8N abalando a Argentina

No último dia 8 de novembro, milhares de pessoas na Argentina se reuniram para protestar contra o governo de Cristina Kirchner. O movimento, batizado de 8N, realizou um enorme panelaço na capital do país, Buenos Aires.

700 mil pessoas lotam Buenos Aires para protestar contra o governo autoritário de Kirchner.

O protesto foi realizado também em frente à residência presidencial de Olivos, onde a presidente mora. Manifestantes argentinos fizeram protestos no exterior – em Sydney, Londres, Roma, Madri e Nova York – e no interior – em cidades como La Plata, Mendoza, Tucumán, Rosário e Salta, entre outras.

Eles exibiam cartazes com as frases: ‘Liberdade’, ‘Imprensa livre’, ‘Chega de inflação’, ‘Basta de corrupção’ e ‘Não à reforma da constituição para terceiro mandado da presidente’. ‘Não tenham medo, isso, sim, é democracia’, dizia um cartaz em Córdoba. ‘Chega de mentiras’, dizia outro cartaz em Tucumán. Muitos também cantavam o hino nacional do país.

O movimento 8N ou Argentindos Indignados

São quatro os males que o movimento quer combater: insegurança, corrupção, liberdades civis e as mentiras oficiais do governo. Também se posicionam contra a reforma constitucional e ao controle de mídia que o governo quer impor.

Outras de suas reclamações são:

  • Enviam nossos filhos a “La Cámpora”[1] para doutriná-los. ” Doutrinação é o mesmo que abuso de menores”; e a Presidente apoiou isto abertamente.
  • Não somos livres para sair do país, pois é preciso pedir permissão para que te deem alguns poucos dólares como se fossemos criminosos.
  • O governo concedeu a si próprio o poder de reescrever a História.
  • Te dizem em que economizar dinheiro, mas o converteram em papeizinhos coloridos sem reconhecimento no mundo e que se desvalorizam diariamente.
  • Liberam assassinos e outros criminosos para assistir seus atos políticos.
  • A pobreza segue igual, as vilas crescem e se gastam milhões em propaganda política como “futebol para todos”.
  • Não se pode negociar sua habitação da maneira que queira, pois eles é que ditam em que moeda você deve fazê-lo.
  • Para trabalhar no Estado ou em uma de suas empresas, nada melhor que ser membro da “Cámpora”.
  • A liberdade de expressão está se convertendo de pouco em nada.
  • Os amigos do poder vem monopolizando a informação.
  • Utilizam o “proyecto X”[2] para perseguir seus opositores.
  • O único válido para eles é o “pensamento único”.
  • A Presidente abusa da Cadeia Nacional, tal e qual num Estado totalitário
  • Desde o Governo Nacional se promove a desestabilização de todo governo provincial que não esteja alinhado.
  • Seus aliados estrangeiros são o pior que existe na comunidade internacional. A Argentina está cada dia mais excluída do mundo.
  • A rua é dos delinquente, e os terroristas são amigos privilegiados do governo.
  • Quem pensa diferente é um inimigo.
  • Seus seguidores tem um grau de fanatismo capaz de justificar tudo, até a doutrinação infantil e a corrupção.
  • Os comerciantes que não estão de acordo com eles enviam à AFIP[3] para perseguí-los.
  • O nível de corrupção de seus funcionários é o mais alto de que se tem notícia.

O governo autoritário de Kirchner tem restringido as liberdades sociais e econômicas dos argentinos o quanto pode. Está impedindo as pessoas de obter moeda estrangeira (o peso está desvalorizado pela alta inflação), de sair do país, etc. Além de tentar controlar a mídia, esmagar opositores políticos com o auxílio de espiões e sindicatos cooptados, Kirchner pretende garantir um terceiro mandato através de uma reforma constitucional.

Mais em: www.argentinosindignados.com (em espanhol).


NOTAS:
[1] La Cámpora é um agrupamento político militante fundado em 2006 para defender as idéias governo kirchnerista em ações no meio político e estudantil.
[2] Projeto X, escândalo político argentino, consiste no uso da Gendarmería Nacional Argentina (GNA) para fins de espionagem política.
[3] A Receita Federal da Argentina, é usada como ferramenta de repressão política pelo governo Kirchner. Um caso típico foi o do Clarín, que após denunciar irregularidades no governo recebeu a amigável visita de 200 agentes tributários que revistaram todo o jornal.

