Necessitamos gerar riqueza, não trabalho

As idéias que predominam na sociedade não são as que se tem demonstrado úteis as cidadãos, senão as que permitem aos políticos chegar ao poder.

Um exemplo de idéia absurda é o mantra sobre a imperiosa necessidade de gerar emprego. Se confunde o desejo de uma boa parte da população de perceber uma retribuição de forma estável e periódica, que lhes assegure uma vida confortável, com o fim último da economia nacional. A propaganda tem ido tão fundo, que até muitos empresários se vangloriam de que um de seus objetivos principais é criar postos de trabalho.

Claro, esta peculiar forma de pensar só se aplica à política; se qualquer pessoa vê a seu vizinho cavar um buraco na metade de seu jardim para em seguida enchê-lo novamente, imediatamente pensará que o pobre homem está transtornado. Infelizmente, a porcentagem de indivíduos que chegaria a esta conclusão baixaria consideravelmente se soubessem que a prefeitura lhe paga para fazer isto, afim de integrá-lo à lista de servidores públicos.

Para conseguir que a porcentagem de entusiastas deste tipo de política seja ainda maior, deve-se recorrer a adornar os empregos com certo valor social. Alguém pode se opôr a pagar um salário para cavar e preencher buracos, mas é muito mais difícil fazê-lo quando se tem calçadas novas ou se criam setores que supostamente trazem inovação.

O problema é que, em tempos de crise como o atual, não há dinheiro público para pagar trabalhos nos quais não se crie riqueza de forma objetiva; ou se emprega o tempo em algo pelo qual alguém esteja disposto a renunciar à parte de sua riqueza, ou não haverá forma de encontrar um emprego.

Por causa disto, os políticos optam por outra via para não renunciar a intervir no processo: incentivar a contratação, seja eliminando barreiras, postas por eles mesmos, em forma de regulações, reduzindo impostos trabalhistas como os benefícios sociais ou concedendo incentivos fiscais às empresas que criem postos de trabalho.

O mito de que o governo cria empregos é um exemplo típico de falácia da janela quebrada: o salário dos ‘cavadores de buraco’ seria dinheiro melhor aproveitado em setores produtivos e melhor alocados pela iniciativa privada.

À simples vista, medidas que reduzem impostos e eliminam regulações não parecem más. Mas se analiza-se com atenção a realidade é outra.

A redução das regulamentações para diminuir a superproteção dos trabalhadores por parte do Estado não tem efeitos benéficos a não ser que uma maioria da sociedade entenda que esta superproteção é injusta e prejudicial. Injusta para os empresários e trabalhadores que queiram acertar suas próprias condições fora do controle estatal (e seus satélites sindicais) e prejudicial para a economia, porque não permite a flexibilidade necessária para ter uma economia dinâmica e competitiva.

Ao não produzir-se este entendimento, as reformas trabalhistas não são mais que uma tentativa do governo do momento para evitar que as vacas morram de fome. Por isto a deixa sair a pastar cinco minutos por dia. É melhor que nada, mas a vaca acabará morrendo igualmente.

O mesmo acontece com a redução dos impostos trabalhistas, ou benefícios de segurança social, por parte do empresário. O sistema de segurança social é um esquema de pirâmide. Não sou eu quem diz, é o que todos dizem. Potanto, livrar os empresários de pagar parte deste esquema sem reconhecer que o sistema é inviável e permitir que os atuais beneficiários busquem uma alternativa sensata (capitalização) é condenar-nos a pagar, via IVA ou qualquer outro imposto, as atuais pensões e as futuras. Uma vez mais, se tenta manter o sistema operativo até que ele quebre, e não dar-lhe uma solução real.

Sauron criando milhões de empregos, estimulando a demanda agregada e pondo em prática o keynesianismo de guerra.

Por último, conceder incentivos fiscais a uma empresa pelo fato de criar empregos é absurdo e injusto. Absurdo, porque criar um posto de trabalho por criar só beneficia a pessoa contratada. Injusto, porque a economia não melhora pelo fato de que uma empresa cria um posto de trabalho: a economia melhora se um empresário é capaz de construir um modelo de negócio pelo qual gera-se mais riqueza do que se consome. Ou, dito de outra maneira: uma empresa que é capaz de ganhar 10 milhões de euros com 10 trabalhadores é muito mais benéfica para a economia que outra que ganhe o mesmo com 10.000 trabalhadores. Por que premiar à segunda e não à primeira com um incentivo fiscal?

A triste resposta é a antítese ao título deste comentário: o Estado não quer gerar riqueza, quer gerar emprego. E o quer porque seu poder se baseia em que milhões de pessoas creiam que sua subsistência depende de sua benevolência e capacidade de gestão, em vez de crer em sua própria capacidade de gerar riqueza para viver sem depender de ninguém. De ser livres.

Artigo original postado no site do Centro Diego de Covarrubias. Para ler o original em espanhol, clique aqui.

O PIB e as suas limitações

Provavelmente você leitor já ouviu falar de PIB (Produto Interno Bruto). Principalmente no Brasil, já que muitas pessoas estão comemorando o fato do nosso PIB ser um dos maiores do mundo. Mas até quando isso é realmente bom? Até que ponto isso de fato é um avanço?

O que é o PIB?


Basicamente, o PIB é a soma de todos os bens e serviços finais que foram produzidos. Pode ser medido tanto para cidades, estados/províncias, países e continentes, durante períodos como meses, semestres ou anos. Geralmente, o PIB é utilizado para medições econômicas de países durante um período de um ano.

