Há criptomoedas demais e criptomoedas de menos

ATENÇÃO: Este artigo não deve ser interpretado como conselho para investimentos. Não sou investidor, não tenho investimento em criptomoedas e não tenho interesse nem em indicar ou contraindicar o investimento em qualquer uma delas.

As criptomoedas e sua tecnologia descentralizada de cadeia de blocos (blockchain) tem revolucionado a economia digital, aberto debates sobre a transparência nas transações financeiras e colocado em cheque a credibilidade dos governos como entidades emissoras e reguladoras das moedas. Elas parecem a realização da utopia de um dos teóricos liberais mais importantes da história, Friederich A. Hayek: o dinheiro desestatizado.

Cryptocurrencies

Porém, há um inconveniente nisso tudo, e é que há criptomoedas demais e criptomoedas de menos. Criptomoedas demais porque a lista de denominadas moedas lançadas no mercado é extensa demais para um mercado que acaba de surgir, criptomoedas de menos porque boa parte delas atende a um nicho tão específico que não poderiam ser consideradas moedas. Neste último caso, estamos falando de criptomoedas que são emitidas e usadas dentro de plataformas específicas, ou que estão atadas a um mercado específico (banana, café, maconha, etc). O problema de ter um monte de criptomoedas atreladas a plataformas específicas é que no fim das contas nenhuma delas vai funcionar como moeda, e sim como “créditos” ou “milhas” de um serviço específico. O objetivo de uma moeda, criptográfica ou não, é ser usada por pessoas e empresas como meio de troca entre bens e serviços. Uma moeda não pode estar atrelada a um produto ou serviço específico, pois do contrário perderia suas principais propriedades que são agir como meio de troca e reserva de valor, além da liquidez. Seria basicamente uma unidade representativa de um bem ou serviço que, no fim das contas, é trocado através de escambo digital.

Exemplo prático: inventei uma moeda, a Direitas Já Coin (DJC) atrelada à nossa DireitasJáStore. Você pode usar o DJC para comprar qualquer produto da DireitasJáStore. Mas você acumulou DJC 100 e agora quer comprar um produto fora da DireitasJáStore, digamos na Amazon. Se a Amazon e as outras lojas não aceitam o DJC, você primeiro tem que trocar os DJC por bitcoins, dólares ou reais para só então comprar alguma coisa. Neste caso, a DJC funciona como um crédito na DireitasJáStore, mas não uma moeda propriamente dita. Você precisa convertê-la em moeda, antes de convertê-la em um produto: há muita perda de liquidez. Excetuando-se o bitcoin e o ethereum que são as criptomoedas mais amplamente aceitas, boa parte das outras encaixam no exemplo anterior e portanto não podem sequer ser consideradas moedas. São criptocréditos, criptobônus, criptomilhas, mas não criptomoedas. Outra analogia possível são as notas bancárias emitidas por bancos privados antes da existência do papel-moeda: só podiam ser trocadas por “dinheiro de verdade”* nas agências do próprio banco e eram dificilmente aceitas pelos estabelecimentos comerciais fora da região onde o banco atuava. Portanto, sua circulação acabava sendo restrita e seu valor** reduzido. A nota bancária privada foi substituída pela moeda de curso forçado emitida por um banco central, mas ainda não sabemos como o mercado de criptomoedas solucionará de maneira descentralizada este problema análogo. Essa é uma falha que cedo ou tarde será sanada, não sem prejuízos, quebradeira, choro e ranger de dentes.

A multidão de criptomoedas hoje é uma característica de um mercado ainda em sua infância, e o mais provável é que apenas algumas delas permaneçam como opção viável para uma economia digital e descentralizada no futuro. As organizações e comunidades por trás de criptos como o SBD (Steemit), o STQ (Storiqa) e o BAT (Brave) precisarão se esforçar para mudar esta situação. Como não poderão impor sua moeda à força, que é o que os governos fazem, será necessário criar um ecossistema digital com um uso mais amplo para a moeda, muito além da sua plataforma emissora, onde os usuários tenham acesso a um amplo leque de bens e serviços. As únicas empresas que parecem ter capacidade para fazer isso sozinhas, hoje, são o Google e o Facebook. Mas quem sabe não veremos este ecossistema digital emergir de uma confederação de pequenas empresas interligadas? É esperar para ver.


