Não dá para culpar câmbio valorizado

O Brasil passou por problemas econômicos neste ano de 2013 – não que de 2012 para trás tenha sido melhor. Conforme dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), a balança comercial brasileira acumula, no ano, um superávit de US$ 1,023 bilhão. Entretanto, este superávit passa longe de cobrir o restante das contas externas – o déficit em transações correntes, composto pelo saldo da balança comercial, de serviços (fretes, juros, remessas de lucros e turismo internacional) e as transferências unilaterais, ao longo do ano, apresentam um déficit de US$ 72 bilhões, e o Banco Central projeta um déficit de US$ 79 bilhões.

Não obstante isso, o crescimento econômico é pífio – no terceiro trimestre, o pior do G20 -, a inflação persiste em alta, as contas públicas só não estão muito abaixo da previsão por causa de pontos fora da curva, o desemprego (pela discutível metodologia oficial) apresenta valores superestimados – não há aumento significativo de postos, e sim aumento de pessoas que vão para a inatividade (nos últimos 12 meses, houve decréscimo de 172 mil vagas). Há muitos problemas reais, e não uma guerra psicológica, como definiu Dilma Rousseff em seu pronunciamento de final de ano.

O que foi possível verificar no passado recente não só da economia brasileira, mas também da argentina, por exemplo, é que desvalorizações cambiais não são um instrumento de política econômica benéfico à população, e ainda podem ter efeitos colaterais nocivos.

A política cambial

Cotação do dólar entre 2010 e 2013. É notável a mudança na política cambial em meados de 2011.

A política cambial que o Brasil adotou em meados de 2011 possui um claro fim: facilitar o interesse do setor exportador da economia, o que, por conseguinte, melhoraria a economia como um todo. Conforme a ideologia dominante no governo, aumentar as exportações (geralmente vinculando com geração de empregos na indústria) desvalorizando o real seria um avanço, pois, agora, as mercadorias brasileiras estão mais baratas para a demanda estrangeira.

Por volta de 2011, surgiu um certo sentimento de que o brasileiro estava gastando demais no exterior e não muito na economia nacional. Na metade do ano, a cotação do dólar chegou a ficar abaixo de R$ 1,60. Ou seja, para adquirir um bem estrangeiro de, digamos, US$ 100, o brasileiro teria que gastar, somente com a conversão de valores monetários, menos de R$ 160. No começo do ano, quando a taxa estava próxima de R$ 1,70, a mesma mercadoria custaria aproximadamente R$ 170. Na prática, o preço para o consumidor final em ambos os casos certamente seria superior, pois existe toda uma logística por trás de uma mercadoria importada e que o governo colocava (e ainda coloca) entraves para a entrada da mercadoria no território nacional, como, por exemplo, por meio de impostos de importação, como um adicional para encarecer o produto estrangeiro perante o nacional.

Neste cenário de câmbio valorizado, tanto o consumidor final quanto a economia em si saem necessariamente ganhando; o setor industrial, por exemplo, não necessariamente se encaixa na mesma situação. O consumidor final sai ganhando pois agora o acesso às mercadorias estrangeiras ficou claramente mais barato, sobrando mais dinheiro no bolso do cidadão. E agora, com mais dinheiro no bolso, o mesmo poderá consumir mais unidades do mesmo bem, poderá poupar, mas, também, poderá consumir bens produzidos no Brasil ao mesmo tempo em que não precisou abrir mão do estrangeiro, o que irá beneficiar a economia brasileira. Além disso, a própria indústria utiliza diversos insumos oriundos do mercado externo, o que barateia seus custos de produção. Sem contar, também, que agora a oferta de bens na economia aumentou – as importações são mais bens sendo trazidos para cá. Consequente, a riqueza material da sociedade em questão aumenta, melhorando o padrão de vida da população.

Mas e para o setor industrial em específico? Uma mercadoria produzida no Brasil e que é vendida por R$ 150, com uma cotação de R$ 1,50 para o dólar, custaria US$ 100 para o estrangeiro. Agora, para uma cotação de R$ 1,00 para o dólar, a mesma mercadoria custaria, em dólares, US$ 150, encarecendo-a perante o mercado externo. Neste cenário de câmbio mais valorizado, para a mercadoria não ficar muito mais cara para o mercado externo, a empresa teria que comercializá-la a preços menores, o que pode incluir reduções no lucro e/ou custos de produção, aumentos na produtividade, ou então, por parte do governo, a redução de impostos e regulamentações que dificultam a atividade econômica. De qualquer forma, surge agora uma adversidade ao setor exportador, que, caso o governo não faça a sua parte, terá que incorrer em algumas destas opções acima apresentadas.

