O cristão pode usar armas de fogo, reagir e se proteger?

Texto originalmente publicado no blog “Reação Adventista“. Para ler na página original, clique aqui

pastor-armado

Alguns cristãos acreditam que seria errado buscar a autoproteção e reagir à agressões físicas, principalmente utilizando armas de fogo. Um dos textos utilizados para se defender essa concepção passiva em relação à agressões está em Mateus 5:39-41. Nesse texto, Jesus afirma: “Mas eu lhes digo: Não resistam ao perverso. Se alguém o ferir na face direita, ofereça-lhe também a outra. E se alguém quiser processá-lo e tirar-lhe a túnica, deixe que leve também a capa. Se alguém o forçar a caminhar com ele uma milha, vá com ele duas”.

Bom, se Jesus foi literal ao dizer estas palavras, devemos considerar que elas se estendem para todo e qualquer tipo de agressão sofrida. Isso quer dizer que, embora Jesus tenha dado apenas três exemplos, devemos aplicar o pensamento a outros. Sendo assim, segue-se que: (1) Se alguém vier com um pedaço de pau, te der uma cacetada na cabeça e você não desmaiar, ofereça o outro lado da cabeça também; (2) Se alguém vier com um caco de vidro e te cegar um olho, ofereça o outro olho também; (3) Se você é uma menina e um rapaz vem te beijar à força, ofereça outro beijo; (4) Se uma pessoa do seu mesmo sexo que você quiser te beijar à força, também deixe e ofereça outro beijo; (5) Se um estuprador quiser te violentar…

Como fica claro, interpretar as palavras de Jesus como sendo literais traz implicações nefastas. E essas implicações não parecem possuir qualquer ligação com os preceitos cristãos, tampouco possuem alguma utilidade racional. Ao contrário, quando interpretamos Mateus 5:39-41, estamos dizendo que os cristãos devem assumir uma postura de covardia e desvalorização da própria vida, o que não são virtudes cristãs. O cristão, como criatura de Deus, deve zelar por sua vida, a qual não pertence a si mesmo, mas é um dom de Deus. Deve ainda cultivar a coragem em todos os sentidos, já que a própria Palavra ensina que de fora do céu ficarão os covardes (Ap. 21:8). Ser corajoso, no sentido cristão, é não permitir que o medo nos paralise e nos impeça de fazer nossas obrigações. Isso inclui, evidentemente, a obrigação de proteger nosso corpo, nossa saúde, nossa vida, bem como nossa família, nosso próximo e nossos bens (sim, os bens, já que eles também provém de Deus).

Alguém poderá argumentar aqui que os mártires entregaram seus corpos e suas vidas em nome de Cristo e que, portanto, não seria correto tomar uma atitude de proteção da própria vida. Talvez até me citem Mateus 16:25: “Pois quem quiser salvar a sua vida, a perderá, mas quem perder a vida por minha causa, a encontrará”. A argumentação não é válida. Em primeiro lugar, porque eu não estabeleci a autoproteção como princípio máximo. Há ocasiões em que o sacrifício do próprio corpo ou da própria vida será necessário a fim de alcançar um bem maior. A autoproteção vigora como princípio básico apenas enquanto não há nada mais importante que a sua própria vida em jogo. No momento em que sua vida se torna secundária em função de algo superior, o sacrifício não só é permitido como é a cosia certa a se fazer. Num caso desse, negar a sua vida torna-se egoísmo. Essa é, aliás, a argumentação que faz G. K. Chesterton (grande pensador cristão) em um trecho de “Ortodoxia”, onde pontua a diferença entre um mártir e um suicida. Em um dos parágrafos ele afirma:

“O suicídio não só constitui um pecado, ele é o pecado. E o mal extremo e absoluto; a recusa de interessar-se pela existência; a recusa de fazer um juramento de lealdade à vida. O homem que mata um homem, mata um homem. O homem que se mata, mata todos os homens; no que lhe diz respeito, ele elimina o mundo”. Na sequencia, Chesterton continua enfatizando o quão hediondo é o suicidio e então confronta o suicidio com o martírio cristão:

“Obviamente um suicida é o oposto de um mártir. Um mártir é um homem que se preocupa tanto com alguma coisa fora dele que se esquece de sua vida pessoal. Um suicida é um homem que se preocupa tão pouco com tudo o que está fora dele que ele quer ver o fim de tudo. Um quer que alguma coisa comece; o outro, que tudo acabe. Em outras palavras, o mártir é nobre, exatamente porque (embora renuncie ao mundo ou execre toda a humanidade) ele confessa esse supremo laço com a vida; coloca o coração fora de si mesmo: morre para que alguma coisa viva. O suicida é ignóbil porque não tem esse vínculo com a existência: ele é meramente um destruidor. Espiritualmente, ele destrói o universo”.

