A Guerra de Três Lados – Parte Final

No último artigo desta série sobre a Segunda Guerra Mundial analisaremos os regimes dos países do Eixo e dos Aliados com o propósito de demonstrar que a Segunda Guerra foi um conflito não bilateral como normalmente se apresenta, mas ao menos trilateral. A peça chave neste estudo é o comunismo soviético.

I. O primeiro lado: Aliados

Situação: Em sua maioria Estados nacionais já estabelecidos com regimes pluripartidários e parlamentos e regimes coloniais.

Aliados em sua máxima extensão, no auge da Segunda Guerra.
Aliados em sua máxima extensão, no final da Segunda Guerra.

Formas de governo: predominam as monarquias constitucionais, as repúblicas federativas e os governos coloniais. Há participação menor de governos fascistas ou análogos não alinhados ao Eixo como os de Getúlio Vargas (Brasil), Antônio de Oliveira Salazar (Portugal), Fulgêncio Batista (Cuba) e Chiang Kai-shek (China).

Ideologias predominantes: conservadorismo, social-democracia, social-liberalismo e colonialismo.

Localização: Europa Ocidental, América do Norte e colônias européias na África e na Ásia, posteriormente América Latina.

Membros mais notáveis: EUA, Inglaterra, França.
Membros menores: Austrália, Brasil, Nova Zelândia, Índia, China.

Resumo da atuação: Primeiramente, tenta conter o expansionismo alemão através da política de concessões. Declara guerra ao III Reich em 1939 quando este invade a Polônia. Alia-se à União Soviética em julho de 1941 em decorrência da invasão desta pelo III Reich. Declara guerra ao Japão no mesmo ano após o ataque a Pearl Harbor. Ao final do conflito divide a Alemanha com a URSS e deixa a parte leste sob domínio soviético.

II. O segundo lado: Eixo

Situação: Em sua maioria Estados nacionais já estabelecidos com governos fascistas instaurados no período entre guerras. No caso do III Reich, Estado totalitário implantado a partir de 1933 e no caso do Japão, regime absolutista vigente desde 1926.

Eixo em sua máxima extensão, no auge da Segunda Guerra.
Eixo em sua máxima extensão, no auge da Segunda Guerra.

Formas de governo: predominam os Estados Corporativos, as monarquias constitucionais e as ditaduras totalitárias, bem como o absolutismo nacionalista japonês. Também instauraram Estados-fantoche republicanos e apoiaram movimentos independentistas em colônias dos países Aliados.

Ideologias predominantes: integralismo, fascismo, nacional-socialismo e absolutismo.

Localização: Europa Central e Ocidental, Sudeste Asiático.

Membros mais notáveis: III Reich, Itália, Japão.
Membros menores: Romênia, Hungria, Tailândia.

Resumo da atuação: Primeiramente, tenta expandir seu território e influência através de demandas diplomáticas. Depois, estabelece um pacto com a União Soviética dividindo a Europa em áreas de influências, dividindo a Polônia. Invade a Polônia em 1939 e entra em guerra declarada com os Aliados na Europa Ocidental, obtendo uma vitória decisiva que obriga a retirada dos Aliados do continente. Tenta invadir a Inglaterra a partir de 1940, sem sucesso. Sem previsão de avanços no Oeste, uma ofensiva no Leste começa em 1941 violando o Pacto estabelecido 2 anos antes com a URSS. Após uma grande e violenta expansão em território soviético, sucessivas derrotas comprometem o avanço e forçam um recuo que só terminará em Berlim com a derrota do Eixo.

III. O terceiro lado: Comunistas

Situação: Regime soviético unificado instaurado em 1922 a partir da união das repúblicas soviéticas transcaucausiana, russa, ucraniana e bielo-russa. Movimentos comunistas marginais na Europa e na China. Ganhos contínuos de território na China até o fim da Guerra Civil Chinesa em 1949 e na Europa até a instauração dos governos socialistas do “Bloco do Leste” (Polônia, Romênia, Húngria, Bulgária, Iugoslávia, Tchecoslováquia, Albânia e Alemanha Oriental).

Comunistas em sua máxima extensão, no auge da Guerra Fria. O expansionismo soviético continuou através de guerras de procuração na Coréia, no Vietnã e em Cuba.
Comunistas em sua máxima extensão, no auge da Guerra Fria. O expansionismo soviético continuou através de guerras de procuração na Coréia, no Vietnã e em Cuba.

Formas de governo: predomina a ditadura socialista aos moldes soviéticos.

Ideologias predominantes: marxismo-leninismo e maoísmo.

Localização: Europa Oriental, Ásia.

Membros mais notáveis: União Soviética.
Membros menores: Comunistas chineses, partisans.

Resumo da atuação: Primeiramente, tenta expandir seu território e influência através de suporte a movimentos comunistas estrangeiros. Depois, estabelece um pacto com o III Reich dividindo a Europa em áreas de influências, dividindo a Polônia. Invade a Polônia em 1939 e inicia a invasão da Finlândia no mesmo ano, que não avançará significativamente até 1940. Com a invasão do III Reich em 1941, busca aliança com a Inglaterra e depois com os EUA. Após sofrer grandes baixas e perdas de território para a ofensiva alemã, a reação soviética começa a impor duras derrotas e avançar para o Oeste em direção à Alemanha. Com a derrota do III Reich, a Alemanha é dividida entre os Aliados e a URSS e a Europa Oriental é submetida a governos-satélite de Moscou e aliados comunistas como Enver Hoxha na Albânia.

Com o fim da Segunda Guerra Mundial, a atuação comunista chinesa continuará até a sua vitória na Guerra Civil Chinesa em 1949. No Sudeste asiático os movimentos comunistas continuarão avançando e estabelecendo Estados comunistas com apoio sino-soviético no norte do Vietnã e da Coréia.

Conclusões

A partir da análise das políticas adotadas pelos principais envolvidos neste grande conflito histórico, podemos chegar às seguintes conclusões:

Sobre os Aliados

1. Ao contrário do Eixo ou dos Comunistas, as potências Aliadas não tinham um plano ou agenda política universal a ser posto em prática na sua área de influência. Não havia uma ideologia, forma de governo ou política econômica que se pretendia implantar nos países vizinhos. A maioria deles já estava bem estabelecido.

2. A aliança entre diversas nações na luta contra o Eixo foi muitas vezes ambígua e meramente casual, como ilustram os membros fascistas e socialistas no bloco Aliado. O que difere o fascista no lado Aliado do fascista no lado do Eixo ou do socialista no seu próprio bloco é que este não tem um projeto de poder expansionista, por mais ditatorial que seja o seu governo.

3. Os aliados tiveram que lutar contra o imperialismo japonês na Ásia e ao mesmo tempo conter os sentimentos independentistas nas suas colônias. De um certo modo, foi a própria estrutura colonial européia que fomentou o colaboracionismo com o invasor japonês.

Sobre o Eixo

1. Concebido inicialmente como uma aliança anti-comunista no Pacto Anti-Comintern (Antikominternpakt) de 1936  entre o III Reich e o Império do Japão, o Eixo acabou convertendo-se em uma mera aliança militar para apoiar os propósitos expansionistas destes dois países. A Itália assinaria o pacto um ano depois. O Pacto seria revisado em 1941, quando contaria com a adesão de diversos outros aliados e satélites da Alemanha, da Itália e do Japão.

2. O III Reich violou os termos do Antikominternpakt ao assinar secretamente o Pacto Ribbentrop-Molotov com a URSS. Qualquer negociação territorial com a URSS era vetada pelo pacto anterior. Havia um flagrante conflito de interesses entre os próprios membros do Eixo, não raramente um tentando obter territórios do outro ou violando sua soberania, como foi o caso da Hungria e da Romênia.

3. Assim como houveram fascistas do lado Aliado, algumas nações sem governo análogo ao fascismo ou ao nacional-socialismo buscaram o apoio do Eixo para defender-se ou do expansionismo soviético, ou de guerrilhas comunistas ou para buscar sua independência, ou mesmo apenas para industrializar-se. Exemplos incluem a Finlândia, que buscou na Alemanha o seu apoio contra a invasão soviética, a China que cooperou com a Alemanha até 1941 e inúmeros grupos separatistas e independentistas na Ásia que buscaram apoio alemão ou japonês para se livrar do domínio da metrópole britânica, francesa, holandesa, etc.

Sobre os Comunistas

1. Os soviéticos tinham seu próprio projeto de expansão no Leste Europeu e na Ásia. O projeto de expansão no Leste Europeu foi facilitado pelo Pacto Ribbentrop-Molotov, ao passo que o projeto de expansão na Ásia foi atrasado pela resistência dos nacionalistas chineses e pela invasão japonesa. O projeto seria retomado após a estabilização da China comunista, que apoiará guerras de procuração no Vietnã e na Coréia.

2. Desde antes da Segunda Guerra, socialistas chineses tentavam derrubar o governo nacionalista de Chiang Kai-Shek, o que seria concluído em 1949. Um ano depois a China invadirá o Tibet. A nova China comunista buscará relações estáveis com a URSS que se manterão pelo menos até 1960.

3. Com o fim da Segunda Guerra, a URSS manterá o domínio sobre os territórios “libertados”  da ocupação nacional-socialista sob a forma de Estados-satélite ou zonas de influência no Leste Europeu. Outras forças socialistas instalarão governos próprios na Albânia e na antiga Iugoslávia. A porção oriental da Alemanha se manterá sob domínio comunista até 1990. Seu expansionismo continuará após a Segunda Guerra, o que gerará o conflito com os antigos Aliados (agora OTAN) e engendrará uma série de guerras de procuração durante a Guerra Fria.


Leia também:

A Guerra de Três Lados – Parte IV

Está lá nas cartilhas do colégio: as potências que compunham o Eixo eram Alemanha, Itália e Japão. O termo designa os principais signatários do Pacto Tripartite de 1940 que foi assinado um ano depois do início da Segunda Guerra Mundial. O Pacto foi assinado mais tarde também por outras nações como Hungria, Romênia e outros governos de inspiração fascista que já antecipavam o conflito iminente com os comunistas. Posteriormente integradas ao Eixo, à marra, foram as nações ocupadas pelos nacional-socialistas – como a Holanda – e governos colaboracionistas – como o da França. Incluem-se aí também inúmeros Estados-fantoche.

O que é que França, Holanda e Inglaterra tinham em comum, além de estarem sob assédio militar da Alemanha Nacional-Socialista? Todas estas nações possuíam colônias na Ásia. E estas colônias interessavam muito ao Japão, fosse por causa dos recursos ou por causa de sua posição estratégica. Em vez de aproveitar a aproximação diplomática com as metrópoles pró-Eixo, o Japão preferiu invadir as colônias e favorecer aliados na região.

Ásia II – Índia, Indochina e Pacífico

1. Invasão japonesa à Indochina Francesa (1940-1945)
Para evitar que a República da China importasse armas ou combustível através da Indochina Francesa, os japoneses invadiram este país em setembro de 1940, embora ele fosse uma colônia da França de Vichy, pró-Eixo.

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As tropas japonesas, no início de 1940, estavam se movendo para cercar Longzhou (na China), onde um braço da estrada de Hanoi alcançava a fronteira. A resistência chinesa, abastecida desde a Indochina, foi férrea.

Então, em 22 de junho, a França assinou um armistício com o III Reich, aliado do Japão no Eixo. Isto estabeleceu o governo pró-Eixo da França, a “França de Vichy”, no território francês não ocupado militarmente. Este governo pró-Eixo controlava as posses ultramarinas francesas, incluindo a Indochina.

Com a captura de Longzhou, restava livre a ferrovia que supria Yunnan. O Japão pressionou Vichy para fechá-la, mas não obteve sucesso. Por isso, os japoneses prepararam uma invasão à Indochina. Ante a ameaça, a França cedeu: assinou um acordo garantindo ao Japão o direito de estacionar e movimentar tropas e suprimentos em território indochinês, embora com limitações, prontamente violadas. Isso colocou Vichy e Japão em oposição na Batalha de Lang Son: tropas coloniais francesas e da Legião Estrangeira enfrentaram o Exército Imperial Japonês até 25 de setembro do mesmo ano. A vitória japonesa abriu caminho para Hanoi, mas Vichy ainda possuía defensores. Os conflitos continuaram, envolvendo combate aéreo e marítimo no Golfo de Tonquim e bombardeios em Haiphong, enquanto Vichy buscava negociação com o Japão.

O Japão acabou ocupando o norte da Indochina, restringindo ainda mais seu bloqueio contra a China, e ali permaneceu até o fim da Segunda Guerra Mundial.

