A Droga da Mentalidade Classista

Pedro Bandeira é um famoso escritor de livros infanto-juvenis com temática predominantemente voltada para romances policiais, suspense e mistério. Uma de suas obras mais conhecidas chama-se “A Droga da Obediência”. O título, um tanto sugestivo, faz referência a uma droga que, no livro, fazia as pessoas obedecerem a um comando.

Por algum motivo, a lembrança do livro de Bandeira, me fez atinar para o fato de que a mentalidade classista (ou coletivista, se preferir) também é uma droga. Para quem não sabe, mentalidade classista é a tendência de encarar os indivíduos sempre como representantes de uma classe homogênea e uniforme. Ora, se a classe é homogênea e uniforme, todos os indivíduos serão tratados como se fossem exatamente iguais. Logo, o indivíduo deixa de existir e a classe passa a existir em seu lugar.

Dando continuidade ao raciocínio, averigüei que, semelhantemente às drogas, a mentalidade classista causa vício e leva o indivíduo a querer usar cada vez mais da droga. Vou mais longe: a mentalidade classista entorpece as pessoas de tal modo que seus cérebros são levados a criar alucinações. O resultado é que o classista começa a desenvolver graves psicoses, como a síndrome da perseguição. Um exemplo disso pode ser visto neste vídeo:

Perceba que no vídeo, a mocinha não reconhece a existência de indivíduos, mas apenas de classes. No caso específico, as classes são: negros e brancos. Os negros são definidos como indivíduos pobres, injustiçados e trabalhadores, ao passo que os brancos são definidos como bem abastados, “filhinhos-de-papai”, exploradores, parasitas e vagabundos.

Qualquer pessoa sã consegue perceber o delírio aqui. Não podemos reunir um monte de pessoas diferentes, cuja maioria nós sequer conhecemos, e traçar um perfil igual para todas elas. Há negros honestos e desonestos. Há brancos ricos e pobres. E por aí vai. Mas a idéia delirante de enxergar os indivíduos como classes, impele a jovem a traçar um perfil específico para cada classe.

É daí que se iniciam as psicoses. Em geral começa com a síndrome maniqueísta, isto é, a mania de entender as interações humanas em termos de bem versus mal. O seu cérebro aqui monta um cenário onde a classe a que você pertence é a classe dos caras do bem, os mocinhos. As demais classes são dos malvados, os vilões. E a história se resume a essa luta entre a classe boa e a classe má.

A síndrome maniqueísta desencadeia a síndrome da perseguição. A pessoa começa a se enxergar como explorado, perseguido e injustiçado. Isso resulta em vários problemas. O primeiro é que a pessoa se torna paranóica. Ela enxerga discriminação e exploração contra a sua classe em tudo. Qualquer fala, qualquer opinião, qualquer gesto, pode servir como base para que o indivíduo alegue injustiça.

O segundo é a perda de percepção do tempo. O indivíduo não consegue mais entender o que é passado. Por exemplo, se um etíope matou um egípcio há 400 anos, os egípcios de hoje são os injustiçados e os etíopes de hoje são os vilões. Não importa se foi há 400 anos. Não importa se o evento envolveu só duas pessoas. Não importa se as pessoas de hoje em dia nada tem a ver com o evento. Estamos falando de classes. O que um faz, todos fazem, em todos os tempos.

O terceiro problema que a síndrome da perseguição gera em uma pessoa é a idéia de que os fins justificam os meios. Ora, se você está sendo perseguido por um inimigo sórdido, cruel e explorador, seu cérebro vai impelir você a acreditar que pode fazer qualquer tipo de atrocidade para com ele. Aliás, você pode fazer até injustiças porque, em sua mente, o injustiçado é você e assim sempre será.

A síndrome da perseguição e todos os seus efeitos desencadeiam o ódio extremo à classe inimiga e o culto extremo a sua própria classe. A sua classe se torna uma classe superior e a classe inimiga se torna inferior. Na verdade, já era assim antes, quando você via sua classe como a classe dos caras bons. Mas, como já disse, a mentalidade classista é uma droga, e a droga torna a dependência do indivíduo gradualmente maior. O último estágio deste drogado é a hábito discriminatório, o preconceito.

É a hora em que nos perguntamos: não foi exatamente este o processo pelo qual passou Adolf Hitler? E não é exatamente este o processo pelo qual passam todos os genocidas? Lênin, Stálin, Mao Tsé Tung, Pol Pot… A mentalidade classista tem várias faces, cada qual com suas classes e seus antagonismos entre classes. Negros x Brancos; Mulheres x Homens; Homossexuais x Heterossexuais; Religiosos x Anti-religiosos; Ricos x Pobres; Patrões x Funcionários; Nativos x Estrangeiros; Saudáveis x Doentes; Esquerdistas x Direitistas e etc. Mas a droga é a mesma, bem como os seus efeitos.

Uma Tendência Humana
Pode-se perguntar: “Mas agrupar-se e enxergar as pessoas em grupos não é uma tendência humana?”. A resposta é sim. Em geral, desejamos estar com pessoas que tem os mesmos gostos que nós, a fim de podermos compartilhar o que nos agrada com elas e de nos sentir parte de um grupo. Gostamos de estar em grupos. E é normal valorizar os grupos em que nos enquadramos. Certamente é por isso que tendemos a agrupar as pessoas em nosso cérebro.

Entretanto, seguir essa tendência natural humana é diferente de adulterá-la por meio de uma mentalidade psicótica, tornando-a um elemento discriminador. Este é o x da questão. Querer estar em um grupo ou reconhecer a existência de grupos no mundo nada tem a ver com enxergar o indivíduo como o grupo. O reconhecimento de grupos não pode substituir o reconhecimento do indivíduo. Classe não é indivíduo e indivíduo não é classe. Entende?

Eu posso fazer parte da classe dos rockeiros, mas devo ser analisado, tratado e julgado como Davi Caldas e não como rockeiro. Conforme afirmei uma vez em uma breve reflexão, eu não sou negro, nem branco, nem alemão, nem italiano, nem ariano, nem proletariado, nem burguesia, nem machista, nem feminista, nem gayzista, nem uma ONG, nem uma ideologia, nem um partido, nem uma religião, nem o povo, nem a massa, nem a comunidade, nem a sociedade, nem a humanidade…

Posso até fazer parte dessas classes, mas não sou uma abstração coletivista. Eu sou eu. Eu sou Davi Caldas, um indivíduo, com toda a sua individualidade. Por isso, me recuso a ser caracterizado, conhecido, definido, analisado e julgado como mais um número dentro de algum rótulo coletivista.

A minha individualidade está acima da coletividade onde me encontro. Isso não é egoísmo. Isso é o entendimento de que cada pessoa deve ser tratada, definida e respeitada como uma pessoa e não como parte de uma massa amorfa, abstrata e indefinida. Se um dia todos entendessem isso, o preconceito diminuiria muito e a manipulação de massas não lograria mais êxito algum. O ator Morgan Freeman diz isso de modo simples e direito nesta entrevista:

A Mentalidade Classista e a Esquerda
Compreendendo que a mentalidade classista é uma droga perigosa, que pode levar algumas pessoas a contraírem sérios distúrbios e psicoses, como já evidenciado, nossos olhos se voltam imediatamente para a esquerda política. A esquerda tem em seu DNA a mentalidade classista. Desde que o seu pensamento começou a se desenvolver, com Rousseau, Robespierre, Fourier e Marx, a idéia de enxergar os indivíduos como massa e o mundo como um campo de batalha entre classes antagônicas sempre esteve em sua base. E assim é até hoje. Não há esquerda se não houver a psicose classista.

Invariavelmente esse posicionamento nos tem levado às discriminações, aos regimes antidemocráticos, às perseguições, aos genocídios; ao culto ao partido que está no poder, ao governo, ao Estado, ao líder; à homogeneização forçada do mundo. A liberdade de expressão é destruída. A sociedade vira palco de uma luta sangrenta na qual uma classe deverá sucumbir para que a paz no mundo seja alcançada. Esse é o projeto da esquerda.

A Mentalidade Classista e a Direita
A direita rechaça e sempre rechaçou a mentalidade classista. Digo a direita e não os direitistas (notou a diferença?). É certo que há direitistas que foram contaminados pela droga da mentalidade classista, afastando-se dos ideais originais da direita. Mas o pensamento da direita encara a mentalidade classista como um delírio. Desde Smith e Burke até Churchill, Kirk, Thatcher e Reagan, a idéia de que o indivíduo deve ser valorizado acima da classe sempre foi a base do pensamento da direita.

Para a direita o mundo pode até ser um campo de batalha, mas entre indivíduos e não entre classes. Porque a classe, seja esta a burguesia, o proletariado, a mulherada ou uma nação inteira, ela não define todos os indivíduos. Isso é generalizar. É olhar para uma favela e dizer que lá só tem bandido. A mentalidade classista é o princípio de quase todos os preconceitos. “Todo religioso é burro”, “todo padre é pedófilo”, “todo pastor é ladrão”, “todo ateu é imoral”, “todo rico é explorador”. São preconceitos típicos de quem se droga com a mentalidade classista. É o que a direita rechaça.

Que fique claro que não estou dizendo que nenhum direitista é preconceituoso ou que todo o esquerdista o é. Longe de mim, fazer tal generalização (o que, iria ruir com todo o meu texto, aliás). Apenas estou dizendo que o pensamento da esquerda se baseia na mentalidade classista e o da direita não.

Para aqueles que querem seguir fielmente os seus princípios, isso precisa ser esclarecido. Um direitista que siga total e irrestritamente os ideais de direita, não poderá se drogar com a mentalidade classista, ao passo que um esquerdista que siga total e irrestritamente os ideais de esquerda, não poderá se abster de usar a droga da mentalidade classista. Este é um dos motivos pelos quais escolhi ser de direita.

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Babilônia Política

Contribuição espontânea do nosso leitor Davi Caldas, em resposta ao artigo “A Esquerda e Direita no Mundo Contemporâneo” do nosso articulista Rodrigo Viana. O artigo original foi publicado no blog Mundo Analista. Para ler o artigo original, clique aqui.

Recomenda-se a leitura prévia dos artigos:

O presente artigo, “Babilônia Política”, de Davi Caldas, é portanto uma tréplica.

Há cerca de um mês publiquei um texto intitulado “Confusões clássicas sobre direita e esquerda” aqui no blog. O mesmo texto foi avaliado pelo site “Direitas Já” a pedido meu (o “Direitas” costuma a avaliar e postar textos de leitores) e postado por lá no dia 28 de fevereiro. Ironicamente, um dos administradores do próprio site, Rodrigo Viana, postou, no dia 6 de março, um texto intitulado “Esquerda e Direita no Mundo Contemporâneo”, onde expõe sua discordância com aquilo que eu disse em meu texto.

Digo “ironicamente” não pela discordância ter partido de um administrador do site, já que um site feito por várias pessoas pressupõe a pluralidade de idéias. Porém, a ironia está no fato de Rodrigo Viana se propor, em seu texto, a dizer que Esquerda e Direita são conceitos que não servem para definir muita coisa. Não é o que eu esperaria de uma pessoa que administra um site que leva em seu nome justamente um desses dois rótulos.

Mas, enfim, o texto de Rodrigo, embora bem escrito, me deu a impressão de que ele não entendeu muito bem os meus argumentos. Assim, me sinto na obrigação de tirar aqui algumas dúvidas e de responder a algumas objeções levantadas por ele. Eu o farei de maneira construtiva e educada, mas serei incisivo, ok?

As Cinco Mentalidades Contextuais
Logo no começo de sua postagem, Rodrigo Viana cita um texto de outro administrador do site, Renan Felipe, intitulado “As Cinco Mentalidades Políticas”.

Neste texto, Renan adota um modelo de classificação das ideologias políticas, no qual existem cinco mentalidades: Reacionária, Restauradora, Moderadora (conservadora), Reformadora e Revolucionária. Com base nesse modelo do administrador Renan Felipe, Rodrigo Viana afirma que em sua visão

o que se diz normalmente como Direita são correntes que estão em posições como “reacionária”, contrário a qualquer tipo mudança, e “moderada”, onde certas mudanças podem ser bem vindas, desde que não sejam abruptas. E Esquerda como “reformadora”, visando mudança significativa, porém de cunho pragmática, e “revolucionária”, mudança desde a raiz.

Observando esse trecho é possível averiguarmos que o entendimento de Rodrigo sobre o que é Direita e Esquerda tem algumas falhas pequenas, porém expressivas. Para começar, ele afirma que a mentalidade reformadora, que visa mudanças significativas e pragmáticas, é normalmente dita como Esquerda. Isso é questionável, porque depende muito do contexto político vivido pelo Estado.

O Brasil, por exemplo, vive há muito tempo num contexto de domínio ideológico esquerdista. Então, propostas direitistas como o fim de programas assistencialistas, a redução de impostos, a diminuição do Estado na economia e o investimento no setor privado em vez do público são, sem dúvida, propostas de mudanças muito significativas e de cunho bem mais pragmático (no bom sentido que essa palavra pode oferecer) do que o utopismo apregoado pelo nosso governo de esquerda.

Ou seja, nesse contexto, a mentalidade reformadora é a mentalidade de direita; e a esquerda, curiosamente, passa a ter a mentalidade reacionária, por querer manter tudo como está (ou até mesmo uma mentalidade conservadora, por não almejar mudanças muito bruscas no modo de governo atual, a fim de preservar o status quo).

Rodrigo também afirma que a mentalidade moderada (conservadora) é aquela que pode até aceitar algumas mudanças, desde que não sejam abruptas. Ora, mas essa definição só funciona quando pressupomos que aquilo que o moderado quer conservar ainda existe. Mas em um contexto onde toda a tradição e experiência que valiam à pena ser guardadas foram destruídas por um Estado autoritário, o conservador se transforma no agente que mais apregoa e luta pela mudança. Ele quer de volta os pilares da sociedade que foram derrubados pelo autoritarismo, o mais rápido possível; e talvez seja capaz até de utilizar a força bruta para tal (a depender do contexto). Um perfil bem semelhante ao de um revolucionário, não é mesmo?

Portanto, na realidade, é esse modelo das cinco mentalidades políticas que não diz muita coisa. Tais mentalidades me parecem um tanto contextuais e, por esse motivo, não servem para conceituar Direita e Esquerda, como faz o nosso amigo Rodrigo.

Rodrigo continua o texto, desenvolvendo o seu argumento de que Direita e Esquerda não são bons rótulos, já que muitas de suas ideologias se baseiam em mentalidades que, segundo sua visão, são tanto de Esquerda quanto de Direita. Tal ambigüidade, para Rodrigo, torna impossível saber à qual das duas tais ideologias pertencem, já que elas bebem em fontes opostas uma a outra. Ele diz:

O Liberalismo tanto bebe de fontes “moderadas” como “reformadoras”. Se considerarmos sua versão anárquica, o Anarco-capitalismo, estaria, também, apoiada numa posição “revolucionária” além das duas já herdadas do Liberalismo. São correntes que nem a Esquerda e nem a Direita possuem suporte para tal.

