O dever de um regente

Acredito que muitos leitores já tenham assistido a uma orquestra sinfônica, e se não o fizeram, ao menos já muito ouviram à respeito e possuem uma bela noção de como funciona. Uma orquestra sinfônica é um grupo com elevado número de músicos, conduzidos por um regente. Todos parte de um grupo, cada qual executando sua pequena, mas essencial, parte para a construção daquilo que no fim será uma bela (ou desastrosa) peça musical.

Difere muito, por exemplo, de uma banda. A banda, por seu reduzido número de membros, dispensa qualquer liderança formal. Funciona de forma razoavelmente pacífica, mas é incapaz de atingir objetivos muito elevados, de executar obras muito complexas. Atingindo um grau um pouco maior de complexidade, existem pequenas orquestras que executam a música de câmara. Apesar de irem um pouco mais longe, seu pequeno número de capazes membros faz com que, geralmente, seja dispensada a figura do maestro. É mais simples o entendimento entre os semelhantes que se comprometem à disciplina de regerem o próprio grupo quando o mesmo não é composto por grandes números.

Mas nenhum dos dois exemplos pode ir tão longe, produzir algo tão grandioso quanto a orquestra sinfônica. Isso pois se restringem a um pequeno número de integrantes, dentro de um ambiente geralmente mais íntimo, mais restrito. Produzem beleza à sua maneira, mas sua grandiosidade é sempre limitada pelo pequeno número de integrantes.

A grande orquestra, como já dito anteriormente, é regida pela figura do maestro. O maestro é um líder, um governante. Mas diferente do que se pode pensar, não cabe a ele ser tirano e arbitrário. Não cabe a ele dizer, de repente, que deste momento em diante, o violinista passa a tocar contra-baixo, ou que a cozinha vai se encarregar dos instrumentos de cordas, pois assim é sua vontade. Cabe a ele uma tarefa restrita, embora nada simples: ditar as regras básicas para a execução, que nem sempre diferem muito entre as diferentes orquestras, mas cujos pequenos nuances fazem totalmente diferente duas distintas execuções. As regras, embora possuam um conjunto limitado de competências, são essenciais. Cada músico possui sua atribuição, seu campo de atuação. Não pode um invadir o espaço do outro. Caso deixados a seu bel prazer, desprovidos de qualquer noção de regramento, produzem uma obra caótica e desordenada.

Imagino que alguns leitores se perguntem do porque desprendo alguns parágrafos em um post sobre política e sociedade a falar de um gênero de música, enquanto outros mais perspicazes provavelmente já captaram a essência do pensamento. É notória a semelhança entre uma grande orquestra e uma sociedade orgânica. Explico.

A sociedade é composta de diversas células. Ao retirarmos toda a influência de outros seres, toda a convivência e cooperação inerentes à sociedade humana, temos o indivíduo. O indivíduo, totalmente guiado por vontades, impulsos e necessidades. O indivíduo abstrato, com sua esfera de direitos básicos e inalienáveis, apesar de inexistente. Um indivíduo atomizado. Mas desde que Adão deixou de estar a sós no universo, a sociedade tem início entre o homem e a mulher, que, propagando a espécie, deixam também filhos.

Formamos, então, a primeira célula social propriamente dita: a família. A família elege uma liderança, mas essa não é formal, legal. A relação familiar tende a ocorrer de uma forma mais próxima de uma voluntariedade absoluta. Aqui tendem a nascer os primeiros esboços da cooperação, de uma noção de alteridade, e de ordem. A família é como uma banda: sozinha é incapaz de formar um grande império, mas já possui sua beleza e atributos que lhe são únicos. Dentro do contexto familiar, já verificamos que o indivíduo não mais é atomizado, mas passa a ser imbuído de características que o meio coloca sobre si: moralidade que controla os instintos; obrigações na balança com seus direitos. O noção de indivíduo passa a ser substituída pela noção de pessoa. Não existe mais um indivíduo como ente abstrato, mas sim um que está inserido em um meio; não mais atomizado, mas sim criando e desfazendo relações sociais e afetivas.

É evidente que, diferentemente de uma noção em que tínhamos, ilustradamente, apenas Adão e Eva, a humanidade não é composta de apenas um ser humano, ou de apenas uma família. Essas famílias, células sociais básicas, interagem entre si, formando pequenas tribos, pequenos grupos. Esses grupos podem ou não passar a eleger um líder formal, um regente. Pelo reduzido tamanho, podem acabar por dispensar essa formalidade e agir de maneira totalmente espontânea, respeitando convenções rapidamente formadas de modo a garantir a paz entre as pessoas e grupos sociais.