Notas:

*Ouro e prata no caso das notas bancárias de antigamente, moeda de curso legal forçado no caso das criptomoedas de hoje.
**Valor como meio de troca, não o preço da criptomoeda no mercado cambial. Uma criptomoeda pode ter uma cotação de 1 para U$18.000, mas se não pode ser usada para comprar em lugar algum não tem valor como moeda, somente como reserva de valor ou investimento.


Quer saber mais sobre o futuro da economia? Leia:

 

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Não dá para culpar câmbio valorizado

O Brasil passou por problemas econômicos neste ano de 2013 – não que de 2012 para trás tenha sido melhor. Conforme dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), a balança comercial brasileira acumula, no ano, um superávit de US$ 1,023 bilhão. Entretanto, este superávit passa longe de cobrir o restante das contas externas – o déficit em transações correntes, composto pelo saldo da balança comercial, de serviços (fretes, juros, remessas de lucros e turismo internacional) e as transferências unilaterais, ao longo do ano, apresentam um déficit de US$ 72 bilhões, e o Banco Central projeta um déficit de US$ 79 bilhões.

Não obstante isso, o crescimento econômico é pífio – no terceiro trimestre, o pior do G20 -, a inflação persiste em alta, as contas públicas só não estão muito abaixo da previsão por causa de pontos fora da curva, o desemprego (pela discutível metodologia oficial) apresenta valores superestimados – não há aumento significativo de postos, e sim aumento de pessoas que vão para a inatividade (nos últimos 12 meses, houve decréscimo de 172 mil vagas). Há muitos problemas reais, e não uma guerra psicológica, como definiu Dilma Rousseff em seu pronunciamento de final de ano.

O que foi possível verificar no passado recente não só da economia brasileira, mas também da argentina, por exemplo, é que desvalorizações cambiais não são um instrumento de política econômica benéfico à população, e ainda podem ter efeitos colaterais nocivos.

A política cambial

Cotação do dólar entre 2010 e 2013. É notável a mudança na política cambial em meados de 2011.

A política cambial que o Brasil adotou em meados de 2011 possui um claro fim: facilitar o interesse do setor exportador da economia, o que, por conseguinte, melhoraria a economia como um todo. Conforme a ideologia dominante no governo, aumentar as exportações (geralmente vinculando com geração de empregos na indústria) desvalorizando o real seria um avanço, pois, agora, as mercadorias brasileiras estão mais baratas para a demanda estrangeira.

Por volta de 2011, surgiu um certo sentimento de que o brasileiro estava gastando demais no exterior e não muito na economia nacional. Na metade do ano, a cotação do dólar chegou a ficar abaixo de R$ 1,60. Ou seja, para adquirir um bem estrangeiro de, digamos, US$ 100, o brasileiro teria que gastar, somente com a conversão de valores monetários, menos de R$ 160. No começo do ano, quando a taxa estava próxima de R$ 1,70, a mesma mercadoria custaria aproximadamente R$ 170. Na prática, o preço para o consumidor final em ambos os casos certamente seria superior, pois existe toda uma logística por trás de uma mercadoria importada e que o governo colocava (e ainda coloca) entraves para a entrada da mercadoria no território nacional, como, por exemplo, por meio de impostos de importação, como um adicional para encarecer o produto estrangeiro perante o nacional.

