O Antimarxismo de Hitler prova que ele era de Direita?

Texto meu (Davi Caldas) publicado também no blog “Mundo Analista”. Para ler o texto original, clique aqui.

Hitler e Stálin – Líderes do Nacional Socialismo e do Socialismo Marxista, respectivamente

A esquerda nos diz que Hitler e o seu movimento Nacional Socialista eram de direita ou, para ser mais exato, de extrema-direita. Um dos argumentos mais frequentemente utilizados para sustentar esta alegação é o fato de que Hitler (e, por conseqüência, o Nacional Socialismo) era antimarxista. Ora, poderíamos descartar o argumento logo de início, pois o mesmo parte do falso pressuposto de que o marxismo é a única doutrina de esquerda que existe e que, portanto, qualquer que seja contrário a ela é, automaticamente, de direita. Tal pressuposto é falso porque, desde seu surgimento, a esquerda sempre contou com doutrinas políticas que não intentavam implantar o comunismo. Os jacobinos da época da revolução francesa (pré-marxistas, pode-se dizer) e os democratas americanos a partir dos 1920 são apenas alguns exemplos de esquerdistas que não podem ser chamados de marxistas, ainda que encontremos em suas doutrinas algumas semelhanças com a ideologia do pensador alemão.

Na realidade, contanto que uma pessoa preserve traços esquerdistas básicos (como, por exemplo, a crença de que o governo deve multiplicar suas funções e impostos, a fim de fazer “justiça social”) é perfeitamente possível que essa pessoa seja esquerdista e, ao mesmo tempo, uma opositora ferrenha do marxismo. Como? Vejamos. Eu, por exemplo, acredito que a teoria de Marx é impossível de se realizar na prática, tal como ele havia pensado. Ele imaginava uma espécie de “ditadura democrática”, na qual todo o proletário iria governar, e que seria temporária, dando lugar ao posterior comunismo. Para mim, é óbvio que isso não daria certo em hipótese alguma, porque o homem tende a abusar do poder e uma ditadura do proletariado certamente se tornaria uma ditadura de líderes que se dizem “representantes” do proletariado.

Assim, mesmo que eu fosse esquerdista (como, de fato, já fui, embora não o soubesse) provavelmente seria veementemente contrário ao marxismo, dada a minha crença na impossibilidade prática do mesmo. Ainda assim, eu poderia crer na capacidade do Estado de fazer justiça social, votar em candidatos trabalhistas, ser contrário ao livre mercado, querer mais intervenção governamental, lutar por mais empresas e serviços públicos e etc. De fato, a maioria dos esquerdistas atuais tem esse perfil. Não querem destruir o capitalismo. Querem apenas “domá-lo”.

Então, apontar Hitler e o Nazismo como antimarxistas em nada prova que eles eram de direita e não de esquerda. É preciso cavar mais fundo na questão. E eu acredito que uma boa forma de começar a cavar é indo até o livro em que Adolf Hitler expõe seus ideais nazistas, o Mein Kampf (Minha Luta). O que será que ele diz sobre o marxismo? Será que o livro deixa claro que Hitler era contra o marxismo, justamente porque era de direita? Vamos ver.

Nesse tempo, abriram-se-me os olhos para dois perigos que eu mal conhecia pelos nomes e que, de nenhum modo, se me apresentavam nitidamente na sua horrível significação para a existência do povo germânico: marxismo e judaísmo.

Esse primeiro trecho é interessante porque dá a tônica para o restante do livro de Hitler. Conforme veremos, Adolf Hitler enxergava uma relação entre o movimento marxista, o movimento social-democrata (que, na época, era uma variante menos radical do marxismo) e o povo judeu. Ao longo do livro ele vai explicando esse ponto de vista e mostrando como chegou a essa conclusão.

[…] a atividade da social-democracia não me parecia antipática. Como esse movimento se preocupava em melhorar as condições vitais do operariado – como eu acreditava na minha ingenuidade de outrora – pareceu-me melhor falar a seu favor do que contra. O que mais me afastava da social-democracia era sua posição de adversária em relação ao movimento pela conservação do espírito germânico […].

Na idade de dezessete anos, a palavra marxismo era-me pouco conhecida, enquanto socialismo e social-democracia pareciam-me concepções idênticas. Foi preciso, também, nesse caso, que o punho forte do destino me abrisse os olhos para essa maldita maneira de ludibriar o povo.

Aqui Adolf Hitler afirma que em sua juventude, ele não tinha nada contra o movimento social-democrata (a não ser o fato de que eles não eram nacionalistas) e que não conhecia o marxismo. Mas prepara o terreno para mostrar que sua concepção logo mudaria. É interessante ressaltar como ele mostra uma inclinação à esquerda julgar positiva a preocupação social-democrata com o proletariado. Não que a preocupação com trabalhadores seja monopólio esquerdista, mas um direitista jamais iria admirar a “preocupação” da esquerda com os mesmos, já que a “preocupação” esquerdista com os trabalhadores implica em ser contrário ao livre mercado e a favor do intervencionismo estatal. Então, já aqui começa a ficar claro que Hitler não se tornaria antimarxista por ser favorável às doutrinas econômicas de direita. Em outro ponto, Hitler afirma:

Vi diante de mim uma doutrina, constituída de egoísmo e de ódio, que, por leis matemáticas, poderá ser levada à vitória, mas arrastará a humanidade à ruína. Nesse ínterim, eu já tinha compreendido a ligação entre essa doutrina de destruição e o caráter de uma certa raça para mim até então desconhecida. Só o conhecimento dos judeus ofereceu-me a chave para a compreensão dos propósitos íntimos e, por isso, reais da social-democracia. Quem conhece este povo vê cair-se-lhe dos olhos o véu que impedia descobrir as concepções falsas sobre a finalidade e o sentido deste partido e, do nevoeiro do palavreado de sua propaganda, de dentes arreganhados, vê aparecer a caricatura do marxismo.

A relação que Adolf Hitler trava entre marxismo, social-democracia e o povo judeu começa a ficar mais explícita neste ponto. Perceba que Hitler fala em “propósitos íntimos e, por isso, reais da social-democracia”, o que quer dizer que o líder nazista era adepto de uma teoria da conspiração. Ele achava que a social-democracia, bem como o marxismo escondiam seus verdadeiros objetivos que estavam ligados, de alguma forma, a objetivos também escondidos do povo judeu. Ele continua em outra parte:

Pouco a pouco, compreendi que a imprensa social-democrática era, na sua grande maioria, controlada pelos judeus. Liguei pouca importância a esse fato que, aliás, se verificava com os outros jornais. Havia, porém, um fato significativo: nenhum jornal em que os judeus tinham ligações poderia ser considerado como genuinamente nacional, no sentido em que eu, por influência de minha educação, entendia essa palavra.

Vencendo a minha relutância, tentei ler essa espécie de imprensa marxista, mas a repulsa por ela crescia cada vez mais. Esforcei-me por conhecer mais de perto os autores dessa maroteira e verifiquei que, a começar pelos editores, todos eram judeus.

Examinei todos os panfletos sociais-democráticos que pude conseguir e, invariavelmente, cheguei à mesma conclusão: todos os editores eram judeus. Tomei nota dos nomes de quase todos os líderes e, na sua grande maioria, eram do “povo escolhido”, quer se tratasse de membros do “Reichscrat”, de secretários dos sindicatos, de presidentes de associações ou de agitadores de rua. Em todos encontravam-se sempre a mesma sinistra figura do judeu. Os nomes de Austerlitz, David, Adler, Ellenbogen etc., ficarão eternamente na minha memória. Uma coisa tornou-se clara para mim. Os líderes do Partido Social Democrata, com os pequenos elementos do qual eu tinha estado em luta durante meses, eram quase todos pertencentes a uma raça estrangeira, pois para minha satisfação íntima, convenci-me de que o judeu não era alemão.

