A Escola Austríaca e a refutação cabal do socialismo

Artigo original de Alceu Garcia. Publicado originalmente no Instituto Mises Brasil. Para ler o artigo original, clique aqui.

Introdução

O fracasso do socialismo como princípio de ordenamento social é hoje evidente para qualquer pessoa sensata e informada — o que exclui, é claro, os socialistas.  Estes, porém, insistem que o malogro coletivista foi um mero acidente histórico, que a teoria é fundamentalmente correta e que pode funcionar no futuro, se presentes as condições apropriadas.  Tentarei demonstrar nesse texto, recorrendo na medida das minhas limitações aos ensinamentos da escola austríaca de economia, que absolutamente não é esse o caso, que a teoria econômica (para não falar dos fundamentos filosóficos, éticos, sociológicos e políticos!) do socialismo é insustentável em seus próprios termos, e que ipso facto os resultados calamitosos constatados pela experiência histórica são, e sempre serão, uma consequência inevitável de uma ordem (rectius: desordem!) socialista.  Não é preciso enfatizar a importância de se ter plena consciência da natureza perniciosa dessa corrente política e de suas funestas implicações, uma vez que em nosso país um poderoso movimento totalitário está muito próximo de tomar o poder.

O erro dos clássicos

O núcleo do pensamento econômico socialista está na concepção do valor como decorrente do volume de trabalho necessário para a produção das mercadorias, e isso não só em Marx como também em outros teóricos como Rodbertus, Proudhon etc.  Essa teoria do valor constitui a premissa elementar da qual a mais-valia e a exploração são deduzidas.

Retrato de Adam Smith

Marx, como se sabe, não inventou a teoria do valor-trabalho. Ela foi exposta bem antes por Adam Smith e David Ricardo e, dada a autoridade desses mestres, ganhou foros de ortodoxia. É difícil entender como esses dois pensadores notáveis, cujas descobertas foram realmente magníficas, puderam fracassar tão cabalmente justamente na questão crucial do valor. Talvez por causa dos avanços das ciências naturais, que estavam revelando propriedades antes insuspeitadas nas coisas, eles imaginaram que era mais “científico” considerar o valor também como um atributo da coisa.

Vários pensadores antes de Smith já tinham tido o insight correto: o valor das coisas depende da avaliação subjetiva de sua utilidade. O valor está na mente dos homens. Hoje se sabe que os filósofos escolásticos e os primeiros economistas franceses, Cantillon e Turgot, haviam concebido uma teoria econômica superior em muitos pontos a dos clássicos britânicos, sobretudo quanto ao valor. Smith e Ricardo, porém, puseram a economia na pista errada com uma teoria do valor falaciosa e, nesse aspecto, causaram um grave retrocesso no pensamento econômico.

Mas não por muito tempo. Enquanto Marx e outros pensadores socialistas faziam da teoria objetiva do valor a pedra fundamental de sua doutrina, diversos estudiosos já haviam constatado o desacerto dessa teoria e, independentemente, buscavam alternativas. Em todo caso, não seria exagero afirmar que Marx foi um economista clássico ortodoxo e que seus mestres, Ricardo em especial, podem ser considerados os fundadores honorários involuntários do socialismo “científico”.  Por ironia, o “revolucionário” Marx foi um conservador extremado em teoria econômica, enquanto que os economistas “burgueses” austríacos empreenderam uma verdadeira revolução nesse campo científico.

A redescoberta da subjetividade do valor

Vários economistas, entre eles o austríaco Carl Menger, chegaram basicamente à mesma conclusão que seus esquecidos antecessores pré-clássicos: o valor é subjetivo.  A teoria subjetiva do valor — ou teoria da utilidade marginal — resolve o problema satisfatoriamente, sem deixar lacunas.  O valor nada tem a ver com a quantidade de trabalho empregada na produção da coisa, mas depende de sua utilidade para a satisfação de um propósito de uma determinada pessoa.  A utilidade decresce à medida que mais unidades de um dado bem são adquiridas, posto que a primeira unidade é empregada na função mais urgente segundo a escala de valores de cada um, a segunda unidade exerce a função imediatamente menos urgente etc.

“Os Marginais” Jevons, Menger e Walras, economistas que defenderam a teoria da utilidade marginal e lideraram a “Revolução Marginalista” da Economia.

Para um sujeito que já tem uma televisão, por exemplo, ter outra já não tem a mesma urgência — dito de outra forma, as TVs são idênticas, exigiram a mesma quantidade de trabalho na sua produção, mas não têm o mesmo valor.  Cada indivíduo tem uma escala de valores diferente, e o que é valioso para um pode não valer nada para outro. Até para o mesmo indivíduo a utilidade — e daí o valor — de um determinado bem varia no tempo.

Isto posto, é fácil verificar que os preços refletem a interação entre ofertantes e demandantes, cada um com sua respectiva escala de valores. Compradores e vendedores potenciais expressam suas preferências no mercado, condicionadas por suas valorações pessoais e intransferíveis, e dessa interação surge uma razão de troca, um preço, que vai variando para igualar oferta e procura ao longo do tempo, de modo que em um determinado instante todos os que valoram o que querem adquirir (no caso a TV) mais do que o que se propõem a dar em troca (no caso um preço monetário x) conseguem comprar o produto.

O fabricante de TVs, segundo Marx, primeiro fabrica o produto e da quantidade de trabalho por unidade sai o valor e, consequentemente o preço. Isso é precisamente o inverso do processo real.  Na verdade, o fabricante inicialmente faz uma estimativa de um certo preço que ele espera que atraia compradores e esgote o estoque — compradores que valorem mais a TV do que o dinheiro correspondente ao preço.  Em seguida, ele calcula o custo de produção aos preços correntes e, se for suficientemente inferior à receita final prevista, aí sim ele contrata e combina os fatores de produção para obter o produto.  Não é pois o trabalho ou de modo geral o custo de produção que determina o valor e o preço.  É justamente o contrário: o preço projetado determina o custo de produção.

O emaranhado de falácias marxistas

Visando definir o valor com mais rigor do que Ricardo e levar a teoria às suas últimas consequências lógicas, Marx acaba demonstrando involuntariamente a invalidade das proposições pertinentes.  Como seus antecessores, Marx distingue entre valor de uso e valor de troca.  Para ele, as trocas só ocorrem quando coincide a quantidade de trabalho empregada no que se dá e no que se recebe.  Só há troca, pois, nos termos marxistas, quando há coincidência de valor, que por sua vez é função do volume de trabalho dispendido.  Ocorre que essa linha de raciocínio logo esbarra em um obstáculo insuperável: o trabalho é heterogêneo. Na ausência de homegeneidade, não há como tomar o trabalho como unidade de conta e medida de valor. Marx tenta superar o problema com os conceitos de trabalho “simples” e trabalho “complexo”, fixando uma proporção entre eles, mas falha totalmente. Como os preços flutuam, Marx decreta que essas variações são ilusórias; o real é um certo “preço médio” que equivale ao valor, que equivale ao volume de trabalho dispendido na produção do bem.

Ao procurar fugir da rede de falácias que vai tecendo, Marx incorre em uma óbvia petição de princípio que até hoje engana os ingênuos: a medida do valor seria a quantidade de trabalho “socialmente necessário” para a produção de determinada mercadoria.  Ora, só podemos saber o que é “socialmente necessário” investigando o que leva os indivíduos que compõem uma sociedade a valorar uma coisa o suficiente para que sua fabricação seja “socialmente necessária”.  Por que são produzidos mais CDs de axé do que de música clássica?  Por que o pagode é mais “socialmente necessário” do que a música erudita?  Porque há muito mais gente que gosta de pagode do que os que preferem música erudita.

Fica claro que o que foi dado como provado, que o valor depende da quantidade de trabalho “socialmente necessário”, é precisamente o que se necessita provar.  O que é “socialmente necessário”?  É aquilo que os indivíduos desejam.  Sendo assim, é evidente que temos que procurar o valor das coisas nas preferências individuais, não no custo de produção.  Ademais, o trabalho não é o único fator de produção. Marx evidentemente sabe que o trabalho sem o fator terra — os recursos naturais — é inútil e vice-versa.  Ele assevera que só o trabalho humano cria valor, pois a natureza é passiva.

Mas se o trabalho isolado é incapaz de criar valor, o que nos impede de afirmar que o valor depende da quantidade de recursos naturais “socialmente necessários” à produção disso ou daquilo?  E, como toda produção demanda tempo, por que não pode ser o valor definido como a quantidade de tempo “socialmente necessário” para a fabricação de uma mercadoria? Nessa ordem de idéias, mais lógico seria conceber o valor como função da quantidade de trabalho, terra, tempo e capital “socialmente necessários” para a produção de um bem. No fim das contas, é isso mesmo que Marx faz no vol. III de O Capital, relacionando o valor ao custo de produção, contradizendo sua própria concepção do valor-trabalho exposta no vol. I.

Para a teoria subjetiva, todavia, não há mistério e não há exceções: o “valor de troca” não é função do trabalho ou do custo de produção, e jamais pressupõe igualdade de valor.  Se eu dou tanto valor ao que me proponho a trocar quanto ao que me é oferecido, simplesmente não troco.  Só há troca quando os valores são diferentes, quando cada parte quer mais o que recebe do que o que dá.  O contrato de trabalho não foge à regra. Cada contratante valora mais o que dá do que o que recebe, logo não há exploração.  De fato, provando-se a falsidade da teoria do valor-trabalho, invalida-se inexoravelmente a exploração e a mais valia, e todo o edifício teórico deduzido dessa teoria desaba como um prédio de Sergio Naya.

Ademais, baseando-se na “lei de ferro dos salários”, segundo a qual sempre que a remuneração do trabalho subisse acima do nível de subsistência os “proletários” aumentariam a sua prole, trazendo os salários de volta para o nível de subsistência original, Marx assegurou que o capitalismo engendrava a miserabilização crescente do proletariado. Trata-se de uma tese contraditória em seus próprios termos, vez que se a tendência fosse a de que a remuneração do trabalho permanecesse estagnada num patamar de miséria não haveria uma miserabilização “crescente”, e sim uma “miserabilidade constante”.

Na verdade, o padrão de vida dos trabalhadores não cessou de aumentar nos países capitalistas avançados, o que é o resultado natural da liberdade individual de maximizar a utilidade — o valor — nas trocas livres, voluntárias e mutuamente benéficas travadas no que se chama economia de mercado.  A consequente acumulação de capital investido per capita em grau maior do que o aumento demográfico da força de trabalho torna o trabalho cada vez mais escasso em relação ao capital — e os salários reais cada vez mais altos.

Marx, como é comum entre os intelectuais, odiava a divisão do trabalho.  Mas foi o aprofundamento da divisão do trabalho que permitiu o aumento da produtividade do trabalho e o consequente aumento do poder aquisitivo real dos salários.  O “alienado” operário que aperta parafusos na linha de montagem é recompensado pelo fato de que a produtividade do seu trabalho é tal que lhe permite adquirir produtos antes sequer existentes e ter um padrão de vida muito superior ao artesão autônomo do passado que controlava todo o processo de produção.

Marx acreditava que a livre concorrência levaria a uma superconcentração do capital. Na verdade, a concorrência força sem parar a redução de custos e preços, resultando em uma melhor utilização de recursos escassos e os liberando para emprego em novas linhas de produção.  Marx não distinguiu o capitalista do empreendedor.  Na realidade, capitalista é todo aquele que consome menos do que produz — que poupa.  Hoje, nos países civilizados, os trabalhadores são capitalistas e suas poupanças reunidas em grandes fundos de pensão e investimentos capitalizam empresas no mundo todo. O empreendedor é todo aquele que vislumbra um desequilíbrio entre a valoração corrente de custos e preços futuros de um produto qualquer, e enxerga nele uma oportunidade de oferecer aos consumidores coisas que eles valoram mais do que o seu custo de produção.  A figura do empreendedor é insubstituível — o estado não pode exercer esse papel.  Isso os comunistas (e não apenas os comunistas!) puderam verificar na prática, para sua tristeza.

No sistema de Marx, como vimos, as trocas pressupõem igualdade de valor entre os bens negociados. Acontece que, como demonstrado acima, as trocas pressupõem precisamente o contrário: desigualdade de valor.  Ou não há troca alguma.  Assim, se a realidade se comportasse como na teoria de Marx, não haveria trocas. Na realidade, ninguém trabalharia sequer para si mesmo, posto que tal atividade envolve uma substituição de um estado atual considerado pelo agente como insatisfatório por um estado futuro reputado como mais satisfatório.  Quer dizer, até o trabalho autônomo envolve uma troca e valores desiguais. O mundo de Marx seria povoado por seres autárquicos, autísticos e estáticos.  Um mundo morto.  Não admira que os regimes socialistas sofram invariavelmente de uma tendência para a completa estagnação e paralisia da atividade econômica.

A lei da preferência temporal

Outra descoberta fundamental, feita por um discípulo de Carl Menger chamado Eugen von Böhm-Bawerk, relaciona-se com a influência do tempo no processo produtivo.  Ele percebeu uma categoria universal da ação humana: as pessoas dão mais valor a um bem no presente do que o mesmo bem no futuro, posto que o tempo é escasso, e logo é um bem econômico.  Os indivíduos ao agirem elegem determinados fins e quanto mais cedo puderem alcançá-los, melhor.

Eugen von Böhm-Bawerk

Partindo desse axioma, ele obteve a explicação definitiva do fenômeno do juro, e mais, que o juro nas operações de crédito financeiras é um caso especial de um fenômeno geral.  A produção demanda tempo; do início da produção até a venda do produto há uma demora, sem falar no risco de o produto não ser vendido. Ocorre que ninguém quer esperar até que a venda ocorra para receber sua parte no total — isso se a venda realmente acontecer, e o preço for recompensador.  Os proprietários dos fatores de produção — os trabalhadores, os proprietários do espaço alugado, os fornecedores de insumos, os donos dos bens de capital — querem receber logo sua parte sem partilhar dos riscos.  Dito de outra forma, eles preferem bens presentes a bens futuros. Mas os bens presentes sofrem um desconto.  Daí receberem menos agora do que receberiam no futuro.  Ficam livres do risco, que é assumido pelo empreendedor e pelos poupadores que lhe outorgaram seus recursos.

A parcela que um determinado trabalhador agrega ao produto final — o valor do produto marginal, como dizem os economistas — pode ou não ser remunerado integralmente. Há frequentemente casos em que o trabalhador recebe mais do que produziu, quando o preço não cobre os custos, o que não tem explicação pela teoria marxista. O capitalista paga a mais-valia ao proletário!  O que é certo é que na economia de mercado há forças operando incessantemente para igualar o salário ao valor do produto marginal. Tanto o lucro quanto o prejuízo são sinais de desequilíbrio. Os prejuízos significam que os compradores não valoram um determinado bem mais do que o dispêndio mínimo corrente para produzi-lo.  Os trabalhadores estão recebendo mais do que o seu trabalho produz.  O empresário tem que reduzir custos para reduzir o preço do seu produto, ou quebra.

O lucro significa que os consumidores valoram um dado bem a um dado preço mais do que o custo de produzi-lo. Os trabalhadores estão recebendo menos do que o valor do produto marginal.  Isso quer dizer que os compradores querem mais desse produto.  O retorno alto atrai a concorrência, o que aumenta a demanda por fatores de produção — trabalho incluso — e faz cair o preço pelo aumento da oferta do produto.  A taxa de lucro baixa e os salários tendem a igualar o valor do produto marginal, descontada a taxa social de preferência temporal — o juro.

Marx nunca compreendeu — ou não quis compreender — que o empreendedor é um preposto dos consumidores e que são estes quem determinam indiretamente o nível de remuneração dos fatores de produção — salários inclusos.  A tarefa dos empreendedores é satisfazer os caprichos dos consumidores.  Nessa função ele deve assumir riscos pois o futuro é sempre incerto.  Nota-se, pois, o absurdo da condenação da produção “para o lucro” pelos marxistas vulgares e sua veneração pela produção “para o uso”.  Sucede que toda produção sempre tem por fim o consumo, i.e., o uso. A produção não é um fim em si mesmo, e sim um meio para se alcançar um fim: o consumo. O lucro e as perdas monetários são sinais fundamentais que orientam os empresários a organizar eficientemente a produção de modo a satisfazer os usos mais urgentemente desejados pelos usuários (pressupondo-se a ausência de privilégios concedidos pelo governo aos produtores em detrimento dos consumidores, tais como tarifas, monopólios, subsídios, licenças etc).

A lei da preferência temporal exerce um papel determinante no processo produtivo.  Se todos os proprietários de fatores (os empregados donos de sua força de trabalho, os fornecedores de insumos, o proprietário do espaço onde a fábrica ou loja se situa, os capitalistas) decidissem partilhar do risco e aguardar até a efetiva venda do produto final total para então dividirem pro rata a receita total, todos eles seriam empreendedores. Como, porém, o ser humano prefere o mesmo bem agora ao futuro (que é sempre incerto), surge a necessidade social de que um indivíduo, ou grupo de indivíduos reunidos (empresa), exerça essa função empreendedorial, que é absolutamente indispensável para o progresso da sociedade.

O empreendedor, assim, paga agora aos proprietários de fatores com bens presentes em troca de receber os mesmos bens (dinheiro) no futuro, correndo o risco de não receber. Esse desconto dos bens presentes em termos de bens futuros, como já assinalado, é o que se chama de juro.

A impossibilidade do cálculo econômico no socialismo

Tendo demonstrado satisfatoriamente que a crítica marxista ao capitalismo é inteiramente equivocada, resta empreender por nosso turno a crítica ao sistema socialista, conforme idealizado por Marx, seus sucessores e outras correntes socialistas. Esse sistema exige a propriedade pública dos meios de produção — terra, trabalho e capital — e o consequente planejamento central de todas as atividades econômicas.

A primeira objeção que vem à mente é a questão dos incentivos: quem planeja e quem obedece às ordens do planejador ou planejadores?  Quem determina o padrão de remuneração dos serviços e que padrão é esse?  Numa sociedade que se presume igualitária, a remuneração deve ser igual para todos os tipos de trabalho?  Nesse caso, o neurocirurgião terá o mesmo incentivo para exercer suas funções que o lixeiro?  Segundo os marxistas, cada um contribui para a coletividade segundo as suas possibilidades e recebe de um fundo comum segundo suas necessidades. Já é possível até aqui imaginar a complexidade do problema.

Pois um discípulo de Böhm-Bawerk, Ludwig von Mises, foi mais além, atingindo a raiz do problema do socialismo, que é ainda mais profunda do que a complicação dos incentivos permite vislumbrar.  Mises descobriu que a atividade econômica em uma economia complexa depende de um cálculo prévio que leve em conta os preços monetários dos fatores de produção. Impossível esse cálculo, impossível a atividade econômica.

Ludwig von Mises

Ocorre que, em uma sociedade socialista pura, todos os fatores de produção pertencem a um único dono: o estado. Sem propriedade privada, os fatores de produção não são trocados e, logo, não têm preço.  A escassez relativa dos fatores de produção e seus usos alternativos fica oculta e o planejador central inexoravelmente é levado a agir às cegas. Mises admitiu, para argumentar, que a questão dos incentivos não apresentasse nenhum obstáculo, que todos se empenhassem diligentemente em suas tarefas.  Ou seja, postula-se que a natureza humana seja aquela que os teóricos socialistas quiserem que ela seja, não o que ela de fato é.  Mesmo assim, na ausência de preços para os fatores de produção, o cálculo econômico é impossível e a atividade econômica se torna caótica, vez que não se pode discernir entre os vários tipos de combinação de fatores aquele que é o mais econômico.

Dado um determinado estado de conhecimento tecnológico, sempre existem inúmeras maneiras de se empreender um projeto econômico qualquer, digamos uma siderúrgica, mas somente se a escassez relativa dos fatores de produção expressa em preços monetários será possível escolher dentre as soluções técnicas possíveis aquela que é mais econômica, ou seja, a que representa os menores custos em relação ao preço futuro do produto final, e só assim será possível avaliar ex ante se o projeto sequer é economicamente viável no momento.

Como nada disso é a priori possível em uma sociedade socialista, todos os empreendimentos tocados pelo estado não passam de um gigantesco desperdício de recursos que mais cedo ou mais tarde leva ao colapso econômico. A experiência comunista comprovou tudo isso, muito embora não tenha nunca existido uma sociedade socialista realmente pura.  A URSS podia usar o sistema de preços do mundo capitalista como referência e copiar seus métodos de produção, e um florescente e gigantesco mercado negro supria até certo ponto as monumentais falhas do planejamento estatal. Mesmo assim, a economia soviética sempre foi um caos.  Funcionou por algum tempo graças ao uso sistemático do terror como “incentivo”.  Mas o terror não pode durar para sempre.  Quando arrefeceu, foi-se o incentivo e a economia comunista anquilosou rapidamente e morreu.

A natureza dispersa do conhecimento

A crítica de Mises publicada em 1920 causou consternação na intelligentsia socialista. Ao menos o desafio foi levado a sério e muitas respostas foram aventadas.  Nos anos 1930, alguns economistas socialistas (Oskar Lange, Abba Lerner) formularam a teoria do “socialismo de mercado”, baseada nas idéias do economista do século XIX Léon Walras, que concebeu um método de equações matemáticas capazes de permitir a compreensão do estado geral de equilíbrio de uma economia.  Tudo o que se fazia necessário, pois, era outorgar certa autonomia aos gerentes das unidades produtivas de modo que igualassem o preço do produto ao custo marginal para que o comunismo funcionasse tão bem como o capitalismo.

