poucos números nos mostram é que o Brasil não melhorou coisa alguma como o Governo tenta mostra e que sim, temos enormes problemas que não podem ser colocados para escanteio ou minimizados, pois já estão grandes demais.

Método Paulo Freire ou Método Laubach?

O Método Laubach de alfabetização de adultos foi criado pelo missionário protestante norte-americano Frank Charles Laubach (1884 – 1970). Desenvolvido por Laubach nas Filipinas, em 1915, subseqüentemente foi utilizado com grande sucesso em toda a Ásia e em várias partes da América Latina, durante quase todo o século XX.

Em 1915, Frank Laubach fora enviado por uma missão religiosa à ilha de Mindanao, nas Filipinas, então sob o domínio norte-americano, desde o final da guerra EUA/Espanha. A dominação espanhola deixara à população filipina uma herança de analfabetismo total, bem como de ódio aos estrangeiros.

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Frank C. Laubach (sentado ao centro) com missionários protestantes em Lake Winnipesaukee, New Hampshire, no ano de 1961.

A população moura filipina era analfabeta, exceto os sacerdotes islamitas, que sabiam ler árabe e podiam ler o Alcorão. A língua maranao (falada pelos mouros) nunca fora escrita. Laubach enfrentava, nessa sua missão, um problema duplo: como criar uma língua escrita, e como ensinar essa escrita aos filipinos, para que esses pudessem ler a Bíblia. A existência de 17 dialetos distintos, naquele arquipélago, dificultava ainda mais a tarefa em meta.

Com o auxílio de um educador filipino, Donato Gália, Laubach adaptou o alfabeto inglês ao dialeto mouro. Em seguida adaptou um antigo método de ensino norte-americano, de reconhecimento das palavras escritas por meio de retratos de objetos familiares do dia-a-dia da vida do aluno, para ensinar a leitura da nova língua escrita. A letra inicial do nome do objeto recebia uma ênfase especial, de modo que aluno passava a reconhecê-la em outras situações, passando então a juntar as letras e a formar palavras.

Utilizando essa metodologia, Laubach trabalhou por 30 anos nas Filipinas e em todo o sul da Ásia. Conseguiu alfabetizar 60% da população filipina, utilizando essa mesma metodologia. Nas Filipinas, e em toda a Ásia, um grupo de educadores, comandado pelo próprio Laubach, criou grafias para 225 línguas, até então não escritas. A leitura dessas línguas era lecionada pelo método de aprendizagem acima descrito. Nesse período de tempo, esse mesmo trabalho foi levado do sul da Ásia para a China, Egito, Síria, Turquia, África e até mesmo União Soviética. Maiores detalhes da vida e trabalho de Laubach podem ser lidos na Internet, no site Frank Laubach.

Na América Latina, o método Laubach foi primeiro introduzido no período da 2ª Guerra Mundial, quando o criador do mesmo se viu proibido de retornar à Ásia, por causa da guerra no Pacífico. No Brasil, este foi introduzido pelo próprio Laubach, em 1943, a pedido do governo brasileiro. Naquele ano, esse educador veio ao Brasil a fim de explicar sua metodologia, como já fizera em vários outros países latino-americanos.

Lembro-me bem dessa visita, pois, ainda que fosse muito jovem, cursando o terceiro ano Ginasial, todos nós estudantes sabíamos que o analfabetismo no Brasil ainda beirava a casa dos 76% – o que muito nos envergonhava – e que este era o maior empecilho ao desenvolvimento do país.

A visita de Laubach a Pernambuco causou grande repercussão nos meios estudantis. Ele ministrou inúmeras palestras nas escolas e faculdades — não havia ainda uma universidade em Pernambuco — e conduziu debates no Teatro Santa Isabel. Refiro-me apenas a Pernambuco e ao Recife, pois meus conhecimentos dos eventos naquela época não iam muito além do local onde residia.

Houve também farta distribuição de cartilhas do Método Laubach, em espanhol, pois a versão portuguesa ainda não estava pronta. Nessa época, a revista Seleções do Readers Digest publicou um artigo sobre Laubach e seu método — muito lido e comentado por todos os brasileiros de então, que, em virtude da guerra, tinham aquela revista como único contato literário com o mundo exterior.

Naquele ano, de 1943, o Sr. Paulo Freire já era diretor do Sesi, de Pernambuco — assim ele afirma em sua autobiografia — encarregado dos programas de educação daquela entidade. No entanto, nessa mesma autobiografia, ele jamais confessa ter tomado conhecimento da visita do educador Laubach a Pernambuco. Ora, ignorar tal visita seria uma impossibilidade, considerando-se o tratamento VIP que fora dado àquele educador norte-americano, pelas autoridades brasileiras, bem como pela imprensa e pelo rádio, não havendo ainda televisão. Concomitante e subitamente, começaram a aparecer em Pernambuco cartilhas semelhantes às de Laubach, porém com teor filosófico totalmente diferente. As de Laubach, de cunho cristão, davam ênfase à cidadania, à paz social, à ética pessoal, ao cristianismo e à existência de Deus. As novas cartilhas, utilizando idêntica metodologia, davam ênfase à luta de classes, à propaganda da teoria marxista, ao ateísmo e a conscientização das massas à sua “condição de oprimidas”. O autor dessas outras cartilhas era o genial Sr. Paulo Freire, diretor do Sesi, que emprestou seu nome à essa “nova metodologia” — da utilização de retratos e palavras na alfabetização de adultos — como se a mesma fosse da sua autoria.

Tais cartilhas foram de imediato adotadas pelo movimento estudantil marxista, para a promulgação da revolução entre as massas analfabetas. A artimanha do Sr. Paulo Freire “pegou”, e esse método é hoje chamado Método Paulo Freire, tendo o mesmo sido apadrinhado por toda a esquerda, nacional e internacional, inclusive pela ONU.

No entanto, o método Laubach — o autêntico — fora de início utilizado com grande sucesso em Pernambuco, na alfabetização de 30.000 pessoas da favela chamada “Brasília Teimosa”, bem como em outras favelas do Recife, em um programa educacional conduzido pelo Colégio Presbiteriano Agnes Erskine, daquela cidade. Os professores eram todos voluntários. Essa foi a famosa Cruzada ABC, que empolgou muita gente, não apenas nas favelas, mas também na cidade do Recife, e em todo o Estado. Esse esforço educacional é descrito em seus menores detalhes por Jules Spach, no seu recente livro, intitulado, Todos os Caminhos Conduzem ao Lar (2000).

O Método Laubach foi também introduzido em Cuba, em 1960, em uma escola normal em Bágamos. Essa escola pretendia preparar professores para a alfabetização de adultos. No entanto, logo que Fidel Castro assumiu o controle total do poder em Cuba, naquele mesmo ano, todas as escolas foram nacionalizadas, inclusive a escola normal de Bágamos. Seus professores foram acusados de “subversão”, e tiveram de fugir, indo refugiar-se em Costa Rica, onde continuaram seu trabalho, na propagação do Método Laubach, criando então um programa de alfabetização de adultos, chamado Alfalit.