A Conquista do Brasil (Parte VI)

Demorou mas saiu a parte quatro desta série! Hoje vamos tratar de alguns aspectos dos conflitos que se desenvolveram ao longo da conquista do território por parte dos portugueses e luso-brasileiros.

I. Os campos de batalha
A guerra se desenvolve em diferentes tipos de terreno. Tradicionalmente, a guerra ocorre em terra e, com o desenvolvimento da marinha de guerra, na água. Com a invenção dos primeiros balões e aviões, a aeronáutica entra em cena. Em última instância, a guerra também pode ser eletrônica ou informática. Adaptando nossa análise para o contexto da América portuguesa, temos o seguinte:

Terra
Em terra, era de vital importância manter a segurança dos fortes, das vilas e suas roças, das feitorias e postos comerciais, do lado dos colonizadores. Para os nativos, era importante assegurar o território de caça, pesca e coleta, além da aldeia propriamente dita. Os índios tupinambás, por exemplo, entravam em conflito com os portugueses e tupiniquins sobretudo em novembro e agosto, períodos de coleta do abati (milho) e pesca do pirati (tainha). Ao menos uma vez no ano, os jê do interior avançavam para a costa em busca de caju, o que resultava nas guerras do caju. Territórios habitados por guarás, aves de plumas vermelhas usadas para a confecção de indumentárias, eram importantes para o comércio indígena bem como áreas de colheita do algodão.

Além de serem mais numerosos, os nativos viviam de extrativismo e por isso precisavam de áreas de coleta e caça. Disto resulta que a área a ser defendida pelos nativos era muito maior do que aquela de que dependiam os colonizadores: durante muito tempo, a ocupação européia do território brasileiro ficou restrita à costa e este espaço era suficiente para manter a população colonial.

Não haviam Estados formados no Brasil antes da colonização: os europeus e os nativos referiam-se a territórios usando nomes de montanhas, rios ou tribos identificáveis com a região. Exemplos de topônimos tupi-guarani são Araçatuba (terra dos araçás, um tipo de fruto), Iguaçu (rio grande), Guanabara (baía grande) e Ipiranga (rio vermelho). A terra dos mundurucus foi batizada, ao estilo europeu, de Mundurucânia. São facilmente identificáveis demarcações territoriais criadas pelos colonizadores, como as capitanias e sesmarias, as colônias francesas (França Antártica e França Equinocial) e a região de ocupação holandesa (Nova Holanda), bem como a região costeira do Brasil dominada pelos tupis e guaranis, denominada Pindorama.

Na terra, destaca-se um tipo de guerra: expedição de apresamento e guerra de vendeta, realizadas primeiramente entre os índios e depois pelos bandeirantes (em expedições punitivas), e o cerco às vilas fundadas por colonos.

Tropas terrestres
As forças portuguesas eram compostas de colonos armados com bestas (abandonadas em algum ponto entre a segunda metade do século XVI e o início do século XVII), arcabuzes e mosquetes, além da tradicional espada rapieira. Armas de haste como piques e lanças eram raras. Peças de artilharia eram empregadas na defesa de fortificações.

Não havia na época distinção bem marcada entre civis e militares, embora houvesse uma hierarquia, representada pelo capitão. Antes da criação de exércitos nacionais na Europa, o capitão era um nobre responsável pela propriedade, pagamento e comando de uma companhia de militares. O capitão da companhia colocava-a ao serviço do seu senhor feudal ou monarca, em troca de um pagamento.

A cavalaria organizada só viria a surgir com a organização do Regimento de Dragões Auxiliares em Pernambuco, após a guerra contra os holandeses.

Entre os nativos também não havia distinção entre civil e militar.  O armamento típico era o arco e a borduna. Mulheres auxiliavam na logística, como explicado anteriormente, mas há relatos de mulheres guerreiras também. Não haviam rankings militares, sendo a distinção entre os guerreiros feita mais pela glória pessoal do que por uma hierarquia oficial: os índios tupis que sacrificavam mais inimigos no ritual antropofágico adquiriam mais “nomes”, mais esposas e podiam usar mais adereços.