Neste cenário de câmbio valorizado, tanto o consumidor final quanto a economia em si saem necessariamente ganhando; o setor industrial, por exemplo, não necessariamente se encaixa na mesma situação. O consumidor final sai ganhando pois agora o acesso às mercadorias estrangeiras ficou claramente mais barato, sobrando mais dinheiro no bolso do cidadão. E agora, com mais dinheiro no bolso, o mesmo poderá consumir mais unidades do mesmo bem, poderá poupar, mas, também, poderá consumir bens produzidos no Brasil ao mesmo tempo em que não precisou abrir mão do estrangeiro, o que irá beneficiar a economia brasileira. Além disso, a própria indústria utiliza diversos insumos oriundos do mercado externo, o que barateia seus custos de produção. Sem contar, também, que agora a oferta de bens na economia aumentou – as importações são mais bens sendo trazidos para cá. Consequente, a riqueza material da sociedade em questão aumenta, melhorando o padrão de vida da população.

Mas e para o setor industrial em específico? Uma mercadoria produzida no Brasil e que é vendida por R$ 150, com uma cotação de R$ 1,50 para o dólar, custaria US$ 100 para o estrangeiro. Agora, para uma cotação de R$ 1,00 para o dólar, a mesma mercadoria custaria, em dólares, US$ 150, encarecendo-a perante o mercado externo. Neste cenário de câmbio mais valorizado, para a mercadoria não ficar muito mais cara para o mercado externo, a empresa teria que comercializá-la a preços menores, o que pode incluir reduções no lucro e/ou custos de produção, aumentos na produtividade, ou então, por parte do governo, a redução de impostos e regulamentações que dificultam a atividade econômica. De qualquer forma, surge agora uma adversidade ao setor exportador, que, caso o governo não faça a sua parte, terá que incorrer em algumas destas opções acima apresentadas.

E em um cenário de câmbio desvalorizado? Ocorre o inverso. Uma mercadoria que custa R$ 100, com o dólar cotado a R$ 1,00, custa US$ 100 ao estrangeiro. Se o dólar passar a valer R$ 2,00, a mesma mercadoria custará apenas US$ 50 ao estrangeiro. Num passe de mágica, sem ganhos em produtividade, sem redução de lucros, o mesmo bem teve seu preço jogado para baixo, facilitando a vida do setor exportador. Mas e o consumidor final?

Um bem que custa $ 100, com o dólar a R$ 1,00, custa R$ 100. Neste cenário hipotético agora criado, com o dólar a R$ 2,00, a mesma mercadoria custará R$ 200. A mercadoria ficou mais cara, e caso o consumidor a compre, terá menos dinheiro no bolso, que poderia ser poupado ou utilizado para adquirir mais mercadorias, incluindo nacionais. As indústrias que necessitam de insumos estrangeiros terão seus custos de produção aumentados, pois a mesma regra para os preços em dólar válida para o consumidor vale para essas indústrias também. Além disso, a oferta de mercadorias no território nacional diminuiu – mais bens saíram para o exterior.

Como se comportaram as contas externas brasileiras neste período recente?

Evolução das exportações, de 2010 a 2013, em milhões de dólares. A linha pontilhada é uma média para facilitar visualização.

As exportações, apesar do alarmismo protecionista, estavam crescendo até a mudança na política cambial. Depois da mudança, as exportações passaram a diminuir de forma gradual, voltando a crescer de forma mais intensa apenas em 2013, estagnando da metade de ano para frente.

Importações brasileiras, de 2010 a 2013.

Já as importações, que cresciam de forma pujante, começaram a diminuir após a mudança cambial até o final do primeiro trimestre de 2012. Porém, mesmo com a pressão cambial elevando o custo de se importar, elas passaram a crescer de forma lenta e gradual até o presente momento.

Evolução da Balança Comercial brasileira, de 2010 a 2013.

Consequentemente, a balança comercial brasileira, ao invés de se tornar cada vez mais superavitária, passou a ter seu saldo em um valor cada vez menor. Em outras palavras, em resultados práticos, a sociedade brasileira viu seus bens importados encarecendo, ao mesmo tempo em que as exportações diminuíram, se comparadas a um primeiro momento subsequente a mudança cambial.

