Os deveres do professor

Uma das maneiras mais eficientes de combater a doutrinação política, partidária e ideológica dentro das escolas – públicas ou privadas – é a conscientização de professores, pais e alunos sobre o que é a doutrinação em sala de aula.

sala de aula

 

Esta é uma lista de deveres do professor proposta por Miguel Nagib, advogado e fundador do Movimento Escola Sem Partido, a qual compartimos com nossos leitores juntamente à sua base legal.

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Educação na Idade Média, preservação e consolidação dos saberes

Por Alessandro Barreta Garcia. Contribuição espontânea enviada por e-mail. Publicado originalmente no blog do Movimento Aliança Cidadã. Para ler o artigo original, clique aqui.

Muito se escuta no senso comum, bem como em livros didáticos[1], que a Idade Média se traduziu em um período estático e educacionalmente restrito aos dogmas religiosos. Entretanto, já apresentamos inclusive que em elação a educação das mulheres, muitas das informações que recebemos são absolutamente refutáveis[2]. Quanto à imutabilidade da educação, nada é mais falso.

Dessa forma, e na contramão das ideologias alienantes, a Idade Média foi o período que mais contribuiu para a consolidação de um ideário educacional essencialmente racionalista, e não absolutista. Tal tipo de educação, não nos parece mais ser considerado importante, sobretudo, em países com os piores índices educacionais do planeta. Como exemplo o Brasil, pois, certamente nos falta a razão.

Uma das grandes bases de uma educação sólida e eficiente é seu caráter mais ou menos estático, imutável e estabilizador. Qualquer país com o mínimo de formação intelectual reconhece tal premissa. Os que não reconhecem são aqueles que não compartilham das melhores posições nos testes internacionais. Por isso, defendem o indefensável, contrariam a lógica, e apenas se afundam no mais triste tipo de educação, o progressista e irracional. Esse tipo já foi discutido anteriormente[3].

Afinal, que tipo de educação ocorria na Idade Média?

Com os chamados pais da Igreja, fase patrística dos já chamados padres, observamos aqueles que foram os primeiros a refletir, discutir e formalizar os dogmas, essa era a chamada fase inicial da Igreja. Tinham alguns deles o contato imediato com os apóstolos. Nessa época surgem as cartas por Clemente de Alexandria (primeiro grande educador cristão), as discussões dialéticas sobre as heresias dentro da Igreja, destacando Minúcio Félix e Santo Irineu, e ganhando seu caráter cientifico com Tertuliano, Clemente de Alexandria e Orígenes (defensor da educação das mulheres assim como São Jerônimo). Com o Édito de Milão em 313 por Constantino, o Cristianismo passou a se ampliar significativamente. A fase patrística se estendeu do séc. V ao séc. VIII. Essa era para Cambi (1999), a paideia cristã. Nesse período, uma série de embates dialéticos tomava conta do ambiente educacional, e certamente contribuíram muito para o desenvolvimento das técnicas de um bom debate. O fruto desse ambiente será certamente a escolástica.

Como bem nos lembra Woods Jr (2008):

Como educadora da Europa, a Igreja foi a única luz que sobreviveu às constantes invasões bárbaras dos séculos IV e V e, nos séculos IX e X, às mais devastadoras ondas de ataques, desta vez dos vikings, magiares, mulçumanos… (WOODS JR, 2008, p. 21-22).

A Igreja enquanto administradora, educadora e moralizadora da Idade Média, foi capital para a reconstrução e o aprimoramento do conhecimento, bem como da arte de civilizar. Nesse sentido, foram os mosteiros que legaram a nós os benefícios de uma civilização culta. O estudo se dava a partir do latim, literatura, gramática, dialética e retórica. Deve-se ainda aos beneditinos a organização final das sete artes liberais: gramática, dialética, retórica aritmética geometria, astronomia e música.

Observa-se entre os monges o ideal educacional disciplinado. Neste ideal, era possível ser copista, uma espécie de continuador das tradições, um herdeiro do conhecimento, pelo qual deveria possibilitar ao próximo o acúmulo e preservação da informação. Essa conservação foi inestimável, ou até inigualável. Ademais, o sistema de trocas e intercâmbio de cópias entre ordens era além de necessário, fundamental para conservar o legado histórico até aquele momento. Como legado, imprescindível até nossos dias.

