8N abalando a Argentina

No último dia 8 de novembro, milhares de pessoas na Argentina se reuniram para protestar contra o governo de Cristina Kirchner. O movimento, batizado de 8N, realizou um enorme panelaço na capital do país, Buenos Aires.

700 mil pessoas lotam Buenos Aires para protestar contra o governo autoritário de Kirchner.

O protesto foi realizado também em frente à residência presidencial de Olivos, onde a presidente mora. Manifestantes argentinos fizeram protestos no exterior – em Sydney, Londres, Roma, Madri e Nova York – e no interior – em cidades como La Plata, Mendoza, Tucumán, Rosário e Salta, entre outras.

Eles exibiam cartazes com as frases: ‘Liberdade’, ‘Imprensa livre’, ‘Chega de inflação’, ‘Basta de corrupção’ e ‘Não à reforma da constituição para terceiro mandado da presidente’. ‘Não tenham medo, isso, sim, é democracia’, dizia um cartaz em Córdoba. ‘Chega de mentiras’, dizia outro cartaz em Tucumán. Muitos também cantavam o hino nacional do país.

O movimento 8N ou Argentindos Indignados

São quatro os males que o movimento quer combater: insegurança, corrupção, liberdades civis e as mentiras oficiais do governo. Também se posicionam contra a reforma constitucional e ao controle de mídia que o governo quer impor.

Outras de suas reclamações são:

  • Enviam nossos filhos a “La Cámpora”[1] para doutriná-los. ” Doutrinação é o mesmo que abuso de menores”; e a Presidente apoiou isto abertamente.
  • Não somos livres para sair do país, pois é preciso pedir permissão para que te deem alguns poucos dólares como se fossemos criminosos.
  • O governo concedeu a si próprio o poder de reescrever a História.
  • Te dizem em que economizar dinheiro, mas o converteram em papeizinhos coloridos sem reconhecimento no mundo e que se desvalorizam diariamente.
  • Liberam assassinos e outros criminosos para assistir seus atos políticos.
  • A pobreza segue igual, as vilas crescem e se gastam milhões em propaganda política como “futebol para todos”.
  • Não se pode negociar sua habitação da maneira que queira, pois eles é que ditam em que moeda você deve fazê-lo.
  • Para trabalhar no Estado ou em uma de suas empresas, nada melhor que ser membro da “Cámpora”.
  • A liberdade de expressão está se convertendo de pouco em nada.
  • Os amigos do poder vem monopolizando a informação.
  • Utilizam o “proyecto X”[2] para perseguir seus opositores.
  • O único válido para eles é o “pensamento único”.
  • A Presidente abusa da Cadeia Nacional, tal e qual num Estado totalitário
  • Desde o Governo Nacional se promove a desestabilização de todo governo provincial que não esteja alinhado.
  • Seus aliados estrangeiros são o pior que existe na comunidade internacional. A Argentina está cada dia mais excluída do mundo.
  • A rua é dos delinquente, e os terroristas são amigos privilegiados do governo.
  • Quem pensa diferente é um inimigo.
  • Seus seguidores tem um grau de fanatismo capaz de justificar tudo, até a doutrinação infantil e a corrupção.
  • Os comerciantes que não estão de acordo com eles enviam à AFIP[3] para perseguí-los.
  • O nível de corrupção de seus funcionários é o mais alto de que se tem notícia.

O governo autoritário de Kirchner tem restringido as liberdades sociais e econômicas dos argentinos o quanto pode. Está impedindo as pessoas de obter moeda estrangeira (o peso está desvalorizado pela alta inflação), de sair do país, etc. Além de tentar controlar a mídia, esmagar opositores políticos com o auxílio de espiões e sindicatos cooptados, Kirchner pretende garantir um terceiro mandato através de uma reforma constitucional.

Mais em: www.argentinosindignados.com (em espanhol).


NOTAS:
[1] La Cámpora é um agrupamento político militante fundado em 2006 para defender as idéias governo kirchnerista em ações no meio político e estudantil.
[2] Projeto X, escândalo político argentino, consiste no uso da Gendarmería Nacional Argentina (GNA) para fins de espionagem política.
[3] A Receita Federal da Argentina, é usada como ferramenta de repressão política pelo governo Kirchner. Um caso típico foi o do Clarín, que após denunciar irregularidades no governo recebeu a amigável visita de 200 agentes tributários que revistaram todo o jornal.