E em um cenário de câmbio desvalorizado? Ocorre o inverso. Uma mercadoria que custa R$ 100, com o dólar cotado a R$ 1,00, custa US$ 100 ao estrangeiro. Se o dólar passar a valer R$ 2,00, a mesma mercadoria custará apenas US$ 50 ao estrangeiro. Num passe de mágica, sem ganhos em produtividade, sem redução de lucros, o mesmo bem teve seu preço jogado para baixo, facilitando a vida do setor exportador. Mas e o consumidor final?

Um bem que custa $ 100, com o dólar a R$ 1,00, custa R$ 100. Neste cenário hipotético agora criado, com o dólar a R$ 2,00, a mesma mercadoria custará R$ 200. A mercadoria ficou mais cara, e caso o consumidor a compre, terá menos dinheiro no bolso, que poderia ser poupado ou utilizado para adquirir mais mercadorias, incluindo nacionais. As indústrias que necessitam de insumos estrangeiros terão seus custos de produção aumentados, pois a mesma regra para os preços em dólar válida para o consumidor vale para essas indústrias também. Além disso, a oferta de mercadorias no território nacional diminuiu – mais bens saíram para o exterior.

Como se comportaram as contas externas brasileiras neste período recente?

Evolução das exportações, de 2010 a 2013, em milhões de dólares. A linha pontilhada é uma média para facilitar visualização.

As exportações, apesar do alarmismo protecionista, estavam crescendo até a mudança na política cambial. Depois da mudança, as exportações passaram a diminuir de forma gradual, voltando a crescer de forma mais intensa apenas em 2013, estagnando da metade de ano para frente.

Importações brasileiras, de 2010 a 2013.

Já as importações, que cresciam de forma pujante, começaram a diminuir após a mudança cambial até o final do primeiro trimestre de 2012. Porém, mesmo com a pressão cambial elevando o custo de se importar, elas passaram a crescer de forma lenta e gradual até o presente momento.

Evolução da Balança Comercial brasileira, de 2010 a 2013.

Consequentemente, a balança comercial brasileira, ao invés de se tornar cada vez mais superavitária, passou a ter seu saldo em um valor cada vez menor. Em outras palavras, em resultados práticos, a sociedade brasileira viu seus bens importados encarecendo, ao mesmo tempo em que as exportações diminuíram, se comparadas a um primeiro momento subsequente a mudança cambial.

Evolução do déficit brasileiro em conta corrente.

Da mesma forma, o déficit em conta corrente piorou em 2013, após anos de relativa estabilidade negativa. Isso significa que, além da continuidade da remessa de lucros para o exterior, o brasileiro, mesmo com o encarecimento do dólar, continuou consumindo muito no exterior. A previsão de remessas de lucros para o ano de 2013 é de US$ 24 bilhões, e os brasileiros gastaram nos 11 primeiros meses do ano US$ 23,125 bilhões no exterior, um recorde, contra US$ 6,130 bilhões de estrangeiros no Brasil, deixando um déficit de US$ 16,995 bilhões, outro recorde. Não foi por acaso o aumento de imposto para algumas operações no exterior.

E a indústria?

Como se comportou a indústria, após a mudança cambial?

Evolução mensal da produção industrial brasileira dos últimos 4 anos.

A produção industrial está praticamente estagnada há anos Em 2013, mesmo com o câmbio, alta de 1,6%. O crescimento da indústria é muito pequeno, em 2 anos foram fechados mais de 200 mil empregos e – quem diria! – o câmbio, no determinado ângulo descrito no começo do artigo, está se tornando um vilão da indústria. Os custos de produção subiram 3,7% no terceiro trimestre em relação ao segundo. Segundo a própria Confederação Nacional da Indústria (CNI), o câmbio foi o principal responsável pelo aumento, pois o preço dos insumos importados aumentou 6,4% em um trimestre, contra 4,4% dos nacionais. A burocracia imposta pelo governo e a fraca competitividade subsequente são grandes entraves.

Segundo Luiz Rochel, gerente de economia da Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee), “toda atividade da empresa é exageradamente regulamentada. Se vai consumir água, existe toda uma legislação. Se vai consumir energia, idem. Pras empresas estarem com todas as regulamentações em dia, só tendo uma estrutura enorme”. Ele afirma que “em todas as pesquisas que fazemos a burocracia piora ano a ano”.

De acordo com Denis Ribeiro, do departamento de economia da Associação Brasileira das Indústrias de Alimentação (Abia), “o sistema tributário do país é muito complexo,  e o nosso setor é um dos que mais sofre. O alimento aqui é super taxado, se tornando um dos maiores impostos do mundo”. Pelo visto, representantes dos industriais finalmente perceberam que desvalorizar moeda não é fórmula especial para melhorar a indústria, que segue com os mesmos velhos problemas.