Isto explica porque a educação sob uma perspectiva tradicional, rígida em alguns momentos, imutável sobre determinados aspectos e mais ou menos estável, é fundamento para uma transmissão sólida e eficaz dos conhecimentos. Já quando uma sociedade nega essa premissa, nega a racionalidade, e contrapõe-se a conservar conhecimentos acumulados ao longo da história, só há um resultado. E esse resultado o Brasil já conhece, pois, nos encontramos entre últimas colocações nos testes internacionais ou uma das piores posições do mundo no requisito educação. Como melhorar? Olhe para o passado. Conserve, melhore ou aprimore o que já foi bom. Sem conservar as coisas boas do passado, nenhum presente será sólido, justo e bom.


Referências:

CAMBI, F. História da pedagogia. Tradução: Álvaro Lorencini – São Paulo: Fundação Editora da UNESP (FEU), 1999.

WOODS JR., T E. Como a Igreja Católica construiu a Civilização Ocidental. Trad. Èlcio Carillo; rev. Emérico da Gama. – São Paulo: Quadrante, 2008.


Notas:

Para o Bem ou para o Mal

Numa época em que a doutrinação nas escolas é vista como a coisa mais normal do mundo e as pessoas tem por certo que é papel do Estado “formar cidadãos”, numa época em que o Governo ensina nas escolas aquilo que depois vai colher como opinião pública, a sabedoria de John Stuart Mill cai como uma luva:

Os sentimentos morais não são inatos, mas adquiridos, mas tal não significa que não são naturais, pois é natural para o homem, falar, raciocinar, construir cidades, cultivar a terra, apesar destas competências serem faculdades que são adquiridas. Os sentimentos morais, na realidade, não fazem parte da nossa natureza, se entendermos por tal que deviam estar presentes em todos nós, num grau apreciável, realidade que indubitavelmente é um fato muito lamentável, reconhecido até pelos que mais veementemente acreditam na origem transcendente destes sentimentos. No entanto, tal como as outras faculdades referidas, a faculdade moral, não fazendo embora parte da nossa natureza, vai-se desenvolvendo naturalmente; tal como as outras, pode nascer espontaneamente e, apesar de muito frágil, no início, é capaz de atingir, por influência da cultura, um grau elevado de desenvolvimento. Infelizmente, também, mas recorrendo, tanto quanto é necessário, às sanções externas, e aproveitando a influência das primeiras impressões, ela pode ser desenvolvida em qualquer direção, ou quase, a ponto de não haver ideia, por mais absurda e perigosa que possa ser, que não se consiga impor ao espírito humano, conferindo-lhe, pelo jogo dessas influências, toda a autoridade da consciência.

John Stuart Mill, in ‘Utilitarismo’

Educação não é instrução

Trechos do capítulo XI – la educación no es la instrucción – do livro Política y Sociedad en Argentina, de Juan Bautista Alberdi. Traduzido e adaptado para o português do Brasil por Renan Felipe dos SantosCompreende uma análise do tipo de educação proposta por Alberdi para a Argentina e a América de seu tempo. Texto comentado por Renan Felipe dos Santos.

Belgrano, Bolívar, Egaña e Rivadavia compreenderam desde seu tempo que só por meio da educação conseguiriam algum dia estes povos tornarem-se merecedores da forma de governo que a necessidade lhes impôs antecipadamente. Mas eles confundiram a “educação” com a “instrução”, a espécie com o gênero. As árvores são suscetíveis de educação; mas só se instrui aos seres racionais. Hoje em dia a ciência pública se dá conta desta diferença capital, e não dista muito a ocasião célebre em que um profundo pensador –M. Troplong–, faz sensível esta diferença quando da discussão sobre a liberdade de ensino na França.

Juan Bautista Alberdi

Aquele erro conduziu a outro, o de desatender à educação que se opera pela ação espontânea das coisas, a educação que se faz pelo exemplo de uma vida mais civilizada que nossa educação fecunda, que Rousseau compreendeu em toda sua importância e chamou educação das coisas.

