Esquerda: uma religião política

Texto meu (Davi Caldas) originalmente publicado no blog Mundo Analista. Para ler o original, clique aqui.

Experimente tentar defender qualquer assunto relacionado ao cristianismo ou à moral judaico-cristã dentro de uma universidade. O resultado, fatalmente, será uma tempestade de críticas de teor bem agressivo. Essa tendência de se enxergar a religião tradicional como uma pedra no sapato do mundo, um empecilho à ciência, um gerador de guerras e um elemento opressor da humanidade não é algo novo, mas se expande em alta velocidade desde que os iluministas começaram acreditar que ser humano é um ser altamente evolutivo e de natureza boa, que é plenamente capaz de criar um paraíso na terra com suas próprias mãos.

Esta perspectiva de alta fé no ser humano, advinda do humanismo e propagada aos quatro ventos pelos iluministas é um dos pilares do pensamento de esquerda (senão, o pilar). E, não é difícil observar como que essa perspectiva entra facilmente em oposição ao pensamento da religião tradicional. Afinal, o que se faz aqui é substituir a fé em um Deus supremo e bom, dono de toda a moral e que promete um mundo novo, pelo ser humano (sempre representado por uma classe específica de seres humanos), que também passa a ser supremo e bom, dono de toda a moral e que promete um mundo novo.

Então, o que vemos aqui é que a disseminação dessa fé descomunal no homem pelos iluministas acarretou em algo muito mais perigoso e letal do que poderia se tornar qualquer religião tradicional: a religião política (mais conhecida como esquerda). Essa religião, diferente da religião tradicional, jamais culpará a natureza do ser humano pelos problemas do mundo. No lugar disso, ela definirá bodes expiatórios que possam levar a culpa de toda a desgraça humana nas costas, e instigará o ódio a esses “culpados”, legi-timando todo o tipo de ação contra eles.

Para se ter ideia do quão perigosa é essa postura, só precisamos observar o que a religião política tem feito ao longo de sua história. Vamos utilizar dois exemplos bem conhecidos. O primeiro é o do comunismo, uma das várias vertentes da esquerda. O que o comunismo prega? Bem, segundo Karl Marx e Friedrich Engels (os fundadores da teoria), a história de toda a sociedade até hoje é a história de lutas de classes. Essas lutas teriam ocorrido desde o início da humanidade entre “homem livre e escravo, patrício e plebeu, barão e servo, mestres e companheiros, numa palavra, opressores e oprimidos”; e agora, estaria alcançando o seu apogeu com a burguesia e o proletariado.

Baseado nisso, o pensamento comunista entende que a culpa da sociedade ser desigual e viver em desarmonia é da burguesia. Afinal, é a burguesia que toma conta dos meios de produção e suga todo o lucro do trabalho do proletariado, que é formado pela maior parte da população. Assim, a riqueza da minoria depende da miséria da maioria. Como é na desigualdade que residem os males, o comunismo sustenta que a sociedade deixará de ser cruel quando o proletariado destruir a burguesia; não havendo mais antagonismos de classes, não haverá luta e não havendo luta, a sociedade será finalmente igual e pacífica (sem necessitar mais de Estado, inclusive).

Veja como todos os elementos da religião política são dispostos cuidadosamente na teoria de Marx e Engels:

(1) defini-se que o mal da sociedade não está na natureza humana;

(2) busca-se um bode expiatório para pôr a culpa desse mal (a burguesia);

(3) instiga-se o ódio aos “culpados”, pois eles não deixam o paraíso ser formado;

(4) legitima-se toda e qualquer ação contra os “culpados”, em prol de um bem maior e supremo, que será alcançado quando eles forem eliminados.

E qual foi a consequência desse pensamento, obviamente, utópico? Genocídios imensos causados pela União Soviética (de Lênin e Stálin), Camboja (de Pol Pot), China (de Mao Tsé Tung), Cuba (de Fidel Castro), além de terríveis perseguições, totalitarismo, opressão do povo e, finalmente, a não concretização do tal paraíso. Isso, claro, porque o mal reside no ser humano como um todo e não na burguesia.