Evolução do déficit brasileiro em conta corrente.

Da mesma forma, o déficit em conta corrente piorou em 2013, após anos de relativa estabilidade negativa. Isso significa que, além da continuidade da remessa de lucros para o exterior, o brasileiro, mesmo com o encarecimento do dólar, continuou consumindo muito no exterior. A previsão de remessas de lucros para o ano de 2013 é de US$ 24 bilhões, e os brasileiros gastaram nos 11 primeiros meses do ano US$ 23,125 bilhões no exterior, um recorde, contra US$ 6,130 bilhões de estrangeiros no Brasil, deixando um déficit de US$ 16,995 bilhões, outro recorde. Não foi por acaso o aumento de imposto para algumas operações no exterior.

E a indústria?

Como se comportou a indústria, após a mudança cambial?

Evolução mensal da produção industrial brasileira dos últimos 4 anos.

A produção industrial está praticamente estagnada há anos Em 2013, mesmo com o câmbio, alta de 1,6%. O crescimento da indústria é muito pequeno, em 2 anos foram fechados mais de 200 mil empregos e – quem diria! – o câmbio, no determinado ângulo descrito no começo do artigo, está se tornando um vilão da indústria. Os custos de produção subiram 3,7% no terceiro trimestre em relação ao segundo. Segundo a própria Confederação Nacional da Indústria (CNI), o câmbio foi o principal responsável pelo aumento, pois o preço dos insumos importados aumentou 6,4% em um trimestre, contra 4,4% dos nacionais. A burocracia imposta pelo governo e a fraca competitividade subsequente são grandes entraves.

Segundo Luiz Rochel, gerente de economia da Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee), “toda atividade da empresa é exageradamente regulamentada. Se vai consumir água, existe toda uma legislação. Se vai consumir energia, idem. Pras empresas estarem com todas as regulamentações em dia, só tendo uma estrutura enorme”. Ele afirma que “em todas as pesquisas que fazemos a burocracia piora ano a ano”.

De acordo com Denis Ribeiro, do departamento de economia da Associação Brasileira das Indústrias de Alimentação (Abia), “o sistema tributário do país é muito complexo,  e o nosso setor é um dos que mais sofre. O alimento aqui é super taxado, se tornando um dos maiores impostos do mundo”. Pelo visto, representantes dos industriais finalmente perceberam que desvalorizar moeda não é fórmula especial para melhorar a indústria, que segue com os mesmos velhos problemas.

Conclusão

Nos últimos anos, a mudança ocorrida na política cambial resultou em algumas alterações na economia brasileira. De forma previsível, as mudanças desejadas pelo governo não vieram, e sim problemas para o cidadão brasileiro. A indústria, que era para ser a grande beneficiária, apenas ganhou proteção da concorrência externa. Suas atividades permaneceram praticamente inalteradas, só que agora mais protegidas da benéfica destruição criadora, como definia Schumpeter.

Já para o restante da economia, não obstantes os erros nas regulamentações e nas políticas monetária e fiscal, ficam os problemas oriundos da política cambial que, na prática, não melhorou as contas externas e, ainda, encareceu o já alto custo de vida do brasileiro.

Natal, oferta e demanda

O Natal de 2013 não simbolizou uma próspera economia. Muito pelo contrário. Conforme levantamentos preliminares, as vendas em âmbito nacional apresentaram a pior taxa de crescimento dos últimos anos.

Em 2013, segundo a Serasa Experian, o acréscimo de vendas foi de apenas 2,7%, ante 5,1% em 2012 e uma média de 7,54% nos últimos 11 anos. Essa desaceleração pode ser contextualizada dentro da política econômica atual, tendo como base o consumo para o crescimento, considerando, assim, a demanda mais importante do que a oferta para a situação econômica brasileira.