Comentários: Alberdi faz aqui uma defesa de um tipo específico de educação, que é a educação através da prática, e sobretudo a educação espontânea em detrimento de uma doutrinação filosófica pública e compulsória.

Ela deve ter o lugar que damos à instrução na idade presente de nossas repúblicas, por ser a mais eficaz e a mais apta para tirá-las com prontidão do atraso em que existem. Nossos primeiros jornalistas disseram: “de que modo progride a cultura dos grandes estados europeus? Pela instrução principalmente: logo este deve ser nosso ponto de partida”. Eles não viram que nossos povos nascentes estavam na situação de fazer-se, de formar-se, antes de instruir-se, e que se a instrução é o meio de cultura dos povos já desenvolvidos, a educação por meio das coisas é o meio de instrução que mais convém a povos que começam a criar-se.

Quanto à instrução que se deu a nossos povos, jamais foi adequada às suas necessidades. Copiada da que recebiam povos que não se encontram em nossa situação, foi sempre estéril e sem resultados proveitosos. A instrução primária dada ao povo foi ainda mais perniciosa. De que serviu ao homem do povo o saber ler? Para ver-se inserido como instrumento na gestão da vida política que não conhecia. Para instruir-se no veneno da imprensa eleitoral, que contamina e destrói em vez de iluminar; para ler insultos, injúrias, sofismas e notícias de incêndios, a única coisa que estimula sua curiosidade inculta e grosseira.

Comentário: A crítica de Alberdi não poderia ser mais atual. Continuamos, aqui na América do Sul, a copiar modelos que surgem em outros lugares como a Europa e que pouco ou nada tem a ver com as necessidades da nossa sociedade – valorizamos uma educação universalista, pouco prática, e muito cara aos cofres públicos. Alberdi também critica o excesso de politização da mídia, puramente eleitoreira, que também é típico aqui no Brasil, sobretudo nos jornais e revistas esquerdistas.

Universidad Nacional de Córdoba, a universidade mais antiga da Argentina.

A instrução superior em nossas repúblicas não foi menos estéril e inadequada à nossas necessidades. Que tem sido nossos institutos e universidades da América do Sul, senão fábricas de charlatanismo, de ociosidade, de demagogia de presunção titulada? Os ensaios de Rivadavia, na instrução secundária, tinham o defeito de que as ciências morais e filosóficas, eram preferidas às ciências práticas e de aplicação, que são as que devem nos por em atitude de vencer esta natureza selvagem que nos domina por todas as partes, sendo a principal missão de nossa cultura atual o convertê-la e vendê-la. O principal estabelecimento se chamou “colégio de ciências morais”. Teria sido melhor que fosse “colégio de ciências exatas e de artes aplicadas à indústria”.

Comentário: a crítica de Alberdi também pode ser aplicada ao nosso sistema de ensino superior. Verdadeiras fábricas de charlatanismo, ociosidade, demagogia e presunção titulada. É inúmero o número de estudantes dando despesa nas faculdades federais sendo sustentados por verba pública sob a forma de bolsas, materiais, instalações, etc. E isto para, na maioria dos casos, estar lá a fazer politicalha e servir de massa de manobra para partidos políticos como o PSOL, o PCO, o PT, etc. A agitação política é tanta que chega a haver “greve” de estudantes, revoltas dentro das dependências da universidade, montagem de barricadas, confrontos com a polícia, obstrução de vias, perturbação das aulas e das provas, depredação de patrimônio público e privado, etc.

Não pretendo que a moral deva ser esquecida. Sei que sem ela a indústria é impossível; mas os fatos provam que se chega à moral mais rápido pelo caminho dos hábitos laboriosos e produtivos destas noções honestas, que pela instrução abstrata. Estes países necessitam mais de engenheiros, de geólogos e naturalistas, que de advogados e jornalistas. Sua melhora se fará com caminhos, com poços artesianos, e não com jornais agitadores ou servis.
Em nossos planos de instrução devemos fugir dos sofistas, que fazem demagogos, e do monasticismo que faz escravos e caráteres dissimulados.