Atribui-se a chegada dos cavalos à região do Prata a dom Pedro de Mendoza, quando fundou pela primeira vez Buenos Aires em 1535, e a Alvar Nuñez Cabeza de Vaca quando trasladou cavalos do Peru para Asunción em 1541. A presença de manadas de cavalo vagando em liberdade na região é atribuída à queda de Buenos Aires, momento em que os cavalos teriam fugido. É difícil estabelecer quando os nativos passaram a usar o cavalo, mas temos um exemplo extremo que mostra o quão bem ele foi utilizado: na segunda metade do século XVIII, calcula-se que os guaicurus tinham cerca de 8 mil cavalos. Ficaram conhecidos como imponentes cavaleiros.

Água
Naturalmente, era importante também a soberania sobre os recursos hídricos, as rotas fluviais e as áreas costeiras. Isto valia tanto para colonizadores quanto para nativos, já que o transporte fluvial era essencial para o comércio de ambos, bem como as áreas de pesca e fontes naturais. No caso dos colonizadores portugueses, era de fundamental importância combater o tráfico realizado por outros europeus (ingleses e franceses) em terras brasileiras. Era comum o enfrentamento com corsários e piratas franceses, por exemplo.

O oceano
Para defender a costa, os colonizadores construíam fortes equipados com muralhas e canhões. Estes tinham por objetivo guardar os portos contra ataques de navios inimigos europeus. Para a defesa da costa, empregavam-se as embarcações à disposição, como o bergantim. Eram armadas com sete peças de artilharia (um falcão e seis berços), de acordo com a ordenança do “Alardo de 1525”. Até que ponto esta padronização era seguida no Brasil, não se sabe ao certo.

Os rios
Nos rios, a embarcação mais utilizada pelos colonizadores portugueses também era o bergantim, embarcação a remos leve, rápida, manobrável e pequena o suficiente para navegar nos principais cursos d’água. Foi muito empregada no combate à pirataria, justamente pela sua manobrabilidade e velocidade. Sua guarnição máxima era de 90 pessoas.

Da parte dos nativos, a única embarcação por eles conhecida era a canoa, que usavam para transporte, comércio e mobilização militar. Há relatos de canoas capazes de transportar até 60 pessoas. Podiam ser facilmente trazidas para a terra, o que aumentava em muito a mobilidade, e relata-se que a sua velocidade era imbatível para as pesadas embarcações europeias.

O uso de “frotas” de numerosas canoas para realizar assaltos às vilas e aldeias rivais era bastante comum. Em sua Carta sobre a fundação de Rio de Janeiro, o missionário José de Anchieta relata um assalto dos tamoios que compreendia mais de oitenta canoas.

Alma
Mais importante do que dominar uma porção de terra e suas hidrovias era manter a população nativa pacificada e aliada aos esforços colonizadores. Seria simplesmente impossível colonizar qualquer porção do continente americano sem estabelecer relações estáveis com os nativos. Um dos instrumentos mais importantes para o estabelecimento destas relações era a conversão dos nativos à fé dos colonizadores.

Católicos
Os primeiros missionários que vieram com Cabral eram franciscanos. Até 1549 os franciscanos foram os únicos missionários no Brasil. A Ordem Franciscana se estabeleceu definitivamente no Brasil somente em 1585.

Em 1549 chegaram à Bahia os seis primeiros Jesuítas, na expedição de Tomé de Souza, tendo como superior o padre Manuel da Nóbrega. Atendiam também fora da Bahia, nas Capitanias próximas.

Outros grupos católicos também enviaram missionários para o Brasil: em 1580 chegaram os Beneditinos e em 1584, os Carmelitas.

Protestantes
Os primeiros protestantes no Brasil foram os calvinistas franceses, que chegaram em uma expedição comandada pelo vice-almirante Nicolas Durand de Villegaignon à Baía da Guanabara em 1555.

Villegaignon entrou em atrito com os calvinistas sobre questões teológicas, reproduzindo nos trópicos o que acontecia na Europa. O pastor Chartier foi enviado à França em busca de instruções e os colonos protestantes foram expulsos da pequena ilha em que a colônia estava instalada (Ilha de Villegaignon). A expulsão colocou os calvinistas em contato direto com os tupinambás, sendo esse evento o primeiro contato missionário protestante com um povo não-europeu.

Em 1630, quando os holandeses conquistam Pernambuco, o calvinismo tem sua vida estendida no Brasil (em 14 capitanias do nordeste) por mais 24 anos, pelo menos até o fim da ocupação em 1654. Com a chegada de Maurício de Nassau, implantam a estrutura religiosa calvinista. Até 1654 foram organizadas 24 igrejas e congregações. A experiência terminou com a derrota holandesa.