Juros, consumo e crescimento

Um dos principais fatores para o pequeno crescimento das vendas natalinas é, certamente, o crédito. É evidente que a dificultação do consumo força as vendas para baixo. Entretanto, é equivocado apresentar isso como sendo o principal fator para o problema, como apresenta o Estadão em sua matéria.

Evolução da taxa de juros no Brasil nos últimos 11 anos.

Com essas informações, pode se chegar a uma conclusão: o consumo no Natal não está tão diretamente ligado ao crédito. Em 2003 e em 2004, por exemplo, os juros foram um dos mais altos do período, entretanto, as vendas no Natal foram as que apresentaram o maior crescimento, e mesmo com uma posterior redução gradual da taxa de juros, o consumo no Natal apresentou decrescimento. As vendas estão mais relacionadas com a situação da economia em si.

O que pesou para o Natal e para o restante do ano para a economia brasileira foi a própria política econômica irresponsável, que gera entraves ao Brasil. As contas públicas andam mal, a inflação não dá tréguas e está relacionada com o câmbio, cada vez mais desvalorizado. Somados a esses fatores, existe toda a dificuldade de desenvolver um negócio no Brasil, com a pouca liberdade econômica existente no país. Dessa forma, fica complicado não só para o comércio, mas para todos os setores da economia.

Um momento critico: Por que a economia brasileira desandou?

Por Raduán Melo. Publicado originalmente no blog Atlas. Para ler o artigo original, clique aqui.

2013 é um ano que veio para nos ensinar muita coisa, e ainda falta um terço para o ano acabar. Certa vez, ouvi a seguinte metáfora: “O Brasil é como o dono preguiçoso de uma casa que está com a telha quebrada: quando faz sol ele diz que não precisa consertar a telha, pois a o buraco no teto está é iluminando o ambiente; quando chove, ele diz que não pode consertar agora por que é arriscado subir no telhado com chuva e quebrar mais telhas.” Infelizmente, não me recordo quem é o autor dessa genial comparação.

Era muito bom para ser verdade…

Em 2013 o modelo econômico brasileiro, que foi enaltecido por grande parte do mundo, ruiu. Não somos nem perto do que muitos economistas esbravejaram mundo afora. Embriagamo-nos com dívidas e estímulos ao consumo e rimos à toa com o torpor gerado. O Cristo Redentor sendo lançado aos céus como um foguete, na capa da The Economist, foi uma epifania para o povo brasileiro! Isso tudo foi há menos de 4 anos. Como tudo mudou, e rápido.

Após a crise de 2008, o governo deu início a um grandioso estímulo ao consumo. Apenas nos primeiros 6 meses de 2009, a taxa básica de juros foi reduzida em quase 40%. O crédito dos bancos públicos foi expandido em cerca de 30%, impostos foram cortados e gastos ampliados. O canhão anti-crise brasileiro foi poderoso, crescemos 7,5% em 2010 e chamamos uma crise que abalava o mundo inteiro de “marolinha”. O momento era tão bom, que se antes da crise (2006/2007) o consumo das famílias representava 63% do PIB, logo após a crise (2009/2010/2011) o consumo das famílias subiu para 66% de um PIB já maior! Conseguimos o toque de Midas, enquanto todos praguejavam contra a crise, consumíamos como nunca.

Depois vem a ressaca…

Para financiar tudo isso, uma boa dose de dívida pública foi adquirida. A Dívida Bruta brasileira, apenas de 2009 para 2012, cresceu mais de 10% sua proporção no PIB, chegando a incríveis 68,5% do PIB nacional. Para efeito de comparação, a dívida pública chinesa é de 21% do PIB e a mexicana 44%. Entre os emergentes ninguém supera a gente.

