50 tons de pensamentos políticos

Formulei essa tabela com cinqüenta idéias e modos de pensar da direita e da esquerda, a fim de auxiliar o leitor a definir melhor o que é esquerda e o que é direita na política. Abaixo da tabela, há algumas dicas e apontamentos sobre a tabela.

A tabela

Esquerda

Direita

Aspectos Políticos e Econômicos

1. Coletivismo/classismo 1. Individualismo
2. Governo expansivo 2. Governo limitado
3. Alta carga tributária 3. Baixa carga tributária
4. Muita intervenção 4. Pouca intervenção
5. Radicalismo 5. Conservadorismo
6. Desigualdade perante as leis 6. Igualdade perante as leis
7. Igualdade Social 7. Desigualdade Social
8. Centralização do poder (Unitarismo) 8. Descentralização do poder (Federalismo)
9. Proibição do porte de armas 9. Livre porte de armas
10. Leis amenas contra criminosos 10. Leis rigorosas contra criminosos
11. Muito assistencialismo 11. Pouco assistencialismo
12. Presença de Salário Mínimo 12. Ausência de Salário Mínimo
13. Serviço Militar Obrigatório 13. Serviço Militar Opcional
14. Estado anti-religião tradicional e pró-secularismo e/ou sincretismo 14. Estado Laico e conservador da cultura religiosa tradicional do lugar
15. Desincentivo às multinacionais 15. Incentivo às multinacionais
16. Protecionismo 16. Economia de livre mercado
17. Mercado bem regulado 17. Laissez-faire
18. Estatização e criação de empresas estatais 18. Privatização e incentivo à iniciativa privada
19. Regimes Antiliberais 19. Regimes Liberais
20. Hostilidade à propriedade privada 20. Proteção e valorização da propriedade privada
21. Alto número de parcerias público-Privadas 21. Baixo número de parcerias público-privadas
22. Muitas empresas estatais 22. Poucas empresas estatais
23. Estado Inchado, grande, com muitas funções 23. Estado Enxuto, mínimo, com poucas funções
24. Controle da Mídia pelo Estado 24. Liberdade de Expressão
25. Incentivo aos monopólios estatais 25. Incentivo à concorrência dentro do setor privado

Aspectos Culturais e Filosóficos

26. Crente no ser humano 26. Descrente no ser humano
27. A favor do aborto 27. Contrária ao aborto
28. Defensora da valorização de novos conceitos de família 28. Defensora da valorização da família tradicional e natural
29. Relativismo moral e/ou criação de novos tipos de moral 29. Conservadorismo e valorização dos bons costumes
30. Desvalorização e/ou militância contra a religião tradicional 30. Tolerância às religiões e valorização da religião tradicional
31. Presença de Bodes Expiatórios para os males do mundo. O mal está em alguma classe inimiga (burgueses, religiosos, opositores…). 31. Ausência de Bodes Expiatórios para os males do mundo. O mal está no indivíduo e na espécie humana em geral, não em uma classe específica.
32. A ciência pode provar qualquer coisa em qualquer área do conhecimento humano. 32. Ciência é importante, mas não pode provar tudo. Ela deve se limitar a sua área.
33. Desvalorização da tradição 33. Valorização da tradição
34. O indivíduo deve ser julgado como produto de seu meio 34. O indivíduo deve ser julgado como responsável pelos seus atos
35. Os fins podem justificar todo e qualquer meio utilizado 35. Os fins não podem justificar os meios utilizados
36. A sociedade deve ser totalmente remodelada e tornar-se um paraíso. Com as pessoas certas, isso é possível. 36. A sociedade deve ser melhorada na medida do possível e do alcançável. No entanto, ela nunca será perfeita.
37. Liberdade e ditadura não se opõem se há igualdade social entre o povo. Pode-se ser livre em um governo totalitário. 37. Liberdade e ditadura são coisas opostas e que jamais podem ser conciliadas. Não se pode ser livre em uma ditadura.
38. A cultura pode e deve se opor à conduta moral. Afinal, a moral é relativa. 38. A cultura, por mais importante que seja, jamais deve se opor à conduta moral
39. Crença em um governo “Messias” 39. Ceticismo quanto a um governo “Messias”
40. Discriminação contra quem faz parte da classe “opressora” 40. Contra qualquer preconceito, discriminação e racismo
41. Cabe ao Estado suprir todas as necessidades individuais (estatismo). O Estado deve ser como uma mãe para o povo. 41. Não cabe a ele suprir todas as necessidades individuais. A função básica do Estado é ser o protetor da ordem social.
42. Os políticos devem agir e serem encarados como pais para o povo (populismo). 42. Os políticos devem agir e serem encarados como funcionários da população.
43. Mudar é importante e o alvo de toda mudança deve ser alcançar a perfeição social. Por isso, mudar deve ser algo que se faz a todo o custo e as bases da sociedade não só podem como devem ser destruídas, a fim de que se funde uma nova ordem social. 43. Mudar é importante, mas deve ser algo refletido e não deve destruir bases da sociedade, como a moral, a família, a hierarquia, a religião, a propriedade privada, os direitos individuais, as instituições tradicionais e etc.
44. A liberdade do indivíduo deve estar subordinada àquilo que o governo julga ser bom para toda a sociedade. 44. A liberdade do indivíduo deve ser respeitada sempre, à exceção de quando essa liberdade afeta diretamente a dos outros.
45. O governo deve ser humano e solidário e me ajudar a ensinar os meus filhos a agirem dessa forma 45. Eu devo ser humano e solidário e ensinar meus filhos a serem dessa forma
46. O Estado deve estar do lado das classes oprimidas. 46. O Estado deve estar do lado do indivíduo.
47. A punição e a compensação para os que já morreram devem ser feitas aos indivíduos hoje vivos que compõem a classe. Isso porque a ênfase está na classe, de modo que compensações e penas podem ser transferidas. 47. Não se pode punir maldades e compensar opressões cujos atores já morreram há séculos, pois a ênfase está no indivíduo e não na classe a qual ele pertence, de modo que compensações e penas são intransferíveis.
48. A história do mundo se resume à luta entre classes. 48. A história do mundo se resume à luta entre indivíduos.
49. Não há problema em cultuar grandes líderes revolucionários, como Mao Tsé Tung, Stálin, Lênin, Pol Pot, Fidel Castro e Che Guevara. Mesmo que eles tenham sido responsáveis por matar muita gente e cometerem atrocidades, o fizeram em prol de um mundo melhor. 49. Todas as pessoas são falhas e não devem ser cultuadas. Líderes do governo não são nossos pais e não são heróis da nação. São apenas funcionários do povo, que devem ser regularmente substituídos e que devem ser julgados pelos seus crimes como qualquer pessoa.
50. Provérbio: “Quem não arrisca não petisca”. 50. Provérbio: “A prudência é a maior das virtudes”.