Só então compreendi quais eram os corruptores do povo. Um ano de estadia em Viena tinha sido suficiente para dar-me a certeza de que nenhum trabalhador deveria persistir na teimosia de não se preocupar com a aquisição de um conhecimento mais certo das condições sociais. Pouco a pouco, familiarizei-me com a sua doutrina e dela me utilizava como instrumento para a formação de minhas convicções íntimas. Só então compreendi quais eram os corruptores do povo.

É preciso entender o raciocínio de Hitler dentro de seu contexto. Em sua época, os judeus estavam espalhados por toda a Europa. Havia realmente muitos judeus e nas mais diversas camadas sociais. Isso incomodava muitos europeus, que preservavam um espírito um pouco xenófobo. Deste modo, o pensamento anti-semita não era incomum e nem recente, mas vinha se desenvolvendo havia algumas décadas.

Não sabemos ao certo se havia algo mais que fazia Hitler odiar os judeus, mas é neste contexto de diversos judeus espalhados pela Europa e de xenofobia crescente, que Hitler começa a crer que existia um enorme plano maquiavélico judaico para dominar o mundo. A presença de judeus em diversas profissões e camadas sociais seria parte do plano. Cada qual estaria estrategicamente posicionado, infiltrando na cultura suas idéias, enriquecendo e tomando conta de espaços e trabalhos. Desta forma, social-democracia e marxismo seriam apenas dois instrumentos nas mãos dos judeus para alcançar sua meta suprema. Por isso, ele alerta:

Se o judeu, com o auxilio do seu credo marxista, conquistar as nações do mundo, a sua coroa de vitórias será a coroa mortuária da raça humana e, então, o planeta vazio de homens, mais uma vez, como há milhões de anos, errará pelo éter. A natureza sempre se vinga inexoravelmente de todas as usurpações contra o seu domínio. Por isso, acredito agora que ajo de acordo com as prescrições do Criador Onipotente. Lutando contra o judaísmo, estou realizando a obra de Deus.

Fica evidente que Hitler enxergava o marxismo e todas as suas variações como braços do plano judaico de dominação mundial. Era isso que o fazia ser contrário ao marxismo. E para ele, a sua conclusão era fruto de muito estudo, conforme afirma em outro ponto:

Gradualmente o meu estudo me forneceu princípios graníticos para as minhas próprias convicções – tanto que desde então nunca pensei em mudar minhas opiniões pessoais sobre o caso. Fiz também um profundo estudo das ligações do marxismo com o judaísmo.

Conforme vai chegando ao fim do livro, Hitler vai se tornando cada vez mais enfático quanto a relação entre marxismo e judaísmo. Diz:

O marxismo, cuja finalidade última é e será sempre a destruição de todas as nacionalidades não judaicas, teve de verificar com espanto que, nos dias de julho de 1914, os trabalhadores alemães, já por eles conquistados, despertaram, e cada dia com mais ardor se apresentavam ao serviço da pátria. Em poucos dias, estava destruída a mistificação desses embusteiros infames dos povos. Solitária e abandonada, encontrava-se essa corja de agitadores judeus, como se não restasse mais um traço das loucuras inculcadas, durante mais de 60 anos, ao operariado alemão.

Sua concepção do assunto englobava tudo. Ele acreditava ter descoberto todos os enlaces do suposto plano judaico de dominação mundial. Ele fala, por exemplo, da questão econômica:

Comecei a aprender e compreender, só agora, o sentido e a finalidade da obra do judeu Karl Marx. Só agora compreendi bem seu livro – “O Capital” – assim como a luta da social-democracia contra a economia nacional, luta essa que tem em mira preparar o terreno para o domínio da verdadeira alta finança internacional.

O entendimento de Hitler sobre a economia marxista era mais ou menos assim: o judeu encenava que estava lutando a favor do proletariado e que colocaria a economia em suas mãos. Ao mesmo tempo desprezava nacionalidades, criando uma mentalidade internacionalista. A idéia era quebrar as fronteiras entre países para que quando o judeu, em qualquer país, dominasse a economia, tivesse facilidade de dominar a economia de outras partes do mundo, já que não nacionalidades não mais importam e a economia marxista deve ser uma só. A isso Adolf Hitler denominava “capitalismo internacional judaico”. Vejamos:

O que a chamada imprensa liberal fez antes da guerra foi cavar um túmulo para a nação alemã e para o Reich. Não precisamos dizer nada sobre os mentirosos jornais marxistas. Para eles o mentir é tão necessário como para os gatos o miar. Seu único objetivo é quebrar as forças de resistência da nação, preparando-a para a escravidão do capitalismo internacional e dos seus senhores, os judeus.

Em outro trecho, Hitler repete a dose:

Antes da guerra, a internacionalização dos negócios alemães já estava em andamento, sob o disfarce das sociedades por ações. É verdade que uma parte da indústria alemã fez uma decidida tentativa para evitar o perigo, mas, por fim, foi vencida por uma investida combinada do capitalismo ambicioso, auxiliado pelos seus aliados do movimento marxista.

Ainda em outro trecho é possível ler:

Se a fúria dos aproveitadores internacionais em Versalhes se dirigia contra o antigo exército alemão é que este era o último reduto das nossas liberdades na luta contra o capitalismo internacional. Não fosse essa força ameaçadora, a Intenção de Versalhes se teria realizado muito antes. O que o povo alemão deve ao exército pode-se resumir nesta palavra: tudo.

Hitler também fala em seu livro sobre como entendia a atuação dos judeus na imprensa. O seu raciocínio, embora fantasioso, não deixa de ser interessante. Ele cria que os judeus criavam uma aparência de luta entre burgueses e proletários, a fim de sempre ter a imprensa em suas mãos. Assim, se qualquer das classes, por algum motivo, perdesse uma batalha política, isso não iria afetar o plano judaico, pois na derrota de uma a outra permanecia. Ele escreve:

A conduta dos representantes do governo [alemão] falhou […]. De quando em vez, quando gravemente ofendidos, eles punham no xadrez algumas víboras jornalísticas [marxistas] por algumas semanas, ou mesmo meses, mas deixavam sempre o seu ninho em paz.

Tudo isso era a conseqüência, por um lado, da tática astuciosa dos judeus e, por outro, da conselheira estupidez ou da ingenuidade do mundo oficial. O judeu era esperto bastante para não consentir que toda a sua imprensa fosse, ao mesmo tempo, manietada. Uma parte da mesma estava sempre livre para acobertar a outra. Enquanto os jornais marxistas, da maneira mais baixa, combatiam o que de mais sagrado poderia parecer aos homens, investiam, pelos processos mais infames contra o governo e açulavam grandes setores da população uns contra os outros, as folhas democrático-burguesas dos judeus davam a aparência da mais notável preocupação com esses fatos, concentravam todas as suas forças, sabendo exatamente que os imbecis só sabem julgar pelas aparências, e jamais são capazes de penetrar no âmago das coisas. É a essa fraqueza humana que os judeus devem a consideração em que são tidos.

Um trecho interessante que mais uma vez demonstra o viés esquerdista de Hitler, mesmo sendo antimarxista, é quando ele começa a falar sobre como acreditava que se deveria agir contra a imprensa judaica. Afirma:

Um dia virá em que o judeu gritará bem alto nos seus jornais, quando sentir que uma mão forte está disposta a pôr fim a esse vergonhoso uso da imprensa, pondo esse instrumento de educação a serviço do Estado, retirando-o das mãos de estrangeiros e inimigos da nação. Acredito que essa empresa, para nós jovens, será menos incômoda do que o foi aos nossos pais. Uma granada de trinta centímetros fala mais alto do que mil víboras da imprensa judaica.