A instrução para ser fecunda há de limitar-se a ciências e artes de aplicação, a coisas práticas, a línguas vivas, a conhecimentos de utilidade material e imediata. O idioma inglês, como idioma da liberdade da indústria e da ordem, deve ser ainda mais obrigatório que o latim; não deverá dar-se diploma nem título universitário ao jovem que não o fale e escreva. Só esta inovação operaria uma mudança fundamental na educação da juventude. Como receber o exemplo e a ação civilizante da raça anglo-saxã sem a posse geral de sua língua?

Comentário: Alberdi parece antecipar em um século a necessidade de adaptar-se a um mercado globalizado. Primeiramente, ele enfatiza a importância da instrução prática no comércio, na indústria, deixando claro que a educação moral, filosófica, religiosa, etc, não é tarefa do sistema público de educação. Em segundo momento, ele sugere o ensino da língua franca do comércio, o inglês, na instrução dos sulamericanos. Segundo ele, isto capacitará o sulamericano para receber “o exemplo e a ação civilizante” dos ingleses e americanos: o progresso através da indústria e do comércio.

Para Alberdi, a educação prática deve ser prioritária. É uma defesa do ensino técnico, profissional e vocacional, que é essencial para a formação de mão-de-obra qualificada.

O plano de instrução deve multiplicar as escolas de comércio e de indústria, fundando-as em povos mercantis. Nossa juventude deve ser educada na vida industrial e para isto ser instruída nas artes e ciências auxiliares da indústria. O tipo do nosso homem sulamericano deve ser o homem apto para vencer ao grande e opressivo inimigo do nosso progresso: o deserto, o atraso material, a natureza bruta e primitiva do nosso continente. A este fim deve tender-se a tirar nossa juventude das cidades mediterrâneas onde vive o antigo regime com seus hábitos de ociosidade, presunção e diversão, e atraí-la aos povos litorais para que se inspire da Europa que vem a nosso solo e dos instintos da vida moderna. Os povos litorais pelo fato de sê-lo, são escolas mais instrutivas que nossas pretenciosas universidades.

A riqueza e a liberdade, frutos de uma ordem espontânea e da diligência no comércio e na indústria.

A indústria é o único meio de encaminhar a juventude à ordem. Quando a Inglaterra viu arder a Europa na guerra civil, não entregou sua juventude ao misticismo para salvar-se; levantou um templo à indústria e lhe rendeu culto, o que  obrigou aos demagogos a envergonhar-se de sua loucura.

A indústria é o calmante por excelência. Ela conduz pelo bem-estar e pela riqueza, à ordem, pela ordem à liberdade: exemplos disto são a Inglaterra e os Estados Unidos. A instrução na América, deve encaminhar seus propósitos à industria.

Comentário: Alberdi demonstra nestes últimos trechos, uma convicção liberal bem marcada: a confiança no estabelecimento da liberdade através de uma ordem espontânea, mobilizada pelo interesse humano de buscar a riqueza. Com isso, estariamos seguindo o exemplo da Inglaterra e dos Estados Unidos naquela época e criando nações social e politicamente livres e economicamente mais prósperas.

O negro e a direita

A direita negra, ou conservadorismo negro, é um movimento político e social enraizado nas comunidades de descendentes de africanos que se alinham ao movimento conservador ou liberal. Entre os americanos, é referido como conservadorismo negro (em inglês, conservative ou conservador é um termo quase equivalente ao “direitista” aqui). O direitismo negro americano enfatiza o tradicionalismo, o patriotismo, o capitalismo, o livre mercado e um forte conservadorismo social dentro do contexto da Black Church.

I. Conceitos-chave:

Black church – Igrejas que ministram para congregações predominantemente negras nos Estados Unidos. Algumas são de denominações predominantemente negras como a Igreja Episcopal Metodista Africana (AME). A maioria das primeiras congregações e igrejas negras formaram-se antes de 1800 por negros livres – por exemplo, na Filadélfia (Pensilvânia), Petersburgo (Virgínia) e Savana (Geórgia). A mais antiga igreja batista negra fica em Kentucky.

Empowerment – Aumentar a força espiritual, política, social, educacional ou econômica de indivíduos e comunidades. Dentro de um contexto empresarial, refere-se a garantir maior poder de decisão para funcionários.