A organização Alfalit foi introduzida no Brasil, e reconhecida pelo governo brasileiro como programa válido de alfabetização de adultos. Encontra-se hoje na maioria dos Estados: Santa Catarina (1994), Alagoas, Ceará, Distrito Federal, Goiás, Sergipe, São Paulo, Paraná, Paraíba e Rondônia (1997); Maranhão, Pará, Piauí e Roraima (1998); Pernambuco e Bahia (1999).

A oposição ao Método Laubach ocorreu desde a introdução do mesmo, em Pernambuco, no final da década de 1950. Houve tremenda oposição da esquerda ao mencionado programa da Cruzada ABC, em Pernambuco, especialmente porque o mesmo não conduzia à luta de classes, como ocorria nas cartilhas plagiadas do Sr. Paulo Freire. Mais ainda, dizia-se que o programa ABC estava “cooptando” o povo, comprando seu apoio com comida, e que era apenas mais um programa “imperialista”, que tinha em meta unicamente “dominar o povo brasileiro”.

Como a fome era muito grande na Brasília Teimosa, os dirigentes da Cruzada ABC, como maneira de atrair um maior número de alunos para o mesmo, se propuseram criar uma espécie de “bolsa-escola” de mantimentos. Era uma cesta básica, doada a todos aqueles que se mantivessem na escola, sem nenhuma falta durante todo o mês. Essa bolsa-escola tornou-se famosa no Recife, e muitos tentavam se candidatar a ela, sem serem analfabetos ou mesmo pertencentes à comunidade da Brasília Teimosa. Bolsa-escola fora algo proposto desde os dias do Império, conforme pode-se conferir no livro de um educador do século XIX, Antônio Almeida, intitulado O Ensino Público, reeditado em 2003 pelo Senado Federal, com uma introdução escrita por este Autor.

No entanto, a idéia da bolsa-escola foi ressuscitada pelo senhor Cristovam Buarque, quando governador de Brasília. Este senhor, que é pernambucano, fora estudante no Recife nos dias da Cruzada ABC, tão atacada pelos seus correligionários de esquerda. Para a esquerda recifense, doar bolsa-escola de mantimentos era equivalente a “cooptar” o povo. Em Brasília, como “idéia genial do Sr. Cristovam Buarque”, esta é hoje abençoada pela Unesco, espalhada por todo o mundo e não deixa de ser o conceito por trás do programa Fome Zero, do ilustre Presidente Lula.

O sucesso da campanha ABC — que incluía o Método Laubach e a bolsa-escola — foi extraordinário, sendo mais tarde encampado pelo governo militar, sob o nome de Mobral. Sua filosofia, no entanto, foi modificada pelos militares: os professores eram pagos e não mais voluntários, e a bolsa-escola de alimentos não mais adotada. Este novo programa, por razões óbvias, não foi tão bem-sucedido quanto a antiga Cruzada ABC, que utilizava o Método Laubach.

A maior acusação à Cruzada ABC, que se ouvia da parte da esquerda pernambucana, era que o Método Laubach era “amigo da ignorância” — ou seja, não estava ligado à teoria marxista, falhavam em esclarecer seus detratores — e que conduzia a “um analfabetismo maior”, ou seja, ignorava a promoção da luta de classes, e defendia a harmonia social. Recentemente, foi-me relatado que o auxílio doado pelo MEC a pelo menos um programa de alfabetização no Rio de Janeiro — que utiliza o Método Laubach, em vez do chamado “Método Paulo Freire” — foi cortado, sob a mesma alegação: que o Método Laubach estaria “produzindo o analfabetismo” no Rio de Janeiro. Em face da recusa dos diretores do programa carioca, de modificarem o método utilizado, o auxílio financeiro do MEC foi simplesmente cortado.

Não há dúvida que a luta contra o analfabetismo, em todo o mundo, encontrou seu instrumento mais efetivo no Método Laubach. Ainda que esse método hoje tenha sido encampado sob o nome do Sr. Paulo Freire. Os que assim procederam não apenas mudaram o seu nome, mas também o desvirtuaram, modificando inclusive sua orientação filosófica. Concluindo: o método de alfabetização de adultos, criado por Frank Laubach, em 1915, passou a ser chamado de “Método Paulo Freire”, em terras tupiniquins. De tal maneira foi bem-sucedido esse embuste, que hoje será quase que impossível desfazê-lo.

Artigo original por David Gueiros Vieira. Publicado originalmente no Mídia Sem Máscara. Para ler o artigo original, clique aqui.

Referências:

AYRES, Antônio Tadeu. Como tornar o ensino eficaz. Casa Publicadora das Assembléias de Deus, Rio de Janeiro, 1994.
BRINER, Bob. Os métodos de administração de Jesus. Ed. Mundo Cristão, SP, 1997.
CAMPOLO, Anthony. Você pode fazer a diferença. Ed. Mundo Cristão, SP, 1985.
GONZALES, Justo e COOK, Eulália. Hombres y Ángeles. Ed. Alfalit, Miami, 1999.
GONZALES, Justo. História de un milagro. Ed. Caribe, Miami (s.d.).
GONZALES, Luiza Garcia de. Manual para preparação de alfabetizadores voluntários. 3ª ed., Alfalit Brasil, Rio de Janeiro, 1994.
GREGORY, John Milton. As sete leis do ensino. 7ª ed., Rio de Janeiro, JUERP, 1994.
HENDRICKS, Howard. Ensinando para transformar vidas. Ed. Betânia, Belo Horizonte, 1999.
LAUBACH, Frank C.. Os milhões silenciosos falam. s. l., s.e., s.d.
MALDONADO, Maria Cereza. História da vida inteira. Ed. Vozes, 4ª ed., SP, 1998.
SMITH, Josie de. Luiza. Ed. la Estrella, Alajuela, Costa Rica, s.d.
SPACH, Jules. Todos os Caminhos Conduzem ao Lar. Recife, PE, 2000.

Do que a Educação precisa?

Acreditar que melhorar a Educação do Brasil é uma mera questão de aumentar o investimento percentual do PIB é inocência pura. O problema da Educação no Brasil começa e termina no modo como ela é administrada. Ela é centralizada, burocrática e desestimulante.

Dê às Unidades Federativas, Municípios e Escolas (e aqui entram diretores e professores) mais autonomia e uma boa parte dos problemas é resolvida. Cobre desempenho dos alunos, dos professores e das escolas. Compense mais quem faz mais.

Aliviar o peso do sistema de ensino também ajuda. Focar no essencial e parar de tentar transformar a escola numa fábrica de cidadãos-modelo já ajuda muito: é o cidadão quem deve moldar o Governo, não o Governo quem deve moldar o cidadão.

Deveríamos pensar, antes de desembolsar mais dinheiro (afinal quem vai pagar pela Educação Pública somos nós mesmos), se o problema da nossa Educação não é a forma como ela está organizada. Antes de querer gastar mais, precisamos gastar melhor. Precisamos de formas mais inteligentes de gerir e administrar a Educação e os recursos destinados a ela para fazer mais com menos (o nome popular para o termo eficiência). O Brasil já tem um gasto satisfatório com sua Educação em termos de porcentagem do PIB: entre 5 e 5,5%. Não difere muito de países como EUA (5,5%) e França (5,6%), e gasta tradicionalmente mais do que países que tem melhor Educação como Chile (4,5%), Japão (3,8%), Hong Kong (3,6%), Coréia do Sul (4,8%) e Alemanha (4,6%).