Argentina: Governo socialista versus Estado democratico de direito

Escrevi esse artigo em agosto de 2009 para um jornal local, e ele continua atualizado, PARA INFELICIDADE DOS ARGENTINOS.

Esta ultima semana evidenciou-se a crise que vem assolando os produtores de grãos argentinos, os quais sofrem com medidas impostas pelo governo da senhora Cristina Kirchner para conter os preços internos de algumas commodities.

A presidente Argentina decidiu elevar a taxa de exportação vigente de 35 para 40% a fim de conter a alta nos preços de soja, milho, trigo e seus derivados internamente, retendo esses produtos no mercado interno, aumentando assim sua oferta e reduzindo preços.

Os governos atuais na América Latina, em sua grande maioria são de esquerda, com “tendências” sócio populistas e assistencialistas, salvo raras exceções, também são um tanto avessos ao estado de direito e a democracia, apesar de terem chegado ao poder através dela. Costumam apoiar grupos Narco terroristas e ou criminosos como as Farc, o MST e congêneres ligados ao Foro de São Paulo, o qual ligou entidades e partidos afins após a derrocada do comunismo soviético na década de 90.

A questão Argentina revela as praticas evidentes que só pioram a situação em nestes casos, praticas típicas de países com governos sociais comunistas que enterraram seu setor produtivo em nome do socialismo, onde temos como exemplo Cuba, Coreia do Norte e Venezuela, essa ultima, buscam disseminar o caos pela América Latina.

Os produtores Argentinos vêm contornando dificuldades do gênero a tempos, como nos por aqui com as nossas, sendo que em certo ponto, as dificuldades se tornam crises e terminam em “confrontos”.

Esses governos populistas têm seus “currais eleitorais” e precisam manter os programas assistencialistas sob controle para agradar e conter as massas de manobra que os elegeram. Erroneamente e por ignorância de muitos indivíduos que os elegeram, esses governos tomam atitudes que só tendem a piorar as situações.

Vejamos, há um problema mundial de oferta e demanda de grãos que afetam derivados e outros produtos dependente de grãos como gado, aves e suínos acarretando altas em outros produtos indiretamente ligados, uma reação em cadeia, que é normal, pois vivemos um mercado aberto, livre e global.

Esse desequilíbrio entre oferta e demanda nos se da por motivos climáticos, técnicos, mercadológicos, políticos e econômicos. No caso, os últimos dois fatores são grandes vilões atualmente na região, pois desestimulam o investimento em produção, tecnologia e infraestrutura diminuindo a oferta enquanto a população mundial aumenta e países desenvolvidos e consolidados demandem maiores volumes dos mesmos.

O problema que Argentina passa é um resultado de suas próprias políticas que inibem o setor produtivo em pró de populismos, assim é algo auto destrutivo em médio prazo, principalmente para quem elegeu o governo populista.

Ao invés de estimular a produção com redução de carga tributaria, ou reforma que faça com que esses tributos sejam aplicados na finalidade pelas quais foram criadas, adequação de taxas de juros e ou investimentos e infraestrutura que só tende a trazer beneficies para o local, agem inversamente aumentado taxas e tributos deixando o setor produtivo ainda mais “nervosos”.

A crise por lá, acirrou os ânimos de todos, afinal todos estão sendo afetados, os produtores rurais ganharam apoio com os “panelaços” por parte da classe media e outros produtivos, logo então surgiram os militantes do governo, a tropa de choque, tornando os protestos pacíficos em confrontos violentos.

A senhora Kirchner, a principio como mandam os clichês da “nova esquerda latina” foi truculenta, negou dialogar com uma “classe que andou lucrando muito nos últimos tempos”, como se lucrar fosse um crime abominável e a classe agora seria obrigado a amargar prejuízos em nome do socialismo dos Kirchner.