Dicas e Apontamentos

1) A tabela não diz respeito à esquerdistas e direitistas, mas sim à esquerda e a direita como posicionamentos políticos. Há diferença nisso? Há sim. Nem todo o direitista irá concordar com todos os pensamentos de direita e nem todo o esquerdista irá concordar com todos os pensamentos de esquerda. O que vai definir se uma pessoa, partido, ideologia ou governo é de esquerda ou direita é o quanto de idéias de cada lado do espectro é defendido. Por exemplo, se defendo 45 idéias de direita, e só 5 de esquerda, é evidente que sou de direita.

2) Embora seja composta por apenas dois pólos antagônicos, esta tabela serve perfeitamente para nos indicar se uma pessoa, partido, ideologia ou governo é de centro, centro-esquerda ou centro-direita. Afinal, pode-se ficar entre os dois pólos, não sendo nem  de um, nem de outro, mas ficando mais ou menos no meio.

3) Podemos usar as seguintes regras para as definições:

– De 50 a 36 idéias de direita = o objeto estudado é de direita.

– De 35 a 29 idéias de direita = o objeto é de centro-direita.

– De 28 a 22 idéias de direita = o objeto é de centro.

– De 21 a 15 idéias de direita = o objeto é de centro-esquerda.

– De 14 a 0 idéias de direita = o objeto é de esquerda.

P.S.: A doutrina anarquista, tanto de extrema-esquerda como o de extrema direita (o chamado Anarco-Capitalismo) não se enquadram nessa tabela, que leva em conta apenas as idéias pautadas em regime que se dá no interior de um Estado. Como o anarquismo é a negação do Estado, o enquadramento aqui não é viável.

4) As regras acima não são inflexíveis, pois em alguns casos será necessário levar em conta a relevância de determinado pensamento para um pólo. Por exemplo, imagine que uma pessoa tenha 30 idéias de esquerda, sendo classificada como centro-esquerda. Mas como ela defende alguns pensamentos muito relevantes para a esquerda, como a hostilidade à propriedade privada, um governo antiliberal e o radicalismo, ela pode ser classificada como esquerdista.

5) Evidentemente a tabela não esgota o número de idéias de cada pólo. Minha intenção foi selecionar os pensamentos mais importantes de cada lado para montar um panorama geral.