Nativos
Os pajés estavam relacionados com os movimentos intra e extratribais das populações nativas. Durante as numerosas migrações tupis-guaranis nos tempos pré-cabralinos, a religião garantiram a dispersão com homogeneidade cultural. Eram mediadores na solução dos problemas intra e extratribais, nos quais a cura das doenças era apenas um dos itens.

Entre os Guarani existiam os caraí, que eram bem mais que pajés. Viviam afastados das aldeias e isolados: não pertenciam a uma comunidade específica. Em certos momentos se dirigiam às aldeias para realizarem longos discursos. Transitavam por qualquer aldeia, inclusive as inimigas de seu grupo de origem. Em muitos casos, eram vistos como heróis reencarnados, homens-deuses ou profetas. Só eles seriam capazes de mobilizar um grupo a sair de suas comunidades, largar para trás suas roças, toda a vida social e partir em busca da “Terra sem Mal”. Por sua vida isolada, eram exteriores à aliança política e aos vínculos de parentesco, o que explica porque eram impedimento aos esforços colonizadores: eles ficavam alheios às alianças firmadas entre europeus e chefes militares indígenas, tanto quanto ficavam alheios ao ‘cunhadismo’.

No século XVI, a atividade dos Caraís ainda não era profética. Porém, muitas vezes sob sua liderança se organizou a resistência à colonização. Algumas das guerras contra os espanhóis foram provocadas e dirigidas por profetas: eles tentaram aproveitar a situação criada pela presença dos estrangeiros para garantir seu poder.

II. Alianças
Os índios reagiram de formas distintas à presença dos europeus, mantendo relações pacíficas como o comércio e a aliança militar e conflituosas como a guerra e a revolta. Para os nativos, índios de uma nação rival ou desconhecida eram tão estrangeiros quanto um português ou francês, e por isto é compreensível que tenham se aliado a europeus no combate a outros americanos.

O apoio indígena foi crucial para a vitória da colonização portuguesa. Com este apoio, contudo, as lideranças indígenas tinham seus próprios objetivos: lutar contra seus inimigos tradicionais, que também se aliavam aos inimigos dos portugueses por idênticas razões.

Alguns exemplos das alianças:

  • Temiminós liderados por Araribóia se aliaram aos portugueses na baía da Guanabara para derrotar os franceses, que por sua vez recebiam apoio dos Tamoios.
  • O chefe tupiniquim Tibiriçá, valioso para o avanço português na região de São Vicente e no planalto de Piratininga, combatia rivais tupis e os “tapuias” Guaianá, além de escravizar os Carijós para os portugueses.
  • O chefe potiguar Zorobabé, na Paraíba e Rio Grande do Norte, aliou-se aos franceses, em fins do século XVI, e aos portugueses, tendo sido recrutado para combater os aimorés na Bahia e até para reprimir os nascentes quilombos de escravos africanos.
  • O potiguar Felipe Camarão combateu os holandeses, os tapuias e os próprios potiguares (como Pedro Poti e Antônio Paraupaba), que ao contrário dele, passaram para o lado holandês.
  • Confederações intertribais, como a Confederação dos Tamoios e a Confederação dos Cariris.

Diversas lideranças pró-lusitanas receberam privilégios como sesmarias e títulos nobiliárquicos, criando-se no Brasil autênticas linhagens de chefes indígenas condecorados pela Coroa por sua lealdade a Portugal.

Alianças com invasores contra os colonizadores também ocorreram. Nações inteiras escolheram por se aliarem aos inimigos dos portugueses. Líderes como Antônio Paraupaba chegaram a residir nos Países Baixos para aprender a língua holandesa. O líder Abaupaba retornaria para os Baíses Baixos com os holandeses e lá ficaria até a morte, ainda atuando na política e buscando reestabelecer uma aliança Holanda-Potiguaras e quem sabe reconstruir o que fora perdido pelos holandeses no Brasil.

III. Tipos de guerra
Dependendo do território em disputa, dos objetivos e das nações envolvidas, distintos tipos de guerra podem ser travados. Podemos elencar os seguintes:

Corso – Corsários e piratas contratados por uma potência colonial assaltam cidades, engenhos e o comércio marítimo de outra potência colonial. Acontece no mar ou na costa.