2. Guerra Franco-Tailandesa (1940-1941)
Conflito entre a Tailândia e a França de Vichy sobre certas áreas da Indochina Francesa que pertenceram à Tailândia no passado. Após a Queda da França em 1940, o Major-General Plaek Phibunsongkhram (“Phibun”), o primeiro ministro da Tailândia, decidiu que a derrota da França deu aos tailandeses uma outra chance de recuperar territórios perdidos.

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A ocupação da metrópole francesa pela Alemanha tornou o controle das possessões ultramarinas francesas uma tarefa mais complicada: a administração colonial, isolada, não podia obter suprimentos ou ajuda externa. Após a invasão da Indochina pelos japoneses, em setembro de 1940, os franceses foram forçados a permitir a instalação de bases militares japonesas. Isto deixou claro para o regime de Phibun que a França de Vichy não resistiria a um confronto com a Tailândia, que era relativamente bem equipada.

O conflito, que durou cerca de oito meses, foi encerrado por um cessar-fogo mediado pelos japoneses com resultado positivo para a Tailândia: os territórios disputados na Indochina Francesa foram cedidos.

Posição Política da Indochina Francesa

A Indochina Francesa era mantida como uma colônia de exploração da França. Logo após a Queda da França em 1940, assumiu como governador-geral o militar Jean Decoux, leal ao regime colaboracionista de Pétin.

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Philippe Pétain

O regime de Pétain, a “França de Vichy”, era um Estado-fantoche do III Reich, não menos autoritário. Sua soberania só se estendia sobre as zonas livres que não haviam sido ocupadas militarmente pelos alemães durante a invasão da França, o que incluia as colônias na Ásia e na África. No entanto, em novembro de 1942 também a “zona livre” seria ocupada militarmente e portanto supervisionada de perto pelos alemães.

 

Marechal Pétain colaborou com as forças de ocupação alemãs, inclusive ajudando a perseguir judeus e outros inimigos políticos. As forças militares coloniais francesas se opuseram ativamente aos Aliados, mas um conflito de interesses entre o Japão e a França de Vichy acabou por colocar ambos em guerra.

Encerrada a Segunda Guerra Mundial em 1945, a França pediu a anulação do Tratado Franco-Siamês de 1938 e tentou reassumir sua posição na região, mas entrou em conflito com o Viet Minh, uma coalização de comunistas e nacionalistas vietnamitas sob liderança de Ho Chi Minh. O Viet Minh obtivera apoio dos EUA durante a Segunda Guerra para combater os japoneses e era a guerrilha dominante nas zonas rurais.

Com a inviabilização diplomática, para a França, de reaver suas colônias perdidas, esta desistiu do conflito. Como resultado, a Indochina foi particionada em três estados independentes (Camboja, Laos e Vietnam). Estes ainda viveriam muitos conflitos militares consecutivos na Guerra Fria – as duas Guerras do Vietnã – devido a atuação de guerrilhas comunistas. De uma forma ou de outra, todos os países que compunham a península da Indochina acabaram caindo sob regimes comunistas.

3. Ocupação da Tailândia (1941-1945)
Confrontos esporádicos entre forças tailandesas e francesas irromperam ao longo da fronteira leste da Tailândia em outubro de 1940, e culminaram com a invasão ao Laos e ao Camboja em janeiro de 1941. Ainda que as forças francesas tenham sofrido nos combates em terra, sua marinha obteve uma vitória esmagadora sobre a principal frota tailandesa em Koh Chang, obrigando os japoneses a intervir e mediar o conflito.

Japanese Occupation of Thailand 1941

Apesar da mediação ter garantido conquistas territoriais para o regime tailandês, o seu desejo por mais se viu impedido por um Japão simpático ao regime francês pró-Eixo.  Os interesses militares dos japoneses na região, no entanto, não poderiam ser satisfeitos sem o acesso a portos estratéticos e o posicionamento de tropas. Assim, em dezembro de 1941 o Japão invadiu a Tailândia e, após poucas horas, venceu a batalha e ocupou o país.

Com a assinatura do armistício tailandês com o Japão, as esperanças inglesas de obter uma aliança com a Tailândia desapareceram. O país seria usado como base de operações japonesas para invadir a Malásia e a Singapura. A partir de então, uma aliança formal entre Tailândia e Japão entrou em vigor, com o primeiro oferecendo inclusive tropas para a campanha na Birmânia e declarando guerra aos EUA e ao Reino Unido.

Posição Política da Tailândia

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Plaek Phibunsongkhram

No início da Segunda Guerra, a Tailândia era regida por um governo autoritário. Seu primeiro-ministro era Plaek Phibunsongkhram, um oficial militar que nutria admiração pelo fascismo e pelo rápido desenvolvimento nacional que este parecia oferecer. Consequentemente, Phibun cultivou e intensificou o militarismo e o nacionalismo e construiu um verdadeiro culto à sua personalidade usando modernas técnicas de propaganda. O irredentismo também era uma bandeira, tipicamente francofóbica, que tinha como objetivo a restauração de territórios no Camboja e no Laos.

 

Buscando apoio contra a França e confrontada com a oposição americana e a hesitação britânica, a Tailândia buscou ajuda japonesa no confronto com a Indochina Francesa.

O Japão usou sua influência no regime de Vichy para obter concessões à Tailândia. A recuperação destes territórios e a aparente vitória do regime sobre uma potência colonial européia aumentaram a reputação de Phibun. Como o regime tailandês não se contentava com o que obteve, acabou gerando um distanciamento na sua relação com o Japão que, a esta altura, buscava fortalecer suas relações com o regime de Vichy na França colaboracionista. Este desgaste levaria à ocupação do país pelos japoneses.

4. Invasão da Malásia Britânica (1941-1942)
Conflito iniciado logo após o ataque a Pearl Harbor, é considerado a primeira grande batalha da Guerra do Pacífico. Opôs o Exército Britânico Indiano e a Austrália ao Império do Japão na região da Kota Bharu, Malásia.

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A região da Malásia era uma importante base de operações para a Royal Air Force (RAF) britânica e para a Royal Australian Air Force (RAAF) da Austrália, e portanto de grande importância estratégica. Apoiado pela Tailândia e por facilidades obtidas na Indochina através da conivência do regime de Vichy, o Japão pretendia agora usar o território tailandês para atacar a  Malásia.

Com o sucesso da operação, a Tailândia também enviou suas tropas para ocupar os estados malaios de Perlis, Terengganu, Kedah e Kelantan, sob controle britânico desde o Tratado Anglo-Siamês de 1909. Ao fim da primeira semana de janeiro de 1942, toda a região norte da Malásia já havia sido tomada pelos japoneses, enquanto Tailândia e Japão assinavam um Tratado de Amizade para consolidar sua aliança militar.

Em meados de janeiro, os japoneses já haviam alcançado o estado malaio sulista de Johore, onde enfrentaram oposição da 8ª Divisão Australiana. Em 31 de janeiro as últimas forças aliadas organizadas deixaram a Malásia e explodiram a ponte que ligava Johore a Singapura.

Em menos de dois meses, a Batalha da Malásia terminou com a derrota das forças da Commonwealth e sua retirada da península da Malásia para os fortes da Singapura. Os japoneses invadiriam a ilha de Singapura em 7 de fevereiro e completariam a conquista da ilha no dia 15 do mesmo mês.

Posição Política da Malásia

A Malásia Britânica compreendia, na época, um conjunto de Estados na península malaia e na ilha de Singapura que foram colocadas sob controle britânico entre os séculos XVIII e XX. O termo frequentemente é usado para se referir aos estados malaios sob governo indireto britânico bem como aos Estabelecimentos dos Estreitos. O território todo estava dividido em três tipos de administração colonial.

Os Estados Malaios Federados, que compreendiam Selangor, Perak, Negeri Sembilan e Pahang foram estabelecidos pelo governo britânico em 1895. O Reino Unido era responsável pelos assuntos externos e pela defesa da federação, enquanto os estados continuavam responsáveis pelas políticas domésticas. Cada um destes estados era administrado por um residente britânico. À época da invasão japonesa, Norman Rowlstone Jarett era o residente de Selangor, Marcus Rex era o residente de Perak, John Vincent Cowgill era o residente de Negeri Sembilan e C. C. Brown o residente de Pahang.

Os Estados Malaios não Federados compreendiam outros cinco protetorados britânicos na penínusla da Malásia: Johor, Kedah, Kelantan, Perlis e Terengganu. Não tinham instituições comuns e não formavam um estado único na lei internacional. Os quatro estados de Kelantan, Terengganu, Kedah e Perlis, obtidos do Sião pelos britânicos em 1909, foram temporariamente devolvidos aos tailandeses com a ajuda dos japoneses.

Os Estabelecimentos dos Estreitos compreendiam quatro territórios britânicos na região: Malaca, Penang, Singapura e Labuan. Eram colônia da Coroa e portanto respondiam diretamente ao Colonial Office em Londres, em vez do governo indiano sediado em Calcutá. Seu último governador geral foi Sir Shenton Thomas, feito prisioneiro quando da ocupação japonesa de Singapura.

A Malásia, ao contrário de outras regiões ocupadas pelo Japão, não teve Estados-fantoche estabelecidos. Foi mantida sob administração militar japonesa, com exceção dos estados do norte que foram reincorporados à Tailândia.

5. Invasão de Bornéu (1942)

A campanha japonesa na ilha de Bornéu se concentrou na vitória sobre o Reino de Sarawak, Bornéu do Norte e a parte ocidental de Kalimantan, que era parte das Índias Orientais Holandesas.

Em 1941, Bornéu estava dividida entre as índias Orientais Holandesas, protetorados britânicos (Bornéu do Norte, Sarawak e Brunei) e uma colônia da coroa britânica (Labuan).

Posição Política de Bornéu

Charles Vyner Brooke the last white rajah
Charles Vyner Brooke, o último rajá branco

Os chamados “rajás brancos”, da família Brooke, estavam no comando de Sarawak a quase um século sob o Sultanato de Brunei, e desde 1888 como protetorado do Império Britânico. No momento da invasão japonesa estava no governo o terceiro (e último) rajá branco: Charles Vyner Brooke. Quando da invasão, estava visitando a Austrália e lá permaneceu até que pudesse retornar ao seu reino – ocupado pelos japoneses até 1945 -somente para abdicar no ano seguinte e incorporar seu país à coroa britânica.

 

Bornéu do Norte era, desde 1882, outro protetorado britânico. Sua administração – com exceção da política externa – estava nas mãos da North Borneo Chartered Company, uma companhia majestádica submetida à coroa britânica. O país foi ocupado pelos japoneses de 1942 a 1945, e depois de libertado pelas tropas aliadas permaneceu sob administração militar britânica até que fosse reincorporado à administração colonial.

O resto da ilha, conhecido como Kalimantan, estava sob domínio holandês.

6. Invasão das Filipinas (1941-1942)

A invasão das Filipinas iniciou em 8 de dezembro de 1941 dez horas depois do ataque de Pearl Harbor. Assim como no ataque de Pearl Harbor, as aeronaves americanas foram severamente danificadas no ataque inicial japonês: com pouca cobertura, a Frota Asiática Americana nas Filipinas se retirou para Java quatro dias depois do início do conflito. A rendição das últimas tropas filipinas e americanas em Bataan ocorreu em 9 de abril de 1942.

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O Japão ocupou as Filipinas por três anos até sua rendição no fim da guerra. Uma efetiva campanha de guerrilha das forças de resistência das Filipinas controlova sessenta porcento das ilhas, sobretudo áreas de selva e montanha. O general MacArthur as supria via submarino, enviando também reforços e oficais. Os filipinos se mantiveram leais aos Estados Unidos, parcialmente por causa da garantia de independência dada pelos americanos.

Posição Política das Filipinas

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Manuel Luis de Quezón y Molina, presidente à época da invasão japonesa.

Estabelecida em 1935, a Commonwealth das Filipinas era um Estado em comunidade com os Estados, porém com governo próprio. Durante sua década de existência, a Commonwealth possuía um forte executivo e uma Suprema Corte. Sua legislatura, primeiramente unicameral e posteriormente bicameral, era dominada pelo Partido Nacionalista, conservador de centro-direita. Seu primeiro e único presidente foi Manuel Luis Quezón y Molina, que a governou por nove anos, dois dos quais (1942-1945) em exílio.

 

 

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José Paciano Laurel y García, presidente do Estado-fantoche japonês, a Segunda República Filipina.