Neste trecho, o esquerdismo de Hitler é latente. Seu pensamento segue o molde de todas as doutrinas de esquerda. A esquerda se define pelo pressuposto básico de que o homem é capaz de resolver a crueldade e as injustiças sociais através de alguma ferramenta. Essa ferramenta quase sempre é o governo, que deve receber o máximo de funções possíveis, a fim de conquistar essa meta. A crueldade e as injustiças, por sua vez, são sempre causadas por inimigos que precisam ser combatidos. Assim, em todo governo esquerdista, sempre há uma luta apocalíptica entre o governo e os “inimigos” do bem-estar social.

O que difere as várias doutrinas esquerdistas uma das outras é a visão que cada uma delas possui sobre quem são os inimigos do bem-estar social. Para marxistas, os inimigos são os burgueses, os líderes religiosos e os conservadores. Para Adolf Hitler, no entanto, os inimigos eram os judeus, os estrangeiros que residiam na Alemanha, os negros, os deficientes e todos os que se afastavam do “perfil ariano”.

Então, perceba que Hitler define os inimigos do bem estar social, apresenta a mão forte do governo como a grande solução para o problema e afirma que a nova imprensa estaria a serviço do Estado, o que nada mais é do que intervencionismo estatal, controle de empresas privadas e oposição ao livre mercado. Tudo isso “em prol” do bem estar social. Ora, isso é economia de esquerda pura!

A coisa vai ficando mais interessante na medida em que Hitler começa a apontar o socialismo pregado pelo marxismo como algo falso, que, na realidade, pretende fazer exatamente o inverso do que prega: fortalecer o capitalismo. Torna-se claro que Hilter é um socialista que deseja implantar o que ele julga ser o verdadeiro socialismo. Ele diz:

Doravante, só resta ao operário a tarefa de pelejar pelo futuro do povo judeu. Sem se aperceber, entra a serviço da potência que ele tem a ilusão de combater. Com a aparência de deixá-la atacar o capital, é que se pode melhor fazê-la lutar pelo mesmo. Nisso tudo, grita-se constantemente contra o capital internacional, quando em verdade o que se visa e a economia nacional. É esta que importa demolir para que, no seu cemitério, se possa edificar triunfalmente a Bolsa Internacional.

O processo aí empregado pelo judeu é o seguinte: aproxima-se do trabalhador, finge compaixão pela sua sorte ou mesmo revolta contra seu destino de miséria e indigência, tudo isso unicamente para angariar confiança. Esforça-se por examinar cada privação real ou imaginária na vida dos operários, despertando o desejo ardente de modificar a sua situação. A aspiração à justiça social, latente em cada ariano, é por ele levada de um modo infinitamente hábil, ao ódio contra os privilégios da sorte; a essa campanha pela debelação de pragas sociais imprime um caráter de universalismo bem definido. Está fundada a doutrina marxista.

Apresentando-a inseparavelmente ligada a toda uma série de exigências sociais bem legítimas, vai ele favorecendo sua propaganda e, por outro lado, despertando a aversão da humanidade bem intencionada em satisfazer aquelas exigências, que, expostas da maneira por que o são, aparecem desde o inicio, como injustas, e mesmo de impossível realização.

É que, sob esse disfarce de idéias puramente sociais, escondem-se intenções francamente diabólicas. Elas são externadas ao público com uma clareza demasiado petulante. A tal doutrina representa uma mistura de razão e de loucura, mas de tal forma que só a loucura e nunca o lado razoável consegue se converter em realidade. Pelo desprezo categórico da personalidade, por conseguinte da nação e da raça, destrói ela as bases elementares de toda a civilização humana, que depende justamente desses fatores.

Eis a verdadeira essência da teoria marxista, se é que se pode dar a esse aborto de um cérebro, criminoso a denominação de “doutrina”. Com a ruína da personalidade e da raça, desaparece o maior reduto de resistência contra o reino dos medíocres, de que o judeu é o mais típico representante.

Essa doutrina pode ser julgada justamente pelos seus desvarios em matéria econômica e política. Todos os que, de fato, são inteligentes hesitam em entrar no seu séquito, e os outros, a quem falta suficiente atividade intelectual ou preparo econômico, precipitam-se ao seu encontro. O judeu, dentro de suas próprias fileiras, “sacrifica” o elemento inteligente ao movimento, pois mesmo semelhante movimento não se pode manter sem inteligência. Assim cria-se um verdadeiro movimento trabalhista, sob a chefia de judeus. Aparentam visar à melhora das condições dos operários, tendo na mente, porém, em verdade, a escravização e o aniquilamento de todos os povos que não são judeus.

Impressionante esse trecho! Hitler deixa claro que não critica o marxismo tanto por seu conteúdo, mas por sua mentira. Ou seja, Hitler está querendo dizer que concorda com as propostas sociais marxistas, mas que se opõe ao marxismo porque, segundo ele, tudo não passa de um embuste judaico para escravizar as nações. É como se Hitler estivesse dizendo: “Ei! Vocês não são socialistas de verdade! São exploradores do povo!”. Para Hitler era claro que o “socialismo” marxista não passava de capitalismo judeu. A análise que ele faz do panorama mundial da época leva em conta essa concepção.

A internacionalização da economia alemã, isto é, a exploração do trabalho alemão por parte dos financeiros judeus internacionais, somente será praticável em um Estado politicamente bolchevizado. Mas a tropa de assalto marxista do capitalismo internacional judaico só poderá quebrar definitivamente a espinha dorsal do Estado alemão mediante a assistência amigável de fora. Por isso, os exércitos da França devem ocupar a Alemanha, até que o Reich, corroído no interior, seja dominado pelas forças bolchevistas a serviço do capitalismo judaico internacional.

Assim, o judeu é, hoje em dia, o grande instigador do absoluto aniquilamento da Alemanha. Todos os ataques contra a Alemanha, no mundo inteiro, são de autoria dos judeus. Foram eles que, na paz como durante a guerra, pela sua imprensa, atiçaram, premeditadamente o ódio contra a Alemanha, até que Estado por Estado abandonou a neutralidade e assentou praça na coligação mundial, renunciando aos verdadeiros interesses dos seus povos.

As idéias do judaísmo nesse assunto são de uma clareza meridiana. A bolchevização da Alemanha, isto é, a exterminação da cultura do nosso povo e a conseqüente pressão sobre o trabalho alemão por parte dos capitalistas judeus é apenas o primeiro passo para a conquista do mundo por essa raça.

Que Hitler era anticapitalista fica claro aqui. Ele não pretendia destruir todo o sistema capitalista, é verdade. Mas para ser anticapitalista não é necessário ter essa intenção. Basta encarar o capitalismo em seu estado puro como algo ruim e procurar domá-lo através do governo, intervindo intensamente na economia e engessando o livre mercado e a livre concorrência. É aquela velha retórica esquerdista de controlar o “capitalismo selvagem” em prol da sociedade.

Também fica claro aqui que a briga entre marxistas e nacional socialistas era, na verdade, uma disputa entre duas doutrinas de esquerda que almejavam o status de “verdadeiro socialismo”, acusando-se um ao outro de “capitalista”. Esse tipo de disputa dentro do próprio pensamento de esquerda sempre foi muito comum. Revolucionários franceses dividiram-se em jacobinos e girondinos; revolucionários russos dividiram-se em bolcheviques e mencheviques; revolucionários bolcheviques dividiram-se em stalinistas e trotskistas; stalinistas também passaram a fazer oposição aos fascistas (que tinham profundas raízes marxistas). E por aí vai. Nenhuma dessas disputas, contudo, mudou o fato de que todas essas visões são de esquerda.