Esse exemplo sobre o liberalismo não diz absolutamente nada porque, como já mostrei, não faz sentido dizer que a mentalidade moderada é sempre de Direita e que a mentalidade reformadora é sempre de Esquerda. Moderação e Reforma, do modo como Rodrigo define, podem pertencer tanto à Direita como à Esquerda, dependendo de como se encontra a política do Estado. Essas mentalidades não definem o espectro político da ideologia. Em um Estado comunista, por exemplo, os “moderados” podem ser aqueles que querem a conservação do regime comunista, aceitando apenas pequenas mudanças de vez em quando. Nesse mesmo Estado, contudo, o “reformador” é aquele agente que deseja a substituição do sistema comunista por outro sistema. É uma questão puramente de contexto político.

Então, o fato do liberalismo clássico beber tanto em fontes moderadas como em fontes reformadoras, não significa que ele não possa ser definido como uma ideologia de Direita ou de Esquerda.

Quanto à corrente anarquista, seus adeptos podem ser tanto de Direita como de Esquerda, sem termos problema algum quanto à classificação [1]. Porque o anarquismo em si não pertence a nenhum dos lados. Ele é apenas a idealização de uma sociedade sem um governo e sem uma hierarquia estatal. E em uma sociedade assim, não há nem Esquerda, nem Direita, evidentemente.

Então, o que define se um anarquista é de Direita ou Esquerda não é o anarquismo em si, mas (1) como o anarquista acredita que essa sociedade funcionaria; (2) o que o anarquista considera empecilhos para a concretização dessa sociedade; (3) como o anarquista acha que esses empecilhos poderiam ser ultrapassados.

Embora haja algumas diferenças entre os anarquistas de Esquerda, em geral eles concordam que a sociedade anarquista funcionaria naturalmente sem problemas, porque o mal da sociedade não está no ser humano, mas nas instituições do Estado e, sobretudo, no próprio Estado. Isso já seria o suficiente para classificar um anarquista como sendo de Esquerda, já que o principal pilar da Esquerda é o otimismo antropológico.

Como o sonho de uma sociedade anarquista é um sonho muito distante é comum que os atuais anarquistas acabem se alinhando com marxistas. É sabido que marxistas e anarquistas tinham muita rivalidade na época de Marx, mas isso não anula o fato de que ambos tinham um objetivo final em comum: uma sociedade sem Estado. Por isso, o alinhamento é normal. Assim, anarquistas de Esquerda freqüentemente se tornam ferrenhos críticos do capitalismo, da burguesia, da religião e, claro, da Direita. Esses acabam sendo os seus principais inimigos.

E como destruir esses inimigos? Aqui, outra vez o alinhamento com marxistas e demais esquerdistas se torna proveitoso. Afinal, todos juntos vão “descer o cacete” em seus inimigos em comum. Tenho um colega anarquista, por exemplo, que adora ler a Carta Capital e o Observatório da Imprensa. Ele também segue páginas virtuais como “Che Brasuca”, “Direitistas Caricatos” e mais uma dúzia de páginas esquerdistas que criticam a direita, a burguesia, o capitalismo, a religião e as igrejas, tratando-os como a raiz de todos os males do mundo.

Já os anarquistas de Direita (Anarco-Capitalistas) são totalmente diferentes. Eles não acreditam que o ser humano é bom e que o mal da sociedade está em um fator ex-terno à espécie. Tendo como base o pessimismo antropológico, que é o principal pilar da Direita, esses anarquistas acham que o Estado é ruim porque, como o ser humano é inclinado ao mal, o Estado sempre será, de alguma maneira, opressor.

Liberais clássicos e conservadores burkeanos não discordam totalmente disso. O mundo não é bom mesmo e a luta do ser humano deve ser para torná-lo melhor e não perfeito. A diferença reside no fato de que o anarquista de Direita acredita que o Estado pode ser abolido sem que a sociedade se torne uma desordem. Isso porque, para o anarquista de Direita, instituições como tribunais, polícia, exércitos e bombeiros (com suas hierarquias internas) continuariam existindo, mas como empresas privadas e cada um podendo criar a sua, se quiser. A busca dos consumidores pelos melhores serviços iria garantir a melhoria na qualidade dos serviços que, por sua vez, garantiria a ordem da sociedade sem Estado. Utópico, por certo, mas baseado no pessimismo antropológico da Direita política.

Percebe-se, portanto, que dentre os inimigos do Anarco-Capitalismo não estão a burguesia, o capitalismo, o livre mercado, as políticas de Direita e a religião, como é o caso da maioria dos anarquistas de Esquerda. Os inimigos dos Anarco-Capitalistas são justamente o marxismo, a social-democracia e todas as ideologias que pretendem fortalecer o Estado ou lutar contra o livre mercado e o capitalismo.

Como destruir esses inimigos? Alinhando-se com liberais clássicos e conserva-dores burkeanos. É extremamente comum ver esse alinhamento. Porque por mais que existam grandes diferenças entre eles, há muito mais semelhanças. Portanto, não há (ou, pelo menos, eu não consigo ver) nenhuma dificuldade em se classificar um anarquista como sendo de Direita ou de Esquerda. Embora ambos não acreditem na manutenção do Estado, as diferenças entre eles são gritantes.

Compreendendo o processo histórico
Continuando o seu texto, Rodrigo mostra que não compreende bem o processo histórico da passagem entre a antiga política absolutista e nova política iluminista (da qual fazem parte, principalmente, o iluminismo britânico, que influenciou também os EUA e o iluminismo francês). Para Rodrigo, conservadores da antiga política caminham lado a lado com conservadores da nova política. Diz ele:

Outro erro comum é querer atribuir feições individualistas para a Direita e coletivistas para a Esquerda. Ora, isso não é coerente do ponto de vista teórico quanto histórico. A Direita clássica, em que tem o conservadorismo europeu como um de seus representantes, nunca almejou uma legítima posição individualista. Pelo contrário, foi um grande opositor, no passado, da igualdade jurídica entre indivíduos e até hoje se contorce ao ouvir discursos de abolição de privilégios consentidos a certos setores da sociedade.

O que Rodrigo Viana entende como “conservadorismo europeu” é, na verdade, o conservadorismo absolutista, uma mentalidade muito comum nos séculos XVIII e XIX, em pessoas que não se conformavam com a derrubada dos modelos absolutistas de governo. Essa mentalidade, evidentemente, sofreu algumas variações ao longo do tempo e não é mais tão comum. Porém, ainda há alguns desses conservadores que se baseiam em aspectos de um sistema que já foi derrubado há séculos.

Este tipo de conservador, conforme deixo claro em meu texto, não consegue se enquadrar no modelo de classificação Direita x Esquerda porque essa classificação não faz parte da antiga política. Falar em Direita e Esquerda em uma sociedade absolutista não só seria um anacronismo como não faria nenhum sentido lógico. Ou seja, um conservador absolutista não só não faz parte da Direita como também pensa de maneira diametralmente oposta a um conservador burkeano. Não se pode colocá-los lado a lado como se o conservadorismo de ambos fosse o mesmo.

E é de se ressaltar que a maioria dos que eram opositores da igualdade jurídica entre indivíduos e da abolição de privilégios de determinadas classes eram justamente os absolutistas. É certo que os primeiros direitistas também não eram tão respeitadores dos indivíduos como são hoje. Havia muita discriminação entranhada na sociedade. Mas isso era uma questão mais cultural e pessoal do que ideológica. Conforme o contexto foi mudando, os direitistas foram percebendo a verdadeira essência do individualismo.

Então, essa idéia de colocar liberais clássicos e conservadores burkeanos juntos com conservadores absolutistas, todos dentro da Direita, não é muito coerente. Quando se faz isso, aí realmente fica impossível de afirmar, por exemplo, que a Direita defende o individualismo e que a Esquerda defende o coletivismo. Afinal, absolutistas não são respeitadores do indivíduo, como os burkeanos e os liberais. Rodrigo continua:

Se havia intelectuais como Joseph de Maistre, Louis de Bonald e Donoso Cortés como defensores de um estado moralizador e, muitas vezes, autoritário, havia também Benjamin Disraeli como um representante legítimo do coletivismo e protecionismo. E bem sabemos que o resultado entre coletivismo e estado autoritário pode ser qualquer coisa, menos o da defesa pela autonomia individual.

Aqui Rodrigo Viana cita alguns exemplos para provar que nem todas as Direitas são individualistas. Não é nenhuma surpresa constatar que os três primeiros nomes cita-dos são de pensadores que foram extremamente simpáticos ao regime absolutista (o terceiro começou como um liberal clássico, mas desistiu por achar que o Estado deveria ser forte). Mais uma vez, não dá para chamar essas figuras de representantes do pensa-mento de Direita. Eles eram representantes da velha política.

Benjamin Disraeli era de Direita? Questionável isso. Ele podia até ter algumas características de um conservador de Direita, mas isso não significa muito. Não se pode classificar uma pessoa por algumas características apenas. É necessário ver o panorama geral. Por exemplo, um aluno que tirou cinco notas baixas em química é bom ou ruim nessa matéria? Depende. Se ele fez apenas cinco provas, é um aluno ruim, pois foi mal em todas as provas que fez; se fez dez ou doze, ele é mediano; se fez vinte ou trinta, então ele é bom e suas notas baixas foram apenas exceções. É uma questão numérica.

Do mesmo modo, alguém pode ter algumas (ou até muitas) características de um conservador de Direita, mas também ter um número semelhante de características que são próprias da Esquerda. Este indivíduo acaba, portanto, ficando no centro do espectro, o que o torna um centrista. Rodrigo continua:

A Direita é muito mais do que a visão política americana e Edmund Burke não é o único representante do Conservadorismo. Por isso mesmo que a Direita pode tanto estar mais próximo do individualismo (como a Antiga Direita americana) como do coletivismo (a tradicional Direita europeia).

O próprio Partido Conservador britânico, no período pré e pós-Segunda Guerra, é um exemplo desse socialismo de Direita.

Rodrigo continua fazendo confusão entre diferentes tipos de conservadorismo. É justo explicar aqui: quase todas (senão todas) as pessoas são conservadoras. Tanto as de Direita como as de Esquerda. Afinal, todos desejam conservar algo que acham positivo para sociedade. E naquilo que se deseja conservar, reformas são sempre leves, graduais e vistas até com ceticismo. No caso da Esquerda, por exemplo, temos aqueles que querem conservar o regime socialista cubano (que já tem mais de cinqüenta anos). Eles são conservadores socialistas de Esquerda, portanto.

Então, quando vamos falar de conservadorismo, é muito importante fazer distinção entre os diversos tipos de conservadorismo existentes. É isso que Rodrigo não faz em seu texto. Para ele só existe um tipo de conservadorismo, que engloba absolutistas, teocratas, burkeanos e nacionalistas. E para ele, todos esses formam a Direita. Não me admira que alguém com essa visão, ache inconsistente o rótulo de Direita.

Quanto a Burke, Rodrigo está certo ao dizer que ele não é o único representante do conservadorismo. Existem outros representantes, assim como também existem outros conservadorismos. O conservadorismo de Burke é também chamado de conservadorismo moderno e é invenção da nova política iluminista, da onde surgem também a Direita e a Esquerda. E a Direita se baseia justamente nesse conservadorismo, em oposição ao conservadorismo absolutista. Ficou claro?

Então, no fim das contas, a Direita que existe nos EUA é a mesma Direita que existe na Europa, pois a Direita nasceu baseada no liberalismo e no conservadorismo defendido por homens como Burke, Alexis de Tocqueville e Bastiat. E essa tal “Direita” clássica européia, coletivista e regressista, que Rodrigo menciona, na verdade, é a antiga política absolutista (não a Direita).

Quanto ao “socialismo de Direita”, isso não existe. Quando um partido político dito de Direita se rende ao socialismo, a conclusão a que devemos chegar não é a de que Direita e Esquerda são rótulos ineficientes, mas sim a de que aquele partido abriu mão de princípios direitistas e se moveu em direção à Esquerda. As definições de Direita e Esquerda continuam as mesmas, o que muda é a postura de partidos e de seus políticos.

E o mesmo exemplo serve para a Esquerda. Não são todas as correntes ditas esquerdistas que se opõem ao indivíduo. Mutualistas como Pierre-Joseph Proudhon e Benjamin Tucker defendiam medidas “socialistas” ao enfatizar o modo cooperativo e de ajuda mútua da sociedade, porém sem a perda da autonomia individual. Seria então estes anarquistas direitistas? Certamente que não. Ou melhor, existe algum tipo de corrente anarquista que seja adepto da Direita? Bom, só de haver uma ligação entre “anarquia” e “Direita” já demonstra o quão limitado é enxergar a política de modo binário.

Ora, como eu falei antes, se o anarquismo não pertence nem a Esquerda, nem a Direita, podendo ser tanto de um quanto de outro, então é perfeitamente plausível afirmar que um anarquista também pode ficar no meio do espectro. Por que não? Eu não trabalho com uma divisão binária. Para mim, uma pessoa pode ser de Esquerda, ou de Direita, ou de Centro, ou de Centro-Esquerda, ou de Centro-Direita. São cinco posições diferentes. Dá para enquadrar todo mundo em algum lugar (a exceção dos absolutistas, que não fazem parte desse esquema político moderno).

Compreendendo o meu paradigma
Chegando ao fim de seu texto, Rodrigo começa a mostrar que não entendeu nada do que escrevi na postagem “Confusões Clássicas sobre Direita e Esquerda”. Ele diz:

Bem sabemos que a Direita era composta por pessoas anti-revolucionárias e a Esquerda por pessoas favoráveis a mudança.

Não, cara, não! Foi exatamente essa confusão que eu tentei desfazer durante todo o meu texto. Direita e Esquerda são duas vertentes ideológicas que começaram a se desenvolver muito antes do advento da Revolução Francesa (embora não com esses nomes ainda). Duas vertentes que, embora desde o início tenham sido antagônicas, têm algo em comum: ambas surgiram como parte integrante da nova política iluminista, contrária à velha política absolutista.

O que surge na Revolução Francesa não são essas vertentes ideológicas, mas sim a idéia de se chamar políticos mais radicais de Esquerda e políticos mais conservadores de Direita. Entretanto, como tais definições são muito vagas e não conseguem definir uma linha de pensamento específica para cada termo, não demorou muito para que as duas palavrinhas começassem a ser utilizadas para nomear as duas vertentes das quais acabamos de falar. A vertente humanista passou a ser chamada de Esquerda e a vertente não-humanista passou a ser chamada de Direita. Só a partir daí, os termos Esquerda e Direita passaram a ter um significado fixo e concreto.

Pode-se perguntar aqui: “Mas não existem outras acepções das palavras Direita e Esquerda? Por que apenas uma delas pode estar correta?”. É uma ótima pergunta. Eu a respondi no outro texto, mas vou detalhá-la melhor agora. Existem quatro acepções que são possíveis:

  1. Direita = Absolutistas e Esquerda = Revolucionários;
  2. Direita = Conservadores e Esquerda = Radicais;
  3. Direita = Defensores do status quo e Esquerda = Defensores da mudança;
  4. Direita = Amiga da elite e Esquerda = Amiga dos oprimidos.

