A Guerra de Três Lados – Parte Final

No último artigo desta série sobre a Segunda Guerra Mundial analisaremos os regimes dos países do Eixo e dos Aliados com o propósito de demonstrar que a Segunda Guerra foi um conflito não bilateral como normalmente se apresenta, mas ao menos trilateral. A peça chave neste estudo é o comunismo soviético.

I. O primeiro lado: Aliados

Situação: Em sua maioria Estados nacionais já estabelecidos com regimes pluripartidários e parlamentos e regimes coloniais.

Aliados em sua máxima extensão, no auge da Segunda Guerra.
Aliados em sua máxima extensão, no final da Segunda Guerra.

Formas de governo: predominam as monarquias constitucionais, as repúblicas federativas e os governos coloniais. Há participação menor de governos fascistas ou análogos não alinhados ao Eixo como os de Getúlio Vargas (Brasil), Antônio de Oliveira Salazar (Portugal), Fulgêncio Batista (Cuba) e Chiang Kai-shek (China).

Ideologias predominantes: conservadorismo, social-democracia, social-liberalismo e colonialismo.

Localização: Europa Ocidental, América do Norte e colônias européias na África e na Ásia, posteriormente América Latina.

Membros mais notáveis: EUA, Inglaterra, França.
Membros menores: Austrália, Brasil, Nova Zelândia, Índia, China.

Resumo da atuação: Primeiramente, tenta conter o expansionismo alemão através da política de concessões. Declara guerra ao III Reich em 1939 quando este invade a Polônia. Alia-se à União Soviética em julho de 1941 em decorrência da invasão desta pelo III Reich. Declara guerra ao Japão no mesmo ano após o ataque a Pearl Harbor. Ao final do conflito divide a Alemanha com a URSS e deixa a parte leste sob domínio soviético.

II. O segundo lado: Eixo

Situação: Em sua maioria Estados nacionais já estabelecidos com governos fascistas instaurados no período entre guerras. No caso do III Reich, Estado totalitário implantado a partir de 1933 e no caso do Japão, regime absolutista vigente desde 1926.

Eixo em sua máxima extensão, no auge da Segunda Guerra.
Eixo em sua máxima extensão, no auge da Segunda Guerra.

Formas de governo: predominam os Estados Corporativos, as monarquias constitucionais e as ditaduras totalitárias, bem como o absolutismo nacionalista japonês. Também instauraram Estados-fantoche republicanos e apoiaram movimentos independentistas em colônias dos países Aliados.

Ideologias predominantes: integralismo, fascismo, nacional-socialismo e absolutismo.

Localização: Europa Central e Ocidental, Sudeste Asiático.

Membros mais notáveis: III Reich, Itália, Japão.
Membros menores: Romênia, Hungria, Tailândia.

Resumo da atuação: Primeiramente, tenta expandir seu território e influência através de demandas diplomáticas. Depois, estabelece um pacto com a União Soviética dividindo a Europa em áreas de influências, dividindo a Polônia. Invade a Polônia em 1939 e entra em guerra declarada com os Aliados na Europa Ocidental, obtendo uma vitória decisiva que obriga a retirada dos Aliados do continente. Tenta invadir a Inglaterra a partir de 1940, sem sucesso. Sem previsão de avanços no Oeste, uma ofensiva no Leste começa em 1941 violando o Pacto estabelecido 2 anos antes com a URSS. Após uma grande e violenta expansão em território soviético, sucessivas derrotas comprometem o avanço e forçam um recuo que só terminará em Berlim com a derrota do Eixo.

III. O terceiro lado: Comunistas

Situação: Regime soviético unificado instaurado em 1922 a partir da união das repúblicas soviéticas transcaucausiana, russa, ucraniana e bielo-russa. Movimentos comunistas marginais na Europa e na China. Ganhos contínuos de território na China até o fim da Guerra Civil Chinesa em 1949 e na Europa até a instauração dos governos socialistas do “Bloco do Leste” (Polônia, Romênia, Húngria, Bulgária, Iugoslávia, Tchecoslováquia, Albânia e Alemanha Oriental).