Então, não, não existe contradição entre o principio da autoproteção e o martírio cristão. O que existe são ocasiões distintas. Há ocasiões em que o martírio suplanta a autoproteção porque o que está em jogo é algo mais importante que a vida. E o que seria mais importante que a nossa própria vida? A lealdade a Deus é o maior exemplo. A vida de um filho geralmente é colocada num patamar acima da autoproteção também. E há quem nobremente coloque sua proteção em risco em prol de pessoas doentes ou em situação de perigo. A isso se chama amar ao próximo. Parafraseando Chesterton, quem age dessa maneira está morrendo para que algo viva.

Infelizmente, às vezes a autoproteção implicará a morte do agressor. Mas não se trata aqui de um caso de assassinato. O mandamento de Deus proíbe o assassinato, que seria um homicídio por motivo torpe ou vingança. Mas Deus outorga o direito de tirar a vida de outro ser humano quando esta é a única maneira de sobreviver a um ataque do mesmo. Isso é legítima defesa. Aliás, abro parênteses para ressaltar que Deus também outorga o direito de tirar vidas ao Estado, quando determinada sociedade resolve que crimes hediondos devem ser punidos com a pena capital. Há quem pense que a pena de morte é proibida pela Bíblia. O fato, no entanto, é que a Bíblia joga essa questão para o âmbito civil, a ser resolvida pela sociedade. Não há qualquer condenação da pena capital nas Escrituras. No Antigo Testamento ela era prescrita na sociedade israelita para alguns crimes. E no Novo Testamento, as poucas passagens que mencionam o assunto, deixam claro que o assunto é de âmbito civil. Em Atos 25:11, por exemplo, Paulo afirma: “Contudo, se fiz qualquer mal ou pratiquei algum crime que mereça a pena de morte, estou pronto para morrer. Mas, se não são verdadeiras as acusações que me afrontam esses homens, ninguém tem o direito de me entregar a eles. Portanto, apelo para César!”. Já em Romanos 13:3-4: “Porque os magistrados não são para temor, quando se faz o bem, e sim quando se faz o mal. Queres tu não temer a autoridade? Faze o bem e terás louvor dela, visto que a autoridade é ministro de Deus para teu bem. Entretanto, se fizeres o mal, teme; porque não é sem motivo que ela traz a espada; pois é ministro de Deus, vingador, para castigar o que pratica o mal”. Em suma, ser contra ou a favor da pena de morte não é irrelevante no tocante à vida cristã, pois não é discussão de cunho religioso, mas civil. Os argumentos, portanto, devem ser de outra natureza que não teológica.

Mas voltando ao texto de Mateus 5, é importante ressaltar que Jesus costumava a usar analogias para enfatizar suas verdades. Algumas delas recorriam à imagens absurdas para impactar as pessoas. Por exemplo, em Mateus 5:29-30 lemos: “Se o teu olho direito te leva a pecar, arranca-o e lança-o fora de ti; pois te é mais proveitoso perder um dos teus membros do que todo o teu corpo ser lançado no inferno. E, se tua mão direita te fizer pecar, corta-a e atira-a para longe de ti; pois te é melhor que um dos teus membros se perca do que todo o teu corpo seja lançado no inferno”. É evidente que esse texto não é literal, pois a automutilação é um pecado. Jesus jamais a receitaria como método para vencer outro pecado. O que Jesus faz aqui é utilizar uma hipótese absurda para enfatizar que, na verdade, só há uma alternativa: abandonar o pecado. As analogias feitas por Jesus em Mateus 5:39-41 são do mesmo tipo; não devem ser entendidas literalmente. A essência do ensinamento de Jesus é bem clara e simples: não devemos procurar vingança pessoal contra as pessoas, mesmo que elas nos causem grandes danos.

Outro texto utilizado pelos cristãos defensores da passividade se encontra em Mateus 26:52, onde Pedro recebe uma advertência de Jesus ao tentar defendê-lo dos  soldados romanos no Jardim das Oliveiras: “Guarde a espada! Pois todos os que empunham a espada, pela espada morrerão”. Esse texto, inclusive, é o preferido de cristãos que acreditam ser um pecado possuir armas de fogo. O que se deve perceber aqui é que essa assertiva de Jesus não é um mandamento geral para todas as pessoas de todas as épocas em todas as situações. Na verdade, a assertiva de Jesus é bem mais específica para o contexto do que os cristãos passivos supõem. Vamos analisar.