A primeira acepção é falha porque se você considera os absolutistas como sendo de Direita e os revolucionários anti-absolutistas como sendo de Esquerda, terá que dizer que a Direita e Esquerda sempre existiram, já que reis com poderes absolutos e pessoas contrárias a esses reis são bem anteriores a 1789. E se consideramos esta acepção, então nunca fez sentido chamar, por exemplo, Marx, Gramsci, Lênin, Stalin, Lula e Dilma de Esquerda, assim como também nunca fez sentido chamar Churchill, Reagan e Thatcher de Direita. São termos nulos para um contexto pós-absolutista.

Então, se alguém quer usar essa acepção, deve respeitar essas regras: parar de usar esses termos para nomear ideologias e movimentos dos últimos cento e cinqüenta anos de história e passar a usá-los para nomear ideologias e movimentos de todos os anos anteriores em que houve reis com poderes absolutos e revolucionários contrários ao absolutismo do rei. Bem, não conheço ninguém que tenha utilizado os termos dessa maneira. Nem mesmo os primeiros que os utilizaram.

A segunda acepção também é falha porque é contextual. Como já expliquei, ser conservador ou ser radical depende muito do contexto político. Burke talvez fosse um radical para os integrantes do partido Tory, mas era um conservador para os radicais da Revolução Francesa (tanto que é chamado o Pai do conservadorismo). Ora, se o mesmo cara é conservador (“Direita”) e radical (“Esquerda”), então essa acepção também não serve para definir coisa alguma. E terminologias que não definem nada, são inúteis.

A terceira acepção também é contextual e inútil. Se ser de Direita é ser defensor do status quo e ser de Esquerda é ser defensor da mudança, então Fidel Castro, Lula e o PT são de Direita atualmente, e Olavo de Carvalho, Rodrigo Constantino e o partido Republicano dos EUA são de extrema-esquerda até o momento atual (e no futuro pode mudar tudo de novo, pois é uma questão de contexto). Não preciso dizer mais nada, né?

Por fim, a quarta acepção, também não presta. Colocar a Direita como amiga da elite e a Esquerda como amiga dos oprimidos é criar uma visão maniqueísta da política e fazer com que creiamos que um lado sempre está certo e o outro sempre está errado, não importando o que façam. É evidente que essa visão é preconceituosa e, do ponto de vista histórico, totalmente falsa.

É interessante ressaltar que todas essas acepções, quando utilizadas por alguma pessoa, costumam ser misturadas com a acepção mais concreta e definidora das palavras Direita e Esquerda. Trocando em miúdos, o mesmo cara que afirma que Lula, Chávez, Fidel, Moralez e Kirchner são de Esquerda (acepção mais concreta), afirma que ser de Esquerda é ser anti-absolutista, radical, defensor da mudança e amigo dos oprimidos, em oposição a ser de Direita, que significa ser absolutista (ou, pelo menos, ter a mesma ideologia de um absolutista), ser conservador (o mesmo conservadorismo da época do absolutismo), defensor do status quo (mesmo que o status quo do contexto esteja sendo defendido pela esquerda) e ser amigo da elite (ainda que a elite seja de esquerda e você seja contra ela).

O leitor consegue ver a confusão? É uma mistura de várias acepções diferentes, falhas, inúteis e auto-excludentes, que são agregadas umas as outras com o intuito de fazer todo mundo acreditar que Direita é coisa de gente ruim e que Esquerda é coisa de caras legais. E tem um monte de ingênuo dos dois lados que acreditam.

Portanto, entendam: há uma confusão na definição do espectro político. Usa-se acepções diferentes todas juntas. Não pode. Usa-se definições contextuais e definições fixas juntas. Também não pode. Ou você entende Direita e Esquerda como palavras que definem vertentes específicas, anti-absolutistas (as duas), que ainda são válidas nos dias de hoje, ou você escolhe uma daquelas quatro acepções possíveis, que ou não definem nada ou já não servem para nada há mais de cento e cinqüenta anos.

Se você escolhe a primeira opção (vertentes específicas), não pode, por exemplo, dizer que os absolutistas eram de Direita, assim como liberais e burkeanos. Eles podiam ser de Direita espacialmente falando (sentavam-se nas cadeiras que ficavam à Direita do monarca), mas enxergando Direita e Esquerda no sentido de duas vertentes específicas válidas até hoje, você não pode fazer essa mistura. São dois sentidos diferentes.

Normalmente o que se fala é que havia absolutistas na Direita e socialistas e radicais na Esquerda, certo? Sim, porém há mais história a se contar. Não havia apenas socialistas e radicais na Esquerda do parlamento francês, mas liberais também. Frédéric Bastiat, um importante liberal clássico francês, sentou a esquerda dos absolutistas, se juntando a socialistas e anarquistas. Quer dizer então que o Liberalismo é uma corrente legitimamente esquerdista (ou seja, de viés reformador e revolucionário)? Não, quer dizer que ele era oposição à Antiga Ordem e que até mesmo nesta época a conotação Direita e Esquerda já nascera limitada.

Não, Rodrigo! Como eu falei, quando definimos Direita e Esquerda como duas vertentes que se opuseram ao absolutismo e que duram até hoje, os absolutistas, embora se assentassem na Direita, devem ser classificados apenas como absolutistas; e radicais, embora se assentassem na Esquerda, devem ser classificados como opositores do absolutismo, alguns desses de Esquerda e outros de Direita. Entende? Usando esta definição, a questão espacial se torna irrelevante (mesmo tendo servido de base para a adoção dos termos pelas duas novas vertentes posteriormente).

Então, sim, Bastiat, um liberal, estava do lado de anarquistas e socialistas. Isso não o faz um esquerdista, mas um iluminista de orientação direitista, opondo-se a velha política, ao lado de iluministas de orientação esquerdista que, apesar das diferenças para com os liberais, estavam juntos contra o absolutismo. Expliquei isso no outro texto. Não estou fazendo revisionismo histórico aqui. Apenas usando a acepção mais concreta das palavras Direita e Esquerda e não as misturando com outras acepções.

E que por isso enfatizo a feliz argumentação contida no texto Confusões Clássicas… em dizer que a Direita da época estava a defender não os “valores direitistas”, mas o absolutismo. E o mesmo raciocínio pode ser usado para a Esquerda da época, cada um defendendo as suas posições. Isso é um bom exemplo de que Direita e Esquerda também pode ser feita através das circunstâncias e do momento.

Não, eu não disse isso. O que eu disse foi que absolutistas não formam a Direita, se definimos a Direita como uma das vertentes da política iluminista, que existe até os dias de hoje. E, nesse sentido, é claro que absolutistas não estavam defendendo valores direitistas; eles não eram direitistas. Entretanto, se definimos Direita e Esquerda como termos da época, usados para definir quaisquer outras coisas e que não servem hoje ou cujos significados dependem do contexto político, então, esquece tudo o que falei. Só peço, mais uma vez, que não misture as duas coisas.

Indo em tempos mais atrás, porém atravessando o mar, podemos pegar o exemplo da Revolução Gloriosa inglesa. Antes mesmo de qualquer menção a Esquerda ou Direita, a Antiga Ordem era defendida pelo partido Tory e a oposição pelo partido Whig. De modo que os tories vinham de posições mais conservadoras e pró-absolutistas e os whigs de posições liberais e contrários ao absolutismo. E lembramos que um dos opositores, do qual possuía certo prestígio no partido Whig, era ninguém mais que Burke. Seria então o “pai do conservadorismo moderno” um esquerdista de sua época?

Isso tudo só prova o que eu falei. O que se tinha na Inglaterra da época não era um partido de Direita (Tory) e um partido de Esquerda (Whig). O que se tinha era um partido absolutista e um partido iluminista. Dentro do partido iluminista, é que havia os que eram de Direita e os que eram de Esquerda (os termos não existiam ainda, porém as vertentes sim). Burke era de Direita. E os absolutistas? Eram absolutistas. Só.

Outra questão importante a se analisar é a questão das correntes autoritárias. Se a Esquerda possui o Marxismo como forma maior de seu autoritarismo, não seria absurdo dizer que a Direita também tem a sua. É fato que o Fascismo e o Nacionalismo contém certos elementos ligados a Direita, principalmente do conservadorismo europeu. Posições como economia mista, anti-individualismo e nacionalismo são compartilhadas por autoritários de todo tipo. Longe de querer fazer uma análise sobre o Fascismo ou Nacionalismo, apenas relembro que a Direita “deu” contribuições, mesmo que de modo indireto e/ ou inconsciente, para as ideologias autoritárias.

Aqui Rodrigo apenas continua argumentando dentro de seu de raciocínio. Como ele mistura acepções diferentes das palavras Direita e Esquerda, e não faz distinção entre os diferentes tipos de conservadorismo, acredita que a Direita “deu” contribuições para nazistas e fascistas. Mas ainda que o nazismo e o fascismo tenham realmente uma idéia ou outra provenientes da Direita, isso não faz deles movimentos de Direita. Como já disse, não se pode classificar algo se baseando apenas em algumas características. É preciso ver o panorama geral.

Algo a mencionar seria a posição tomada pela Antiga Direita brasileira ao apoiar um golpe autoritário e anti-democrático no país, favorecendo os militares no poder. Dado que também não pretendo entrar no mérito utilitário quanto a isso. Deixo apenas como referência histórica.

Na real, o Brasil nunca teve um governo realmente de Direita. Pode ter tido um governante ou outro de Direita, mas uma andorinha só não faz verão. O que tivemos no Brasil foram governos de Esquerda, de Centro-Esquerda, de Centro e talvez, quem sabe, de Centro-Direita. A ditadura foi centrista (vou explicar mais abaixo). Ela se valeu de elementos tanto de Direita como de Esquerda.

A razão pela qual a ditadura militar do Brasil é vista como de Direita é que (1) ela adotou uma aparência de conservadorismo moral e religioso; (2) ela se posicionou contra o comunismo (e todo mundo que se posiciona contra o comunismo é taxado de direitista); (3) muitas pessoas que eram realmente de Direita apoiaram o golpe porque acreditaram mesmo que este era apenas uma defesa contra o comunismo e que, dentro em breve, a política do país iria voltar ao normal (ingenuidade mesmo); (4) os militares se consideravam (pelo menos se diziam) representantes da Direita. Mas, evidentemente, nada disso prova que essa ditadura foi de Direita.

Toda essa análise nos faz pensar em até que ponto é válido o uso desses termos já universalizados. Novamente, são termos imprecisos que podem gerar interpretações duvidosas, mas que pode ajudar algumas vezes. Não sou contra o seu uso, desde que seja empregado de forma correta e dentro do contexto. Contudo, o mais importante é saber que ele não deve ser usado como único recurso para uma análise política. Estamos nos século 21, vivendo em um novo milênio, e não no século 18. Acho que já deu pra perceber que a velha interpretação está mais do que ultrapassada.

Esse já é o final do texto de Rodrigo. Perceba que a conclusão dele é de que os termos Direita e Esquerda são imprecisos. Na verdade, não são. Imprecisos são termos como Reacionário, Moderado, Conservador, Reformador e Revolucionário. Imprecisas também são algumas acepções possíveis das palavras Esquerda e Direita, que, de modo errôneo, ainda são misturadas à acepção mais fixa e concreta que é comumente utilizada por todos. Também podemos dizer que são imprecisos os políticos e os partidos, porque se desviam de seus princípios muitas vezes. Porém, nenhuma dessas imprecisões altera o significado fixo e concreto dos termos Direita e Esquerda.

Enfim, sinceramente, a argumentação de Rodrigo não conseguiu me convencer quanto a pouca utilidade dos termos Direita e Esquerda. Creio que, se eles forem usados corretamente, sem misturas de diferentes acepções das duas palavras e primando por significados fixos e específicos, não vejo dificuldades na classificação.

A Questão do Centrismo e a classificação geral
Resta uma questão pendente. O que é centrismo? Não cheguei a definir com exatidão esse termo em nenhum texto meu. Eu já pretendia fazer isso há um bom tempo, mas até então não tinha percebido que era tão necessário.

Enfim, como eu falei, eu não vejo o espectro político como uma divisão binária, na qual só se pode ser de Esquerda ou de Direita. Pelo contrário, reconheço que entre os dois pólos existem muitos posicionamentos diferentes, alguns mais inclinados para a Esquerda, outros mais inclinados para a Direita e outros que, de fato, ficam exatamente no meio do espectro. Todos esses posicionamentos intermediários são o que chamo de Centrismo.

Isso não é novidade. Não fui eu que inventei a idéia. A diferença da minha visão de centrismo para a visão comum das pessoas é que não entendo que ser de Centro signifique “ser moderado”. Todo mundo acha que um governo, partido ou pessoa centrista é aquele que é meio capitalista, meio socialista; meio individualista, meio coletivista; meio livre mercado, meio interventor; e, claro, que não faz uso de violência e repressão, porque violência e repressão são coisas de extremistas, e o centrista não está no extremo de nada.

Mas essa definição não é lógica. É só raciocinar: se o centrista é centrista porque está no centro do espectro, entre um lado e outro, isso significa que ele adotou tanto idéias de Direita como idéias de Esquerda, em número semelhante. Por isso é que não dá para defini-lo em um dos lados. Moderação de idéias e moderação de violência nada tem a ver com ser de Centro.

Primeiro, porque a maioria das idéias de Direita e de Esquerda não pode ser adotada pela metade. Não se pode ser meio individualista e meio coletivista. Não se pode ser meio livre mercado e meio interventor. Não se pode ser meio pró-aborto e meio pró-vida. Não se pode ser meio a favor da legalização da venda de armas e meio contra a mesma. Você pode até ser moderado em cada uma dessas idéias, mas não pode adotar as duas, já que são excludentes.

Segundo, porque o espectro político não é um gráfico de violência e repressão nos diferentes regimes, no qual os extremos representam os regimes mais agressivos e violadores dos direitos humanos. Não! O espectro político é um gráfico de ideologias, no qual os extremos representam os regimes que adotaram um grande número de idéias do pólo em que estão e que seguem essas idéias com mais afinco. Assim, extremista não quer dizer violento e repressivo (a não ser sua idéia extremada implique em violência e repressão), tal como centrista não quer dizer moderado e democrático.

Ser centrista é seguir idéias de Direita e de Esquerda em número parecido, não importando quais sejam essas idéias. Todo mundo tem alguma idéia do pólo oposto que adota para si. Sou de Direita, mas concordo com uma coisa ou outra de Esquerda. Isso não muda em nada minha posição no espectro, pois a maioria esmagadora das idéias que sigo são de Direita. O mesmo serve para alguém de Esquerda que concorda com uma coisa ou outra de Direita. Isso é normal. Contudo, o centrista é aquele que concorda com muitas posturas da Direita e muitas posturas da Esquerda, o que o tira de ambos os pólos, deixando-o no centro.

Deve-se ressaltar ainda, que um centrista não tem um perfil definido. Justamente por ter idéias de ambos os pólos, há uma maior flexibilidade. Um centrista pode ser bem diferente de outro, em função disso. Um pode ser anticomunista, mas crer na intervenção estatal. Outro pode ser contra a legalização da venda de armas, mas a favor de um governo que intervenha pouco. Outro já pode ser a favor de um governo muito intervencionista, mas também a favor da legalização das armas. É claro que só essas características não definem se uma pessoa é de Centro. Entretanto, o que quero mostrar é que, diferentemente de esquerdistas e direitistas, os centristas formam um grupo muito mais amplo e heterogêneo.