Quando os japoneses invadiram, instauraram um Estado-fantoche denominado Segunda República Filipina. A Commonwealth foi dissolvida e uma Comissão Executiva Filipina foi instaurada como governo, tendo Jorge B. Vargas (o prefeito da capital, Manila) como presidente. Formou-se então o KALIBAPI (sigla para “Organização a Serviço das Novas Filipinas”) pela Proclamação No. 109 da Comissão Executiva Filipina que ao mesmo tempo bania todos os partidos políticos então existentes. O Partido Ganap, pró-japonês, foi absorvido pelo KALIBAPI, que preparou a Constituição do novo Estado. O primeiro e único presidente desta república autoritária de partido único foi José P. Laurel, que apesar de ser considerado por muitos como um colaboracionista e traidor, obteve apoio popular nas eleições do pós-guerra.

7. Invasão da Indonésia (1942-1945)
Os japoneses ocuparam a Indonésia, então conhecida como Índias Orientais Holandesas, de março de 1942 até sua rendição em 1945. Este foi um dos períodos mais críticos da História da Indonésia. Sob ocupação alemã, a Holanda tinha pouca capacidade para defender sua colônia contra o exército japones, e em menos de três meses após os primeiros ataques em Bornéu o exército e a marinha japonesa venceram as forças aliadas e holandesas.

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Entre 1944 e 1945, as tropas aliadas optaram por contornar a Indonésia, não entrando em partes mais populosas como Java e Sumatra. Por isso, a maior parte da Indonésia ainda estava sob ocupação japonesa quando o Império Japonês se rendeu em agosto de 1945.

A ocupação foi o primeiro desafio sério aos holandeses na Indonésia e acabou com seu governo colonial na região. Esta ocupação causou mudanças tão numerosas e profundas que tornou possível a Revolução Indonésia, impensável apenas três anos antes. Ao contrário dos holandeses, os japoneses facilitaram a politização dos indonésios até mesmo nos vilarejos. Particularmente em Java, e em menor extensão em Sumatra, os japoneses educaram, treinaram e armaram jovens indonésios e deram voz política para seus líderes nacionalistas. A ocupação, portanto, criou as condições para a independência da Indonésia, declarada dias após a rendição japonesa no Pacífico. A Holanda tentou reaver as ‘Índias’, mas um conflito social, militar e diplomático de cinco anos acabou resultando no reconhecimento da soberania indonésia em dezembro de 1949.

Posição Política da Indonésia

Colônia holandesa desde o fim do século XVIII, a Indonésia era parte do território denominado Índias Orientais Holandesas. A ordem social colonial se baseava em rígidas estruturas sociais e raciais com uma elite holandesa vivendo separada do restante dos nativos.

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Sukarno

As políticas e estratégias coloniais eram de responsabilidade do Ministério das Colônias sediado em Hague. No século XX a colônia se desenvolveu gradualmente como um estado distinto da metrópole: em 1922 a colônia foi posta em pé de igualdade com a Holanda na Constituição, ainda que permanecesse sob o Ministério das Colônias. Mesmo com a introdução de um Conselho Popular (Volksraad) em 1918, a participação de nativos era muito restrita. Apesar das decisões serem tomadas pelo governo holandês, o governador-geral deveria consultar a Volksraad sobre questões mais importantes. O Volksraad foi dissolvido em 1941 pelas forças de ocupação japonesa.

A Holanda havia sido invadida pelo III Reich em 1940 e estava sob um regime de ocupação. Ainda assim declarou guerra ao Japão tão logo este invadiu suas colônias. Porém, as Forças Livres Holandesas – compostas por remanescentes da Marinha Real Holandesa e do Exército Real das Índias Orientais Holandesas – continuaram a luta ao lado dos Aliados (americanos, britânicos e australianos).

Com o fim da Segunda Guerra e da ocupação japonesa em 1945, ocorre a Revolução Nacional Indonésia, conflito que opõe movimentos independentistas e nacionalistas indonésios às forças coloniais holandesas e seus aliados britânicos. O líder da Indonésia independente seria uma figura nacionalista expressiva, já em formação desde a ocupação japonesa (com a qual colaborou): Kusno Sosrodihardjo, o Sukarno.

8. Ocupação da Birmânia (1942-1945) e Invasão à Índia (1944)
O Japão decidiu invadir a Birmânia, então possessão do Império Britânico, para obter recursos naturais como petróleo e cobalto, mas também para proteger o seu flanco no ataque à Malásia e Cingapura.

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Um fator adicional foi  a finalização da Estrada da Birmânia em 1938, que ligava o país à província chinesa de Yunnan. Esta estrada era usada para levar apoio e munição às forças nacionalistas chinesas que combatiam os japoneses. Por isto, os japoneses precisavam cortar esta rota de suprimentos.

Os japoneses ocuparam o norte da Tailândia, que possuíam um tratado de amizade com o país desde 1941 e daí atacariam a Birmânia pelo sul. Depois do sucesso inicial na invasão e ocupação do território em 1942, os japoneses e seus aliados (birmaneses e indianos colaboracionistas) conseguiram defender este território das investidas Aliadas (EUA, Império Britânico e República da China) até 1944, ano em que o Japão tentou, sem sucesso, invadir a Índia – também possessão britânica. Após perder batalhas em Imphal e Kohima, os japoneses gradualmente perderam este território para as ofensivas Aliadas.

Política da Índia

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Archibald Wavell, o último governador-geral e vice-rei da Índia.

O subcontinente da Índia, que incluia o Paquistão e a Birmânia, caiu sob domínio britânico em 1858 e foi administrado como uma colônia britânica até sua independência em 1947. Quando do início da Segunda Guerra Mundial, as tensões sociais geradas no país quase culminaram em uma guerra separatista, uma vez que nesta mesma época não só os hindus buscavam mais autonomia como os muçulmanos do país tentavam obter o status de estados independentes, o que seria obtido em 1947 com a separação do Paquistão. Entre 1936 e 1943 foi governada pelo governador-geral e vice-rei da índia, o Segundo Marquês de Linlithgow, Victor Alexander John Hope, sucedido no cargo pelo marechal de campo e Primeiro Conde Wavell, Sir Archibald Percival Wavell, que governou até a independência do país em 1947.

Estima-se que mais de dois milhões de indianos prestaram serviço militar voluntário no Exército Britânico, desempenhado grande papel em numerosas campanhas, especialmente no Oriente Médio e no Norte da África.

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Subhas Chandra Bose

Por outro lado, uma força nacionalista, emancipacionista e pró-japonesa também existia: era o Exército Nacional Indiano formado em 1942 por ex-prisioneiros de guerra capturados pelos japoneses na Malásia e em Singapura. Este exército era também parte de um governo nacionalista provisório em exílio, o Azad Hindi ou Governo Provisório da Índia Livre, apoiado pelo Japão e sediado na Singapura ocupada. Seu líder era Subhas Chandra Bose, um nacionalista que recorreu ao III Reich, à União Soviética e ao Império do Japão para obter apoio à sua causa: a expulsão dos britânicos e a independência da Índia.

Em 1942, uma missão britânica (a Missão Cripps) se encarregou de assegurar a cooperação de nacionalistas indianos no esforço de guerra em troca de uma prometida independência após o fim da guerra. No mesmo ano, seria lançado o movimento “Quit India” (saia da índia) que exigia a imediata retirada dos britânicos da índia sob ameaça de massiva desobediência civil. A repressão política não tardou a colocar milhares de pessoas na cadeia até pelo menos 1945: o país se viu atordoado por protestos violentos de estudantes e camponeses, rapidamente contidos pelo Exército Britânico. Nada disso, no entanto, parece ter reduzido os esforços de guerra britânicos.

01/00/1998. File pictures of Mahatma Gandhi
Mahatma Gandhi

Durante o longo processo político que culminou com a independência do país, um nome se destaca. Exercendo ativismo político pacífico, mas radical, Mahatma Gandhi é talvez o indiano mais conhecido ao redor de todo o mundo: suas marchas e protestos contra o colonialismo no país já eram conhecidas desde a década de 30. Manteve sua posição pró-independência mesmo no auge da Segunda Guerra, em 1942, quando chegou a ser preso por dois anos.

No final de 1945 a Inglaterra ofereceria à India uma limitada autonomia dentro do Império Britânico, prontamente rejeitada. Em 1946, motins explodiriam entre os militares em Bombay, Calcutá, Madras e Karachi, sendo rapidamente reprimidos. As tensões levariam o governo trabalhista britânico a agir mais rápido, convocando novas eleições na Índia e agilizando o processo de independência. Conforme as tensões entre hidus e muçulmanos cresciam, Jawaharlal Nehru assumiu o governo interino como primeiro ministro.

Em 1947 os britânicos transferiram o poder sobre o país para o governo local, não sem antes mediar a partição do país entre hindus, sikhs e muçulmanos, separando o Paquistão do restante do país. Em áreas fronteiriças, no entanto, os conflitos religiosos perdurariam.

Política da Birmânia

DrBaMaw
Ba Maw

Os britânicos mantiveram a Birmânia como uma província da Índia, também sua colônia, desde 1886 até 1937 quando o país recebeu uma nova constituição e uma assembléia própria. Embora ainda fosse uma colônia britânica, possuía mais autonomia do que quando era uma província.

O país foi governado pelo primeiro-ministro Ba Maw até 1940. Ba Maw, do “Partido do Homem Pobre”, se opunha à participação da Grã-Bretanha e, por extensão, da Birmânia na Segunda Guerra Mundial. Por este motivo, foi preso por sedição em 1940. Quando o país foi invadido pelo Japão em 1942, Ba Maw foi libertado pelos japoneses e posto na administração provisória do território.

Em 1943, o Império do Japão estabeleceu um Estado-fantoche, o Estado da Birmânia. Ba Maw, ex-premiê da colônia, foi feito chefe de Estado nominal. A promessa era de independência para a Birmânia ao final da guerra, o que não se concretizaria sob o mando japonês que se retirou em 1945, o que levaria o Estado-fantoche ao colapso.

Conclusão:
O Império Japonês foi muito mais hábil que as outras potências do Eixo ao mobilizar forças nativas contra os Aliados porque contava com o sentimento anticolonialista de diversos grupos asiáticos vivendo sob mando francês, britânico, holandês, etc. A sua “Esfera de Co-prosperidade da Grande Ásia Oriental” oferecia uma alternativa de independência aos regimes coloniais e foi de fato muito atrativa para diversos movimentos nacionalistas que viam na aliança com o Japão – a primeira e única superpotência asiática capaz de enfrentar e vencer os ocidentais – a oportunidade de engrandecer suas nações e se livrar de uma história humilhante de submissão ao estrangeiro.

Por isto, o Japão estabeleceu muito mais Estados-fantoches que as potências do Eixo na Europa: para os países da Ásia, a simples oportunidade de ter um autogoverno limitado por uma potência asiática era um grande avanço com relação ao governo colonial sediado na Europa. Como o colonialismo é propício para acender os ânimos nacionalistas, a Commonwealth britânica vivia sob o perigo constante de ter suas colônias arrebatadas por algum movimento nacionalista e independentista que as colocasse nas mãos do Japão, e a situação não era muito diferente para a França ou a Holanda.

Ao contrário do que se pensa, o Japão cometeu falhas mais insensatas do que outras potências do Eixo. Por não ter articulado suas ações com os regimes pró-Eixo da França e da Holanda – potenciais aliados em manobras militares contra britânicos, americanos e chineses – guerreou contra forças coloniais que poderiam ser suas aliadas. Uma falha maior do que as trapalhadas italianas na África, mas que não impediu o Japão de manter-se em guerra até mesmo depois da rendição da Alemanha.


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Por que a Suécia não está quebrada?

A Suécia é um país que levanta grandes dúvidas econômicas. Afinal, o que existe lá? Capitalismo, socialismo, uma mistura de ambos? Muitas pessoas já sabem que lá o governo executa diversas ações na sociedade, o que acaba gerando essa primeira dúvida. Mas além disso, se o governo é tão presente (incluindo muitos gastos), por que, diferente de países como Grécia e Espanha, a Suécia não está atolada em crises?

Do século XIX à década de 1930

A Suécia acaba sendo, mesmo que indiretamente, um bom exemplo contra a argumentação vitimista sobre o antigo colonialismo a respeito de desenvolvimento econômico. Segundo os defensores dessa ideia – que tem um ensino extremamente comum destinado aos jovens brasileiros nas escolas – a forma na qual o país foi colonizado exerce extrema influência sobre o desenvolvimento atual. O fato de um país ter sido colonizado por exploração (geralmente exploração de recursos naturais), segundo os defensores desse pensamento, exercerá grande influência negativa no desenvolvimento futuro do país, ao passo que uma colônia de povoamento (com o foco de desenvolver o local em questão) exercerá uma grande influência positiva no desenvolvimento local. Exemplos clássicos utilizados no Brasil são a colonização por exploração de Portugal sobre o Brasil e colonização britânica por povoamento sobre os EUA, mesmo com os EUA sofrendo com intervenções britânicas, principalmente no século XVIII.