O PIB não leva em consideração bens de consumo intermediários (uma laranja que foi produzida para um suco, em que o suco será o produto final). Então, acaba omitindo parte da estrutura de produção.

Por que o PIB não é tão relevante como dizem?

Como já foi dito acima, o PIB leva em conta todos os bens e serviços finais produzidos. Porém, nisso estão incluídos a iniciativa privada e o os gastos do governo. O governo, dentro de nossa sociedade, é quem mais consegue gastar erroneamente.

Isso acontece por vários fatores. Dentre eles, o Estado com serviços públicos não tem um sistema de lucro e prejuízo como o existente dentro de um ambiente privado. Então muitas decisões a respeito do destino de gastos serão tomadas na base do “achismo”: se acharem que será bom será gasto.

Então, lembre da última vez que você pegou um jornal e viu a notícia de que a prefeitura de sua cidade investiu determinada quantia em determinada obra, porém a população não sentiu nenhum efeito positivo decorrente disso. Pois bem, para o PIB, isso é um avanço, pois foi gasto dinheiro em determinado serviço. Porém, isso não representou um avanço, como a própria população sentiu (ou melhor, no caso, não sentiu) na pele.

Obras públicas paradas: aumentam o PIB, mas não melhoram a vida do povo.

E não é somente o Estado que investe de forma equivocada, embora quase sempre esteja presente em erros. Quando o banco central de algum país altera a taxa de juros (jogando-a para baixo, sem nenhuma boa referência real) e aumenta a quantidade de dinheiro na economia (você já deve ter visto no noticiário, principalmente se tratando de economia dos EUA ou da União Europeia, imagens ao fundo de um banco imprimindo dinheiro) surgem investimentos privados economicamente insustentáveis, pois após essas ações governamentais, a economia privada ficou distorcida e muitas pessoas irão investir nesse ambiente surreal. A expansão da quantia de dinheiro na economia gera inflação, e então, para conter a inflação, o banco central terá que aumentar a taxa de juros, diminuindo a necessidade de criação de dinheiro que surgiu graças às intervenções no mercado, freando a expansão artificial e gerando uma recessão, dificultando a vida de todos na sociedade.

Quando esse boom de crescimento ocorre, para o PIB é bom, pois são feitos mais investimentos. Mas depois, como eles foram feitos de forma equivocada, haverá uma diminuição na atividade econômica. Tudo isso para voltar para o mercado economicamente sustentável, não havendo uma evolução real na vida das pessoas. Qualquer semelhança com as atuais crises internacionais, não é mera coincidência.

Então, chegamos a mais uma limitação do PIB e do governo keynesiano, que distorce o capitalismo (e sempre joga a culpa de seus próprios erros no capitalismo, passando a informação errada para a população). Quando chega o período de recessão, o governo tenta “salvar” a economia que estava voltando aos trilhos da realidade sozinha, aumentando seus gastos, contratando mais funcionários públicos, aumentando mais a atividade estatal de uma forma geral. Como o governo aumentou seus gastos, distorce a apresentação do caminho da economia, modificando mais o PIB, que iria diminuir, passando uma impressão de avanço. Como o governo gasta muito equivocadamente, não existirão avanços reais com esses gastos.

Um exemplo clássico disso, e ao mesmo tempo, uma das maiores falácias econômicas da história, é o “fato” de que a Segunda Guerra Mundial salvou a economia dos EUA.

Não entrando no mérito da validade ética e moral de ter entrado na Segunda Guerra, apenas observando seu aspecto econômico, podemos verificar que de fato durante a guerra o PIB e o desemprego dos EUA diminuíram. Por quê? Simples, o Estado gastava com a guerra (aumentando o PIB) e pessoas iam para a guerra, diminuindo a possibilidade de um aumento no desemprego.

População mobilizada: pleno emprego e nada para comer. (AP Photo/Kyodo News)

Observando apenas do ponto de vista econômico, não houve um avanço real.

Outras limitações podem ser observadas com um exemplo de desastre natural. Se um país é devastado por um terremoto, por exemplo, e for reconstruído, para o PIB será bom (mais atividade econômica para a reconstrução), mas não existirá um grande avanço, pois ele não mediu o que foi destruído, e a tendência será de voltar para a situação anterior a do desastre, mesmo com um provável aumento do PIB.

Fora a questão população/área.  Existem países com população bem inferior a população brasileira, assim como sua extensão territorial, mas seus respectivos PIBs são apenas um pouco inferiores ao nosso. Ou seja, com muito menos território e com muito menos pessoas, países como Canadá, Itália e Espanha conseguem ter um PIB que não é muito menor que o nosso. Esse é o caso do PIB per capita, em que se divide o PIB pela população absoluta.

Nosso PIB não dobra o PIB deles, mas o PIB per capita deles é quase o quádruplo do nosso.

Conclusão

O PIB pode aumentar e a saúde econômica diminuir. É só passar o boom do keynesianismo, a situação começar a degradar e o governo imediatamente passar a gastar muito. O PIB poderá até aumentar um pouco, mas isso não será um avanço.

Não que o PIB de fato seja 100% irrelevante, mas as pessoas superestimam sua qualidade de forma considerável.

Portanto, lembre-se da frase: se o PIB aumentou, não quer dizer que a economia melhorou.