O monstro foi criado pelo próprio governo, que com medidas absurdas desestimulou os produtores nas devidas proporções, tentando inibir as exportações, fechar o mercado em pleno século 21, mantendo os preços controlados internamente.

A falta de alimentos força os argentinos a fazerem dieta, faltam quase todos os produtos alimentícios nas gôndolas dos mercados, os preços inflacionaram consideravelmente caos se espalha.

Esse é o resultado do populismo… O fracasso das nações que o admitem.

Gostaria de encerrar com uma celebre mensagem de Abraham Lincoln:

Mensagem ao homem do povo
… e aos homens que dirigem o povo, para se viver numa grande nação.

Não criarás a prosperidade, se desestimulares a poupança.
Não fortalecerás os fracos, por enfraqueceres os fortes.
Não ajudarás o assalariado, se arruinares aquele que o paga.
Não estimularás a fraternidade humana, se alimentares o ódio de classes.
Não ajudarás os pobres, se eliminares os ricos.
Não poderás criar estabilidade permanente, baseado em dinheiro emprestado.
Não evitarás dificuldades, se gastares mais do que ganhas.
Não fortalecerás a dignidade e o ânimo, se subtraíres ao homem a iniciativa e a liberdade.
Não poderás ajudar aos homens de maneira permanente, se fizeres por eles aquilo que eles podem e devem fazer por si próprios.

O protecionismo argentino na prática

A Argentina, tentando diminuir importações e aumentar exportações, adotou algumas medidas protecionistas recentemente. Porém, incrivelmente para a surpresa de alguns, isso não funcionou muito bem e o déficit do primeiro trimestre deste ano de 2012 aumentou em relação ao último de 2011, mesmo após medidas contra importações.

Uma parte significativa desse déficit existe por causa da importação de recursos naturais como petróleo. E como o pensamento econômico do governo argentino é nacional-fascista, as medidas encontradas para solucionar os problemas são mais intervenções e protecionismos.

O setor petrolífero é, geralmente, extremamente regulamentado e burocratizado em diversos países. O resultado disso tende a ser, evidentemente, monopólios ou oligopólios que, com o aval do governo, irão trabalhar com lucros fáceis e sem concorrência. Com o inevitável atraso que isso irá trazer, governos não satisfeitos cobram por mais investimentos, por mais incoerente que isso possa ser, já que primeiro é permitido vida fácil para depois vir a cobrança pela vida fácil.

Sempre é importante salientar a diferença entre capitalismo de livre mercado e capitalismo de estado. Privatizar (e apenas privatizar) é fazer o serviço pela metade. Uma das grandes virtudes que um mercado capitalista de verdade tem é a livre concorrência. Com a livre concorrência, qualquer um que tenha capital suficiente para tal pode abrir um negócio para tentar ganhar um mercado, e isso será ainda mais importante quando o(s) atual(is) líder(es) do mercado não estiver(em) fornecendo um bem ou um serviço de forma satisfatória. Quando algum governo decide proteger determinadas empresas (algo que ocorre constantemente no setor petrolífero mundo a fora) essa virtude é eliminada. Não é (ou pelo menos não deveria ser) difícil prever que após essa eliminação o desenvolvimento será atravancado.

Então, o governo argentino decidiu seguir ainda mais na linha intervencionista nacionalizando uma empresa do setor petrolífero, alegando baixos investimentos. Alguns analistas e representantes da Repsol argumentaram dizendo que o governo argentino atravancava mais investimentos com intervenções e controle de preços, o que é de fato verdadeiro.

Para piorar, depois de tudo isso, Silvia Merega, a diretora de Assuntos Ambientais da Chancelaria, disse na Rio+20 que a Argentina irá se opor ainda mais aos investimentos externos no setor petrolífero. Invocou a divergência argentina em relação às Ilhas Malvinas, alegando que elas fazem parte da soberania nacional do país e, se baseando em um princípio da Eco-92 (em que cada país tem soberania sobre seus recursos), disse que quem tem que ter soberania sobre os recursos é a Argentina e isso torna legítimas as nacionalizações.