As convenções sociais em si não são suficientes para completamente moldar os interesses e a convivência pacífica entre os seres humanos. Em busca de suas vontades e necessidades, começa a se tornar comum a violação do espaço de outras pessoas ou grupos. Em uma pequena sociedade isso pode ser de certa forma controlado. Certos erros podem passar desapercebidos, outros podem ser contornados, e outros punidos de acordo com certos parâmetros (comumente a vingança, nesse tipo primitivo de sociedade). Mas uma visão tão simplista não consegue prosperar quando a sociedade atinge uma forma mais complexa e seu número de indivíduos passa a ser majorado a ponto de uns não mais conhecerem a todos os outros.

Uma grande sociedade em que a concepção de justiça seja a da vingança, e seu modo de resolver os conflitos de interesses frequentes seja por muitas vezes arbitrário, está fadada ao caos, ao declínio. A desordem seria evidente. É nesse momento que aparece a figura de um regente a estabelecer regras e punições, de modo a defender os direitos e espaços de cada grupo. Pois uma sociedade complexa forma grupos para além da família: ele forma a Igreja, o Comércio. Forma uma noção de moralidade cada vez mais complexa e menos unânime, o que cria a potencialidade para o nascimento de inúmeros tipos de conflitos. É necessário à vida em sociedade um frágil equilíbrio.

Esse regente não pode ser confundido com um tirano absoluto. Pode ser um grupo, ou diversos grupos concorrentes escolhidos (como na democracia representativa), que estabeleça as regras e valores universais daquela sociedade. O ocidente protege três valores essenciais: a vida, a liberdade e a propriedade privada. Esses valores devem ser sempre defendidos para a manutenção da vida em sociedade, essencial à humanidade, arranjo necessário para a felicidade do ser humano. Muitos desejam modelos que colocariam por fim esse arranjo, que nos levariam a uma total desordem, a uma vida em caos. É descabido, nesse momento, a nomeação desses.

Nesse cenário de ordem, muitos dizem que nossa liberdade é tolhida em nome de um suposto ente coletivo. Nada poderia ser mais inverídico: esse cenário existe para potencializar nossa liberdade e espontaneidade, para que um não seja subjugado pelo outro. O ente coletivo, como ente abstrato, não existe para nos subjugar. Esse cenário existe para que possamos construir, para que cheguemos a objetivos impossíveis a um só. Existe para a plena realização do ser humano como tal, livre, assim como a orquestra realiza o músico ao seu auge quando contribui para a execução de uma grande e arrojada peça. Certas peças são impossíveis a um só músico, assim como é impossível um grande império de uma só pessoa. E certas lideranças são essenciais para uma complexa sociedade, assim como é necessária para que a música não tome uma forma caótica e desprovida de nexo.

O Espírito Revolucionário

São tantos os vícios da mentalidade revolucionária que me é difícil imaginar como começar a discorrer sobre o assunto. Não acredito que tenha existido um grande movimento genuinamente revolucionário que se ateve a seus princípios até o fim. E de nada adianta citar a Revolução Americana, que de revolução só tem o nome. É comum que as revoluções percam totalmente seu rumo, algumas vezes tomando não um rumo diferente, mas rumo nenhum.

1. O Movimento Revolucionário se perde daquilo a que se propôs

O caos é o resultado único possível de uma revolução. Movida por idealismos abstratos comove facilmente a massa por tocar, em tempos de crise, o povo emocionalmente. Não dotado de planos institucionais, convence o povo de qualquer coisa: socialistas convencem os cooptados de que pode existir democracia do outro lado da revolta; fascistas invocam um nacionalismo exacerbado que faz exalar todo o ódio reprimido existente na população. O ser humano é imperfeito, como é qualquer organização social pretendida pelo mesmo. A sociedade nunca será ideal. Progresso nada mais é que uma grande ilusão num mundo em que o movimento histórico é pendular, e não contínuo. Mesmo assim a massa segue um grande líder em sua empreitada rumo à Utopia (como o próprio Thomas More batizou sua ilha; um dos precursores do socialismo). O nome diz: Utopia. E no pináculo do sentimento revoltoso nasce o perigo. O sentimento de paranoia toma conta dos líderes, que passam a atacar ou eliminar qualquer um que se coloque contra a revolução, mesmo os críticos que se encontrem dentro do meio revolucionário. Os ideais que primeiramente moveram a revolução são esquecidos e postos em segundo plano, e o grande guia da perigosa manada revolucionária é a revolução: esta se torna um bem em si. Isso é notado facilmente nas revoluções Francesa e Cubana. A Revolução Francesa criou um tribunal revolucionário que eliminava sistematicamente opositores. Diz a lenda que em Paris o sangue dos decapitados atingia as canelas de quem andasse pelo palco de terror e morte que virou a cidade. Já a Revolução Cubana segue um roteiro cômico, para não dizer trágico: Alegando que lutavam pela democracia, angariando recursos nos Estados Unidos, lutaram contra a ditadura de Batista. Após derrubá-lo, Fidel foi aclamado pela população, para logo em seguida traí-la e instaurar outra ditadura, a do proletariado com apoio soviético. E àqueles que lhe deram apoio e facilidade para angariar recurso, destinou ódio e repúdio. Os Estados Unidos eram, automaticamente, os culpados por toda a desgraça cubana (que nada tinha a ver com as políticas desastradas do pulha chamado Che Guevara).