Black empowerment – Empowerment de indivíduos ou comunidades negras através do aprimoramento acadêmico e profissional, estabelecimento de fortes relações econômicas ou mesmo estimulando a responsabilidade familiar e a gestão de negócios familiares.

Welfare State – Também chamado “estado do bem-estar social”, é um tipo de organização política e econômica que coloca o Estado  como agente da promoção social e organizador da economia. Nesta orientação, o Estado é o agente regulamentador de toda vida e saúde social, política e econômica do país em conluio com sindicatos e empresas privadas, em níveis diferentes, de acordo com o país em questão.

Beloved Community – Conceito central da filosofia de Martin Luther King Jr. King o define assim o seu objetivo: “é a reconciliação, … redenção, a criação de uma amada comunidade.” Junto à SCLC, King definia: “O objetivo final da SCLC é promover e criar a ‘amada comunidade’ na América, onde a irmandade é uma realidade… A SCLC trabalha pela integração. Nosso objetivo é a genuína vida interpessoal e intergrupal — integração.” E em seu último livro ele declara: “Nossas lealdades devem transcender nossa raça, nossa tribo, nossa classe, e nossa nação…”

A visão da sociedade de King era a de uma sociedade completamente integrada, uma comunidade de amor e justiça dentro da qual a irmandade seria uma realidade em toda a vida social. Em sua mente, esta comunidade seria a expressão corpórea ideal da fé cristã.

II. Características da direita entre os negros americanos
Algumas das principais características da direita entre os negros americanos é a ênfase na escolha pessoal e nas responsabilidades acima do status sócio-econômico e do racismo institucional. Tradicionalmente, políticos negros americanos tendem a alinhar-se com o pensamento de Booker T. Washington. Para muitos direitistas negros, a missão principal é trazer sucesso à comunidade negra aplicando os seguintes princípios fundamentais:

  • A busca da excelência educacional e profissional como um meio de avançar dentro da sociedade;
  • Políticas que promovam segurança na comunidade além da típica rotulação de criminosos como “vítimas” do racismo da sociedade.
  • Desenvolvimento econômico local através da livre empresa, em vez de buscar por assistência do governo.
  • Empowerment do indivíduo através do auto-desenvolvimento (virtude), consciência e graça. (o último conceito é espiritual, e tem a ver com a Black Church)

Conservadores negros podem ter idéias em comum com nacionalistas negros dada a sua crença compartilhada no black empowerment e na teoria de que os negros tem sido enganados pelo Welfare state.

Os direitistas negros, tipicamente, se opoem às chamadas “ações afirmativas”. Argumentam que os esforços para obter algum tipo de “reparação” pela escravidão são tanto equivocados como contra-produtivos. Direitistas negros famosos são Thomas Sowell, Armstrong Williams, Walter Williams e Clarence Thomas, além de outras figuras históricas memoráveis como Frederick Douglass, Martin Luther King Jr., Booker T. Washington, etc. Os conservadores negros são a favor da integração e consequentemente entram em desacordo com nacionalistas negros, que são mais nativistas e segregacionistas. São mais inclinados a apoiar políticas econômicas de globalização, livre mercado e cortes na tributação.

O termo “Black Republican” (Negro Republicano) foi criado pelos Democratas (partido de esquerda americano) em 1854 para descrever o recém-formado Partido Republicano. Ainda que a maioria dos republicanos da época fossem brancos, o Republican Party foi fundado por abolicionistas e apoiava a igualdade racial. Os democratas sulistas usavam o termo de forma pejorativa, acreditando que a vitória de Abraham Lincoln em 1860 levaria a revoltas dos escravos. O uso do termo continuou após a Guerra Civil Americana para refletir a visão dos opositores aos republicanos radicais (uma facção do Republican Party) durante o período da Reconstrução (período da história americana pós-guerra civil que vai de 1865 a 1877).  No século seguinte o termo passou a designar especificamente os negros afiliados ou eleitores do Partido Republicano.

Republicanos negros, como Colin Powell, são adeptos de idéias sociais articuladas pelos primeiros republicanos radicais, como Frederick Douglass, ao mesmo tempo que apoiam a mensagem de auto-empowerment de Booker T. Washington. Muitos conservadores sociais negros mantém uma visão bíblica de empowerment, ainda que apreciem a ênfase de Booker na realização pessoal.