Aí entra a questão das ditaduras centristas. O termo pode causar estranheza, mas por que não seria possível uma ditadura centrista? Se já vimos que centrismo nada tem a ver com moderação de violência, não faz sentido achar que há contradição entre esses dois termos. De fato, procurando por alguém que pensasse parecido comigo, encontrei um belo artigo do senhor Plínio Corrêa de Oliveira, intitulado “Ditatorialismo Publicitário Centrista” [2]. Embora, o artigo não tenha como objetivo principal definir o que é o centrismo político, ele lança uma tremenda luz sobre o tema. Diz a introdução do artigo:

A dignidade da abertura consiste na neutralidade. Com efeito, ela é o contrário da ditadura. E esta última não consiste em fechamento para todos, mas sim para um dos lados do tabuleiro político. Isto é, abertura para o lado em que se encontra o Poder, e fechamento para os que discordam do Poder. Não vem ao caso se a abertura é para a esquerda e o fechamento para a direita, ou vice-versa o contrário. Não é o colorido político do ditador que caracteriza a ditadura. E, por isto mesmo, a palavra ditadura se aplica tanto aos governos que fazem fechamento para a direita quanto aos que o fazem para a esquerda: “ditadura de direita”, “ditadura de esquerda” são expressões que se encontram a qualquer momento em todos os lábios, se lêem em todos os jornais e se ouvem em todos os rádios e televisões.

Reduzindo a essa clareza elementar e óbvia conceitos já tão conhecidos, tenho a intenção de levar ao último grau da evidência a relação entre neutralidade e abertura. Uma abertura não neutra – disfarce-se como se queira – não é senão uma ditadura. As correntes de pensamento e os órgãos de comunicação social favoráveis à abertura lucrariam muito tendo continuamente em vista esta verdade tão elementar.

Digo-o especialmente com referência a personalidades, emissoras e folhas que se ufanam de intitular-se centristas. Pois mais de uma vez violam a neutralidade “aberturista”, julgando que ficam a salvo da pecha de ditatoriais pelo simples fato de usarem a etiqueta de centrista. Como se uma ditadura centrista constituísse uma contradição nos termos.

A mais ligeira análise revela ser isto inexato. Se um governo, para executar seu programa centrista, praticasse um fechamento tanto para a direita quanto para a esquerda, ele apresentaria evidentemente a grande característica ditatorial, a qual consiste em trancar a voz dos discordantes.

E não se julgue que a hipótese de uma ditadura centrista constitua uma quimera, um simples ente de razão. Para prová-lo, cito um exemplo histórico característico. Em função da política interna da França de seu tempo, Napoleão foi essencialmente um centrista. A França estava então esquartejada em duas facções irredutíveis: os republicanos e os monarquistas partidários dos Bourbons. Instalado no poder, o Corso perseguiu e reduziu ao silêncio os líderes de uma e outra França. E, pela força bruta, impôs seu regime centrista, mescla violentamente contraditória de vulgaridade revolucionária e de aparato régio, justapostos pelas garras da águia imperial nimbada de glória militar. No tempo, era esta a forma praticável de centrismo. De centrismo ditatorial.

Embora, Plínio utilize as palavras Direita e Esquerda, neste artigo, como termos mais contextuais (como se Direita e Esquerda sempre fossem duas facções opostas entre si, em determinado contexto, não importando a ideologia que sigam), o artigo é maravilhoso. Ele mostra de maneira muito clara que (1) ser centrista é ter características tanto de Direita como de Esquerda e que (2) ser um ditador centrista é se fechar tanto para um lado como para o outro, afinal, quem não é de nenhum dos lados, não cumpre a agenda de ninguém.

Pois bem, é exatamente isso que o período ditatorial do Brasil fez. Ele procurou calar a voz da Esquerda, mas agiu como esquerdista ao fortalecer estatais e colocar o governo como gestor da vida individual e do progresso. Ele agiu como direitista ao criar uma cultura de conservadorismo moral-religioso e tentar abrir o mercado brasileiro para indústrias estrangeiras, mas rechaçou uma política mais direitista, que minimizasse a ação do governo na economia e na vida das pessoas, deixando o mercado mais livre e respeitando o individualismo.

Se tal regime foi de Centro-Direita ou de Centro-Esquerda, só uma análise mais profunda de suas diversas características pode nos dizer. Tenho para mim que em sua maior parte, a ditadura do Brasil foi de Centro-Esquerda, diferentemente da ditadura de Pinochet, no Chile, que pode ter sido de Centro-Direita (ou de Direita, talvez).

Quanto a outros representantes do Centro, podemos mencionar o ex-presidente FHC e seu partido, o PSDB. A Social-Democracia é originalmente de Esquerda (uma Esquerda moderada), mas, a depender do contexto, pode se deslocar para o Centro, tornando-se um governo de Centro-Esquerda (como no caso do PSDB mesmo). Entretanto, a Social-Democracia quase sempre é mais bem enquadrada na Esquerda.

O DEM é um partido de Centro que às vezes se desloca para Centro-Direita, por ter alguns integrantes com propostas liberais. Entretanto, o vício esquerdista do nosso país coopta este partido para Centro-Esquerda na maioria das vezes. Recentemente, seu deputado Rodrigo Maia se candidatou à prefeitura do Rio. Suas propostas não tinham nada que o diferisse de propostas do PSDB e PMDB (este último, também de Centro e Centro-Esquerda).

O PT é de Esquerda. Sempre foi. Sempre será. Mas, estando no poder, é muito difícil um partido, de Esquerda ou de Direita, não se deslocar ao menos um pouco em direção ao Centro. Primeiro, em função da pressão da oposição. Segundo, em função da necessidade de ser pragmático às vezes. E, por fim, por causa da mídia. A mídia é e sempre foi centrista. Porque tanto a visão extrema da Esquerda como a visão extrema da Direita são prejudiciais aos interesses das grandes empresas midiáticas. Nenhum grande empresário da mídia quer um governo comunista, porque sua empresa vai rodar. Mas também nenhum grande empresário da mídia quer um governo laissez-faire, pois a concorrência vai aumentar (e ela pode engolir sua empresa).

Com relação à política dos EUA, muitos costumam a dizer que lá não existe uma Direita e uma Esquerda; que o partido Republicano e o partido Democrata são ambos de Centro. Mas a verdade é que a luta entre Direita e Esquerda nos EUA é uma das mais visíveis do mundo. Os dois partidos são sim de Esquerda e Direita. Agora, é claro que no interior de cada partido existem políticos que são mais extremos e políticos que são mais centristas. Um político pode mudar para o pólo contrário, entrando em contradição com a ideologia do próprio partido. Mas isso, penso, é mais raro. Creio ser mais fácil passar do extremo de seu pólo para o Centro. E como a mídia é muito centrista, então é comum que, ao chegar ao poder, muitos políticos ajam de um modo parecido, embora de pólos opostos.

Por fim, o nacional socialismo alemão (nazismo), o fascismo italiano, fascismo espanhol (franquismo) e o populismo getulista no Brasil, não são de Direita. O nazismo é indubitavelmente de Esquerda, tanto por sua plataforma teórica, como pelo que fez na prática. O fascismo italiano teve diferentes fases. Como Mussolini era um político bem pragmático, podemos dizer que em alguns momentos sua política foi de Centro-Direita e em outros, de Esquerda. Contudo, o conjunto da obra não nos permite apontar o fascismo de Mussolini como um regime de Direita.

O franquismo, por zelar por uma aparência conservadora, no âmbito moral religioso, talvez tenha chegado a ser de Centro-Direita em alguns momentos. Mas dificilmente poderia ser chamado de regime de Direita, já que o fascismo não é um regime de Direita em sua essência. O populismo getulista, por fim, não só foi de Esquerda como é um dos melhores exemplos de como um ditador de Esquerda pode ser um exímio estrategista, conseguindo conter as tensões entre diversos grupos de interesse e manter uma imagem positiva com o povo. A política de Getúlio é uma coluna para ditadores como o falecido Hugo Chávez, Evo Moralez e Cristina Kirchner.

Conclusão
Esta postagem ficou maior do que eu gostaria que ficasse. E o pior é que alguns assuntos foram apenas pincelados, já que merecem postagens individuais. Mas creio que consegui mostrar um panorama geral de uma definição concreta, fixa, lógica e historicamente coerente de Direita e Esquerda. A idéia foi mostrar que existem acepções dos termos que são falhas, e que há mistura entre acepções diferentes, o que gera incoerências nas definições.

Não intentei provar que sei mais. Apenas desejei dar minha contribuição sobre um assunto que julgo interessante. Talvez eu tenha errado em algum ponto, mas busquei não me afastar da lógica. Por fim, não intentei ofender Rodrigo Viana e Felipe Renan, cujos textos acompanho e admiro. A discussão aqui visa somente uma livre, construtiva e saudável troca de idéias. Só isso.


Notas:
[1] Uma crítica possível e que não tratei no texto é a de que o anarquismo não pode ser de Direita porque seria muito incoerente colocar Anarco-Capitalistas e Conservadores direitistas lado a lado. De fato, um Anarco-Capitalista não pode ser um Conservador (e vice-versa), já que o conservador preza pelas instituições antigas e uma das instituições mais antigas do mundo é justamente o Estado, o qual o Anarco-Capitalista deseja tirar de cena. Entretanto, acredito que mesmo o Anarco-Capitalista não sendo Conservador, ele apresenta idéias conservadoras que estão entranhadas no liberalismo. Idéias como o pessimismo antropológico (que é base das religiões tradicionais, inclusive); o respeito à religião; a visão de que os seres humanos são diferentes e que, por isso, é normal haver diferença de resultados na vida; a responsabilização do indivíduo pelos seus atos; uma moral não-relativista; a valorização da coletividade espontânea; o direito de escolha; e até mesmo a valorização das instituições, já que, embora o Anarco-Capitalista queira acabar com o Estado, ele não se opõe às demais instituições, apenas quer que tudo passe a ser propriedade privada. Em vista disso, é plausível dizer que o Anarco-Capitalista não está tão distante do Conservador. Pelo menos, ele está mais perto do Conservador do que dos esquerdistas.

[2] Oliveira, Plínio Corrêa de. Ditatorialismo Publicitário Centrista. São Paulo: Folha de São Paulo (09/08/83). Presente no link abaixo:
http://www.pliniocorreadeoliveira.info/MAN_19830809_Ditatorialismopublicitariocentrista.htm

Leituras Recomendadas:
1. Ayan, Luciano. Reacionários e Conservadores de Esquerda?! Claro que sim! São Paulo: Blog do Luciano Ayan (2012). Presente no link abaixo:
http://lucianoayan.com/2012/09/27/reacionarios-e-conservadores-de-esquerda-claro-que-sim/
2. Ayan, Luciano. Será o Nazismo de extrema-direita? Not so fast, Junior… São Paulo: Blog do Luciano Ayan (2012). Presente no link abaixo:
http://lucianoayan.com/2012/07/15/sera-o-nazismo-de-extrema-direita-not-so-fast-junior/
3. Goldberg, Jonah. Fascismo de Esquerda. Editora Record, 2009.
4. Kuehnelt-Leddihn, Erik. Leftism Revisited. Regnery Pub, 1991 (Segunda Edição).
5. Gregor, Antony James. Marxism, Fascism and Totalitarianism: Chapters in the Intel-lectual History of Radicalism. Stanford University Press, 2008.<

A Mente Celta: Como Adam Smith e Edmund Burke Salvaram a Civilização

por Bradley J. Birzer. Traduzido e adaptado para o português do Brasil por Renan Felipe dos Santos. Publicado originalmente no The American Conservative. Para ler o artigo original, em inglês, clique aqui.

Contempla-se o poder, a profundidade e a envergadura das mais finas mentes do século XVIII apenas com alguma trepidação e humildade. Ou ao menos, é o que deveria ser feito.

O estudo favorito dos grandes homens daquele tempo, o famoso editor do The Nation E.L. Godkin explicou em 1900, era a glorificação da pessoa contra o poder político. Em “oposição à teoria do direito divino, por reis ou demagogos, a doutrina dos direitos naturais se colocava. A Humanidade era exaltada acima das instituições humanas, o homem era posto acima do Estado, e a irmandade universal suplantava as idéias de poder e glória nacional.”

Mas o mundo mudou profundamente no século XIX. As teorias imensamente complexas de Friedrich Hegel, Charles Darwin, Karl Marx, Herbert Spencer, Friedrich Nietzsche e Sigmund Freud desconstruíram o homem ocidental, quebrando-o em categorias, caixas, ânsias, desejos e pedaços. Os ideólogos do século XIX não só subverteram milhares de anos de idéias finamente afiadas, que datavam desde Sócrates, eles também providenciaram os meios pelos quais cercar, estrangular e sufocar o homem do ocidente.

O historiador inglês Christopher Dawson apresentou a mudança com surpreendente severidade:

A história do século XIX se desenvolveu sob a sombra da Revolução Francesa e as revoluções liberais nacionais que a seguiram. Um século de revolução política, econômica e social, um século de descoberta do mundo, conquista do mundo e exploração do mundo, foi também a era de ouro do capitalismo; e ainda assim viu a ascenção do socialismo e do comunismo e o seu ataque à fundação da sociedade capitalista. … Quando o século começou, Jefferson era o presidente dos Estados Unidos, e George III ainda era o rei da Inglaterra. Quando terminou, Lenin já estava planejando a Revolução Russa.

Naquele curto século, o homem e os homens foram da integridade aos pedaços.

Mas uma reminisciência sobreviveu na forma do liberalismo clássico e do conservadorismo. Cada um preservou muito do melhor do passado, argumentando em favor de uma pessoa individual complexa, ainda que inconoscível. As mentes mais afiadas destes filósofos salvadores floresceram no final do século XVIII e partilhavam de profundas origens celtas: Adam Smith (1723–1790), muitas vezes tido como o pai do liberalismo clássico, e Edmund Burke (1729–1797), mantendo a mesma posição dentro do conservadorismo moderno.

É possível ver Burke e Smith lutando na retaguarda ao fim de sua era, sintetizando e defendendo a melhor doutrina que cada um herdou – assim como Sócrates, Platão e Aristóteles vieram no fim da Atenas clássica; Cícero ao fim da República de Roma; Santo Agostinho ao fim do Império Romano ou Tomas Morus ao fim do que o acadêmico Stephen Smith chamou de primavera inglesa.

Rotular qualquer um deles, entretanto, é um desserviço ao seus brilhantismo e obscurece o fato importante que Smith e Burke eram amigos próximos e mesmo aliados próximos. Enraizados nas tradições intelectuais e espirituais do ocidente, cada um buscava entender as complexidades do homem não estreitando nosso entendimento ao mero biológico, econômico ou psicológico mas expandindo o homem a um ser completo e mesmo misterioso, cada pessoa sendo única e irrepetível no tempo ou no espaço.