Muitos economistas liberais eminentes, como Joseph Schumpeter e Frank Knight, aceitaram a validade dessa solução e se convenceram de que não havia obstáculos econômicos ao socialismo.  Ainda outro economista austríaco, contudo, Friedrich Hayek, discípulo de Mises, desenvolveu certos aspectos implícitos na análise de seu mestre para refutar a “solução” socialista.  O esquema walrasiano padece de um defeito fatal: é estático.  O conhecimento técnico, os recursos e as informações são considerados dados no sistema.  Hayek argumentou que o conhecimento é disperso na sociedade e a sua utilização racional é levada a efeito por cada indivíduo traçando seus próprios planos segundo circunstâncias personalíssimas e intransferíveis.  O mercado coordena esses planos espontaneamente, sobretudo por intermédio do sistema de preços, de forma muito mais racional e útil do que um planejamento central poderia esperar fazer. O planejamento central implica a supressão dos planos individuais.  Os indivíduos tornam-se instrumentos do planejador central, mas esse não pode ter jamais a esperança de coordenar a produção racionalmente. O estado de equilíbrio é uma quimera que não tem lugar no mundo real, dinâmico por natureza, e o conhecimento, as oportunidades e a informação nunca estão “dados”. Ao contrário, estão sendo incessantemente criados e ampliados através das iniciativa individuais e suas interações.

Mesmo assim, Mises e Hayek foram tidos como refutados e relegados ao ostracismo pela comunidade dos economistas.  Mises morreu esquecido em 1973, mas Hayek viveu o suficiente para rir por último quando o comunismo soçobrou e todas as análises de ambos se revelaram certas.  Ele morreu em 1992, após testemunhar a queda do Muro de Berlim e o colapso soviético.

Conclusão

Provar que na economia de mercado não existe mais-valia nem exploração, todavia, não é o mesmo que dizer que a exploração não existe.  Existe.  Ela ocorre quando somos forçados a dar alguma coisa em troca de nada, como no caso dos tributos recolhidos pelo estado.  O estado é a máquina perfeita de exploração.  E o marxismo, por conferir um poder absoluto ao estado, é o veículo insuperável da exploração sistematizada.

A doutrina socialista por ser intrinsecamente falsa leva inevitavelmente a uma perversão e inversão do sentido das palavras, como notou Orwell — por ironia ele mesmo um socialista convicto.  Liberdade é escravidão e escravidão é liberdade; democracia é ditadura e ditadura é democracia; cooperação voluntária é coerção e coerção é cooperação voluntária.  O estado socialista é dono de tudo, o que traduz a triste realidade de que os que comandam o governo são os senhores implacáveis, os proprietários absolutos dos comandados.  Socialismo é mais do que uma restauração da escravidão; é seu aperfeiçoamento e culminância.

Vale lembrar ainda que a análise acima vale para qualquer espécie de socialismo, seja o comunismo (socialismo de classe), nazismo (socialismo de raça) ou fascismo (socialismo de nação).

Tudo o que foi exposto aqui é conhecido há décadas.  Contudo, pouca gente sabe pois a intelligentsia de esquerda bloqueia a sua divulgação.  É uma vergonha, pois uma das tarefas principais dos intelectuais — os que se dedicam ao estudo das idéias — deveria ser justamente a de esclarecer a sociedade a respeito das idéias certas a serem adotadas para o bem comum, e advertir do perigo de se aceitar teorias erradas.  Mas não é isso que acontece, infelizmente.

Parece que os intelectuais sofrem de uma propensão irreprimível para o socialismo, certamente porque nele vislumbram a chance de empalmar o poder absoluto em causa própria.  Em termos marxistas, o próprio marxismo não passa de ideologia, a falsa consciência, que uma classe — a intelligentsia — difunde em função de seus próprios interesses. Essas falsas idéias se propagam e iludem — alienam — as futuras vítimas da classe “revolucionária”.  É um dever inadiável de todo cidadão consciente denunciar esse esquema podre, desmascarar a falácia socialista e esclarecer a opinião pública na medida de suas possibilidades.

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Os problemas essenciais da existência humana

Por Ludwig von Mises. Transcrição do Capítulo XXXIX do livro Ação Humana.

I – A ciência e a vida

Costuma-se censurar a ciência moderna por ela se abster de expressar julgamentos de valor. Essa neutralidade em relação a valor (Wertfreiheit), dizem os críticos, de nada serve ao homem que vive e que age, pois o homem precisa de que se lhe digam quais devem ser os seus objetivos. A ciência, se não puder responder a essa questão, é estéril. Essa objeção não tem fundamento. A ciência não formula julgamentos de valor, mas provê o agente homem com informações necessárias para que ele faça a sua própria valoração. Só não pode ajudar o homem quando este pergunta se a vida vale ou não a pena ser vivida.

Essa questão, evidentemente, tem sido suscitada, e continuará sendo. Para que servem todos esses esforços e atividades humanas se, ao final de tudo, ninguém escapa da morte e da decomposição? O homem vive à sombra da morte. Quaisquer que tenham sido as suas realizações ao longo de sua peregrinação, terá de morrer um dia e abandonar tudo o que construiu. Cada momento pode ser o seu último momento. O futuro só contém uma certeza: a morte. Visto desse ângulo, todo esforço humano parece ter sido vão e fútil.

Além disso, a ação humana deveria ser considerada como algo inútil, mesmo quando julgada do ponto de vista dos objetivos que pretendia atingir. A ação humana jamais poderá produzir uma satisfação completa; serve apenas para reduzir parcial e temporariamente o desconforto. Logo que um desejo é satisfeito, surgem outros. A civilização, costuma-se dizer, torna as pessoas mais pobres porque multiplica as necessidades; desperta mais desejos do que os que consegue mitigar. Toda essa azáfama de homens diligentes e trabalhadores, toda essa pressa, esse dinamismo, esse alvoroço, não têm o menor sentido porque não traz felicidade e nem paz. Não se pode alcançar a paz de espírito e a serenidade pela ação e pela ambição temporal; só através da renúncia e da resignação. O único tipo de conduta adequada ao sábio é o recolhimento à inatividade de uma vida puramente contemplativa.

Entretanto, todos esses receios, dúvidas e escrúpulos são superados pela força irresistível da energia vital do homem. Certamente, o homem não poderá escapar da morte. Mas, no momento, está vivo; é a vida e não a morte que se apodera dele. Qualquer que seja o futuro que lhe tenha sido reservado, não pode fugir das necessidades da hora presente.

Enquanto tiver vida, o homem não pode deixar de obedecer ao seu impulso básico, o elã vital. É da natureza do homem procurar preservar e fortalecer a sua vida; procurar diminuir o seu desconforto; buscar o que possa ser chamado de felicidade. Em cada ser humano existe um id, inexplicável e não analisável, que é a fonte de todos os impulsos, a força que nos impele à vida e à ação, a ânsia original e permanente por uma existência mais plena e mais feliz. Existe enquanto o homem vive e só desaparece quando sua vida se extingue.

A razão humana está a serviço desse impulso vital. A função biológica da razão é preservar e promover a vida e adiar a sua extinção tanto quanto possível. O pensamento e a ação não conflitam com a natureza; ao contrário, são o principal traço da natureza humana. O que mais apropriadamente distingue o homem dos demais seres vivos é o fato de conscientemente lutar contra as forças hostis à sua vida.

Portanto, tudo o que se tem dito sobre o primado dos elementos irracionais é vazio de significado. No universo, cuja existência a nossa razão não pode explicar, analisar ou conceber, há um pequeno setor nos limites do qual o homem pode, numa certa medida, diminuir o seu desconforto. Esse setor, reservado ao homem, é o domínio da razão e da racionalidade, da ciência e da ação propositada. A sua mera existência, por mais exígua que seja, por deficientes que sejam os seus resultados, não permite que o homem se entregue à resignação e à letargia. Nenhuma sutileza filosófica poderá jamais impedir um indivíduo sadio de recorrer às ações que ele mesmo considera adequadas para satisfazer as suas necessidades. Pode ser que no recôndito da alma humana exista o desejo de uma existência vegetativa, inativa e pacífica. Mas, no ser humano, esses desejos, quaisquer que possam ser, são superados pelo afã de agir e de melhorar as condições de sua própria vida. Quando prevalece o espírito de renúncia, o homem morre; ele não se transforma num vegetal.

É claro que a praxeologia e a economia não informam ao homem se ele deve preservar ou renunciar à vida. A vida em si e todas as forças desconhecidas que a originam e que a mantêm é um dado irredutível, e, como tal, fora do âmbito da ciência. O tema central de que se ocupa a praxeologia é exclusivamente a ação – a mais típica manifestação da vida humana.

II – A economia e os julgamentos de valor

Embora haja muitas pessoas que condenam a economia por sua neutralidade em relação a julgamentos de valor, há também os que a condenam por sua suposta indulgência em relação aos mesmos. Uns dizem que a economia deve necessariamente expressar juízos de valor e que, portanto, não é realmente uma ciência, uma vez que a ciência tem que ser indiferente a valores. Outros sustentam que a verdadeira ciência econômica deve e pode ser imparcial e que só os maus economistas infringem esse postulado.

A confusão existente na discussão desses problemas é de natureza semântica e se deve à forma inadequada de muitos economistas empregarem certos termos. Suponhamos que um economista investigue se uma medida pode produzir um resultado para cuja realização foi recomendada; e que chegue à conclusão de que não resultará em p, mas em g, um efeito que mesmo os que propõem a medida consideram indesejável. Se esse economista enunciar o resultado de sua investigação dizendo que é uma medida “má”, não estará formulando um juízo de valor. Estará apenas dizendo que, do ponto de vista dos que desejam atingir o resultado p, a medida é inadequada. É nesse sentido que os economistas que defendem o livre comércio condenam o protecionismo. Eles demonstram que a proteção, ao contrário do que pensam os seus adeptos, diminui, em vez de aumentar, a quantidade total de produtos e que, portanto, é indesejável do ponto de vista dos que preferem que a oferta de produtos seja a maior possível. Os economistas criticam as políticas em função dos resultados que pretendem atingir. Quando, por exemplo, um economista diz que uma política de salários mínimos é má, o que está dizendo é que os seus efeitos contrariam os propósitos dos que a recomendam.

É sob esse mesmo prisma que a praxeologia e a economia consideram o princípio fundamental da existência humana e da evolução social, qual seja, que a cooperação sob a divisão social do trabalho é um modo de ação mais eficiente do que o isolamento autárquico dos indivíduos. A praxeologia e a economia não dizem que o homem deveria cooperar pacificamente no contexto da sociedade; dizem apenas que o homem deve agir dessa maneira se deseja atingir resultados que de outra forma não conseguiria. A obediência às regras morais necessárias ao estabelecimento, à preservação e à intensificação da cooperação social não é considerada um sacrifício a uma entidade mítica qualquer, mas o recurso ao meio mais eficiente, como se fosse um preço a ser pago para receber em troca algo a que se dá mais valor.

Todos os dogmatismos e todas as escolas antiliberais uniram as suas forças para impedir que as doutrinas heteronômicas do intuicionismo e dos mandamentos revelados fossem substituídas por uma ética autônoma, racionalista e voluntarista. Todas elas condenam a filosofia utilitarista pela impiedosa austeridade de sua descrição e análise da natureza humana e das motivações últimas da ação humana. Não há necessidade de acrescentar nada, em refutação a essas críticas, ao que está contido nas páginas deste livro. Um ponto apenas precisa ser novamente mencionado, porque, de um lado, representa a essência da doutrina de todos os mistificadores contemporâneos e, de outro, oferece ao intelectual comum uma bem-vinda desculpa para não ter que se submeter à incômoda disciplina dos estudos econômicos.

Dizem esses críticos que a economia, no seu apriorismo racionalista, pressupõe que os homens visem unicamente, ou pelo menos primordialmente, ao bem-estar material. Mas, na realidade, os homens preferem os objetivos irracionais aos objetivos racionais. São guiados mais pela necessidade de atender a mitos e a ideais do que pelo desejo de ter um melhor padrão de vida.

Em resposta, o que a economia tem a dizer é o seguinte:

1 – A economia não pressupõe, e nem considera um postulado, que os homens visem unicamente, ou pelo menos primordialmente, ao que é denominado de bem-estar material. A economia, enquanto ramo da ciência geral que estuda a ação humana, lida com a ação humana, isto é, com a ação propositada do homem no sentido de atingir os objetivos escolhidos, quaisquer que sejam esses objetivos. Aplicar aos fins escolhidos o conceito de racional ou irracional não faz sentido. Podemos qualificar de irracional o dado irredutível, isto é, aquelas coisas que o nosso pensamento não pode analisar e nem decompor em outros dados irredutíveis. Nesse sentido, todos os objetivos escolhidos pelo homem são, no fundo, irracionais. Não é mais nem menos racional desejar a riqueza como o fez Creso ou aspirar à pobreza como o faz um monge budista.

2 – O que os críticos têm em mente ao empregar o termo objetivos racionais é o desejo de maior bem-estar material e de melhor padrão de vida. Para saber se a sua afirmativa – de que os homens em geral e os nossos contemporâneos em particular estão mais interessados em mitos e sonhos do que em melhorar o seu padrão de vida – é ou não correta, basta verificar os fatos. Não há necessidade de muita inteligência para saber a resposta certa, e não precisamos aprofundar a discussão. Mesmo porque a economia nada tem a dizer a favor ou contra os mitos em geral; mantém a sua neutralidade em relação à doutrina sindical, à doutrina de expansão dos meios de pagamento, e a todas as outras doutrinas, na medida em que os seus partidários as considerem e as defendam como mitos. A economia só lida com essas doutrinas na medida em que sejam consideradas como um meio para atingir determinados fins. A economia não afirma que o sindicalismo trabalhista seja um mau mito; afirma apenas que é um meio inadequado para aumentar os salários dos que desejam ter salários maiores. Compete a cada indivíduo decidir se prefere seguir o mito ou se prefere evitar as consequências inevitáveis que advirão de sua realização.

Nesse sentido, podemos dizer que a economia é apolítica ou não política, embora seja a base de todo tipo de ação política. Podemos ainda dizer que a economia é perfeitamente neutra em relação a todos os julgamentos de valor, uma vez que ela se refere sempre aos meios e nunca à escolha dos objetivos últimos que o homem pretende atingir.

III – O conhecimento econômico e a ação humana

A liberdade de o homem escolher e agir sofre restrições de três tipos. Em primeiro lugar, estão as leis físicas a cujas inexoráveis determinações o homem tem que se submeter se quiser permanecer vivo. Em segundo lugar, estão as características e aptidões congênitas de cada indivíduo e sua inter-relação com o meio ambiente; tais circunstâncias, indubitavelmente, influenciam tanto a escolha dos fins e a dos meios, embora nosso conhecimento de como isso se processa seja bastante impreciso. Finalmente, existe a regularidade das relações de causa e efeito entre os meios utilizados e os fins alcançados; ou seja, as leis praxeológicas, que são distintas das leis físicas e fisiológicas.

A elucidação e o exame formal dessa terceira categoria de leis do universo é o objeto de estudo da praxeologia e do seu ramo mais bem desenvolvido até o momento, a economia.

O conhecimento acumulado pela ciência econômica é um elemento essencial da civilização humana; é a base sobre a qual se assentam o industrialismo moderno, bem como todas as conquistas morais, intelectuais, tecnológicas e terapêuticas dos últimos séculos. Cabe aos homens decidirem se preferem usar adequadamente esse rico acervo de conhecimento que lhes foi legado ou se preferem deixá-lo de lado. Mas, se não conseguirem usá-lo da melhor maneira possível ou se menosprezarem os seus ensinamentos e as suas advertências, não estarão invalidando a ciência econômica; estarão aniquilando a sociedade e a raça humana.

A Conquista do Brasil (Parte V)

Dando continuidade à série de artigos sobre a História do Brasil, hoje vamos entrar um pouco na questão de como eram travadas as guerras em solo brasileiro e com que tipo de tecnologia.

I. A guerra moderna

Com relação aos europeus, sua arte militar encontrava-se bem avançada e podia ser classificada como moderna (Idade Moderna). Identificam-se com a guerra da idade moderna a construção de fortes poligonais, o uso de armas de fogo (sobretudo arcabuzes) e artilharia e armaduras de placas de metal (sobretudo pela cavalaria). Este período se classifica também pela perda de importância da cavalaria pesada em campo de batalha, por causa do uso da pólvora.

No entanto, guerras coloniais não podiam ser travadas do mesmo modo que eram no continente europeu. Era inútil, além de inviável, reunir o contingente e a formação das tropas no modo tradicional. A manutenção do modo de guerrear europeu só era possível com adversários europeus. Em menor número, os portugueses se viram obrigados a adotar o modelo de guerra nativo, com aliados nativos, para empreender a colonização. O mesmo lhes ocorreu na África, e o mesmo ocorreu com os espanhóis na América Espanhola e com praticamente todas as potências coloniais.

Alguns dos avanços da guerra moderna: fortes poligonais, armaduras de placas de metal e arcabuzes.

Sendo a ocupação do Brasil anterior à Revolução Industrial, não havia um meio de produção padronizada e massiva: as armas, em ambos os lados, não eram padronizadas e eram produzidas manual e individualmente. Haviam modelos difundidos, mas isto não implica que as armas vinham de um mesmo fabricante ou seguiam um padrão.

A aquisição de armas não era feita pelo exército ou pelo governo, mas por cada militar de acordo com suas preferências e condições financeiras. O costume dos soldados pagarem pelo material que usavam chegava ao ponto destes pagarem até a munição que usavam. A “vida útil” de uma arma era longa, de forma que armas muito antigas podiam conviver com equipamentos de última geração.

II. A guerra indígena

Como tradicionalmente a expansão da agricultura e a domesticação de animais (em especial bois, cavalos, ovelhas, cabras e porcos) funcionam como marcos para o início da construção de sociedades urbanizadas e complexas, isto coloca alguns empecilhos quando vamos estudar sociedades que se desenvolveram no continente americano, onde a população humana é relativamente mais recente e animais como o touro e o cavalo não existem na natureza. O que é certo, no entanto, é que os americanos viveram isolados das culturas africanas, europeias e asiáticas, o que explicaria o desenvolvimento deficitário da navegação, a baixa difusão da metalurgia e o desconhecimento de metais como o ferro e o bronze.

A arte militar dos povos indígenas do Brasil, de um modo geral, não chegava ao nível daquela da Antiguidade de povos europeus ou asiáticos: não possuíam armas de metal, cavalaria, fortificações de pedra, nem marinha de guerra. Contudo, este desequilíbrio tecnológico é contrabalançado ao longo do período colonial com a adoção, por parte dos nativos, da tecnologia europeia. São notáveis os casos da metalurgia e da domesticação do cavalo, além da aquisição de armas de fogo. Os nativos abruptamente saíam da “Idade da Pedra” para a Idade do Ferro.

Podemos dizer que os grupos indígenas davam uma grande importância à guerra. Esta era parte fundamental de sua cultura, em diversos momentos, como na captura de mulheres para casamento ou no esquema que se chama de guerra de vendeta (vingança): os conflitos se iniciavam para vingar ofensas passadas. O objetivo maior era a captura de prisioneiros para que estes fossem sacrificados e devorados de forma ritual, completando a vingança. Naturalmente estes rituais e as baixas em combate levavam a novas vinganças, reiniciando o processo. Este ciclo de captura, execução e canibalização do inimigo era especialmente importante para os índios tupis: marcava o início da vida adulta de um homem, lhe permitindo o casamento. A própria reprodução e sobrevivência da tribo dependia do sucesso na guerra, da captura, execução e consumo de muitos inimigos.

Uma das conseqüências desse modo de fazer a guerra era um procedimento ritual de combater, onde os guerreiros procuravam afirmar sua masculinidade através da forma como lutavam e capturavam os inimigos para o sacrifício, bem diferente de uma guerra europeia ou asiática. Havia a necessidade do combate aproximado, o que favoreceu o desenvolvimento de armas específicas para a luta corpo-a-corpo, que se somavam ao arco e flecha, de uso cotidiano de todas as culturas indígenas.

Ilustração de um combate entre tupinambás e maracajás. Não está claro qual dos lados é qual. Repare nas armas: borduna, arco e escudo.

As armas usadas não empregavam metais, desconhecidos pelos nativos, sendo os elementos cortantes feitos com as matérias-primas disponíveis na natureza: madeira (endurecida a fogo ou não), ossos e principalmente pedras, como o quartzo e o sílex.

A guerra, portanto, não é uma guerra de conquista: é uma guerra ritual. É importante, no entanto, levar em consideração que guerras tribais costumam ser mais violentas em termos de baixas relativas. Proporcionalmente, guerras tribais matam mais do que guerras convencionais.

III. O mito do bom selvagem
War Before Civilization: the Myth of the Peaceful Savage
é um livro de Lawrence H. Keeley, um professor de arqueologia na University of Illinois especializado na Europa pré-histórica. O livro trata de guerras conduzidas ao longo da história humana por sociedades com pouca tecnologia. Keeley conduz uma busca por evidências arqueológicas de violência pré-histórica, incluindo assassinatos, massacres e guerras. Ele também observa sociedades de períodos mais recentes – que nomeamos como tribos ou povos – e sua propensão à guerra.

Se sabe há muito tempo, por exemplo, que muitas tribos das florestas tropicais sulamericanas se envolvem em guerras frequentes e terríficas, mas alguns acadêmicos haviam atribuído seu vício à violência como uma má influência da cultura ocidental.

Keeley diz que sociedades pacíficas são uma exceção: entre 90 e 95% das sociedades conhecidas dedicam-se à guerra. O atrito de numerosas batalhas a curta distância, característica da guerra em sociedades guerreiras tribais, produz um índice de mortandade de até 60%, comparado com o 1% dos combatentes de uma típica guerra moderna.

Massacres ocorreram entre inúmeros povos americanos. As mortes em massa ocorriam muito antes de qualquer contato com o europeu. Os registros de missionários nas áreas fronteiriças entre Brasil e Venezuela mostram uma constante luta entre tribos Yanomami por mulheres ou prestígio, e evidenciam a guerra contínua para a escravidão de tribos vizinhas como os Macu, antes da chegada de colonizadores europeus com seu governo. Mais de um terço dos homens Yanomami, em média, morrem na guerra.

A cabeça do inimigo: um troféu de guerra para os Munduruku do Brasil pré-cabralino.