Em primeiro lugar, a preocupação central de Jesus não é com o fato de que Pedro está armado, nem com o uso que o mesmo faz da arma para enfrentar o soldado que prendia Cristo. A preocupação central de Jesus está no fato de que Ele possuía uma missão clara e que não poderia ser frustrada: morrer pela humanidade. Em outras palavras, ele precisava se entregar. Qualquer pessoa que, naquele momento, intentasse salvá-lo estaria se tornando literalmente um obstáculo aos planos de Deus. O contexto do da própria passagem de Mateus deixa isso claro. Nos versos que se seguem Jesus afirma: “Acaso, pensas que não posso rogar ao meu Pai, e Ele me mandaria neste momento mais de doze legiões de anjos? Como, no entanto, se cumpririam as Escrituras, segundo as quais assim deve suceder?” (Mateus 26:53-54). Aqui Jesus deixa claro que está se deixando prender porque faz parte de sua missão. Cristo está literalmente dizendo: “Não quero sua ajuda, Pedro. Eu vim exatamente para isso”.

A mesma ideia é expressa de modo mais direto no evangelho de João. Ele relata o episódio da seguinte maneira: “Mas Jesus disse a Pedro: ‘Mete a espada na bainha; não beberei, porventura, o cálice que o Pai me deu?'” (João 18:11). Ou seja, a parte central da repreensão é que Pedro estava lutando contra os planos de Deus. O problema não estava no uso da espada, mas no momento, que era inoportuno. Marcos, ao narrar a mesma cena, sequer vê a necessidade de relatar a repreensão de Jesus feita a Pedro. Limita-se a descrever: “Nisto, um dos circunstantes, sacando da espada, feriu o servo do sumo sacerdote e cortou-lhe a orelha” (Marcos 14:47). Já Lucas resume a repreensão de Cristo na seguinte frase: “Mas Jesus acudiu, dizendo: ‘Deixai, basta’. E, tocando-lhe a orelha, o curou” (Lucas 22:51). Em suma, nenhum dos textos oferece qualquer margem para que Jesus estivesse fazendo uma teologia antirreação e antiarmas. Supor isso é forçar os textos a dizerem o que eles não dizem; enfatizar nos textos o que eles não enfatizam; deixar de lado o que realmente os escritores bíblicos querem chamar a atenção no evento narrado.

Em segundo lugar, quando Cristo afirma que “todos os que empunham a espada, pela espada morrerão”, deve-se ter em mente o contexto histórico da época. Israel vivia sob domínio do Império Romano, cujo poderio militar era incrivelmente grande. Roma tinha poder para massacrar qualquer grupo de rebeldes que desejasse. Se, portanto, os discípulos iniciassem seu ministério empunhando espadas por aí, rapidamente seriam vistos por Roma como rebeldes. Principalmente se esses discípulos viessem a matar algum soldado romano. O resultado disso seria, sem dúvida alguma, um rápido extermínio por parte do Império. As palavras de Jesus estavam, na verdade, traçando uma distinção entre a missão de um soldado e a missão de missionário. A missão do soldado é lutar fisicamente e o seu fim geralmente é a morte pelas próprias armas que utiliza. A missão do missionário, entretanto, era viajar por centenas de lugares pregando o evangelho. Longe de estar condenando a missão de um soldado, Jesus estava apenas enfatizando que os discípulos não eram soldados, mas missionários. Não há como ser as duas coisas. Não por haver alguma contradição moral, mas por haver uma incompatibilidade de missões.

Se os discípulos fossem caraterizados e rotulados, desde o início, como uma organização paramilitar, não teriam sequer um momento de paz para pregar o evangelho. O império romano, historicamente, perseguiu os cristãos não de maneira initerrupta, absoluta e geral, mas sim de maneiras localizadas no tempo e no espaço. Houve períodos e lugares com forte perseguição, mas também períodos e lugares em que os cristãos gozaram de liberdade. Mas isso só se deu porque os cristãos não eram soldados. Se fossem, o império romano teria sido absolutamente implacável desde o início, em todos os lugares e o tempo todo. O resultado teria sido a morte do cristianismo logo no seu surgimento.

Ademais, se os discípulos tivessem se caracterizado como soldados, o evangelho adquiriria um caráter distorcido, não mais de uma transformação espiritual e de um volver da mente às coisas celestiais, mas sim de luta política e militar, de guerra terrena, de batalha física, de revolta, conquista e ambição. Tal distorção era, aliás, o que havia tomado conta da teologia judaica sobre o Messias. Os judeus esperavam justamente um Messias político-militar, com uma frota de soldados fieis, que comandaria a destruição dos romanos e a libertação terrena de Israel. A militarização dos discípulos só faria consolidar esta ideia, dando ao evangelho a mesma significação que “revolta civil”, “revolução” e “luta armada”. Neste sentido, deixaria de ser uma fonte de salvação espiritual para ser meramente um movimento terreno por libertação efêmera. E um movimento desses, longe de criar gerar transformação interior e de ligar os homens intimamente a Deus, geraria lutas vis e homens que se uniriam ao movimento unicamente por razões terrenas e até egoístas. Talvez aqui deva-se enfatizar que esta foi a grande diferença entre o cristianismo e o islamismo em suas origens. Enquanto o cristianismo se inicou com missionários, interessados unicamente em pregar a salvação por meio do sacríficio de Cristo Jesus, o islamismo se iniciou com soldados interessados em coisas diversas. A diferença é notável.