O segundo exemplo vem do Nacional Socialismo alemão (que é chamado erroneamente de extrema-direita só porque foi anticomunista). Para Hitler, o problema do mundo não estava na natureza humana, mas sim nas “raças” e pessoas “inferiores”. O ser humano realmente bom, supremo, capaz, racional e evoluído era o homem ariano. Os demais eram apenas desviantes biológicos, que deveriam ser destruídos para que a terra retornasse ao seu rumo correto.

Mais uma vez é claro o uso das ideias da religião política (esquerda), baseada no humanismo. A única diferença do nazismo para o comunismo é que no lugar de culpar a burguesia, o nazismo culpou quem não era ariano. E o resultado? Milhões de judeus, negros, homossexuais e deficientes foram exterminados, e o extermínio, legitimado pela ideologia da religião política.

O grande problema da religião política é que ela encara o homem como Deus e culpa quem ela quer pelos problemas. Por isso qualquer ação pode ser legitimada. Ora, se um cristão faz algo ruim, como agredir um adversário, ele não é legitimado pela sua religião, pois a religião tradicional diz: “Ame o próximo” (Tiago 2:8); “todos são pecadores” (Romanos 3:9); “não há um justo sequer” (Romanos 3:10); “a vingança a Deus pertence” (Romanos 12:19); “quem nunca cometeu pecado (ou seja, ninguém) que atire a primeira pedra” (João 8:7). Ele está errado. A religião tradicional condena sua atitude. Deus condena sua atitude.

Mas se um religioso político agride um cristão, por exemplo, ele está certo. Está legitimado. Sob o esquerdista não pesa nenhuma culpa e ele não deve ser recriminado, afinal, ele está dando ao “culpado” pelos problemas do mundo o devido tratamento. O homem é o próprio Deus e por isso está sempre certo.

Por esse motivo é que podemos dizer que a religião política é a mais perigosa das religiões. Ela induz as pessoas a fazerem coisas irracionais como:

(1) depositar sua confiança em grandes líderes (isso também ocorre na religião tradicional, mas não por indução da Bíblia, pois ela deixa claro: “Maldito o homem que confia no homem” – Jeremias 17:5 – além de ensinar que só devemos acreditar em quem age conforme os princípios marais judaico-cristãos);

(2) crer que fazem parte de uma grande revolução que levará a humanidade a um paraíso na terra;

(3) criar bodes expiatórios para os problemas da humanidade e odiá-los;

(4) legitimar toda e qualquer ação contra esses bodes.

E não pensemos que agora, em pleno século XXI, estamos livres das ações da religião política. Como Adolf Hitler costumava dizer: “Uma mentira repetida mil vezes se torna uma verdade”. As inúmeras mentiras da religião política estão por aí, moldando a cabeça das pessoas; sobretudo, nas universidades. Lá, boa parte dos professores é hostil ao cristianismo por crer na religião política e desejar que o ser humano possa ter a mesma autoridade e direito sobre as coisas que tem Deus na religião tradicional.

Mas quem questiona isso? O amigo leitor conhece muitas pessoas que critiquem a religião política com a mesma intensidade com que os religiosos políticos criticam a religião tradicional? Tenho certeza que não. A religião do momento é a religião política e enquanto ela estiver dominando a área acadêmica sem questionamentos (como tem sido), continuará espalhando suas mentiras genocidas. Lembre-se: o ser humano é Deus na religião política. O que quer que a esquerda queira fazer, será legitimada em todo o tempo por essa concepção.

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50 tons de pensamentos políticos

Formulei essa tabela com cinqüenta idéias e modos de pensar da direita e da esquerda, a fim de auxiliar o leitor a definir melhor o que é esquerda e o que é direita na política. Abaixo da tabela, há algumas dicas e apontamentos sobre a tabela.

