Culpa, impostos e desenvolvimento

Nestes tempos de estagnação econômica em níveis mundiais, existe uma alternativa para aliviar os problemas socioeconômicos, principalmente dos mais pobres, que geralmente são os que mais sofrem com as consequências do atraso econômico. Essa alternativa, de cunho socialista, é aumentar os impostos para os mais ricos, em busca de aumentar a renda dos mais pobres e diminuir a desigualdade social.

Entretanto, mesmo sendo uma ideia com algumas boas intenções, aqueles que defendem isso, mesmo em detrimento próprio – o caso do “1% mais rico” -, acabam por defender uma medida com baixa eficácia e desnecessária, visto que há uma outra opção disponível, extremamente mais eficiente e que, justamente, os mais ricos podem colocar em prática.

Filantropia bilionária e desenvolvimento econômico

John Davison Rockefeller foi um americano extremamente rico, ligado a indústria, principalmente ao petróleo. Mas, além disso, a filantropia. Em 1937, ano de sua morte, sua fortuna foi estimada em US$ 664 bilhões, em valores atuais, sendo o homem mais rico da história. Rockefeller doou 10% de seu primeiro salário à Igreja Batista, e a igreja dele estabelecia escolas e faculdades para os libertos da escravidão.

Conforme Rockefeller foi enriquecendo, suas doações também foram aumentando, incluindo US$ 80 milhões para a Universidade de Chicago, que deixou de ser uma pequena faculdade batista para ser uma instituição de ensino de renome mundial, além de muitas contribuições para outras instituições de ensino, contribuindo para o desenvolvimento social (principalmente dos negros libertos da escravidão), e para a medicina.

Outros nomes de bilionários da filantropia em prol de causas sociais também existem. Andrew Carnegie, da indústria do aço, com US$ 7 bilhões em valores atuais. Warren Buffet, apesar de suas crenças que vão de encontro ao escopo deste artigo, doou US$ 31 bilhões. Chuck Feeney, de lojas e shoppings, doou US$ 9 bilhões, e a lista ainda é extensa.

Entretanto, esses homens de negócios não contribuíram para a sociedade apenas por meio da filantropia. No caso dos grandes industriais, todo o império deles foi responsável por geração de empregos, redução de custos, desenvolvimento de bens, serviços, infraestrutura e toda uma vasta gama de itens importantíssimos para o desenvolvimento socioeconômico, abrangendo desde os mais pobres, que também se beneficiam de todo esse processo.

Aqueles que são muito ricos graças ao mercado financeiro também contribuem, só que de maneira mais indireta. Com a capacidade de canalizar investimentos lucrativos, a acumulação de capital financeiro não é um fim em si mesma. Todo esse capital não é algo abstrato da sociedade; ele não fica debaixo do travesseiro dos grandes investidores. Esse capital fica nos bancos e, em última instância, toda a sociedade se beneficia disso.

Nem todo dinheiro emprestado pelos bancos advém dos depósitos de seus correntistas, visto que há as reservas fracionárias. Entretanto, grosso modo, o dinheiro que os bancos emprestam é o dinheiro depositado por seus correntistas. Exemplificando, se um cidadão deposita R$ 1 mil em um banco, agora o banco possui um ativo e um passivo com o valor de R$ 1 mil. Com este ativo de R$ 1 mil, o banco agora pode fazer um empréstimo de, digamos, R$ 500. Os empréstimos decorrentes deste processo servirão para diversas finalidades, incluindo a aquisição de um bem que uma pessoa não tem condições financeiras de comprar no presente momento, ou então para empresas conseguirem mais capital para ampliar suas respectivas capacidades produtivas.

Coerção, impostos e assistencialismo estatal

Todo esse processo acima descrito descrito, em momento algum, necessitou da intervenção do governo. O desenvolvimento econômico por meio de mercados competitivos se deu por meio da “mão invisível do mercado”, que Adam Smith já havia observado ainda no século XVIII, independe da ajuda estatal, que é maléfica, inclusive. E a filantropia não dependeu de estímulos governamentais, originou-se da cultura do ser humano em ajudar o próximo.

O assistencialismo estatal possui uma essência diferente da filantropia, mesmo que com a mesma finalidade. A filantropia parte do princípio de se ajudar os mais necessitados; já o assistencialismo, de extorquir a sociedade com impostos para, agora sim, ajudar os mais necessitados – lembrando que os mais necessitados também foram extorquidos por meio dos mesmos impostos e que o assistencialismo é colocado em prática tão somente com a finalidade de ajudar os mais pobres e não de criar uma relação de dependência econômica, social e política com governo.