Hitler continua a acusar o marxismo de ser um socialismo de fachada:

De acordo com as finalidades da luta judaica, que não consistem unicamente na conquista econômica do mundo, mas também na dominação política, o judeu divide a organização do combate marxista em duas partes, que parecem separadas, mas, em verdade, constituem um bloco único: o movimento dos políticos e o dos sindicatos. Esse último é um trabalho de aliciamento. Na dura luta pela existência, que o operário tem que enfrentar, devido à ganância e à miopia de muitos patrões, o movimento lhe propõe ajuda e proteção e a possibilidade de combater por uma melhora nas suas condições de vida. […].

Na mesma proporção, a chamada burguesia nacional, cega pelo dinheiro, põe os maiores obstáculos a essa luta pela vida, opondo-se contra todas as tentativas de abreviação do horário de trabalho, desumanamente longo, supressão do trabalho infantil, segurança e proteção da mulher, melhoramento das condições sanitárias em oficinas e moradias, etc.

O judeu, mais inteligente, toma a defesa dos oprimidos. Aos poucos, torna-se o chefe do movimento social. Isso lhe é fácil, pois não se trata, na realidade, de combater com boa intenção as chagas sociais, mas somente de selecionar uma tropa de combate, nos meios proletários, que lhe seja cegamente devotada na campanha de destruição da independência econômica do país. Enquanto a chefia de uma sã política social não aceitar firmemente estas duas diretrizes: conservação da saúde do povo e segurança de uma independência nacional no terreno econômico, o judeu na sua luta não só descurará completamente esses dois problemas, como fará de sua supressão uma verdadeira finalidade. Não deseja ele a conservação de uma economia nacional independente, mas, ao contrário, o seu aniquilamento.

Em conseqüência, não há escrúpulos de consciência que possam demovê-lo, como chefe do movimento proletário, de fazer exigências, não só exorbitantes, como praticamente irrealizáveis e próprias a acarretar a ruína da economia nacional. Não cogita ele de ver uma geração sadia e robusta, deseja somente um rebanho contaminado e apto a ser subjugado. Com esse desideratum, faz exigências tão destituídas de senso que sua realização (ele não o ignora) se torna impossível e não pode provocar nenhuma modificação do estado de coisas existente. Serve apenas para excitar a massa popular até ao desvario. Isso, porém, é o que ele quer e não a modificação para melhor da situação do proletariado.

Dois pontos devem ser observados aqui. O primeiro é como Hitler se coloca como um genuíno socialista em suas descrições, em oposição aos marxistas, que seriam, segundo ele, embusteiros. O segundo é como Hitler liga cuidadosamente um ponto ao outro. Enquanto ele monta um perfil do inimigo supremo da sociedade (o judeu), dando crédito as suas palavras através de uma análise minuciosa dos mecanismos de engano supostamente usados por este povo, prepara o campo para suas idéias de governo. O parágrafo subseqüente diz:

A chefia do judeu na questão social se manterá até o dia em que uma campanha enorme em prol do esclarecimento das massas populares se exerça instruindo-as sobre sua miséria infinita, ou até que o Estado aniquile tanto o judeu como sua obra. É claro que, enquanto durar a falta de perspicácia do povo, e o Estado se conservar indiferente como o tem sido até hoje, as massas seguirão sempre de preferência aquele, cujas promessas, de ordem econômica, forem as mais audaciosas. Nisso, aliás, o judeu leva a palma, pois nenhum escrúpulo moral entrava a sua ação.

Mais uma vez o esquerdismo de Hitler é patente aqui. Ele invoca o poder do Estado mais uma vez para esclarecer às massas sobre suas misérias e para aniquilar o judeu. O Estado não pode “se conservar indiferente como o tem sido até hoje”. A partir daí, Hitler começa a investir pesado na “justificação” de seu racismo. E ele vai tão longe que afirma que o objetivo do Estado é preservar a raça pura. Diz:

Em face disso, a concepção “racista” distingue a humanidade em seus primitivos elementos raciais, Ela vê, no Estado, em princípio, apenas um meio para um fim e concebe como fim a conservação da existência racial humana. Consequentemente, não admite, em absoluto, a igualdade das raças, antes reconhece na sua diferença maior ou menor valor e, assim entendendo, sente-se no dever de, conforme à eterna vontade que governa este universo, promover a vitória dos melhores, dos mais fortes e exigir a subordinação dos piores, dos mais fracos.

O Estado como ferramenta para o novo mundo e a luta entre raças nos oferece o tom de esquerdismo do nacional socialismo. No marxismo temos classes sociais. No nazismo temos raças. Mas, no fim das contas, temos em ambas as visões de mundo uma polarização da sociedade e um conflito que deve ser travado para que se alcance uma sociedade reformada. Neste momento que entra a função do Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães:

Mas a organização de uma concepção do mundo só pode efetuar-se duradouramente sobre a base de uma fórmula definida e clara. Os princípios políticos do partido em formação devem ser como os dogmas para a Religião. Por isso, a concepção racista do mundo tem de tornar-se um instrumento que permita ao Partido as devidas possibilidades de luta, tal como a organização partidária marxista abre o caminho para o internacionalismo. Esse fim visa o Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães.

Estava demorando! Depois de fazer toda a análise do problema da sociedade, Hitler vem com a solução, claro! A solução estava em um partido forte, regido por princípios quase religiosos, que iria transformar o Estado em um verdadeiro Estado socialista. Não há nada original neste ponto. O elogio ao fascismo italiano segue os moldes do pensamento esquerdista:

[…] a perseguição da imprensa internacionalista, assim como o constante combate ao marxismo internacional, por outro lado a constante consolidação da doutrina fascista, habilitarão, no curso dos anos, o governo italiano a, cada vez mais, poder servir aos interesses do seu povo, sem receio da hidra judaica.

Veja o raciocínio de Hitler: lutar contra os marxistas era possibilitar o governo a servir aos interesses do povo. Por quê? Porque o marxismo era apenas socialismo de fachada, uma doutrina político-econômica judaica de dominação mundial. A análise de Hitler é extensa. Ele não cita apenas a Itália, mas vários países europeus, explicando que em cada país os judeus agiam de uma maneira diferente para conseguir seus objetivos, sempre de acordo com as características do país. Então, cita a Rússia, falando sobre o perigo do bolchevismo russo para o mundo. Conclui:

Devemos enxergar no bolchevismo russo a tentativa do judaísmo, no século vinte, de apoderar-se do domínio do mundo, justamente da mesma maneira por que, em outros períodos da história, ele procurou, por outros meios, embora intimamente parecidos, atingir os mesmos objetivos. A sua aspiração tem raízes na sua maneira de ser.

Acredito que estes textos deixam bem claro que o antimarxismo de Adolf Hitler nem chega perto de colocá-lo na posição de direitista. A verdade é que Hitler era um esquerdista fervoroso, que considerava o Nazismo como o verdadeiro socialismo e o marxismo como uma doutrina judaica de dominação mundial, a qual ele freqüentemente denominava como capitalismo judaico internacional.