Conclusão

Nos últimos anos, a mudança ocorrida na política cambial resultou em algumas alterações na economia brasileira. De forma previsível, as mudanças desejadas pelo governo não vieram, e sim problemas para o cidadão brasileiro. A indústria, que era para ser a grande beneficiária, apenas ganhou proteção da concorrência externa. Suas atividades permaneceram praticamente inalteradas, só que agora mais protegidas da benéfica destruição criadora, como definia Schumpeter.

Já para o restante da economia, não obstantes os erros nas regulamentações e nas políticas monetária e fiscal, ficam os problemas oriundos da política cambial que, na prática, não melhorou as contas externas e, ainda, encareceu o já alto custo de vida do brasileiro.

Onde está o bem-estar?

Segue abaixo trechos de uma matéria publicada no site msn.com.br, que irei comentar logo em seguida.

Quando Melissa dos Santos sai do trabalho ao final de cada dia, ela retorna para um local inusitado: um trailer minúsculo em um camping localizado a 50 quilômetros ao norte de Paris, onde centenas de pessoas incapazes de pagar suas contas estão vivendo em um grande terreno originalmente criado para ser um retiro bucólico para viajantes.

“Eu cresci em uma casa, viver em um acampamento não é a mesma coisa”, afirmou Melissa, de 21 anos, com melancolia.

Seus sonhos de uma vida mais normal em um apartamento com seu namorado evaporaram quando ambos conseguiram empregos com salário mínimo – ela em um supermercado e ele como varredor nas ruas de Paris – depois de meses em busca de trabalhos mais bem pagos. “As pessoas nos chamam de marginais”, afirmou. “Pouco a pouco, isso está nos devorando.”

A longa crise europeia parece estar acabando, mas a delicada situação econômica que ela deixou em seu rastro está fazendo com que um número cada vez maior de trabalhadores fique em situação precária na França e em toda a União Europeia. Atualmente, centenas de milhares de pessoas estão vivendo em campings, automóveis e quartos baratos de hotel. Outros milhões estão dividindo seu espaço com parentes, já que são incapazes de cobrir os custos básicos de moradia.

Essas pessoas fazem parte do extremo da classe trabalhadora empobrecida na Europa: uma parcela crescente da população que está escapando por entre as brechas da famigerada rede de segurança social do velho continente. Muitas pessoas, em especial as mais jovens, estão presas a empregos temporários ou mal pagos, que estão substituindo os que foram dizimados pela recessão europeia.

Agora, economistas, autoridades europeias e grupos de vigilância social alertam para o fato de que a situação tende a piorar. À medida que os governos europeus reagem à crise forçando um maior corte de gastos para reverter o déficit orçamentário e para aumentar a flexibilidade da classe trabalhadora, “o número de trabalhadores pobres vai disparar”, afirmou Jean-Paul Fitoussi, professor de economia do Institut d’Etudes Politiques em Paris.

Para a maior parte dos europeus, em especial para os franceses, parece que isso não deveria estar acontecendo. Com leis generosas que regulamentam os salários mínimos e com o sistema de bem-estar social mais forte do mundo, os europeus estão acostumados a pensar que estão mais protegidos de um fenômeno que costumam associar aos Estados Unidos e a outras economias do “laissez-faire”.

Mas o Estado de bem-estar social europeu – projetado para garantir que os desempregados recebam uma renda básica e tenham acesso à saúde e à moradia subsidiada – se mostrou mal preparado para lidar com o aumento constante do número de trabalhadores cujo salário não é suficiente para pagarem todas as suas contas.

“A França é um país rico”, afirmou Fitoussi. “Mas os trabalhadores pobres estão vivendo nas mesmas condições do século XIX. Eles não podem pagar pelo aquecimento nem pelas roupas de seus filhos; às vezes, cinco pessoas vivem em um apartamento de 9 metros quadrados – aqui na França!”, exclamou.

Melissa e seu namorado, Jimmy Collin, de 22 anos, se mudaram para o trailer porque não queriam viver com suas famílias e não tinham dinheiro o bastante para dar entrada em um apartamento. Collin, que concluiu o ensino médio e tem algum conhecimento técnico, procurou trabalho durante mais de seis meses antes de conseguir um contrato com salário mínimo no ano passado. Ele recebe cerca de 1.800 dólares por mês para limpar as ruas parisienses próximas a joias como a Torre Eiffel. Ele recebe uma pequena ajuda dada pelo governo a trabalhadores de baixa renda, mas, ainda assim, eles consideram difícil economizar depois de pagar os impostos e as despesas do dia a dia. Eles estão esperando uma moradia subsidiada há mais de cinco anos.

Atualmente, cerca de 120.000 pessoas estão vivendo em campings franceses, de acordo com o Observatoire des Inegalities, um grupo de vigilância civil. Ainda que esse não seja um fenômeno recente, as autoridades afirmam que ele está aumentando.