De acordo com Keeley, entre os povos indígenas das Américas, somente 13% não se envolvia em guerras com os vizinhos ao menos uma vez ao ano. A prática pré-colombiana de usar escalpos humanos como troféus de guerra é bem documentada. Outras práticas incluem a coleção de troféus, como a cabeça do inimigo.

Documentam-se ainda guerras cíclicas, como a guerra do caju, a guerra do milho e a guerra da piracema.

IV. A mobilização militar e a logística militar indígena

Segundo Thevet, as batalhas indígenas de grandes aldeias poderiam envolver seis,  dez ou até doze mil homens. Para tal, era necessária uma mobilização e uma preparação antes de atacar uma aldeia inimiga. Outra questão levantada por ele é “o fato de os selvagens americanos jamais assinarem tréguas, ou pactos, qualquer que seja o grau de inimizade entre si, como fazem as demais nações, mesmo as mais cruéis e bárbaras”, embora tenhamos conhecimento de que os índios usavam a diplomacia para angariar aliados europeus na sua luta contra os inimigos americanos tradicionais.

Os tupinambás reuniam-se em uma espécie de assembléia, composta exclusivamente por homens adultos, onde decidiam os assuntos militares. O ato preliminar da guerra é este conselho dos anciãos guerreiros da tribo, no qual todos se expressam. O local da reunião é o centro da aldeia e as mulheres não tomam parte na cerimônia.  Se os maiores manifestam-se favoráveis à guerra, a ordem de mobilização é imediatamente levada a todos. Nessa ocasião, também se determina o tempo da partida, que coincide com o da safra de algum fruto como o caju (guerra do caju), o milho (guerra do avati) ou a época da desova de algum peixe, como a tainha (guerra da piracema).

Construídas as canoas, aceradas as flechas, cozida a farinha, consulta-se novamente o pajé, que aguarda o desígnio dos sonhos. Se os sonhos são favoráveis, partem os guerreiros, após as danças e libações rituais do costume. As plumas e adornos em geral fazem parte do material bélico. Uma descrição de Thevet revela um pouco da divisão de tarefas:

Seguem as esposas a seus maridos na guerra, não porque vão combater, a exemplo das amazonas, mas porque precisam carregar os alimentos e deles cuidar, assim como transportar outras munições necessárias à guerra (pois, algumas vezes, empreendem viagens, que duram de cinco a seis meses). E, quando partem para essas longas guerras, os selvagens lançam fogo às suas palhoças, ocultando, na terra, os bens de maior valor, que só tornam a buscar quando regressam da empresa.

Na ato da partida (também em todas as ocasiões em que levantam acampamento), os “roncadores” fazem soar a inúbia, espécie de oboé destinado a alvoroçar e a incentivar os guerreiros. Cada guerreiro transporta suas armas, a rede e sua porção de farinha. Os líderes são acompanhados pelas mulheres. Marcham em fila indiana, os mais valentes na dianteira. No mar, não se afastam muito da costa. Assim que se atingem terras alheias, o espia trata de abrir o caminho ao exército.

Com relação à capacidade de mobilização, para a guerra de cerco, André Thevet relata expedições militares que duram até um semestre. Hans Staden testemunha um cerco de quase um mês. José de Anchieta testemunha operações militares dos tamoios envolvendo quarenta e oito canoas, o que na média significava uma tropa de quase quinhentos guerreiros.

V. A batalha indígena

Dois dias antes chegar na aldeia inimiga acampam, mas não fazem fogo, para não serem percebidos. Os ataques são feitos geralmente à noite, quando se reúnem em massa. Assim que são advertidos ou suspeitam da vinda de inimigos, fincam no chão, ao redor da sua posição, numerosos paus afiados, cujas pontas, embora saindo à flor da terra, quase que não se veem. Estas estrepes improvisadas ferem os inimigos nos pés ou outras partes do corpo.

A fim de surpreender o inimigo, ocultam-se nos matos à noite, ali permanecendo o espaço de tempo necessário para o assalto. Quando atacada a aldeia inimiga, ateiam fogo às cabanas, afim de obrigá-los a sair do abrigo, juntamente com sua bagagem, suas mulheres e seus filhos.

Se encontram as aldeias protegidas de caiçaras, erguem outra cerca de ramos e espinhos, próxima do acampamento inimigo, e de construção em construção, em breve estão juntos sitiantes e sitiados. Ao lado dos redutos, abrem buracos no chão e constroem estrepes. Nos sítios ou cercos, usam flechas inflamadas e asfixiam os inimigos com fumo de pimenta.

No entanto, como este tipo de expedição era frustrado pelos colonizadores, os nativos também optam por outros meios de combate. Dizia-se dos aimorés, por exemplo:

Nunca andam juntos, senão poucos, e, sem serem vistos, cercam a gente e a matam, e com tanta ligeireza se tornam a recolher e meter pelo mato como se foram cabras silvestres, correndo muitas vezes sobre os pés e as mãos, com o arco e flecha sobre as costas, e por isso se lhes não pode fazer guerra, nem com ela prevalecem contra eles, porque nunca pelejam em esquadrão feito, nem em campo descoberto, senão com ciladas e assaltos repentinos, por detrás das moitas e árvores, sem os homens os poderem ver, se não quando se sentem flechados, e por este modo de tal maneira tem infestado toda a costa do mar (…)

Parecem empregar suas estratégias furtivas de caça para atuar como guerrilhas nos matos. Talvez esta estratégia de combate tenha impedido os aimorés de serem expulsos da costa pelos tupis, como outros tantos grupos provavelmente foram. No entanto, Hans Staden também é capturado assim pelos Tupinambás: em vez de sofrer um ataque em sua posição fortificada, é pego fora dela por um pequeno grupo hostil.

VI. As armas e tecnologias indígenas
Algumas das armas e tecnologias bélicas à disposição dos índios estão listadas a seguir. Vale lembrar que nem todas elas foram empregadas por todos os grupos e em todas as épocas. Por exemplo, as boleadeiras só eram empregadas pelos índios da região Sul, nos Pampas e na Patagônia, e os venenos extraídos da Strychnos toxifera e dos sapos dendrobatídeos só podiam ser obtidos na Amazônia. As armas também não permaneceram sempre as mesmas: ao entrar em contato com europeus, os índios adquiriam armas de ferro, armas de fogo ou cavalos.

Borduna, tacape ou ibirapema – Parte importante da cultura bélica indígena, não era uma ferramenta de uso diário como o arco e flecha, mas feita unicamente para a guerra e para o sacrifício ritual. Nada mais era do que uma clava. As formas dessa arma e até os nomes variam de grupo indígena para grupo indígena.

Não se encontra registro do uso de machados ou bordunas com bordas cortantes, feitos de peças de sílex ou quartzo, em combates no Brasil, apesar dos machados serem ferramentas de uso diário.

A borduna ou tacape dos tupinambás é descrito assim em Histoire d’un Voyage Faict en la Terre du Brésil por Jean de Léry:

(…) sua forma é chata ovalada num extremo, medindo dois palmos de diâmetro na parte mais larga, e depois cilíndrica, medindo duas polegadas também de diâmetro. As bordas da parte oval são afiadas como machados, e como eles cortam, visto serem feitos de madeiras duríssimas.(…)

Arco e flecha – A principal arma. Devido à sua cultura, as atividade de caça eram constantes entre os homens e estes, desde a infância, treinavam com eles, adquirindo grande habilidade em seu manejo.

Todos os arcos brasileiros têm, basicamente, a mesma característica – são de madeira e de construção singela, o que limitava a sua força e alcance efetivo, (cerca de 30 metros). Cada grupo indígena tem suas variações quanto ao comprimento da arma (e portanto a força do arco), como as cordas eram colocadas, o tipo de haste das flechas e de pontas, tipo de empenagem e decoração.

O arco é assim descrito em Histoire d’un Voyage Faict en la Terre du Brésil, por Jean de Léry, um arco tupinambá:

Depois vem o arco, ou arapá, feito de madeira negra, mais comprido e grosso que o que temos aqui, de modo que um europeu não pode atirar com ele, coisa fácil, aliás, a um tupinambazinho de dez anos.

As cordas são de tucum, tão resistentes, apesar de finas, que um cavalo com elas pode tirar um veículo.

Quanto às flechas, medem quase uma braça e compõem-se de três partes, a saber: a parte média, de caniço, e as extremas, de madeira dura, primorosamente ligadas com embira. Numa ponta vão duas penas, ajustadas e ligadas com fio de algodão; na outra vai ou osso pontiagudo ou lasca de bambú acerado como lanceta.

Usam ainda o ferrão da cauda da arraia, o qual é venenoso. Depois da chegada dos franceses e peros passaram a utilizar-se de pregos.

Pero Vaz de Caminha também faz uma descrição do arcos tupiniquim, com as flechas de ponta feita de cana cortada:

Os arcos são pretos e compridos, as setas também compridas e os ferros delas de canas aparadas, segundo Vossa Alteza verá por alguns que – eu creio — o Capitão a Ela há de enviar.

Flechas envenenadas: usa-se venenos nas pontas das flechas ou dardos para paralisar a presa. As toxinas do veneno se ligam ao sítio fixador de acetilcolina, neurotransmissor responsável pelas junções neuromusculares. Assim, essa toxina compete com a acetilcolina por esse receptor e isso debilita a função muscular. Esse déficit é fatal caso músculos da respiração sejam afetados.

Strychos toxífera, da qual se extrai o curare, veneno paralisante e letal com o qual os índios embebem as pontas das flechas e lanças. Um de seus subprodutos é a estricnina, um alcalóide cristalino muito tóxico.

As pontas dessas flechas são embebidas em substâncias que agem analogamente ao veneno da cobra, ou seja, competem pelos receptores de acetilcolina. Os índios sul-americanos utilizam curare. O curare atua como relaxante muscular que prejudica relevantemente a fisiologia muscular.

Outra fonte de veneno letal para os índios, pelo menos os amazônicos, são os alcalóides letais contidos na pele de batráquios. No extremo leste da Floresta Amazônica, na Colômbia, reside o animal mais venenoso do planeta: Phyllobates terribilis, uma espécie de rã amarela cuja toxina – a homobatracotoxina – causa a falência múltipla dos órgãos em humanos.

O uso do aguilhão da arraia como ponta de flecha também é registrado. O veneno da arraia, embora não seja fatal quando não atinge o peito ou o abdômen, causa dores musculares terríveis.

Zarabatana – Uma arma que consiste num tubo originalmente de madeira, pelo qual são soprados pequenos dardos, setas ou projéteis.

As zarabatanas eram utilizadas pelos povos indígenas da América do Sul (Amazônia e Guianas) e Sudeste da Ásia, e por algumas tribos da América do Norte, para caçar pequenos animais, como pássaros, esquilos, macacos e coelhos. As setas utilizadas, muito leves, possuíam em média de 10 a 15 cm, e tinham pontas embebidas em venenos ou substâncias tóxicas — curare, secreção de sapos e seivas venenosas. As seivas eram extraídas de plantas como a Antiares toxicaria e a Palicourea marcgravii, entre outras. Não era comumente usada como arma de combate, apenas para caça e ação furtiva.

Lança – Arma menos difundida que as anteriores. Pode ser dividida em três tipos distintos: as azagaias, as lanças de uso a pé e as de uso a cavalo. As lanças a cavalo não são pré-cabralinas, já que só foram empregadas após a chegada do Europeu e da difusão do cavalo como animal de montaria, pois este não era nativo das Américas. Contudo a importância do cavalo para determinadas tribos indígenas como os guaicuru e a influência que essas tiveram na formação de uma “cultura” na Cavalaria Brasileira, não pode ser menosprezada.

As azagaias (ou dardos) eram armas curtas de arremesso usadas em substituição ao arco e flecha em algumas tribos do alto amazonas.

As lanças de uso a pé eram armas perfurantes, assim como as de uso a cavalo, mas o seu emprego foi mais restrito no Brasil. Índios que se adequaram ao uso do cavalo, como os guaicurus e charruas, fizeram mais uso da lança.

Fogo – Os índios também empregavam táticas incendiárias, tanto para a caça como para a guerra. Em Singularidades da França Antártica, Thevet descreve o uso do fogo como meio de disseminar o pânico e forçar os inimigos a sair de posições fortificadas:

[…]quando alcança a aldeia, usam o artificio de lançar fogo às cabanas dos adversários, afim de obrigá-los a sair do abrigo, juntamente com sua bagagem, suas mulheres e seus filhos.

É registrado o seu uso em cercos a aldeias rivais e fortificações portuguesas. O objetivo da chuva de flechas incendiárias que antecedem a investida é atear fogo às coberturas das cabanas, feitas de palha.

Fumaça de pimenta – A pimenta também funcionava como arma de cerco. Fazia-se “fumo de pimenta” para forçar os ocupantes de uma determinada posição a abandoná-la. Isso se dá pelo composto químico capsaicina, que é irritante para os mamíferos e produz a sensação de queimação em qualquer tecido com o qual entre em contato.

Hans Staden documenta o uso da pimenta como arma em seu livro Duas Viagens ao Brasil:

Ouvi-lhes dizer também que utilizam pimenta, que há em sua terra, e com que conseguem afugentar das fortificações seus inimigos. Isto se dá da seguinte maneira: quando o vento sopra, fazem uma grande fogueira e lançam-lhe dentro um montão de pés de pimenta. Se a fumaça dá de encontro às cabanas, o inimigo tem então de sair para fora.

Hans Staden no seu relato Viagem ao Brasil relata o uso desta arma contra embarcações portuguesas:

Os selvagens nada nos puderam fazer nas embarbações; arrumaram, porém, porção de lenha entre a margem e os barcos, a que deitaram fogo, a ver se nos incendiavam, e queimavam uma espécie de pimenta, que lá cresce, com o fim de nos fazerem abandonar as embarcações por causa da fumaça.

Boleadeiras – Arma e instrumento de caça dos indígenas da Patagônia e dos Pampas.

Consta de duas ou três bolas de pedra polida. O diâmetro de cada bola é de uns 10 cm nas boleadeiras de combate. As pedras são unidas unidas por tientos ou guascas, tiras de couro. Os indígenas usavam como matéria prima para os tientos o couro de guanaco e o couro do pescoço ou tendão da pata de nhandú (ema), antes de usarem o couro bovino.

Os europeus notaram a existência desta arma no início da Conquista, quando a viram nas mãos de hets, charruas, tehuelches, mapuches e pampas em 1520. Foi muito efetiva na Guerra de Arauco, onde os mapuches conseguiam neutralizar a ação da cavalaria espanhola.

Inicialmente os aborígenes usavam uma só pedra polida e circundada por um sulco no qual se atava um só tiento ou corda bastante grande e, com isto, golpeavam à distância sem perder a pedra. Esta arma funcionava foi chamada pelos espanhóis e crioulos de bola perdida. Quando faltavam pedras se improvisavam boleadeiras com bodoques de terracota ou mesmo osso. Na região patagônica se usava o nodo esférico que o fungo llao llao (Cyttaria darwinii) provoca nos ramos do ñiré (Nothofagus antarctica) na falta de pedras.

“Potreira”

A forma de uso mais comum desta arma é o “rebolear”, que consiste em girar as pedras pelos tientos por sobre a cabeça e jogá-la contra o alvo. Se é jogada com o objetivo de capturar uma presa, a boleadeira é lançada às pernas ou patas, para que os tientos se enrosquem ao redor delas. Em combates corpo a corpo era frequente não soltar a boleadeira mas sim usar uma das pedras como maça, principalmente sobre a cabeça do oponente.

À direita, uma maça inca. O formato lembra o que seria uma ‘bola perdida’, ou a boleadeira de uma pedra só. Esta seria a origem dos outros tipos.

Tipos de boleadeiras: A boleadeira pequena e de apenas duas bolas é chamada “ñanducera” (nhanduzeira) e era conhecida com o nome de chumé ou ‘tálakgáp’n pelos tehuelches. É usada para a caça ou captura de pequenos animais. A boleadeira de três bolas e maiores dimensões, conhecida como “potrera” (potreira) e chamada yachiko pelos tehuelches, se usa para o combate ou para capturar animais grandes como cavalos ou touros.

Escudos – Os índios, historicamente, ainda faziam uso de outros equipamentos de combate, como escudos, feitos de madeira ou de couro de anta, mas os registros sobre estes são escassos, apesar de alguns cronistas como Thevet terem ficado muito impressionados com eles, como mostra a seguinte passagem:

A terceira peça de seu armamento é o largo escudo que usam nos combates. Ele é feito de couro de um animal local, semelhante às nossas vacas no que se refere à cor, mas diferentes no tamanho. Estes escudos são tão fortes e resistentes quanto os broquéis barceloneses, não se deixando penetrar nem mesmo pelas balas dos arcabuzes!

Em História de uma Viagem Feita à Terra do Brasil, de Jean de Léry, também há uma breve descrição:

Finalmente, usam de rodelas de couro de tapiraçú, largas como um fundo de tamboril alemão. Quando brigam não se cobrem com eles, como praticam os nossos, mas deles se utilizam para resguardo contra as setas inimigas.

O Escudo do Uaupés, feito de trançado, mede 64 cm de diâmetro.

Um escudo feito de trançado, usado pelos índios Tukano, foi encontrado na região do Alto Rio Negro, noroeste do Amazonas em 1861 por uma expedição de Gonçalves Dias que assim o descreve:

Objeto raro, e tanto que há muitos na província que lhe ignoram a serventia. Bem tecido resiste à ponta de taquara ou do Curabi; leve, não cansa, e pode-se manejar com ele uma boa arma de defesa; facilmente portátil não embaraça a carreira.

Proteção corporal – A ausência de lâminas cortantes no combate pode ser o motivo de não existirem registros referentes ao uso de armaduras por parte dos indígenas. No entanto, índios dos pampas como charruas e minuanos usavam uma peça de roupa feita de couro de boi, com o pelo voltado para dentro, coberta com grafismos na parte externa. Era chamada pelos charruas de quillapi e pelos minuanos de cayapi.

Armadilhas, estruturas e fortificações

Estrepes – Thevet descreve o uso de dispositivos para ferir os pés do inimigo e impedir o seu avanço. Porém, não dá nenhuma descrição em detalhes da aparência ou de como é feito.

Ao lado dos redutos, abrem-se buracos no chão e constroem-se estrepes

Um outro dispositivo, que Thevet compara à este, também é descrito:

(…) plantam em terra, em redor de seus tugúrios, a cerca de um tiro de arco, numerosos paus agudíssimos, cujas pontas, embora saindo à flor da terra, quase que não se veem (comparáveis em tudo aos estrepes), nos quais os inimigos ferem os pés descalços, ou mesmo outra qualquer parte do corpo.

Caiçara – Palavra indígena para cerca de proteção. Eram postes dispostos ao redor da aldeia para proteger de ataques de tribos inimigas ou onças.

Em seu livro Duas Viagens ao Brasil, Hans Staden faz a seguinte descrição:

[…] levantam ao redor das cabanas uma cerca de varapaus feitas de troncos de palmeiras rachados. Fazem esta cerca, com aproximadamente uma braça e meia de altura, tão cerrada que nenhuma flecha pode passar por elas. Mas têm pequenos buracos a partir dos quais atiram para fora. Ao redor desta cerca de varapaus levantam outra cerca, uma paliçada de estacas longas e grossas, mas não colocam as estacas tocando-se umas às outras, e sim apenas próximas o suficiente para que uma pessoa não consiga passar por elas. […]

Tricheiras e barricadas – Hans Staden, em seus relatos, menciona a construção de fortificações improvisadas com troncos e buracos abertos pelos índios. Não menciona com que ferramenta os índios cavaram os buracos e derrubaram os troncos, no entanto.

Ao redor do lugar onde estávamos sitiados havia uma mata, na qual tinham construído dois redutos de troncos grossos, onde se recolhiam à noite; e quando nós os atacávamos, para lá se refugiavam. Ao pé destes redutos abriam buracos no chão, onde se metiam durante o dia e de onde saíam para nos guerrilhar.

Bloqueio das vias fluviais – Hans Staden no seu relato Viagem ao Brasil relata uma tática adotada pelos índios para parar as embarcações enquanto estas navegavam pelos rios: derrubar troncos de árvore ao longo da via.

Os selvagens, porém, tinham atravessado grandes troncos de árvores no rio e se postaram muitos deles nas duas margens, com o intuito de impedir a nossa viagem. Forçamos, porém, a tranqueira e ao meio dia mais ou menos estavamos de volta sãos e salvos.

Numa segunda tentativa, os índios tentam acertar com os troncos diretamente sobre a embarcação, na tentativa de pará-la:

[…] voltamos, outra vez, para o lugar sitiado. No mesmo ponto em antes haviam posto obstáculos tinham os selvagens de novo derrubado árvores, como anteriormente; mas acima do nível d’água e, na margem, tinham cortado duas árvores de modo a ficarem ainda em pé. Nas ramagens amarrarm-lhes uns liames chamados cipós que crescem como lúpulo, porém mais grossos. As extremidades ficavam amarradas nas estacadas e, puxando por elas, era seu intento fazer tombar as árvores caindo sobre as nossas embarcações. Avançamos para lá; forçamos a passagem, caindo a primeira das árvores para o lado da estacada e a outra na água, um pouco atrás do nosso barco.

Tecnologia naval indígena
A principal, e bem dizer a única, embarcação indígena era a canoa. Feita a partir de um único tronco de madeira escavado, a canoa é, junto com a balsa, uma das mais antigas embarcações utilizadas pelo homem. Aparentemente tosca, sobrevive há milênios graças à facilidade construtiva e ao seu poder de se moldar às necessidades.

Segundo todos os depoimentos, as canoas indígenas anteriores ao Descobrimento locomoviam-se a remos, inexistindo o uso ou o conhecimento da vela em toda a América. Os índios navegavam pela costa e pelos rios dentro das canoas e diz-se que guerreavam dentro delas mesmo, com seus arcos, quando necessário.