Portanto, o que a Educação Pública do Brasil precisa é de uma reforma, e não de mais verba sendo mal-gasta.

FONTES:
Índice de qualidade da Educação – Programa de Desenvolvimento da ONU (UNDP).
Gastos percentuais do PIB em educação – Banco Mundial.

A Conquista do Brasil (Parte IV)

Dando continuidade à nossa série de artigos A Conquista do Brasil, o presente artigo busca fazer um apanhado dos grupos envolvidos nesse processo de ocupação do território brasileiro. Não podemos falar sobre todos eles, dada a grande diversidade étnica e linguística do continente sul-americano quando da chegada dos europeus, mas abordaremos os de mais destaque na História.

1. Tupis e Guaranis

Uma lenda nos conta que Tupi e Guarani, dois irmãos gêmeos, ficaram inimigos por causa das contínuas brigas entre suas mulheres e decidiram separar-se. Tupi se dirigiu para o norte, e Guarani para o sul.

Os descendentes destes irmãos míticos penetraram na selva. Os guaranis, empregando canoas e balsas para viajar pelos rios, escolhiam um lugar e ali levantavam sua aldeia e praticavam a agricultura. Como em pouco tempo seus campos de cultivo perdiam a fertilidade, os guaranis tinham que pegar suas posses e mudar-se em busca de melhores terras.

A ocupação de novos territórios nem sempre foi pacífica. Às vezes encontravam tribos muito fortes que lhes impediam de avançar, e tinham de mudar a rota. Outras vezes, no entanto, conquistaram violentamente e guaranizaram os vencidos.

Sabe-se que há mais de mil anos os guaranis iniciaram uma grande migração até o sul desde o coração das selvas sulamericanas.

Mapa ilustrando possíveis rotas de dispersão dos Tupis e Guaranis.

Basicamente, todos os grupamentos indígenas de língua tupi pertencem à nação Tupi. Os tupis, no entanto, possuem divisões e conflitos intertribais, como os que ocorriam entre tupinambás e tupiniquins. Por este motivo, cada grupo é descrito com um nome distinto (maracajá, potiguara, tabajara, etc). Estes nomes distintos podem ser autônimos ou termos, às vezes pejorativos, inventados por outros povos. Os temiminós, por exemplo, são chamados de “maracajás” (gatos-do-mato).

1.1 – Tupinambás ou tamoios?
O termo tupinambá provavelmente significa o mais antigo ou o primeiro e se refere a uma grande nação de índios tupi. Os tupis dominavam quase todo o litoral brasileiro e possuíam uma língua comum, que teve sua gramática organizada pelos jesuítas e que passou a ser conhecida como o tupi antigo, constituindo a raíz da língua geral paulista e do nheengatu. Entretanto, quando se menciona o tupinambá, pode-se estar referindo na verdade às tribos que fizeram parte da Confederação dos Tamoios, cujo objetivo era lutar contra os colonizadores portugueses.

Apesar de terem raízes comuns, as diversas tribos que compunham a nação Tupi lutavam constantemente entre si, travando guerras tribais nas quais os prisioneiros eram capturados para serem devorados em rituais antropofágicos.

Ilustração do ritual antropofágico dos tupis. O cativo, amarrado, será golpeado na cabeça até a morte e posteriormente será cortado em pedaços, preparado e consumido pelos membros da tribo.

Os tupis da Região Sudeste do Brasil tinham um vasto território, que se estendia desde o Rio Juqueriquerê, em São Sebastião / Caraguatatuba, no estado de São Paulo, até o Cabo de São Tomé, no estado do Rio de Janeiro.

O grosso da nação tupinambá vivia na Baía da Guanabara e em Cabo Frio, onde fabricavam o gecay – tempero nativo feito de sal grosso moído (extraído da lagoa salgada de Araruama) e pimenta vermelha gigante – e o vendiam aos franceses, com os quais se aliaram quando estes estabeleceram a sua colônia na Baía da Guanabara: a França Antártica.

Cunhambebe.

As tentativas de escravização dos índios para servirem nos engenhos de cana-de-açúcar no núcleo vicentino levaram à união das tribos na Confederação dos Tamoios, englobando todas as aldeias tupinambás desde o Vale do Paraíba Paulista até o Cabo de São Tomé, com invejável poderio de guerra.

Líderes notáveis: Cunhambebe, Pindobuçu, Coaquira, Guayxará, Aimberê.
População estimada no século XVI, segundo IBGE:  110 mil (tupinambás) e 60 mil tamoios.

1.2 – Guaranis ou carijós – Os guaranis se assentaram sobretudo na região Sul e sudeste – o que lhes permitiu uma expansão bastante intrusiva na região do Prata. Em boa parte das regiões litorâneas do sul e do sudeste do Brasil, bem como na bacia dos rios Paraná e Prata, foram os guaranis os primeiros a serem contatados pelos europeus.

A região Guarani do passado delimitava-se originalmente a Oeste do rio Paraguai e ao Sul da confluência deste rio com o Paraná. O Oceano Atlântico era o seu limite oriental, entre Paranaguá, no litoral brasileiro e a fronteira entre o Brasil e o Uruguai de hoje. Os Guarani dominaram uma região de pelo menos 350.000 km2 (Clastres, 1974).

Maloca Guaraní, quadro de Aldo Chiappe.

O povo guarani possuiu, desde o início, um caráter intrusivo na região platense. Sua entrada foi violenta e determinou uma existência constantemente ofensiva e defensiva a respeito das populações aborígenes não guaranis que habitavam a região.

Grandes grupos de guaranis foram aldeados pelos jesuítas e reunidos nas missões (ou reduções). Nestes povoamentos foram introduzidas técnicas européias de construção e carpintaria e praticava-se a agricultura e a pecuária. Os guaranis chegaram a ser alfabetizados, de modo que há registro de suas comunicações através de cartas e bilhetes em guarani e português. No entanto, as missões jesuítas sofreram fortes golpes das expedições militares de bandeirantes, tanto portugueses quanto espanhóis, às quais opuseram resistência armada com auxílio dos jesuítas.

Líderes notáveis: Sepé Tiaraju, Nheçu, Inácio Abiaru, Nicolau Nhenguiru.
População estimada no século XVI, segundo IBGE: 81 mil (dos quais 25 mil “carijós”)

1.3 – Tupiniquins – Foram os primeiros nativos a contactar os portugueses. Antes mesmo dos portugueses desembarcarem na costa brasileira, dois índios tupiniquins haviam visitado a embarcação de Cabral, feito esse registrado na Carta de Pero Vaz de Caminha ao Rei Manuel.

Havia tupiniquins no centro-sul da Bahia, mas a maior concentração da tribo era na região da atual Grande São Paulo. Um subgrupo tupiniquim, os guaianases, dominava o litoral sul de São Paulo até regiões perto da cidade de São Sebastião (SP).

Tibiriçá.

Foram catequizados por jesuítas, em Aldeia Nova, sofrendo com pragas exógenas como a varíola e endógenas como as formigas, que lhes destruíam as plantações.