Um pequeno adendo           

Achei por bem colocar um adendo no fim desse artigo. Há pessoas que podem continuar insistindo que Hitler era antimarxista por ser direitista, baseando-se em alguns trechos de Mein Kempf que são apontados por esquerdistas como prova de que Hitler comungava de idéias básicas da direita. Eu gostaria de analisar pelo menos dois desses trechos, a fim de não deixar dúvidas sobre o esquerdismo de Hitler. Os dois trechos que escolhi me parecem ser os mais contundentes e acredito que a análise deles poderá servir de base para a análise de outros que o leitor poderá fazer por si próprio, quando ler o livro. O primeiro trecho é esse:

A doutrina judaica do marxismo repele o princípio aristocrático na natureza. Contra o privilégio eterno do poder e da força do indivíduo levanta o poder das massas e o peso-morto do número. Nega o valor do indivíduo, combate a importância das nacionalidades e das raças, anulando assim na humanidade a razão de sua existência e de sua cultura.

Alegam os esquerdistas que esse trecho é uma prova de que Hitler era de direita por três motivos. Em primeiro lugar, porque ele defende o “princípio aristocrático da natureza”, que seria um princípio no qual a direita acredita e a esquerda repele. Em segundo lugar, porque exalta o individualismo, criticando o marxismo por sua noção coletivista de sociedade. E, em terceiro lugar, porque exalta nacionalidades e raças, que é algo considerado conservador por quem é de esquerda.

Todos esses pontos, contudo, são falhos. Vamos começar pelo tal “princípio aristocrático da natureza”. O que viria a ser isso? Bem, para Hitler esse princípio tinha a ver com a alegação de que existem raças diferentes de homens e que algumas raças são superiores às outras. O pensamento fundamental de direita, no entanto, jamais defendeu uma sandice dessas. Embora seja verdade que muitos direitistas, ao longo da história, tenham sido racistas, tais concepções não passavam de opiniões pessoais que nada tinham a ver com a visão de mundo da direita. Até porque, ser racista independe de posição política. Pode-se ser tanto um direitista racista como um esquerdista racista.

O que a esquerda faz aqui é, na verdade, uma grande confusão. Ela confunde o “princípio aristocrático da natureza”, de Hitler, com o “princípio da diversidade natural”, este sim, defendido pelo pensamento de direita. Segundo tal princípio, os seres humanos nascem com diferenças de habilidades e, dentro dessas habilidades, há ainda quem seja melhor do que o outro. Isso é óbvio e não há preconceito nesta idéia. Por exemplo, em uma sala de aula nem todos são bons em química. Talvez, de 30 alunos, apenas 10 se dêem bem nesta matéria. E dentro destes 10, certamente há um ou dois que é melhor do que os outros. Isso vale para qualquer habilidade. É por isso que existem hierarquias, divisões de funções e até mesmo uma divisão desigual de riquezas. Não obstante, acreditar nisso não significa acreditar em raças naturalmente inferiores ou superiores.

Ironicamente, a idéia de usar o racismo dentro da política para criar grupos de conflito no mundo é uma idéia que encontra maior aporte na esquerda. Afinal, a direita rechaça a idéia de ver o mundo como uma enorme luta entre classes, ao passo que a esquerda se baseia nisso. Burgueses x Proletários; Religiosos x Ateus; Conservadores x Radicais; Brancos x Negros; Heterossexuais x Homossexuais; Machistas x Feministas; Pró-vida x Pró-escolha e etc. O mundo esquerdista é polarizado. Tem que haver um grupo oprimido, que precisa se proteger e se vingar, e um grupo opressor, que precisa ser combatido. O mundo direitista não tem grupos. Só indivíduos. Assim, o princípio de Hitler é apenas uma variação da mentalidade grupal (ou classista) da esquerda.

Quanto à questão da exaltação do individualismo, feita por Hitler, há aqui um paradoxo. Todos reconhecem que o Nacional Socialismo não foi uma doutrina que defendeu a liberdade individual. O simples fato de criar um objetivo único para todos é uma prova de que o regime não tinha a intenção de dar autonomia de pensamento ao indivíduo, mas pretendia controlar sua vida através do Estado. Então, o que será que Hitler quis dizer quando criticou o marxismo por negar o valor do indivíduo?

A explicação é simples. Hitler havia reparado que a doutrina marxista criava uma enorme massa amorfa de pessoas através da mistura de nacionalidades e culturas diferentes. Tudo se perdia nessa mistura, pois a doutrina enxergava a todos como apenas proletários. Raça, cultura, língua, hábitos e nacionalidade eram engolidos por essa massa proletária. Como Hitler era essencialmente nacionalista e racista, ele precisava fazer seus leitores se sentirem desconfortáveis em relação à maneira como o marxismo via as pessoas. O que ele faz? Primeiro, ele mostra como que o indivíduo não tem valor no marxismo, pois é apenas mais um proletário. Depois define o indivíduo em termos de nacionalidade, raça, cultura, língua e hábitos (tudo o que a massa amorfa do marxismo não levava em conta). Por fim, apresenta o nazismo como uma ideologia que valorizava o indivíduo, já que levava em conta o que o definia.

A mágica estava feita. Com essa retórica, Hitler conseguiu fazer as pessoas se sentirem valorizadas dentro do nazismo. Como, de fato, existe um senso muito maior de aproximação entre pessoas de mesma nacionalidade, cultura e etc., elas não se sentiam dentro de uma massa amorfa, mas dentro de uma grande família. Contudo, o suposto individualismo de Adolf Hitler é refutado em seu próprio texto. Observe esse trecho:

O Estado nacionalista racista tem que cuidar do bem-estar dos seus cidadãos, em tudo em que reconhecer o valor da personalidade, e, assim, introduzir, em todos os campos de atividade, aquela produtiva capacidade de direção que só ao indivíduo é concedida.

Veja a contradição: Hitler fala em valorizar a personalidade, o indivíduo, mas deixa claro que isso é obrigação do Estado, bem como é sua obrigação cuidar do bem-estar dos cidadãos. Sabemos o que eles quer dizer com essas palavras. Sua intenção é se intrometer na vida dos cidadãos, através do governo, ditando aquilo que o Estado acha que é bom para o indivíduo. Isso nada mais é do que coletivismo! Individualismo é o Estado deixar o indivíduo por si próprio.

Com relação à defesa de nacionalidades e raças feitas por Hitler, mais uma vez, isso não é doutrina de direita. A direita acredita em diferenças de habilidades entre as pessoas (o que leva à existência de hierarquia) e no patriotismo, que é bem diferente de nacionalismo. O patriotismo é o amor pela nação, enquanto o nacionalismo é a criação de uma classe política nacional que se opõe às outras nações. E eu torno a dizer que tal visão classista é uma variante da mentalidade classista comum à esquerda.

O segundo trecho que quero analisar é este:

A ação destruidora do judaísmo em vários aspectos da vida do povo, deve ser vista como um esforço constante para minar a importância da personalidade nas nações que os acolhem e substituí-la pela vontade das massas.

Os esquerdistas alegam aqui que a esquerda sempre prega que o poder seja dado ao povo, ao passo que Hitler abominava isso. Seria esta uma prova de que ele não era de esquerda, mas de direita. Verdade seja dita, Hitler não pregava que o povo tomasse o poder. Mas isso, no máximo, fazia dele um esquerdista mais sincero que os outros neste ponto. Afinal, todos os líderes esquerdistas que prometeram dar o poder ao povo, se tornaram ditadores. Eles não se consideraram ditadores, claro. Eram “representantes” do povo. Mas o fato é que jamais se viu o próprio povo governar. E certamente todo líder sabe que, ao fim de uma revolução, alguém vai ter que tomar as rédeas do governo e receber poderes despóticos. Hitler apenas não fingiu que isso não ocorreria. Foi direto ao ponto: tem que haver um líder.

Isso só reforça seu esquerdismo. Para a direita, a idéia de colocar todo o poder nas mãos do governo, seja por meio de uma só pessoa ou de um só partido, é ridícula, extremamente ridícula. Lembremo-nos dos pais fundadores dos EUA, conservadores até os cabelos. Eles tinham um medo terrível do despotismo. Por isso projetaram uma nação federalista e com um governo central bem limitado. Lógico que os EUA não são mais assim há tempos! Mas eram. E eram porque seus fundadores eram direitistas.