Hans Staden comenta, em 1556, o processo de produção das canoas a partir de peças inteiras de madeira extraídas de troncos:

Existe lá um tipo de árvore a que chamam de Igá-Ibira. As cascas dessa árvore desprendem-se de cima até embaixo num único pedaço, e, para tanto, eles erigem uma proteção especial em torno da árvore, de forma a que se desprenda inteira. Em seguida pegam a casca e levam-na da montanha até o mar. Aquecem-na com fogo e curvam-na para cima na frente e atrás, mas antes disso amarram no centro pedaços de madeira no sentido transversal, para que não se deforme. Assim fazem canoas onde até trinta deles podem ir à guerra. As cascas têm uma polegada de espessura, cerca de quatro pés de largura e quarenta de comprimento. Remam com essas canoas rapidamente e viajam até onde quiserem. Quando o mar está revolto, puxam as canoas para a praia até que o tempo volte a ficar bom. Não vão mais do que duas milhas mar adentro, mas viajam por longas distâncias ao longo da costa.

Quanto aos carijós (guaranis), usavam duas espécies de canoas: uma construída de um pau só, que cavavam a frio quando a madeira era mole ou por meio do fogo,  e que era chamada igára (y-gára, a que flutua). As grandes canoas deste tipo chamavam igára-açu (canoa grande) ou igára-tê (canoa verdadeira), e comportavam de 40 a 60 pessoas. As pequenas eram conhecidas por igára mirim (canoa pequena). O outro tipo de canoa era construído de casca de certas árvores escoradas por dentro, tendo os extremos ligados com cipó. As canoas deste tipo eram menores e mais fracas. Chamavam-nas ubá (uba-yá, casca aberta) ou piroga (esfolada). Denominavam as maiores embarcações deste tipo ubá-açú ou bacuçú.

Conta Thevet que estas embarcações feitas de casca tinham de 5 a 6 braças de comprimento e 3 pés de largura, comportando de 40 a 50 homens e mulheres. As mulheres eram empregadas na remoção da água que entrava na canoa. Remavam de pé com um remo chato dos dois lados, o qual seguram pelo meio.

Tanto as igáras, como as ubás e pirogas eram usadas na pesca, no comércio e na guerra. As destinadas a este último propósito, nas quais iam o chefe tuxaua, traziam como distintivo um maracá à proa e por isso eram denominadas igatim (canoa de bico) ou maracá-tim.

VII. As armas européias

Armaduras – As armaduras na Europa foram ficando cada vez mais raras com a difusão das armas de fogo. Uma conseqüência disso foi que as espadas passaram a ser mais leves e manejáveis, com guardas mais complexas para proteger a mão sem armadura. Espadas com estas linha gerais permaneceram em uso até o fim do uso da arma branca como equipamento bélico. Gradualmente, a partir do meio do século XVI, peças da armadura foram discartadas para aliviar o peso dos soldados. De fato, a única proteção disponível contra as armas de fogo eram barreiras como paredes de pedra, fortificações, trincheiras, rochas ou árvores.

Rapieira – No final do século XVI começaram a se tornar predominantes na Europa as espadas para uso diário denominada rapieiras (“espada ropera”, espada que se usa com roupa e não armadura), em detrimento das espadas exclusivas para o combate. Eram armas mais adequadas para a esgrima (os primeiros manuais de esgrima são escritos para essa arma), tendo lâminas longas e guardas elaboradas para proteger as mãos e prender a arma do adversário.

Era uma peça de uso cotidiano de militares e também de civis, mesmo porque a distinção entre civis e militares não era clara nos séculos XVI e XVII. A ética que permeou o período colonial tinha a espada como atributo da nobreza (os plebeus não usavam armas), de forma que os que podiam buscavam adquirir e andar permanentemente com uma espada.

Faca e adaga – Ferramenta de uso quase obrigatório e diário num período em que era o único talher disponível, além de ser empregada em trabalhos rotineiros. Todos carregavam uma adaga ou faca. A adaga de uso bélico também era conhecida como “misericórdia”, termo que vem da Idade Média, quando os cavaleiros carregavam uma adaga para enfiar nas juntas da armadura de um adversário derrotado.

Armas de haste – Um dos artefatos bélicos mais comuns do século XVI na Europa. Devido às características das lutas que aqui se travaram, é possível que não tenham sido comuns no Brasil.

A única arma de haste que aparece em registros históricos do Brasil em números razoáveis era o pique. O Regimento de Tomé de Souza, de 1548, determinava que cada capitão-mor e senhor de engenho tivesse um determinado número de lanças ou chuços (piques).

O pique era uma longa lança, fundamental na Europa para a defesa da infantaria contra a cavalaria, ameaça que não existia no Brasil dos séculos XVI e XVII, justificando a pouca importância desta arma aqui.

Besta – A base das milícias portuguesas desde o século XIII eram os besteiros do conto, cidadãos chamados para o serviço militar que deveriam ser equipados com uma besta de polé. No século XVI as bestas já se estavam em decadência por causa da difusão das armas de fogo.

Tiveram uso no Brasil até a segunda metade do século XVI. A primeira fortificação construída no país, em 1502, foi guarnecida por doze besteiros (de um total de vinte e quatro homens). Uma das primeiras “entradas” feitas, em 1530, era composta por oitenta homens, dos quais quarenta besteiros. O Regimento de Tomé de Souza (1548) determinava que os capitães-mores e senhores de engenho tivessem um número idêntico de armas de fogo e bestas em seus arsenais. Esta é uma das últimas referências ao uso desta arma no Brasil. Os termos do Regimento de Tomé de Souza referentes à defesa foram reeditados em 1612 para o Governador Gaspar de Souza. Neste novo documento as bestas foram substituídas por mosquetes.

Espingarda – Nome genérico das armas de fogo usadas em Portugal no início do século XVI. O termo espingarda já convive com o nome arcabuz em meados do século XVI, como no caso do regimento de Tomé de Souza (1548) que determinava que os capitães eram obrigados a ter “vinte arcabuzes ou espingardas”.

De forma genérica, a arma tinha cerca de 1,2 m a 1,5 m de comprimento e de 4 a 6 kg de peso. Dispava uma bala esférica de chumbo, de 15 a 20 mm de diâmetro, que era capaz de penetrar a maior parte das armaduras usadas na Europa e em todas as proteções disponíveis para os indígenas das Américas.

Arcabuz – Não apresentava diferenças marcantes em relação à anterior, sendo uma arma portátil, de peso por volta de 5 kg e com calibre na faixa de 15 a 20 mm. Seu alcance máximo era de até 800 metros, mas nunca era empregada em distâncias superiores a 150 metros, pois as chances de se atingir um alvo a esta distância eram desprezíveis – mesmo que este fosse muito grande.

Apesar de ser a arma mais utilizada e apropriada para o Brasil dos séculos XVI e XVII, não era a preferida: o mosquete, apesar de mais pesado, dava maior status (e soldo), de forma que estes preferiam ser classificados como “mosqueteiros”.

Mosquete – Arma introduzida no final do século XVI, em função do uso, na cavalaria, de uma armadura reforçada capaz de resistir ao disparo de um arcabuz. Tinha um calibre mais reforçado, sendo mais pesada que o arcabuz. Chegava a pesar 11 kg, com calibre de até 24 mm e um alcance de cerca de 220 metros (embora a possibilidade de acertar a esta distância fosse pequena). Para ser disparada, era usada com uma forquilha.

Apesar do prestígio dessa arma, ela foi desaparecendo ao longo da segunda metade do século XVII, pois a cavalaria abandonou qualquer tentativa de proteção contra as balas dos atiradores. No final do século, o mosquete já tinha sido totalmente substituído pelos arcabuzes, agora rebatizados de espingarda.

Artilharia
Nos navios, empregavam-se as colubrinas como peças de artilharia naval (para afundar outros navios) e os falconetes como artilharia anti-pessoal. É provável que o falconete tenha sido empregado nos bergantins dos colonizadores contra ataques que viessem a sofrer enquanto navegavam pelos rios.

Um falconete.

Hans Staden menciona que fez guarda num posto avançado guarnecido por peças de artilharia, mas não especifica qual tipo de peça. A julgar pelo tipo de inimigos que enfrentavam, provavelmente eram falconetes. O falconete era a mais ligeira das peças de artilharia utilizada a bordo dos navios dos séculos XV e XVI, e a maioria dos navios portugueses que se lançavam ao mar tinham este como armamento.

VIII. Tropas mistas

Para encerrar, é necessário compreender que não há uma oposição entre estes dois conjuntos. Ou seja, não há uma “guerra primitiva contra uma guerra moderna”. Os portugueses precisavam adequar-se ao contexto americano, fazendo alianças e  guerreando no modo nativo. Os indígenas, por sua vez, assimilavam tecnologia fosse pela compra ou toma, fosse pela aliança com inimigos dos portugueses. Para se ter uma ideia, numa bandeira, a proporção de indígenas era sempre maior que a de brancos, quase sempre mais que o dobro.

Indígenas guerreavam entre si tanto quanto europeus guerreavam entre si. O uso de artilharia naval, navios e fortes por parte de portugueses e espanhóis era dedicado exclusivamente ao combate de traficantes, corsários e invasores europeus como os franceses, os holandeses, os ingleses. As tropas indígenas tomavam parte nos combates por todos os lados, e não havia a possibilidade de se guerrear por aqui sem a mescla dos elementos europeus aos nativos.

OUTRAS PARTES DA SÉRIE:

FONTES E REFERÊNCIAS:

Web

Livros, revistas, artigos e entrevistas

A Conquista do Brasil (Parte IV)

Dando continuidade à nossa série de artigos A Conquista do Brasil, o presente artigo busca fazer um apanhado dos grupos envolvidos nesse processo de ocupação do território brasileiro. Não podemos falar sobre todos eles, dada a grande diversidade étnica e linguística do continente sul-americano quando da chegada dos europeus, mas abordaremos os de mais destaque na História.

1. Tupis e Guaranis

Uma lenda nos conta que Tupi e Guarani, dois irmãos gêmeos, ficaram inimigos por causa das contínuas brigas entre suas mulheres e decidiram separar-se. Tupi se dirigiu para o norte, e Guarani para o sul.

Os descendentes destes irmãos míticos penetraram na selva. Os guaranis, empregando canoas e balsas para viajar pelos rios, escolhiam um lugar e ali levantavam sua aldeia e praticavam a agricultura. Como em pouco tempo seus campos de cultivo perdiam a fertilidade, os guaranis tinham que pegar suas posses e mudar-se em busca de melhores terras.

A ocupação de novos territórios nem sempre foi pacífica. Às vezes encontravam tribos muito fortes que lhes impediam de avançar, e tinham de mudar a rota. Outras vezes, no entanto, conquistaram violentamente e guaranizaram os vencidos.

Sabe-se que há mais de mil anos os guaranis iniciaram uma grande migração até o sul desde o coração das selvas sulamericanas.

Mapa ilustrando possíveis rotas de dispersão dos Tupis e Guaranis.

Basicamente, todos os grupamentos indígenas de língua tupi pertencem à nação Tupi. Os tupis, no entanto, possuem divisões e conflitos intertribais, como os que ocorriam entre tupinambás e tupiniquins. Por este motivo, cada grupo é descrito com um nome distinto (maracajá, potiguara, tabajara, etc). Estes nomes distintos podem ser autônimos ou termos, às vezes pejorativos, inventados por outros povos. Os temiminós, por exemplo, são chamados de “maracajás” (gatos-do-mato).

1.1 – Tupinambás ou tamoios?
O termo tupinambá provavelmente significa o mais antigo ou o primeiro e se refere a uma grande nação de índios tupi. Os tupis dominavam quase todo o litoral brasileiro e possuíam uma língua comum, que teve sua gramática organizada pelos jesuítas e que passou a ser conhecida como o tupi antigo, constituindo a raíz da língua geral paulista e do nheengatu. Entretanto, quando se menciona o tupinambá, pode-se estar referindo na verdade às tribos que fizeram parte da Confederação dos Tamoios, cujo objetivo era lutar contra os colonizadores portugueses.

Apesar de terem raízes comuns, as diversas tribos que compunham a nação Tupi lutavam constantemente entre si, travando guerras tribais nas quais os prisioneiros eram capturados para serem devorados em rituais antropofágicos.

Ilustração do ritual antropofágico dos tupis. O cativo, amarrado, será golpeado na cabeça até a morte e posteriormente será cortado em pedaços, preparado e consumido pelos membros da tribo.

Os tupis da Região Sudeste do Brasil tinham um vasto território, que se estendia desde o Rio Juqueriquerê, em São Sebastião / Caraguatatuba, no estado de São Paulo, até o Cabo de São Tomé, no estado do Rio de Janeiro.

O grosso da nação tupinambá vivia na Baía da Guanabara e em Cabo Frio, onde fabricavam o gecay – tempero nativo feito de sal grosso moído (extraído da lagoa salgada de Araruama) e pimenta vermelha gigante – e o vendiam aos franceses, com os quais se aliaram quando estes estabeleceram a sua colônia na Baía da Guanabara: a França Antártica.

Cunhambebe.

As tentativas de escravização dos índios para servirem nos engenhos de cana-de-açúcar no núcleo vicentino levaram à união das tribos na Confederação dos Tamoios, englobando todas as aldeias tupinambás desde o Vale do Paraíba Paulista até o Cabo de São Tomé, com invejável poderio de guerra.

Líderes notáveis: Cunhambebe, Pindobuçu, Coaquira, Guayxará, Aimberê.
População estimada no século XVI, segundo IBGE:  110 mil (tupinambás) e 60 mil tamoios.

1.2 – Guaranis ou carijós – Os guaranis se assentaram sobretudo na região Sul e sudeste – o que lhes permitiu uma expansão bastante intrusiva na região do Prata. Em boa parte das regiões litorâneas do sul e do sudeste do Brasil, bem como na bacia dos rios Paraná e Prata, foram os guaranis os primeiros a serem contatados pelos europeus.

A região Guarani do passado delimitava-se originalmente a Oeste do rio Paraguai e ao Sul da confluência deste rio com o Paraná. O Oceano Atlântico era o seu limite oriental, entre Paranaguá, no litoral brasileiro e a fronteira entre o Brasil e o Uruguai de hoje. Os Guarani dominaram uma região de pelo menos 350.000 km2 (Clastres, 1974).

Maloca Guaraní, quadro de Aldo Chiappe.

O povo guarani possuiu, desde o início, um caráter intrusivo na região platense. Sua entrada foi violenta e determinou uma existência constantemente ofensiva e defensiva a respeito das populações aborígenes não guaranis que habitavam a região.

Grandes grupos de guaranis foram aldeados pelos jesuítas e reunidos nas missões (ou reduções). Nestes povoamentos foram introduzidas técnicas européias de construção e carpintaria e praticava-se a agricultura e a pecuária. Os guaranis chegaram a ser alfabetizados, de modo que há registro de suas comunicações através de cartas e bilhetes em guarani e português. No entanto, as missões jesuítas sofreram fortes golpes das expedições militares de bandeirantes, tanto portugueses quanto espanhóis, às quais opuseram resistência armada com auxílio dos jesuítas.

Líderes notáveis: Sepé Tiaraju, Nheçu, Inácio Abiaru, Nicolau Nhenguiru.
População estimada no século XVI, segundo IBGE: 81 mil (dos quais 25 mil “carijós”)

1.3 – Tupiniquins – Foram os primeiros nativos a contactar os portugueses. Antes mesmo dos portugueses desembarcarem na costa brasileira, dois índios tupiniquins haviam visitado a embarcação de Cabral, feito esse registrado na Carta de Pero Vaz de Caminha ao Rei Manuel.

Havia tupiniquins no centro-sul da Bahia, mas a maior concentração da tribo era na região da atual Grande São Paulo. Um subgrupo tupiniquim, os guaianases, dominava o litoral sul de São Paulo até regiões perto da cidade de São Sebastião (SP).

Tibiriçá.

Foram catequizados por jesuítas, em Aldeia Nova, sofrendo com pragas exógenas como a varíola e endógenas como as formigas, que lhes destruíam as plantações.

Em 1610 o Padre João Martins obteve para os nativos uma sesmaria, território cujo principal centro era a vila de Nova Almeida que, na data de sua demarcação (1760), contava três mil habitantes.

Foram importantes aliados dos portugueses na Bahia e lutaram contra os Tupinambá, que apoiavam os franceses.

Líderes notáveis: Tibiriçá.
População estimada no século XVI, segundo IBGE: 90 mil.

1.4 – Temiminós ou maracajás– Habitavam principalmente o litoral da região sudeste brasileira. Eram inimigos habituais dos tupinambás. Os temiminós aliaram-se aos portugueses contra os franceses e os tupinambás, seus inimigos.

Um de seus principais centros territoriais foi a atual Ilha do Governador, na época, chamada Paranapuã (“mar redondo”) pelos tupis e Ilha do Gato pelos portugueses. Outra região ocupada pelos temiminós foi o litoral do atual estado do Espírito Santo.

O instante melhor conhecido da história temininó se relaciona com a criação e destruição da França Antártica. Em 1554, os tupinambás da Confederação dos Tamoios, ajudados por franceses, atacaram os temiminós na ilha de Paranapuã e os expulsaram da Baía da Guanabara. Os temininós, liderados pelo chefe Maracajá-guaçu, foram ajudados pelos portugueses na viagem que fizeram até encontrarem a outra parte de sua nação, no atual estado do Espírito Santo. Nessa capitania, fundaram, com os Jesuítas, uma aldeia que deu origem à atual cidade de Serra.

Em 1567 os temininós, liderados por Araribóia (filho de Maracajá-guaçú), juntaram-se aos portugueses e destruíram as fortificações dos franceses e tamoios na Baía da Guanabara. A convite dos portugueses, Araribóia passou a residir no local onde atualmente é o bairro de São Cristóvão, na cidade do Rio de Janeiro. Alguns anos depois, em 1573, Araribóia e os temiminós se mudaram para o outro lado da entrada da Baía da Guanabara, onde tinham a missão de proteger a entrada da baía. Nessa região, os temiminós fundaram São Lourenço dos Índios, que foi o início da atual cidade de Niterói.

Líderes notáveis: Maracajá-guaçú, Araribóia.

1.5 – Potiguaras –  Habitavam o litoral do atuais estados da Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará e seu contato com europeus remonta às primeiras tentativas de colonização e comércio com a América do Sul.

Os quinhentistas e seiscentistas escreveram de posições bastante distintas sobre eles. Do ponto de vista dos cronistas e viajantes, se enquadravam na categoria “gentios bravos”, justificando-se assim a necessidade de “amansá-los”. Constituíram, ao longo das tentativas de colonização, entraves à exploração portuguesa.

O cotidiano da capitania de Itamaracá (Paraíba) era tomado pelo embate com os “gentios”, aliados dos franceses, cuja cultura tinha na honra guerreira o seu valor fundamental. A aliança do espírito guerreiro indígena com o interesse mercantil francês impediu o sucesso das expedições de conquista e ocupação portuguesa. Para se ter uma idéia do papel preponderante dos guerreiros indígenas, as tentativas de conquistar a Paraíba foram fracassadas durante todo o século XVI pela determinação dos Potiguara na defesa do seu território. A aliança com os franceses foi decisiva no ano de 1586, quando sete navios franceses aportaram na Baía da Traição com pessoas e munição para se juntarem aos índios e lutarem contra os portugueses, aliados dos Tabajara, inimigos tradicionais dos Potiguara. Foram destruídas três aldeias Potiguara na Serra da Copaoba, mas os Potiguara resistiram e saíram vitoriosos.

No final da década de 80 do século XVI, os Potiguara cercaram a cidade de N. Sra. das Neves (atual João Pessoa), enquanto as aldeias desses índios em Baía da Traição eram destruídas pelos portugueses e aliados, sendo motivo da rendição dos Potiguara e da fuga de alguns para a Capitania do Rio Grande. Em 1599, os Potiguara fizeram as pazes com os portugueses, depois de terem perdido o apoio dos franceses (derrotados em 1597) e após uma epidemia de varíola ter dizimado a sua população.

Antônio Filipe Camarão

A subjugação dos Potiguara se deu pela mediação de Ilha Grande, índio aprisionado pelos portugueses que dispunha de forte influência por sua posição de xamã. Ilha Grande foi libertado e instruído para induzir os índios à paz. O temido e respeitado xamã convenceu os chefes Potiguara do interesse e da necessidade em cessar as hostilidades contra os portugueses.

Após longos e sangrentos conflitos envolvendo os Potiguara e os invasores portugueses, a região compreendida entre os Estados de Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará foi conquistada. Mas a paz duraria até a chegada dos holandeses e sua aliança com os Potiguara.

Líderes notáveis: Zorobabé, Filipe Camarão.
População estimada no século XVI, segundo IBGE:   90 mil.

1.6 – Tabajaras – Habitavam a zona da mata e o agreste paraibano e pernambucano. Extintos pela miscigenação, seu território estendia-se da Ilha de Itamaracá até o rio Paraíba, adentrando pelo Agreste até o vale do rio Pajeú.

Os grupos que se fixaram na serra da Ibiapaba, região montanhosa que nas divisas dos atuais estados do Ceará e Piauí, ficaram conhecidos nos registros históricos como Tabajara. Nesta região, viviam ainda inúmeros grupos tapuias, que eram de certa foram subordinados aos Tabajara.

Foram os primeiros nativos da região (Paraíba-Pernambuco) a entrar em contato com os conquistadores portugueses. Por seis meses Duarte Coelho teve seus desejos de colonização da parte oriental do Nordeste frustrados pela resistência dos potiguaras, inimigos dos tabajaras. Por fim, os conquistadores conseguiram uma aliança com os chefes indígenas tabajaras Pirajibe, Tabira e Itajiba e com eles dominaram completamente os temíveis potiguaras, conquistando o litoral paraibano.

Ainda no século XVII, após as invasões holandesas, centenas de índios Potiguara da Paraíba e Pernambuco, convertidos ao calvinismo, buscaram refúgio na Ibiapaba, até então, uma área livre do controle português.

