A culpa da crise em terceiros

Quando se tem um problema e não se tem lá muita honestidade, nada como jogar a culpa em terceiros. O governo americano aprovou esta ideia recentemente ao acusar a agência financeira Standard & Poor’s de fraude. Segundo o governo, a empresa apresentou ratings (algo como classificações) que configuravam títulos de investimento lastreados em hipotecas de forma inflada, ou seja, seriam títulos extremamente confiáveis de se investir, o que não se concretizou, como se pode verificar com a crise de 2008.

Entretanto, até que ponto empresas como a S&P seriam responsáveis pela crise?

As acusações tomam como base o final do ciclo econômico, quando os títulos eram lastreados em um mercado fadado ao abismo: o imobiliário. A questão principal é, portanto, o próprio mercado em que os títulos tinham lastro, que se tratava de uma bomba-relógio. Independente da classificação que agências dessem este mercado acabaria por ruir. Muito provavelmente, caso sequer estes títulos de investimento existissem, os estragos seriam próximos do mesmo, talvez alterando-se apenas a intensidade (tanto para mais quanto para menos) e/ou as pessoas envolvidas, mas a possibilidade de não haver problemas econômicos não existia naquele momento, e ainda sendo algo completamente distante dos alcances das agências.

A bolha

A economia americana não passava por bons momentos no começo da década de 2000. Com o peso do estouro da bolha da internet e dos atentados terroristas, entre outras coisas, a economia tinha dificuldades para crescer. Então, que tal usar a suposta fórmula mágica de crescimento do expansionismo monetário?

O gráfico acima informa sobre a taxa básica de juros nos EUA, que chegou ao 1% nominal em meados de 2003 e 2004; se descontada a inflação, as taxas de juros reais eram negativas.

A quantidade de dinheiro na economia acompanhou esta expansão orquestrada pelo banco central americano (o FED, Federal Reserve).

Consequentemente, os empréstimos ao setor privado explodiram. Em meados de 2001, estavam na casa dos 3,5 trilhões de dólares. Em 2008, já eram praticamente o dobro. Porém, não obstante toda esta expansão insustentável, boa parte do crédito fornecido foi para pessoas com capacidade de pagamento duvidosa. Isso ocorreu graças ao Decreto de Reinvestimento Comunitário (CRA, Community Reinvestment Act), que faz com que bancos forneçam crédito mais arriscado caso queiram, por exemplo, expandir suas atividades, com o objetivo final de “reduzir o preconceito no fornecimento de crédito”.

Uma consequência direta e importante para o entendimento da crise é a inflação de preços. Esse aumento na quantidade de dinheiro – que foi a base para o crescimento em meados da década – gera inflação de preços. Como bem sabem os burocratas, frear expansões monetárias do tipo funciona como um freio para esses aumentos.

O índice de preços ao produtor, que é mais abrangente, mostra um caminho de aumentos parecido.

O governo intensificou uma política monetária expansionista em meados da última década. No início, os efeitos dessas políticas aparentam ser bons: com o aumento na quantidade de dinheiro, ocorre um “estímulo à demanda”, algo muito aclamado por alguns. Entretanto, muitos investimentos serão feitos graças a apenas esse aumento crescente na quantidade de dinheiro; caso esse aumento crescente estanque, fica evidente uma nova dificuldade econômica.

A crise

Esses investimentos podem incluir contratação de mais funcionários, compras de mais máquinas, construção de novas unidades, entre outros. Com o inicial aumento no consumo, a mensagem que se passa ao empreendedor é que existe uma demanda em alta por seus produtos, que ele pode investir mais e que bons lucros poderão dar as caras. Mas quando a política econômica muda – os aumentos nos preços estão incomodando -, o aumento na quantidade de dinheiro passa a frear. Este aumento foi o que possibilitou aqueles investimentos insustentáveis citados no início deste parágrafo.

Agora, aqueles trabalhadores que foram contratados no boom econômico não são mais necessários; pelo contrário, representam custos extras. Aquelas máquinas, não mais são tão necessárias, mas o empreendedor ainda tem que arcar com os custos de manutenção e pagar as parcelas caso não tenha se tratado de uma compra à vista – crédito farto era regra. Surge somente agora algo parecido com a tal da “superprodução”, algo que não é causa de crises, e sim uma das consequências de políticas monetárias irresponsáveis.

Mas se mantida a expansão na quantidade de dinheiro, não haveria recessão, pois, em tese, não haveria o declínio na atividade econômica? Os preços passam a incomodar cada vez mais. Se não revertida, os aumentos nos preços – que se distribuem de forma desigual na economia – desequilibrará cada vez mais a estrutura de produção, cessando os supostos benefícios da expansão.

No mercado imobiliário, as mesmas regras são válidas.

Segundo o gráfico, os preços das casas decolaram em meados da última década. Todos aqueles investimentos que tinham como base o mercado imobiliário decolaram junto. Entretanto, quando a expansão monetária diminuiu e o mercado imobiliário voltou à realidade, estes investimentos ficam com seus dias contados. Estes são os investimentos que supostamente seriam seguros.

As causas da crise estão completamente distantes de agências como a S&P. Com as políticas monetárias expansionistas orquestradas pelo banco central americano, muitas oportunidades de ganhos financeiros surgiram. Porém, quando os inevitáveis desequilíbrios surgiram, muitas perdas ganharam espaço. Como a S&P diz em sua defesa, as informações que a agência tinha eram as mesmas que as do resto do mercado – incluindo até mesmo o fato do próprio governo então também ter estado cético quanto a existência de um crise iminente. De fato, na época, a S&P era tão inocente sobre aos fatos vindouros quanto o governo e economistas que defendiam ideias incoerentes.