Então, se um homem pretende dar ao Estado um poder ilimitado e se tornar o grande líder da nação, a fim de mudar os problemas do mundo, isso certamente não é nem um pouco conservador. Na verdade, é progressista. O conservador tem medo desse tipo de revolução insana e prefere sempre a prudência.

Como seria um bom governo de direita – Parte 3

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Ludwig von Mises, economista austríaco

Na última postagem dessa série (para ler, clique aqui), nós vimos mais algumas idéias típicas da direita política: as privatizações de empresas públicas, as concessões de curto prazo, as prisões terceirizadas e a abertura do comércio para empresas estrangeiras e seus produtos. Até aqui, penso ter deixado claro que quanto menos funções o Estado acumula para si, mais fácil se torna a resolução de problemas sociais, como a violência, as péssimas condições da educação e da saúde, o desemprego, a pobreza e etc.

Entretanto, o leitor pode estar se questionando: “Ok. Entendi. O livre mercado é útil para resolver alguns problemas sociais, mas ele também não causa problemas como crises financeiras mundiais e destruição do meio ambiente? Não seria importante que o Estado interviesse nessas questões? A direita não pensa no futuro? E por falar em futuro, como fica o futuro dos trabalhadores? O Estado precisa prover o bem-estar futuro das pessoas, através de um sistema público de previdência social?”.

Se o leitor está com esse tipo de dúvida, o objetivo dessa terceira postagem é sanar essas dúvidas. Pretendo mostrar ao leitor que procurar usar o Estado para resolver problemas, na maioria das vezes é desnecessário e prejudicial. O Estado, na verdade, é muitas vezes o principal culpado pelos problemas que tenta resolver. As crises são um exemplo disso. É isso o que vamos ver.

10) O Estado, o Livre mercado e as Crises Financeiras

Pense na maior crise financeira que o capitalismo já viveu. O leitor pensou na chamada crise de 1929, não é mesmo? Pois é, esta realmente foi a maior crise que o capitalismo viveu em sua história. Ela teve o seu momento mais agudo em 29, com a crack da bolsa de Nova York, mas se prolongou por toda a década de 30, atingindo o mundo inteiro e mudando a mentalidade dos países que tinham os mercados mais livres da época. Seguindo os conselhos do economista John Maynard Keynes, rapidamente os governos de todos os países passaram a rechaçar a liberdade econômica e a aumentar consideravelmente a intervenção estatal. O Estado passou a acumular funções e intervir cada vez mais na vida das pessoas. O Estado se tornou o responsável por resolver todos os tipos de problemas existentes.

Desde então, falar em governo liberal se tornou um pecado no mundo. Toda vez que alguém propõe que o governo deixe o mercado e as pessoas mais livres, a crise de 29 é relembrada. E não só a de 29. Todas as crises que a economia mundial sofreu desde a década de 30 passaram a ser relacionadas ao livre mercado. Se há uma crise, é porque o mercado está livre demais e o governo intervindo pouco. É comum ouvir a esquerda falar em “farra” das grandes empresas. É a liberdade delas que causa crises, segundo os esquerdistas.

Mas será que a esquerda está certa? A causa das crises é o livre mercado? Será que a solução das crises está na intervenção estatal? Se isso estiver correto, tudo o que vimos até aqui cai por terra. Então, em proteção contra as crises mundiais, deveremos abrir mão de nossa liberdade e deixar que o governo controle nossas vidas?

Não tão rápido. Vamos antes entender o que, de fato, causou a crise de 1929. A teoria mais conhecida e que nos é empurrado goela abaixo pelos livros de história é que o livre mercado gerou uma superprodução nas indústrias. Como não havia quem pudesse comprar toda aquela mercadoria, as indústrias deixaram de lucrar, tendo que demitir seus funcionários. Com mais pessoas desempregadas, as indústrias tiveram ainda menos pessoas para comprar, indo à falência.

A teoria é, no mínimo, questionável. Em primeiro lugar, como superprodução pode ser um problema? Se eu tenho uma fabrica e ela produz mais que suficiente, tudo o que eu preciso fazer é produzir menos. Agora, reduzir produção não traz mais dinheiro. Então, é óbvio que a causa da crise não pode ter sido superprodução. A superprodução é um dos efeitos da crise. Mas o que causou a superprodução?

Superprodução pode ser causada por má administração da empresa, ou por queda no poder de compra dos clientes, ou por redução do mercado consumidor, ou ainda, por saturação de um ramo do mercado. O primeiro caso é facilmente resolvido e não explica uma crise generalizada num país. Queda no poder de compra dos clientes e redução do mercado consumidor foram dois fatores que ocorreram justamente dois fatores que ocorreram por causa da crise. A crise levou pessoas a serem demitidas e outras a se endividarem, reduzindo-se o consumo. Então, até aqui ainda estamos tratando dos efeitos da crise e não de sua causa.

O último caso é o da saturação de um ramo do mercado, isto é, muitas empresas disputando num mesmo ramo até o ponto em que não há mais como disputar. A hipótese é que com uma concorrência tão grande, as empresas teriam começado a lucrar menos e falindo. Essa opção também não explica a crise. Quando um ramo está saturado, a tendência é que novos empresários não entrem nele, pois sabem que não conseguirão lucrar. Ademais, o natural não é que em um ramo saturado todos os empresários entrem em falência, mas sim que os menos aptos a enfrentar a concorrência, que geralmente não são aqueles que já chegaram no topo. E se, porventura, uma empresa do topo não resistir e ir à falência, outra empresa entrará no seu lugar e ela simplesmente sairá do ramo, tornando o mercado menos saturado. A falência de uma grande empresa por perder na concorrência não leva diversas outras grandes empresas (incluindo concorrentes) a falirem, criando uma crise causando; apenas põe outra em seu lugar. Então, a saturação também não explica a crise de 1929.

Em segundo lugar, o empreendedorismo não é uma coisa fácil. É necessário estar sempre fazendo investimentos, prevendo aquilo que vai dar lucros e aquilo que não vai dar. Um bom empreendedor é uma pessoa que sabe prever bem, calcular bem, administrar bem. Então, como é que, repentinamente, aqueles que faziam os melhores investimentos, que melhor previam os enlaces da economia, que melhor sabiam das relações entre produção e mercado de consumo vieram a falir juntos, como se fossem todos incompetentes. Não é estranho? Qual a probabilidade de todos os melhores investidores de um país, quiçá do mundo, falirem juntos? E como explicar que a crise surge justamente de quando a economia está indo tão bem?

Indo um pouco mais longe, é sabido que as indústrias que primeiro sofreram com a crise de 1929 não foram as que produziam bens de consumo, como esperaríamos se o problema fosse superprodução. Na verdade, as primeiras indústrias a sofrer com a crise foram aquelas que construíam máquinas, ferramentas, equipamentos e matérias primas para outras indústrias. Como assim? Mas o problema não era a superprodução de bens de consumo?

Quando fazemos esses questionamentos, essa teoria marxista-keynesiana de que o problema está na superprodução se torna risível. É claro que não está. Os melhores empreendedores não iriam falhar tão feio, ao mesmo tempo. Uma economia realmente sadia não poderia deflagrar uma crise. É claro que há alguma coisa que interfere no curso natural da economia capitalista para que uma crise deflagre. Mas o que é?