No século XVIII quando os padres jesuítas conseguem finalmente instalar uma missão na serra da Ibiapaba esta vai ser composta por uma variedade de etnias indígenas, muitas vezes citadas na documentação como Tabajara. Essa população aldeada vai sendo incorporada ao projeto colonial paulatinamente, destacando-se a sua utilização como mão-de-obra agrícola e fornecimento de tropas para combater índios rebeldes e invasões estrangeiras. Com a elevação das aldeias missionárias à categoria de vilas de índios a partir de 1759, registra-se na capitania do Ceará uma grande dispersão dos índios aldeados. Na Ibiapaba, as aldeias missionárias constituirão as vilas de Viçosa, São Benedito e Ibiapina.

Líderes notáveis: Pirajibe, Tabira, Itajiba.

2. “Tapuias”

Composto por diversos grupos e etnias que habitavam principalmente o interior do continente, em detrimento dos tupis, que habitam sobretudo a costa. Não falam a língua tupi e o termo tapuia, que é tupi, significa “bárbaro”, “forasteiro” ou mesmo “inimigo”. Este portanto era um termo genérico tupi para qualquer índio não-tupi e que foi incorporado ao vocabulário português para designar índios do sertão e menos civilizados.

Dança dos Tapuias, quadro de Albert Eckhout.

Alguns povos indígenas que eram classificados como tapuias: cariris, tarairius, caraíbas, jês, canindés, etc. Diferente dos tupinambás, os tapuias eram descritos como endocanibalistas: ou seja, devoravam inclusive aqueles de sua própria tribo. Muitos grupos “tapuias” eram nômades e não tinham o hábito de construir casas, apenas habitações rudimentares.

A maior nação entre os tapuias era a dos índios de língua Jê. Foram expulsos do litoral pelos tupis, migrando para o interior do Brasil. Na época da safra de caju, os índios macro-jês do interior realizavam incursões ao litoral dominado pelos tupis para colher a fruta, ocasionando as chamadas “Guerras do Caju”. No entanto, algumas tribos resistiram e permaneceram na costa brasileira, como os tremembés, os aimorés e os goitacás. Os “tapuias” no entanto não tardaram a sucumbir perante as forças militares européias e tupis e doenças trazidas pelos europeus, como a varíola e o sarampo. Os goitacás, por exemplo, foram derrotados em 1631 e se dispersaram pelo interior dos atuais estados brasileiros de Rio de Janeiro, Espírito Santo e Minas Gerais, passando a ser conhecidos como puris, coroados e coropós.

2.1 – Jês– Dominavam todo o planalto central; na região que corresponde atualmente ao oeste de Minas Gerais, o Estado de Goiás e do Mato Grosso. Eram encontradas algumas tribos também no Maranhão e no Piauí. Inclui grupos como os kayapós, os bororo, os xavante, os kaingang, os karajá e os xokleng. O grupo ocupava mais de 65% do território brasileiro, sobretudo as áreas sertanejas.

Acredita-se que os povos macro-jês detinham a hegemonia sobre a maior parte do atual território brasileiro, até que, por volta do ano 1000, os povos do grupo linguístico macro-tupi, provenientes do sul da Amazônia, migraram para o leste, expulsando grande parte dos macro-jês que habitavam o litoral brasileiro e forçando-os a se alojarem no interior do Brasil, que possuía condições naturais menos propícias que o litoral. Na época da chegada dos colonizadores portugueses ao litoral brasileiro, ou seja, a partir do século XVI, as únicas exceções ao domínio tupi no litoral brasileiro eram os tremembés, nos atuais litorais do Maranhão, Piauí e Ceará; os aimorés, no sul da Baía e norte do Espírito Santo e os goitacazes, no norte do Rio de Janeiro e sul do Espírito Santo. Todos pertencentes ao grupo linguístico macro-jê.

Família de Botocudos em marcha, obra de Jean Baptiste Debret, 1834. Os botocudos eram parte da nação macro-jê e considerados muito agressivos pelos colonizadores.

Os macro-jês ofereceram grande resistência à colonização portuguesa do território brasileiro, sendo responsáveis pela morte de muitos colonos e pelo fracasso de muitas capitanias hereditárias, como a de Ilhéus, a de Porto Seguro, a do Espírito Santo e a de São Tomé.

Área de dispersão das línguas Jê.

Alguma tribos jês se aliaram aos neerlandeses, quando estes invadiram o nordeste brasileiro no século XVII. Por exemplo, a nação tarairiu, que ocupava o interior dos atuais estados brasileiros da Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará.

2.2 – Tremembés – Nos séculos XVI e XVII, os Tremembés ocupavam a extensa região litorânea que segue do atual Pará ao Ceará. Acredita-se que em época anterior tenham povoado até a foz do Açú ou mesmo o Cabo de São Roque, chegando ao Gurupi, no Pará.

Eram originalmente nômades, alimentavam-se de peixe e carne, embora fossem mais pescadores do que caçadores. Usavam cerâmica grosseira, cabaças e apreciavam muito o caju e a tartaruga. Plantavam mandioca e algodão e criavam cães. Moravam em choças construídas com ramos ou folhas de palmeira e dormiam nas areias das praias.

De espírito belicoso, chamaram a atenção dos viajantes espanhóis, franceses e portugueses. Pouco se conhecia sobre o seu sistema de parentesco e organização política. Sua língua também é desconhecida, restando apenas alguns vocábulos recolhidos na dança do Torém, ainda hoje executada na cidade de Almofala.

Com a colonização portuguesa, aldeamentos missionários foram criados ao longo das terras. No Ceará os índios se fixaram no aldeamento Aracati-mirim na chamada Missão Nossa Senhora da Conceição dos Tremembé, e foram aldeados pelos Jesuítas no século XVII nas missões de Tutoya (Tutóia-Maranhão), Aldeia do Cajueiro (Almofala) e Soure (Caucaia).

Líderes notáveis:

2.3 – Aimorés – Aimorés era o nome pelo qual os portugueses denominavam os nativos que habitavam a região sul da Bahia, Minas Gerais e Espírito Santo, principalmente nos vales do rio Jequitinhonha e do rio Doce. Foram os responsáveis pelo fracasso das capitanias de Ilhéus, Porto Seguro e Espírito Santo.

Para instalar a indústria açucareira na região sul do que hoje é a Bahia, era preciso arregimentar mão de obra escrava e, para isso, os colonos portugueses começaram a penetrar no território dos Aimoré. A reação foi imediata: já em 1546 os ataques dos aimorés se tornaram constantes e o donatário da capitania de Porto Seguro, Pero do Campo Tourinho, escreveu ao rei D. João III narrando a devastação ocorrida na Bahia e solicitando o envio de “artilharia, pólvora e munição”. Em pouco tempo, Ilhéus e Porto Seguro já estavam devastadas, e os aimorés chegaram até a realizar incursões à capitania da Bahia. Por volta de 1570, o senhor de engenho Gabriel Soares de Sousa escreveria em seu “Notícia do Brasil”:

Os oito engenhos que existiram na capitania dos Ilhéus, estes não fazem mais açúcar, nem há morador que lá ouse plantar cana, porque em indo os escravos ou os homens ao campo, não escapam do gentio Aimoré, dos quais foge toda a gente dos Ilhéus para a Bahia, e tem a terra quase despovoada”. De acordo com ele, Ilhéus fora “vila muito abastada e rica, que teve 400 até 500 vizinhos – e agora não conta com mais de cem.

Os que buscavam refúgio nas ilhas de Tinharé e Boipeva, logo foram também sitiados. Os Aimorés interrompiam as comunicações entre as capitanias de Ilhéus e Bahia – que eram unidas por uma trilha bem demarcada. Os Tupiniquim, ainda aliados dos portugueses, fugiram da luta e refugiaram-se no sertão.

O temor era justificado. Os aimorés, assim como os goitacás, eram inimigos fomidáveis, virtualmente imbatíveis quando confrontados em seu próprio território. Eram descritos como “gente esquisita e agreste, inimiga de todo o gênero humano”. Aqueles que caíam em seu poder nunca voltavam com vida para contar. O jesuíta Fernão Cardim os descreveu, em 1585, da seguinte maneira:

[…]gente barbaríssima, alheia a toda a humanidade, e onde o uso da razão parece estar mui apagado, e é a mais fera e cruel que há em todo o Brasil.

Faz também a seguinte descrição de seus costumes:

Os Aimoré ocupam 80 léguas de costa, e para o sertão quanto querem, e são senhores de matos selvagens, muito encorpados, e pela continuação do costume de andarem pelos matos bravos, tem os couros muito rijos, e para este efeito açoitam os meninos em pequenos com uns cardos para se acostumarem a andar pelos matos bravios; não tem roça, vivem de rapina e pela ponta de flecha, comem mandioca crua sem lhes fazer mal, e correm muito e aos brancos não dão senão de salto, e usam de uns arcos muito grandes e trazem uns paus muito grossos, para que em chegando logo quebrem as cabeças. Quando vêm à peleja, estão escondidos debaixo de folhas. São muito covardes em campo, e não ousam sair nem cruzam água, nem usam de embarcações, nem são dados a pescar, toda sua vivenda é do mato.

A descrição parece a de um grupo num estágio civilizacional realmente mais primitivo que o dos tupis dispersos pela costa do Brasil.

População estimada no século XVI, segundo IBGE:  30 mil.

2.4 – Goitacás – Habitavam a região costeira brasileira entre o Rio São Mateus, no atual estado brasileiro do Espírito Santo e o Rio Paraíba do Sul, no atual estado do Rio de Janeiro. Fisicamente, possuíam pele mais clara, e eram mais altos e robustos que os demais índios do litoral.

Mantinham comércio com os europeus, mas com uma peculiaridade: não se comunicavam com eles. Deixavam seus produtos em lugar mais elevado e limpo ficando a distância, observando as trocas. Davam mel, cera, peixe, caça e frutos em troca de enxadas, foices, aguardente e miçangas.

Trabalhavam o barro, enterrando seus mortos dentro de igaçabas (urnas funerárias). Faziam machados de pedra, jangadas, trabalhavam com bambu e trançavam redes de fibra e cordas.

Jean de Léry os descreve assim:

Andam nus, assim como fazem todos os brasileiros, e trazem os cabelos compridos e pendentes até as nádegas,contra o costume mais ordinário dos homens desse país, os quais”… “tosuram o cabelo na frente e o cerceiam na nuca.

2.5 – Aruaques (arahuacos, arawak, aruak) – São encontrados em diferentes partes da América do Sul – Bolívia, Brasil, Colômbia, Guiana, Paraguai, Peru, Venezuela e, outrora, também das Antilhas.

Ocupavam uma extensa zona geográfica compreendida em  parte do Amazonas e a ilha de Marajó. Fora do território brasileiro localizavam-se desde a Bolívia até  a costa setentrional da Venezuela, para o Norte chegaram  até a Flórida e para a o Sul atingiram a região do Paraguai. Eram considerados excelentes navegadores e em estágio bem adiantado de desenvolvimento possuindo agricultura organizada.

Indiaanse vrouwen, obra de P. J. Benoit, 1839. Duas mulheres aruaques do Suriname em trajes típicos. A da esquerda traz um adorno nasal.

Os aruaques foram os primeiros ameríndios a ter contato com os europeus: quando Cristóvão Colombo chegou às Bahamas, o navio atraiu a atenção dos nativos que foram ao encontro dos visitantes a nado.

No fim do século XV, os aruaques encontravam-se dispersos pela Amazônia, nas Antilhas, Bahamas, na Flórida e nos contrafortes da Cordilheira dos Andes. Os grupos mais conhecidos são os Tainos, que viviam principalmente na ilha de Hispaniola (Rep. Dominicana e Haiti), em Porto Rico e na parte oriental de Cuba.

2.6 – Caraíbas (caribes, karibs) – Povos indígenas das Pequenas Antilhas, que deram o nome ao mar do Caribe. Sua origem estaria no sul das Índias Ocidentais e na costa norte da América do Sul. Ocupavam a região do baixo Amazonas e parte do território do Amapá e Roraima.

Dispersão das línguas Caribe pelo continente sul-americano.

Acredita-se que os caraíbas tenham deixado as florestas tropicais do Orinoco, na Venezuela, para se estabelecer no Caribe. Nos séculos que antecederam a chegada de Cristóvão Colombo no arquipélago caribenho, em 1493, os caribes podem ter expulsado os igneris, povo de fala maipureana, da região norte das Pequenas Antilhas.

Os ilhéus também saqueavam e comerciavam com os tainos das Ilhas Virgens e de Porto Rico. Os caribes eram a fonte do ouro que Colombo encontrou em posse dos tainos: o ouro não era fundido pelos ameríndios das ilhas, mas sim obtido, através do comércio, de tribos do continente. Os caribes eram hábeis navegadores e construtores de embarcações, e aparentemente deviam sua hegemonia da bacia caribenha ao domínio das artes da guerra.

Os próprios caribes foram desalojados pelos europeus, e eventualmente foram todos exterminados ou assimilados durante o período colonial pelos espanhóis. Conseguiram, no entanto, manter o controle de algumas ilhas, como Dominica, São Vicente, Santa Lúcia e Trinidad.

2.7 – Charruas– Constituiam uma família formada por várias etnias: charruas, bohanos, guenoas e minuanos. Apesar de não serem etnias canoeiras, passavam de uma comarca a outra do Prata com facilidade.

Assentaram-se na margem setentrional do Rio da Prata, entre Maldonado e San Salvador, de acordo com muitos testemunhos da época da Conquista, ainda que depois do ano 1600 também tenham ocupado regiões mais setentrionais, até perto do rio Ibicuy e da Mesopotâmia argentina, ocupando então ambas as bandas do Uruguai.

Dispersão dos grupos Charrua.

Bohanos – Habitavam a costa costa oriental do Uruguai, ao norte do Rio Negro nas zonas de Salto, Paysandú e Río Negro. Algumas fontes os localizam também em Entre Rios. Foram absorvidos pelos charruas desde os princípios do século XVIII.

Guenoas – Localizavam-se entre o rio Uruguai e as costas do mar, entre Cabo Santa Catalina e o rio da Prata. Em fins do século XVII viviam errantes nos campos localizados a oeste do Rio Uruguai e ao sul das Missões Guaranis, de onde se transladaram ao território oriental, fixando-se finalmente na zona de Castillos (departamento de Rocha).

Minuanos – Localizavam-se nas planícies do norte do Paraná e Entre Ríos. Até 1630, passaram à margem oriental do rio Uruguai, onde se uniram aos charruas. Em sua maior extensão chegaram às lagoas Mirim e dos Patos. A fins do século XVIII e princípios do século XIX vagavam junto com os charruas na região nordeste do Uruguai, regressando então à Mesopotâmia argentina.

Charruas – Dedicavam-se principalmente à caça, ainda que também à pesca e à coleta. Suas armas eram as boleadeiras, arco e flechas, dardos, lanças, fundas e tacapes. Sua vestimenta compreendia um avental de couro e o “quillapí” ou manto de peles, que vestiam com o pêlo para dentro e adornado exteriormente de desenhos geométricos. Os homens usavam o tembetá e as mulheres adolescentes tinham o rosto tatuado.

Ao introduzir os espanhóis os cavalos e as vacas em território uruguaio (1611 e 1617), os charruas se adaptaram à equitação, domesticação de animais e uso do laço.

Os charruas se caracterizavam pela nudez, ainda que em épocas muito frias utilizassem um manto formado por pequenas peles (toropí ou quillapí). Conforme interagiam com os espanhóis, os charruas adaptaram chiripás, ponchos, pañuelos, camisetas, etc., mas não abandonaram seus quillapís, que davam boa proteção contra o frio e a chuva do território.

População estimada no século XVI: 35 mil.

3. Tapuiatingas, os europeus

Termo tupi para “inimigo branco”, ou “forasteiro branco”. Descreve europeus inimigos das nações tupi. Alguns exemplos de tapuiatinga são os perós (portugueses) e os maíras (franceses).

Os europeus chegaram ao território brasileiro no final do sécul XV, mais especificamente no ano de 1500 que marca o Descobrimento. Os primeiros europeus a entrar em contato com nativos do Brasil foram os portugueses. Como o processo de colonização não iniciou antes de 1532, os principais europeus que chegavam ao Brasil eram degredados, viajantes e missionários portugueses ou comerciantes franceses. A disputa pela colonização do Brasil entre portugueses e franceses inseriu-se no contexto dos conflitos indígenas e colocou-os como aliados ou inimigos potenciais.

3.1 – Maíras, os franceses– A colonização francesa nas Américas começa no século XVI, e continua nos séculos seguintes conforme a França estabelece um império colonial no hemisfério ocidental. A França fundou colônias no leste da América do Norte, em diversas ilhas do Caribe e na América do Sul. A maioria das colônias foram desenvolvidas para exportar produtos como peixe, açúcar e peles. Conforme colonizavam o Novo Mundo, os franceses estabeleceram fortes e assentamentos que viriam a tornar-se cidades como Québec e Montreal no Canadá; Detroit, St. Louis, Mobile, Baton Rouge e Nova Orleans nos Estados Unidos, Port-au-Prince e Cap-Haïtien no Haiti e São Luís no Brasil.

As invasões francesas ao Brasil registram-se desde os primeiros tempos da colonização portuguesa, chegando até ao ocaso do século XIX. Inicialmente dentro da contestação de Francisco I de França ao Tratado de Tordesilhas, ao arguir o paradeiro do testamento de Adão e incentivar a prática do corso para o escambo do pau-brasil, ainda no século XVI evoluiu para o apoio às tentativas de colonização no litoral do Rio de Janeiro (1555) e na costa do Maranhão (1594).

Da esquerda para a direita: o navegador Nicolas Durand de Villegagnon, o rei Louis XIII e o corsário René Duguay-Trouin.

A colônia que tentaram estabelecer no Rio de Janeiro foi chamada França Antártica. Ficaram a seu lado algumas tribos tupinambás, e ao lado dos portugueses os temiminós (maracajás).  A colônia estabelecida no Maranhão chamava-se França Equinocial.

No século XVIII o Brasil ainda sofreria tentativas de invasão por parte de corsários franceses como Duclerc e Duguay-Trouin em 1710 e 1711 respectivamente, além de uma invasão à Fernando de Noronha pela Companhia Francesa das Índias Ocidentais em 1736. Nos últimos anos do século XIX, a partir de 1895, ainda surgiriam conflitos fronteiriços entre o Brasil e a França nas regiões limítrofes entre o Amapá e a Guiana Francesa.

Líderes notáveis: Nicolas Durand de Villegagnon, Daniel de La Touche, rei Luis XIII.

3. 2 – Neerlandeses – Postos comerciais e plantações holandesas nas Américas precedem as mais conhecidas atividades coloniais holandesas na Ásia. Enquanto o primeiro forte holandês foi construído na Ásia em 1600, os primeiros fortes e assentamentos no rio Essequibo (Guiana) e na Amazônia são da década de 1590. Colonização, de fato, com assentamentos holandeses em novas terras, não era tão comum como foi com outras nações européias. Muitos dos assentamentos holandeses foram perdidos ou abandonados no fim do século, mas a Holanda conseguiu reter a possessão do Suriname até sua independência em 1975 e ainda mantém as Antilhas Holandesas e Aruba, que permanecem dentro do Reino da Holanda até hoje.

Os neerlandeses mantiveram colônias no Caribe pelo menos desde 1628. Dominaram as Antilhas Holandesas, Tobago e as Ilhas Virgens Holandesas. Mantiveram também colônias na América do Norte em regiões hoje dentro dos territórios estadunidenses e canadenses, como a colônia de Nova Holanda (entre a Virgínia Inglesa e o Canadá Francês). O primeiro assentamento holandês nas Américas foi fundado em 1615 e chamava-se Forte Nassau e ficava onde hoje é Albany, no estado de Nova Iorque. Outro Forte Nassau foi construído em 1623 no rio Delaware, Nova Jersey. Outras tantas foram fundadas na ilha de Manhattan, no rio Connecticut, no rio Little, etc. A perda da Nova Holanda na América do Norte levou à Segunda Guerra Anglo-Holandesa (1665-1667), conflito que terminou com o Tratado de Breda. O tratado cedia o território da Nova Holanda na América do Norte em troca do Suriname na América do Sul.

Jacob Willekens e Johan Maurits van Nassau-Siegen.

Em 1616 a Companhia das Índias Ocidentais Holandesas construiu um forte no rio Essequibo, Guiana. Lá foram estabelecidas plantações de cana de açúcar com trabalho escravo africano. A presença de ingleses na região das Guianas e do Suriname levou a diversos conflitos entre estas duas potências coloniais. O Suriname esteve sob controle inglês desde 1799 mas foi devolvido à Holanda em 1816. O Suriname foi vendido em 1683 para a Companhia das Índias Ocidentais e passou a chamar-se Guiana Holandesa.

Os neerlandeses também tentaram manter uma colônia no Brasil. Invadiram Salvador (então capital da Colônia) em 1624 aí ficando até 1º de maio 1625. A posterior invasão, em Pernambuco, de Olinda e Recife, constituiu um projeto de colonização que durou de 1630 a 1654. A Nova Holanda foi administrada de 1637 a 1644 por Maurício de Nassau, notável administrador.

Líderes notáveis: Jacob Willekens, Johan Van Dorth, Johan Maurits van Nassau-Siegen.

3.3 – Perós ou portugueses – Os portugueses já foram estudados no terceiro artigo da série, quando tratamos da Era das Navegações. Embora já houvessem aqui degredados, os historiadores situam o início da colonização por volta de 1530, quando começou a cultura da cana-de-açúcar e a instalação de engenhos para a fabricação do açúcar. Mas a implantação deste esquema exigia atividades complementares, secundárias porém fundamentais para a produção açucareira: a pecuária e a agricultura de subsistência, o que acabaria por demandar algum tipo de colonização.

Pedro Alvares Cabral, Rei Dom João III e Mem de Sá.

Líderes notáveis: Pedro Álvares Cabral, Duarte Coelho, Mem de Sá.