III. Pensadores

Booker Taliaferro Washington

Booker Taliaferro Washington (5 de abril de 1856-14 de novembro de 1915), educador e reformador, primeiro presidente e principal desenvolvedor do Tuskegee Normal and Industrial Institute (hoje Tuskegee University), e o mais influente porta-voz dos negros americanos entre 1895 e 1915.

Washington acreditava que os melhores interesses dos negros na era pós-Reconstrução poderiam ser realizados através da educação nas habilidades manuais e industriais e no cultivo das virtudes da paciência, do empreendedorismo, e da poupança. Incitava outros negros a cultivar suas habilidades na indústria e na agricultura para adquirir segurança econômica. Assim, a aquisição de riqueza e cultura iria gradualmente ganhar respeito e aceitação para eles. Isto levaria à derrubada das divisões entre as duas raças e levar à igualdade de cidadania para os negros afinal. No seu discurso histórico (18 de setembro de 1895) para uma audiência racialmente mista, numa exposição em Atlanta, Washington expôs sua abordagem pragmática na famosa frase: “Em tudo que é puramente social podemos estar separados como dedos e ainda assim ser um só, como uma mão, em tudo que é essencial ao progresso mútuo.”

Frederick Douglass
Frederick Douglass foi uma testemunha e uma vítima da escravidão e do preconceito. Sofreu com a separação de sua família pelo seu mestre, e foi submetido a castigos físicos como chicotadas. No sul dos EUA, antes da guerra civil, era ilegal ensinar escravos a ler e escrever, mas Douglass aprendeu de qualquer jeito, e secretamente educou outros escravos. Depois de conseguir escapar, participou exaustivamente de reuniões dos movimentos anti-escravagistas no norte dos EUA por mais de duas décadas.

Douglass adotou o ideal de liberdade igualitária. Apoiava o sufrágio feminino, confiante de que as mulheres tem o mesmo direito a tudo que os homens tem. Buscava a tolerância para imigrantes perseguidos. Além-mar, uniu-se a Daniel O’Connell na demanda pela liberdade aos irlandeses, e conferenciava junto com Richard Cobden e John Bright, discursando sobre o livre comércio.

Douglass acreditava que a propriedade privada, o empreendedorismo competitivo e a auto-ajuda são essenciais para o progresso humano. A propriedade, escrevia, produziria para nós a única condição sobre a qual qualquer pessoa pode atingir a dignidade e a verdadeira humanidade… conhecimento, sabedoria, refinamento, educação, todos são fundados no trabalho e na riqueza que o labor traz… sem dinheiro, não há tempo livre, sem tempo livre não há pensamentos, sem pensamentos não há progresso.

Martin Luther King Jr.
Destacado orador e ativista pelos direitos civis, Martin Luther King Jr. é melhor conhecido pela sua luta na igualdade de direitos para os negros americanos. Envolveu-se no movimento do boicote aos ônibus em Montgomery contra a segregação racial no transporte público, e lutou pela reforma do direito ao voto (Voting Rights Act). Evangélico da tradição batista, fez dos seus ensinamentos uma verdadeira doutrina de amor ao próximo e de como melhorar o mundo de maneira não-violenta. King, em oposição a radicais como Malcolm X, defendia que a luta pelos direitos deveria ser feita de maneira pacífica, pois a não-violência é um modo de protesto que só os homens de coragem podem enfrentar.

IV. Na cultura popular
Talvez a série de televisão que melhor apresenta personagens negros e conservadores seja Um Maluco No Pedaço (The Fresh Prince of Bel-Air). O personagem de Will Smith, um jovem malandro e irresponsável da Filadélfia, confronta uma realidade diferente quando vai morar com a sua tia, na casa da família Banks em Bel-Air (Los Angeles). A cultura da casa é conservadora e ordeira. Os residentes, em sua maioria, primam pela responsabilidade, pela coesão familiar, e pelo desenvolvimento individual de cada um. Os exemplos mais fortes:

Philip Banks (Tio Phill), um conceituado advogado de Bel-Air. Rigoroso e orgulhoso de seu trabalho, preocupa-se com sua imagem pública. É um pai e marido atencioso: preza rigorosamente pela educação de seus filhos Carlton, Hillary e Ashley.