Em suas palavras, ela disse que “é também com esta ideia que rejeitamos as atividades unilaterais britânicas nas ilhas Malvinas, que incluem a exploração de recursos renováveis e não renováveis”. Oras, se não querem que britânicos contribuam com exploração de recursos, como vão aumentar os necessários investimentos? Querem delegar o petróleo nacional a uma empresa estatal, se tornando refém do monopólio? A argumentação primária utilizada para a nacionalização era a falta de investimentos causada graças à monopolização, oras o próprio governo está monopolizando novamente o setor, a diferença é que agora a questão será monopólio estatal e não privado.

O Japão, país cerca de sete vezes menor que a Argentina, tem três empresas privadas trabalhando no setor petrolífero. A JAPEX, empresa que foi privatizada em 1970 (ainda existem 34% sob o governo), explora petróleo mundo a fora, incluindo operações no Canadá e em diversos outros lugares do mundo, com escritórios em Pequim, Londres, Jacarta, Houston e Dubai. Os Estados Unidos têm diversas empresas privadas no setor petrolífero, e mesmo assim a JAPEX está envolvida em projetos lá. O Canadá tem na cidade de Calgary a sede de diversas empresas de petróleo, e mesmo assim a JAPEX tem diversos trabalhos no Canadá. Qual o problema nisso? Será que os canadenses se sentem mal com uma empresa japonesa (além das diversas nacionais) explorando petróleo? E os americanos, querem expurgar empresas estrangeiras que competem em território nacional?

Algo que poderia até ser utilizado para argumentar é que empresas como a JAPEX mandam alguns lucros para o exterior. Isso acontece e é uma maravilha, diga-se de passagem. Se a empresa, mesmo em um ambiente concorrencial, concorrendo com diversas outras, consegue lucrar, quer dizer que está desempenhando bem seu serviço. E qual seria o provável cenário inverso? Seria um empresa estatal em um ambiente controlado pelo estado, ou talvez uma privada, o que daria quase que na mesma dada a situação. O Brasil tem uma gigante no petróleo, ótimo. Os EUA têm não só uma gigante privada, mas sim diversas grandes empresas privadas. Por exemplo, a Petrobrás tinha cerca de 80 mil funcionários em 2010, enquanto a ExxonMobil tinha cerca de 83 mil no mesmo ano. Só que os EUA não têm só a  ExxonMobil, existe também a Chevron, que também em 2010 empregava cerca de 60 mil funcionários, fora as outras dezenas de empresas, que empregam outros milhares de funcionários.

Quanto ao protecionismo argentino em relação às importações de bens que não estão diretamente ligados ao setor energético, existe uma probabilidade gigantesca de que o custo de vida aumente, já que a produção nacional está se mostrando improdutiva se comparada ao mundo e o cidadão não poderá recorrer de forma satisfatória aos importados, que seriam uma opção caso não fossem vistos como inimigos pelo governo. Todos saem perdendo (principalmente os consumidores), menos os burocratas do estado e aqueles que têm ligações com o mesmo.

Mais combustível para o incêndio

Recentemente, em um evento do G-20 com representantes das principais economias do mundo, as presidentes Dilma Rousseff e Cristina Kirchner (Argentina) se uniram contra ajustes econômicos e defenderam políticas de “crescimento”. Aqui, segue uma reportagem do Estadão, que será comentada logo em seguida.

BUENOS AIRES – Apesar do conflito interno sobre barreiras comerciais mútuas, Argentina e Brasil estão unidos na cúpula do G-20, que ocorre em Los Cabos, no México. Em um encontro ontem, antes do início das discussões entre os líderes mundiais, as presidentes Cristina Kirchner e Dilma Rousseff fixaram posição contrária às receitas de fortes ajustes que os países desenvolvidos pretendem impor como ferramenta para enfrentar a crise internacional e decidiram defender políticas de crescimento e manutenção dos postos de trabalho, segundo informou o chanceler da Argentina, Héctor Timerman, em entrevista à imprensa local.