Enquanto Smith poderia ser considerado um estóico com anseios cristãos, Burke era um cristão com um amor pelo estoicismo. James R. Otteson II da Yeshiva University produziu diversas obras excelentes que tornaram-se o padrão pelo qual todos os outros acadêmicos estudando Adam Smith, senão o século XVIII como um todo, devem ser medidos. Em seu volum de 2011 Adam Smith e em seu Adam Smith’s Marketplace of Life de 2002, Otteson não apenas revela a continuidade do pensamento de Smith ao longo de sua vida mas também explica a influência mútua de Burke sobre Smith e vice-versa. Do lado de Burke, talvez o mais importante acadêmico do último meio século tenha sido Peter J. Stanlis. Deve-se ler especialmente a sua obra Edmund Burke and the Natural Law. Otteson e Stanlis argumentam que enquanto Smith e Burke chegavam às mesmas conclusões, eles o fizeram por meios muito distintos: Smith confiava no utilitarismo do senso-comum, enquanto Burke buscava teorias tradicionais da lei natural.

Ocidente Cristão e Estóico

Para os estudados do século XVIII, educação significa “educação liberal”. Eles estudavam grego, latim e os grandes pensadores da Antiguidade. Outras formas de “educação” serviam meramente como treinamento. Esta formação intelectual permitiu que Smith e Burke vissem a si mesmos como membros em continuidade com as tradições do Ocidente desde os tempos pré-socráticos.

Ao longo de sua obra, Smith cita muitas autoridades, mas ele parece ter um especial encanto pelo pensamento estóico, incluindo os elementos deste encontrado no maior dos republicanos romanos, Cícero. Em uma famosa passagem do The Theory of Moral Sentiments, Smith faz uso de um discurso notavelmente estóico quando afirmou que não existe valor mais alto que o amor fraterno:

Daí decorre que sentir muito pelos outros e pouco por nós, que restringir o nosso egoísmo e satisfazer nossas afeições benevolentes, constitui a perfeição da natureza humana, e isto só pode produzir entre a humanidade a harmonia de sentimentos e paixões em que consiste toda sua graça e propriedade. Assim como amar ao próximo como amamos a nós mesmos é a lei maior da Cristandade, é também o maior preceito da natureza amar a nós mesmos assim como amamos nosso próximo, ou o que dá na mesma, como nosso próximo é capaz de amar-nos.

A maior autoridade para Smith parece não ter sido o Deus cristão. Ainda que nunca tenha expressado o ceticismo de seu amigo David Hume, também nunca proclamou ortodoxia. Em vez disso, Smith entendia o homem e a natureza em termos que só podem ser descritos como estóicos. A própria idéia pela qual Smith é melhor conhecido, “a mão invisível”, tem origens estóicas.

No primeiro volume de An Inquiry Into the Nature and Causes of the Wealth of Nations, Smith apresentou o que Otteson acredita ser a mais importante contribuição para nosso entendimento da pessoa individual:

… cada indivíduo necessariamente trabalha para aumentar a renda anual da sociedade o máximo que pode. De fato ele geralmente ou não pretende promover o interesse público ou não sabe o quanto está promovendo. Ao preferir apoiar a indústria doméstica à estrangeira, ele apenas busca a própria segurança; e ao dirigir esta indústria de maneira que seu produto possa ser de maior valor, ele pretende apenas o seu próprio ganho, e ele é, neste caso como em muitos outros, guiado por uma mão invisível a promover um fim que não era parte de sua intenção.

Ainda que a referência de Smith à “uma mão invisível” possa ser meramente uma alusão clássica, deve-se notar que o conceito deriva do entendimento estóico da Providência. Em sua primeira forma, é a “mão invísivel de Júpiter”, guiando gentilmente e mantendo a ordem no universo, engrenando a escolha pessoal às necessidades societais.

Em The Theory of Moral Sentiments, Smith expressou outro conceito chave do estoicismo. Cada pessoa desejava ser o cidadão de algo mais elevado que sua sociedade imediata: “O homem, de acordo com os estóicos, não deve considerar-se como algo separado e destacado, mas como um cidadão do mundo, um membro de uma vasta comunidade da natureza”, Smith escreveu. “Para o interesse desta grande comunidade, ele deve todo o tempo estar disposto a sacrificar o seu próprio interesse.”

Burke também recebeu uma educação liberal. Em seus escritos, começando por sua primeira obra filosófica, uma obra-prima da estética, o irlandês citou Aristóteles, os estóicos, Cícero e os escolásticos medievais com aprovação, concebendo suas próprias idéias de direito natural a partir de pensadores que vieram antes dele. Em uma passagem similar àquelas apresentadas por Smith anteriormente, Burke descrevia sua própria crença na ordem do cosmos e o papel do homem dentro dela:

Certo de que não escrevo para os discípulos da filosofia parisiense, posso assumir que o impressionante Autor do nosso ser é o Autor de nosso lugar na ordem da existência – e que, tendo nos disposto e guiado por uma tática divina, não de acordo com nossa vontade, mas de acordo com a Sua, nesta e por esta disposição Ele virtualmente nos submeteu a atuar conforme o lugar que nos foi reservado. Temos obrigações para com a humanidade, que não são consequentes de qualquer pacto voluntário especial. Elas surgem da relação do homem com o homem, e da relação do homem com Deus, as quais não são questão de escolha.

Ao contrário de seu amigo Smith, Burke era cristão em primeiro lugar, depois estóico. Seus pais criaram suas filhas como católicas romanas e seus filhos como anglicanos. Em uma carta privada, Burke elogiava tenuamente o estoicismo de Smith. “O estilo é vívido e elegante em todo lugar, e é, o que acho igualmente importante em uma obra deste tipo, bem variado”, notou Burke com relação a The Theory of Moral Sentiments. “É muitas vezes sublime também, particularmente naquela fina imagem da filosofia estóica no final da sua primeira parte, que é esmiuçada com tanta grandeza e pompa que se torna uma magnífica ilusão.”

Magnífica ilusão, certamente – uma que inspirou várias figuras como Santo Agustinho, Petrarca, Tomas Morus, e Russell Kirk. Burke felizmente considerou o livro de Smith mais próximo de uma pintura do que uma obra acadêmica.

Burke proclamava tão firmemente sua fé e seus princípios cristãos em praticamente todas as suas obras e discursos que aqueles que o estudam podem declará-lo, sem trepidação, um “estadista cristão”, como fez Russell Kirk em 1955. Smith nunca esclareceu se sua crença no estoicismo era uma “ilusão” ou não. Em vez disso, parecia ter uma fé em algum ponto entre aquele de Hume o de Burke, nem ortodoxo, nem herege, mas heterodoxo.

O cristão e o estóico não estavam tão separados. As duas mentes celtas descritas aqui rapidamente abraçaram o entendimento platônico, estoico, ciceriano, paulino e agostiniano da realidade além deste mundo, uma república maior do que qualquer confederação na Terra. Ainda que nossa república mortal escapasse entre nossos dedos, outra república mais real existiria além dos confins do tempo. Isto se deve à própria natureza do homem. Na tradição ocidental, Cícero explicou isto de maneira sucinta. Uma pessoa, ele escreveu, é

dotada pelo deus supremo com um grandioso status no momento de sua criação. Só ela, de todos os tipos e variedades de criaturas animadas, tem uma porção de razão e pensamento que a todos os outros falta. O que há, não só nos humanos, mas em todo o céu e a terra, mais divino que a razão? Quando ela amadurece e chega à perfeição, é chamada mais propriamente sabedoria … a razão forma a primeira ligação entre o homem e deus.

A forma da razão para Cícero é mais platônica e mística do que a razão de Rousseau ou Bentham – ou Jefferson, neste caso.

Uma vez que ele reconheceu os dos mundos – o mundo mais alto da razão, e o mais baixo do ser terreno – um homem se encontra “não preso por paredes humanas como cidadão de um ponto particular mas como cidadão do mundo todo como se fosse uma única cidade.” Sua cidadania muda do mundano para o transcendente, para o que os estóicos chamavam “cosmopolis”, o que Santo Agostinho chamou “A Cidade de Deus”, e o que Inkling Owen Barfield sabia ser “uma confederação da alma onde não há copyright.”

Poderíamos chamar esta visão elaborada de cosmos eterno como uma forma de Justiça ao menos como entendida pelos antigos. Bem definida, a virtude reside em cada homem saber seu lugar na ordem da existência, dando a cada pessoa o que lhe é devido. Em múltiplas conferências e livros, Smith afirmava que a Justiça é o maior objetivo do governo. Em sua conferência de 1762 Lectures on Jurisprudence, ele escreveu, “O primeiro e principal desígnio de todo sistema de governo é manter a justiça; impedir que os membros de uma sociedade violem a propriedade uns dos outros, ou confisquem o que não é seu.” Nada surpreendente, Burke concordou. A sociedade civil, afirmou muitas vezes, existia para promover a justiça na sociedade.

Para Smith e Burke a maior ameaça para a liberdade, a justiça e a ordem vinha daqueles que viriam a ser conhecidos como ideólogos. Provavelmente influenciado por Burke, como afirma Otteson, Smith combateu veementemente o “Homem do Sistema”, o candidato a tirano, convencido, de mente fechada, burocrata ou administrador de escola pública.

“Em meio a turbulência e desordem do tumulto, um certo espírito de sistema é capaz de misturar-se com o espírito público, que está fundado sobre o amor da humanidade, sobre um verdadeiro sentimento de solidariedade com as inconveniências e angústias a que alguns dos nossos companheiros cidadãos podem ser expostos “, Smith temia.

“O espírito de sistema toma a direção do mais gentil espírito público; sempre o anima, e frequentemente o inflama até a loucura do fanatismo”, continuou em sua revisão do Theory of Moral Sentiments, publicado antes da Revolução Francesa. “O homem de sistema, ao contrário, é apto a ser muito sábio em sua própria arrogância; e é frequentemente tão enamorado da suposta beleza de seu próprio plano ideal de governo que não consegue suportar o menor desvio de qualquer parte dele.”

Um homem verdadeiro, continua Smith algumas páginas depois, entendia que o único sistema concreto no universo era o “bom governo da grande república dos deuses e dos homens, de todos seres racionais e sensíveis.”

Para fazer justiça ao pensamento de Smith e Burke uma semelhança final deve ser notada. Ambos nutriam o desejo dos Old Whig (velhos whig) pela liberdade das colônias americanas. Muito do Wealth of Nations de Smith lidava com a descoberta e os recursos das Américas, notando, emparticular, as incríveis taxas de natalidade e crescimento econômico das colônias inglesas ao longo do Atlântico. Sua importância, Smith afirmava, nunca poderia ser exagerada.

Burke, como é bem lembrado, serviu como o maior defensor do caráter americano e das liberdades americanas em toda a Grã-Bretanha. De seu discurso de abertura no Parlamento contra o Stamp Act, uma petição rigorosa pela sua revogação, pelo fim do conflito, Burke lamentava a guerra de George III contra homens e mulheres que tão claramente – pelo menos para ele – defendiam noções muito próprias à tradição inglesa. Do começo das hostilidades na primavera de 1775, Burke encarou o conflito como uma guerra civil, nutrindo pequena esperança na restauração de um império pacífico. Simpatizou com a afirmação dos colonos de que o Parlamento estava inovando contra eles, privando-os de suas liberdades anglo-saxãs.

Estas coisas dependem de convenções reais ou pressupostas, da prática, do acidente, do humor ou gênio daqueles que governam ou são governados, e podem ser, como são, modificadas infinitamente”, escreveu em julho de 1775. “Nenhum limite jamais foi posto ao Parlamento com relação às Colônias … mas a razão e a natureza das coisas, e o crescimento das Colônias deve ter ensinado ao Parlamento a colocar limites no exercício do seu próprio poder.

Muitos ingleses, no poder ou não, menosprezaram o conflito na América do Norte, mas nenhum se colocaria contra o rei. Era, Burke disse, uma “loucura coletiva”. Burke fez festas e banquetes quando o rei declarou dias de abstinência para apoiar a guerra, e ele retirou-se do Parlamento por um tempo como forma de protesto. Talvez o mais surpreendente foi que, em um discurso ante a Câmara dos Comuns, Burke equiparou o rei, como chefe da Igreja Anglicana, com o rei dos anjos caídos.

Por que Mente Celta?

Mas porque “Mente Celta”? O que explica que uma das áreas mais remotas da Europa tenha produzido intelectos tão finos em tão pouco tempo?

Dos vários tão-chamados Iluminismos do século XVIII, o Iluminismo Escocês provou ser o menor de todos os outros. O Iluminismo Francês tentou trazer o homem de volta ao estado de natureza pelos ensinamentos de Rousseau e outros – acabar com a civilização para começar de novo – enquanto o Iluminismo Inglês promovia o bizarro e desumano cálculo de “dor e prazer” de Jeremy Bentham. O Iluminismo Americano consistia apenas de Benjamin Franklin, Thomas Jefferson, Benjamin Rush, e uns poucos outros famosos excêntricos.

Apesar do ceticismo religioso do Iluminismo Escocês, os escoceses esperavam encontrar o “senso comum” das coisas, descobrir princípios universais do homem sem destruir as manifestações específicas das peculiaridades do homem. Nas colônias americanas, era possível encontrar alguns dos melhores proponentes do Iluminismo Escocês entre figuras como Charles Carroll, James Wilson e John Witherspoon. Talvez a resposta para os “por quês” e “comos” da Mente Celta seja muito simples. Dos Iluminismos europeus, somente a Mente Celta tentou engajar-se na tradição ocidental sem derrubá-la.

A Mente Celta reconheceu e estendeu a visão ocidental do homem. Não buscou, como os outros iluminismos, colocar o homem em uma caixa com este ou aquele rótulo. Mesmo no seu ceticismo, a Mente Celta adotou a humildade, não o ego. Se aqueles de nós que amam a ordem e a liberdade, sejamos conservadores ou libertários, fizéssemos o mesmo, poderíamos ter a chance de reclamar o terreno agora em posse dos herdeiros daqueles iluminismos mais baixos – os neoconservadores, os esquerdistas militantes, e suas legiões de corporativistas aliados alimentando o Leviatã em casa e o imperialismo sangrento no exterior.

Contra os comissários da ignorância

Abaixo segue um artigo QUASE IRRETOCÁVEL de Luiz Felipe Pondé na Folha de hoje.

Quase irretocável, pois no ultimo paragrafo ele menciona corruptos de direita no Brasil, sendo que não consigo identificar um corrupto sequer que defenda o ideário direitista (livre mercado, estado mínimo, propriedade privada, direitos e responsabilidades individuais, respeito integral as leis e a constituição democrática republicana, etc.)

Se identificarem um ou mais corruptos que não sejam populistas (pró-assistencialismo), que não sejam adeptos do estado inchado e intervencionista, que não apoiem nenhuma forma de terrorismo (MST, ONG’s indigenistas e afins) que não ataquem os direitos e liberdades individuais dos cidadãos dentre outros fatores similares, postem os nomes na área de comentários. Ressaltando que defender um ou dois desses aspectos apenas não enquadra ninguém no espectro da direita.

Contra os comissários da ignorância

O que é conservadorismo? Tratar o pensamento político conservador (“liberal-conservative”) como boçalidade da classe média é filosofia de gente que tem medo de debater ideias e gosta de séquitos babões, e não de alunos.