Além disso, o assistencialismo é um desincentivo à própria filantropia. A filantropia surge com a necessidade de se ajudar os mais necessitados. Com um aumento do assistencialismo, diminui, por consequência, o sentimento humano de ajudar os outros por seus próprios meios. Isso acontece pois o governo está arrecadando cada vez mais impostos para, justamente, ajudar os mais pobres. Dessa forma, pensa o cidadão comum, “por que então gastarei mais tempo e dinheiro meu para ajudar os outros se já pago altos impostos para o governo fazer isso”?. E, também, como o governo aumentou impostos, agora cada pessoa possui menos recursos para si mesma. Isso por si só já dificulta que ajudas pessoais se mantenham no mesmo nível, além de ser um entrave econômico a toda aquela geração de riqueza apresentada na primeira parte deste artigo.

Cada cidadão sabe o quanto pode ajudar. Quando o governo determina uma contribuição (imposto com finalidade específica), existem algumas consequências distintas. Por exemplo, sendo uma alíquota pequena e uma pessoa adepta da filantropia, por vezes não haverá diferença no total destinado a ajuda, grosso modo, apenas alterando quem está recebendo o recurso. Todavia, se a alíquota for superior ao que o filantropo fosse doar, agora o mesmo terá que desembolsar mais recursos do que ele havia previamente planejado. Esse é mais um dos problemas do assistencialismo e de Estados inchados: ao invés dos próprios indivíduos decidirem como dispenderão seus recursos, quem passa a tomar essa é decisão é, cada vez mais, o governo. Como o governo não possui capacidade para coordenar as cada vez maiores interações sociais e as decisões de todos os diferentes indivíduos de uma sociedade, há um regresso na alocação de recursos escassos.

Há também uma questão moral. Mesmo tendo a filantropia e o assistencialismo o mesmo fim, a filantropia é voluntária, e o assistencialismo não. Ninguém pode obrigar alguém a doar dinheiro e fazer trabalho voluntário, mas, mesmo assim, por questões culturais, as pessoas o fazem. Já o assistencialismo, não há escolha: independente de sua vontade, você tem que pagar, e na magnitude (certamente equivocada, como visto no parágrafo anterior) previamente estabelecida pelo governo.

Conclusão

Não há motivos para alguém rico se sentir culpado por sua riqueza, e muito menos pela pobreza de terceiros, desde que a riqueza tenha surgido por meios éticos – via de regra, esse tipo de riqueza externaliza benefícios indiretamente. Entretanto, caso alguém tenha esse sentimento de culpa, não quer dizer que o governo tenha que extorquir terceiros para solucionar esse problema. A filantropia existe para isso.

Não há necessidade de aumentar impostos para os mais ricos. Se um rico sente-se mal por ser rico e existirem pobres, ao invés de defender a pilhagem para terceiros ele pode doar toda sua riqueza. Nada o impede de fazer isso.

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Uma cultura viciada

Muito se questiona acerca dos problemas do Brasil. Nesse momento, percorremos os mais diversos problemas realmente existentes como a corrupção do governo, a ineficiência da administração pública, até aqueles não realmente existentes como o neoliberalismo, um suposto imperialismo norte-americano sobre nós. Enfim, identificamos, bem ou mal, diversos problemas. Mas existe um problema que é grande responsável, sobre o qual até se fala, mas não da maneira como é devido, que é o problema de nossa cultura viciada.

Quando se fala em problemas de nossa cultura, rapidamente vem à mente a cultura carnavalesca, do futebol e cerveja. Menor dos males. Que nação não possui suas festas e comemorações? Que nação não pára para ver os representantes de seu país em algum esporte que estimem? As festividades são importantes, assim como o esporte. O incentivo ao esporte, inclusive, tira diversas pessoas da miséria.

Alguns vão um pouco mais além e falam do jeitinho, da tendência a levar vantagem em tudo o que acontece. Sim, um problema grave, que explica muito do mal-caratismo presente na política e na vida privada. A corrupção generalizada, em parte decorrente de nossa cultura do jeitinho, é sim um grande obstáculo a ser superado. Mas o maior entrave para o nosso desenvolvimento vai ainda um pouco além, ao meu ver.

O brasileiro é avesso ao sucesso. Valoriza o esforço, mas não valoriza a conquista, quando essa se trata de ganhos econômicos. É invejoso. Se uma pessoa é bem sucedida, deve ser criminosa.