Bandeirantes – São normalmente retratados como figuras altivas, vestindo trajes, chapéu e botas. No entanto, não eram exatamente assim. Há trezentos anos, os “paulistas” tinham a fama de bárbaros.

Entre seus feitos estão a colonização do Piauí, a contenção de conflitos com os índios na Bahia, e incursões até o Sul do país que garantiram a posse de terras que de outra maneira teriam sido colonizadas por espanhóis.

Domingos Jorge Velho, como representado por Benedito Calixto em quadro de 1903.

Eram em geral pessoas pobres e analfabetas. Muitos deles mestiços descendentes diretos de índios. A influência indígena sobre o bandeirante é indispensável para a sua atuação, e ele incorpora diversos traços da vida indígena.

As tropas caminhavam descalças por extensos territórios, sujeitas a todo desconforto, vulneráveis a ataques de animais, tribos inimigas e à fome. Durante o processo de colonização, o bandeirante desenvolveu uma cultura própria muito distante dos padrões europeus.

Uma bandeira, nome que pode vir do costume tupiniquim de lavantar a bandeira em sinal de guerra, possuía divisão de tarefas e hierarquia. Seguem alguns exemplos:

Cabo da tropa ou capitão do arraial – o comandante, quase sempre um sertanista experiente. Incorporava às tropas seus filhos, parentes e agregados como auxiliares, o que tornava as bandeiras um negócio eminentemente familiar.

Capelão – Encarregado de dar assistência espiritual à tropa.

Alferes-mor – Presente em grupos maiores, responsável pela partilha dos índios capturados

Escrivão – Também presente em grupos maiores, era responsável por tomar notas das transações, fazer levantamentos de perdas, ganhos, fazer relatos, etc.

Mulheres índias ou mestiças (temericó) – acompanhavam os bandeirantes na condição de escravas (sexuais, provavelmente).

Tropa – A maioria era constituída de escravos indígenas, geralmente guaranis, que formavam tropas auxiliares encarregadas de combater e capturar índios no sertão.

Armadores – Os armadores forneciam correntes, pólvora e índios sertanistas com a expectativa de receber metade do lucro da expedição. Ou seja, metade dos índios trazidos do sertão.

Guias, intérpretes, iscas humanas e “agentes infiltrados” – Mamelucos, descendentes de pai branco e mãe índia, muitas vezes atuavam como guias e intérpretes. Serviam também de isca para as capturas: vestidos com batina preta e e cabelo cortado em tonsura, passavam por jesuítas e assim escravizavam os inimigos sem maiores resistências.

Os conhecimentos herdados pelos mamelucos eram cruciais para a sobrevivência no sertão: orientação e observação dos movimentos do Sol, dos astros e dos rastros, técnicas de caça e pesca, construção de embarcações e mareagem pelos rios, comunicação por meio do fogo e da sinalização com gravetos, além da classificação da flora e da fauna, para a seleção de alimentos, bebidas e medicamentos.

Para se ter uma idéia de como era um bandeirante veterano, podemos ficar com a descrição que o bispo de Olinda, D. Francisco Lima, fez de Domingos Jorge Velho quando o viu em Piauí, no ano de1697:

Este homem é um dos maiores selvagens com que tenho topado […] porque nem falar sabe, nem se diferencia do mais bárbaro tapuia […], e não obstante o haver-se casado de pouco, lhe assistem sete índias concubinas, e daqui se pode inferir como procede no mais; tendo sido a sua vida […] até o presente, andar metido pelos matos à caça de índios, e de índias, estas para o exercício de suas torpezas, e aqueles para os granjeios dos seus interesses.

Líderes notáveis: Domingos Jorge Velho, Raposo Tavares.

Jesuítas – Verdadeiros entraves para o sistema escravista, os jesuítas reuniam os índios em aldeias missionárias, e pressionavam a Coroa para proibir o cativeiro dos índios. A “Lei sobre a Liberdade dos Gentios” de 1570 estabeleceu um dos fundamentos da política indigenista. Esta declarava todos os índios livres, salvos os que estivessem sujeitos à “Guerra Justa” – grupos inimigos que apresentavam resistência armada.

Criada em 1534 por Inácio de Loyola, a Companhia de Jesus foi um modelo de ordem religiosa nascida da Contrarreforma (Reforma Católica). A Societas Iesu procurava reforçar o catolicismo na Europa por meio do ensino. Nas conquistas ultramarinas ibéricas, procuravam expandi-lo pela catequese. Aqui abriram colégios e se distribuíram por quase todas as regiões. Participaram da fundação de cidades como Salvador, Rio de Janeiro e São Paulo. Foram decisivos na interiorização da colonização, até então concentrada na faixa litorânea. Estiveram também em Nova Granada (atual Colômbia) e no Sul do continente, em regiões de colonização espanhola.

O missionário jesuíta José de Anchieta.

Os jesuítas se espalharam pelo território brasileiro desde 1549, por meio de missões volantes centralizadas nos colégios da Bahia e do Rio de Janeiro. Desde 1556 foram fundadas Casas nas capitanias de Espírito Santo, São Vicente, Porto Seguro e Bahia. Em Olinda, desde 1558; em Rio de Janeiro e Pernambuco, desde 1568 e 1572, respectivamente. Estes lugares ofereciam ensino elementar complementar da catequese entre os indígenas. Eram os núcleos da expansão missionária que originariam residências, missões, colégios, igrejas e seminários. Mas havia uma vasta região a conquistar que se estendia do Pernambuco até Maranhão pela costa, e os confins que se estendiam para o interior. Acompanhando a expansão das forças coloniais, os jesuítas foram constituindo novas frentes e integrando-as ao projeto de fazer cidades e cidadãos católicos.

Líderes notáveis: Inácio de Loyola, Manuel de Nóbrega, José de Anchieta, Antônio Vieira.

4. Análise geral

Embora seja muito difícil colocar todos os grupos envolvidos num esquema pronto, podemos reduzir a nossa análise aos três grupos principais: tupis-guaranis, “tapuias” e europeus. Os tupis e guaranis ocupavam sobretudo o litoral; tapuias ocupavam a região interior do continente e os europeus , vindos de fora, estabeleciam-se na costa e penetravam no território progressivamente.

Povos indígenas do Brasil na época do descobrimento.

OUTRAS PARTES DA SÉRIE:

FONTES E REFERÊNCIAS:

Web

Livros, revistas, artigos e entrevistas

  • Bueno, Eduardo. Brasil: uma História. São Paulo: Ática, 2002.
  • Bueno, Eduardo. Capitães do Brasil – A Saga dos Primeiros Colonizadores. Coleção Terra Brasilis. Objetiva, 1999.
  • Staden, Hans. Duas Viagens ao Brasil.
  • Silva, Isabelle Braz Peixoto da. Vilas de índios no Ceará Grande: dinâmicas locais sob o diretório pombalino. Campinas: Unicamp, 2003.
  • Galvão, R.. Arte Tremembé. Fortaleza: SEBRAE-CE.
  • FIGUEIRA, José Joaquín. Breviario de Etnología y Arqueología del Uruguay.
  • Guia do Estudante, seção Aventuras na História – Tupinambás x Tupiniquins: questão de estilo
  • Brandão, Carlos Rodrigues. Os Guarani: índios do Sul – religião, resistência e adaptação
  • Perusset, Macarena; Rosso, Cintia N. Guerra. Canibalismo y Venganza Colonial: Los Casos Mocoví y Guaraní.
  • Monteiro, John. Bandeiras Mestiças. Dossiê Bandeirantes in Revista de História da Biblioteca Nacional. Ano 3, nº 34. pp.17 a 21.
  • Kok, Glória. Descalços, violentos e famintos. Dossiê Bandeirantes in Revista de História da Biblioteca Nacional. Ano 3, nº 34. pp.23 a 24.
  • Neves, Erivaldo Fagundes. Guerra aos Tapuias. Dossiê Bandeirantes in Revista de História da Biblioteca Nacional. Ano 3, nº 34. p.35.
  • Silva, Reginaldo Miranda da. Piauí de paulista. Dossiê Bandeirantes in Revista de História da Biblioteca Nacional. Ano 3, nº 34. p.36.
  • Resende, Maria Leônia Chaves de. Sertão mineiro loteado à força. Dossiê Bandeirantes in Revista de História da Biblioteca Nacional. Ano 3, nº 34. p.37.
  • Neumann, Eduardo Santos. Vale o escrito. Dossiê Jesuítas in Revista de História da Biblioteca Nacional. Ano 7, nº 81, p. 19.
  • Clastres, Pierre. A Sociedade Contra o Estado, p. 48.
  • SILVA, Isabelle Braz Peixoto da. Vilas de índios no Ceará Grande: dinâmicas locais sob o diretório pombalino. Campinas: Unicamp, 2003.

É imoral e anti-humano ser contra o lucro e a livre iniciativa

Por Thomas Woods. Artigo original postado no Instituto Ludwig von Mises Brasil.

Pessoas auto-intituladas piedosas e caritativas rotineiramente dizem que o livre mercado e a busca pelo lucro não são atitudes que estão em conformidade com princípios morais.  Tais pessoas creem estar genuinamente defendendo os mais puros princípios humanitários ao defenderem alguma alternativa ao livre mercado, como por exemplo a terceira via ou mesmo o “distributivismo”, doutrina segundo a qual o melhor sistema social é aquele em que a propriedade produtiva está amplamente dispersa pela sociedade em vez de concentrada nas mãos de alguns poucos.  Apenas para deixar claro, tais pessoas não defendem o socialismo per se, que envolve a estatização dos meios de produção, mas sim a ampla distribuição destes entre o máximo possível de indivíduos.

Em 1871, Carl Menger escreveu Princípios de Economia Política, uma obra de profunda genialidade que essencialmente inaugurou a Escola Austríaca de economia, mas que praticamente nenhuma das pessoas que se arvoram a pontificar sobre a “questão social” leu ou sequer conhece.  Todos aqueles que escrevem sobre distributivismo, ou que simplesmente fazem apelos emocionais em prol da “necessidade” da redistribuição, parecem compartilhar da mesma ignorância, jamais se apoiando em argumentos solidamente econômicos para justificar sua posição — como se uma disciplina que se dedica à aplicação da razão humana para a solução do problema da escassez no mundo pudesse ser em si mesma antagonista aos bons princípios morais e aos mais belos ideais.

Mesmo se fizermos uma concessão a uma das principais premissas distributivistas — que diz que as micro e pequenas empresas são constantemente engolidas e destruídas pelas grandes empresas —, a conclusão a que eles sempre chegam, isto é, a de que é preferível para um indivíduo operar seu próprio negócio a ser empregado de outro, não é nada óbvia.  É perfeitamente possível um indivíduo estar em melhor situação na condição de empregado, pois assim — para utilizar o argumento moral — ele poderá dar mais atenção à sua família, tendo mais tempo de lazer para usufruir junto a ela, algo que não aconteceria caso ele tivesse de se manter atento a todas as responsabilidades e cuidados inerentes à gerência do próprio negócio.  Da mesma forma, caso a empresa para a qual ele trabalha vá à falência, ele próprio não estará falido.  Estamos, portanto, lidando aqui com uma questão de circunstâncias individuais e não de generalizações grosseiras.

Suponha, ademais, que o “distributivismo” estivesse em vigor durante a Revolução Industrial na Grã-Bretanha no final do século XVIII.  Certamente, teríamos ouvido infindáveis lamúrias a respeito da crescente concentração de poder econômico e o dramático crescimento no número de pessoas trabalhando em troca de salários.  Mas o que provavelmente não teríamos ouvido seriam declarações sobre as reais condições daquelas pessoas que estavam procurando emprego nas fábricas.  Elas não foram afortunadas o bastante para conseguir uma vida rentável na agricultura, e também não haviam sido agraciadas por suas famílias com as ferramentas necessárias para empreender algum ofício independente e operar algum pequeno estabelecimento, algo que encantas os distributivistas.  Se elas, portanto, não tivessem tido a oportunidade de trabalhar em troca de salários, suas famílias simplesmente iriam morrer de fome.  É realmente simples assim.  O capitalismo, e não o distributivismo, foi o que literalmente salvou essas pessoas da mais completa penúria, e tornou possível o enorme crescimento da população, da expectativa de vida, da saúde, e do padrão de vida geral — crescimento esse que foi o maior que a Inglaterra já havia vivenciado até a época e que mais tarde se difundiu por toda a Europa ocidental.

Em um livro corrigindo o viés esquerdista dos velhos livros de história sobre a Revolução Industrial, o Prêmio Nobel F.A. Hayek reforçou esse ponto.  “O proletariado que o capitalismo ‘criou'”, escreveu ele, “não representava uma fatia de pessoas que teria existido sem ele e que foram degradadas justamente pelo capitalismo a um nível mais baixo; tal proletariado representava, na realidade, uma população adicional que só pôde crescer em decorrência das novas oportunidades de emprego criadas pelo capitalismo.”

Ludwig von Mises elabora ainda mais esse mesmo ponto:

É uma distorção dos fatos dizer que as fábricas arrancaram as donas de casa de seus lares ou as crianças de seus brinquedos.  Essas mulheres não tinham como alimentar os seus filhos.  Essas crianças estavam carentes e famintas.  Seu único refúgio era a fábrica; salvou-as, no estrito senso do termo, de morrer de fome.

É deplorável que tal situação existisse.  Mas, se quisermos culpar os responsáveis, não devemos acusar os proprietários das fábricas, que — certamente movidos pelo egoísmo e não pelo altruísmo — fizeram todo o possível para erradicá-la.  O que causava esses males era a ordem econômica do período pré-capitalista, a ordem daquilo que, pelo que se infere da leitura das obras destes historiadores, eram os “bons velhos tempos”.

Nas primeiras décadas da Revolução Industrial, o padrão de vida dos operários das fábricas era escandalosamente baixo em comparação com as condições de seus contemporâneos das classes superiores ou com as condições atuais do operariado industrial.  A jornada de trabalho era longa, as condições sanitárias dos locais de trabalho eram deploráveis.

A capacidade de trabalho do indivíduo se esgotava rapidamente.  Mas prevalece o fato de que, para o excedente populacional — reduzido à mais triste miséria pela apropriação das terras rurais, e para o qual, literalmente, não havia espaço no contexto do sistema de produção vigente —, o trabalho nas fábricas representava uma salvação. Representava uma possibilidade de melhorar o seu padrão de vida, razão pela qual as pessoas afluíram em massa, a fim de aproveitar a oportunidade que lhes era oferecida pelas novas instalações industriais.

O distributivismo, dentro deste contexto, teria simplesmente privado milhares de pessoas destas oportunidades, gerando resultados cruéis para o mesmo proletariado que tal doutrina alega defender.

Também constantemente sob ataque dos distributivistas está a sempre difamada “busca pelo lucro”.  O argumento emocional é o de que tal prática, além de não ter nada de meritória, é totalmente imoral.  No entanto, é certo que nem mesmo um distributivista negaria — dado que seria incoerência — ser moralmente lícito um indivíduo querer melhorar sua situação, tanto para si próprio quanto para sua família.  Ademais, mesmo a caridade para os mais pobres irá requerer o auxílio de pessoas ricas, e esta riqueza terá de ser adquirida de alguma forma.  Porém, sem a “busca pelo lucro”, simplesmente não há como saber ao certo se este moralmente legítimo desejo do indivíduo de melhorar sua situação e a de sua família está sendo buscado de maneira a beneficiar a sociedade como um todo, e não apenas ele.

Ao longo dos anos, tem havido um enorme esforço concertado para fazer troça da “mão invisível” de Adam Smith, a imagem pela qual Smith procurou descrever o salutar processo por meio do qual o desejo de cada indivíduo de melhorar sua condição acaba também beneficiando aqueles à sua volta; e alguns moralistas argumentam que o fato de o padeiro fazer o seu pão não por benevolência, mas sim por estar em busca do lucro, é algo que merece apenas condenação do ponto de vista moral.

No entanto, há apenas duas opções em jogo: ou o indivíduo busca seus objetivos sem qualquer consideraçãopelas necessidades e desejos de seus conterrâneos, ou ele age levando em consideração estas necessidades.  Não há uma terceira opção.  Ao buscar “maximizar os lucros”, motivação esta rotineiramente tratada como sendo um terrível flagelo sobre a civilização, o indivíduo está apenas garantindo que seus talentos e recursos sejam dirigidos para aquelas áreas que seus conterrâneos, por meio do sistema de preços, indicaram ser a mais urgentemente demandada e necessitada.  Em outras palavras, o sistema de preços, e o sistema de lucros e prejuízos cujo cálculo o sistema de preços possibilita, obriga o indivíduo a planejar suas atividades em conformidade com as necessidades expressadas pela sociedade.  Tal atitude implica necessariamente uma administração sensata e racional das coisas físicas existentes no planeta.

É assim que uma sociedade racional e civilizada garante que seus recursos serão alocados e distribuídos não de acordo com algum esquema arbitrário, mas sim de acordo com as necessidades e desejos das pessoas.  A busca pelo lucro, possibilitada pelo sistema de preços, portanto, permite não apenas a cooperação social, mas também o uso mais eficiente possível dos recursos escassos.  Sem a busca pelo lucro, como demonstrou Mises em seu clássico ensaio sobre a impossibilidade do cálculo econômico sob o socialismo, a civilização literalmente irá retroceder à barbárie.

Além do mais, nenhum moralista discordaria que uma vida de total comodismo e permissividade é moralmente inferior a uma vida em que a riqueza do indivíduo é colocada a serviço de investimentos produtivos e duradouros.  Mas até mesmo levantar esta questão é retirar a atenção do problema real.  Já deveria ser óbvio que reconhecer a “busca pelo lucro” não significa dizer que as pessoas deveriam pensar apenas em dinheiro, ou que o dinheiro é mais importante do que Deus, ou qualquer outra tolice.  Como explicou Mises,

A imensa maioria da humanidade se esforça para ter uma maior e melhor abundância de comida, roupas, casas e outros bens materiais.  Ao considerarem como melhoria e progresso uma elevação no nível de vida das massas, os economistas não estão aderindo a um materialismo mesquinho.  Estão simplesmente reconhecendo o fato de que as pessoas são motivadas pelo desejo de melhorar as condições materiais de sua existência.  Julgam as políticas do ponto de vista dos objetivos que os homens querem atingir.  Quem desdenha a queda na taxa de mortalidade infantil e o gradual desaparecimento da fome e das epidemias, que atire a primeira pedra no materialismo dos economistas (ênfase minha).

A questão é que, uma vez que sabemos que o indivíduo possui razões perfeitamente válidas para buscar o mais alto retorno para seu investimento, ou para obter o mais alto salário possível, em vez de perdermos nosso tempo com lamentos tolos e irrelevantes a respeito das pessoas gananciosas deste mundo — uma questão de filosofia moral e não de economia —, devemos empregar a razão humana para aprendermos como este desejo perfeitamente moral de querer obter ganhos resulta em benefícios para a sociedade como um todo, pois gera a produção daquilo que sociedade urgentemente demanda em vez de mais daquilo que a sociedade já desfruta em abundância.  Posto desta forma, o sistema de lucros e prejuízos de uma economia baseada na divisão do trabalho — uma instituição indispensável para qualquer sociedade civilizada — repentinamente se revela não apenas profundamente moral, como também algo essencial, sendo provavelmente por este motivo que os oponentes do capitalismo nunca se referem aos lucros desta forma.

Se quisermos que a força motriz que proporcionou o enorme avanço no padrão de vida que todas as pessoas do mundo desfrutaram ao longo dos últimos dois séculos não seja destruída, é essencial que entendamos o mecanismo que torna possível a sua existência.  Tal apreciação por estes indispensáveis aspectos da liberdade econômica está completamente ausente da mentalidade dos defensores do distributivismo — os quais, em sua ânsia para caricaturar o mercado como sendo um local de incessante “exploração” e ganância, consistentemente ignoram ou menosprezam suas conquistas e virtudes.

Dado que é muito mais difícil para um indivíduo crescer na virtude e salvar sua alma se estiver vivendo na mais completa penúria, seria de se esperar que os pretensos moralistas e piedosos demonstrassem maior apreciação pelo sistema que possibilitou a maior criação de riqueza que o mundo já vivenciou — incluindo-se aí um assombroso aumento da expectativa de vida, da ingestão de calorias, da qualidade das moradias, da educação, da alfabetização, e de incontáveis outras coisas boas, bem como reduções dramáticas da mortalidade infantil, da fome e das doenças.  E, contrariamente ao que asseguram os propagandistas, nada poderia ser mais óbvio do que o fato de que os benefícios do capitalismo aprimoraram exponencialmente a vida dos mais pobres.

Faça o leitor uma experiência imaginária: suponha que um ancestral do ano 1700 pudesse ser transportado para a nossa época atual para vivenciar um dia rotineiro na vida de Bill Gates.  Ele sem dúvida ficaria impressionado com algumas coisas que tornam a vida de Bill Gates algo sem paralelos.  Porém, um bom palpite é que, dentre estes aspectos que tornam a vida de Gates inigualável, aqueles que mais impressionariam o ancestral seriam o fato de que Gates e sua família não têm de se preocupar com a possibilidade de morrerem de fome; que eles tomam banho diariamente; que eles utilizam várias roupas limpas ao longo do dia; que eles possuem dentes claros e saudáveis; que doenças como varíola, pólio, difteria, tuberculose, tétano e coqueluche não apresentam riscos substanciais; que as chances de Melinda Gates morrer durante o parto são de aproximadamente 1/60 em relação a um parto em 1700; que cada filho do casal tem aproximadamente 40 vezes mais chances de sobreviver à sua infância em relação às crianças da era pré-industrial; que os Gates possuem geladeiras e congeladores em suas casas (sem mencionar forno microondas, lava-louça, rádio, televisão, DVD, computadores etc.); que a semana de trabalho dos Gates é de apenas cinco dias e que a família tira várias semanas de férias por ano; que cada filho dos Gates recebe mais de uma década de educação escolar; que os Gates rotineiramente fazem viagens aéreas para locais distantes em questão de horas; que eles conversam sem nenhum esforço com pessoas que estão a milhares de quilômetros de distância; que eles frequentemente usufruem das soberbas performances dos melhores atores e atrizes do mundo; que os Gates podem, sempre que quiserem e onde puderem, ouvir uma sonata de Beethoven, uma ópera de Puccini ou uma balada de Frank Sinatra.