Proponho a leitura de “Conservative Reader” (uma antologia excelente de textos clássicos), organizada pelo filósofo Russel Kirk. Segundo Kirk, o termo começou a ser usado na França pós-revolucionária.

Edmund Burke, autor de “Reflexões sobre a Revolução na França” (ed. UnB, esgotado), no século 18, pai da tradição conservadora, nunca usou o termo. Tampouco outros três pensadores, também ancestrais da tradição, os escoceses David Hume e Adam Smith, ambos do século 18, e o francês Alexis de Tocqueville, do século 19.

Sobre este, vale elogiar o lançamento pela Record de sua biografia, “Alexis de Tocqueville: O Profeta da Democracia”, de Hugh Brogan.

Ainda que correta a relação com a Revolução Francesa, a tradição “liberal-conservative” não é apenas reativa. Adam Smith, autor do colossal “Riqueza das Nações”, fundou a ideia de “free market society”, central na posição “liberal-conservative”. Não existe liberdade individual e política sem liberdade de mercado na experiência histórica material.

A historiadora conservadora Gertrude Himmelfarb, no seu essencial “Os Caminhos para a Modernidade” (ed. É Realizações), dá outra descrição para a gênese da oposição “conservador x progressista” na modernidade.

Enquanto os britânicos se preocupavam em pensar uma “sociologia das virtudes” e os americanos, uma “política da liberdade”, inaugurando a moderna ciência política de fato, os franceses deliravam com uma razão descolada da realidade e que pretendia “refazer” o mundo como ela achava que devia ser e, com isso, fundaram a falsa ciência política, a da esquerda. Segundo Himmelfarb, uma “ideologia da razão”.

O pensamento conservador se caracteriza pela dúvida cética com relação às engenharias político-sociais herdeiras de Jean-Jacques Rousseau (a “ideologia da razão”).

Marx nada mais é do que o rebento mais famoso desta herança que costuma “amar a humanidade, mas detestar seu semelhante” (Burke).

O resultado prático desse “amor abstrato” é a maior engenharia de morte que o mundo conheceu: as revoluções marxistas que ainda são levadas a sério por nossos comissários da ignorância que discutem conservadorismo na cozinha de suas casas para sua própria torcida.

Outro traço desta tradição é criar “teorias de gabinete” (Burke), que se caracterizam pelo seguinte: nos termos de David Hume (“Investigações sobre o Entendimento Humano e sobre os Princípios da Moral”, ed. Unesp), o racionalismo político é idêntico ao fanatismo calvinista, e nesta posição a razão política delira se fingindo de redentora do mundo. Mundo este que na realidade abomina na sua forma concreta.

A dúvida conservadora é filha da mais pura tradição empirista britânica, ao passo que os comissários da ignorância são filhos dos delírios de Rousseau e de seus fanáticos.

No século 20, proponho a leitura de I. Berlin e M. Oakeshott. No primeiro, “Estudos sobre a Humanidade” (Companhia das Letras), a liberdade negativa, gerada a partir do movimento autônomo das pessoas, é a única verdadeira. A outra, a liberdade positiva (abstrata), decretada por tecnocratas do governo, só destrói a liberdade concreta.

Em Oakeshott, “Rationalism in Politics” (racionalismo na política), os conceitos de Hume de hábito e afeto voltam à tona como matrizes de política e moral, contra delírios violentos dos fanáticos da razão.

No 21, Thomas Sowell (contra os que dizem que conservadores americanos são sempre brancos babões), “Os Intelectuais e a Sociedade” (É Realizações), uma brilhante descrição do que são os comissários da ignorância operando na vida intelectual pública.

Conservador não é gente que quer que pobre se ferre, é gente que acha que pobre só para de se ferrar quando vive numa sociedade de mercado que gera emprego. Não existe partido “liberal-conservative” no Brasil, só esquerda fanática e corruptos de esquerda e de direita.

Conservadorismo verdadeiro vs. Neoconservadorismo*

Artigo original por Nelson Hutberg. Tradução de Rodrigo Viana.

Introdução do tradutor
Embora este artigo trate do cenário político americano, ele serve muito bem como uma lição para nós brasileiros. Esclarece posições políticas que para muitos soa duvidosa e opositora (o que na prática pode não soar assim) como também mostra quem são os reais opositores. Indo direto ao ponto, é necessário saber que o conservadorismo anglo-saxão não é o mesmo que o conservadorismo continental europeu. Do mesmo modo que no anglo-saxão, o conservadorismo americano não é exatamente o mesmo que o britânico. E entender tudo isso é de suma importância. Porém este artigo não fala sobre isso. Deixo tais questões para uma outra oportunidade. Enfim, com a ascensão do movimento denominado pela mídia de “Nova Direita”, grupos de diferentes tendências começam a emergir e fazer barulho no cenário político nacional. Como toda ideia feita por humanos, naturalmente aparece divergências de todo o tipo. Tentando mostrar uma luz a ser
norteada, este artigo visa querer “separar o joio do trigo” desse movimento a fim de que ele cresça de modo saudável. É preciso entender quem são realmente aliados e opositores. Mesmo num movimento que está sendo germinado, se faz mais do que necessário conhecer cada pensamento e sua história. Por isso, espero que este artigo sirva como uma admoestação para que pensamentos torpes importados ditos por certos grupos ou mentores não sejam realmente postos em nossa sociedade. De ideias bizarras já estamos saturados. E bem saturados.

Conservadorismo verdadeiro vs. Neoconservadorismo

O falecido William Simon[1], ex-secretário do tesouro no governo Ford[2], não era seu funcionário do governo como de costume. Como evidenciam suas memórias de 1978 intitulada A Time for Truth, tornou-se um dos livros mais influenciáveis nos últimos 50 anos para esclarecer em prosa vigorosa o governamentalismo que aflige os EUA. O governo federal tem estado, por muitas décadas até agora, corrompendo nosso país como uma gangrena devastando uma perna ferida, e Simon capturou magistralmente o ideológico do por que e do como desta doença.

Simon adorava o “sistema da liberdade natural” de Adam Smith[3] que construiu a cultura da liberdade que nós conhecemos como uma nação antes de 1913[4]. Tão eloquente quanto o tomo de seu livro foi, contudo, continha um erro profundo. Foi um erro o grave desencaminhar no governo Reagan[5], o Partido Republicano[6], e o renascimento capitalista lançado por intelectuais libertários pós-guerra.

William Simon abraçou a noção de que o crescente movimento neoconservador, encabeçado por Irving Kristol[7] no final da década de 70, poderia tornar um aliado valoroso para restaurar a liberdade e um governo constitucional para os EUA. Simon foi brilhante, mas nesta questão falhou em ver “lobos vestidos de ovelhas”, pessoal de Kristol e sua turma coletivista de estudiosos que o havia reunido em torno dele – Patrick Moynihan[8], Norman Podhoretz[9], Daniel Bell[10], Nathan Glazer[11], e Sidney Hook[12] (com o apreço Richard Perle[13], Paul Wolfowitz[14], Bill Kristol[15], William Bennett[16], e George Will[17] tão logo a seguir).

Como Simon colocou, estes distintos intelectuais “ainda são intervencionistas em um grau que eu mesmo não aprovo, mas eles compreenderam a importância do capitalismo[18] estão batalhando alguns aspectos despóticos do igualitarismo e podem ser contados como aliados em certas frentes cruciais da luta pela liberdade individual” [A Time For Truth, 1978, p. 227.]

Em todos estes três pontos, Simon não poderia ter estado mais errado. Neoconservadores nunca compreenderam a importância do capitalismo. Se tivessem, eles entenderiam que programas intervencionistas arrogantes que se apegam nos dias iniciais do New Deal[19] são anátemas ao capitalismo. Ademais, eles e seus acólitos não estão batalhando os aspectos despóticos do igualitarismo sem qualquer coisa substantiva, somente com um falso apoio. Irving Kristol tem sido veemente apoiador de ações afirmativas e cotas sexuais e raciais durante anos, enquanto guiando seus seguidores sempre em direção a uma atenciosa obediência para a agenda das “liberdades civis” da esquerda.

E o mais errôneo de tudo era a pretensão de Simon de que neoconservadores “pode se contar como aliados” na “luta pela liberdade individual”. Do contrário, eles provaram nas duas últimas décadas ser precisamente o oposto entusiasticamente defendendo a expansão indiscriminada do estado assistencialista/ belicista a cada vez e oportunidade.

Raízes ideológicas dos neocons

Mas o que mais devemos esperar. Kristol e a turma original de intelectuais neocon foram seguidores do comunista Leon Trotsky[20] em suas juventudes durante as décadas de 30 e 40. Suas raízes ideológicas eram socialistas por completo. Eles absorveram a Revolução Bolchevique de 1917[21] de Lenin[22] e viram o socialismo como um ideal que precisava ser espalhado ao Ocidente. Enquanto neoconservadores modificaram as raízes leninistas de sua ideologia em favor da metodologia gradualista dos socialistas fabianos ingleses[23], eles ainda são defensores inflexíveis do coletivismo para os EUA. Eles são completamente socialistas? Não, mas suas propostas políticas são sempre em favor de uma rígida expansão governamental, domesticamente e internacionalmente.

O paradigma que deram suas vidas baseia-se sobre um mega-estado centralizado, administrando de Washington a sociedade americana. No ponto de vista de Kristol, a visão de livre mercado dos Pais Fundadores[24] era uma “fantasia doutrinária”. Aderir a isso hoje é uma tolice anacrônica, deve ser eliminada de nossa consciência coletiva. Todos os neoconservadores pensam que os princípios morais que fundamentam a visão política dos Pais Fundadores são um impedimento para uma sociedade estável. Portanto a adesão por tais princípios morais deve ser descartado em favor do pragmatismo amoral.

Em suas visões, os princípios dos direitos individuais e governo limitado são inexequíveis. Maquiavel[25] e Platão[26] tiveram a melhor ideia. Pessoas precisam ser manipuladamente lideradas por elites estatistas – via diálogo aberto e democracia se possível, mas por engano, coerção e conveniência quando necessário. Por exemplo, Kristol fala de modo muito favorável sobre a era da Lei Seca[27] da década de 20, e entusiasticamente aprova censuras. “Se você se preocupa pela qualidade de vida e nossa democracia americana, então deve ser a favor da censura” ele afirma. [Citado por Daniel Shapiro, “The Neoconservatives”, Libertarian Review, January-February, 1978, p. 30.]

Enquanto neoconservadores sempre estavam na esquerda política e fortemente alinhados com o estatismo durante as décadas de 40 e 50, eles ficaram horrorizados com a rebelião da Nova Esquerda[28] da década de 60 e suas intimidações ralés do grupo. Consequentemente com a nomeação de George McGovern[29] do Partido Democrata[30] em 1972, neoconservadores começaram a migrar para o Partido Republicano em busca de sanidade. Sendo bons leninistas de coração, eles souberam como disfarçar a si mesmos com prestidigitação verbal. Adotaram o nome de neo-conservador para se distanciarem do que perceberam como falha do esquerdismo, mas também orientar claramente do conservadorismo libertário que inspirou a direita política. Eles se apresentaram como o que eles esperaram que se tornaria um novo conservador de meio termo cujo o mega-estado de Franklin Roosevelt[31] e Lyndon Johnson[32] seria aceito como progressista e adequado.

Conservadores verdadeiros, corrida ao poder

Infelizmente a intelligentsia do conservadorismo estabelecido absorveu o disfarce leninista dos neocons e seu pseudo apoio do capitalismo. Fechando seus próprios olhos para as perigosas raízes ideológicas dos neocons e suas adoções abertas ao mega estatismo, conservadores já consagrados viram somente o que eles queriam ver em tal fusão – uma chance no poder político de Washington. Visto que os grandes princípios do movimento conservador tiveram que ser descartados para acomodar estes altos proeminentes ex-esquerdistas, esta ausência teve de ser suprimida em suas mentes. Mas que assim seja, para a obtenção de poder real que estava acenando. Conservadores tinham estado num deserto por muito tempo e ansiavam por um governo em Washington.

Gregos sinistros estavam, deste modo, tentando obter uma entrada em Troia e o livro de William Simon os ajudou muito. Quando ele convidou todos os defensores da liberdade na direita para acolher estes “ilustres intelectuais” em seus campos, o prestígio de sua carreira e a eloquência de sua mensagem acalmou o movimento conservador em uma decisão malfadada. Depois que Reagan foi eleito em 1980, seus conselheiros abriram as portas e trouxeram dezenas de maquiavélicos de Kristol nos círculos de poder de Washington para administrar o país nos próximos oito anos. Bush “pai”[33] seguiu o exemplo em 1989 e o plano foi colocado para o golpe final, que era pra realizar com o Bush “filho”[34], que forçou os EUA no desejo de buscar a hegemonia mundial. Até o ano de 2000, os neocons tinham vermifugado seus caminhos até os lugares mais altos. Tornaram influentes no Wall Street Journal, The Washington Times, The Weekly Standart, Fox News, no American Enterprise Institute, Project for the New America Century e uma enorme quantidade de outros think tanks e instituições de mídia. Washington tinha deixado de ser uma cidade predominantemente esquerdista, foi agora governada igualmente por neocons. Mesmo que o bastião do esquerdismo, Washington Post, cordialmente aprovou especialistas neoconservadores tal como Charles Krauthammer[35] e seu cunho ultranacionalista nestas questões.

O movimento conservador original estava muito longe do neoconservadorismo. Ele surgiu de seus defensores da Republica em oposição ao New Deal na década de 30, apoiando a livre iniciativa no país e o não-intervencionismo no exterior. Mas na metade da década de 60 tinha sido adulterado de maneira ruim pela política externa belicista do National Review[36] e a falta exasperada de suporte principal face ao estatismo interno. Como resultado, a infiltração de neocons nos anos 70 foi capaz de efetuar um grande dano na transformação política que forçou o verdadeiro conservadorismo ao exílio. O movimento conservador foi sequestrado pelos próprios inimigos que foi formado pra lutar – socialistas fabianos, apoiadores do New Deal, assistencialistas, progressistas, globalistas, intervencionistas, militaristas, tecnocratas e todo o resto da laia coletivista que foi assiduamente trabalhando para destruir a Republica de Estados dos Pais Fundadores.

Muitos conservadores verdadeiros falharam em compreender que uma vez que a adesão ao princípio correto foi abandonada em busca do poder, seria quase impossível recuperar a grandiosidade da verdade e justiça para o qual já tinham aderidos. O poder era um narcótico terrível e viciante. Invariavelmente corrompe o senso moral e dissolve-se um desejo para a retidão.

A República pode ser restaurada?

A premente questão agora é: o que deve ser feito em face a esta tragédia? Pode o original, o movimento conservador verdadeiro ser reacendido – o movimento para restaurar a república que iniciou nas décadas de 40 e 50 por conservadores constitucionais e libertários como Richard Weaver[37], Clyde Wilson[38], Ludwig von Mises[39], Friedrich Hayek[40] e Milton Friedman[41]?