Obviamente, logo após a independência, se um país foi colônia de povoamento pode estar até em boa situação, enquanto uma colônia de exploração tende a ser um pouco mais pobre. Porém, pegando esses casos clássicos, no longo prazo, a colonização deixa de exercer tanta influência, diminuindo cada vez mais conforme o tempo o passa. A declaração de independência dos EUA foi em 1776 e já se passaram 236 anos. A do Brasil foi em 1822 e já se passaram 190 anos. Qualquer vestígio de colonização pode ser apagado facilmente com todo esse tempo, caso boas medidas sejam realizadas. A Suécia entra nessa história com o fato de também ter sido pobre (assim como as colônias exploradas) até meados do século XIX, mudando sua própria história, da mesma forma que os países que foram “explorados” no passado tiveram séculos para fazer o mesmo, mas muitos não fizeram. Fatores como tempo não podem ser utilizados como desculpa.

Muitos suecos imigravam para os EUA nessa época, por exemplo, pois os padrões de vida de então eram próximos dos padrões de vida dos mais pobres países do mundo atual. Em 1868, londrinos organizaram arrecadações voluntárias de recursos a serem enviados para a então faminta Suécia. Além da fome, aproximadamente 17,4% das crianças nascidas não conseguiam completar nem um ano de idade e a expectativa de vida era de apenas 43 anos. Hoje em dia, é difícil imaginar uma situação dessa ocorrendo em um país que sempre está disputando a liderança em diversos índices mundiais como o IDH.

Porém, essa situação estava com os dias contados, pois boas reformas liberais vieram e o país começou a se desenvolver significativamente. Essas reformas incluíam a remoção de barreiras ao comércio, desregulamentação de empreendimentos, liberalização do sistema bancário, privatização de florestas e flexibilizações migratórias. Como resultado, o país, que estava passando fome, começou a se industrializar. Aliadas aos fortes valores empreendedores da sociedade, a situação do país então mudou. Cerca de metade das 50 maiores empresas suecas atuais surgiram nessa época, em que a Suécia se tornou uma nação exportadora e competitiva – não demorou muito para que as exportações representassem 25% do PIB.

Impostos sobre bens industriais variavam entre 3 a 5% por volta de 1875 (entre os menores do mundo), enquanto hoje são 25%. Os gastos públicos  dificilmente representavam 10% do PIB (eram cerca de 6% por volta de 1880), enquanto hoje já são um pouco mais do que a metade. A situação começou a desandar por volta da década de 20, quando o socialista Karl Hjalmar Branting se tornou primeiro-ministro, fortalecendo o Partido Social-Democrata Sueco, que pelo menos é um pouco mais moderado que o Left Party. Até então, a Suécia chegava a ser tão (se não mais) liberal quanto os EUA e o Reino Unido.

A partir da década de 1930

Nesse período, o liberalismo virou passado. A situação começou a se degradar gradualmente até por volta da década de 1970, freando (um pouco) por volta de 1980. A carga tributária, que representava apenas 8% do PIB em 1929, passou a ser 46% em 1980 e mais de 50% na década de 2000. Por mais incrível que possa parecer, de 1950 a 2005 praticamente não foram criados empregos líquidos no setor privado. No setor privado, as demissões foram, por muitas vezes, superiores às contratações, enquanto no setor público o saldo sempre foi positivo, evidentemente. Os empregos no setor privado diminuíram durante 28 anos (1972 a 2000).  Além disso, de 1960 a 2007, a porcentagem de funcionários que trabalhavam na agricultura e na manufatura diminuiu, enquanto o setor de serviços privado e, principalmente, o setor público cresceram. Como apenas a população total cresceu, assim como o número de funcionários púbicos e benefícios assistencialistas, o setor privado precisou ser espoliado cada vez mais para conseguir sustentar esse cenário.

Os valores da sociedade sueca (família, trabalho duro, individualismo independente porém sempre com a mão aberta quando o próximo precisar) foram perdidos, pois o estado passou a ser quem cuidava da educação. Os pais simplesmente delegavam a educação de seus filhos ao estado, composto por socialistas, feministas e por aí vai. Os filhos “aprendiam” (eram iludidos sobre) as maravilhas da esquerda, do socialismo, do igualitarismo, do assistencialismo, da liberdade (de responsabilidades), etc. Era inevitável que as crianças que crescessem sob esse sistema apenas saberiam clamar pelos seus “direitos”, mas nunca pelos seus deveres.

Consequentemente, a Suécia passou por problemas, como o crescimento real per capta. Não coincidentemente, o auge do assistencialismo e do intervencionismo ocorreu no mesmo período em que crescimento real foi menor:

A Suécia se beneficiou por não ter sido destruída na Segunda Guerra Mundial, o que também quebra o argumento de que guerras incentivam a economia. Enquanto outros países destruídos reconstruíam suas respectivas economias (“crescendo”), a Suécia sempre estava um passo a frente, só precisando aprimorar aquilo que já existia.

O país pode não estar quebrando hoje, mas no passado as coisas não estavam funcionando bem. Os déficits fiscais aumentaram, a competitividade diminuiu e a economia estagnou, enquanto a inflação e a insatisfação só cresciam. No entanto, em 1976, depois de 40 anos, os social-democratas esquerdistas saíram do poder, em uma coalização mais direitista liderada pelo Centre Party, com o apoio do Liberal Party e do Conservative Moderate Party, elegendo Thorbjörn Fälldin, freando (um pouco) a expansão socialista. Porém, as reformas foram fracas e o emprego caiu 10% no início dos anos 1990, assim como o déficit fiscal passava de 10% do PIB.

Então, nos anos 1990, reformas mais firmes foram iniciadas. O Banco Central, que pelo menos se tornou mais independente, adotou uma meta de inflação de 2%, o déficit sumiu e o governo conseguiu um superávit em 1998 (com 0,7%) e desde então isso se repetiu (exceto em 2002, 2003 e 2009, mas pouco, nada ridículo como antes). Liberalizações nos mercados de bens e serviços como eletricidade, ferrovias, setor aéreo e previdenciário, educação, entre outros (incluindo a privatização da marca de bebidas Absolut Vodka em 2008), além de reduções de impostos e benefícios (que ainda continuaram altos, só que não tanto quanto antes) facilitaram o bem andar da economia.

A alta carga tributária, mesmo parando de aumentar (evitando que ficasse ainda maior), resultou em uma mudança empregacional nas multinacionais suecas. Em 1987, cerca de 500 mil funcionários trabalhavam em uma multinacional sueca fora da Suécia, enquanto no país eram cerca de 750 mil. Conforme o tempo foi passando, países mais próximos, principalmente no leste e no centro da Europa, começaram a realizar reformas pró-mercado, e as empresas suecas viram ali melhores oportunidades. Com isso, gradualmente, empregos foram fechados na Suécia e abertos em outros países, sendo que em 2006 o número de empregos que existiam nessas empresas na Suécia caiu para cerca de 500 mil (250 mil a menos), enquanto em outros países subiu para mais de 1 milhão (mais de 500 mil a mais).

Os recentes números da economia, em coroas suecas:

PIB:
2008: 3,204 trilhões
2009: 3,105 trilhões
2010: 3,330 trilhões
2011: 3,495 trilhões

Déficit/superávit governamental (% do PIB):
2008: 69,4 bilhões (2,2%)
2009: -22,2 bilhões (-0,7%)
2010: 8,3 bilhões (0,3%)
2011: 10,0 bilhões (0,3%)

Gastos públicos, em porcentagem no PIB:
2008:
 51,7%
2009: 54,9%
2010: 52,5%
2011: 51,3%

Receita governamental, em porcentagem no PIB:
2008:
 53,9%
2009: 54,0%
2010: 52,4%
2011: 51,4%

Dívida governamental (% no PIB):
2008:
1,243 trilhão (38,8%)
2009: 1,322 trilhão (42,6%)
2010: 1,313 trilhão (39,4%)
2011: 1,341 trilhão (38,4%)

A Suécia, diferente de boa parte do mundo, tentou ser responsável em relação a dívidas durante a crise. Desde 1999 a dívida governamental, além de estar diminuindo cada vez mais de forma gradual, está abaixo da média dos países da União Europeia, sendo menor do que a metade da dívida desses países. A Suécia, de certa forma, já estava seguindo o caminho inverso da Europa dos últimos tempos: ao invés de (mais) estatismo, estão diminuindo, mesmo que lentamente, o tamanho do estado.

O que serve para quase dar sustento ao assistencialismo e, ao mesmo tempo, refutar a ideia de que a Suécia é um misto de capitalismo com socialismo é a liberdade econômica desconsiderando impostos. A alta carga tributária, evidentemente, é um fator que diminui a liberdade, pois o estado acaba redirecionando ainda mais recursos coercivamente. Porém, não são apenas impostos que pesam sobre a liberdade econômica. Burocracia, regulamentações e intervenções em geral também pesam muito e nisso a Suécia consegue ir relativamente bem.

No índice de facilidade de fazer negócios (ease of doing business index, no nome original), do Banco Mundial, a Suécia se posicionou em 14º de 183 países em 2011 e 2012, melhorando lentamente nos últimos anos. Porém, o índice tem algumas coisas que diferem de liberalismo econômico. No que interessa ao leitor do artigo, no quesito comércio através da fronteiras, por exemplo, que inclui documentação e tempo necessários, além de custo por contêiner, o país está em 8º. Para o desespero de alguns nacionalistas, o tempo é um fator mais favorável para importações do que exportações. Geralmente, são necessários 8 dias para exportar, enquanto para importar são apenas 6.

A Suécia também se dá bem no índice de liberdade econômica da Heritage Foundation. Desde os anos 1990 o país aumenta, gradualmente, a sua posição no ranking. Só que ainda mais importante do que esse aumento gradual em si são as características suecas no ranking. Dos 10 fatores levados em consideração, apenas em 3 a Suécia tem liberdade abaixo da média mundial, que são, obviamente, liberdade fiscal e gastos governamentais, além de liberdade trabalhista. Dos 3, liberdade trabalhista está só um pouco abaixo da média mundial, enquanto fatores como liberdade de negócios e direitos de propriedade estão extremamente acima da média, com os direitos de propriedade disputando acirradamente a liderança mundial, sendo que por oito anos o país liderou nesse quesito na década de 2000. A “função social” da propriedade não deve estar sendo levada muito a sério por lá.

Portanto, é um erro chamar a Suécia de socialista ou qualquer outra coisa do tipo, principalmente de meados da década de 2000 para os dias atuais. O país se beneficiou de boas reformas liberais no século XIX e passou por um período mais “infeliz” em boa parte do século XX, que resultaram em vários problemas econômicos nas últimas décadas. Talvez esse período possa até ser considerado mais um misto real de capitalismo com socialismo, mas os resultados dele mostram que não é algo benéfico. Benéfico foi o período iniciado em meados dos anos 1990, em que o desemprego diminuiu e políticas públicas minimamente responsáveis surgiram, como uma leve redução de gastos públicos e impostos, além de estabilizações das contas públicas e liberalizações econômicas, que permitiram que a Suécia voltasse a ter uma economia mais estável. Pelas características suecas, caso ali existisse um estado menor, muito provavelmente o país estaria colocado entre os mais liberais do mundo, mesmo não estando longe disso atualmente, já que os altos impostos jogam para baixo a percepção de liberdade econômica lá existente.

Mengistu, a sangrenta via etíope ao socialismo

Artigo de Fernando Díaz Villanueva originalmente postado na revista Ilustración Liberal. Traduzido e adaptado para o português do Brasil por Renan Felipe dos SantosPara ler o artigo original em espanhol, clique aqui.

NOTA: o artigo foi extraído da edição 17 da revista, publicada em 2003. As referências à anos e meses estão defasadas em 9 anos com relação ao ano presente de 2012.

Introdução
Um dos lugares comuns, habituais e mais trilhados pelo qual transita a opinião pública mundial é aquele que identifica o subdesenvolvimento do Terceiro Mundo com a imposição, à força, do capitalismo ao modo e maneira do ocidente. Tanto se estabeleceu a idéia que não é surpreendente encontrar continuamente gente comum e analistas que atribuem ao livre mercado a ruína, a fome e todas as calamidades que padecem os países da Ásia, América do Sul e especialmente da África. Os casos asiático e americano, com a Coréia do Norte e Cuba como ponta de lança, parece que se vai pouco a pouco desmistificando a idéia bastarda de uma conspiração ocidental contra os interesses, e até a vida, de coreanos, vietnamitas, cambojanos e americanos hispano ou lusófonos. Na África entretanto a fábula mantém sua vigência inalterável. Na televisão, na imprensa, na Internet me atreveria a dizer, a dramática imagem do menino com ventre inchado vem indefectivelmente acompanhada de referências às grandes fortunas do planeta, aos índices sempre crescentes da bolsa de Nova Iorque ou, simplesmente e com ganas de envolver a todos nós, a insinuação velada de que nosso bem-estar descansa sobre seu mal-estar. Em poucas palavras; se desfrutamos aqui de uma casa confortável, três refeições ao dia e férias pagas é porque lá sofrem o indizível. Nossa situação mediana como um país desenvolvido é então fruto de um roubo, de um assalto à mão armada às custas daqueles que tiveram a má sorte de nascer ao sul de Tarifa.