Cristina e Dilma querem que as políticas produtivas e trabalhistas entrem na agenda de debate da nova ordem econômica mundial. “Houve coincidência entre as presidentes de manter uma posição conjunta no G-20 em favor das políticas de crescimento e desenvolvimento”, disse Timerman. Segundo ele, “os países emergentes e em desenvolvimento têm consolidado uma posição cada vez mais sólida nas diferentes cúpulas do G-20”. “Não seremos nós que pagaremos as crises dos países desenvolvidos”, arrematou o chanceler em referência às dificuldades econômicas, financeiras e políticas na Europa. 

Ele ressaltou que os países em desenvolvimento têm enfrentado as crises dos últimos anos com políticas proativas. Estímulos ao crescimento econômico com geração de emprego, como tem defendido Cristina Kirchner em seus discursos, deveriam ser a solução para que os líderes europeus enfrentem a crise na Europa e estabilizem a zona do euro.

Mercosul

Timerman afirmou que as presidentes não conversaram sobre os conflitos bilaterais provocados pelas barreiras argentinas contra importações. As presidentes deixaram os assuntos domésticos para serem tratados pelos técnicos que começam a se reunir na próxima quarta-feira, 27, em Mendoza, para preparar a reunião de cúpula dos presidentes dos países do Mercosul no dia 29. Na ocasião, os presidentes devem aprovar medidas para proteger o mercado regional da concorrência dos importados, por meio da elevação do imposto de importação.

A ideia de aumentar o número de produtos que podem ter as tarifas elevadas para 35%, a tarifa máxima consolidada pela Organização Mundial do Comércio (OMC), foi apresentada em junho de 2011, por ocasião da reunião de cúpula realizada no Paraguai. Em dezembro, na cúpula de Montevidéu, os quatro sócios do bloco – Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai – tentaram avançar na definição do tamanho da lista que terá a Tarifa Externa Comum (TEC) elevada. Inicialmente, a proposta era de 100 produtos, mas o Brasil está disposto a chegar a 200. A Argentina, por sua vez, quer uma lista com 400 produtos.

Deixando claro desde o início, o “crescimento” que Dilma e Cristina defendem não é um crescimento real propriamente dito, pois ambas estão receitando como solução aquilo que é a fonte dos problemas. As “políticas de crescimento e manutenção dos postos de trabalho”, mesmo não explicitadas, são aumentos nos gastos públicos, reduções (na marra) de juros junto com expansões monetárias mantendo a existência de cargos de trabalho que deveriam ser liquidados em momentos de recessão e, de preferência, com um funcionalismo público que seja sonho de profissão de um cidadão comum.

Não houve uma mera coincidência nos discursos. Foi é previsível, já que elas defendem crescimento econômico keynesiano. Estranho e diferente seria se o discurso fosse a favor de austeridade e corte de gastos que não agregam em nada (menos em agregados keynesianos, claro). O problema com esses discursos? Eles vão de encontro com crescimentos economicamente sustentáveis.

Por exemplo, a manutenção de postos de trabalho. Sob uma visão coletivista (a qual ambas são adeptas), os trabalhadores são uma grande massa coletiva, algo homogêneo, uma variável que é composta pelo número de trabalhadores (com essas informações, já é possível perceber a relevância de uma taxa de desemprego, por exemplo) que recebem salários, que são outra grande massa coletiva homogênea. Logo, aumentos absolutos nos postos de trabalho são sob esse ponto de vista bons (um fim a ser alcançado), ao passo que uma diminuição no número de trabalhadores empregados seria um problema. Dessa forma, as presidentes então concluem que manter altos níveis de emprego é bom para solucionar crises.

Só que, infelizmente, nem tudo são nem flores. O que elas não compreendem (ou apenas não acham relevante) é como tudo isso está estruturado. Dois exemplos seriam cargos na burocracia estatal de um país (setor público) e cargos em uma empresa que passa por dificuldades em uma recessão (setor privado).

No setor público, a produtividade não é alta e isso não acontece apenas pelos famosos benefícios. A própria natureza de um Estado grande, forte e inchado acaba possibilitando a existência de cargos improdutivos. Será menos uma relação de lucro, prejuízo e produtividade e mais uma questão de politicagem, de aparelhagem do Estado. Porém, com a visão coletivista de nossas presidentes latino-americanas, isso não é tão importante assim, já que o que importa é a quantidade de trabalhadores recebendo salário e consumindo, movimentando a economia num segundo momento. O problema é que num primeiro momento (o que não se viu) é que esse salário veio como pagamento por uma participação improdutiva na sociedade, deixando de criar riquezas (neste artigo existem complementos para o entendimento).