Desde cedo aprende-se a deixar de pensar em si mesmo. O que prego não é o egoísmo como virtude, mas como condição necessária em diversos momentos. Não o abandono à caridade e à ajuda, mas a necessidade de saber que pensar em si por vezes é saudável. Pensar em trilhar o próprio caminho, ter controle sobre a própria vida. Isso, infelizmente, é contra o modo brasileiro de ser.

Ao invés de aprendermos desde cedo a sermos os melhores, aprendemos a nos sentirmos culpados por nos sobressairmos em qualquer coisa que seja. E se engana quem pensa que isso se converte em caridade: isso se converte em falta de esforço. É sabido que o resultado não será valorizado, mas sim reprimido. A sociedade não o valorizará por suas conquistas, e sim o condenará como se fosse um criminoso, aquele que ousou ser bem sucedido.

Não vejo uma cura ao problema, mas fica a crítica. Talvez o tempo venha a transformar esse vício, talvez seja necessário um trabalho que envolva gerações. O marxismo cultural exerceu seu trabalho com maestria. As instituições ruem uma a uma, principalmente a propriedade privada, cada vez mais sujeita a restrições. E aqueles que se sobressaem, motores da sociedade, são cada vez mais criticados. Até o ponto em que os bem sucedidos deixem de existir. Então o caos estará instaurado.

Indústrias e o desenvolvimento socioeconômico

Indústrias, elas são sinônimos de riqueza e desenvolvimento. Mas se uma região se desenvolve o bastante, elas acabam ficando fora de contexto e passam a perder sua importância tanto para os empresários quanto para a população. Eu nasci em São Caetano do Sul, cidade que faz parte do ABC paulista que é uma região famosa por ser um pólo industrial. Porém, isso vem mudando nos últimos 20 anos.

São Caetano chegou a ter indústrias Matarazzo e hoje ainda tem uma montadora da General Motors. Mas deixou de ser uma cidade industrial e passou a ser  uma cidade de serviços: muitos profissionais liberais tem seus consultórios ou escritórios na cidade. Recentemente, São Caetano recebeu um shopping do  grupo Multiplan, além de ser sede da loja matriz das Casas Bahia. A cidade talvez seja a única do ABC a trocar as indústrias pelos serviços (mas não se engane, a GM ainda gera grande parcela PIB da cidade), mas é seguida por Santo Andre e São Bernardo do Campo nessa nova tendência.

São Bernardo do Campo, famosa pelas suas indústrias e greves nos anos 70/80, vem mudando um pouco seu perfil. Hoje o setor de serviços vem crescendo, e o setor imobiliário não ficou atrás: as construtoras estão vendo uma oportunidade boa e a região só se valoriza.

Mas isso tudo só se deu graças às indústrias e a saída de algumas delas. P ciclo é muito simples de se entender: uma região que é subdesenvolvida acaba sendo atraente para fábricas, pois nelas se encontram mão de obra barata (a priori isso parece exploração, mas o trabalho fabril não requer grande especialização, e tem uma remuneração razoável). Aos poucos  esses trabalhadores vão melhorando suas condições financeiras, o que consequentemente irá atrair novos negócios para a região ou até incentivar o empreendedorismo local. Os filhos desses operários vão herdar todo esse desenvolvimento. O ABC Paulista é prova disso, há 50 anos a região era cheia de indústrias e nelas trabalhavam imigrantes europeus e migrantes nordestinos, todos com especialização e nível escolar baixo, mas seus filhos tiveram melhores condições de vida e estudos,  até ensino superior. Boa parte dessa geração, filha desses operários, partiram para outros setores e diferente de seus pais não acabaram trabalhando em indústrias, mas sim como profissionais liberais. Num espaço de 3 ou 4 gerações o nível socioeconômico de cada uma melhorou gradualmente.

Hoje ao conversar com antigos moradores do ABC ficam claras as mudanças que a região sofreu nas ultimas décadas e quase impossível de imaginar que o que hoje é uma região urbana ligada a uma  metrópole (São Paulo) era no passado uma região rural com várzeas e córregos. Esse crescimento foi em boa parte descontrolado, mas demonstra o papel que as indústrias tem desenvolver rapidamente uma região.

O que eu quero concluir com esse texto é que as indústrias não exploram trabalhadores. Pelo contrário, traz progresso para a região e para seus habitantes. As famílias melhoram de forma gradual e rápida suas condições: é o que chamam de sistema de “dinastia”, ou seja, acumular capital que é passado de geração em geração. Aposto que suas condições socioeconômicas são bem melhores que as que seus avós ou bisavós tiveram.