Desaprendemos a ser Conservadores

Desde que a esquerda tomou de assalto o jogo político e os conservadores foram deixados de lado (assim como os liberais), desenvolveu-se uma ânsia pela retomada na participação que fez com que os conservadores deixassem de se-lo. Isso em muito se justifica pela aliança excessiva que se formou com movimentos de cunho liberal, com os quais podemos ter certos aspectos em comum, mas que, retomando espaço no jogo político, certamente tomariam caminhos distintos devido à sua natureza, até certo ponto, progressista. Outro ponto que deve ser levado em consideração é também o apego a causas que em nada contribuem para com a retomada de um espaço político.

Há no pensamento conservador alguns pilares centrais, dos quais derivam toda e qualquer decisão e ação política considerada. Mas toda boa construção possui uma sólida fundação para seus pilares. Essa fundação pode ser vista como a mínima moral necessária, composta pelos princípios fundacionais de um determinado agrupamento social. A fundação de um agrupamento social acarreta, imediatamente, no estabelecimento de uma ordem, que será espontaneamente mantida caso sejam mantidos intactos os princípios fundamentais convencionados por esse grupo.

O resultado prático desse raciocínio, na política, é que o conservador vai pensar cada medida proposta do prisma da manutenção da ordem. E para a manutenção da ordem, é necessário que os princípios básicos se mantenham intactos, o que ocorre através do travamento de qualquer proposta que venha a alterá-las e colocar a sociedade nos trilhos de um suposto progresso. É necessário o travamento de qualquer proposta que vise alterar a moral da sociedade pelas vias legislativas.

Mas isso não significa engessar a moral através da lei. O conservador valoriza o que é socialmente construído ao longo das décadas, inclusive a gradual mudança de pensamento. Isso faz com que, novamente pensando na manutenção da ordem e em uma estratégia de contra-revolução, se façam concessões em aspectos que se mostrem devidamente enraizados no imaginário popular. Para evitar a revolta e a derrubada de todo um sistema, faz-se uma reforma que visa manter a saúde do corpo social.

O Ocidente, desde sua formação na era medieval, foi conservador de forma esplêndida, provavelmente inimitado em sua competência para manter sua essência intacta. Os artigos escritos sobre um novo renascimento em parte buscam dissertar sobre isso, a capacidade de o ocidente se reinventar de modo a evitar seu próprio colapso. Quando a população já não mais suportava a aliança entre a Igreja e o Estado, o ocidente os separou, e enraizou no Estado uma estrutura semelhante à da Igreja para manter as estruturas civilizacionais intactas. Quando a moda no oriente foram as revoluções socialistas, o Ocidente inventou o Estado de Bem Estar, que se mostrou mais eficiente em salvar os inaptos do que a burocracia soviética.

O grande problema é que o Estado de Bem Estar Social está a entrar em colapso devido às excessivas benesses que passou a oferecer ao longo dos anos, e os conservadores se mostram inertes e incapazes, sufocados entre liberais e socialistas, de definir quais causas podem servir como concessão e reforma legítima visando a manutenção da ordem, e quais servem justamente à destruição dessa ordem mantida ao longo de séculos. Como resposta a essa asfixia, alguns conservadores abraçam um nacionalismo já a muito superado e estigmatizado, outros aderem totalmente às bandeiras liberais,  outros se mantém completamente agarrados ao status quo, enquanto alguns pretendem voltar atrás quase meio milênio. Todas essas medidas que resultam em um suicídio político.

Há de se retomar o raciocínio que Aristóteles empreendeu em A Política para verificar quais são as instituições basilares da civilização nos dias de hoje, após séculos de liquidez com análises quase que exclusivamente marxistas e interessadas na queda dessas instituições, desvalorando-as a priori. A verificação dessas instituições nos permitirá perceber o que deve ser mantido a qualquer custo e como realizar essa manutenção. Não cabe ao pensamento conservador pregar uma espécie de balbúrdia do poder contra os costumes e tradições vigentes para levar a sociedade ao que seria um ideal, isso é papel de engenheiros sociais.

Por isso não se deve descartar a priori nenhuma linha de pensamento que surja. Deve-se verificar quais delas podem ser utilizadas para um propósito de conservação, que muitas vezes é contrário ao que se propõe em um primeiro momento (muitos pensamentos teoricamente contestatórios podem servir para a manutenção da ordem ao invés de sua destruição). E ao se utilizar de um pensamento supostamente contrário para sustentar uma conservação velada conquista-se uma base de apoio não só para a reforma pretendida, mas muitas vezes para outras medidas acessórias.

Os conservadores de antigamente souberam fazer isso de forma magistral. Cabe a nós, que combatemos o progressismo nos dias de hoje, relembrar como fazê-lo.