No setor privado, muitos empregos foram criados se baseando no crescimento artificial que estava ocorrendo graças aos estímulos governamentais. Quando os efeitos dos estímulos cessarem (ou quando a inflação apertar) esses cargos precisam ser eliminados, pois não são mais produtivos e não criam bens e serviços que o mercado demanda. Assim, recursos como mão-de-obra e imobilizados serão redirecionados para atividades mais produtivas e lucrativas, trazendo o crescimento de volta. Só que Dilma e Cristina defendem o contrário (defendem a manutenção também de cargos improdutivos) e, com isso, inconsistências que só atrasam o desenvolvimento. O resultado óbvio disso são as atuais crises, as quais serão agravadas por políticas que, além de participarem da essência dos problemas, focam um discutível pleno emprego.

Quanto ao Mercosul, a Argentina só está fazendo aquilo que Kirchner defende: protecionismo. O Brasil não reclama quando países do Mercosul, unidos, aumentam impostos de importação (mesmo isso trazendo alguns problemas para nós também). Agora, quando a Argentina prejudica o Brasil (e a si mesma), o Brasil reclama. Como diria o ditado, protecionismo no dos outros…

As políticas defendidas pelas presidentes latino-americanas não são nenhuma solução, mas sim apenas mais daquilo que gera o próprio problema. No pensamento delas, dar mais combustível ao fogo é uma boa opção para acabar com o incêndio.

As Malvinas, outra vez

Por Alvaro Vargas Llosa. Traduzido e adaptado para o português do Brasil por Renan Felipe dos SantosPublicado originalmente em El Independiente em 09 de fevereiro de 2012. Artigo original em espanhol aqui

Cristina Fernández de Kirchner, mais inteligente que o falecido ditador Leopoldo Galtieri, não pretende invadir as Malvinas. Sabe que as tropas argentinas seriam derrotadas uma vez mais e que a derrota acabaria com ela, como acabou com Galtieri. Sua estratégia é outra: a pressão ambiental. Tem a dupla vantagem de que não obter resultados positivos não implicaria custo algum -de certa forma, os créditos estão garantidos porque o fraco nunca tem nada a perder enquanto atue como tal- e de permitir ao governo argentino lograr todo o efeito interno que pretende e necessita. É o que vem fazendo Cristina Kirchner desde setembro, quando lançou uma ofensiva internacional contra Londres a propósito das Malvinas -ofensiva que nas últimas semanas teve especial notoriedade-, combine astúcia política, prudência calculada e senso de oportunidade.

Cristina Kirchner: o Galtieri com neurônios e saia.

A astúcia política reside em parecer que está fazendo muito, sem que esteja. Prudência calculada porque, precisamente devido ao anterior, sabe bem que o custo para ela é mínimo e que, na medida em que não lance um desafio militar, só pode ganhar pontos. E senso de oportunidade porque, apesar de sua recente vitória reelecionista, a situação de seu governo começa a ser precária, ante o acelerado processo de erosão do modelo econômico e a crescente resistência ante os sinais contínuos de submissão da livre expressão e das instituições democráticas. Em três palavras: galtierismo com neurônios.

Cristina sabe uma coisa muito importante: que, aos olhos do mundo, a reivindicação de seu país é justa. Não é possível negar que o Reino Unido ocupou há cerca de 180 anos um território que não lhe pertencia e que desde 1965 tem ignorado o pedido das Nações Unidas para que negocie com Buenos Aires uma solução (leia-se um acordo de transferência de soberania). A resolução de 1965 e as 12 resoluções subsequentes, que de uma ou outra forma se relacionam com este assunto, outorgam a Buenos Aires uma base jurídica e sobretudo política para reclamar. Portanto, a mandatária argentina sabe também que os países sul-americanos não tem outra opção, gostem ou não da idéia de comprar briga com o Reino Unido, do que apoiá-la pelo menos até certo ponto.