Comunistas em sua máxima extensão, no auge da Guerra Fria. O expansionismo soviético continuou através de guerras de procuração na Coréia, no Vietnã e em Cuba.
Comunistas em sua máxima extensão, no auge da Guerra Fria. O expansionismo soviético continuou através de guerras de procuração na Coréia, no Vietnã e em Cuba.

Formas de governo: predomina a ditadura socialista aos moldes soviéticos.

Ideologias predominantes: marxismo-leninismo e maoísmo.

Localização: Europa Oriental, Ásia.

Membros mais notáveis: União Soviética.
Membros menores: Comunistas chineses, partisans.

Resumo da atuação: Primeiramente, tenta expandir seu território e influência através de suporte a movimentos comunistas estrangeiros. Depois, estabelece um pacto com o III Reich dividindo a Europa em áreas de influências, dividindo a Polônia. Invade a Polônia em 1939 e inicia a invasão da Finlândia no mesmo ano, que não avançará significativamente até 1940. Com a invasão do III Reich em 1941, busca aliança com a Inglaterra e depois com os EUA. Após sofrer grandes baixas e perdas de território para a ofensiva alemã, a reação soviética começa a impor duras derrotas e avançar para o Oeste em direção à Alemanha. Com a derrota do III Reich, a Alemanha é dividida entre os Aliados e a URSS e a Europa Oriental é submetida a governos-satélite de Moscou e aliados comunistas como Enver Hoxha na Albânia.

Com o fim da Segunda Guerra Mundial, a atuação comunista chinesa continuará até a sua vitória na Guerra Civil Chinesa em 1949. No Sudeste asiático os movimentos comunistas continuarão avançando e estabelecendo Estados comunistas com apoio sino-soviético no norte do Vietnã e da Coréia.

Conclusões

A partir da análise das políticas adotadas pelos principais envolvidos neste grande conflito histórico, podemos chegar às seguintes conclusões:

Sobre os Aliados

1. Ao contrário do Eixo ou dos Comunistas, as potências Aliadas não tinham um plano ou agenda política universal a ser posto em prática na sua área de influência. Não havia uma ideologia, forma de governo ou política econômica que se pretendia implantar nos países vizinhos. A maioria deles já estava bem estabelecido.

2. A aliança entre diversas nações na luta contra o Eixo foi muitas vezes ambígua e meramente casual, como ilustram os membros fascistas e socialistas no bloco Aliado. O que difere o fascista no lado Aliado do fascista no lado do Eixo ou do socialista no seu próprio bloco é que este não tem um projeto de poder expansionista, por mais ditatorial que seja o seu governo.

3. Os aliados tiveram que lutar contra o imperialismo japonês na Ásia e ao mesmo tempo conter os sentimentos independentistas nas suas colônias. De um certo modo, foi a própria estrutura colonial européia que fomentou o colaboracionismo com o invasor japonês.

Sobre o Eixo

1. Concebido inicialmente como uma aliança anti-comunista no Pacto Anti-Comintern (Antikominternpakt) de 1936  entre o III Reich e o Império do Japão, o Eixo acabou convertendo-se em uma mera aliança militar para apoiar os propósitos expansionistas destes dois países. A Itália assinaria o pacto um ano depois. O Pacto seria revisado em 1941, quando contaria com a adesão de diversos outros aliados e satélites da Alemanha, da Itália e do Japão.

2. O III Reich violou os termos do Antikominternpakt ao assinar secretamente o Pacto Ribbentrop-Molotov com a URSS. Qualquer negociação territorial com a URSS era vetada pelo pacto anterior. Havia um flagrante conflito de interesses entre os próprios membros do Eixo, não raramente um tentando obter territórios do outro ou violando sua soberania, como foi o caso da Hungria e da Romênia.

3. Assim como houveram fascistas do lado Aliado, algumas nações sem governo análogo ao fascismo ou ao nacional-socialismo buscaram o apoio do Eixo para defender-se ou do expansionismo soviético, ou de guerrilhas comunistas ou para buscar sua independência, ou mesmo apenas para industrializar-se. Exemplos incluem a Finlândia, que buscou na Alemanha o seu apoio contra a invasão soviética, a China que cooperou com a Alemanha até 1941 e inúmeros grupos separatistas e independentistas na Ásia que buscaram apoio alemão ou japonês para se livrar do domínio da metrópole britânica, francesa, holandesa, etc.