Em 1610 o Padre João Martins obteve para os nativos uma sesmaria, território cujo principal centro era a vila de Nova Almeida que, na data de sua demarcação (1760), contava três mil habitantes.

Foram importantes aliados dos portugueses na Bahia e lutaram contra os Tupinambá, que apoiavam os franceses.

Líderes notáveis: Tibiriçá.
População estimada no século XVI, segundo IBGE: 90 mil.

1.4 – Temiminós ou maracajás– Habitavam principalmente o litoral da região sudeste brasileira. Eram inimigos habituais dos tupinambás. Os temiminós aliaram-se aos portugueses contra os franceses e os tupinambás, seus inimigos.

Um de seus principais centros territoriais foi a atual Ilha do Governador, na época, chamada Paranapuã (“mar redondo”) pelos tupis e Ilha do Gato pelos portugueses. Outra região ocupada pelos temiminós foi o litoral do atual estado do Espírito Santo.

O instante melhor conhecido da história temininó se relaciona com a criação e destruição da França Antártica. Em 1554, os tupinambás da Confederação dos Tamoios, ajudados por franceses, atacaram os temiminós na ilha de Paranapuã e os expulsaram da Baía da Guanabara. Os temininós, liderados pelo chefe Maracajá-guaçu, foram ajudados pelos portugueses na viagem que fizeram até encontrarem a outra parte de sua nação, no atual estado do Espírito Santo. Nessa capitania, fundaram, com os Jesuítas, uma aldeia que deu origem à atual cidade de Serra.

Em 1567 os temininós, liderados por Araribóia (filho de Maracajá-guaçú), juntaram-se aos portugueses e destruíram as fortificações dos franceses e tamoios na Baía da Guanabara. A convite dos portugueses, Araribóia passou a residir no local onde atualmente é o bairro de São Cristóvão, na cidade do Rio de Janeiro. Alguns anos depois, em 1573, Araribóia e os temiminós se mudaram para o outro lado da entrada da Baía da Guanabara, onde tinham a missão de proteger a entrada da baía. Nessa região, os temiminós fundaram São Lourenço dos Índios, que foi o início da atual cidade de Niterói.

Líderes notáveis: Maracajá-guaçú, Araribóia.

1.5 – Potiguaras –  Habitavam o litoral do atuais estados da Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará e seu contato com europeus remonta às primeiras tentativas de colonização e comércio com a América do Sul.

Os quinhentistas e seiscentistas escreveram de posições bastante distintas sobre eles. Do ponto de vista dos cronistas e viajantes, se enquadravam na categoria “gentios bravos”, justificando-se assim a necessidade de “amansá-los”. Constituíram, ao longo das tentativas de colonização, entraves à exploração portuguesa.

O cotidiano da capitania de Itamaracá (Paraíba) era tomado pelo embate com os “gentios”, aliados dos franceses, cuja cultura tinha na honra guerreira o seu valor fundamental. A aliança do espírito guerreiro indígena com o interesse mercantil francês impediu o sucesso das expedições de conquista e ocupação portuguesa. Para se ter uma idéia do papel preponderante dos guerreiros indígenas, as tentativas de conquistar a Paraíba foram fracassadas durante todo o século XVI pela determinação dos Potiguara na defesa do seu território. A aliança com os franceses foi decisiva no ano de 1586, quando sete navios franceses aportaram na Baía da Traição com pessoas e munição para se juntarem aos índios e lutarem contra os portugueses, aliados dos Tabajara, inimigos tradicionais dos Potiguara. Foram destruídas três aldeias Potiguara na Serra da Copaoba, mas os Potiguara resistiram e saíram vitoriosos.

No final da década de 80 do século XVI, os Potiguara cercaram a cidade de N. Sra. das Neves (atual João Pessoa), enquanto as aldeias desses índios em Baía da Traição eram destruídas pelos portugueses e aliados, sendo motivo da rendição dos Potiguara e da fuga de alguns para a Capitania do Rio Grande. Em 1599, os Potiguara fizeram as pazes com os portugueses, depois de terem perdido o apoio dos franceses (derrotados em 1597) e após uma epidemia de varíola ter dizimado a sua população.

Antônio Filipe Camarão

A subjugação dos Potiguara se deu pela mediação de Ilha Grande, índio aprisionado pelos portugueses que dispunha de forte influência por sua posição de xamã. Ilha Grande foi libertado e instruído para induzir os índios à paz. O temido e respeitado xamã convenceu os chefes Potiguara do interesse e da necessidade em cessar as hostilidades contra os portugueses.

Após longos e sangrentos conflitos envolvendo os Potiguara e os invasores portugueses, a região compreendida entre os Estados de Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará foi conquistada. Mas a paz duraria até a chegada dos holandeses e sua aliança com os Potiguara.

Líderes notáveis: Zorobabé, Filipe Camarão.
População estimada no século XVI, segundo IBGE:   90 mil.

1.6 – Tabajaras – Habitavam a zona da mata e o agreste paraibano e pernambucano. Extintos pela miscigenação, seu território estendia-se da Ilha de Itamaracá até o rio Paraíba, adentrando pelo Agreste até o vale do rio Pajeú.

Os grupos que se fixaram na serra da Ibiapaba, região montanhosa que nas divisas dos atuais estados do Ceará e Piauí, ficaram conhecidos nos registros históricos como Tabajara. Nesta região, viviam ainda inúmeros grupos tapuias, que eram de certa foram subordinados aos Tabajara.

Foram os primeiros nativos da região (Paraíba-Pernambuco) a entrar em contato com os conquistadores portugueses. Por seis meses Duarte Coelho teve seus desejos de colonização da parte oriental do Nordeste frustrados pela resistência dos potiguaras, inimigos dos tabajaras. Por fim, os conquistadores conseguiram uma aliança com os chefes indígenas tabajaras Pirajibe, Tabira e Itajiba e com eles dominaram completamente os temíveis potiguaras, conquistando o litoral paraibano.

Ainda no século XVII, após as invasões holandesas, centenas de índios Potiguara da Paraíba e Pernambuco, convertidos ao calvinismo, buscaram refúgio na Ibiapaba, até então, uma área livre do controle português.

No século XVIII quando os padres jesuítas conseguem finalmente instalar uma missão na serra da Ibiapaba esta vai ser composta por uma variedade de etnias indígenas, muitas vezes citadas na documentação como Tabajara. Essa população aldeada vai sendo incorporada ao projeto colonial paulatinamente, destacando-se a sua utilização como mão-de-obra agrícola e fornecimento de tropas para combater índios rebeldes e invasões estrangeiras. Com a elevação das aldeias missionárias à categoria de vilas de índios a partir de 1759, registra-se na capitania do Ceará uma grande dispersão dos índios aldeados. Na Ibiapaba, as aldeias missionárias constituirão as vilas de Viçosa, São Benedito e Ibiapina.

Líderes notáveis: Pirajibe, Tabira, Itajiba.

2. “Tapuias”

Composto por diversos grupos e etnias que habitavam principalmente o interior do continente, em detrimento dos tupis, que habitam sobretudo a costa. Não falam a língua tupi e o termo tapuia, que é tupi, significa “bárbaro”, “forasteiro” ou mesmo “inimigo”. Este portanto era um termo genérico tupi para qualquer índio não-tupi e que foi incorporado ao vocabulário português para designar índios do sertão e menos civilizados.