A tabela

Esquerda

Direita

Aspectos Políticos e Econômicos

1. Coletivismo/classismo 1. Individualismo
2. Governo expansivo 2. Governo limitado
3. Alta carga tributária 3. Baixa carga tributária
4. Muita intervenção 4. Pouca intervenção
5. Radicalismo 5. Conservadorismo
6. Desigualdade perante as leis 6. Igualdade perante as leis
7. Igualdade Social 7. Desigualdade Social
8. Centralização do poder (Unitarismo) 8. Descentralização do poder (Federalismo)
9. Proibição do porte de armas 9. Livre porte de armas
10. Leis amenas contra criminosos 10. Leis rigorosas contra criminosos
11. Muito assistencialismo 11. Pouco assistencialismo
12. Presença de Salário Mínimo 12. Ausência de Salário Mínimo
13. Serviço Militar Obrigatório 13. Serviço Militar Opcional
14. Estado anti-religião tradicional e pró-secularismo e/ou sincretismo 14. Estado Laico e conservador da cultura religiosa tradicional do lugar
15. Desincentivo às multinacionais 15. Incentivo às multinacionais
16. Protecionismo 16. Economia de livre mercado
17. Mercado bem regulado 17. Laissez-faire
18. Estatização e criação de empresas estatais 18. Privatização e incentivo à iniciativa privada
19. Regimes Antiliberais 19. Regimes Liberais
20. Hostilidade à propriedade privada 20. Proteção e valorização da propriedade privada
21. Alto número de parcerias público-Privadas 21. Baixo número de parcerias público-privadas
22. Muitas empresas estatais 22. Poucas empresas estatais
23. Estado Inchado, grande, com muitas funções 23. Estado Enxuto, mínimo, com poucas funções
24. Controle da Mídia pelo Estado 24. Liberdade de Expressão
25. Incentivo aos monopólios estatais 25. Incentivo à concorrência dentro do setor privado

Aspectos Culturais e Filosóficos

26. Crente no ser humano 26. Descrente no ser humano
27. A favor do aborto 27. Contrária ao aborto
28. Defensora da valorização de novos conceitos de família 28. Defensora da valorização da família tradicional e natural
29. Relativismo moral e/ou criação de novos tipos de moral 29. Conservadorismo e valorização dos bons costumes
30. Desvalorização e/ou militância contra a religião tradicional 30. Tolerância às religiões e valorização da religião tradicional
31. Presença de Bodes Expiatórios para os males do mundo. O mal está em alguma classe inimiga (burgueses, religiosos, opositores…). 31. Ausência de Bodes Expiatórios para os males do mundo. O mal está no indivíduo e na espécie humana em geral, não em uma classe específica.
32. A ciência pode provar qualquer coisa em qualquer área do conhecimento humano. 32. Ciência é importante, mas não pode provar tudo. Ela deve se limitar a sua área.
33. Desvalorização da tradição 33. Valorização da tradição
34. O indivíduo deve ser julgado como produto de seu meio 34. O indivíduo deve ser julgado como responsável pelos seus atos
35. Os fins podem justificar todo e qualquer meio utilizado 35. Os fins não podem justificar os meios utilizados
36. A sociedade deve ser totalmente remodelada e tornar-se um paraíso. Com as pessoas certas, isso é possível. 36. A sociedade deve ser melhorada na medida do possível e do alcançável. No entanto, ela nunca será perfeita.
37. Liberdade e ditadura não se opõem se há igualdade social entre o povo. Pode-se ser livre em um governo totalitário. 37. Liberdade e ditadura são coisas opostas e que jamais podem ser conciliadas. Não se pode ser livre em uma ditadura.
38. A cultura pode e deve se opor à conduta moral. Afinal, a moral é relativa. 38. A cultura, por mais importante que seja, jamais deve se opor à conduta moral
39. Crença em um governo “Messias” 39. Ceticismo quanto a um governo “Messias”
40. Discriminação contra quem faz parte da classe “opressora” 40. Contra qualquer preconceito, discriminação e racismo
41. Cabe ao Estado suprir todas as necessidades individuais (estatismo). O Estado deve ser como uma mãe para o povo. 41. Não cabe a ele suprir todas as necessidades individuais. A função básica do Estado é ser o protetor da ordem social.
42. Os políticos devem agir e serem encarados como pais para o povo (populismo). 42. Os políticos devem agir e serem encarados como funcionários da população.
43. Mudar é importante e o alvo de toda mudança deve ser alcançar a perfeição social. Por isso, mudar deve ser algo que se faz a todo o custo e as bases da sociedade não só podem como devem ser destruídas, a fim de que se funde uma nova ordem social. 43. Mudar é importante, mas deve ser algo refletido e não deve destruir bases da sociedade, como a moral, a família, a hierarquia, a religião, a propriedade privada, os direitos individuais, as instituições tradicionais e etc.
44. A liberdade do indivíduo deve estar subordinada àquilo que o governo julga ser bom para toda a sociedade. 44. A liberdade do indivíduo deve ser respeitada sempre, à exceção de quando essa liberdade afeta diretamente a dos outros.
45. O governo deve ser humano e solidário e me ajudar a ensinar os meus filhos a agirem dessa forma 45. Eu devo ser humano e solidário e ensinar meus filhos a serem dessa forma
46. O Estado deve estar do lado das classes oprimidas. 46. O Estado deve estar do lado do indivíduo.
47. A punição e a compensação para os que já morreram devem ser feitas aos indivíduos hoje vivos que compõem a classe. Isso porque a ênfase está na classe, de modo que compensações e penas podem ser transferidas. 47. Não se pode punir maldades e compensar opressões cujos atores já morreram há séculos, pois a ênfase está no indivíduo e não na classe a qual ele pertence, de modo que compensações e penas são intransferíveis.
48. A história do mundo se resume à luta entre classes. 48. A história do mundo se resume à luta entre indivíduos.
49. Não há problema em cultuar grandes líderes revolucionários, como Mao Tsé Tung, Stálin, Lênin, Pol Pot, Fidel Castro e Che Guevara. Mesmo que eles tenham sido responsáveis por matar muita gente e cometerem atrocidades, o fizeram em prol de um mundo melhor. 49. Todas as pessoas são falhas e não devem ser cultuadas. Líderes do governo não são nossos pais e não são heróis da nação. São apenas funcionários do povo, que devem ser regularmente substituídos e que devem ser julgados pelos seus crimes como qualquer pessoa.
50. Provérbio: “Quem não arrisca não petisca”. 50. Provérbio: “A prudência é a maior das virtudes”.