Ainda que seja consciente de que muitos deles, a começar pelo Chile, a última coisa que querem é a inimizade com Londres, Cristina Kirchner entende que sua posição é tão sólida que os governos vizinhos terão, pelo menos simbolicamente, que fazer gestos de adesão ao seu pedido. Alguns, porque no poderão ficar fora do clube da solidariedade com um país sul-americano que reclama contra o despojo histórico de um território seu; outros, porque e talvez este seja também o caso do Chile, suas já difíceis relações com os vizinhos aconselham a não seguir abrindo frentes políticos nas fronteiras.

Até agora, as medidas que havia tomado o kirchnerismo com respeito à reivindicação das Malvinas eram mínimas. Até porque durante anos Néstor e Cristina prestaram quase nenhuma atenção a este tema, quando finalmente o fizeram -o que coincidiu com a revelação de que poderia haver recursos petrolíferos na zona- optaram por medidas de intensidade mediana. Uma: não permitir aos barcos das Malvinas abastecer-se em portos argentinos, o que obrigou as ilhas a importar alimentos e outros produtos desde o Reino Unido, a 14 mil quilômetros de distância. A outra: não permitir a empresas que realizaram atividades nas Malvinas investir ou comerciar com a Argentina.

O que agora pretende Buenos Aires com o boicote sul-americano anunciado em dezembro passado soa pior do que realmente é. Tanto o Mercosul como a Unasul tem aceitado o pedido argentino de não permitir que os barcos com bandeira das Malvinas atraquem em seus portos. O que não é o mesmo que proibir a chegada dos barcos das Malvinas, pois basta que estes viajem com bandeira britânica para que possam atracar sem obstáculos aos portos sul-americanos. Por isto, William Hague, o ministro de Relações Exteriores britânico, disse há alguns dias que Chile, Uruguai e Brasil haviam rechaçado o boicote. Ainda que a Argentina, por causa do chanceler Héctor Timerman e do vice-presidente Boudou, tenha insistido que o boicote se mantenha, o certo é que só se aplica a barcos que tenham bandeira das Malvinas. Basta trocar a bandeira para burlar o cerco. Assim, Santiago, Brasília e Montevidéu ficam bem com Buenos Aires e com Londres.

Malvinas: argentinas? Território britânico desde 1830, a maioria da população se auto-declara britânica.

Nenhum mandatário deu a entender sequer remotamente, nas diversas capitais sul-americanas, que está disposto a somar-se ao veto argentino contra empresas que operem nas Malvinas. Não o fizeram quando o veto argentino tinha como alvo principal a indústria pesqueira (essa é, junto com o gado ovino, a principal atividade econômica nas ilhas) e não o fazem agora que o objetivo é a indústria petrolífera (a intensificação da reivindicação argentina tem relação com as atividades de exploração petrolífera da empresa Rock-hopper). O pior que pode acontecer é que se suspenda o vôo semanal ao Chile que passa pelo espaço aéreo argentino, mas essa decisão não ocorreria em Santiago, e sim em Buenos Aires, por tanto, não implicaria em um eventual boicote chileno.

As relações econômicas do Reino Unido com a América do Sul, aliás, já não são o que foram a princípios do século e durante o século XIX, o que oferece ao governo britânico, apesar de que William Hague tenha anunciado em 2010 um voo até esta zona do mundo, certa margem de proteção ante qualquer eventualidade. Até a Primeira Guerra Mundial, a metade dos investimentos estrangeiros na América Latina vinham do Reino Unido e um quarto do comércio latino-americano tinha esse país como interlocutor. Hoje, as exportações britânicas para a América Latina não passam de um por cento. Os investimentos líquidos de empresas britânicas em países sul-americanos nos últimos anos tem sido mínimos, salvo no Brasil, onde tem superado os bilhões de libras, montante que de qualquer modo, em comparação com outros destinos do capital do Reino Unido, é modesto.