Dança dos Tapuias, quadro de Albert Eckhout.

Alguns povos indígenas que eram classificados como tapuias: cariris, tarairius, caraíbas, jês, canindés, etc. Diferente dos tupinambás, os tapuias eram descritos como endocanibalistas: ou seja, devoravam inclusive aqueles de sua própria tribo. Muitos grupos “tapuias” eram nômades e não tinham o hábito de construir casas, apenas habitações rudimentares.

A maior nação entre os tapuias era a dos índios de língua Jê. Foram expulsos do litoral pelos tupis, migrando para o interior do Brasil. Na época da safra de caju, os índios macro-jês do interior realizavam incursões ao litoral dominado pelos tupis para colher a fruta, ocasionando as chamadas “Guerras do Caju”. No entanto, algumas tribos resistiram e permaneceram na costa brasileira, como os tremembés, os aimorés e os goitacás. Os “tapuias” no entanto não tardaram a sucumbir perante as forças militares européias e tupis e doenças trazidas pelos europeus, como a varíola e o sarampo. Os goitacás, por exemplo, foram derrotados em 1631 e se dispersaram pelo interior dos atuais estados brasileiros de Rio de Janeiro, Espírito Santo e Minas Gerais, passando a ser conhecidos como puris, coroados e coropós.

2.1 – Jês– Dominavam todo o planalto central; na região que corresponde atualmente ao oeste de Minas Gerais, o Estado de Goiás e do Mato Grosso. Eram encontradas algumas tribos também no Maranhão e no Piauí. Inclui grupos como os kayapós, os bororo, os xavante, os kaingang, os karajá e os xokleng. O grupo ocupava mais de 65% do território brasileiro, sobretudo as áreas sertanejas.

Acredita-se que os povos macro-jês detinham a hegemonia sobre a maior parte do atual território brasileiro, até que, por volta do ano 1000, os povos do grupo linguístico macro-tupi, provenientes do sul da Amazônia, migraram para o leste, expulsando grande parte dos macro-jês que habitavam o litoral brasileiro e forçando-os a se alojarem no interior do Brasil, que possuía condições naturais menos propícias que o litoral. Na época da chegada dos colonizadores portugueses ao litoral brasileiro, ou seja, a partir do século XVI, as únicas exceções ao domínio tupi no litoral brasileiro eram os tremembés, nos atuais litorais do Maranhão, Piauí e Ceará; os aimorés, no sul da Baía e norte do Espírito Santo e os goitacazes, no norte do Rio de Janeiro e sul do Espírito Santo. Todos pertencentes ao grupo linguístico macro-jê.

Família de Botocudos em marcha, obra de Jean Baptiste Debret, 1834. Os botocudos eram parte da nação macro-jê e considerados muito agressivos pelos colonizadores.

Os macro-jês ofereceram grande resistência à colonização portuguesa do território brasileiro, sendo responsáveis pela morte de muitos colonos e pelo fracasso de muitas capitanias hereditárias, como a de Ilhéus, a de Porto Seguro, a do Espírito Santo e a de São Tomé.

Área de dispersão das línguas Jê.

Alguma tribos jês se aliaram aos neerlandeses, quando estes invadiram o nordeste brasileiro no século XVII. Por exemplo, a nação tarairiu, que ocupava o interior dos atuais estados brasileiros da Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará.

2.2 – Tremembés – Nos séculos XVI e XVII, os Tremembés ocupavam a extensa região litorânea que segue do atual Pará ao Ceará. Acredita-se que em época anterior tenham povoado até a foz do Açú ou mesmo o Cabo de São Roque, chegando ao Gurupi, no Pará.

Eram originalmente nômades, alimentavam-se de peixe e carne, embora fossem mais pescadores do que caçadores. Usavam cerâmica grosseira, cabaças e apreciavam muito o caju e a tartaruga. Plantavam mandioca e algodão e criavam cães. Moravam em choças construídas com ramos ou folhas de palmeira e dormiam nas areias das praias.

De espírito belicoso, chamaram a atenção dos viajantes espanhóis, franceses e portugueses. Pouco se conhecia sobre o seu sistema de parentesco e organização política. Sua língua também é desconhecida, restando apenas alguns vocábulos recolhidos na dança do Torém, ainda hoje executada na cidade de Almofala.

Com a colonização portuguesa, aldeamentos missionários foram criados ao longo das terras. No Ceará os índios se fixaram no aldeamento Aracati-mirim na chamada Missão Nossa Senhora da Conceição dos Tremembé, e foram aldeados pelos Jesuítas no século XVII nas missões de Tutoya (Tutóia-Maranhão), Aldeia do Cajueiro (Almofala) e Soure (Caucaia).

Líderes notáveis:

2.3 – Aimorés – Aimorés era o nome pelo qual os portugueses denominavam os nativos que habitavam a região sul da Bahia, Minas Gerais e Espírito Santo, principalmente nos vales do rio Jequitinhonha e do rio Doce. Foram os responsáveis pelo fracasso das capitanias de Ilhéus, Porto Seguro e Espírito Santo.

Para instalar a indústria açucareira na região sul do que hoje é a Bahia, era preciso arregimentar mão de obra escrava e, para isso, os colonos portugueses começaram a penetrar no território dos Aimoré. A reação foi imediata: já em 1546 os ataques dos aimorés se tornaram constantes e o donatário da capitania de Porto Seguro, Pero do Campo Tourinho, escreveu ao rei D. João III narrando a devastação ocorrida na Bahia e solicitando o envio de “artilharia, pólvora e munição”. Em pouco tempo, Ilhéus e Porto Seguro já estavam devastadas, e os aimorés chegaram até a realizar incursões à capitania da Bahia. Por volta de 1570, o senhor de engenho Gabriel Soares de Sousa escreveria em seu “Notícia do Brasil”:

Os oito engenhos que existiram na capitania dos Ilhéus, estes não fazem mais açúcar, nem há morador que lá ouse plantar cana, porque em indo os escravos ou os homens ao campo, não escapam do gentio Aimoré, dos quais foge toda a gente dos Ilhéus para a Bahia, e tem a terra quase despovoada”. De acordo com ele, Ilhéus fora “vila muito abastada e rica, que teve 400 até 500 vizinhos – e agora não conta com mais de cem.

Os que buscavam refúgio nas ilhas de Tinharé e Boipeva, logo foram também sitiados. Os Aimorés interrompiam as comunicações entre as capitanias de Ilhéus e Bahia – que eram unidas por uma trilha bem demarcada. Os Tupiniquim, ainda aliados dos portugueses, fugiram da luta e refugiaram-se no sertão.

O temor era justificado. Os aimorés, assim como os goitacás, eram inimigos fomidáveis, virtualmente imbatíveis quando confrontados em seu próprio território. Eram descritos como “gente esquisita e agreste, inimiga de todo o gênero humano”. Aqueles que caíam em seu poder nunca voltavam com vida para contar. O jesuíta Fernão Cardim os descreveu, em 1585, da seguinte maneira:

[…]gente barbaríssima, alheia a toda a humanidade, e onde o uso da razão parece estar mui apagado, e é a mais fera e cruel que há em todo o Brasil.