Sobre os Comunistas

1. Os soviéticos tinham seu próprio projeto de expansão no Leste Europeu e na Ásia. O projeto de expansão no Leste Europeu foi facilitado pelo Pacto Ribbentrop-Molotov, ao passo que o projeto de expansão na Ásia foi atrasado pela resistência dos nacionalistas chineses e pela invasão japonesa. O projeto seria retomado após a estabilização da China comunista, que apoiará guerras de procuração no Vietnã e na Coréia.

2. Desde antes da Segunda Guerra, socialistas chineses tentavam derrubar o governo nacionalista de Chiang Kai-Shek, o que seria concluído em 1949. Um ano depois a China invadirá o Tibet. A nova China comunista buscará relações estáveis com a URSS que se manterão pelo menos até 1960.

3. Com o fim da Segunda Guerra, a URSS manterá o domínio sobre os territórios “libertados”  da ocupação nacional-socialista sob a forma de Estados-satélite ou zonas de influência no Leste Europeu. Outras forças socialistas instalarão governos próprios na Albânia e na antiga Iugoslávia. A porção oriental da Alemanha se manterá sob domínio comunista até 1990. Seu expansionismo continuará após a Segunda Guerra, o que gerará o conflito com os antigos Aliados (agora OTAN) e engendrará uma série de guerras de procuração durante a Guerra Fria.


Leia também:

A Guerra de Três Lados – Parte III

Não faz sentido dizer a um asiático que o início da Segunda Guerra Mundial é marcado pela invasão da Polônia. A Coréia foi anexada pelo Japão em 1910. ainda no governo do Imperador Meiji, continuando sob domínio japonês durante o Taishou e o Shouwa até sua independência em 1945. Os chineses viveram um período conturbado e cheio de conflitos desde o fim do Império Qing, sofrendo invasões soviéticas, tibetanas, japonesas, além de revoluções islâmicas e comunistas. De conflitos internos entre senhores da guerra a guerra civil, passando por invasões estrangeiras, movimentos emancipacionistas e revoluções islâmicas, tudo foi experimentado pelos chineses.

Faz sentido, portanto, retroceder um pouco no tempo e voltar para o início da década de 30, porque a República da China é reconhecida na história oficial como um dos Aliados na luta contra o Eixo (neste caso, o Japão) a partir de 1941. Porém, a China já enfrentava o Japão desde pelo menos 1931… foram os Aliados ocidentais que entraram no conflito 10 anos depois. E também porque outro reconhecido “Aliado”, a União Soviética, faz uma pontinha nesta história tanto se defendendo dos ataques japoneses quanto investindo contra os chineses.

Ásia I – China, Mongólia e União Soviética

1. Guerra Sino-Soviética – nacionalistas contra comunistas em uma das fronteiras mais instáveis da Ásia
Dois anos antes do Japão invadir a Manchúria, a China entrou em conflito com a União Soviética nesta mesma região, em 1929. Este conflito, mais especificamente entre a União Soviética e o senhor da guerra chinês Zhang Xuelian, ocorreu por causa de uma linha ferroviária de grande importância econômica na região, a Ferrovia Trans-Manchuriana.

KVZHD_1929_01

Quando os chineses confiscaram a Trans-Manchuriana em 1929, uma rápida intervenção militar soviética pôs fim à crise e forçou os chineses a aceitaram a restauração da administração conjunta da ferrovia.

2. Invasão de Xinjiang – rebeliões islâmicas, colaboracionistas e invasão soviética
A invasão soviética à Xingjiang foi uma campanha militar na região sudoeste da China, em 1934.