Um fator que, neste jogo diplomático, aparentemente ajuda a Cristina Kirchner é a difícil situação em que se encontra Londres em relação com a União Européia. Desde que o governo de David Cameron se opôs a formar parte da iniciativa para reformar os tratados da União a fim de caminhar em direção a uma união fiscal no contexto da crise dos títulos soberanos, as relações entre Londres e Bonn, mas especialmente entre Londres e Paris, tem sido muito apertadas. Tem se falado, uma vez ou outra, de “isolamento” britânico. Neste contexto, o último que quer o Reino Unido é que se passe a idéia de que se amplia o isolamento com um boicote geral dos países sul-americanos: a notícia, algo exagerada, que Argentina tem conseguido enfiar nos meios de comunicação.

De qualquer modo, a Argentina deve medir, neste cálculo, algo que não parece estar medindo: o lendário nacionalismo britânico. Deve recordar que se Londres tem hoje problemas com seus sócios da União Européia é precisamente por essa insularidade ou excepcionalidade política que o nacionalismo britânico, e muito especificamente o nacionalismo inglês, tem impresso na classe dirigente desde sempre. Talvez por isso David Cameron se sentiu bastante seguro para convocar, esta semana, ao Conselho de Segurança Nacional, que reúne militares e políticos, enviando com ele uma óbvia mensagem: defenderemos as Malvinas com a força se necessário, exatamente como defendeu Margaret Thatcher em 1982. Cameron calcula que nenhum primeiro ministro britânico perderá votos internos por colocar as garras de fora contra um novo desafio argentino. Daí a tentativa de Cristina Kirchner de aproveitar o relativo isolamento de Londres na Europa pode ter um efeito “bumerangue” e fortalecer Cameron.

David Cameron: dará o braço a torcer ou fará as vezes de Margaret Thatcher?

Até o surgimento da possibilidade de a zona conter depósitos de hidrocarbonetos, para o Reino Unido as Malvinas eram uma carga. A  sensação geral, no mundo diplomático, era que Londres esperava alguma oportunidade, no futuro, para começar a negociar uma fórmula que iniciaria o processo de desfazer-se do pesado fardo. Não era possível fazê-lo de imediato, porque a maioria dos pouco mais de 1.300 habitantes das ilhas se consideram britânicos. Muitos deles representam a nona geração de britânicos desde que, m 1833, o Reino Unido ocupou as Malvinas, dado no qual Londres sempre baseou seu argumento de que a “autodeterminação” desse território de ultramar é o que prevalece (também com esse argumento William Hague acusou com ironia a Buenos Aires de “colonialismo” esta semana, antes de chegar ao Brasil em visita oficial). De qualquer modo, as coisas tem se complicado muito mais desde que começou a planar sobre as ilhas o fantasma do petróleo. Como é sabido, já faz alguns anos, as reservas do Mar do Norte estão em franca diminuição. Desde o ponto de vista do Reino Unido, pois, o eventual descobrimento de abundantes quantidades de óleo bruto nas imediações das Malvinas daria a estas ilhas um especial valor estratégico. Valor que haviam deixado de ter desde o século passado quando eram passada obrigatória para os navios britânicos que transitavam do Atlântico ao Pacífico (em décadas recentes, apenas tem sido parada obrigatória para certas estações científicas na Antártida).

A complicação internacional da eventual existência de jazidas de petróleo é óbvia: além de valorizar o território das ilhas para um governo britânico que antes via as Malvinas como uma carga, ele colocaria a Argentina ante a obrigação de redobrar sua campanha internacional. Para qualquer governo argentino seria difícil manter-se de braços cruzados ante a pressão de uma oposição que utilizaria o argumento do petróleo para acusar a suas autoridades de falta de patriotismo.

No caso de Cristina Kirchner, como já foi dito, há mais elementos de cálculo político interno que convicções em tudo isso, a julgar pelo que ela e seu marido não fizeram durante muitos anos com respeito as Malvinas. Mas o certo é que, dadas as atuais circunstâncias, seria ainda mais difícil para um governo não peronista submetido à pressão do justicialismo olhar para outro lado. Por isso, a possibilidade de que as Malvinas tenham petróleo criou quase uma obrigação em toda a classe política.

Tudo indica, em resumo, que 30 anos depois da guerra, as Malvinas deixaram de ser o que Borges chamou “a briga de dois carecas por um pente”, e passou a ser algo mais grave.