Nesta peculiar teoria do saque que tantos êxitos colheu para seus mentores intelectuais rara vez ou nunca se recorda ao grande público, essa massa telespectadora que paga impostos, vota a cada quatro anos e aguenta sem reclamar como lhe chamam de ladrão na cara dura quando decide instalar um aparelho de ar condicionado em casa, que uma parte considerável da miséria do chamado Terceiro Mundo é responsabilidade direta de infrutíferas tentativas de implantar o comunismo. De levar esta doutrina redentora aos povos recém emancipados do jugo colonial e da bota do europeu ímpio. Casos para exemplificar há, como reza o dito popular, mais que minhoca na terra, e se estendem por todo o globo. Da populosa Indochina às selvas nicaragüenses, dos páramos gelados do Afeganistão aos tórridos desertos africanos do vale do Rif. A tarefa sempre inconclusa de libertação cobriu os últimos quarenta anos da nossa história recente, e com frequência quando se propõem receitas irresponsáveis para acabar com a seca daqui ou a fome de acolá os teóricos do saque estabelecem um programa em duas fases. A primeira é ocultar o fracasso de anteriores planificações forçadas e salvamentos coletivos como a foice e o martelo os ensina. A segunda é valer-se da situação desfavorável presente para prometer a abundância futura, copiando ponto por ponto a fórmula magistral que levou em tempos passados à ruína sem paliativos do povo tocado pela varinha mágica do socialismo tropical.

Um dos episódios mais desconhecidos, ocultos e mortíferos é o do experimento socialista nas milenárias terras da Etiópia. Para os que como este que escreve cerrava os dentes diante da televisão nos anos oitenta é uma lembrança poderosa  aquela dos campos de extermínio na distante Abissínia, que obviamente não sabíamos onde ficava mas cuja realidade dolorosa entrava em nossos olhos como facas afiadas. De certa maneira, para nós que o vivemos desde o sofá a miséria daquela gente de pele queimada pelo sol e pela seca, pelas privações, esta e não outra é nossa particular e intransferível imagem da fome. As razões não compreendíamos então nem, talvez, quisemos fazê-lo depois. O fato é que desde os Estados Unidos se pôs em marcha uma campanha global de ajuda aos famintos etíopes. Lembro que se chamava USA for Africa ou algo assim. Organizaram um grande show, em Wembley talvez, que contou com um concurso de artistas populares. O logotipo era uma guitarra negra com a caixa de ressonância transmutada no mapa do continente africano. Um tal Bob Geldof do qual nunca mais se ouviu falar foi o mestre de cerimônias. As vezes pensei que este homem foi tirado de um armário para a ocasião e no término desta voltaram a trancá-lo lá. Aparte de Geldof o espetáculo se alinhou com cantores mais ou menos conhecidos, alguns de verdadeiro sucesso naquela época, como aquele que depois de contribuir com que as crianças da Etiópia comessem lhe deu na telha de deitar-se com algumas na Califórnia. Coisas do estrelato rockeiro. A campanha, e em especial o show, fizeram tanto sucesso que a causa etíope obteve um prestígio sem precedentes. Às imagens que retransmitia o telejornal se sucediam as análises e os artigos de uma imprensa que sempre e irremediavelmente afirmava que a culpa da fome passava pela porta da nossa casa. Se eles estavam assim é porque a riqueza estava muito mal distribuída no mundo. Não se fazia mais referência aos apostadores do cassino de Montecarlo nem aos magnatas do aço como aproveitadores de capital. Éramos nós os responsáveis diretos pelas dificuldades que nossos congêneres da baixa Eritréia passavam. Ainda estou lembrando as recriminações de minha mãe quando não queria comer.
– Filho, come que há muita fome no mundo. Não viu na televisão aqueles pobres negrinhos?

E claro, ante argumento de tal peso eu comia, me calava e fazia sinal da cruz por ser tão afortunado e por ter nascido no lado dos saqueadores e não no dos saqueados.

Uma das fotos que ilustra os livros didáticos brasileiros para explicar os males que o “capitalismo” provoca na África… fruto do socialismo etíope. Já dizia Lenin: “Acuse os adversários do que você faz…. chame-os do que você é!”

O que não me contava minha mãe, com certeza porque não sabia, e o que não diziam no telejornal, com certeza porque não queriam, é que a Etiópia de então, naquele orwelliano ano de 1984, era o fruto, o resultado último de uma trágica experiência que havia transformado no lapso de 10 anos o outrora desafiante e orgulhoso Império Etíope numa nação raquítica e insolvente que sacrificava sem dó o capital mais valioso, sua própria gente, no altar do marxismo ao modo africano.

Etiópia, a nação mais antiga ao sul do Saara, a única junto com a Libéria que se manteve à margem da colonização, a única que derrotou em campo de batalha um exército europeu, a única, em suma, que apesar dos vai-e-vens da política africana mantinha certo prestígio internacional. Esta mesma Etiópia mãe nutridora da emancipação africana, merecedora de louvores, de conferências e congressos em sua capital Addis Abeba, padeceu em um tempo não tão distante uma revolução socialista desde os quartéis que se não fosse pelo rastro de mortes que deixou quase não nos lembraríamos dela. Os ingredientes de semelhante absurdo político que custou a vida de centenas de milhares de pessoas nos são relativamente familiares: a União Soviética e sua estratégia premeditada de converter o mundo num imenso gulag, a Cuba de Castro e seus estúpidos anseios de grandeza e então a Etiópia, se lançando com ousadia ao papel que a história lhe havia dedicado.

A tomada do poder
Pequeno, pele escura, traços marcados e uma ambição desmedida por poder, quase doentia. Assim foi e deve seguir sendo em seu dourado desterro no Zimbábue Hailé Mengistu Mariam. A princípios do mês de setembro de 1974 uma grande etapa da história da Etiópia se encerrava. Negus, o rei dos reis, o mesmo que havia clamado na Liga das Nações quatro décadas antes contra a invasão italiana, era deposto em Addis Abeba. A valente instituição que havia construído a moderna nação etíope e batalhado contra o imperialismo fascista em 1935, que havia humilhado o ocidente no campo de batalha e que se vangloriava de haver deixado a Etiópia fora da garra colonialista européia estava já nos anos 70 completamente desgastada. Por dentro e por fora. No interior as fomes periódicas e uma modernização frustrada haviam posto o monarca na corda bamba em mais de uma ocasião. Ademais, e como remate a uma situação por si só comprometedora, o independentismo eritreu amadurecia com a fundação e início das hostilidades da revolucionária Frente de Libertação da Eritréia. No exterior as ambiçõe somalis, convenientemente atiçadas por Moscou, sobre o estéril deserto de Ogaden pintavam um panorama desalentador que deixava a idéia imperial abandonada na lixeira da historia.

À frente da nova Etiópia iluminada a fins de 1974 ficava uma comissão, o Derg, formada por militares. O trabalho primordial do Comitê, do Derg, era dirimir a senda política pela qual a Etiópia transitaria no futuro imediato. A inquieta Eritréia, a fome, que levava já milhares de vítimas nas costas, e o conflito de Ogaden constituíam a agenda quasei única deste governo provisório atípico composto por mais de 100 membros e presidido pelo general Aman Andom. Junto a ele dois jóvens capitães do exército, Atnafu Abate e Hailé Mengistu. O Derg estava fortemente dividido entre os que advogavam por um governo forte que fizesse frente tanto à secessão eritréia como à infiltração somali em Ogaden, e os que optavam por voltar à via do consenso com Eritréia para concentrar-se nos problemas reais do país. Andom, de ascendência eritréia e caráter negociador se inclinava abertamente a esta segunda opção a fim de ganhar recursos e cortar a sangria de dinheiro e homenss que a guerrilha do norte estava provocando. A economia etíope estava paralizada pela guerra, a fome e um atraso secular. A agricultura, sustento básico da nação, era tremendamente ineficaz. Estava nas mãos da nobreza chegada ao regime imperial cujos métodos de produção, divisão da propriedade e resultados finais eram mais próprios do feudalismo que de uma economia capitalista agrária moderna. Os problemas que afligiam à Etiópia de então estavam perfeitamente definidos. Restava por ver, naquele outono de 1974, quem era o herdeiro da monarquia recém decomposta. Em novembro, apenas dois meses depois da renúncia de Negus, o general Andom foi assassinado em seu domicílio de Addis Abeba. Foi o primeiro a cair. A Andom sucederiam com a precisão de um relógio suíço s quedas em desgraça, na fossa, de outros militares de caráter e carreira reconhecida e todos pertencentes ao Derg. O novo diretor de operações, o timoneiro que traçaria a derrota exata da imensa nave etíope era Mengistu. Depois de um breve interregno com o general Teferi Bante à frente da Comissão, ficou marcado o destino deste capitão recém promovido, de formação deficiente, para não dizer nula, e de baixa estatura, que a muito contragosto tratava de resolver com saltos. Um destino que estava escrito com sangue nas entranhas da enrugada e sedenta terra etíope.

O Terror Vermelho
A Etiópia possuía, como quase qualquer país africano da época, uma pequena mas muito politizada minoria intelectual. Antigos estudantes das universidades européias que provaram em primeira pessoa as bondades do maio de 68 retornavan à sua pátria con a idéia fixa de converter as recém libertadas nações africanas em modelos a imitar, em provetas do novo socialismo terceiro-mundista que fazia as delícias dos dirigentes do Kremlin. Em um mundo fortemente polarizado como o dos anos 70 a União Soviética vivia em um contínuo estado de preparação para a guerra, guerra por outra parte que o conselho de anciãos coxos que acaudilhava com mão férrea o Politburo do PCUS via como iminente. A obsessão de que a qualquer momento podiam desencadear-se hostilidades entre os Estados Unidos e o bloco soviético levou os responsáveis deste último a perseguir por todo o planeta bases que assegurassem provisões e pontos de apoio para um conflito que, apesar da arma atômica, os soviéticos consideravam que seria grande. A África, e em particular o chifre do continente, não foi uma exceção. Já nos tempos de Negus esta diminuta intelectualidade a quem haviam sorvido o cérebro em Sorbonne constituía debaixo do seu nariz partidos e agremiações de ar comunista e revolucionário travestidos, como não, de movimentos de libertação. Na Etiópia antes da ascensão do Derg ao poder já haviam se formado dois partidos de corte marxista; o PRPE (Partido Revolucionário do Povo Etíope) e o MEISON (Movimento Socialista Panetíope). Ambos comungavam plenamente com o ideário moscovita mas lhes separava sua visão do que seria a Etiópia libertada do jugo capitalista. O PRPE optava pela federação com a Eritréia onde lutavam pela independência seus irmãos da Frente de Libertação cujos gastos eram bancados pela URSS e pela China. O MEISON se caracterizava por um caráter mais centralizador. A Etiópia era una e devia seguir sendo-o. Os da Frente de Libertação da Eritréia já podiam se preparar e renunciar ao seu secessionismo porque após a revolução em Addis Abeba a Eritréia seria administrada pelo poder central. Mengistu, o novo homem forte da comissão governamental não podia consentir que uns intrusos e opositores ficassem no seu caminho, de modo que sem exitar liquidou ambos os partidos pela via mais direta e fácil: assassinando seus afiliados e simpatizantes. Primeiro foi a vez do PRPE. Mengistu clamou publicamente contra os inimigos da revolução e deu início a um expurgo selvagem. Com a colaboração do MEISON que organizou milícias armadas para o Derg se fecharam as universidades e se deu a caça, captura, tortura e morte a todo dissidente catalogado como tal pelo governo ou pelo Movimento Panetíope.

O MEISON, socialista, ajudou Mengistu, socialista, a destruir a oposição do PRPE, também socialista. Tudo em família.