Em suma, Jesus não queria que Pedro ou seus demais discípulos fossem soldados, mas missionários. A expansão da Igreja necessitava disso. Cristo necessitava de homens dispostos a abnegar até mesmo seus direitos mais básicos, como o da autoproteção e o da reação, a fim de unicamente anunciar o evangelho e manter intacto o caráter do mesmo. O contexto exigia isso. E ser missionário requer essa abnegação.

De tal fato não se pode depreender que todas as pessoas devem ser missionárias. Missionário, no senso estrito da palavra, é aquele que trabalha integralmente com o evangelho. Este é totalmente guiado pela missão evangelítica. Ele não pregará onde mora; morará onde precisa pregar. Ele não pregará para onde viaja; viajará para onde precisa pregar. Se precisar trabalhar, ele trabalhará para sustentar sua missão. Não pregará onde trabalha, trabalhará onde precisa pregar. O missionário estará pronto para abnegar todos os seus direitos/desejos se for necessário. Talvez o sonho de fazer faculdade, de ser juiz, de ir à Disney, de morar na Suíça, de ser rico, de casar, de ser um jogador de futebol. Ele não é mais um homem da sociedade. Ele é um ambulante, um peregrino, um nômade de futuro incerto que se movimenta em função de sua missão. O missionário é o oposto do homem cristão da sociedade, que desempenha a missão evangelística de acordo com as raízes que fincou na sociedade.

Ambos, no entanto, são importantes. O homem cristão da sociedade precisa existir justamente porque precisa compor a sociedade. A sociedade carece de cristãos espalhados por ela, com suas raízes fincadas, com suas relações na família, na vizinhança, na escola, no trabalho e etc. Nem só de nômades se faz o cristianismo. Além do mais, são os homens da sociedade que, com seu trabalho e sua fixidez social, financiam o trabalho do missionário. Para que haja missionário em tempo integral é necessário haver o cristão da sociedade. Para que haja recursos suficientes para a missão é necessário haver o cristão da sociedade. Repare que os discípulos tornaram-se nômades, mas as igrejas que plantavam em cada região eram feitas de cristãos da sociedade. Nem todo mundo nasceu para ser missionário. Nem todo mundo nasceu para ser cristão de sociedade. Cada qual tem sua importância nos planos de Deus. O evangelho deve ser pregado por ambos, mas as funções são distintas.

Aqui fica clara a distinção. O missionário, ao abnegar direitos dados ao cristão de sociedade, acaba por ter de abnegar também o uso de armas para autoproteção e reação. Como já dito, ele encontrou ali um contexto em que sua vida já não é mais prioridade. As armas tornam-se inconvenientes e o sacrifício, a única opção viável. Tal como ocorreu com Jesus.

Em suma, não há como utilizar o texto de Mateus 26:52 para sustentar que seria pecado buscar autoproteção ou reagir a agressões físicas. A passagem deve ser entendida dentro de seu contexto bem específico, no qual: (1) Pedro não deveria sacar sua arma naquele momento, pois Cristo necessitava morrer pelo ser humano; (2) os discípulos não deveriam parecer um grupo paramilitar, a fim de não distorcerem o caráter do evangelho, nem serem vistos pelo Império Romano como uma ameaça; (3) os discípulos não deveriam ser soldados, mas como missionários, abdicando de alguns direitos legítimos para pregar o evangelho intensa e integralmente, espalhando-o pelo mundo. Interpretar além disso é forçar o texto.

O cristão passivo pode tentar argumentar ainda com base em algumas ideias extraídas da Bíblia tais como: “O cristão deve ter fé em Deus e não em armas para protegê-lo”, ou ainda: “O cristão não deve agredir ninguém, mas amar”. Ora, essas ideias são distorções das Escrituras. Analisemos a primeira. Apela-se para a fé em Deus para protegê-lo. É óbvio que devemos ter fé em Deus sempre, mas isso não nos proíbe, tampouco nos exime de fazer a nossa parte. Se a fé em Deus nos desobrigasse de tomar medidas para nossa proteção, não faria sentido trancar a porta de casa com chave, ter extintor no carro, usar cinto de segurança, comprar um computador com garantia de fábrica, guardar pertences valiosos em um cofre, ir ao médico e etc. Na verdade, o próprio Jesus diz a Satanás: “Não tentarás o Senhor teu Deus”. E o texto bíblico que afirma: “Se o Senhor não guardar a cidade, em vão vigia a sentinela” (Salmo 127:1), não exclui a necessidade de um sentinela, embora ele nada possa se Deus não estender sua proteção. O mundo que Deus criou funciona por meio de leis naturais. Não devemos viver nele como se vigorasse a magia. Na vida real devemos fazer a nossa parte à todo o momento. Deus fará a dEle. Ter uma arma ou aprender artes marciais podem ser atitudes importantes para se proteger ou proteger a outros. Não há qualquer passagem bíblica que desabone esse tipo de conduta. Pelo contrário, trata-se de algo prudente. E Deus poderá salvar pessoas através disso, inclusive.