Expedição– Expedições militares encomendadas pela Coroa para reconhecer e colonizar territórios (entradas) ou de caráter punitivo. Há também as financiadas por particulares para apresamento de índios e busca por bens comerciáveis (bandeiras). Foram bastante empregadas contra aldeamentos missionários e tribos hostis (“gentios bravos”). Ocorriam nas regiões sertanejas, e frequentemente envolviam o domínio das vias fluviais.

Guerra colonial – Disputa entre potências coloniais e seus aliados por territórios ainda não colonizados. Pode ou não envolver tropas nativas, e ocorre geralmente em zonas limítrofes de territórios coloniais.

Guerra indígena – Guerra entre um povo ou confederação de povos indígenas e colonizadores ou colonos. Pode ser uma guerrilha de resistência à colonização, uma revolta, um ataque à uma colônia.

Guerra internacional – Guerra entre duas potências estabelecidas e/ou suas colônias, com fins punitivos ou expansivos. Pode envolver tropas nativas, mas seu objetivo é retaliar a potência colonial inimiga ou tomar seus territórios.

Guerra de independência – Guerra de uma colônia, província ou território buscando emancipação do restante do corpo político (potência colonial, estado nacional, etc).

Guerra colonial indígena – Guerra entre povos indígenas apoiados por potências coloniais. Ocorre quando há um interesse militar comum entre uma nação americana e o colonizador europeu, em qualquer dos lados.

Guerra autóctone – Guerra entre povos indígenas, sem apoio de potências coloniais em qualquer dos lados. É a forma de guerra anterior à chegada dos europeus e que continuou ocorrendo em lugares onde a presença do colonizador não chegava.

O período a ser estudado vai de 1534 até a Independência do Brasil e a consequente fundação do Império, quando então está todo o território submetido à uma administração monárquica típica do mundo ocidental de sua época. O objetivo de restringir o escopo de estudo é excluir dele movimentos e guerras de cunho emancipatório das províncias como a Inconfidência Mineira, a Conjuração Baiana, ou a Revolução Farroupilha. Estes, apesar de representarem alterações potenciais e significativas no território do Brasil, não representam um conflito entre “conquistadores” ou colonizadores, uma vez que estas áreas já estavam colonizadas e já compartilhavam de uma história comum com outros brasileiros ou lusos.

OUTRAS PARTES DA SÉRIE:

FONTES E REFERÊNCIAS:

Web

Livros, revistas, artigos e entrevistas

As Malvinas, outra vez

Por Alvaro Vargas Llosa. Traduzido e adaptado para o português do Brasil por Renan Felipe dos SantosPublicado originalmente em El Independiente em 09 de fevereiro de 2012. Artigo original em espanhol aqui

Cristina Fernández de Kirchner, mais inteligente que o falecido ditador Leopoldo Galtieri, não pretende invadir as Malvinas. Sabe que as tropas argentinas seriam derrotadas uma vez mais e que a derrota acabaria com ela, como acabou com Galtieri. Sua estratégia é outra: a pressão ambiental. Tem a dupla vantagem de que não obter resultados positivos não implicaria custo algum -de certa forma, os créditos estão garantidos porque o fraco nunca tem nada a perder enquanto atue como tal- e de permitir ao governo argentino lograr todo o efeito interno que pretende e necessita. É o que vem fazendo Cristina Kirchner desde setembro, quando lançou uma ofensiva internacional contra Londres a propósito das Malvinas -ofensiva que nas últimas semanas teve especial notoriedade-, combine astúcia política, prudência calculada e senso de oportunidade.

Cristina Kirchner: o Galtieri com neurônios e saia.

A astúcia política reside em parecer que está fazendo muito, sem que esteja. Prudência calculada porque, precisamente devido ao anterior, sabe bem que o custo para ela é mínimo e que, na medida em que não lance um desafio militar, só pode ganhar pontos. E senso de oportunidade porque, apesar de sua recente vitória reelecionista, a situação de seu governo começa a ser precária, ante o acelerado processo de erosão do modelo econômico e a crescente resistência ante os sinais contínuos de submissão da livre expressão e das instituições democráticas. Em três palavras: galtierismo com neurônios.