A sua raíz remonta à Revolta de Kumul. Nesta revolta, uigures realistas partidários do Khanato de Kumul – um feudo monárquico islâmico semi-autônomo dentro da extinta Dinastia Qing- lutavam para manter sua independência que estava ameaçada pelo governador provincial pró-soviético de Xinjiang, Jin Shuren, e seu sucessor também pró-soviético Sheng Shicai. Os rebeldes islâmicos foram apoiados em sua jihad pelo governo nacionalista chinês.

Army_officers_of_the_Islamic_Republic_of_East_Turkistan

Uma vez deposto Jin Shunren na batalha de Urumqi em 1933, seu sucessor Sheng Shicai manteve-se em confronto com os islâmicos buscando tomar o controle de Xinjiang, apoiado com tropas, tanques, aviões e artilharia soviética. No entanto, como a guerra parecia inconclusiva, a província de Xinjiang acabou sendo dividida em duas e um cessar-fogo foi acordado.

Outro conflito entre islâmicos apoiados por nacionalistas, o governo provincial pró-soviético e a União Soviética ocorreria ainda em 1937. Desta vez, com o regime pró-soviético de Sheng Shicai vitorioso, toda a província de Xinjiang caiu sob domínio soviético.

Posição Política de Xinjiang

Ma_Zhong-ying
Muçulmano e senhor da guerra, o general Ma Zhongying liderou tropas muçulmanas contra o governo provincial de Xinjiang.

A província chinesa de Xinjiang foi um verdadeiro caldeirão de conflitos políticos. Nesta região, uma nascente república islâmica lutava por seu espaço: a República Islâmica do Turquestão Oriental. Somada a ela, outros islâmicos lutavam por sua autonomia, tanto com relação aos senhores da guerra, quanto com relação ao governo nacionalista chinês, quanto com relação à vizinha União Soviética.

Os islâmicos não possuíam alianças formais nem eram uma potência unificada, atuando como milícias pouco coesas e muitas vezes combatendo entre si. Do lado do governo nacionalista chinês, de certo modo, os senhores da guerra do clã Ma (Ma Bufang, Ma Zhongying, Ma Hushan, Ma Zhangcan) lograram uma cooperação entre os rebeldes islâmicos e o governo nacionalista chinês na luta contra os soviéticos e seus colaboradores chineses.

Sheng_Shi-cai
Sheng Shicai, o governador provincial comunista de Xinjiang. Na prática, um fantoche do governo soviético.

O governador provincial pró-soviético, Jin Shuren, bem como seu sucessor Sheng Shicai, colocaram o destino desta região, gradualmente, nas mãos da União Soviética. Em seu governo despótico, as disputas étnicas por territórios acabaram se agravando. Para resolver seus problemas internos, Jin recorreu a um tratado ilegal com a União Soviética, obtendo deste país armamento para suprimir revoltas internas. Deposto, acabou preso pelo governo nacionalista chinês quando retornou à China, porém foi solto em breve.

Seu sucessor, o senhor da guerra Sheng Shicai, era um de seus subordinados antes de sua deposição. Responsável por reprimir a Revolta de Kumul, obteve o governo sobre a província de Xinjiang através de uma série de acordos ilegais com a União Soviética sendo o segundo no comando logo após o Consul soviético, que era o líder de facto. Xinjiang, na verdade, passou a ser um estado satélite soviético.

3. Invasão da Manchúria – O Japão ocupa o “pote de mel” da Ásia.
A invasão do Império Japonês à Manchúria, que era então uma província da República da China, começou em 19 de setembro de 1931 logo após o que ficou conhecido como “incidente de Mukden”. O Império Japonês instaurou aí um Estado-fantoche chamado Manchukuo, que se manteve ocupado pelo menos até o fim da Segunda Guerra. Devido a conflitos diplomáticos consequentes desta operação militar, o Japão se retirou da Liga das Nações.

Posição Política da Manchúria

Emperor Henry Pu Yi, Puppet Monarch
Puyi, o último herdeiro do Império Qing, reabilitado como imperador de Manchukuo.

Um terreno disputado historicamente pela Rússia, pela China e pelo Japão – devido a fartura em recursos minerais e importância estratégica, esta região viveu poucos momentos de paz no século XX.