Em outras palavras, o que mais impressionaria nosso visitante são justamente os aspectos da vida de Gates que o magnata possui em comum com boa parte das pessoas do mundo (principalmente dos países desenvolvidos).  Por outro lado, quando você considera as diferenças que caracterizavam ricos e pobres antes da Revolução Industrial, o mito de que “o capitalismo promove a desigualdade” é desmascarado como uma ficção ignorante, uma história sem nenhum fundamento.

Escondida por baixo de todas essas críticas rotineiramente feitas ao mercado está uma ingenuidade a respeito do estado que realmente desafia por completo a lógica da mente humana.  Diga o que quiser a respeito de qualquer empresa da qual você não goste, e eu irei apenas lhe dizer que tal empresa não é a responsável por confiscar 40% da renda das pessoas para gastar em coisas moralmente repugnantes.  Tampouco é ela quem me proíbe de comercializar com o estrangeiro que mais me aprouver, que me impede de ter mais opções no mercado por causa de suas regulamentações, que encarcera pessoas pelo “crime” de ter ingerido ou injetado coisas em seus próprios organismos, que gerencia um sistema educacional que produz idiotas “multiculturais” em massa, e que despeja pessoas de suas propriedades com o intuito de fazer obras públicas naquele local.

Empresas privadas, mesmo as maiores, podem ir à falência.  O estado, não.  Por mais fã de regulamentações que um indivíduo seja, a simples sugestão de que o aparato estatal deva ganhar mais poderes, ou que tais poderes certamente não seriam utilizados depravadamente, é algo que realmente requer algum tipo de justificação que até o momento ninguém logrou apresentar.

Por fim, não deixa de ser curioso que os críticos da “imoralidade” do mercado não tenham estudado a sério as contribuições dos escolásticos espanhóis, cujas observações críticas sobre uma variedade de questões econômicas deveriam ser mais profundamente difundidas.  Porém, como estes escolásticos se posicionaram ao lado da liberdade econômica, os distributivistas os tratam como anátemas.  É de se lamentar, pois os escolásticos eram teólogos que não apenas apresentaram princípios morais, como também procuraram entender os mecanismos daquilo que estavam discutindo, isto é, o sistema de mercado.

Somente por meio de um genuíno conhecimento dos mecanismos da economia livre, em vez de sua caricatura, pode a dimensão moral da ciência econômica ser sensatamente discutida.

A Conquista do Brasil (Parte II)

Dando continuidade à série de artigos sobre a História dos nativos do Brasil, hoje vamos tratar dos primeiros povos que habitaram estas terras.

O Brasil pré-cabralino

A história pré-cabralina do Brasil é o período da História do Brasil que se inicia com o primeiro povoamento do território brasileiro e termina no ano do Descobrimento: 1500. Este território já havia sido “descoberto” e colonizado por numerosas e diversas etnias. No entanto, nem os americanos nem os portugueses de 1500 concebiam o “Brasil” da forma como o concebemos hoje.

A Pré-história tradicional geralmente se divide em Paleolítico, Mesolítico e Neolítico. No Brasil, prefere-se trabalhar com as categorias geológicas Pleistoceno e Holoceno. A periodização se divide em:

  • Pleistoceno – caçadores-coletores com pelo menos 12 mil anos
  • Holoceno – de 12 mil a.C. a 1500 d.C.

Este último se divide em:

  • Arcaico Antigo – 12 mil a 9 mil anos atrás
  • Arcaico Médio – 9 mil a 4500 anos atrás
  • Arcaico Recente – a partir de 4 mil anos atrás, normalmente relacionado à agricultura e ao desenvolvimento da cerâmica.
Linha do tempo da história do Brasil desde as primeiras ocupações humanas (as datas são controversas) até o fim do Período Colonial.

I. Pleistoceno
Achados em Minas Gerais e na Bahia foram datados entre 25.000 e 12.000 anos A.P. No sítio arqueológico Alice Böer, em São Paulo, foram encontradas peças datadas de 14.200 A.P. Em São Raimundo Nonato, no Piauí, arqueólogos defendem a idade de 50.000 anos para um abrigo ocupado por paleoíndios. Neste mesmo sítio, os arqueólogos encontraram artefatos humanos que remontam a mais de 48 mil anos A.P.

Descobertas no Brasil tem abalado a teoria tradicional da ocupação da América. Passou-se a defender outras teorias, como a de que o homem teria chegado à América entre cerca de 150 mil e 100 mil anos atrás, sendo de origem malásio-polinésia ou australiana. Pode-se admitir hoje que o Brasil foi ocupado há 60 mil anos atrás, no que diz respeito ao Piauí. As correntes migratórias teriam atingido Minas Gerais há 30 mil anos e o Rio Grande do Sul há 15 mil anos. Todo o país estava ocupado há 12 mil anos.

Luzia e o sitio de Lagoa Santa
Luzia é o nome do fóssil humano mais antigo encontrado nas Américas. Encontrado na década de 1970 em Lapa Vermelha, no sítio arqueológico de Lagoa Santa (Minas Gerais), o fóssil contribuiu para reacender um antigo debate em torno das origens do homem americano. A morfologia do crânio de Luzia a aproximaria dos atuais aborígenes da Austrália e nativos da África.

Estudos realizados na região do sitio de Lagoa Santa demonstram que os paleoíndios desta cultura desconheciam a cerâmica, e que sua indústria lítica era relativamente simples. Pesquisas recentes, contudo, afirmam que esses homens eram sedentários. Achados como enterros numerosos e uso de matérias-primas existentes apenas neste local reforçam estas idéias.

II. Holoceno

2.1. Nordeste e centro
A idade paleolítica brasileira é normalmente situada entre 12 mil e 4-2 mil anos A.P., quando surge e se difunde a prática agricultora na região. Antes disso, os homens viviam de caça, pesca e coleta. Nesta época, os arqueólogos constataram a existência de diferentes tipos de indústria lítica por todo o Brasil. No nordeste, vários sítios arqueológicos indicam o desenvolvimento da pedra lascada, contendo raspadores, lascas, furadores e fogões para assar caça.

A Pedra do Ingá, no Estado da Paraíba, é hoje um dos mais conhecidos monumentos arqueológicos doBrasil. Suas grafias têm fascinado estudiosos do mundo todo.

Na região nordeste, as técnicas de trabalho com o material lítico se tornam cada vez mais diversificadas e complexas com o passar do tempo. O número de fogões, por exemplo, aumenta conforme as datações se aproximam do ano 8 mil antes do presente. Fogueiras também são encontradas.

2.2. Sul
As datas mais antigas no Sul (tradição Ibicuí) ficam entre 13.000 e 8.500 A.P., período rico em artefatos simples, encontrados na Bacia do Uruguai. A fase Uruguai, de 11.555 a 8.640 A.P. apresenta muitos raspadores, facas bifaciais e pontas de projéteis. Em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul foram localizados artefatos (facas, raspadores, pontas de flecha) de 8.500 a 6.500 anos atrás, estabelecidos como tradição Vinitu. A tradição Humaitá, mais recente (entre 6.500 e 2.000 anos atrás) se estende de São Paulo ao Rio Grande do Sul. Os homens dessa tradição produziram raspadores, furadores e zoólitos (estátuas de pedra assumindo formas animais). Outra tradição identificada no sul foi chamada de Umbu; esta teria sido responsável pela confecção de fogões e pontas de projéteis.

2.3. Litoral
Os principais sítios arqueológicos do litoral são os sambaquis, montes de conchas de moluscos formados por ação humana. Normalmente são encontrados junto dos sambaquis esqueletos humanos, peças líticas, restos de alimentos, etc. Grande parte dos sambaquis se encontram cobertos pelo mar, devido às mudanças climáticas ocorridas durante o pleistoceno tardio e o holoceno. Os sambaquis existem em quase todo o litoral brasileiro. Os sambaquis são associados à tradição Itaipu. Os povos que habitavam o litoral são normalmente definidos como pescadores semi-nômades.

III. As Tradições
Por tradição, os arqueólogos entendem as práticas e técnicas padrão dos antigos para a confecção, por exemplo, da indústria lítica e da pintura rupestre.

Ao longo de toda a pré-história e história do Brasil, diversas tradições coexistiram e algumas persistiram após a colonização e resistem até hoje. Algumas das tradições mais importantes são:

3.1. Tradição Nordeste
Localizada nos estados de Minas Gerais, Bahia, Ceará, Rio Grande do Norte, Pernambuco e Piauí. Nesta tradição são enquadradas as pinturas encontradas no principal sítio arqueológico do Brasil, o Sítio Boqueirão da Pedra Furada (PI). Dada a complexidade destas representações, pesquisadoras como Anne Marie Pessis e Gabriela Martin, além da própria Niéde Guidon, estabeleceram subtradições nessa área.

É caracterizada pela presença de grafismos reconhecíveis como figuras humanas, animais, plantas e objetos, e de grafismos puros, os quais não podem ser identificados. Estas figuras são muitas vezes dispostas de modo a representar ações, cujo tema é às vezes reconhecível. Os grafismos puros são nítidamente minoritários. As figuras humanas e animais aparecem em proporções iguais e são mais numerosas que as representações de objetos e de figuras fitomorfas (que assemelha-se à plantas). Algumas representações humanas são revestidas de atributos culturais como enfeites de cabeça, objetos cerimoniais nas mãos, etc. As composições de grafismos representando ações ligadas ao quotidiano e ao cerimonial são abundantes e constituem a especificidade da tradição Nordeste. Quatro temas principais aparecem durante os seis mil anos atestados de existência desta tradição: dança, práticas sexuais, caça e manifestações rituais em torno de uma árvore.

3.2. Tradição Agreste
Localizada nos estados do Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba e Pernambuco. Possui pinturas geométricas e antropóides, além de representações da fauna.

Supõe-se que os grafismos denominados de Tradição Agreste surgiram na região Agreste do estado de Pernambuco e também da Paraíba. São registros rupestres mais toscos, rudes, e em dimensões maiores que a Tradição Nordeste. Na maioria das vezes representam seres estáticos, sem movimento, ou sugerindo pouco movimento.

Bonecões típicos da Tradição Agreste. Sítio Toca da Entrada do Baixão da Vaca. PI.

Nesta classificação, os antropomorfos apresentam-se de forma isolada, de difícil compreensão, não tão bem elaborados como na Tradição Nordeste. Existem também muitas representações de sáurios (lagartos e répteis) que são animais muito comuns no ambiente semi-árido coberto pela caatinga.

Na sua versão mais característica, as figuras da Tradição Agreste aparecem isoladas ou formando pequenos conjuntos dominados por uma ou duas grandes figuras antropomorfas (ditas “bonecões”).

3.3. Tradição Itacoatiara
Integrada por gravuras representando figuras que não permitem nenhum reconhecimento. Raramente alguma figura reconhecível é representada de maneira isolada.

As itacoatiaras (pedra pintada, na língua Tupi) estariam espalhadas por várias regiões do país. Seriam petroglifos de tamanhos e feituras diferentes que teriam em comum a sua profunda ligação com a água, e são portanto grafadas sobretudo em margens de rios.

3.4. Tradição Litorânea Catarinense
Seus vestígios vão do litoral até ilhas a quinze quilômetros de distância da costa. É caracterizada por inscrições em rocha, com quatorze temas estudados que vão de antropomorfos a geométricos.

Os painéis gravados da Tradição Litorânea Catarinense estão situados em ilhas, em locais de difícil acesso e até mesmo perigosos, longe da costa e orientados para o alto-mar. As gravações foram feitas em granito, através da técnica do polimento.

3.5. Tradição Geométrica
Presente desde o planalto sul, atravessa Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Goiás e Mato Grosso até o nordeste. Dada sua extensão, Prous a subdivide em Meridional e Setentrional. Caracterizada por pinturas que representam uma maioria de grafismos puros, figuras humanas e algumas mãos, pés e répteis extremamente simples e esquematizados.

Inscrições na Pedra de Ingá: figuras estilizadas ou escrita não decifrada?

3.6. Tradição Meridional
Ocorre no sul do Brasil e em outros países da fronteira. Os sítios do Rio Grande do Sul se apresentam alinhados nas escarpas do planalto, sendo também encontrados em blocos isolados e em abrigos e grutas. As gravuras foram feitas no arenito, através da técnica de incisão ou de polimento. Em alguns sítios foram encontrados vestígios de pigmentos de diferentes cores (preto, branco, marrom e roxo) que formam gravuras geométricas lineares.

Tradição Planalto
Passa pelo Planalto Central, pelos estados de Minas Gerais, Paraná e Bahia. Gravuras principalmente de animais em vermelho, preto, amarelo e raramente em branco. Nesta região, encontra-se o famoso sítio arqueológico de Lagoa Santa (MG), local de origem do fóssil humano mais antigo do Brasil.

A Tradição Planalto foi definida a partir dos sítios de pinturas rupestres do Planalto Cárstico de Lagoa Santa, daí seu nome. Seus elementos definidores são os grafismos zoomorfos, sobretudo cervídeos e peixes, de composição monocrômica, acompanhados de outros zoomorfos (sobretudo fquadrúpedes, menores que os cervídeos) e de antropomorfos muito esquematizados.

3.7. Tradição Aratu
A Tradição Aratu foi a primeira grande ocupação do Planalto Central e caracterizava-se por ser bastante propensa a influências externas e, em contrapartida, certa homogeneidade interna. Há indícios da Tradição Aratu nos estados do Piauí, Maranhão, Bahia, Minas Gerais e São Paulo.

Urna funerária da tradição Aratu.

Os grupos indígenas que confeccionaram a cerâmica da Tradição Aratu tiveram diversas fases, possivelmente por ocuparem uma grande área e por sofrerem influências de outras tradições.

O povo da tradição Aratu provavelmente foi expulso do litoral por povos
da tradição Tupiguarani, antes da chegada dos portugueses à costa brasileira.

3.7. Tradição São Francisco
Apresenta-se nos estados de Minas Gerais, Bahia e Sergipe, principalmente no vale do Rio São Francisco.

Nos grafismos predominam os motivos geométricos, mas verificam-se também desenhos que representam formas humanas e animais (peixes, pássaros, cobras, sáurios e algo parecido com tartaruga). Não existe nenhuma cena e, na maioria dos casos, as figuras são feitas em duas cores. Como outras tradições, também apresenta variedades regionais que contam com representações de pés humanos, armas e instrumentos.

3.8. Tradição Amazônica
Antropomorfos simétricos e geometrizados caracterizam esta tradição ainda pouco estudada. Nas margens dos rios Cuminá, Puri e Negro, as cabeças de figuras humanas gravadas geralmente são radiadas, enquanto nas proximidades de Monte Alegre são pintadas. Há também em outras localidades painéis compostos por bastões e gravações curvilineares.

Tradição Tupiguarani
A cerâmica da tradição Tupiguarani, no momento dos primeiros contatos com os europeus, foi encontrada exclusivamente entre grupos indígenas da família linguística Tupi-guarani, apesar de que nem todos os que falavam Tupi ou Guarani posuíssem cerâmica. Continuou depois sendo produzida e utilizada por alguns destes grupos desde o século XVI até o início do século XX. A designação Tupiguarani, escrita sem hífen, distingue a tradição ceramista da família linguística, que se se escreve com hífen: Tupi-guarani.

Vasilhame cerâmico da tradição Tupiguarani. Usado para armazenar grãos e fermentar bebidas, como para sepultar os mortos. Recuperado no munícipio de Capanema – PR

No Brasil Central, dados arqueológicos demonstram a presença de vestígios cerâmicos com características da tradição Tupiguarani entre os séculos XIV e XV.

Alguns autores perceberam as variações existentes nas características dessa tradição cerâmica, como o fundo cônico que reproduz a forma da cuia utilizada para tomar o mate, hábito típico e exclusivo dos índios da bacia platina. Na tentativa de adotar procedimentos classificatórios mais precisos, foi dividida em duas subtradições: a Tupinambá e a Guarani.

Carimbos cerâmicos Guarani. Usados para pintura corporal ou de tecidos, redução jesuítica do Guairá, século XVII, vale do rio Ivaí.

A divisão da tradição Policrômica Amazônica em subtradições Guarani e Tupinambá foi elaborada por Brochado (1984), na qual os sítios guaranis apresentam a predominância de recipientes de cerâmica com a superfície externa corrugada, com vasilhas (tigelas de beber, tigelas, panelas e talhas) com fundo predominantemente cônico; por outro lado, entre as vasilhas tupinambás, predominam as com formato esférico ou em meia calota, sendo raras as com fundo cônico.

Urna funerária Tupiguarani.

As tigelas para beber, encontradas nos sítios guaranis e tupinambás, se diferenciam ainda, respectivamente, por possuírem pintura externa, boca redonda e fundo cônico ou pintura interna, boca quadrangulóide e fundo semi-esférico.

Fragmentos de cerâmica com pintura policrômica.

Cabe observar que as vasilhas guaranis possuíam como funções principais preparar ou servir alimentos, podendo também ser empregadas como urnas funerárias: yapepó (panelas), cambuchí (talha para fermentar bebidas alcoólicas, armazenar e servir), cambuchí caguaba (copo para cauim), iisé e õeembé (pratos). As vasilhas com tratamento de superfície digital eram levadas ao fogo, o que não acontecia com as peças com pintura na superfície externa.

3.9. Tradição Itararé
Os vasos cerâmicos ligados a Tradição Itararé são geralmente utilitários e de pequeno tamanho. As paredes são finas (de 4 a 8 milímetros), se compararmos com a cerâmica da Tradição Tupiguarani.

As vasilhas apresentam corpo cônico, semi-elípticas, em meia-calota ou meia-esfera. As peças com formas cônicas de abertura constrita ou levemente ampliada são denominadas kruku, no Rio Grande do Sul e korã, em São Paulo. As formas semi-elípticas, também denominadas tigelas rasas ou fundas, que possuem contorno simples e abertura ampliada, são conhecidas como pentky no Rio Grande do Sul e em São Paulo.

De forma geral, a decoração ou o tratamento de superfície é representado pelo tipo liso com brunidura (processo mecânico de polimento por abrasão, empregado no acabamento de peças). As decorações são diversas, mas o tipo liso com brunidura é a característica mais marcante no Estado de São Paulo. Quanto à forma, o tipo cônico é o mais comum.

IV. O Arcaico Recente
O aparecimento de plantas cultivadas em Minas Gerais data de 4 mil anos atrás. Em São Raimundo Nonato, a agricultura parece ter sido praticada desde a pelo menos 2.090 anos. Embora a cerâmica amazônica seja mais antiga que a agricultura, o mesmo fenômeno não ocorre no resto do país, onde a cerâmica mais antiga data de 3 mil anos atrás. Os arqueólogos consideram que o surgimento da cerâmica está ligado ao sedentarismo e à agricultura, pois a cerâmica é de difícil transporte e, normalmente, tem a função de armazenar víveres. A tradição Taquara-Itararé é talvez a mais estudada tradição de cerâmica do país.

V. Amazônia
5.1. Período Pré-Cerâmico
As datações mais antigas da região amazônica situam os primeiros habitantes da região em 12.500 AP. É provável que o território houvesse sido colonizado anteriormente. Arqueólogos identificam um desenvolvimento da técnica de lascar, começando pelo lascamento por percussão e seguindo para o lascamento por pressão. As mudanças nas técnicas de lascamento são associadas a diferentes modalidades de caça: uma voltada para os animais de grande porte, e outra para os animais de pequeno porte. Mas nada é certo sobre o estilo de caça dos antigos povos amazônicos. Acredita-se que esses povos se alimentavam de moluscos, pequenos animais e frutos. Os sambaquis continuam sendo os principais sítios arqueológicos desse período na Amazônia.

Foto de um sambaqui. Os sedimentos que podem ser identificados na parede mostram sucessivas camadas de restos de conchas dos moluscos consumidos.

5.2. Período Cerâmico Incipiente
Durante essa época os povos amazônicos adotaram um estilo de vida similar aquele de muitas tribos do território atualmente. Os indígenas teriam vivido em estado de relativa fixação, realizando a horticultura de raízes. Esses grupos desenvolveram a primeira cerâmica elaborada da América, com temas geométricos e zoomórficos, pinturas em tinta branca e vermelha. Os vasos assumiram formatos ovais e circulares.

Cerâmica do estilo hachurado zonado.

Os grupos de estilos cerâmicos mais conhecidos são chamados de Hachurado Zonado e Saladóide-Barrancóide. Cerâmicas do estilo Saladóide, encontradas no baixo e médio Orenoco, parecem ter sido criadas entre 2.800 a 800 a.C. Os estilos Hachurados Zonados de Tutoshcainyo e Ananatuba datam, respectivamente, de cerca de 2.000-800 a.C. e 1.500-500 a.C.

Cerâmica Barrancóide.

Essas sociedades praticavam, além da horticultura, caça e pesca. O consumo de mariscos foi reduzido e esses povos passaram a se instalar nas várzeas e margens dos rios. Assadeiras de cerâmica grossa foram identificadas, de forma que levanta-se a hipótese da presença da mandioca. Sítios desses complexos culturais foram encontrados na bacia do Ucayali, na ilha de Marajós, no Orenoco e no Amazonas.

5.3. Cacicados Complexos: 1000 a.C. – 1500 d.C
Sociedades que habitavam regiões da bacia amazônica organizaram-se de forma cada vez mais elaborada entre o ano 1000 a.C. e o ano 1000 d.C.. Possuíam domínios culturais até mesmo maiores que os de muitos Estados do Velho Mundo, como as civilizações minóica e micênica e os Estados africanos de Ashanti e Benim. Essas sociedades tornaram-se mais hierarquizadas, constituíram chefias centralizadas na figura do cacique, e adotaram posturas expansionistas. O cacique, além de dominar amplos territórios, organizava continuamente seus guerreiros visando conquistar novos territórios.