Dicas e Apontamentos

1) A tabela não diz respeito à esquerdistas e direitistas, mas sim à esquerda e a direita como posicionamentos políticos. Há diferença nisso? Há sim. Nem todo o direitista irá concordar com todos os pensamentos de direita e nem todo o esquerdista irá concordar com todos os pensamentos de esquerda. O que vai definir se uma pessoa, partido, ideologia ou governo é de esquerda ou direita é o quanto de idéias de cada lado do espectro é defendido. Por exemplo, se defendo 45 idéias de direita, e só 5 de esquerda, é evidente que sou de direita.

2) Embora seja composta por apenas dois pólos antagônicos, esta tabela serve perfeitamente para nos indicar se uma pessoa, partido, ideologia ou governo é de centro, centro-esquerda ou centro-direita. Afinal, pode-se ficar entre os dois pólos, não sendo nem  de um, nem de outro, mas ficando mais ou menos no meio.

3) Podemos usar as seguintes regras para as definições:

– De 50 a 36 idéias de direita = o objeto estudado é de direita.

– De 35 a 29 idéias de direita = o objeto é de centro-direita.

– De 28 a 22 idéias de direita = o objeto é de centro.

– De 21 a 15 idéias de direita = o objeto é de centro-esquerda.

– De 14 a 0 idéias de direita = o objeto é de esquerda.

P.S.: A doutrina anarquista, tanto de extrema-esquerda como o de extrema direita (o chamado Anarco-Capitalismo) não se enquadram nessa tabela, que leva em conta apenas as idéias pautadas em regime que se dá no interior de um Estado. Como o anarquismo é a negação do Estado, o enquadramento aqui não é viável.

4) As regras acima não são inflexíveis, pois em alguns casos será necessário levar em conta a relevância de determinado pensamento para um pólo. Por exemplo, imagine que uma pessoa tenha 30 idéias de esquerda, sendo classificada como centro-esquerda. Mas como ela defende alguns pensamentos muito relevantes para a esquerda, como a hostilidade à propriedade privada, um governo antiliberal e o radicalismo, ela pode ser classificada como esquerdista.

5) Evidentemente a tabela não esgota o número de idéias de cada pólo. Minha intenção foi selecionar os pensamentos mais importantes de cada lado para montar um panorama geral.