Desde 1922, sua independência foi mantida pelo seu senhor da guerra Zhang Zuolin. Em 1928, no entanto, a província da Manchúria figurava entre as recentes conquistas do governo nacionalista de Chiang Kai-shek. Zhang Zuolin foi morto em um ataque a bomba – perpetrado pelos japoneses – que pretendia desestabilizar as relações políticas na região em favor do Japão, que invadiria  região em 1931.

Durante a ocupação japonesa da Manchúria, que durou de 1932 a 1945, um Estado-fantoche pró-japonês foi estabelecido. Sua forma de governo nominal era uma monarquia constitucional, embora na prática fosse uma ditadura de partido único liderada pelo Associação Concórdia, um partido nacionalista e monárquico. O líder nominal da nação, Puyi, era o último imperador do regime Qing derrubado em 1912. Na prática, funcionava como um território japonês dentro da Ásia continental, por onde as forças militares japonesas poderiam transitar e operar livremente, bem como explorar recursos naturais em benefício do Império Japonês.

4. Guerra Nipo-Soviética – Os japoneses se aventuram pela Sibéria e pela Mongólia

Antes da ocupação japonesa da Manchúria, a União Soviética havia entrado em conflito com a China nesta região. Após a ocupação japonesa da Manchúria, o Japão voltou seus interesses militares aos territórios soviéticos, e pequenos conflitos ocorreram na fronteira da Manchúria de 1932 até 1937. A Manchúria fazia fronteira com a Mongólia, um Estado-fantoche da União Soviética.

Khalkhin_Gol_Soviet_offensive_1939

A primeira grande Batalha, no entanto, foi a do Lago Xasan – que durou de julho a agosto de 1938 -, quando tropas de Manchukuo tentaram uma incursão militar em território soviético, sem sucesso.

A segunda foi a Batalha de Xalxin Gol, que durou de maio a setembro de 1939. Nesta segunda, a causa teria sido a penetração de uma unidade de cavalaria mongol em território manchu. Tropas manchus a fizeram recuar para além do rio Xalxin Gol, mas os mongóis retornaram em maior número. O conflito foi escalando, com o aumento de tropas japonesas, mongóis e soviéticas crescendo até que o conflito tomou grande proporção.

A vitória dos soviéticos e mongóis assegurou a integridade do território soviético e mongol da invasão japonesa e contribui significantemente para a mudança da estratégia do Império do Japão, que passou a priorizar ações no Sudeste Asiático e no Pacífico, em vez de tentar avanços pela Sibéria. A situação se normalizaria com o Pacto de Não-Agressão entre Japão e URSS de 1941.

Posição Política da Mongólia

Um país que viveu muito tempo sob tutela da China, a Mongólia só conseguiu obter sua independência quando o Império Qing ruiu em 1911. Mesmo assim, sua autonomia foi prontamente violada pela nascente República da China, que o ocupou de 1919 a 1921 até que uma revolução comunista, apoiada pelo Exército Vermelho soviético, instaurou um novo regime e fez dela a República Popular Mongol.

Horloogiyn_Choybalsan
Xorloogiin Choibalsan

Durante o período que vai de 1931 (ocupação japonesa da Manchúria) a 1941 (assinatura do pacto de não-agressão nipo-soviético), o país teve vários chefes de Estado, passando por Losolyn Laagan (1930-1932), Anandyn Amar (1932-1936), Dansranbilegiin Dogsom (1936-1939) e Gonchigiin Bumtsend (1940-1953). Amar e Dogsom não puderam reagir enquanto os soviéticos orquestravam os expurgos na Mongólia, que por fim alcançariam eles próprios, ambos condenados por crimes “contrarrevolucionários”, presos e executados.

Bumtsend não possuía já poder algum quando de sua eleição para o cargo, já que a maioria dos poderes haviam sido transferidos ao cargo de primeiro-ministro. Este foi ocupado de  1939 até 1952 por Xorloogiin Choibalsan, “o Stalin da Mongólia”, que logrou uma ascenção meteórica ao poder no país ao colaborar com o expurgo soviético que eliminou Amar e Dogsom, e foi também o responsável pela quase extinção do Budismo no país, bem como a perseguição de minorias étnicas como buriatos e cazaques, além de dissidentes políticos.