Cristina sabe uma coisa muito importante: que, aos olhos do mundo, a reivindicação de seu país é justa. Não é possível negar que o Reino Unido ocupou há cerca de 180 anos um território que não lhe pertencia e que desde 1965 tem ignorado o pedido das Nações Unidas para que negocie com Buenos Aires uma solução (leia-se um acordo de transferência de soberania). A resolução de 1965 e as 12 resoluções subsequentes, que de uma ou outra forma se relacionam com este assunto, outorgam a Buenos Aires uma base jurídica e sobretudo política para reclamar. Portanto, a mandatária argentina sabe também que os países sul-americanos não tem outra opção, gostem ou não da idéia de comprar briga com o Reino Unido, do que apoiá-la pelo menos até certo ponto.

Ainda que seja consciente de que muitos deles, a começar pelo Chile, a última coisa que querem é a inimizade com Londres, Cristina Kirchner entende que sua posição é tão sólida que os governos vizinhos terão, pelo menos simbolicamente, que fazer gestos de adesão ao seu pedido. Alguns, porque no poderão ficar fora do clube da solidariedade com um país sul-americano que reclama contra o despojo histórico de um território seu; outros, porque e talvez este seja também o caso do Chile, suas já difíceis relações com os vizinhos aconselham a não seguir abrindo frentes políticos nas fronteiras.

Até agora, as medidas que havia tomado o kirchnerismo com respeito à reivindicação das Malvinas eram mínimas. Até porque durante anos Néstor e Cristina prestaram quase nenhuma atenção a este tema, quando finalmente o fizeram -o que coincidiu com a revelação de que poderia haver recursos petrolíferos na zona- optaram por medidas de intensidade mediana. Uma: não permitir aos barcos das Malvinas abastecer-se em portos argentinos, o que obrigou as ilhas a importar alimentos e outros produtos desde o Reino Unido, a 14 mil quilômetros de distância. A outra: não permitir a empresas que realizaram atividades nas Malvinas investir ou comerciar com a Argentina.

O que agora pretende Buenos Aires com o boicote sul-americano anunciado em dezembro passado soa pior do que realmente é. Tanto o Mercosul como a Unasul tem aceitado o pedido argentino de não permitir que os barcos com bandeira das Malvinas atraquem em seus portos. O que não é o mesmo que proibir a chegada dos barcos das Malvinas, pois basta que estes viajem com bandeira britânica para que possam atracar sem obstáculos aos portos sul-americanos. Por isto, William Hague, o ministro de Relações Exteriores britânico, disse há alguns dias que Chile, Uruguai e Brasil haviam rechaçado o boicote. Ainda que a Argentina, por causa do chanceler Héctor Timerman e do vice-presidente Boudou, tenha insistido que o boicote se mantenha, o certo é que só se aplica a barcos que tenham bandeira das Malvinas. Basta trocar a bandeira para burlar o cerco. Assim, Santiago, Brasília e Montevidéu ficam bem com Buenos Aires e com Londres.

Malvinas: argentinas? Território britânico desde 1830, a maioria da população se auto-declara britânica.

Nenhum mandatário deu a entender sequer remotamente, nas diversas capitais sul-americanas, que está disposto a somar-se ao veto argentino contra empresas que operem nas Malvinas. Não o fizeram quando o veto argentino tinha como alvo principal a indústria pesqueira (essa é, junto com o gado ovino, a principal atividade econômica nas ilhas) e não o fazem agora que o objetivo é a indústria petrolífera (a intensificação da reivindicação argentina tem relação com as atividades de exploração petrolífera da empresa Rock-hopper). O pior que pode acontecer é que se suspenda o vôo semanal ao Chile que passa pelo espaço aéreo argentino, mas essa decisão não ocorreria em Santiago, e sim em Buenos Aires, por tanto, não implicaria em um eventual boicote chileno.

As relações econômicas do Reino Unido com a América do Sul, aliás, já não são o que foram a princípios do século e durante o século XIX, o que oferece ao governo britânico, apesar de que William Hague tenha anunciado em 2010 um voo até esta zona do mundo, certa margem de proteção ante qualquer eventualidade. Até a Primeira Guerra Mundial, a metade dos investimentos estrangeiros na América Latina vinham do Reino Unido e um quarto do comércio latino-americano tinha esse país como interlocutor. Hoje, as exportações britânicas para a América Latina não passam de um por cento. Os investimentos líquidos de empresas britânicas em países sul-americanos nos últimos anos tem sido mínimos, salvo no Brasil, onde tem superado os bilhões de libras, montante que de qualquer modo, em comparação com outros destinos do capital do Reino Unido, é modesto.