Mas como os revolucionários raramente aprendem História e desconhecem portanto que, ao modo de Robespierre ou Trotski, a revolução devora seus próprios filhos, foi o MEISON o próximo objetivo da ira de Mengistu. Começou justiçando Atnafú Abate, antigo correligionário seu e participante entusiasta na limpeza do PRPE, para continuar com a perseguição sistemática e assassinato dos partidários e adidos ao MEISON. Esta vez, e à falta das voluntariosas milícias panetíopes, Mengistu se valeu de uns esquadrões de extermínio criados para a ocasião e que dependiam diretamente da Segurança do Estado, ou seja, dele. Em ambos os expurgos ninguém estava a salvo. A arbitrariedade com que o poder levantava o dedo acusador se estendia a todas as classes sociais e sensibilidades políticas. Como em todas as revoluções libertadoras, quem no mundo tivesse o simples qualificativo de reacionário, contrarrevolucionário ou, simplesmente, antipovo (sic) bastava para que a cabeça do acusado rolasse irremisivelmente pelo chão ensanguentado por anteriores execuções sumárias. A situação chegou a meados de 1977, três anos depois da subida ao poder do Derg, a tal degradação que até as ONG’s se espantavam. O secretário mundial da Save the Children clamava em vão desde Addis Abeba que […] foram assassinadas mil crianças e seus corpos jazem nas ruas para as hienas errantes. […] Podem ver-se os corpos amontoados de crianças assassinadas […] na calçada da rua de saída de Addis Abeba.[…][1]

Junto ao terror generalizado na rua e tocado sem consideração primeiro pelas milícias panetíopes e depois pelos esquadrões governamentais, Mengistu levou a cabo uma verdadeira limpeza dentro do Derg. Os fuzilamentos de membros da mais alta magistrarua do estado haviam dado um começo, quase como o nascimento do novo regime. Mengistu não aceitava dissidência e muito menos a proveniente dos círculos de poder. Como já apontei anteriormente, Aman Andom, o homem forte do golpe que derrubou Negus, foi liquidado pouco antes de iniciar seu comando à frente da junta militar. Conforme foi derivando o regime ao absurdo da tirania genocida, os expurgos dentro do Derg e da classe política etíope aumentaram em intensidade. O próprio Negus Hailé Selassie foi estrangulado às mãos de Mengistu em 1975 com um cordão de nylon que ficaria tristemente famoso. O carrasco se situava às costas e puxando com força em sentido oposto aos cabos do cordão rompeu a traquéia do réu que fenecia na pior das asfixias. Liberais, tradicionalistas do regime anterior, líderes do cristianismo copta ou ex-camaradas revolucionários….., muitas foram as personalidades que sucumbiram à Pajarita de Mengistu. Outros eram brutalmente torturados até a morte e depois expostos como trapos humanos nas ruas de Addis Abeba para edificação e instrução dos transeuntes. Os serviços secretos do bloco socialista contribuíram de maneira decisiva aos expurgos. Se algum destacado dissidente era localizado em Moscou, Berlim ou Varsóvia, a KGB ou a Stasi se encarregavam de providenciar-lhes a justiça etíope.

Teferi Bante, que a princípios de 1977 era o único freio ao poder onímodo de Mengistu, caiu fruto de uma conspiração junto ao resto de seus fiéis e foram metralhados à entrada do Palácio Real. O assassinato do general Bante marca o ponto de inflexão a partir do qual o regime de Mengistu se tornou incontestável no interior do país. Foi também o momento em que Mengistu se abriu ao mundo e sovietizou a Etiópia de modo irremediável.

O Chifre da África
As nações que ocupam a parte centro-oriental do continente africano ficaram conhecidas tradicionalmente como Chifre da África. Seja por um capricho da geografia que dotou a costa africana desta protuberância em forma de chifre, seja pelo vale tectônico que a atravessa de norte a sul, o fato é que o vai e vem histórico de nações díspares como Etiópia, Somália, Djibuti e Eritréia foi secularmente entrelaçado. Em tempos coloniais, a finais do século XIX, ingleses e italianos disputavam a zona. Os britânicos para assegurar a via comercial que comunicava a Índia com a metrópole através do Canal de Suez, e os italianos por chegar tarde à divisão e para ter um colônia para explorar, por mais seca e improdutiva que fosse. Depois de vários acordos as duas potências desenharam o mapa dividindo a Somália e outorgando o controle da Eritréia ao governo de Roma. Asmara, a capital desta desértica comarca costeira do mar Vermelho segue hoje tendo certo encanto italiano no que resta de seu bairro colonial. A Etiópia ficava à margem e muito bem custodiada por seu imperador Menelik, fundador de Addis Abeba e garantia da independência etíope. De certo modo poderia explicar-se o fato da não colonização da Etiópia porque tanto a monarquia de Menelik como uma parte importante da população era cristã desde tempos imemoriais. Não havia pois missão civilizadora alguma a fazer ali. Ainda assim os italianos não desestimaram nunca a possibilidade de anexar a seus domínios eritreus o resto do reino. O tentaram em 1896 e a brincadeira lhes custou caro. O exército de Menelik armado pelo czar da Rússia aplicou um severo corretivo aos italianos na batalha de Adua. Quarenta anos mais tarde e com Mussolini como pai da nova Itália fascista a Etiópia se rendeu. Teve de ser libertada pelos britânicos uns anos mais tarde e entregue de novo ao imperador Hailé Selassie.

A moderna Etiópia nascida da 2ª guerra mundial seguia constituindo um enclave estratégico de primeira ordem. A obsessão soviética por contrariar a influência americana no Índico levou o Kremlin a orquestar uma estudada estratégia de agitação nos países do Chifre da África. Fez-se primeiro com a Somália onde graças a um golpe de estado governava Siad Barre, militar de tendência esquerdista formado nos tempos de colônia italiana. As ambições de Barre passavam por recuperar a comarca do Ogaden que, apesar de estar povoada por uma maioria somali, pertencia ao reino etíope. Moscou encontrou em Barre o perfeito cliente para sua política de intervenção nesta zona tão delicada. Junto ao Iêmen, que está na península arábica, o norte da costa da Somália controla o estreito de Bab el Mandeb, passagem obrigatória da frota internacional de petroleiros que abastecem o mercado europeu em sua viagem desde as jazidas do golfo Pérsico. Em caso de dificuldades, a União Soviética podia sempre lançar mão de um aliado fiel para fechar a torneira de ouro negro à sedenta Europa Ocidental. Ademais, como se o anterior fosse pouco, as costas somalis estão em um ponto propício do arco que forma o Oceano Índico. Se produz-se um conflito, ter bases de aprovisionamento na Somália facilitava muito o tráfego da frota do mar Negro desde sua base até o hipotético teatro de operações. Os soviéticos certamente se esforçaram. Encheram a costa da Somália de instalações militares. Nos melhores momentos a URSS chegou a dispor de uma base naval e outra de submarinos no porto de Berbera, várias plataformas para o lançamento de mísseis e uma base aérea com cobertura a aeronaves militares de longo alcance. Em troca de todas estas prerrogativas e privilégios o governo somali solicitou ao Kremlin armas, apoio logístico e treinamento de tropas especializadas para a frente aberto no Ogaden contra Negus, que aparte de tratar-se um monarca decadente e caduco era o aliado dos Estados Unidos na zona. Os soviéticos não duvidaram e junto com cubanos e alemães orientais dispuseram um contingente de experts a serviço de Siad Barre e sua peculiar idéia da conquista de Ogaden.

A chegada de Mengistu à cena política em 1974 e seu posterior fortalecimento no poder a inícios de 1977 pôs um freio à estratégia cubano-soviética na zona. Somália era importante, mas a Etiópia era mais. Determinados a construir um bloco de influência soviética na entrada do mar Vermelho, melhor era centrá-lo em torno do país tradicionalmente hegemônico, o coração político e econômico da região. Mengistu, que havia levado a cabo uma cruenta mas eficiente tarefa de concentração pessoal de poder buscava um aliado que perpetuasse seu despótico governo. Após vários contatos com Moscou, com viagem cortesia ao Kremlin inclusa, e com o próprio Castro, a quem recebeu em Addis Abeba como a um faraó do antigo Egito, soviéticos e cubanos tomaram sua decisão irrevogável. Em Março de 1977 recebeu Mengistu o primeiro envio de carros soviéticos. Em seguida o líder cubano realizou uma turnê diplomática por países africanos da órbita moscovita. Deteve-se primeiro na Argélia, daí saltou a Trípoli onde se reuniu com Muamar el Gadaffi. Dias depois, e depois de cancelar a visita prevista a Bagdá, Castro se reuniu com Fattah Ismail, presidente do Iêmen e homem de Moscou ao sul da península arábica. Deixou Aden, capital do Iêmen, apenas uma semana mais tarde para ver em pessoa a Mengistu em Addis Abeba. Para que tanto rebuliço? A manobra de aranha que levou a cabo em pessoa o Comandante em Chefe naquela primavera, tinha como único fim preparar o terreno para a já inevitável traição a Siad Barre. Mas Barre ainda concebia uma vaga ilusão de contar com seu aliado havaneiro. Castro se encarregou, outra vez em pessoa, de defraudar a esperança do atribulado dirigente somali. Se locomoveu desde a Etiópia até Mogadíscio para dar o aviso a seu antigo patrocinado. Barre não deu crédito à desfaçatez e felonia cubanas. Mas não havia volta atrás, o próprio Castro se encarregou de recordá-lo em termos que não deixavam dúvidas:

– […] não há nada que discutir, tudo foi decidido em Moscou e o que Moscou decide deve fazer-se […][2]

Vale recordar que naqueles anos o regime cubano se erigiu como representante e patrocinador da Conferência dos Não Alinhados. Valente defesa do não alinhamento que fazia Castro como uma gravadora de Moscou! Tanto cubanos como soviéticos se desfaziam em elogios ao trabalho transformação que Mengistu estava levando a cabo na nova Etiópia nascida das cinzas do Império. Mas a festinha do Chifre da África só tinha espaço para um convidado. O Mogadíscio e as bases navais ou Addis Abeba e o controle efetivo da região. Siad Barre percebeu e cortou as amarras com URSS e Cuba na esperança de que este gesto fosse bem considerado no ocidente. Erro crasso. Na Europa ninguém estava disposto a lançar-se por um pedaço de deserto por mais importante que fosse para seus interesses petrolíferos. Na América a administração Carter tentou resolver tudo por fórum. O tímido presidente dos Estados Unidos empenhado em negociar tudo propôs uma conferência multilateral para resolver pacificamente o problema. Em Moscou não estavam tão bem-intencionados. Mengistu era seu homem e apostaram forte nele. Em troca o líder etíope fez os deveres e se aproximou dos desejos de seu novo amo. Até mostrou seu firme compromisso de converter a Etiópia numa República Popular com todas as leis e com partido único submetido aos ditos do governo soviético.

A Guerra do Ogaden opôs a República Democrática da Somália, socialista, à Etiópia socialista de Mengistu apoiada por cubanos e soviéticos. Siad Barre, líder da Somália, era aliado dos soviéticos antes da Etiópia despertar mais os interesses de Moscou. Imperialismo? Capitalismo? Tá bom…

Após uma resistência numantina dos somalis no Ogaden desde meados de 1977, Mengistu tomou a iniciativa. Sua boa gestão internacional complementada com sua melhor política doméstica lhe granjearam um apoio sem precedentes em compração com outros conflitos africanos da época. Acompanhando o exército regular etíope treinado às pressas especialistas cubanos, se alinhou um contingente composto por 30.000 cubanos enviados desde Angola ou recém recrutados na ilha, 4.000 soviéticos e 2.000 búlgaros, húngaros e alemães orientais. Para fazer efetiva a vitória os soviéticos mobilizaram para a frente carros blindados, caças Mig-21 e artilharia de longo alcance. Até um satélite se enviou ao espaço com o fim de cobrir a operação de cima da atmosfera. Como curiosidade mórbida o militar a mando do numeroso contingente expedicionário cubano foi o general Arnaldo Ochoa, mais um filho do Saturno revolucionário que terminaria com o tempo sendo devorado por seu pai. A guerra de Ogaden foi extremamente sangrenta. As contendas da África pós-colonial não se caracterizavam tanto por fazer prisioneiros nem pelo trato à população civil vítima da guerra, mas em Ogaden se combinaram as mortíferas e impiedosas artes bélicas africanas com a tecnologia soviética do momento. Os bombardeios cubano-soviéticos sobre as cidades do norte da Somália provocaram o exílio massivo de aproximadamente um milhão de pessoas. Ao drama humano da absurda guerra de Ogaden haveria de somar-se os milhares de mortos no campo de batalha. O exército somali estava bem treinado e armado, fruto dos anos de colaboração cega com a URSS. Os somalis ainda defendiam uma comarca que consideravam parte irrenunciável da Grande Somália de modo que a entrega dos soldados de Mogadíscio foi em alguns casos exemplar e sempre suicida. Ao final o desatino da guerra e dos cálculos soviéticos se fez mais patente. Siad Barre não caiu como havia previsto a inteligentsia moscovita. Foi um inútil desperdício de vidas e de recursos para deixar o mapa do Chifre da África quase como estava. O único vencedor da contenda foi Mengistu e seu delírio. Ocupou Ogaden, terminou de consolidar-se no poder e obteve uma vantagem comparativa sobre outras potências da zona que bem explicam o que viria depois.