Carlton Banks, extremo oposto do Will. Com aparência e comportamento de “mauricinho”, inteligente embora não muito esperto, veste-se, via de regra, com uma roupa social bem característica dele, e que é motivo de chacota para o Will. No entanto, é o Carlton que ajuda o Will quando este precisa. E não são poucas vezes: para estudar, para conseguir dinheiro ou até mesmo para conseguir conquistar uma gata mais “refinada”.

Geoffrey Barbara Buttler, o mordomo da casa. Acostumado a trabalhar com aristocratas ingleses, Geoffrey, mesmo em sua posição de empregado, é o mais esnobe e ao mesmo tempo o mais refinado na casa dos Banks. No entanto, Geoffrey também é um personagem sarcástico, e não perde uma boa oportunidade de tirar com a cara do Will. Devido ao fato dos telespectadores americanos não estarem familiarizados com ingleses negros, a personalidade de Geoffrey foi mudando ao longo da série para americanizá-lo. Ao longo da série ele fica mais sarcástico e bem-humorado, e menos metódico também.

V. No Brasil:
Embora hoje no Brasil a direita não esteja representada partidariamente, ela é visível em manifestações daqueles grupos a que a mídia se refere como “bancada evangélica” ou “bancada ruralista” e mais recentemente nas marchas contra o aborto e marchas contra a corrupção. Conforme pesquisas e referendos confirmam, o brasileiro é um povo bastante conservador. É a favor do porte de armas, de penas mais severas para os bandidos, da redução da maioridade penal, é contrário ao aborto, a legalização das drogas, da prostituição, etc.

Os negros brasileiros não estão de fora, embora não formem um movimento organizado como o que vemos nos EUA.

Estima-se que a população negra no Brasil represente uns 6,9% do total. Em números absolutos, seriam cerca de 13 milhões de pessoas. Estima-se também que a maioria dos negros (11 milhões) pertença a alguma denominação religiosa de cunho evangélico. No entanto, existem também grupos negros entre os católicos, como a tradicional Irmandade dos Homens Pretos que tem mais de 320 anos de existência.

A Irmandade dos Homens Pretos, associação cristã negra mais tradicional do Brasil.

Figuras Históricas que podem ser relacionadas com a direita, entre os negros, no Brasil:

Agostinho José Pereira
Agostinho José Pereira é considerado pelo Movimento Evangélico Negro como o pioneiro do protestantismo no Brasil. Fundador da Igreja do Divino Mestre, que é considerada pelo Movimento Evangélico Negro como a primeira igreja protestante no Brasil, apesar de a historiografia “oficial” não a reconhecer como tal.

Tal como muitos ativistas cristãos da época, Agostinho defendia a libertação dos escravos desde uma perspectiva bíblica. Pregava para negros e negras libertos, ensinava-os a ler e escrever, e foi responsável pela difusão do Evangelho entre os negros livres do Brasil em plena época da escravidão, e sob forte repressão do Estado à liberdade religiosa.

João Cândido Felisberto


Gaúcho e descendente de ex-escravos, João Cândido Felisberto ingressou na escola Companhia de Artífices Militares e Menores Aprendizes no Arsenal de Guerra de Porto Alegre aos 13 anos, por recomendação de um amigo da família, o capitão-de-fragata Alexandrino de Alencar. Ainda antes de ingressar nesta escola, e portanto antes mesmo de ser marinheiro, João Cândido Felisberto foi soldado sob comando do General Pinheiro Machado na Revolução Federalista, ao lado dos federalistas e em oposição aos republicanos (que defendiam  um governo mais centralizado).

O uso da chibata na Marinha, para castigos corporais, havia sido oficialmente abolido em 1889, mas continuava a ser usado a critério dos oficiais.

Em 22 de novembro de 1910, ele assume o comando do encouraçado Minas Gerais e da esquadra a ele subordinada – somando 2.379 homens, 3 encouraçados e um cruzador – na sublevação contra os castigos corporais aplicados aos marinheiros. Este episódio fica registrado na história como Revolta da Chibata.