Faz também a seguinte descrição de seus costumes:

Os Aimoré ocupam 80 léguas de costa, e para o sertão quanto querem, e são senhores de matos selvagens, muito encorpados, e pela continuação do costume de andarem pelos matos bravos, tem os couros muito rijos, e para este efeito açoitam os meninos em pequenos com uns cardos para se acostumarem a andar pelos matos bravios; não tem roça, vivem de rapina e pela ponta de flecha, comem mandioca crua sem lhes fazer mal, e correm muito e aos brancos não dão senão de salto, e usam de uns arcos muito grandes e trazem uns paus muito grossos, para que em chegando logo quebrem as cabeças. Quando vêm à peleja, estão escondidos debaixo de folhas. São muito covardes em campo, e não ousam sair nem cruzam água, nem usam de embarcações, nem são dados a pescar, toda sua vivenda é do mato.

A descrição parece a de um grupo num estágio civilizacional realmente mais primitivo que o dos tupis dispersos pela costa do Brasil.

População estimada no século XVI, segundo IBGE:  30 mil.

2.4 – Goitacás – Habitavam a região costeira brasileira entre o Rio São Mateus, no atual estado brasileiro do Espírito Santo e o Rio Paraíba do Sul, no atual estado do Rio de Janeiro. Fisicamente, possuíam pele mais clara, e eram mais altos e robustos que os demais índios do litoral.

Mantinham comércio com os europeus, mas com uma peculiaridade: não se comunicavam com eles. Deixavam seus produtos em lugar mais elevado e limpo ficando a distância, observando as trocas. Davam mel, cera, peixe, caça e frutos em troca de enxadas, foices, aguardente e miçangas.

Trabalhavam o barro, enterrando seus mortos dentro de igaçabas (urnas funerárias). Faziam machados de pedra, jangadas, trabalhavam com bambu e trançavam redes de fibra e cordas.

Jean de Léry os descreve assim:

Andam nus, assim como fazem todos os brasileiros, e trazem os cabelos compridos e pendentes até as nádegas,contra o costume mais ordinário dos homens desse país, os quais”… “tosuram o cabelo na frente e o cerceiam na nuca.

2.5 – Aruaques (arahuacos, arawak, aruak) – São encontrados em diferentes partes da América do Sul – Bolívia, Brasil, Colômbia, Guiana, Paraguai, Peru, Venezuela e, outrora, também das Antilhas.

Ocupavam uma extensa zona geográfica compreendida em  parte do Amazonas e a ilha de Marajó. Fora do território brasileiro localizavam-se desde a Bolívia até  a costa setentrional da Venezuela, para o Norte chegaram  até a Flórida e para a o Sul atingiram a região do Paraguai. Eram considerados excelentes navegadores e em estágio bem adiantado de desenvolvimento possuindo agricultura organizada.

Indiaanse vrouwen, obra de P. J. Benoit, 1839. Duas mulheres aruaques do Suriname em trajes típicos. A da esquerda traz um adorno nasal.

Os aruaques foram os primeiros ameríndios a ter contato com os europeus: quando Cristóvão Colombo chegou às Bahamas, o navio atraiu a atenção dos nativos que foram ao encontro dos visitantes a nado.

No fim do século XV, os aruaques encontravam-se dispersos pela Amazônia, nas Antilhas, Bahamas, na Flórida e nos contrafortes da Cordilheira dos Andes. Os grupos mais conhecidos são os Tainos, que viviam principalmente na ilha de Hispaniola (Rep. Dominicana e Haiti), em Porto Rico e na parte oriental de Cuba.

2.6 – Caraíbas (caribes, karibs) – Povos indígenas das Pequenas Antilhas, que deram o nome ao mar do Caribe. Sua origem estaria no sul das Índias Ocidentais e na costa norte da América do Sul. Ocupavam a região do baixo Amazonas e parte do território do Amapá e Roraima.

Dispersão das línguas Caribe pelo continente sul-americano.

Acredita-se que os caraíbas tenham deixado as florestas tropicais do Orinoco, na Venezuela, para se estabelecer no Caribe. Nos séculos que antecederam a chegada de Cristóvão Colombo no arquipélago caribenho, em 1493, os caribes podem ter expulsado os igneris, povo de fala maipureana, da região norte das Pequenas Antilhas.

Os ilhéus também saqueavam e comerciavam com os tainos das Ilhas Virgens e de Porto Rico. Os caribes eram a fonte do ouro que Colombo encontrou em posse dos tainos: o ouro não era fundido pelos ameríndios das ilhas, mas sim obtido, através do comércio, de tribos do continente. Os caribes eram hábeis navegadores e construtores de embarcações, e aparentemente deviam sua hegemonia da bacia caribenha ao domínio das artes da guerra.

Os próprios caribes foram desalojados pelos europeus, e eventualmente foram todos exterminados ou assimilados durante o período colonial pelos espanhóis. Conseguiram, no entanto, manter o controle de algumas ilhas, como Dominica, São Vicente, Santa Lúcia e Trinidad.

2.7 – Charruas– Constituiam uma família formada por várias etnias: charruas, bohanos, guenoas e minuanos. Apesar de não serem etnias canoeiras, passavam de uma comarca a outra do Prata com facilidade.

Assentaram-se na margem setentrional do Rio da Prata, entre Maldonado e San Salvador, de acordo com muitos testemunhos da época da Conquista, ainda que depois do ano 1600 também tenham ocupado regiões mais setentrionais, até perto do rio Ibicuy e da Mesopotâmia argentina, ocupando então ambas as bandas do Uruguai.

Dispersão dos grupos Charrua.

Bohanos – Habitavam a costa costa oriental do Uruguai, ao norte do Rio Negro nas zonas de Salto, Paysandú e Río Negro. Algumas fontes os localizam também em Entre Rios. Foram absorvidos pelos charruas desde os princípios do século XVIII.

Guenoas – Localizavam-se entre o rio Uruguai e as costas do mar, entre Cabo Santa Catalina e o rio da Prata. Em fins do século XVII viviam errantes nos campos localizados a oeste do Rio Uruguai e ao sul das Missões Guaranis, de onde se transladaram ao território oriental, fixando-se finalmente na zona de Castillos (departamento de Rocha).

Minuanos – Localizavam-se nas planícies do norte do Paraná e Entre Ríos. Até 1630, passaram à margem oriental do rio Uruguai, onde se uniram aos charruas. Em sua maior extensão chegaram às lagoas Mirim e dos Patos. A fins do século XVIII e princípios do século XIX vagavam junto com os charruas na região nordeste do Uruguai, regressando então à Mesopotâmia argentina.

Charruas – Dedicavam-se principalmente à caça, ainda que também à pesca e à coleta. Suas armas eram as boleadeiras, arco e flechas, dardos, lanças, fundas e tacapes. Sua vestimenta compreendia um avental de couro e o “quillapí” ou manto de peles, que vestiam com o pêlo para dentro e adornado exteriormente de desenhos geométricos. Os homens usavam o tembetá e as mulheres adolescentes tinham o rosto tatuado.