[…]Ainda assim, Duboscq está em melhor situação do que a maior parte de seus vizinhos. “Há cada vez mais miséria por aqui”, afirmou, apontando para uma fileira de automóveis cobertos de neve. “Há muitas pessoas, em especial jovens, que vivem aqui dentro de seus carros”, afirmou. “Eles não são bem pagos, é muito difícil custear um apartamento e o preço das coisas subiu consideravelmente.”

Matthieu, um trabalhador da construção civil de 31 anos que vive de contratos temporários, tenta entender porque os líderes europeus parecem estar mais concentrados em proteger as instituições financeiras do que em ajudar pessoas como ele.

A França tem uma imagem linda, afirmou em uma noite recente no estacionamento do Chateau de Vincennes. “Mas não é como nos países anglo-saxões. Lá, se você sabe fazer algo quando chega, você pode progredir. Esse é o sonho americano”, afirmou.

“Você nunca vai ouvir ninguém em nenhum lugar do mundo falando sobre o sonho francês”, acrescentou, observando uma fileira de motorhomes. “Não existem sonhos na França.”

Ao ler essa matéria, tive reações diferentes. No que diz respeito ao cidadão comum, aquele que não tem (e teoricamente, nem precisa ter) conhecimento econômico, senti pena, pois muitas pessoas aderiram ao pensamento politicamente correto e social-democrata que atinge a Europa. Muitas ingenuamente, inclusive. Quanto aos líderes políticos (eleitos pelo mesmo povo descrito acima), bem, suas ações no passado são o reflexo do presente.

Muitas pessoas sonham conseguir imigrar para um lugar melhor e a Europa, continente com países muito bem colocados em índices como o IDH, por exemplo, é um grande atrativo. Aliás, para quem lá já reside aparenta ser algo bom.

O problema é que muitas vezes a “realidade” foi distorcida. Nesses países, boa parte do desenvolvimento foi fictício, graças a um sistema econômico que preza o aumento de gastos públicos, que distorcem a economia.

O gráfico acima mostra a porcentagem dos gastos públicos no PIB e não só de países europeus. Com isso, dá para se ter uma ideia do tamanho da distorção que ocorre nesses países. No caso da França, que recebeu destaque na matéria, a mais de 10 anos mais da metade do PIB é só gasto público. São muitos e muitos recursos sendo desperdiçados e quem paga a conta, como vimos na matéria, é o cidadão comum.

Um trecho muito esclarecedor é “para a maior parte dos europeus, em especial para os franceses, parece que isso não deveria estar acontecendo. Com leis generosas que regulamentam os salários mínimos e com o sistema de bem-estar social mais forte do mundo os europeus estão acostumados a pensar que estão mais protegidos de um fenômeno que costumam associar aos Estados Unidos e a outras economias do laissez-faire”É um erro muito comum associar crises, pobreza e desigualdade ao capitalismo, principalmente a um livre-mercado; as crises de 1929 e 2008 são exemplos disso. Mas nesse caso europeu, a desculpa da desregulamentação simplesmente não tem como servir, pois todos viram o Estado crescendo. E apoiaram.

Quando o governo distorce veladamente uma economia de mercado, até que é possível jogar a culpa no próprio mercado, pois a imagem que fica é que o mercado que cometeu equívocos. O problema é que com um agigantamento do Estado, fica evidente o tamanho da distorção. Não tem como negar.

Na prática, o que o povo europeu pode aprender é que não adianta canetadas do governo para resolver problemas, até porque muitos dos problemas são causados pelo próprio governo. Com isso, como ensinou Mises, uma intervenção leva a outra.

Exemplificando, Jimmy Collin, segundo a matéria, recebe um auxílio do governo, mas mesmo assim fica difícil pagar contas e impostos. Oras, uma parte do dinheiro dos altos impostos que ele paga hoje é, simplesmente, aquilo que ele receberá amanhã. Só que isso depois de passar pela burocracia do governo francês, o que inevitavelmente desperdiçará uma parte do dinheiro. E isso confiando na idoneidade de quem trabalha para o governo…

Para finalizar, “mas não é como nos países anglo-saxões. Lá, se você sabe fazer algo quando chega, você pode progredir. Esse é o sonho americano”. Isso funciona porque o cidadão tem a liberdade (atualmente, já nem tanto) de empreender, de trabalhar, de decidir os rumos de seu negócio. Consequentemente, quem vai decidir o rumo da economia se torna o mercado (que opera por vontade própria) e não o governo (que opera na base da vontade de alguns burocratas, que evidentemente não representam a totalidade da população). As coisas funcionam baseadas em aumento da produtividade, na criatividade, no empreendimento, e não na base da vontade do governo.