Sim, certamente pode ser reacendido. Neoconservadores não são os líderes de nossa causa jeffersoniana[42]. As causas deles são de uma filosofia estrangeira de autoritarismo importado em nossas bordas por coletivistas europeus como Leo Strauss[43] e ex-marxistas como James Burnham[44]. O verdadeiro movimento conservador foi, desde o início, um misto de libertarianismo político, conservadorismo cultural, não-intervencionismo externo que nos foi legado pelos Pais Fundadores. Sem dúvida alguma não era um misto socialista/ fascista de maquiavelismo, que os neoconservadores estão empurrando goela abaixo dos americanos hoje em dia.

Nosso primeiro passo em direção a restauração deve ser revisitar o que é o verdadeiro conservadorismo. Richard Weaver falou dele deste modo:

“É de minha opinião que um conservador é realista, que acredita que há uma estrutura de realidade independente da sua própria vontade e desejo. Ele acredita que há uma criação do qual estava aqui antes dele, pelo qual existe agora não apenas por seu consentimento tácito, e do qual estará aqui depois que ele se for.

Esta estrutura consiste não meramente do grande mundo físico mas também de muitas leis, princípio e regulamentos que controla o comportamento humano. Embora esta realidade seja independente do indivíduo, não é hostil a ele. É na verdade submissa a ele em vários modos, mas não pode ser mudado radicalmente e arbitrariamente. Esse é o ponto básico. O conservador afirma que o homem neste mundo não pode fazer de sua vontade a sua lei sem respeito algum aos limites e à natureza fixa das coisas.” [“Conservatism and Libertarianism: The Common Ground,” Life Without Prejudice, 1965, pp. 158-159.]

Como Weaver enxergaria os neoconservadores de hoje? Ele sem dúvida os enxergaria com o mesmo desprezo mantido pelos esquerdistas radicais de sua época que estavam tentando fazer de suas vontade suas leis:

“Há uma diferença entre tentar reformar seus semelhantes pelos processos normais de demonstração lógica, recurso e persuasão moral – há uma diferença entre isto e passando por cima para usar força ou coação. O primeiro é algo que envolve todos nós em todos os dias. O último é o que faz o radical moderno perigoso e, talvez, em um sentido demente.” [Ibid, p. 161.]

Weaver era o arquétipo do conservador libertário e entendeu muito bem o terreno comum filosófico entre ambos os movimentos. Ele era um extremo constitucionalista porque uma constituição previa um “código estabelecido de liberdade para o indivíduo”. [Ibid, p. 163.]

Retorno à razão e a Lei Natural

Acadêmicos e especialistas estatistas de hoje, claro, zombam a um retorno ao governo constitucional estrito e um “código estabelecido de liberdade para o indivíduo”. Eles consideram uma saudosa nostalgia embrulhado numa irrelevância ingênua de seres humanos que resistem ao progresso. Mas eles não poderiam ir mais longe da verdade. A adoção de um pregador religioso pela Regra de Ouro[45] é um anacronismo tolo? A Lei Física da Gravidade significava apenas para aqueles anteriores ao século 20? Dificilmente não! E o grande documento político do homem não é pra ser tratado como um modismo cultural. Nossa constituição é baseada sob leis morais fundamentais tão imutáveis como a Regra de Ouro e a Lei da Gravidade. Sua restauração para a vida americana é vitalmente tão importante quanto o retorno da razão foi para a metafísica na Europa medieval. Nossa constituição é a personificação da lei racional transcendente. Somente por vir a agarrar a sua natureza transcende e racionalidade, os EUA podem endireitar a si mesmo e reconstruir as bases de uma sociedade livre. Isso, os neoconservadores são incapazes de fazerem, por eles estarem presos no autoritarismo socialista falido de suas juventudes e irão se agarrar com seus paradigmas irracionais para seus leitos de morte.

Isto significa que todos aqueles que no movimento conservador que sinceramente desejam liberdade para nossa nação devem fazer um ruptura inequívoca do neo-conservadorismo e retornar ao verdadeiro conservadorismo – o conservadorismo libertário dos Pais Fundadores. Eles devem começar a estabelecer eles próprios como uma força de oposição genuína ao estatismo, ao invés de imitar filosofias maquiavélicas e tirânicas em busca de poderes momentâneos.

Verdadeiros conservadores devem estar veementemente em oposição a coletivização dos EUA que está sendo promovido pelos gostos de Bill Kristol, William Bennett, George Will, e Bill Buckley[46]. Conservadores verdadeiros devem, mais uma vez, tomar suas posições sobre os grandes conceitos de “governo limitado” e “lei objetiva”. Isto significa uma vontade para defender a liberdade em todo o mercado. E mais importante, significa uma vontade em denunciar privilégios cedidos pelo governo a grupos de interesse especiais em ambos os lados, da direita ou esquerda. Significa um apoio em completa escala de um governo constitucional estritamente limitado que ceda favor a ninguém, rico ou pobre, negro ou branco, jovem ou idoso. Isto significa uma eliminação progressiva do estado de bem-estar social e ao federalismo estrito e soberania dos estados. Isto não significa uma eliminação imediata, mas certamente significa um fim.

Ao menos que os conservadores tenham a coragem de travar a batalha desta maneira, com o compromisso para o estabelecimento definitivo de um ideal de vida capitalista (onde a inviolabilidade da propriedade privada é restaurada e o governo federal é limitado a uma interpretação literal de seus mandados constitucionais) há pouca esperança para mais nada do que o crescimento explosivo do Leviatã. Certamente não há esperança para uma reversão do processo de coletivização que dominou o século 20. Essa é a grande lição esclarecedora que os últimos 50 anos ensinaram – pelo menos para os americanos que ainda possuem um senso de história.

Por ideologicamente apoiar o establishment estatista e seu paradigma assistencialista, conservadores, claro, obtém uma medida de popularidade e aprovação social mas eles não fizeram nada para deter a maré da crescente destruição moral e econômica tão exponencialmente em nosso meio. Ele ganham uma celebridade momentânea mas abandonam a verdade imutável.

Tornando-se um “comentarista” celebrado e sendo amplamente aceito pela mídia, as bases de prestígios, e as elites políticas, tudo é muito gratificante para o ego mas o preço final pago é fatal.

Isto porque, afim de ganhar status estimado na sociedade de hoje, deve aceitar e promover a a validade do pesado estatismo arbitrário. Isto significa que deve abandonar os princípios filosóficos de “governo limitado” e “igualdade de direitos” e conceder aos esquerdistas suas premissas morais básicas – que o estado tem o direito de redistribuir riqueza individual e arbitrariamente reorganizar seres humanos.

Uma vez que essa premissa moral é concedida (e é concedida por todos aqueles que aceitam a validade do estado assistencialista), então não há jeito para lutar efetivamente pela liberdade. Então ele é reduzido a lutar apenas por um burocratismo mais eficiente, por uma tirania mais benevolente. A batalha, em seguida, se torna somente a marca do estatismo insuportável que devemos nos resignar, em vez de como vencer dramaticamente o futuro pela liberdade e justiça.

Desafiando a premissa moral

Reflita sobre isso: porque neoconservadores como Bill Kristol, William Bennett, George Will, e Bill Buckley são aceitáveis tão graciosamente pelo establishment  esquerdista predominante? Porque eles não contestam a premissa moral do estatismo. Eles aceitam o uso do estatismo de lei arbitrária, sua violação de direitos individuais e sua transmissão de privilégios especiais. Sendo assim, eles não representam ameaça moral ao esquerdismo e não são temidos por aqueles que estão tiranizando nossas vidas com um governo onipresente.

Neoconservadores como Kristol, Bennett, Will, e Buckley optaram por uma inclusão no establishment predominante em vez de demarcar uma posição heróica pela verdadeira liberdade e governo constitucional. Eles optaram pela popularidade acima do princípio. Por toda história, isso tem sido a natureza daqueles que almejam os confortos da aprovação desses grupos.

Tais grupos são invariavelmente conglomerados brandos de conformistas e bajuladores, loquazes em vez de sábios, irrelevantes de longa data porque não estão interessados com a grande figura da história – sendo relutantes ou incapazes de compreendê-la. O que move a mente da história desses grupos é o obsessivo cultivo de seus status pessoais e a adoção de qualquer ideologia (ou anti-ideologia) que passa a ser moda no momento. Pela razão dos neoconservadores apoiarem o estatismo modista dos modernos esquerdistas, eles são inimigos dos EUA.

Tais mentalidades de curto alcance escolheram venerar o altar de burocratas mafiosos de uma democracia sem limites junto com seus camaradas esquerdistas. Ao fazê-lo, eles ajudam a conduzir a civilização ocidental ao pântano do burocratismo oportuno e da decadência sócio-econômica que agora amarguramos. Sua forma de regra, se for diferente em grau de despotismo, não é diferente, em princípio, do que leviatãs monstruosos como a Suécia. A democracia absoluta que necons e esquerdistas veneram é apenas uma maior e mais pesada, mas não menos execrável, forma de oligarquia.

Não é de se esperar que tais mentes maquiavélicas e cegamente pragmáticas serão capazes de enfrentar suas irracionalidades presunçosas, pois é da natureza dos homens míopes no poder a retirar o entolho em torno da pouca visão que possuem de modo a evitar enfrentar a decadente turbulência provocada a partir de sua ignorância.

O que é de se esperar, contudo, é que o forte intelecto e mente aberta dos EUA, que não deseja fazer parte da coletivização de sua alma, estará disposto a enfrentar os requisitos de uma sociedade verdadeiramente livre baseada em leis objetivas.

Liberdade não é para o covarde buscando a institucionalização da dependência e do privilégio. Nem para os bajuladores da vida tão obcecados por popularidade. É para os robustos dotados de corações heróicos e almas impetuosas – os filhos espirituais daqueles que caminharam na história duzentos anos atrás pra registrar em pergaminho sua primeira grande idealização conhecida pelo homem.

Se conservadores desejam somente governar em vez de reformar, eles não são apenas o Partido Estúpido, são covardes. Seu legado histórico será a abdicação pusilânime, e o futuro dos EUA como um brilhante ideal para todo o mundo estará morto.

Ser meramente governantes e exercer o poder é um objetivo intelectual insignificante. Certamente não foi para isso que os Pais Fundadores lutaram a revolução. Eles lutaram bravamente para estabelecer a “verdade” e um “ideal” de liberdade político-econômica. Neoconservadores de hoje e suas multidões da corrente principal do Partido Republicano tinham que reavaliar melhor o significado dos EUA. Não é sobre manter uma Grande Sociedade Planejada a partir de Washington. É sobre proteger a rede da liberdade sem remendo para que os indivíduos possam construir suas vidas pessoais e comunidades locais por conta própria até o nível mais alto de suas capacidades.

Se abandonarmos o legado dos Pais Fundadores, em princípio, então nós teremos destruído isso na verdade. Nossos esforços hoje são bem limitados, em princípio, e muito preocupados com o poder. É essa declaração que desejamos inscrever nas páginas da história como contribuição da nossa vida para o grande drama da existência – que nós apenas corremos e brigamos em busca de poder? Um EUA livre não pode ser salvo com tal abordagem egoísta e qual objetivo há de mais valoroso do que a salvação de um EUA livre?


Nelson Hultberg é um escritor freelancer, graduado na Beloit College e diretor executivo do site Americans for a Free Republic. Já publicou artigos no The Dallas Morning News, The San Antonio Express-News, The American Conservative, Insight, The Freeman, Liberty, The Social Critic e em sites como Free Market News, Financial Sense e Safe Haven.

É autor dos livros The Conservative Revolution: Why We Must Form a Third Political Party to Win It e The Golden Mean: The Case for Libertarian Politics and Conservative Values. Durante a década de 90 trabalhou em projetos para reformas tributárias promovendo a abolição do imposto de renda. Foi apresentado pela revista Texas Business, em conjunto com alguns políticos americanos, como um dos líderes reformadores fiscais do Texas.

Leituras recomendadas:

The voice of neoconservatism, por Ronald Bailey – Reason.com: http://reason.com/archives/2001/10/17/the-voice-of-neoconservatism

A Tragedy of Errors, por Michael Lind – The Nation: http://www.thenation.com/article/tragedy-errors

Context of ‘Late 1930s – 1950s: Neoconservative Philosophy Grows from Communist Intellectuals’ Disenchantment with Soviet Ideology’, History Commons: http://www.historycommons.org/context.jsp?item=a30s50sneoconideology

A ignorância de Naomi Klein, por Diogo Costa – Ordem Livre: http://www.ordemlivre.org/2008/07/a-ignorancia-de-naomi-klein/

How neoconservatives conquered Washington — and launched a war, por Michael Lind – Salon: http://www.salon.com/2003/04/09/neocons_4/

Idol With Clay Feet, por Samuel Francis – The American Conservative: http://www.theamericanconservative.com/articles/idol-with-clay-feet/

Leituras complementares:

Russell kirk e a filosofia conservadora da cultura: conversa com Alex Catharino, Diálogos Exemplares: http://dialogosexemplares.wordpress.com/2011/11/29/entrevista-com-alex-catharino/

Os liberais e o desentendimento disfarçado de debate, por Bruno Garschagen – Ordem Livre: http://www.ordemlivre.org/2011/08/os-liberais-e-o-desentendimento-disfarcado-de-debate/

What conservatism means, por Owen Harries – The American Conservative: http://www.unz.org/Pub/AmConservative-2003nov17-00013

Notas do tradutor:

* Dentro do espectro político conservador americano há alas de diferentes tendências. O que é dito como “conservadorismo verdadeiro” é conhecido atualmente como paleoconservadorismo (daí a distinção entre o neoconservadorismo). Este movimento político (não é necessariamente um pensamento) remete às ideias originárias dos Pais Fundadores americanos: federalismo radical, estado limitado, liberdade individual, não-intervencionismo externo, economia de livre mercado e valores tradicionais. Em suma, é o libertarianismo político-econômico junto com o tradicionalismo cultural. São herdeiros diretos de intelectuais liberais clássico como Edmund Burke, John Locke e Adam Smith. Pode-se dizer também que descendem da chamada “Antiga Direita” americana (Old Right no original),  grupo de políticos que foi contrário às políticas progressistas do New Deal. Os paleocons tem como representante histórico Barry Goldwater e atualmente Pat Buchanan. Vale dizer que Ron Paul é um de seus representantes, embora suas posições tendem a se fundir com o paleolibertarianismo.

[1] William Simon foi empresário, filantropo e secretário do tesouro americano durante três anos no governo Nixon e mais tarde no governo Ford. Foi um defensor nato do livre mercado em sua vida.

[2] Gerald Ford foi presidente dos EUA eleito pelo Partido Republicano. Tendo seu mandato entre os anos de 1974 à 1977.

[3] Adam Smith, conhecido como o pai da economia moderna, foi um dos fundadores da economia de livre mercado (laissez-faire). Um dos pilares da escola clássica de economia.

[4]Provável alusão a criação do Fed, o banco central americano. Instituição que eliminou pouco a pouco o sistema de livre mercado que vigorava razoavelmente no país.

[5] Ronald Reagan foi presidente dos EUA eleito pelo Partido Republicano com dois mandatos, entre os anos de 1981 à 1989. Seus governos foram marcados pela pressão externa contra o socialismo soviético, desregulamentação econômica e diminuição dos impostos.

[6] Partido político americano de tendência liberal-conservadora.