O interminável conflito eritreu
As relações da Etiópia com suas regiões tomaram na maioria das vezes um olhar de matrimônio à força que colocou em sério perigo a continuidade do corpo nacional. De todas elas, a região que mais trabalhosamente lutou por sua soberania foi a Eritréia. Situada a noreste do Maciço Etiópico, foi durante anos a única saída ao mar da Etiópia. O porto de Masava é o único com capacidade para navios de grande calado em milhares de quilômetros de costa e foi tradicionalmente um dos portos mais ativos das desérticas ribeiras do mar Vermelho. Além disso a Eritréia possui abaixo de seu sub-solo matérias-primas com as quais não conta a Etiópia, da qual está separada por uma cordilheir montanhosa difícil de contornar. De fato, quando se construiu a linha de trem de Addis Abeba ao mar, se elegeu como porto de contato o de Djibuti e não o de Masava pelas dificuldades de estender a ferrovia através dos indômitos montes de Denakil. Se a geografia por si não se empenhou o bastante em separar ambos os povos, a história traçou cursos diferentes para eritreus e etíopes. Na época colonial Eritréia esteve sob a soberania italiana enquanto a Etiópia se manteve independente, depois do breve lapso que configurou a invasão fascista da Abissínia e a guerra mundial, a Eritréia ficou sob tutela das Nações Unidas que em 1950 cederam a Etiópia à administração da região sob a condição de que se articulasse um estatuto especial que reconhecesse a particularidade da Eritréia. A Etipiópia de Negus não estava muito disposta a fazer concessões especialmente quando outras zonas do país como Ogaden ou o Tigre podiam levantar-se e pedir o mesmo tratamento que seus compatriotas setentrionais. A idéia de uma Etiópia centralizada em torno da etnia Amhara, à qual pertencia Negus e o próprio Mengistu, foi tão poderosa e ainda assim tão negativa para a causa pan-etíopq eu muitos dos problemas que os governos de Addis Abeba tiveram de enfrentar no século passado passavam pela espinhosa trama periférica.

A Frente de Libertação da Eritréia, grupo socialista que lutou na guerra de independência da Eritréia, era aliada dos soviéticos e cubanos tal qual a Somália. Assim como os somalis, perdeu o apoio dos soviéticos quando estes mudaram seus interesses em meados da década de 70.

Já vimos anteriormente como na constituição do primeiro Derg, do formado após a queda do monarca, as sensibilidades regionais estavam representadas pelo general Aman. Assassinado este e com Mengistu aferrado à idéia da Grande Etiópia Amárica não podia acontecer mais do que uma reedição corrigida e aumentada da velha questão da Eritréia, sua autonomia e o lugar que lhe cabia na Revolução recém inaugurada.

Diferente da Etiópia central onde o cristianismo copta é majoritário, na Eritréia o Islã conta com uma infinidade de devotos. Na década de 70, esta afetada comunidade, na ausência de fundamentalismo que iria cristalizar uma década mais tarde, resultou numa espécie de socialismo Árabe e guerrilheiro inspirado pelas idéias que triunfavam então nos países mais avançados do Oriente Médio. Mengistu desconsiderou as demandas de autonomia dos eritreus muçulmanos, que já estavam em pé de guerra desde os tempos de Negus, arguindo ante a comunidade socialista internacional que o caso do secessionismo da Eritréia era ilegítimo. O bloco soviético vinha apoiando as guerrilhas eritréias, tanto as islâmicas como as cristãs há anos com o objetivo de debilitar a posição americana no mar Vermelho. No verão de 1977 com a guerra de Ogaden em marcha Mengistu considerou que a enorme ajuda que acabava de receber por parte da URSS e de Cuba poderia voltar-se, uma vez extinguido o conflito somali, contra os eritreus. Uma oportunidade de ouro de resolver uma questão histórica desencadeando uma guerra sem quartel que convencesse aos rebeldes de uma vez por todas da inconveniência de sua luta armada. E quase conseguiu. A ofensiva, que começou em 1977, dexiou a região convertida em um terreno baldio, uma imensa área de despejo pontilhada de valas comuns. Para isto Mengistu contou, uma vez mais, com a inestimável colaboração de seus novos amigos de Havana e Moscou. Fidel Castro que não muito tempo antes havia mostrado abertamente sua simpatia pela  Frente de Libertação da Eritréia mudou vergonhosamente de lado e numa repulsiva manobra de prestidigitação política se fez porta-voz da sagrada unidade da Etiópia. Como no caso dos infelizes guerrilheiros somalis do Ogaden a Idéia Socialista, assim com maiúsculas, se impunha às pessoas, aos povos à palavra dada. O apoio cubano se cifrou em mais de 6.000 soldados bem treinados, carros blindados e caças Mig 21. E o pior é que nem Castro nem a imprensa cubana se esforçaram para ocultar a intervenção. Em um exemplar do diário Granma de abril de 1978 podia ler-se: […] O pessoal militar cubano estará na Etiópia no tempo que acordem os governos da Etiópia e Cuba para apoiar ao povo etíope contra qualquer agressão […][3]….. E eram os próprios etíopes os que estavam agredindo a seus vizinhos! Semelhante afirmação não se devia à pluma de um editor de oposição, mas correspondia com a trascrição literal de um discurso do Comandante em Chefe. Os soviéticos não ficaram para trás. Instalaram bases de apoio para sua frota no pequeno arquipélago que se levanta frente às costas da Eritréia e prestaram apoio logístico e humano ao exército de Mengistu. A sorte da Eritréia estava lançada mas diferente da campanha de Ogaden o combinado etíope-cubano-soviético teve de fazer frente a guerrilhas de organização caótica dispostas em pequenos e ágeis corpos de combate que conheciam perfeitamente cada palmo de terra, cada risco e cada cova. Soviéticos e cubanos não pouparam forças para render aos indômitos guerrilheiros eritreus. Fizeram uso sistemático do arsenal químico mais sofisticado da época. Bombardeios com NAPALM, gaseamento da população civil nas aldeias com agente nervoso e emprego de defoliantes. Ante semelhante alarde militar causa estupor ver hoje, em 2003, como Fidel Castro se arvora na bandeira da paz e a usa para passear pelo pier de Havana enquanto esganiça gritando “Não à guerra imperialista!. O exército de Mengistu, mais simples nos métodos mas não menos letal, entupiu de minas grande parte do país e recurreu a rotinas militares tristemente habituais no continente africano. Com o objetivo de debilitar às guerrilhas atacando a base civil mobilizou à força grandes contingentes de população rural que desarraigados e abandonados no meio do nada pereciam irremediavelmente de fome. A tropa enviada desde Addis Abeba, que chegou a contar com 120.000 efetivos armados, se especializou na pilhagem, saque e desmoralização da população civil. Desde os aviões de combate os destros pilotos cubanos disparavam nos camelos, base da economoa agrária de grande parte da Eritréia, enquanto os soldados do governo entravam de assalto nas aldeias fuzilando os homens e violando as mulheres. A barbárie absoluta patrocinada e subvencionada desde Havana e Moscou. E o que é pior, a barbárie absoluta tolerada nas chancelarias ocidentais.

Apesar do poder de fogo empregado pelo eixo URSS-Cuba e do compromisso assassino de Mengistu não se conseguiu nem conquistar nem pacificar a Eritréia. A batalha apresentada a guerrilhas autônomas por um exército regular é batalha perdida. E mais ainda quando as práticas da tropa regular passam por estupro, massacre e assassinato sistemático. O medo de ser capturado, de cair em mãos dos invasores é un poderoso estímulo a resistir até a morte se necessário. Os soviéticos o experimentariam com mais rudeza ainda no Afeganistão, os cubanos no Congo mas não há pior cego do que aquele que não quer ver, e a teimosia socialista em impor sua maquinaria militar sobre desorganizados corpos expedicionários foi um exemplo de teimosia suicida, de desprezo pela vida própria e alheia cujo balance final está ainda por determinar.

A Grande Fome
Tem-se dito com evidente falta de informação ou com insolente desprezo da História que o governo de Mengistu foi na realidade um arremedo moderno do governo despótico de Negus, um apanhado neofeudal travestido de socialismo à africana. Nem uma coisa, nem outra. Verdade que Mengistu carecia de formação marxista. Verdade que chegou a receber cursos na base norteamericana de Fort Leavenworth em sua época de estudante na Academia Militar de Haletta. Mas por seus frutos o conhecereis diz a Bíblia e no caso de Mengistu a citação cai como uma luva. Embora não possamos atribuir os primeiros expurgos no Derg à ortodoxia socialista é estritamente histórico que tanto pessoalmente quanto pelo modo como derivou seu regime foi, sem dúvida, um marxista.

Antes mesmo de liquidar a dissidência de esquerda representada no PRPE e no el MEISON Mengistu procedeu com uma socialização forçada da economia etíope. Apenas quatro meses depois do destronamento de Negus o Derg dirigido com mão de ferro por Mengistu nacionalizou os bancos e os seguros. Pouco depois arremeteu contra a propriedade. Proibiu por lei a posse de terras e limitou a um bem por família a propriedade imobiliária. Qualquer cidadão que possuia, fosse por herança, fosse por aquisição, mais de um imóvel foi automaticamente expropiado pelo Estado. Tudo isto se decretou em 1975, antes da feroz campanha de repressão política e das guerras do Ogaden e da Eritréia. Mostra inequívoca de que à supressão da liberdade econômica sucede irremediavelmente a política. Conflitos armados aparte, a descomposição da sociedade rural etíope, sustento da economia nacional, tem sua origem aqui, nos decretos de 75. A tradicional repartição da terra na Etiópia se organizava ao redor de dois regimes. O Rist centrado em torno dos clans familiares e o Gult, terras de concessão estatal, ou seja, imperial. O Rist formava a coluna vertebral do campo etíope, constituia o núcleo essencial da sociedade rural regulada ao redor da família. A proscrição da propriedade rústica deixou a esta massa imensa de camponeses nas mãos das decisões governamentais. Pior ainda foi a expropiação das terras regidas pelo Gult. Milhões de camponeses e suas numerosas famílias passaram a depender do Estado que, ao menos oficialmente, estava a cargo dos latifúndios antes regidos por proprietários de terras. A nacionalização do Gult provocou um colossal êxodo de famintos despossuídos da única coisa que tinham, sua força de trabalho. Depois dos conflitos regionais e do consabido compromisso cubano-soviético com o regime de Mengistu certos cérebros privilegiados da planificação socialista assessoraram o governo de Addis Abeba para implantar as Granjas Estatais ao modo soviético.

O compromisso de Mengistu, sem sombra de dúvidas, era converter a Etiópia em uma República Popular. Desconhecemos se por estar plenamente convicto disto, se pelas bondades que um regime comunista oferecia às nações que o adotassem ou por pura oportunidade política. O que não deixa dúvida é que estando do lado da URSS podia cometer tantos atropelos quanto quisesse e além disso resolver os problemas exteriores que vinham afligindo a Etiópia. Instalar-se no socialismo demonstrou depois de oitenta anos de utopia sangrenta que é o mesmo que instalar-se na irresponsabilidade. E a isto se aplicou Mengistu com todas as suas forças. Deu uma nova guinada promovendo a fundação do Partido dos Trabalhadores da Etiópia, o PTE, que a modo do PCUS seria a organização reitora da vida e da política etíope. A bagunça rural estava já a princípios dos anos oitenta criando mais problemas até que os inoperantes guerrilheiros do sul do país. Se impunha pois um tour de force. A nova Etiópia exigia uma população cegamente fiel aos ditados do Partido, ou seja, de seu máximo líder e guia da nação. A orografia etíope é, como já apontei, complexa e bastante ingovernável se se pretende fazê-lo à força, motivo pelo qual Mengistu adotou uma insólita política de traslado massivo e forçado de população. A idéia era levar camponeses de umas regiões a outras, de lugares onde o braço armado do Partido não chegava a outras mais facilmente controláveis. De norte a sul. Das secas terras baixas adjacentes ao Saara sudanês ao vergel equatorial da Etiópia meridional. Maliciosamente batizou a campanha de reassentamento forçado com o nome de Bego Teseno (Coerção pelo bem do próximo) e sem saber ainda hoje quem era o próximo que se beneficiava de tal medida provocou a transferência massiva de centenas de milhares de pessoas, agravada pela seca do começo de 1982. As secas na Etiópia, como na Espanha, são cíclicas. De um modo ou outro a população, especialmente a do norte do país, aprendeu a viver com elas e organizar-se para passar pela calamidade o melhor possível. A de 1982 surpreendeu a Etiopía em pleno trabalho de engenharia social cujos efeitos, os da seca e os da engenharia, foram desoladores.