Ao introduzir os espanhóis os cavalos e as vacas em território uruguaio (1611 e 1617), os charruas se adaptaram à equitação, domesticação de animais e uso do laço.

Os charruas se caracterizavam pela nudez, ainda que em épocas muito frias utilizassem um manto formado por pequenas peles (toropí ou quillapí). Conforme interagiam com os espanhóis, os charruas adaptaram chiripás, ponchos, pañuelos, camisetas, etc., mas não abandonaram seus quillapís, que davam boa proteção contra o frio e a chuva do território.

População estimada no século XVI: 35 mil.

3. Tapuiatingas, os europeus

Termo tupi para “inimigo branco”, ou “forasteiro branco”. Descreve europeus inimigos das nações tupi. Alguns exemplos de tapuiatinga são os perós (portugueses) e os maíras (franceses).

Os europeus chegaram ao território brasileiro no final do sécul XV, mais especificamente no ano de 1500 que marca o Descobrimento. Os primeiros europeus a entrar em contato com nativos do Brasil foram os portugueses. Como o processo de colonização não iniciou antes de 1532, os principais europeus que chegavam ao Brasil eram degredados, viajantes e missionários portugueses ou comerciantes franceses. A disputa pela colonização do Brasil entre portugueses e franceses inseriu-se no contexto dos conflitos indígenas e colocou-os como aliados ou inimigos potenciais.

3.1 – Maíras, os franceses– A colonização francesa nas Américas começa no século XVI, e continua nos séculos seguintes conforme a França estabelece um império colonial no hemisfério ocidental. A França fundou colônias no leste da América do Norte, em diversas ilhas do Caribe e na América do Sul. A maioria das colônias foram desenvolvidas para exportar produtos como peixe, açúcar e peles. Conforme colonizavam o Novo Mundo, os franceses estabeleceram fortes e assentamentos que viriam a tornar-se cidades como Québec e Montreal no Canadá; Detroit, St. Louis, Mobile, Baton Rouge e Nova Orleans nos Estados Unidos, Port-au-Prince e Cap-Haïtien no Haiti e São Luís no Brasil.

As invasões francesas ao Brasil registram-se desde os primeiros tempos da colonização portuguesa, chegando até ao ocaso do século XIX. Inicialmente dentro da contestação de Francisco I de França ao Tratado de Tordesilhas, ao arguir o paradeiro do testamento de Adão e incentivar a prática do corso para o escambo do pau-brasil, ainda no século XVI evoluiu para o apoio às tentativas de colonização no litoral do Rio de Janeiro (1555) e na costa do Maranhão (1594).

Da esquerda para a direita: o navegador Nicolas Durand de Villegagnon, o rei Louis XIII e o corsário René Duguay-Trouin.

A colônia que tentaram estabelecer no Rio de Janeiro foi chamada França Antártica. Ficaram a seu lado algumas tribos tupinambás, e ao lado dos portugueses os temiminós (maracajás).  A colônia estabelecida no Maranhão chamava-se França Equinocial.

No século XVIII o Brasil ainda sofreria tentativas de invasão por parte de corsários franceses como Duclerc e Duguay-Trouin em 1710 e 1711 respectivamente, além de uma invasão à Fernando de Noronha pela Companhia Francesa das Índias Ocidentais em 1736. Nos últimos anos do século XIX, a partir de 1895, ainda surgiriam conflitos fronteiriços entre o Brasil e a França nas regiões limítrofes entre o Amapá e a Guiana Francesa.

Líderes notáveis: Nicolas Durand de Villegagnon, Daniel de La Touche, rei Luis XIII.

3. 2 – Neerlandeses – Postos comerciais e plantações holandesas nas Américas precedem as mais conhecidas atividades coloniais holandesas na Ásia. Enquanto o primeiro forte holandês foi construído na Ásia em 1600, os primeiros fortes e assentamentos no rio Essequibo (Guiana) e na Amazônia são da década de 1590. Colonização, de fato, com assentamentos holandeses em novas terras, não era tão comum como foi com outras nações européias. Muitos dos assentamentos holandeses foram perdidos ou abandonados no fim do século, mas a Holanda conseguiu reter a possessão do Suriname até sua independência em 1975 e ainda mantém as Antilhas Holandesas e Aruba, que permanecem dentro do Reino da Holanda até hoje.

Os neerlandeses mantiveram colônias no Caribe pelo menos desde 1628. Dominaram as Antilhas Holandesas, Tobago e as Ilhas Virgens Holandesas. Mantiveram também colônias na América do Norte em regiões hoje dentro dos territórios estadunidenses e canadenses, como a colônia de Nova Holanda (entre a Virgínia Inglesa e o Canadá Francês). O primeiro assentamento holandês nas Américas foi fundado em 1615 e chamava-se Forte Nassau e ficava onde hoje é Albany, no estado de Nova Iorque. Outro Forte Nassau foi construído em 1623 no rio Delaware, Nova Jersey. Outras tantas foram fundadas na ilha de Manhattan, no rio Connecticut, no rio Little, etc. A perda da Nova Holanda na América do Norte levou à Segunda Guerra Anglo-Holandesa (1665-1667), conflito que terminou com o Tratado de Breda. O tratado cedia o território da Nova Holanda na América do Norte em troca do Suriname na América do Sul.

Jacob Willekens e Johan Maurits van Nassau-Siegen.

Em 1616 a Companhia das Índias Ocidentais Holandesas construiu um forte no rio Essequibo, Guiana. Lá foram estabelecidas plantações de cana de açúcar com trabalho escravo africano. A presença de ingleses na região das Guianas e do Suriname levou a diversos conflitos entre estas duas potências coloniais. O Suriname esteve sob controle inglês desde 1799 mas foi devolvido à Holanda em 1816. O Suriname foi vendido em 1683 para a Companhia das Índias Ocidentais e passou a chamar-se Guiana Holandesa.

Os neerlandeses também tentaram manter uma colônia no Brasil. Invadiram Salvador (então capital da Colônia) em 1624 aí ficando até 1º de maio 1625. A posterior invasão, em Pernambuco, de Olinda e Recife, constituiu um projeto de colonização que durou de 1630 a 1654. A Nova Holanda foi administrada de 1637 a 1644 por Maurício de Nassau, notável administrador.

Líderes notáveis: Jacob Willekens, Johan Van Dorth, Johan Maurits van Nassau-Siegen.

3.3 – Perós ou portugueses – Os portugueses já foram estudados no terceiro artigo da série, quando tratamos da Era das Navegações. Embora já houvessem aqui degredados, os historiadores situam o início da colonização por volta de 1530, quando começou a cultura da cana-de-açúcar e a instalação de engenhos para a fabricação do açúcar. Mas a implantação deste esquema exigia atividades complementares, secundárias porém fundamentais para a produção açucareira: a pecuária e a agricultura de subsistência, o que acabaria por demandar algum tipo de colonização.

Pedro Alvares Cabral, Rei Dom João III e Mem de Sá.

Líderes notáveis: Pedro Álvares Cabral, Duarte Coelho, Mem de Sá.

Bandeirantes – São normalmente retratados como figuras altivas, vestindo trajes, chapéu e botas. No entanto, não eram exatamente assim. Há trezentos anos, os “paulistas” tinham a fama de bárbaros.