André Pinto Rebouças

Engenheiro, inventor e abolicionista, ganhou fama no Rio de Janeiro, então Capital do Império, ao solucionar o problema de abastecimento de água, trazendo-a de mananciais fora da cidade.

Servindo como engenheiro militar na guerra do Paraguai, André Rebouças desenvolveu o torpedo, uma inovação tecnológica nunca oficialmente reconhecida e creditada a ele, mas que viria a provar seu poder como arma marítima nas guerras de tonagem da Marinha Alemã na Primeira e na Segunda Guerra Mundial.

Ao lado de Machado de Assis, foi um dos representantes da classe média brasileira com patente ascendência africana e uma das vozes mais importantes em prol da abolição da escravatura. Foi, além de articulista, tesoureiro da Confederação Abolicionista e um dos grandes financiadores da campanha da mesma no Rio de Janeiro.

André Rebouças foi integrante dos Voluntários da Pátria, participando do Cerco de Uruguaiana e fazendo amizade com o Conde D’Eu. Participa também do combate em Passo da Pátria e da defesa de Tuiuti.

Fiel à monarquia, opôs-se aos republicanos e acompanhou a Família Imperial brasileira a caminho do exílio.

Uma história a desbravar
É pouco estudada, na historiografia brasileira, o papel ativo do negro na sociedade. Via de regra, ele é sempre exibido nos livros ou como uma personagem passiva ou reativa. Dá-se pouca visibilidade ao que o negro atingiu por si e pela sua integração social, em vez daquilo que autoridades decidiam em seu nome. Nem todos sabem, por exemplo, que quando foi promulgada a Lei Áurea, mais de 90% dos negros brasileiros já eram livres – porque arranjaram meios de comprar a própria alforria ou de fugir, ou que as conhecidas “sinhás pretas” enriqueciam e prosperavam através do comércio. O que se sabe também sobre movimentos políticos organizados por negros, como a FNB (Frente Negra Brasileira) ou a Ação Imperial Patrianovista Brasileira, é muito pouco. Outro aspecto interessante, pouco mencionado: até o início da década de XX, os negros identificavam-se majoritariamente com a Monarquia, em detrimento da República. O movimento patrianovista, por exemplo, pretendia a restauração da monarquia e um Estado confessional.

VI. Conclusão
Talvez pelo fato da identificação racial não ser algo tão característico no brasileiro como é no americano, pela falta de representatividade partidária e, ultimamente, pela exposição excessiva à retórica classista da esquerda e sua ilusão sedutora de um racismo institucional benéfico, os negros no Brasil não tenham ainda se organizado em torno de um partido mais conservador para defender seus interesses na arena política.

O resultado disso é que o negro acaba sendo engolido pela retórica populista do apelo às minorias: deixa de ser agente político para ser agenda política. Diluída sua identidade dentro do discurso das minorias, ele é forçado por associação a assumir uma não-identidade: o não-branco, o não-maioria, o não-careta. A obliteração da sua real identidade e dos seus reais interesses, se dá pela política do balaião: minorias somadas são maioria. Como se fosse um preço a pagar por ser minoria, o negro é obrigado a aceitar coisas que ele repudia, porque está impelido a isso por associação com outras minorias ou grupos militantes, que pouco ou nada tem a ver com suas necessidades, interesses e valores.

Qual seria a saída? Um resgate histórico das tradições e valores que se foram perdendo ao longo do processo de “minorificação” da política e sua obliteração da identidade negra? A organização de uma nova frente negra brasileira dedicada ao empowerment de suas comunidades, através da educação e da transmissão de valores familiares? Um compromisso sério de fortalecer estas mesmas comunidades através do empreendedorismo? A dedicação individual ao estudo, à formação e o desenvolvimento pessoal? Não sei. A resposta para essas perguntas vai depender do quanto os movimentos políticos já organizados estão conscientes da importância destes brasileiros, de quão desejosos e receptivos estão para sua participação política e para sua força como agente de transformação e recuperação das instituições democráticas, tão abaladas pelo discurso maniqueísta da guerra de classes, pela política do balaião, pelo escambo de votos por cotas e pelo jogo de interesses completamente alheios aos interesses do cidadão.