Isso poderia ser menos danoso, se boa parte dessa dívida não tivesse sido adquirida para financiar negócios empresariais no mínimo suspeitos, como as empresas do Grupo X do empresário Eike Batista, e a famosa política do BNDES de promover grandes conglomerados nacionais, algo que ficou longe de gerar os resultados esperados após um aporte de R$18 bilhões de reais.

Como se não bastasse o governo colocou em prática sua fé de que a economia pode ser pilotada, como se fosse um avião, e começou um excessivo microgerenciamento. Em uma semana cortava-se o imposto de um setor, na outra semana de outro, depois mudava-se as regras de concessão dos portos, mais algum tempo fixava-se o retorno dos investimento em algumas privatizações. Atualmente, é uma novidade intervencionista por semana. Com isso a simpatia do mundo com o Brasil foi diminuindo, e seus investimentos aqui também.

Como se não bastasse, concomitantemente adotamos uma política totalmente hostil ao capital externo, com aumento de tributações (IOF), o que freou a entrada de dólares no Brasil, reduzindo em até 40% apenas no primeiro semestre de 2012. E você quer saber o melhor? Isso não foi acidental, foi totalmente proposital. Munido do argumento da “guerra cambial”, onde os países lutam para ver quem desvaloriza mais sua moeda, o Brasil foi bloqueando como pode a entrada da moeda americana, valorizando o real.

A inflação

Todavia, o pior ainda estava por vim: a inflação. O estímulo exagerado ao consumo incomodou o dragão. Do final de 2012 até os dias de hoje, o brasileiro voltou a se preocupar com algo que há algum tempo já não lhe incomodava.

Eu tenho meu termômetro pessoal para medir a inflação. É o seguinte: qual período de cálculo da inflação é motivo para merecer as capas dos jornais. Em uma economia onde tudo ocorrer razoavelmente bem, isso ocorrer anualmente, com fechamento do exercício, justifica-se. O Banco Central trabalha como indicou que iria fazer e a inflação fica dentro da meta. Todavia, quando a o BC não trabalha correto, e essa diverge bem do centro da meta, a inflação mensal começa a ganhar uma notoriedade que antes não tinha, qualquer número acima de 0,6% (algo que parece irrisório para um leigo) já tira o sono de muita gente. Estamos chegando nesse nível, brigando com a inflação mensal. O pior patamar é quando a inflação semanal, ou até diária, passa a ter notoriedade. Nesse nível, a racionalidade econômica já passa longe.

E é nesse ponto que está o crítico momento brasileiro. O governo tentou tanto, que conseguiu: o dólar subiu no telhado e já está na casa dos R$2,40, e promete pressionar a inflação no segundo semestre.

O problema é que o estímulo ao crescimento não faz mas o efeito que fazia e o crescimento do PIB é pífio (0,9% em 2012). Como se não bastasse, e como consequência de tudo isso, o iBovespa patina em 2013, com perdas na casa de 20%. Empresários já batem na porta do governo querendo que seus setores também sejam contemplados por cortes de impostos (nessa hora todo setor vira estratégico).

O que fazer?

E agora, governo? Torrar as reservas para segurar o dólar, como fez essa semana, e deixar o país exposto? Ajudar as empresas privadas com mais crédito subsidiado e corte de impostos pontuais e mandar as favas o esforço fiscal do superávit primário? Expandir ainda mais o crédito, aumentando a embriaguez do mercado e gerando outro crescimento artificial ao mesmo tempo em que o dragão quebra o teto?

Ou seria melhor parar de achar que a economia é um avião que se pilota e deixar o mercado agir? Não precisamos de mais crédito, nem de menos, precisamos de um crédito real, respaldado em poupança. Não precisamos de um dólar mais alto, nem mais baixo, mas de um câmbio real, flutuando com o mercado. Não precisamos de empresas sendo salvas, precisamos de uma maior concorrência, para só ficarem no mercado aquelas empresas que realmente atendem bem ao consumidor. Não precisamos de um crescimento recorde do PIB, precisamos de um crescimento real e sustentável.