Quanto à segunda ideia, perceba que ela distorce o amor. É evidente que amar não implica permitir que coloquem em risco sua vida ou a vida de alguém ao redor. Imagine que você está andando na rua e encontra um sujeito tentando se aproveitar de sua filha. Qual será sua postura? Deixar que o sujeito abuse de sua filha, alegando que precisa amá-lo e não agredi-lo? Ou tentará salvar sua filha, apartando-o com sua força física ou algum instrumento de proteção? Tenho certeza de que sua postura será a segunda. Não é diferente quando se trata de nossa própria vida em jogo. É perfeitamente possível ser um cristão amoroso, perdoador e que ajuda ao próximo, mas, ao mesmo tempo, que reage quando sua vida ou a vida de pessoas ao seu redor está em perigo.

Enfatizo que toda essa reflexão se refere à autoproteção e não ao uso da violência como forma de vingança, justiça própria e retaliação. A Bíblia é bem clara ao dizer que não devemos nos vingar, no âmbito moral, pois a “vingança” pertence a Deus. E, no âmbito civil, também não devemos buscar justiça com as próprias mãos, pois cabe ao Estado julgar, através do corpo de leis vigentes e de juízes preparados para isso. O próprio princípio do Antigo Testamento “olho por olho, dente por dente”, não passava de uma regra jurídica aplicada apenas por juízes, após um julgamento formal, para determinados tipos de crimes – a saber, crimes de agressão física à inocentes ou falso testemunho (Êxodo 21:22-25, Levítico 24:19-20 e Deuteronômio 19:15-21). Aliás, a crítica de Jesus, no Sermão do Monte, ao princípio “olho por olho, dente por dente” não se referia a sua aplicação jurídica, a qual era legal, mas sim à sua aplicação no âmbito moral. Em outras palavras, muitos utilizavam o princípio como uma justificativa para odiar e retaliar, buscando vingança e justiça com as próprias mãos. Jesus, portanto, faz uma clara distinção entre princípio jurídico e princípio moral, estabelecendo que, no âmbito moral, o individuo deveria estar pronto para liberar perdão, e no âmbito jurídico, deveria deixar o julgamento e a punição à cargo dos juízes. Essa deve ser a postura cristã.

É curioso como que cristãos que sustentam a passividade gostam de pintar um “Jesus Cristo paz e amor” que jamais faria nada agressivo. Um colega chegou mesmo a me dizer, dia desses, que não conseguiria imaginar Jesus andando com uma Ak-47. Pois creio que esses cristãos nunca devem ter lido Apocalipse, por exemplo, que descreve Jesus voltando com uma espada que mata todos os ímpios da terra. A cena é simbólica, claro, mas o morticínio não. E a imagem utilizada para simbolizar essa terrível e gigantesca punição derradeira é justamente a de Jesus armado. Não com uma Ak-47, já que esse tipo de armamento não existia à época que João escreveu o Apocalipse. Mas com uma espada. Sim, a espada, a arma antiga, a arma utilizada pelos exércitos israelitas ao longo de todo o Antigo Testamento. A arma utilizada pelos discípulos enquanto andavam com Jesus. A arma com a qual todo o homem protegia a sua família de perigos. A arma que todo mundo tinha.

Demonizar a autoproteção e os meios com os quais pode-se torná-la efetiva não é uma postura que encontre base bíblica, tampouco lógica. Quando fazemos isso, encontramos inúmeras incoerências pela frente. Uma delas se refere ao próprio trabalho da polícia. Ora, se proteger e reagir são dois pecados e todos deveriam ser passivos em relação aos agressores, então todos os policiais estão em pecado. Sob essa interpretação, a atividade policial é, em si mesma, pecaminosa, imoral, anticristã, pois se baseia justamente em proteger e reagir. Posso imaginar um policial que tenha acabado de se tornar cristão e vê um homem agredindo fisicamente uma mulher. Ele corre para defendê-la, mas então se lembra: “Cristo me ensinou a não reagir”. Então, com a consciência tranquila, deixa que a mulher morra nas mãos de seu agressor. Será mesmo que foi isso que Cristo ensinou? Certamente não! E, sem dúvida, o raciocínio serve para qualquer cidadão. É dever do cristão estar disposto a reagir e proteger, sempre que a situação não requerer a passividade. Fugir a essa obrigação é ser covarde. E os covardes, como já dito, não herdarão o Reino dos Céus.