Entre seus feitos estão a colonização do Piauí, a contenção de conflitos com os índios na Bahia, e incursões até o Sul do país que garantiram a posse de terras que de outra maneira teriam sido colonizadas por espanhóis.

Domingos Jorge Velho, como representado por Benedito Calixto em quadro de 1903.

Eram em geral pessoas pobres e analfabetas. Muitos deles mestiços descendentes diretos de índios. A influência indígena sobre o bandeirante é indispensável para a sua atuação, e ele incorpora diversos traços da vida indígena.

As tropas caminhavam descalças por extensos territórios, sujeitas a todo desconforto, vulneráveis a ataques de animais, tribos inimigas e à fome. Durante o processo de colonização, o bandeirante desenvolveu uma cultura própria muito distante dos padrões europeus.

Uma bandeira, nome que pode vir do costume tupiniquim de lavantar a bandeira em sinal de guerra, possuía divisão de tarefas e hierarquia. Seguem alguns exemplos:

Cabo da tropa ou capitão do arraial – o comandante, quase sempre um sertanista experiente. Incorporava às tropas seus filhos, parentes e agregados como auxiliares, o que tornava as bandeiras um negócio eminentemente familiar.

Capelão – Encarregado de dar assistência espiritual à tropa.

Alferes-mor – Presente em grupos maiores, responsável pela partilha dos índios capturados

Escrivão – Também presente em grupos maiores, era responsável por tomar notas das transações, fazer levantamentos de perdas, ganhos, fazer relatos, etc.

Mulheres índias ou mestiças (temericó) – acompanhavam os bandeirantes na condição de escravas (sexuais, provavelmente).

Tropa – A maioria era constituída de escravos indígenas, geralmente guaranis, que formavam tropas auxiliares encarregadas de combater e capturar índios no sertão.

Armadores – Os armadores forneciam correntes, pólvora e índios sertanistas com a expectativa de receber metade do lucro da expedição. Ou seja, metade dos índios trazidos do sertão.

Guias, intérpretes, iscas humanas e “agentes infiltrados” – Mamelucos, descendentes de pai branco e mãe índia, muitas vezes atuavam como guias e intérpretes. Serviam também de isca para as capturas: vestidos com batina preta e e cabelo cortado em tonsura, passavam por jesuítas e assim escravizavam os inimigos sem maiores resistências.

Os conhecimentos herdados pelos mamelucos eram cruciais para a sobrevivência no sertão: orientação e observação dos movimentos do Sol, dos astros e dos rastros, técnicas de caça e pesca, construção de embarcações e mareagem pelos rios, comunicação por meio do fogo e da sinalização com gravetos, além da classificação da flora e da fauna, para a seleção de alimentos, bebidas e medicamentos.

Para se ter uma idéia de como era um bandeirante veterano, podemos ficar com a descrição que o bispo de Olinda, D. Francisco Lima, fez de Domingos Jorge Velho quando o viu em Piauí, no ano de1697:

Este homem é um dos maiores selvagens com que tenho topado […] porque nem falar sabe, nem se diferencia do mais bárbaro tapuia […], e não obstante o haver-se casado de pouco, lhe assistem sete índias concubinas, e daqui se pode inferir como procede no mais; tendo sido a sua vida […] até o presente, andar metido pelos matos à caça de índios, e de índias, estas para o exercício de suas torpezas, e aqueles para os granjeios dos seus interesses.

Líderes notáveis: Domingos Jorge Velho, Raposo Tavares.

Jesuítas – Verdadeiros entraves para o sistema escravista, os jesuítas reuniam os índios em aldeias missionárias, e pressionavam a Coroa para proibir o cativeiro dos índios. A “Lei sobre a Liberdade dos Gentios” de 1570 estabeleceu um dos fundamentos da política indigenista. Esta declarava todos os índios livres, salvos os que estivessem sujeitos à “Guerra Justa” – grupos inimigos que apresentavam resistência armada.

Criada em 1534 por Inácio de Loyola, a Companhia de Jesus foi um modelo de ordem religiosa nascida da Contrarreforma (Reforma Católica). A Societas Iesu procurava reforçar o catolicismo na Europa por meio do ensino. Nas conquistas ultramarinas ibéricas, procuravam expandi-lo pela catequese. Aqui abriram colégios e se distribuíram por quase todas as regiões. Participaram da fundação de cidades como Salvador, Rio de Janeiro e São Paulo. Foram decisivos na interiorização da colonização, até então concentrada na faixa litorânea. Estiveram também em Nova Granada (atual Colômbia) e no Sul do continente, em regiões de colonização espanhola.

O missionário jesuíta José de Anchieta.

Os jesuítas se espalharam pelo território brasileiro desde 1549, por meio de missões volantes centralizadas nos colégios da Bahia e do Rio de Janeiro. Desde 1556 foram fundadas Casas nas capitanias de Espírito Santo, São Vicente, Porto Seguro e Bahia. Em Olinda, desde 1558; em Rio de Janeiro e Pernambuco, desde 1568 e 1572, respectivamente. Estes lugares ofereciam ensino elementar complementar da catequese entre os indígenas. Eram os núcleos da expansão missionária que originariam residências, missões, colégios, igrejas e seminários. Mas havia uma vasta região a conquistar que se estendia do Pernambuco até Maranhão pela costa, e os confins que se estendiam para o interior. Acompanhando a expansão das forças coloniais, os jesuítas foram constituindo novas frentes e integrando-as ao projeto de fazer cidades e cidadãos católicos.

Líderes notáveis: Inácio de Loyola, Manuel de Nóbrega, José de Anchieta, Antônio Vieira.

4. Análise geral

Embora seja muito difícil colocar todos os grupos envolvidos num esquema pronto, podemos reduzir a nossa análise aos três grupos principais: tupis-guaranis, “tapuias” e europeus. Os tupis e guaranis ocupavam sobretudo o litoral; tapuias ocupavam a região interior do continente e os europeus , vindos de fora, estabeleciam-se na costa e penetravam no território progressivamente.

Povos indígenas do Brasil na época do descobrimento.

OUTRAS PARTES DA SÉRIE:

FONTES E REFERÊNCIAS:

Web

Livros, revistas, artigos e entrevistas

  • Bueno, Eduardo. Brasil: uma História. São Paulo: Ática, 2002.
  • Bueno, Eduardo. Capitães do Brasil – A Saga dos Primeiros Colonizadores. Coleção Terra Brasilis. Objetiva, 1999.
  • Staden, Hans. Duas Viagens ao Brasil.
  • Silva, Isabelle Braz Peixoto da. Vilas de índios no Ceará Grande: dinâmicas locais sob o diretório pombalino. Campinas: Unicamp, 2003.
  • Galvão, R.. Arte Tremembé. Fortaleza: SEBRAE-CE.
  • FIGUEIRA, José Joaquín. Breviario de Etnología y Arqueología del Uruguay.
  • Guia do Estudante, seção Aventuras na História – Tupinambás x Tupiniquins: questão de estilo
  • Brandão, Carlos Rodrigues. Os Guarani: índios do Sul – religião, resistência e adaptação
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