Não demoraria para a presença japonesa na Manchúria justificar a presença de tropas soviéticas no país, que passaria a ser um Estado-fantoche da URSS.

5. Segunda Guerra Sino-Japonesa
A Segunda Guerra Sino-Japonesa começa com a Invasão da Manchúria, mas não se limita a ela. O combate se intensificaria a partir de julho de 1937, quando tropas japonesas dominaram as cidades de Beijing e Tianjin no que ficou conhecido como o incidente da ponte Marco Polo.

IJA_Infantry_in_Manchuria

Apesar dos japoneses estarem relutantes, de início, em escalar o conflito da Manchúria para uma guerra total, Chiang Kai-shek – líder do governo nacionalista chinês – mobilizou rapidamente o exército e a força aérea do governo sob seu comando direto e atacou tropas marítimas japonesas em Shanghai (agosto de 1937), levando à Batalha de Shanghai – vencida pelos japoneses depois de três meses de combate extenuante e um grande número de baixas.

Os japoneses capturaram a capital do governo nacionalista, Nanjing (Nanquim) e Shanxi do Norte no final do mesmo ano de 1937. Neste processo ocorreu o que ficou conhecido como Massacre de Nanquim (ou Estupro de Nanquim). Com a sucessiva captura de Wuhan em 1938, o governo nacionalista mudaria então sua capital para Chongqing, que logo também seria alvo de ataques aéreos.

No início de 1939 a guerra entraria em nova fase com as derrotas japonesas inesperadas em Changsha e Guangxi, o que incentivaria uma contra-ofensiva chinesa – mal sucedida – em 1940. Devido à problemática administrativa dos territórios tomados, os japoneses optaram pela estratégia de criar governos fantoches nos territórios conquistados, o mais proeminente sendo o Governo Nacional Reorganizado da China. Todos eles eram extremamente impopulares e inefetivos, sendo o único sucesso político japonês na região o recrutamento de um grande exército colaboracionista para manter a segurança nas áreas ocupadas.

Em 1941, o Japão controlava a maior parte das áreas costeiras da China e do Vietnã, mas guerrilhas continuaram a operar nestas áreas, de modo similar ao que ocorria na França ocupada. Até esta época, antes da entrada dos Aliados na guerra contra o Japão, a China tinha que se contentar com parcos apoios soviéticos ou nazistas aos seus esforços de guerra, que chegavam tanto para o governo nacionalista quanto para milícias revolucionárias comunistas. Neste momento, o conflito entre nacionalistas e comunistas havia dado lugar a luta contra um inimigo comum, embora sem nenhuma cooperação.

Com a entrada dos Aliados no conflito contra o Japão, a China passa a fazer parte do Teatro de Operações China-Birmânia-Índia e consegue reverter a situação com o apoio anglo-americano: as tropas japonesas se renderiam antes mesmo de serem expulsas do continente, por causa do bombardeio atômico. A China se livrava do invasor japonês para então ver-se novamente mergulhada na guerra civil entre nacionalistas e comunistas.

Posição Política da China

Chiang_Kai-shek
Chiang Kai-shek. Líder do Kuomintang, o partido “nacional-leninista” da República da China.

A República da China, fundada em 1912 quando uma revolução derrubou o Império Qing, era governada então pelo Partido Nacionalista (Kuomintang). Para estabelecer uma autoridade em todo o território chinês foi necessário derrubar um líder revolucionário com pretensões imperialistas (Yuan Shikai), bem como senhores da guerra hostis ao governo.

Estabelecido um governo central unificado e sediado em Nanquim, Chiang cortou relações com os comunistas e os expulsou do Partido Nacionalista. Desde então haveriam conflitos constantes entre o governo, nacionalista, e o Partido Comunista da China. Os conflitos escalariam para uma Guerra Civil entre comunistas e nacionalistas em 1927, interrompida para combater os invasores japoneses.

Mao
Mao Tsé-tung, o líder revolucionário comunista que derrubou o governo nacionalista e fundou a República Popular da China.