O problema da expansão creditícia

A resposta está na expansão creditícia. O que ocorreu nos EUA na década de 20 foi uma incrível expansão de papel-moeda promovida pelo Federal Reserve (FED), o banco central americano, em união com os demais bancos. A expansão de papel-moeda é algo que sempre agrada ao governo e aos bancos. Para os bancos, a expansão serve para derrubar os juros. Com mais dinheiro em sua poupança, o “preço” do dinheiro fica mais barato. Isso faz com que indústrias peguem mais empréstimos com os bancos, pois os juros estão baixos. E, assim, os bancos tem mais clientes devendo mais dinheiro.

Para o governo, a expansão serve para pagar dívidas públicas sem a necessidade de aumento dos impostos e para fazer a economia crescer rapidamente, pois a queda dos juros incentiva um rápido crescimento econômico, o que gera uma imagem positiva do governo nos quatro anos de mandato.

Não obstante, a longo prazo, a expansão creditícia traz graves problemas para a economia. O primeiro deles é a inflação nos preços. Com uma maior circulação de dinheiro no mercado, a relação entre a moeda e o produto fica distorcida, fazendo com que os preços subam. Em países aonde a industrialização não vai muito bem, isso pode causar um descontrole nos preços, como no caso do Brasil, nos anos 80. Mas em países onde a industrialização está saudável, o efeito da inflação acaba sendo maquiado por um tempo, em função do ritmo acelerado da indústria. Em outras palavras, os preços sobem em proporção semelhante ao poder de compra, e permanecem mais estáveis.

Contudo, a inflação sempre é ruim, pois é uma distorção do mercado. Mesmo que seus efeitos sejam maquiados por uma boa industrialização, uma hora ou outra ela se tornará visível e incomodará bastante, gerando problemas como a desvalorização da moeda do país, a redução do poder de compra da população, o acúmulo de dívidas, o descontrole nos preços e etc.

Por esse motivo, os governos sabem que não podem manter essa sua política de expandir moeda eternamente. Uma hora o crédito fácil precisa acabar. Os bancos, por sua vez, também sabem disso. Afinal, uma hora eles vão precisar parar de emprestar a juros baixos, aumentar a taxa de juros e começar a cobrar o que emprestaram, a fim de não irem à falência. É neste momento que se inicia o segundo problema da expansão de crédito pelo banco central: a súbita retração de crédito.

O banco central acaba com a farra do crédito fácil. Os bancos privados, por sua vez, fazem o mesmo. Contudo, a economia está distorcida, lembra? Há uma produção industrial a todo o vapor que está funcionando de acordo com essa economia distorcida, onde nada vale o que realmente aparenta valer. O crédito pode ter sido retraído de uma hora para outra, mas a produção continua a mesma e aquelas indústrias que fizeram grandes projetos acreditando que poderiam pagar, se vêem impossibilitados de arcar com o crédito retraído e com os altíssimos juros. Os investimentos que pareciam tão rentáveis, se mostram agora verdadeiros prejuízos.

Então, começa a crise. As indústrias (principalmente as de base, cujos projetos são mais caros e demorados) não têm como pagar os empréstimos, nem como terminar projetos pendentes. Bem, quando se está com dívidas, uma indústria costuma aumentar o preço de seus produtos. Mas isso não é possível em uma retração. Afinal, a retração de crédito irá pressionar os preços a retornarem ao seu normal. A tendência da economia é sempre tornar ao seu curso natural. Se houve uma expansão, a retração irá consertar a relação entre moeda e produtos. Como a produção está ainda todo o vapor, porém com o crédito retraído, os preços despencam com violência.

Resultado: as indústrias ficam endividadas no momento em que os preços são pressionados a despencar. Repletas de dívidas e tendo que manter seus preços baixos, as indústrias não conseguem pagar seus empréstimos aos bancos. Os bancos, por sua vez, começam a ter problemas para devolver o dinheiro de seus clientes depositários, já que esses bancos emprestaram mais dinheiro do que suas reservas permitiam. Aí começa toda aquela conhecida quebradeira de fábricas e bancos, os desempregos e etc.

O erro do economista Keynes, quando observou a crise de 1929 e acreditou que os governos deveriam intervir mais, foi achar que a superprodução de bens de consumo e a queda nos preços eram as causas do problema. Na verdade, esses eram os efeitos de longo prazo da expansão creditícia possibilitada pelo FED. Quer dizer, era justamente a intervenção estatal por meio do banco central que criou a crise.

Como o problema estava justamente na intervenção estatal, as políticas do New Deal só serviram para maquiar a crise e torná-la mais extensa. O que se poderia resolver em um ano (como a crise de 1921-1922, por exemplo) só começou a ser resolvido com o advento da segunda guerra mundial, quando os EUA “empregou” diversas pessoas como soldados e lucrou com a indústria armamentista.

Soluções para as Crises

É o momento de perguntar: o que se deveria ter feito para resolver o problema da crise, então? A resposta é simples: nada. A crise é o acerto de contas após um período de distorção no mercado. É dolorido, mas é necessário. Se houve expansão, a recessão é o natural. Tentar evitar isso é prolongar a crise e plantar sementes para uma próxima, ainda pior. Mas como diria o ditado: “É melhor prevenir do que remediar”. Portanto, não devemos nos perguntar sobre como resolver crises, mas sim sobre como evitá-las.

Bem, em economia não há respostas fáceis. Se por um lado, os bancos centrais sempre acabam ajudando os bancos a expandirem dinheiro, por outro lado, quando não há banco central e cada banco pode criar seu próprio dinheiro, expande-se dinheiro da mesma maneira. A diferença reside no fato de que o acerto de contas da economia onde não há banco central ocorre mais rápido. Os bancos privados que mais extrapolam não duram muito tempo, em função da concorrência, indo à falência em poucos anos. Isso era bem comum nos EUA até a criação do FED.

Esse foi um dos motivos pelos quais o Federal Reserve System foi criado. As falências e as recessões (freqüentes, porém mais curtas), convenceram o governo de que seria melhor ter um banco central para regular os demais bancos, impedir falências e garantir que o dinheiro não fosse expandido de modo irresponsável.

Ironia do destino, o surgimento do FED acabou facilitando bastante a vida de grandes bancos. Explico. Na época, a maioria dos países utilizava o “padrão-ouro”. O que é isso? Padrão-ouro é o nome que se dá a um sistema monetário que baseia o seu valor no ouro. Ao longo do tempo, existiram várias moedas de troca para se efetuar o comércio, porém o ouro (e também a prata) sempre se mostrou mais eficaz por ser um item limitado e não falsificável.

O papel-moeda surge apenas para facilitar o comércio. Por exemplo, a falta de ouro em determinado momento poderia ser suprida pelo papel-moeda, que era redimível em ouro. Em outras palavras, a função do papel-moeda dentro do padrão-ouro é apenas de servir como um “vale-ouro”. O papel-moeda não tem valor em si mesmo. Ele tem valor pelo ouro que representa e que pode ser redimido em um banco.

O grande problema que o papel-moeda trouxe ao mundo foi que agora os bancos poderiam imprimir mais dinheiro do que realmente tinham em ouro. O nome que se dá a isso é “reserva fracionada”. Exemplo: o banco tem 100 reais em ouro como reserva, mas cria 200 reais em papel-moeda. Isso quer dizer que ele só tem uma fração do que diz ter em reserva. Se, porventura, eu quiser trocar os meus 200 reais de papel-moeda, por 200 reais em ouro, o banco simplesmente não tem como me pagar. Ele só tem 100. Isso é a expansão de crédito possibilitada pelo sistema de reserva fracionada.