Revolução Francesa
A sutileza revolucionária: Àqueles que não gostarem, guilhotina.

2. A Revolução não é a maior expressão da democracia

Dizem, alguns, que a revolução é a maior expressão da democracia. É belo o cenário em que o povo, revoltado, faz valer sua vontade contra o Estado, dizem eles. Esquecem-se, porém, que existem pessoas que não apoiam a revolução. Grande parcela da revolução, normalmente. Esquecem-se também que esses revolucionários impões através da força sua vontade sobre todos. Inclusive sobre aqueles que não desejavam a revolução, em primeiro lugar. Aliás, normalmente pouco importa a vontade dos contra-revolucionários, já que estes são sumariamente eliminados. A maior sorte que aguarda aqueles que não compactuam com os ideais revolucionários é a morte rápida. Sem falar que, muitas vezes, a revolução não é um movimento das massas, mas sim de um pequeno grupo de revolucionários profissionais. A revolução bolchevique, diferente do que se acredita, não foi uma grande revolta popular que clamava pela coletivização de todos os meios de produção. A população, num geral, apenas queria a paz (saída da primeira guerra mundial) e, sim, a redistribuição das terras, mas em forma de propriedade. Os bolcheviques eram intelectuais da elite que, habilidosamente, aproveitaram-se da revolta dos pequenos e cooptaram-os contra os grandes. Lenin, por exemplo, não era um proletário oprimido: sua família possuía título de nobreza. Não será este apenas um golpe pelo poder? Não é possível afirmar com certeza, mas Lenin tornou-se líder da URSS, mantendo tal status mesmo após a morte, até a queda do muro de Berlim. E para, democraticamente, afirmar a revolução, instaurou o Terror Vermelho: “Devemos colocar para baixo toda a resistência com tal brutalidade que não vai esquecer por várias décadas … Quanto maior o número de representantes do clero reacionário e da burguesia reacionária conseguirmos executar … melhor”. Mais democracia, impossível.

Lênin
O regime vermelho era mais democrático que os ocidentais, eles diziam…

3. A Revolução legitima crimes

Costumeiramente, quando chamamos Che de criminoso esquerdistas rebatem dizendo que ele foi um revolucionário, um romântico, e que em sua luta por uma sociedade mais justa seus crimes eram releváveis. Como resultado da paranoia já anteriormente citada, matava colegas de revolução pela simples desconfiança de que existisse traição. Depois tomava os bens do executado. Nada como uma justiça distributiva bem realizada. O saldo de terror e morte legado pelo socialismo é legitimado por seu caráter revolucionário. O nazismo foi justamente proibido após suas barbáries. O comunismo vive até hoje. Não existe símbolo que represente tão bem o comunismo como o martelo e a foice. As vidas ceifadas nada representam, a não ser a manutenção de um sistema justo e igualitário, em que todos devem se espelhar.

Che
Nunca pediu nada para lutar pela liberdade dos povos latino-americanos: Apenas um cargo de alta influência em que pudesse satisfazer seus desejos sádicos

4. A Revolução ignora fatos

Marcada por seu caráter romântico, idealista e emocional, ignora experiências anteriores que geraram nada além de morte e profunda tristeza. Inclusive diz-se que, por exemplo, o comunismo nunca foi antes implantado corretamente, e que hoje talvez tenhamos tecnologia para tal. Realmente, a sociedade é apenas um laboratório para os intelectuais testarem suas teorias mirabolantes. Para que nos basearmos em erros do passado para evitá-los se podemos repeti-los? Trazendo essa imensa sabedoria temos os revolucionários contemporâneos que, de acordo com alguns lutam por uma bela causa de maneira errada. A bela causa de nos trazer o sofrimento que outros já antes sentiram. A bela causa de fazer que aqueles que morreram nas mãos de revolucionários tenham morrido em vão.

Holodomor
Será que precisamos voltar a viver cenas como essa? De acordo com os revolucionários é apenas a receita para uma sociedade livre e justa.