Apesar do nome, o governo chinês, obra de Sun Yat-sen, foi inspirado no modelo soviético e no leninismo, tendo o Partido como o centro da atividade política e a ditadura como modus operandi. Apesar de cooperar com a Alemanha intensivamente após a ascensão dos nacional-socialistas ao poder, a aliança do III Reich com o Japão em plena guerra sino-japonesa minou as relações do governo chinês com o governo alemão. Isto foi compensado com a colaboração americana e soviética nos esforços de guerra contra os japoneses.

Segundo a ideologia de Sun Yat-sen, era objetivo final do governo o estabelecimento de uma democracia, e foi isso que o Partido tentou: a Constituição promulgada em 1947 estipulava um sistema pluriparditário onde todos os partidos tivessem igual status, e o Exército Nacional Revolucionário – que era do Partido Nacionalista – foi devolvido ao controle civil como Exército da República da China.

Wang Jingwei
Wang Jingwei

Durante a ocupação japonesa, pelo menos quatro Estados-fantoche foram criados em territórios da China. Destes, um era Manchukuo (Manchúria), e outros três (Governo Reformado da República da China, Governo Provisório da República da China e Mengjiang) foram unificados no Governo Nacional Reorganizado da China (GNRC). O GNRC era nominalmente presidido pelo nacionalista Wang Jingwei, mas o poder era de fato exercido pelo comandante japonês das forças estacionadas na China.

A Guerra Civil Chinesa, reacendida logo após a expulsão do inimigo japonês, colocou o país sob um regime militar do Partido Nacionalista durante o “período de mobilização” (1947-1949). Neste período crítico, os nacionalistas perderam o poder da China continental para os comunistas e moveram-se para o Taiwan, que viveria sob lei marcial até 1991. A China continental, por sua vez, cairía sob as mãos dos comunistas e seria liderada pelo ditador Mao Zedong até 1976.


Comentário:

Estudar a posição da China no conflito nos dá a oportunidade de ver a complexidade das alianças na Segunda Guerra. O governo “nacional-leninista” chinês flertou com a Alemanha Nazista, a União Soviética e por fim recebou o apoio militar das democracias ocidentais (Inglaterra, Reino Unido, Austrália) para combater os japoneses. Mas não sem pagar o preço pela sua ambiguidade: dividido, o governo foi vitimado por secessões colaboracionistas tanto por parte dos comunistas pró-soviéticos como dos nacionalistas pró-japoneses, além de uma guerra civil entre o Kuomintang e o Partido Comunista que culminaria com a divisão das “duas Chinas”. O resultado deste conflito interno perdura até hoje: a China continental comunista ou República Popular da China separou-se de facto  da China insular nacionalista (Taiwan) ou República da China.

Também é interessante notar a atuação da União Soviética. Apoiou o governo nacionalista chinês contra os japoneses, ao mesmo tempo que alimentava seus inimigos do Partido Comunista a ponto de transformar parte do território chinês em um Estado-fantoche. Através de um tratado de neutralidade com o Japão, reconheceu como legítimo o Estado-fantoche de Manchukuo (região ocupada na China), em troca do reconhecimento do seu próprio Estado-fantoche na Mongólia.


Leia também:

Sete lições do Taiwan para a América Latina

De Carlos Alberto Montaner. Artigo traduzido da versão em espanhol disponível no site da ODLV (Organización por la Democracia Liberal en Venezuela).

O Taiwan é uma ilha menor que a Costa Rica e quase tão povoada quanto a Venezuela. Não tem petróleo nem riquezas naturais. Em 1949 era mais pobre que Honduras e mais tiranizada que o Haiti. Hoje é uma democracia estável duas vezes mais rica que a Argentina. Há alguma lição a aprender? Pelo menos sete. Suponho que Chávez, Correa, Ortega, Morales e Raúl Castro, os cinco cavaleiros do Apocalipse do Século XXI, deveriam prestar atenção.