A confiança do banco em fazer isso está no fato de que as pessoas não redimem seu ouro ao mesmo tempo. É improvável que todos os clientes de um banco queiram retirar seu ouro de uma vez só. Mas essa segurança acaba quando o banco começa a expandir crédito demais. Afinal, quanto mais crédito se expande, mais cresce o número de remissões em ouro, tanto para clientes, como para outros bancos, já que o dinheiro circula e nenhum banco deseja ficar com o papel-moeda de outro banco, mas sim com o ouro a que o papel dá direito.

Aqui o banco que expandiu muito crédito chega à situação já descrita: emprestou demais e não tem mais ouro para quitar os seus clientes que querem remissão. Então, ele vai à falência.

O FED, tal como qualquer banco central, foi criado sob pretexto de evitar esse tipo de problema. Passando a ser o único emissor de papel-moeda, o banco controlava o quanto de dinheiro que os bancos produziriam. A idéia parece ser boa, mas o problema é que o banco central não acabou com o sistema de reserva fracionada. Em vez disso, ele democratizou esse sistema, expandindo crédito para todos os bancos juntos. Dessa maneira, nenhum banco perdia para o outro em remissões de ouro. Agora, era possível que todos os bancos expandissem crédito juntos sem terem medo de falir.

Eliminado o perigo de um banco falir em função das remissões a outros bancos, lidar com as remissões a clientes era fácil, pois os clientes não são tão solícitos por ouro quanto os bancos. A verdade é que o cliente costuma a deixar o seu ouro guardado no banco, usando só o papel-moeda. Desde que o banco esteja bem das pernas, o cliente não vê motivo para tirar o ouro de lá. Usa só o papel-moeda. Assim, o perigo de falência quase desaparece e os bancos têm a chance de oferecer dinheiro barato.

Em suma, o FED, que surgira para evitar expansões creditícias, acabou criando uma expansão muito maior. Mas o problema não acaba aí. Com o aumento dos gastos públicos, em função das guerras e, posteriormente, da mudança de mentalidade mundial em relação ao número de funções do Estado, os países foram saindo do padrão-ouro e o papel-moeda passou a ter valor intrínseco. Afinal, o aumento dos gatos não suportava bem um sistema que limitava à criação de dinheiro às reservas de ouro. Sem o sistema de padrão-ouro, portanto, a facilidade de se expandir dinheiro se tornou ainda maior do que já havia se tornado nos EUA com o advento do FED.

E como é, afinal, que isso pode ser mudado? Como se pode evitar crises? A resposta está em uma reforma do sistema bancário. Há várias correntes de pensamento diferentes dentro da direita sobre como essa reforma deve ocorrer. Alguns falam até em abolição dos bancos centrais. Eu sou cético quanto a isso. Creio que os bancos centrais podem servir para alguma coisa, desde que seus poderes sejam limitados. As propostas que me parecem mais plausíveis são:

1) Retorno ao padrão-ouro, para que o valor da moeda não dependa de algo tão arbitrário como a vontade do governo de fazer dinheiro;

2) Fim das reservas fracionárias, a fim de que os bancos não ludibriem os seus clientes, emprestando mais do que realmente têm em reserva;

3) Fabricação de papel-moeda apenas de acordo com o ouro que há em reserva em cada banco.

Não cabe neste artigo discutir detalhes sobre como cada proposta poderia ser transformada em lei e sobre os mecanismos que possibilitariam as leis serem cumpridas, sem deixar grande margem para corrupções. As discussões sobre isso são longas e não daria para expô-las aqui. O objetivo foi apenas mostrar que não é verdade que o livre mercado possui contradições intrínsecas que levam a crises. As causas das crises não podem ser encontradas em alguma falha do livre mercado, mas em arranjos legislativos falhos que possibilitam a expansão creditícia pelos bancos. Assim, a resposta para evitar crises não está em mais intervenção estatal, mas em um arranjo legislativo sábio, que evite os problemas já citados.

11) O liberalismo e a natureza

Graças ao marxismo, o liberalismo econômico passou a ser sinônimo de tudo o que é ruim. Ele é caracterizado como o “capitalismo selvagem” que só pensa no lucro, em detrimento da moral, da ética, do respeito e etc. Seus proponentes são pintados de “porcos capitalistas” e a idéia que se dissemina é que se o mundo for deixado na mão desses porcos, ele acaba. A natureza é o exemplo mais utilizado. Para os esquerdistas, o desmatamento, as queimadas, as caças ilegais e a poluição é tudo culpa dos capitalistas.

Mas a verdade é que quem está acabando com o mundo são os marxistas e os esquerdistas em geral. E se a natureza está sendo destruída, isso também deve ser posto na conta dos vermelhos. Afinal, enquanto a direita se ocupa em criar soluções práticas, realistas e viáveis para resolver os problemas da sociedade, a esquerda continua pondo sua fé na bondade do homem e na disposição do governo em fazer o bem.

Pense no Brasil. O Brasil conta com grande parte da floresta amazônica. A quem pertence? Ao governo. Qual o interesse do governo em protegê-la? Nenhum. Então, ela não pertence a ninguém. E o que não é de ninguém, está aberto para todos explorarem da forma como quiserem. Esta é a situação atual.

Agora, imagine que a floresta fosse vendida a diversas empresas que tivessem interesse em preservá-la. Poderiam ser empresas de eco-turismo, fábricas de móveis de madeira, fábricas de papel. Elas teriam todo o interesse em preservar a floresta, pois cada uma teria o seu lote de terra e o seu lucro dependeria da preservação desse lote. E não haveria mais como explorar toda a floresta, mas apenas a parte que pertencesse à empresa. Em outras palavras, quanto mais fome de lucros as empresas tivessem, melhor seria o estado de preservação da floresta.

Se o leitor ainda teme algo como: “E se uma empresa comprar um lote e depois querer vender para fazendeiros. Os fazendeiros irão destruir a floresta”. Bem, o governo poderia trabalhar com concessões. Sob regime de concessão, qualquer uso indevido da floresta poderia ser punido. Por uso indevido, entenda uma verdadeira destruição, como no caso de se querer criar uma fazenda. Enfim, fica claro que o liberalismo econômico não é o monstro que pintam por aí os esquerdistas. Ele pode prover idéias bem mais viáveis do que o velho: “Confie na bondade do homem e do governo”.

12) Previdência Social

Segundo a visão da direita, não é função do governo se preocupar com o que cabe apenas ao indivíduo. Da mesma maneira, o indivíduo não pode ser obrigado a se preocupar consigo mesmo pelo governo. Por isso, a previdência social não deveria ser um assunto que envolvesse o Estado, mas sim um assunto que envolvesse somente o indivíduo e as seguradoras privadas, que ele poderia contratar ou não.

Agora, se há pessoas que querem ser amparadas pelo Estado dessa maneira, não há mal nisso. Mesmo que o sistema de previdência pública seja reconhecidamente muito ruim e cheio de falhas, há quem o prefira. E se é assim, que ele continue existindo, mas não como uma obrigação imposta ao trabalhador. Hoje, qualquer trabalhador formal é obrigado a “contribuir” com o INSS. Isso, muitas vezes, o impossibilita de escolher uma previdência privada que lhe agrade. Não sobra dinheiro. Não obstante, se a previdência pública fosse apenas uma opção entre diversas empresas seguradoras, o trabalhador teria condição de escolher. Isso seria uma maneira de dar mais autonomia ao indivíduo, de reduzir o poder e as funções do Estado e de dar mais chances às empresas privadas.

Fim da Terceira Parte

Nesta terceira parte da série, nós vimos algumas idéias típicas da direita sobre como resolver o problema das crises financeiras e da destruição das florestas. Também vimos como que a direita encara a ideia de previdência pública. Na próxima postagem da série, que será a última, veremos idéias de direita sobre os temas: discriminações, religião, individualismo e estado democrático de direito.