Concluímos, portanto, que não há absolutamente nenhum ponto na Bíblia em que seja proibido ao cristão buscar a autoproteção, reagir à agressões físicas e utilizar armas para isso. A questão das armas (e atualmente, das armas de fogo) não é uma discussão teológica, mas uma questão civil. A Bíblia não proíbe, como também não impõe, cabendo à sociedade julgar se deve possuir o direito de portar armas ou não.

Anúncios

Como seria um bom governo de direita? – Parte 4 (Final)

Winston Churchill – Primeiro Ministro Britânico em 1940-45 e 1951-55. Ícone do conservadorismo anglo-britânico, se posicionou veementemente contra o nazismo, o fascismo, o comunismo e a segunda guerra mundial.

Esta é a quarta e última parte da série “Como seria um bom governo de direita”. A proposta da série, como já dito, foi mostrar ao leitor idéias típicas do pensamento de direita que certamente fariam parte do programa de governo de um bom governo de direita.

Digo bom governo porque não basta um governo dizer-se de direita ou ser chamado de direita pelos adversários. Um bom governo de direita é, de fato, um governo que põe em prática aquilo que a ideologia direitista vem pregando há pelo menos dois séculos: governo limitado, com poucas funções; baixos e poucos impostos; leis rígidas contra criminosos; incentivo à iniciativa privada; pouca burocracia e regulamentações; liberdade individual e etc. Sendo assim, descrevi aqui algumas ações básicas que precisariam ser tomadas para que tais idéias se fizessem realidade.

Nesta última parte, mais alguns tópicos importantes para o pensamento de direita e as ações políticas que eles engendram. Os tópicos abordados, como já previsto na terceira parte serão: Individualismo, Estado Democrático de Direito, Discriminações e Religião. Comecemos, então, a exposição dos tópicos.

13) Individualismo

Se me pedissem para escolher uma ideia de direita que fosse capaz de definir e sintetizar todo o seu pensamento, eu provavelmente escolheria “descrença no homem”. Afinal, é a descrença no homem que faz a direita clamar por um governo limitado, temendo que o aumento de poder governamental acabe com a liberdade do indivíduo. Mas, se por um lado a descrença no homem é, para mim, a ideia que melhor sintetiza o pensamento de direita, por outro lado, acredito que o individualismo é o principal valor que define a direita. Porque, como já dito, é este valor que move a direita a desconfiar do ser humano e, consequentemente, do governo. É o medo de perder a sua liberdade e/ou de ver seus semelhantes perderem suas liberdades. É o medo de deixar de ser tratado como um indivíduo, para ser tratado como parte de uma classe qualquer homogênea e inimiga de alguma outra classe.

É justamente por isso que a direita é geralmente chamada de conservadora, reacionária e defensora do status quo. Porque, enquanto a esquerda, em seu eterno estado de destruição de pilares sociais, não vê mal em castrar a liberdade do indivíduo em prol de seu desejo utópico de transformar o mundo em um paraíso igualitário, a direita continua a conservar o princípio da liberdade individual. Assim, ela é vista como a ideologia dos monstros que não querem ajudar a mudar o mundo. São os conservadores da classe, da desigualdade, dos problemas sociais.

Mas a verdade é que a direita é a apenas uma ideologia política que entende o individualismo como um bem inalienável. É uma coluna da sociedade. Se a arrancamos fora, tudo o que construímos vai por água a baixo. A verdade é que a direita é cética quanto ao céu esquerdista. Ela sabe que todas as tentativas de fazer da terra um paraíso, o tornam um inferno. Exemplos empíricos não faltam. O partido jacobino matou mais de 40 mil pessoas no espaço de um ano, na revolução francesa. O nazismo matou mais de 40 milhões de pessoas. O comunismo matou mais de 100 milhões de almas. Tudo em prol da massa, da classe, da raça. Tudo em oposição ao direito individual.

O individualismo é, acima de tudo, uma defesa contra a tirania. Não devemos ser obrigados a fazer o que o governo quer. Devemos ser os donos de nossas próprias vidas. Nosso direito, desde que não afete diretamente o direito do outro, não deve ser refreado. Se abrimos mão deste princípio básico, damos margem para que o governo faça as escolhas por nós. E, definitivamente, isso não é bom.