Uma destas civilizações, a marajoara, protagonizou quase mil anos de história, tendo desaparecido antes da chegada dos europeus. Seu apogeu parece ter ocorrido ao redor do ano 1000. Esculturas de pedra eram esculpidas na foz do rio Trombetas, onde havia também centros de produção de muiraquitãs, pequenas esculturas lapidadas em pedra polida em forma de animais ou seres humanos.

Arte Marajoara

Dados arqueológicos e etno-históricos revelam indícios da presença dessas sociedades ao longo das várzeas dos rios Amazonas e Orenoco, nos contrafortes orientais dos Andes, e na região costeira do Caribe. Na Amazônia, por volta de 1000 a.C., desenvolvem-se as culturas dos construtores de tesos (aterros artificiais construídos em áreas inundáveis), sucedidas por sociedades complexas e hierarquizadas, associadas a uma indústria de cerâmica muito refinada. Tais sociedades seriam exemplificadas pela Marajoara, na ilha do Marajó, e pela Tapajônica, na região de Santarém.

Muiraquitã em formato de sapo, o mais comum.

A cerâmica dessas sociedades era altamente elaborada, com técnicas complexas de produção. Havia urnas funerárias elaboradas, comércio e uma densidade demográfica de escala urbana. Acredita-se que a monocultura era praticada, além da caça e da pesca intensivas, a produção intensiva de raízes e o armazenamento de alimentos.

Crônicas do início do período colonial são empregadas na reconstrução das antigas civilizações brasileiras. Muitos cronistas descreveram elementos indígenas desse período. A dissolução dessas organizações sociais normalmente é relacionada à conquista, que teria abalado sua estrutura demográfica.

Arte Tapajônica

A cerâmica produzida por estas civilizações é classificada em dois grupos principais: o Horizonte Policrômico e o Horizonte Inciso Ponteado. São exemplos do Horizonte Policrômico os Marajoaras (foz do Amazonas) e os Guarita (Médio Amazonas), entre outros localizados fora da Amazônia brasileira. Exemplos do Horizonte Inciso Ponteado são Santarém (Baixo Amazonas) e Itacoatiara (Médio Amazonas). Acredita-se que o Horizonte Inciso Ponteado estivesse associado aos antepassados dos povos de língua Caribe, enquanto o Horizonte Policrômico teria sido produzido pelos antepassados dos povos de língua Tupi.

Grandes sítios amazônicos da época dos cacicados complexos parecem ter tido regiões especializadas para o enterro, o culto, o trabalho e a guerra. A ocupação pré-histórica tardia do território era sedentarizada. A entrada do milho e de outras sementes na região, assim como sua popularização entre os americanos, data do primeiro milênio antes de Cristo.

VI.  Kuhikugu e Monte de Teso dos Bichos

6.1. Kuhikugu
No alto Xingu, grandes aldeias circulares eram construídas com urbanismo sofisticado e inovador. O sítio arqueológico de Kuhikugu, localizado no parque Nacional do Xingu, foi um grande complexo urbano e pode ter abrigado até 50.000 habitantes, antepassados dos atuais kuikuros. O sítio abriga construções complexas como estradas, fortificações e trincheiras para proteção.

À esquerda, reconstrução de Kuhikugu. À direita, uma aldeia kuikuro moderna.

Para alimentar a grande população, havia campos cultivados e pomares na cidade. Talvez a mais incrível descoberta seja a de barragens para a criação de peixes. Como a descoberta é recente, estudos sobre as formas de vida dessas populações ainda são necessários. Os estudiosos acreditam que esse povo cultivava a mandioca.

Kuikuros: prováveis descendentes dos habitantes de cacicados complexos como o Kuhikugu.

O desaparecimento dessa civilização, assim como de outras grandes civilizações amazônicas, é relacionado à entrada de doenças europeias no continente. As características naturais da floresta Amazônica explicariam porque os antigos europeus não travaram contato com esta civilização brasileira.

6.2. Monte de Teso dos Bichos
O Monte de Teso dos Bichos, localizado na Ilha de Marajós, é o local onde floresceu uma das mais elaboradas civilizações da Amazônia pré-cabralina, ocupando 2,5 hectares. Ali, entre 400 a.C e 1300 d.C, existiu uma população, estimada entre quinhentas e mil pessoas, que fazia parte de um complexo de povoados pertencentes a uma sociedade de tuxauas. Essa sociedade apresentava um alto desenvolvimento tecnológico e uma ordem social bem definida. As mulheres encarregavam-se dos trabalhos agrícolas, cuidavam do preparo da alimentação e habitavam casas coletivas. Os homens cuidavam da caça, da guerra, das práticas religiosas e e viviam em habitações masculinas próximas ao centro cerimonial, constituído de uma plataforma de barro.

Uma das características marcantes das sociedades complexas da Ilha de Marajós são os “tesos”, aterros artificias de grande porte construídos para a colocação de habitações, provavelmente para evitar inundações. Os tesos marajoaras são considerados estruturas monumentais e, por esse motivo, são essenciais para a interpretação do passado marajoara.

VII. Período Pré-Cabralino Recente
A história do Brasil pré-cabralino recente costuma ser estudada através das línguas nativas. O estudo sobre as línguas nativas permite compreender aspectos dessas culturas, seus parentescos históricos e suas migrações. Quando cronistas europeus descreveram os antigos povos brasileiros, utilizaram sobretudo denominações linguísticas e, graças ao trabalho missionário de alguns jesuítas, temos hoje conhecimento das antigas línguas brasílicas.

Família de um chefe Camacã se prepara para uma festa. Obra de Jean-Baptiste Debret. O original é em preto e branco.

Resta a tarefa de associar os achados antigos aos povos recentes, que conhecemos a partir de grupos linguísticos. Apenas um grande grupo pré-cabralino recente foi associado aos achados antigos: os grupos da família linguística Tupi-Guarani. Estes dominavam o atual litoral brasileiro, conhecido por Pindorama. Outra fonte para a reconstrução da história recente dos povos pré-cabralinos é a mitologia indígena. É possível estabelecer relações entre os elementos dos mitos e acontecimentos que consideramos históricos. As fontes mitológicas tem sido empregadas para estudar movimentos migratórios e as relações estabelecidas entre os povos brasileiros e o Império Inca, por exemplo.

Quando os europeus passaram a ocupar a costa oriental da América do Sul, encontraram etnias vinculadas a quatro principais grupos linguísticos: arawak,  tupi-guarani, jê e karib. Dentro de um mesmo grupo linguístico havia diferentes unidades identitárias possuindo dialetos, práticas culturais e filosofias próprias.

Múmia de um chefe de Coroados. Obra de Jean-Baptiste Debret. O corpo está dentro de uma urna funerária.

7.1 Macro-Tupi
Um dos grandes grupos linguísticos do Brasil, que parece ter se expandido imensamente sobre o território brasileiro antes de 1500. Devem ter primeiramente habitado a região das cabeceiras dos rios Madeira, Tapajós e Xingu. A expansão Tupi-Guarani aconteceu há 3~2 mil anos, pouco depois desse grupo ter se diferenciado de outros na região entre o Xingu e o Madeira, formando novos subgrupos linguísticos que expandiram por toda a América: os Kokama e os Omágua até o rio Amazonas, os Guaiaki até o Paraguai, os Xirinó à Bolívia, Tapirapés e Teneteharas se deslocaram em direção ao nordeste, os Pauserna, Kajabi e Kamayurá até o extremo sul do Brasil, os Oyampi até a região das Guianas. A última fase de dispersão dos Tupi-Guarani ocorreu por volta do ano 1000. Os falantes de línguas associadas ao Tupi-Guarani estariam já instalados no sul do Brasil, na bacia amazônica e também no litoral do país (potiguaras, tupinambás, tupiniquins). A maior parte dos artefatos arqueológicos desses povos são datados entre o ano 500 e o ano 1500. A extensão para o litoral é constatada pela maior concentração de artefatos nessa região entre os séculos XI e XIII.

Cunhambebe, chefe tupinambá historicamente conhecido por liderar a Confederação dos Tamoios numa negociação de paz com os portugueses, representados pelos jesuítas Nobrega e Anchieta.

Dados linguísticos permitem avaliar essas sociedades como expansivas e em constante movimento. Graças a uma impressionante rede hidroviária fluvial, os povos desse grupo linguístico puderam se difundir e, ao mesmo tempo, manter contato uns com os outros. O uso de canoas (ygara em tupi antigo) para navegar rios permitia o envio de missões militares e diplomáticas de uma região para outra. Muitos artefatos arqueológicos do período cerâmico são filiados a esses povos. Os sítios arqueológicos associados a essas populações constituíam-se em aldeias extensas, normalmente localizadas em regiões de planalto ou em terraços. Nesses sítios arqueológicos a cerâmica é abundante, as unidades habitacionais são cabanas de até 60 m² de diâmetro e as áreas dos sítios são definidas em espaço cerimonial, público e residencial. O espaço dos vivos é separado daquele dos mortos. A arqueologia identificou sepultamentos em urnas e outros em terra. Artefatos líticos são encontrados junto dos sepultamentos.

7.2 Macro-Jê
As línguas associadas à matriz linguística Macro-Jê devem ter sofrido diferenciação por volta de 6 mil anos atrás. Sua expansão inicia-se há 3 mil anos, pela Região Centro-Oeste do Brasil. O grupo Jê propriamente dito é possivelmente originário das regiões das nascentes dos rios São Francisco e Araguaia. Grande parte dos povos de língua Jê se afastaram dos Kaingang e Xokleng, seguindo para o sul da região central brasileira. Alguns grupos devem ter se separado destes últimos e seguido até a região amazônica há pelo menos mil anos atrás. Os povos Jês preferiam se instalar em regiões de Planalto, como nos permite constatar o estudo de suas línguas. Alguns grupos jês são Kayapós, Xerentes e Timbiras.

Índia Xerente.

7.3 Karib
Os povos de língua Karib também passaram por um processo de expansão há 3 mil anos. Essa família linguística é talvez originária da região das guianas e do extremo norte do Brasil. Os Yupka e os Karijona, remificações dessa família linguística, teriam se diferenciado e migrado para a Colômbia, enquanto os Bakairi teriam seguido para o centro do Brasil. O empréstimo de termos Tupi nas línguas Karib (e vice-versa) aponta para a existência de redes complexas de comércio e tráfico de pessoas entre tais povos.

Índios Bakairi em dança ritual.

7.4 Arawak e outros
As línguas de matriz Arawak concentram-se hoje na região sudoeste da Bacia amazônica. A principal família linguística associada a esse grupo é a Maipure, dividida em quatro subgrupos regionais.

Taínos, povos de língua arawak que habitam certas regiões do Caribe.

Existe grande polêmica em relação às origens, às migrações e aos descendentes desses povos, além de suas relações com outros grupos linguísticos do Brasil Antigo.

Outros grupos linguísticos menores, sem parentescos com os outros maiores, são os Mura, Chapkura, Pano, Yanomani, etc.

VIII. Pindorama
Segundo Luís da Câmara Cascudo, os tupis foram o primeiro agrupamento indígena que teve contacto com os portugueses. A influência tupi se deu na alimentação, no idioma, nos processos agrícolas, de caça e pesca, nas superstições, costumes, folclore, etc. Os povos do grupo Tupi-Guarani habitavam a região chamada por eles de Pindorama (terra das palmeiras). Sabemos os nomes de alguns dos principais grupos que habitavam Pindorama na véspera da chegada europeia: os potiguaras, os tremembés, os tabajaras, os caetés, os tupiniquins, os tupinambás, os aimorés, os goitacás, os tamoios, os carijós e os temiminós.

Os potiguaras habitavam a região entre o Rio Acaraú e o Rio Paraíba e controlavam a navegação fluvial. Durante a conquista, aliaram-se aos franceses, sendo que alguns relatos falam de casamentos entre potiguaras e franceses, envolvendo acordos bélicos anti-portugueses. Os Tabajaras habitavam a margem meridional do rio Paraíba, na região atual do litoral pernambucano. Foram importantes aliados dos portugueses durante a conquista. Os Caetés habitavam a região de Pernambuco desde Olinda, até onde encontra-se hoje o estado de Alagoas. Tornaram-se célebres na História do Brasil por terem devorado o Bispo Sardinha. Os Tremembés habitavam a margem ocidental do rio Acaraú. Os tamoios habitavam a Baía da Guanabara; seus líderes, Cunhambebe e Aimberê, aliaram-se com os franceses no combate aos portugueses. Os carijós habitavam o litoral sul do país. Os tupiniquins habitavam a atual região do Estado de São Paulo, e os Tupinambá a região sudeste do Brasil. Nosso conhecimento do tupi antigo é principalmente baseado na língua dos Tupinambás.

Os povos tupis viviam em aldeias que reuniam de 600 a 700 habitantes. Algumas aldeias eram fortificadas em razão das guerras inter-tribais. Nenhuma autoridade aparecia com força absoluta ou consideravelmente forte sobre os outros integrantes da sociedade, embora houvesse hierarquias em função do gênero, do mérito guerreiro e dos poderes xamânicos. Os Pajés (Paye em tupi antigo) e os Caciques (morubixaba em tupi antigo) ocupavam  o papel de autoridades das tribos. A subsistência baseava-se na caça e na horticultura. Os homens acreditavam em bons e maus espíritos (tupã, anhang, etc.) que influenciavam os acontecimentos no cosmos. Cada homem trazia um maracá, no qual acreditavam habitar um espírito protetor de cada indivíduo. Acredita-se que apenas os filhos dos homens mais importantes da tribo fossem enterrados nas urnas funerárias. Os acontecimentos religiosos tinham alcance amplo, e reuniam diferentes etnias. Os antigos indígenas foram responsáveis por inúmeras manifestações artísticas, como peças de cerâmica, danças, canções, poesias (registradas por Léry) e a plumária extremamente sofisticada e rica. A Literatura Tupi aparece com a chegada da escrita europeia, quando missionários passam a escrever em tupi para converter os nativos, e as crônicas transcrevem canções indígenas.

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FONTES E REFERÊNCIAS:

Web

Livros, revistas, artigos e entrevistas

E se a terra fosse dividida igualitariamente?

O verdadeiro fundador da sociedade civil foi o primeiro que, tendo cercado um terreno, lembrou-se de dizer ‘isto é meu’ e encontrou pessoas suficientemente simples para acreditá-lo. Quantos crimes, guerras, assassínios, misérias e horrores não pouparia ao gênero humano aquele que, arrancando as estacas ou enchendo o fosso, tivesse gritado a seus semelhantes: ‘Defendei-vos de ouvir esse impostor; estareis perdidos se esquecerdes que os frutos são de todos e que a terra não pertence a ninguém

dizia Jean-Jacques Rousseau.

“A propriedade é um roubo!”

completaria Proudhon.

Estes dois nomes, Proudhon e Rousseau, são dois velhos conhecidos de qualquer estudante de humanas. Especialmente aqui, onde meio universitário e militância socialista praticamente são sinônimos. Pois bem, tendo lido estes dois ilustres, quem será capaz de defender a propriedade? Estando dois intelectuais de tamanho peso contra a propriedade, quem seria o boçal a defendê-la?

Bom, nós seremos. Acontece que o mundo não é feito só de socialismo utópico, socialismo científico, socialismo trágico e socialismo cômico. Há mais peixes no mar.

Como seria o mundo se não houvesse propriedade privada? Mais especificamente, se não houvesse propriedade sobre as terras cultiváveis? Bom, sobre isso há um intelectual sobre o qual apoiar-nos. Seu nome é Anne Robert Jacques Turgot.

Anne Robert Jacques Turgot, um dos teóricos liberais e grande nome da Fisiocracia.

Em seu livro Réflexions sur la formation et la distribution des richesses (Reflexões sobre a formação e a distribuição das riquezas), Turgot trata da propriedade das terras. Vejamos o que ele diz, da maneira mais simples e direta possível para um livro escrito no século XVIII:

I. A impossibilidade do Comércio na suposição de uma divisão igualitária de terras, onde todo homem possuisse somente o que é necessário para sua própria manutenção.

Se a terra fosse dividida entre todos os habitantes de um país de tal maneira que cada um possuísse precisamente a quantidade necessária para sua manutenção e nada mais, é evidente que, todos sendo iguais, ninguém iria querer trabalhar para os outros. Nem iria qualquer um deles possuir meios para pagar pelo trabalho de outros, já que cada pessoa possuiria apenas terra o suficiente para produzir para sua subsistência. Consumiriam então tudo que obtivessem, e não teriam nada que pudessem trocar pelo trabalho de outros.

Comentário: Turgot não poderia ser mais explícito. Se reduzirmos o direito de propriedade a igual distribuição de terras unicamente para satisfação das necessidades mais básicas, não só perde o homem todo e qualquer luxo que vá além da própria subsistência como são encerradas todas as relações econômicas com outras pessoas. 

II. Esta hipótese nunca existiu e se existisse não poderia ter durado. A diversidade dos solos e a multidão de desejos e necessidades levam a uma troca de produtos da terra por outros produtos.

Esta hipótese nunca poderia acontecer, porque a terra fora cultivada antes de ser dividida; o cultivo em si sendo a única razão para a divisão, e pela lei que assegura a cada um sua propriedade. As primeiras pessoas que se dedicaram ao cultivo provavelmente cultivaram tanta terra quanto seus recursos permitiam, e consequentemente, mais do que o necessário para sua manutenção.

Ainda que o estado das coisas pudesse existir, não poderia durar; cada homem obtendo da sua terra somente para sua subsistência, e não tendo meios de pagar pelo trabalho, só poderia prover para suas necessidades de abrigo, vestimenta, etc, pelo próprio trabalho. E isto seria virtualmente impossível, já que nenhum tipo de solo é capaz de produzir tudo.

O homem cuja terra dá apenas grãos, e não pode produzir nem algodão nem cânhamo, não teria roupa para vestir. Outro teria uma terra apropriada para o algodão, que não produziria grãos. Um terceiro ficaria sem lenha para aquecer-se, enquanto um quarto ficaria sem grãos para alimentar-se. A experiência logo ensinaria a todos para qual tipo de produtos a terra é mais apropriada e estes então focariam no cultivo daquela colheita em particular para obter coisas através da troca com seus vizinhos que, tendo por sua vez chegado à mesma conclusão, teriam cultivado a melhor planta para a sua terra, e desistido do cultivo de outras.

Produção e cultivo: a razão pela qual a terra foi divida é a melhor alternativa para a sobrevivência do homem. Antes disso, a cultura caçadora-coletora não poderia sustentar grandes populações.

Comentário:
Turgot é claríssimo. 1 – A produção é o motivo pelo qual se deu a divisão de terras, antes sequer de existirem as instituições que defendem o direito de propriedade.
2 – A natureza do solo e das vegetações torna simplesmente impossível que o homem atenda a todas as suas necessidades colhendo tudo de um mesmo solo dividido milimetricamente.
3 – A necessidade de obter produtos que não dão no solo que ocupa levaria os homens inevitavelmente ao comércio de bens. Isto necessitaria a especialização em um tipo de cultivo e a geração de excedentes.

III. Os produtos da terra requerem preparações longas e difíceis para tornarem-se adaptados às necessidades do homem.

As culturas que a terra produz para satisfazer as diferentes necessidades do homem não podem serví-lo, via de regra, no estado que se encontram na natureza; elas precisam passar por várias mudanças e preparadas pela arte. O trigo deve ser convertido em farinha, e então em pão; couro deve ser curtido; a lã e o algodão devem ser fiados; seda deve ser retirada dos bichos-da-seda; cânhamo e linho devem ser embebidos, descascados, fiados e então pode-se tecer com eles, cortar, costurar e fazer roupas, calçados, etc.

Se o mesmo homem que é proprietário desta terra e cultiva estes diferentes artigos, e os usa para suprir a própria necessidade, também fosse obrigado a executar todas as operações intermediárias ele mesmo, é certo que ele as faria muito mal. A maior parte destas preparações requer cuidado, atenção e uma grande experiência, que só podem ser adquiridas pelo trabalho contínuo e em grande quantidade de materiais. Tome por exemplo, a preparação do couro: qual trabalhador poderia realizar todos os detalhes necessários nesta operação que se arrasta por muitos meses, as vezes até anos? Se ele pudesse, seria capaz de fazer uma única peça de couro? Quanta perda de tempo, espaço e materiais que poderiam ter servido ao mesmo tempo ou sucessivamente para uma maior quantidade de peças de couro! E mesmo que ele fosse bem sucedido em curtir uma única peça de couro, ele só precisa de um par de sapatos; o que vai fazer com o resto? Ele deve matar um boi só para fazer este par de sapatos? Ele deve cortar uma árvore para fazer um par de sapatos de madeira?

O mesmo pode ser dito sobre todas as outras necessidades do homem que, se fosse reduzido à sua própria terra e ao seu próprio trabalho, perderia muito tempo e passaria muita dificuldade apenas para se equipar muito mal de cada coisa e ainda cultivar muito mal a sua terra.

A divisão de trabalho e a especialização das culturas foi o que permitiu ao homem produzir para mais pessoas e com menos esforço. O produtor ganha, o consumidor ganha, a sociedade ganha.

Ficamos por aqui com esta obra de Turgot, cuja leitura é proveitosa e recomendo. É assim, sem grandes rodeios, que Turgot explica que a propriedade privada, assim como a divisão do trabalho é fruto direto da nossa necessidade natural de obter mais com menos esforço. Em resumo, é justamente esta propriedade e esta divisão do trabalho o que beneficia a sociedade como um todo ao permitir uma integração de forças produtivas que atendam a mais necessidades e mais desejos demandando um esforço produtivo cada vez menor de cada indivíduo.

Os trechos da obra de Turgot foram traduzidos e adaptados da versão inglesa para o português do Brasil por Renan Felipe dos Santos.