A população campesina estava fortemente depauperada pelas nacionalizações do ano de 75. Muitos haviam deixado suas aldeias em busca de trabalho. Outros, os mais afortunados, explorando pequenas parcelas que apenas davam para viver se viam na obrigação de pagar fortes somas de impostos ao governo. Como se fosse pouco, a economia estava já em 1980 completamente socializada, de modo que o Estado se transformou no único comprador dos excedentes agrícolas. Os preços eram fixados por um gabinete ministerial e, claro, não correspondiam aos do mercado. O sofrido camponês pagava mais pelas sementes no mercado negro do que recebia do Estado pelo produto final. Muitas famílias campesinas tiveram de vender seu magro patrimônio, que na maioria das vezes se limitava a uma cabana, dois cordeiros e uma vaca esquelética vítima do esgotamento dos campos, para fazer frente ao ávido afã expropriador do governo. As Granjas Estatais, às quais já mencionei, fracassaram quase desde o primeiro dia. A sua má gestão interna se somou ao fato de que muitos etíopes, em especial de etnias conflitivas como os Oromo, foram forçados a trabalhar nelas em condições que poderíamos qualificar sem temor de equívoco como escravidão.

A chegada da seca mudou o panorama para pior. Mengistu, sentado em sua poltrona dourada de Addis Abeba ou talvez voando rumo a Cuba em uma de suas viagens de vassalagem ao tirano de Havana, concebeu um plano alternativo. Para que avergonhar-se e ocultar a tragédia de que padecia seu povo quando podia aproveitá-la em benefício próprio? A final de contas o próprio Lenin, o pai de todas as revoluções, havia organizado a grande fome em 1921 e bons créditos obteve com ela. A fome é, como muito ajustadamente apontou Jean François Revel, o capital mais precioso do socialismo [4]. No outono de 1984 quando os efeitos da seca combinados com as transferências de população alcançavam seu ponto alto de desespero e morte a notícia saltou para a ocidente. Os meios de comunicação apontavam insistentemente que a fome havia sido provocada por uma inoportuna seca combinada com a queda do preço do café nos mercados internacionais. Uma vez mais o pobre campesino cafeeiro arruinado pela voracidade e pela cegueira assassina dos mercados. Durante dias os jornais bombardearam a opinião pública ocidental com imagens que escandalizavam por sua crueza. Crianças literalmente mortas de fome devorados pelos mosquitos, mulheres com os seios secos tentando em vão alimentar seu bebê morto, pilhas de cadáveres jazindo em meio a lugar nenhum… Coisas demais apra a sobremesa. Dez anos depois da Revolução Socialista na Etiópia os resultados da mesma se mostravam a um mundo incrédulo com toda a severidade devida a semelhante acontecimento. O Aniversário foi celebrado com pompa por Mengistu e alto escalão do Partido em Addis Abeba dias antes da emissão das imagens. Ouropéis, carros de combate, caças russos pilotados por cubanos sulcando o céu, embaixadas de todo o Pacto de Varsóvia e música, muita música marcial enquanto meio país morria de fome fritando no meio do deserto. A reação ocidental foi imediata. ONG’s, governos, paróquias de bairro e associações comunitárias se voltaram ao drama etíope. Até as estrelas da música entonaram para o mundo inteiro seu conhecido e repetitivo We are the world, we are the children.

Quando na Etiópia se massacrou a oposição num expurgo digno dos tempos áureos do estalinismo ninguém fez nada. Quando os somalis de Ogaden capitularam ante a maquinária bélica cubano-soviética ninguém fez nada. Quando a Eritréia foi massacrada de modo impiedoso por tropas do governo apoiadas por Havana e Moscou ninguém fez nada. Quando se começou a mudar à força a população com objetivo de controlá-la melhor ninguém fez nada. Quando se concentrou a produção agrícola em Granjas Estatais que se valiam de mão de obra escrava ninguém fez nada. Em 1984 quando se fez a colheita de dez longos anos de despropósito, guerra e experimento socialista, o ocidente ao fim fez algo. Deu dinheiro, alimentos e remédios ao causador de todos os males. Como prêmio talvez? O fato é que milhões de dólares em ajuda humanitária voaram para as bondosas mãos de outros tantos milhões de ocidentais para as mãos de Mengistu que o recebeu como um agasalho, uma doação desinteressada à qual não tardou em dar um uso nefasto. Organizações internacionais como Médicos sem Fronteiras que não engoliram a história e decidiram não ir à Etiópia foram non gratas pelo governo de Mengistu e vituperadas sem medida no ocidente. A administração Reagan que clamou no deserto considerar a petição de ajuda do governo etíope como um ardil para captar fundos foi taxada de capitalista infame, de reacionária e de inimiga da humanidade. Viver para ver e sobreviver para recordar.

Ditadores socialistas matando milhões de pessoas de fome, e a culpa da miséria é de você aí vivendo na “sociedade de consumo”. Dá pra acreditar?

A lição que o mundo inteiro, em especial os países africanos, obteve depois do episódio etíope foi triste. A partir de então muitos são os governos africanos que, à imagem e semelhança de Mengistu, utilizam as desgraças de seu povo em benefício próprio.

A decomposição do Regime
Dois anos depois da grande fome que custou a vida de mais de meio milhão de pessoas Mengistu se atrevia ainda a dirigir-se ao mundo nestes termos ao falar de suas trasferências de população: […] (O camponês tem de) mudar sua vida e seu pensamento e abrir um novo capítulo no estabelecimento de uma sociedade moderna nas zonas rurais e ajudar na edificação do socialismo […][5]. Não deu o braço a torcer. A socialização continuou durante toda a década de oitenta até o colapso da economia etíope. Em 1987, apenas tres anos depois da catástrofe humanitária que comoveu o mundo, se desencadeou uma nova fome que conforme os passos da já conhecido valsa macabra foi primeiro ocultada e depois aproveitada pelo governo. De novo a ajuda internacional foi desviada para o exército e a nomenclatura do partido. A pegadinha humanitária voltava a ser feita… e a funcionar! Como prêmio e justa recompensa a Federação Sindical Mundial, composta por sindicatos de toda Europa, outorgou a Mengistu em 1988 a medalha de ouro da Federação por […]sua contribuição à luta pela paz e segurança dos povos […][6] O ocidente não só não aprendia como se deleitava com prazer no sofrimento dos famintos etíopes.

O ocaso de seu regime, que definhou até 1991, vai de mãos dadas com a desintegração da União Soviética. A chegada de Gorbachev e o rearmamento moral do ocidente patrocinado pela Casa Blanca fizeram a URSS tirar seus olhos do continente africano. Sem o apoio gratuito de cubanos e soviéticos a guerra na Eritréia se reativou. Todo o terreno ganho na campanha genocida de 77 foi pouco a pouco perdendo-se entre a ineptidão dos comandantes etíopes e o empuxo da guerrilha. Em 1988 a renovada Frente Popular de Libertação da Eritréia se apoderou da cidade de Afabet e destruiu três divisões inteiras do exército de Mengistu. Em 1990 lidando já com a subverssão interna os rebeldes conquistaram o estratégico porto de Masava. No ano seguinte a mobilização foi completa, se fecharam os colégios e institutos para que até as crianças ajudassem a frente a defender a causa de Mengistu. Não funcionou. O país, depois de 17 anos de loucura coletivista, estava exausto, faminto e arruinado. Em fevereiro caíram Gondar e Gojam, as últimas cidades eritréias em poder do governo e apenas quatro meses depois, em 28 de maio, Mengistu assediado dentro e fora da capital desapareceu. Solicitou a seu antigo amigo Robert Mugabe asilo político e se exilou no Zimbábue. Dias depois começou a ingente tarefa de reconstrução da Etiópia, 24 grupos étnicos e políticos se reuniram em Addis Abeba para constituir um primeiro governo provisional até a convocatória de eleições livres. O 28 de maio, día da fuga de Mengistu, passou a ser e segue sendo a festa nacional da Etiópia.

Mengistu, mais um socialista para o rol dos genocidas.

Em 1993 se reconheceu a independência da Eritréia, última nação africana a incorporar-se à comunidade internacional. Em 1995 um tribunal de Addis Abeba abriu o processo para julgar o assassinato de Negus e os crimes cometidos durante a época do chamado Terror Vermelho (1977-1979). Mengistu refugiado em Harare foi julgado in absentia e condenado à morte. O governo etíope, presidido por Meles Zenawi, solicitou em várias ocasiões a extradição de Mengistu. O regime de Mugabe a negou repetidamente apesar da campanha que a Anistia Internacional levou a cabo nos últimos dez anos. As chancelarias ocidentais contudo se mostram atentas e obsequiosas aos requerimentos do presidente da antiga Rodésia britânica. O ano passado por motivo da Cúpula de Johannesburg Robert Mugabe se exibiu orgulhoso entre ONG’s e governos europeus enfermos de terceiro-mundismo caipira. A ninguém pareceu importar que Mugabe proteja e ampare um genocida condenado pelos mesmos crimes que os hierarcas nazis. Do mesmo modo, e nessa mesma ocasião nem o Secretário Geral da ONU Koffi Annan, nem Nelson Mandela nem o príncipe herdeiro da coroa holandesa se incomodaram por compartilhar a mesa e o debate com um racista declarado cujo programa máximo é limpar de granjeiros brancos as férteis e produtivas planícies do Zimbábue. Mas Mugabe não é o único apoio com o qual conta Mengistu, o tirano e genocida etíope tem hoje bons e poderosos padrinhos. Em 1999 coincidindo com uma visita de Mengistu a seu médico na África do Sul o governo de Addis Abeba requiriu a captura e extradição do ex-presidente etíope. A África do sul não o fez arguindo que a solicitação lhe chegou à tarde quando Mengistu havia abandonado ao meio-dia. Numa entrevista concedida há quatro anos à cadeia britânica BBC confessava que os componentes do atual governo sul-africano são […] seus camaradas de armas, seus amigos, seus colegas […][7] e ainda afirmava que pretendia voltar à Etiópia apesar da condenação capital que pende sobre sua cabeça.

Hoje, com 66 anos de idade Hailé Mengistu Mariam, o responsável direto por centenas de milhares de mortes em sua pátria natal, o único Chefe Estado vivo condenado por crimes contra a humanidade, o presidente da Etiópia que mais e melhor matou em sua longa história vive comodamente em Harare, capital do Zimbábue, protegido pelo presidente Robert Mugabe. Seu ostracismo voluntário está cheio de curiosas e nada edificantes anedotas. Em uma recente entrevista à publicação africana Chewata o ex-ditador etíope lamenta não continuar à frente do governo de seu país natal, […] se estivesse no poder hoje em dia cada camponês etíope teria um computador e seu próprio site da web […][8] afirma com un descaro delirante. Mas as vivências de Mengistu no Zimbábue não se limitaram a fantasiosos sonhos carentes de sentido. À pergunta do jornalista sobre o assassinato de cinco de seus guarda-costas o líder exilado respondeu sem pestanejar:

[…] matei sozinho dois deles, os três restantes escaparam e pediram asilo na embaixada dos Estados Unidos em Harare. […]

Deixando as alucinações próprias do desterro e os crimes próprios do desequilíbrio mental, Mengistu leva uma vida tranquila e relaxada no Zimbábue. Em seu tempo livre, que é o dia todo, se dedica a ler a Bíblia, a escutar música cristã e a brincar com seu filho pequeno. No ocidente, como sempre, ninguém faz nada.

Referências:

[1] Yves Santamaría, Afrocomunismos: Etiopía, Angola y Mozambique en El Libro Negro del Comunismo, Espasa Calpe – Ed. Planeta, 1998 Madrid-Barcelona pp 771
[2] Juan F. Benemelis, Castro, subversión y terrorismo en África, Ed. San Martín. Madrid 1988 pp 399
[3] Diario Granma, La Habana, 29 de abril de 1978
[4] Jean François Revel, El conocimiento inútil, Espasa Calpe, Madrid 1993 pp 142
[5] Informe del presidente Mengistu Haile Mariam al Comité central del Partido de los Trabajadores de Etiopía, 14 de abril de 1986
[6] Yves Santamaría, Afrocomunismos: Etiopía, Angola y Mozambique en El Libro Negro del Comunismo, Espasa Calpe – Ed. Planeta, 1998 Madrid-Barcelona pp 772
[7] BBC News Online – Africa, 8 de diciembre de 1999
[8] Chewata, enero de 2003, Exclusive interview with former president Mengistu