Quando um direitista abre mão do individualismo, portanto, afasta-se da direita. Já não pode ser chamado de direitista, pois abandonou o princípio primordial da ideologia direitista. Gradualmente, todos os seus demais princípios serão destruídos, porque todos os outros, de algum modo se ligam a este.

Por esse motivo, um governo de direita, acima de tudo, sempre se guiará pelo individualismo. E a cultura que será formada em um bom governo de direita será uma cultura individualista. Não egoísta. Egoísmo é não se importar com os outros. Individualismo é respeitar o indivíduo. A si próprio e aos demais.

14) O Estado Democrático de Direito

O Estado Democrático de Direito é uma consequencia lógica de se adotar o individualismo. Se o respeito ao indivíduo é um princípio primordial para um governo e para uma cultura, esse mesmo governo não pode ser ditatorial, totalitário, unitarista. Individualismo e governo autoritário, centralizador, são duas coisas diametralmente opostas. Segue-se, portanto, que um governo genuinamente de direita, sempre será descentralizado, limitado e servo das leis. O autoritarismo, de modo nenhum é algo que pertença a ideologia de direita. O individualismo não o permite.

Isso pode gerar certa confusão no leitor. Afinal, muitos governos pelo mundo a fora foram definidos (e até auto-definidos) como de direita, embora tenham sido extremamente autoritários. O governo nacional socialista alemão, o governo fascista italiano e a ditadura militar brasileira são alguns exemplos clássicos.

Entretanto, todos esses regimes tiveram poucas ideias de direita aplicadas. O principal motivo pelo qual foram definidos como regimes de direita era que eles eram anti-marxistas. E para o senso comum, se um regime é contra o socialismo marxista (ou comunista), é de direita. Um grande equívoco, por certo. É perfeitamente possível ser anti-marxista e de esquerda. A esquerda não é só feita de marxistas. Há quem ache o marxismo utópico demais e até perigoso, sendo assim, contrário a ele. No entanto, a mesma pessoa pode querer um governo bastante intervencionista, inchado, com muitas funções, muitos serviços públicos e altíssimos impostos. Ou seja, ela é anti-marxista, mas é tão de esquerda quanto qualquer comunista.

Uma vez entendido isso, não há dúvidas de que os regimes citados jamais foram de direita. Pelo contrário, suas principais características eram de esquerda: a visão do Estado como um agente transformador do mundo, os altos impostos, as muitas empresas estatais, o foco na educação pública, o forte intervencionismo econômico, a visão classista de mundo, a definição de classes inimigas que se constituem os responsáveis pelo mal no mundo, a desvalorização do indivíduo… Tudo isso são características de esquerda e não de direita. E são justamente essas características que levam o regime a se tornar autoritário e centralizador.

Portanto, fica claro que um regime realmente de direita sempre terá um Estado Democrático de Direito. Este Estado é garantido pelos princípios do individualismo, do Estado limitado e descentralizado, do governo não interventor e com poucas funções e etc. Não há como descambar para o totalitarismo e o autoritarismo seguindo essa receita.

15) Discriminação

Há no código de Hamurabi uma lei civil que afirma: “Olho por olho, dente por dente”. A mesma frase foi utilizada por Moisés, na Bíblia, para resumir o princípio jurídico que iria reger a punição para determinados tipos de crime. Não era, como muitos pensam, um incentivo à vingança própria, mas um princípio a ser usado por juízes, em julgamentos e dentro das prerrogativas da lei civil.

Entretanto, desde que o mundo é mundo, muitas pessoas tem utilizado essa mentalidade como regra moral para a sua vida. Em outras palavras, se fulano errou comigo, eu tenho o direito de cometer o mesmo erro contra ele.

É justamente esta mentalidade que a esquerda adota, a partir de meados do século XX, para lidar com o problema das discriminações. Partindo de sua premissa classista, ela passa a colocar na cabeça das pessoas que “se a classe Y foi humilhada durante os séculos pela classe Z, então a classe Y está legitimada a dar o troco. E assim vencemos o preconceito”.

É, na verdade, uma questão de estratégia. Tendo compreendido que uma revolução proletária mundial só seria possível após uma intensa revolução cultural pelo mundo (através do qual se disseminaria o marxismo entre o “povão”), a esquerda marxista passou a ramificar o conceito de guerra de classes, criando uma série de sub antagonismos dentro da guerra principal entre burguesia e proletariado.

Surgem assim, o antagonismo brancos x negros, homens x mulheres, religiosos x antirreligiosos e, mais recentemente, heterossexuais e homossexuais. E rapidamente todas as vertentes da esquerda entendem que explorar o campo emocional das “classes oprimidas” e incentivar o ódio entre “oprimidos” e “opressores” é uma ótima estratégia para se conseguir poder.