Primeira lição.
Não há destinos imutáveis. Em quatro décadas, o Taiwan logrou superar a tradicional pobreza e despotismo que sofria o país há séculos até converter-se numa nação de primeiro mundo com um per capita de $37,900 anuais medido em paridade de poder de compra. Este milagre econômico se levou a cabo em apenas duas gerações. A pobreza ou a prosperidade são opcionais em nossa época.

Segunda lição.
A teoria da dependência é totalmente falsa. As nações ricas do planeta – o chamado centro – não designaram aos países da periferia econômica o papel de supridores ou abastecedores de matérias-primas para perpetuar a relação de vassalagem. Nenhum país (salvo a China continental) tentou prejudicar o Taiwan. Esta visão paranóica das relações internacionais é uma mentira. Não vivemos em um mundo de países algozes e países vítimas.

Terceira lição.
O desenvolvimento pode e deve ser para benefício de todos. Mas a divisão equitativa da riqueza não se obtém redistribuindo o que foi criado, senão agregando-lhe valor à produção paulatinamente. Os taiwaneses passaram de uma economia agrícola a outra industrial, mas o fizeram mediante a incorporação de avanços tecnológicos aplicados à indústria. O operário de uma fábrica de chips ganha muito mais que um camponês dedicado à produzir açúcar porque o que ele produz tem um valor muito maior no mercado. Isto explica porque o Índice Gini do Taiwan – o que mede as desigualdades – seja um terço melhor que a média latinoamericana. Só 1,16% dos habitantes deste país está sob o umbral da pobreza extrema.

Quarta lição.
A riqueza no Taiwan é fundamentalmente criada pela empresa privada. O Estado, que foi muito forte e intervencionista no passado, foi se retirando da atividade produtiva. O Estado não pode produzir eficientemente porque não está orientado a satisfazer a demanda, gerar benefícios, melhorar a produtividade e investir e crescer, senão para privilegiar a seus quadros e a fomentar a clientela política.

Quinta lição.
No muito citado começo de Ana Karenina, Tolstoy assegura que todas as famílias felizes se parecem umas às outras. A observação pode aplicar-se aos quatro dragões ou tigres asiáticos: Taiwan, Singapura, Coréia do Sul e Hong Kong. Ainda que tenham tomado caminhos parcialmente distintos até o topo do mundo, se parecem nestes cinco pontos:

  • Criaram sistemas econômicos abertos baseados no mercado e na propriedade privada.
  • Os governos mantém a estabilidade cuidando das variáveis macroeconômicas básicas: inflação, gastos públicos, equilíbrio fiscal e, por consequência, o valor da moeda. Com isto, facilitam a economia, o investimento e o crescimento.
  • Melhoraram gradualmente o Estado de Direito. Os investidores e os agentes econômicos contam com regras claras e tribunais confiáveis que lhes permitem fazer investimentos a longo prazo e desenvolver projetos complexos.
  • Abriram-se à colaboração internacional, entrando de cabeça na globalização, apostando na produção e exportação de bens e serviços que são competitivos, em lugar do nacionalismo econômico que postula a substituição de importações.
  • Focaram na educação, na incorporação da mulher no trabalho e no planejamento familiar voluntário.

Sexta lição.
O caso do Taiwan demonstra que um país governado por um partido único de mão forte, como era o caso do Kuomintang, pode evoluir pacificamente para a democracia e o multipartidismo sem que a perda de poder traga perseguições ou desgraças a quem até o momento deteve este processo. A essência da democracia é esta: a alternabilidade e a existência de vigorosos partidos de oposição que auditam, revisam e criticam o trabalho do governo. A imprensa livre é benéfica.

Sétima lição.
Em essência, o caso taiwanês confirma o valor superior da liberdade como atmosfera em que se desenvolve a convivência. A liberdade consiste em poder tomar decisões individuais em todos os âmbitos da vida: o destino pessoal, a economia, as tarefas cívicas, a família. Não há contradição alguma entre a liberdade e o desenvolvimento. Quanto mais livre é uma sociedade mais prosperidade será capaz de alcançar. Para isto, claro, é imprescindível que a imensa maioria das pessoas, encabeçadas pela classe dirigente, se submetam voluntária e responsavelmente ao império da lei.

Artigo original em espanhol aqui.