[7] Irving Kristol foi jornalista, cronista e escritor. Tendo colaborado em diversas revistas, influenciou sobremaneira a cultura política e intelectual de seu país principalmente na última metade do século 20. O mais representativo intelectual do movimento neoconservador, é conhecido como o “padrinho do neoconservadorismo”. Seu livro, The Neoconservatives: The Men Who Are Changing America’s Politics, foi um divisor de águas no cenário político. Em suas próprias palavras, neoconservador é dito como “um esquerdista que foi assaltado pela realidade”.

[8] Patrick Moynihan foi sociólogo e político pelo Partido Democrata. Foi também embaixador na ONU e na Índia.

[9] Norman Podhoretz foi escritor e comentarista político. Vindo de uma tradicional família esquerdista, chegou a participar de um movimento socialista em sua juventude.

[10] Daniel Bell foi professor, sociólogo, escritor e editor. Foi um crítico do capitalismo e chegou a descrever-se como um “socialista em economia, progressista em política e conservador na cultura”.

[11] Nathan Glazer foi professor, sociólogo e co-editor da revista neoconservadora The Public Interest. Sempre esteve ligado intelectualmente ao Partido Democrata.

[12] Sidney Hook foi filósofo da Escola Pragmática. Defensor do comunismo em sua juventude, tornou-se mais tarde um crítico de políticas totalitárias, tanto fascista como marxista-leninista. Tendo apoiado posteriormente o pensamento social-democrata.

[13] Richard Perle. Cientista político neoconservador. Chegou a trabalhar nos governos de Reagan e Bush na área de política externa.

[14] Paul Wolfowitz. Político que já atuou em assuntos nas áreas de defesa, embaixada e outros. Conhecido como um dos grandes líderes neocon e arquiteto da política externa na era Bush.

[15] Bill Kristol é professor, editor e comentarista político neocon. É ligado a vários think tanks e atualmente comenta no Fox News Channel. É filho de Irving Kristol.

[16] William Bennett. Comentarista e teórico político. No passado foi filiado ao Partido Democrata e já recebeu apoio político de neoconservadores liderados por Irving Kristol.

[17] George Will é cronista, colunista e escritor. Foi um entusiasta da invasão americana no Iraque em 2003.

[18] Em todo o texto o termo capitalismo é descrito em seu sentido original e verdadeiro, de livre mercado. Deve ser entendido como um mecanismo de trocas pacíficas e voluntárias entre indivíduos e não tem relação com o atual arranjo intervencionista. Para uma melhor compreensão leia o artigo “O que é livre mercado?”, http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=52

[19] Foi um pacote com uma série de implementações do governo Roosevelt para estimular a economia e estimular economia entre 1933 à 1936. Tais estímulos consistiam em investimentos em obras públicas, controle de preços e produções, salário-mínimo, seguro-desemprego, reforma monetária e uma série de outros programas. Já é sabido que sua nem todo o campo intelectual compartilha de sua suposta eficácia, reprovando-o totalmente.

[20] Leon Trotsky foi revolucionário e teórico marxista, político soviético e fundador do Exército Vermelho soviético. Foi um dos grandes líderes do comunismo soviético.

[21] Revolução que desencadeou no processo de socialização todo o estado russo.

[22] Vladimir Lenin foi revolucionário e político marxista, líder do Partido Comunista e um dos responsáveis pela Revolução Russa.

[23] Sociedade Fabiana é uma organização britânica que promove o pensamento socialista por vias reformista e gradualista, opondo-se a meio revolucionários. Possui forte impacto no Partido Trabalhista britânico. Influenciou grupos e pessoas em diversos países como o ex-presidente brasileiro Fernando Henrique Cardoso e seu partido, o PSDB.

[24] Do inglês Founding Fathers, foram líderes políticos e estadistas que participaram da Revolução Americana, assinando a Declaração da Independência e mais tarde a Constiruição Americana. Os principais nomes desse grupo de muitas pessoas são: John Adams, Benjamin Franklin, Alexander Hamilton, John Jay, Thomas Jefferson, James Madison, e George Washington.

[25] Nicolau Maquiavel foi historiador, diplomata, humanista, escritor e filósofo italiano da época da Renascença. Fundador da moderna Ciência Política e ator do célebre livro O Príncipe.

[26] Platão foi um filósofo grego clássico, matemático e fundador da primeira Academia em Atenas. Seus escritos são um dos pilares do pensamento ocidental.

[27] Foi uma proibição de caráter nacional nos EUA ratificada pela por uma emenda constitucional na confecção de venda, produção e transportação de bebidas alcoólicas a partir de 1920. Foi revogada em 1933.

[28] Movimento político criado por educadores, agitadores e ativistas de visões progressistas, anarquista socialistas e marxistas ligados primeiramente a instituições de ensino superior nos EUA. Suas reivindicações eram por democracia, direitos civis, reformas e protestos contra a Guerra do Vietnã. Tal movimento é bastante ligado ao movimento Hippie. Seu nome de “novo” vem do fato de se diferenciarem da “Antiga Esquerda”, focada em questões sobre trabalho e medidas revolucionárias.

[29] George McGovern foi político, historiador e escritor.

[30] Partido politico americano de tendência social-democrata

[31] FDR ou Franklin Roosevelt foi presidente americano pelo Partido Democrata, tendo seus mandatos entre 1933 à 1945. Sua administração cobre eventos como a Grande Depressão e a Segunda Guerra Mundial.

[32] Lyndon Johnson foi presidente americano pelo Partido Democrata, tendo seus mandatos entre 1963 à 1969. Sua administração se dá por iniciar após o assassinato do então presidente J. Kennedy e os eventos da Guerra no Vietnã.

[33] Relativo ao presidente George H. W. Bush do Partido Republicano, que governou o país entre 1989 à 1993. Tendo em seu mandato o cenário bélico da Guerra do Golfo.

[34] Relativo ao presidente George W. Bush do Partido Republicano, que governou o país entre 2001 à 2009. Tendo em seu mandato os ataques terroristas de 11 de Setembro e o cenário bélico da Guerra ao Terror no Iraque e Afeganistão.

[35] Charles Krauthammer  é médico, cronista, jornalista e comentador político. Já foi um ganhador de um Pulitzer.

[36] Revista americana que teve bastante impacto no cenário político conservador americano. Mais tarde mudou sua visão para a defesa de certas políticas neoconservadoras.

[37] Richard Weaver foi um intelectual americano conservador e considerado como um dos nomes mais importantes do grupo intelectual chamado “New Conservatives”, intelectuais que repudiavam políticas progressistas como o New Deal, o complexo industrial militar e a cidadania consumista e comercializada. De uma breve passagens por ideias socialistas na juventude, tornou-se um grande defensor das tradições americanas posteriormente. Seu mais livro notável, Ideas Have Consequences, é um tratado sobre o nominalismo na Civilização Ocidental.

[38] Clyde Wilson é professor de história, comentarista político e contribuidor para as revistas Chronicles: A magazine of American Culture, Southerns Patisan e National Review e membro adjunto do Ludwig von Mises Institute.

[39] Ludwig Von Mises foi filósofo e economista. É, talvez, o nome mais importante da Escola Austríaca de economia. Fundou a ciência que estuda a ação humana, chamada de Praxeologia.

[40] Friedrich Hayek foi filósofo e economista. Ganhador do Nobel em economia, teve trabalhos marcantes sobre teoria monetária e ciclos econômicos. Um dos nomes mais importantes da Escola Austríaca de economia.

[41] Milton Friedman foi professor, economista e estatístico. Ganhador do Nobel em economia, é um dos nomes mais importantes do monetarismo da Escola de Chicago de economia.

[42] Relativo a Thomas Jefferson.

[43] Leo Strauss foi um filósofo, professor e classicista teuto-americano. Estudioso de filosofia política clássica, foi duramente criticado por suas influências políticas neocons.

[44] James Burnham foi um filósofo e teórico político. De um líder marxista nos anos 30, mudou sua posição política com o tempo. Colaborador da revista National Review, foi considerado como sendo “o primeiro neoconservador” por sua visão de política externa.

[45] Também conhecida como “ética da reciprocidade”, a Regra de Ouro é um código ético que consistem em tratar os outros do modo que quer ser tratado. Apresentado em várias religiões mundo afora, na tradição judaica-cristã é apresentada nas passagens: “Amarás o Senhor teu Deus com todo seu coração e com toda a tua alma e com toda sua força e com todo o teu entendimento, e ao teu próximo como a ti mesmo” (Lucas 10:27) e “O que é odioso para ti, não o faças ao próximo. Esta é toda lei, o resto é comentário” Talmude – Shabbat 31a.

[46] William Frank Buckley, Jr. foi escritor e comentarista político de visão neoconservadora. Foi o fundador da revista National Review.

A tênue linha entre Liberdade e Escravidão

É muito comum, hoje em dia, entre o meio libertário, que se pregue a total extinção do Estado, a total extinção de uma coerção realizada pelos meios estatais. Dizem que apenas assim seríamos totalmente livres, prontos para realizar nosso potencial. Extremamente sedutora essa tese, àqueles que aspiram ser livres. Mas tal proposta não podia ser mais absurda, a feita pelos anarco-capitalistas, os auto-proclamados arautos da liberdade.

Bandeira do Anarco-Capitalismo

Sua doutrina, de um modo geral, se sustenta sobre o princípio da não iniciação da agressão. E que, partindo dessa premissa, a própria existência do Estado seria imoral, já que este precisa recolher tributos para existir, frutos de agressão. Considerando um panorama geral, é de princípios logicamente válidos. Mas a questão é: Como seria a vida em sociedade sob uma organização totalmente espontânea, sem a menor interferência estatal? Aí começa o problema, pois se suas premissas eram logicamente impecáveis, suas soluções passam a envolver suposições de como os seres humanos passariam a se organizar, mas com a certeza de que iriam.

Alguns dizem que eles são liberais radicais. Nada mais equívoco. Não pode ser liberal alguém que nega a existência de direitos inalienáveis. “Direito não é aquilo que deve ser concedido, mas sim aquilo que não pode ser retirado”, é o que dizem ao mesmo tempo que propõe um modelo em que esses supostos direitos não são garantidos a ninguém. Defendem uma sociedade onde seria perfeitamente possível a imposição de um sobre o outro, mesmo negando a imposição como uma liberdade.

Dizem eles que os indivíduos se organizariam de forma espontânea. A segurança, por exemplo, seria terceirizada e paga por indivíduos que escolheriam um ente privado para defender sua região. Fica clara a inexistência de um direito à propriedade ou a ter a integridade física respeitada. Só tem direitos aquele que pode pagar por ela.

Quando questionados à respeito de como seria tratado um transgressor, dizem que a legislação existiria, mas seria privada. Tribunais arbitrais privados criando direito. Não existe jurisdição definida possível com esse modelo. O bandido escolheria o tribunal no qual seria julgado? Seria julgado na câmara mais barata? Dizem alguns que as câmaras entrariam em consenso à respeito do território regulado. Cria-se assim uma estrutura idêntica à do Estado: o monopólio da força sobre um território por alguns poucos indivíduos; a diferença é que este teria como objetivo o lucro, o que supostamente o tornaria legítimo. Esquecem que a vacância sempre desperta nos mais atentos o senso de oportunidade de se impor sobre os demais.

A liberdade não é possível sem a existência de uma ordem, dada a natureza humana. Apenas na medida em que os seres humanos são protegidos é que podem exercer completamente sua liberdade. Não protegidos de si mesmos, como tenta fazer o Estado atual, agigantado e burocrático. Protegidos de terceiros. E para a existência de uma ordem na qual os indivíduos possam viver em sociedade, é necessário algum sacrifício. É necessário um ente, cuja formação é inevitável, que tenha como objetivo proteger os direitos básicos clamados pelos liberais clássicos. Um Estado em que a constituição tenha valor e limite o poder do governo de forma eficiente. E uma população disposta a lutar pela conservação da ordem e da coesão social.

Edmund Burke

Para que o mal triunfe, basta que os bons fiquem de braços cruzados.

Nascido em Dublin, 12 de janeiro de 1729, Edmund Burke foi uma figura de pensamento complexo. Nascido em família próspera, começou o estudo de direito em Middle Temple como queria seu pai, mas tão logo começou, largou o estudo da lei para se dedicar à escrita e viagens pela Europa continental.

Burke
Edmund Burke - De retórica impecável, era conhecido como o Homem que quando falava, as bocas de toda a Europa se fechavam. Ou também, o mais retórico e racional homem louco que já existiu.

Seus escritos começaram longe de suas ideias políticas pelas quais ficou conhecido. Sua primeira obra foi “A Vindication of Natural Society”, em que demonstrou o absurdo da lógica ateísta de seu tempo, mostrando que os argumentos dessa lógica podiam ser aplicados a qualquer instituição política existente. Então, partindo para um lado mais filosófico, escreveu “A Philosophical enquiry into the origin of our ideas of the Sublime and Beautiful”, em que tratou de nossas percepções sobre o belo e o sublime, sendo o belo aquilo que esteticamente nos agrada, e o sublime aquilo que nos leva a destruir-nos. Nossa preferência pelo sublime, de acordo com Burke, marcou a transição entre o período Neo-Clássico e o Romântico.

Apenas após esses escritos, Burke entrou para a política, quando em 1765 passou a compor a Câmara dos Comuns pelo Whig Party, partido que agrupava as tendências liberais em oposição aos tories. Encabeçou a discussão sobre os limites do poder do monarca, tomando posição fortemente contra o aumento do poder dos reis e defendendo o papel dos partidos políticos no sentido de fazer oposição ao poder e evitar abusos. Escreveu, então “Thoughts on the Cause of the Present Discontents”, em que atribuiu o descontentamento da população a um grupo de neo-tories que eram conhecidos como “Os Amigos do Rei”, dizendo que o Reino Unido necessitava de um partido comprometido com seus ideais, alheio a interesses momentâneos.

Foi uma figura controversa, Edmund Burke. Era conhecido como o homem que, quando falava, calava todos os outros homens. Disso, teceu a maior crítica à Revolução Francesa que já se viu, em “Reflexões sobre a Revolução em França”. Apesar de um ferrenho defensor das reivindicações das colônias americanas e entusiasta da Revolução Gloriosa, condenou os excessos da revolta francesa. Considerava a França como uma referência na Europa, e essa revolução o preocupava por alterar todas as bases da sociedade. Acabou, em seu livro, por prever um dos maiores males que criava bases: o socialismo.

Enfim, Edmund Burke teve uma das teorias mais complexas de sua época. Ao condenar o simplismo dos iluministas, acabou por ser um símbolo tanto dos conservadores como dos liberais. Condenou o que chamava de “neo-whigs” que apoiavam a revolução de França e pretendiam fazer algo parecido na Inglaterra, mas também condenava os excessos da monarquia. Virou um símbolo da moderação, e descreveu os ingleses com uma frase que considero um exemplo para todas as nações que desejam fugir ao caos:

O povo da Inglaterra recusou, em séculos passados, mudar sua lei para adaptá-la à infalibilidade dos Papas; ele não a transformará agora em favor de uma fé cega nos dogmas dos filósofos – resistiu aos primeiros ainda que eles estivessem armados do anátema e da cruzada, resistirá aos últimos mesmo que eles ajam com a ajuda de libelos e da guilhotina