Um fator que, neste jogo diplomático, aparentemente ajuda a Cristina Kirchner é a difícil situação em que se encontra Londres em relação com a União Européia. Desde que o governo de David Cameron se opôs a formar parte da iniciativa para reformar os tratados da União a fim de caminhar em direção a uma união fiscal no contexto da crise dos títulos soberanos, as relações entre Londres e Bonn, mas especialmente entre Londres e Paris, tem sido muito apertadas. Tem se falado, uma vez ou outra, de “isolamento” britânico. Neste contexto, o último que quer o Reino Unido é que se passe a idéia de que se amplia o isolamento com um boicote geral dos países sul-americanos: a notícia, algo exagerada, que Argentina tem conseguido enfiar nos meios de comunicação.

De qualquer modo, a Argentina deve medir, neste cálculo, algo que não parece estar medindo: o lendário nacionalismo britânico. Deve recordar que se Londres tem hoje problemas com seus sócios da União Européia é precisamente por essa insularidade ou excepcionalidade política que o nacionalismo britânico, e muito especificamente o nacionalismo inglês, tem impresso na classe dirigente desde sempre. Talvez por isso David Cameron se sentiu bastante seguro para convocar, esta semana, ao Conselho de Segurança Nacional, que reúne militares e políticos, enviando com ele uma óbvia mensagem: defenderemos as Malvinas com a força se necessário, exatamente como defendeu Margaret Thatcher em 1982. Cameron calcula que nenhum primeiro ministro britânico perderá votos internos por colocar as garras de fora contra um novo desafio argentino. Daí a tentativa de Cristina Kirchner de aproveitar o relativo isolamento de Londres na Europa pode ter um efeito “bumerangue” e fortalecer Cameron.

David Cameron: dará o braço a torcer ou fará as vezes de Margaret Thatcher?

Até o surgimento da possibilidade de a zona conter depósitos de hidrocarbonetos, para o Reino Unido as Malvinas eram uma carga. A  sensação geral, no mundo diplomático, era que Londres esperava alguma oportunidade, no futuro, para começar a negociar uma fórmula que iniciaria o processo de desfazer-se do pesado fardo. Não era possível fazê-lo de imediato, porque a maioria dos pouco mais de 1.300 habitantes das ilhas se consideram britânicos. Muitos deles representam a nona geração de britânicos desde que, m 1833, o Reino Unido ocupou as Malvinas, dado no qual Londres sempre baseou seu argumento de que a “autodeterminação” desse território de ultramar é o que prevalece (também com esse argumento William Hague acusou com ironia a Buenos Aires de “colonialismo” esta semana, antes de chegar ao Brasil em visita oficial). De qualquer modo, as coisas tem se complicado muito mais desde que começou a planar sobre as ilhas o fantasma do petróleo. Como é sabido, já faz alguns anos, as reservas do Mar do Norte estão em franca diminuição. Desde o ponto de vista do Reino Unido, pois, o eventual descobrimento de abundantes quantidades de óleo bruto nas imediações das Malvinas daria a estas ilhas um especial valor estratégico. Valor que haviam deixado de ter desde o século passado quando eram passada obrigatória para os navios britânicos que transitavam do Atlântico ao Pacífico (em décadas recentes, apenas tem sido parada obrigatória para certas estações científicas na Antártida).

A complicação internacional da eventual existência de jazidas de petróleo é óbvia: além de valorizar o território das ilhas para um governo britânico que antes via as Malvinas como uma carga, ele colocaria a Argentina ante a obrigação de redobrar sua campanha internacional. Para qualquer governo argentino seria difícil manter-se de braços cruzados ante a pressão de uma oposição que utilizaria o argumento do petróleo para acusar a suas autoridades de falta de patriotismo.

No caso de Cristina Kirchner, como já foi dito, há mais elementos de cálculo político interno que convicções em tudo isso, a julgar pelo que ela e seu marido não fizeram durante muitos anos com respeito as Malvinas. Mas o certo é que, dadas as atuais circunstâncias, seria ainda mais difícil para um governo não peronista submetido à pressão do justicialismo olhar para outro lado. Por isso, a possibilidade de que as Malvinas tenham petróleo criou quase uma obrigação em toda a classe política.

Tudo indica, em resumo, que 30 anos depois da guerra, as Malvinas deixaram de ser o que Borges chamou “a briga de dois carecas por um pente”, e passou a ser algo mais grave.