Do ponto de vista da luta contra discriminação, no entanto, a mentalidade de esquerda só serve para intensificar todos os preconceitos enraizados na sociedade. Não se luta contra discriminações, discriminando. Isso é tão lógico que me ofende ter que explicar.

A essência do problema da discriminação é a criação de uma desigualdade cultural e legislativa entre dois grupos distintos, a legitimação dessa desigualdade e a exploração do ressentimento mútuo e a legitimação dessa desigualdade. Todas as discriminações que existiram ao longo da história apresentaram essa “fórmula mágica”. E tudo o que a esquerda tem feito hoje no que diz respeito à “luta contra discriminação” apresenta essa fórmula. Vai mudar alguma coisa? Não vai.

A ação da direita quanto à discriminação é muito mais lógica. Se há grupos discriminados, vamos trata-los de maneira estritamente igual. Nenhum é superior ao outro. Na verdade, sequer devem existem grupos aos olhos de um governo de direita e de uma cultura de direita. Um cidadão, para o governo, não é um negro, ou um branco, ou um homossexual, ou um hetero, ou uma mulher, ou um homem. É simplesmente um cidadão igual a qualquer outro e sujeito às mesmas leis. Qualquer tipo de discriminação deve ser punida da mesma forma: com rigor. Afinal, discriminar é quase sempre formar classes; e para a direita, formar classes é destruir o individualismo, o pilar da direita.

16) Religião

Julgo interessante fechar a série de tópicos que vimos durante essas quatro postagens com o tema religião. A visão que esquerda e direita apresentam de religião é dos um maiores divisores de águas entre os dois posicionamentos políticos, de forma que vale à pena citar como um bom governo de direita encararia a questão.

Não raro os esquerdistas associam a direita à religião e os direitistas ao fundamentalismo religioso. Em outras palavras, a direita seria um posicionamento político religioso por natureza. A associação é descabida. O real posicionamento da direita em relação á religião é apenas de respeito. Afinal de contas, a maioria das religiões prega o amor, a compaixão, a misericórdia e o perdão, que são sentimentos nobres. Desses sentimentos nobres pregados pelas religiões surgem diversas escolas, hospitais e instituições de caridade, financiados pelo dinheiro de fiéis que se preocupam em ajudar ao próximo. Não há como se negar a enorme contribuição humanitária que as religiões têm dado ao mundo.

Alguém poderia contestar, dizendo que a religião também causou muitas guerras. Mas isso é uma distorção dos fatos, típica de quem é de esquerda. Na imensa maioria dos casos, a causa da guerra não é a religião, mas o religioso, o que é bem diferente. A religião em si só é capaz de causar guerra se esta for a doutrina ensinada por ela. Mas alguém conhece alguma religião que nos ordene odiar o próximo, matar, torturar? Definitivamente esta não é a doutrina das principais religiões do mundo. Cristianismo, islamismo, judaísmo, budismo, espiritismo – todas essas religiões pregam o amor, a compaixão e a paz.

Agora, o homem tem livre arbítrio. Ele pode escolher se desviar dos princípios básicos da própria filosofia que segue. Tal é o caso de alguns religiosos, que se enveredam por caminhos criados por suas próprias interpretações delirantes, distorcendo suas religiões e agindo justamente de contrária ao que suas religiões pregam.

Então, para a direita, dificilmente, é a religião que causa guerras ou qualquer outro mal social como fome, discriminação, desigualdade e etc. Esses males são causados pela própria maldade inerente do ser humano. Culpar a religião é tentar tirar o erro das costas do homem.

Por esse motivo, a direita não vê problema em reconhecer a importância da religião no mundo, respeitando a existência da mesma. Isso está longe de significar que ser de direita é ser religioso ou que a direita é posicionamento político que tem a ver com religião.

Não obstante, a esquerda não entende o assunto dessa forma. Como para ela o mal não está no próprio ser humano, mas em algo externo, tudo o que religiosos fanáticos, ignorantes, loucos ou mal caráter fazem, é tido como culpa da religião. Assim, a religião seria uma grande pedra no sapato do mundo.

Esse é o princípio do posicionamento esquerdista. Mas é claro que nem todo o esquerdista é antirreligioso. Do ponto de vista estratégico, isso nem seria bom para a esquerda, pois perderia adeptos religiosos. Assim, o que a esquerda faz é se dividir em vertentes quanto à visão sobre religião. São três as vertentes, todas igualmente importantes para ela: a visão liberal, a visão sincretista e a visão antirreligiosa em si.

Todas essas vertentes visam enfraquecer as religiões de raízes judaico-cristã, visto que a moral judaico-cristã entre em conflito direto com os interesses dos esquerdistas mais radicais.

O resultado desse “antirreliogismo” de esquerda não poderia ser diferente: gera-se preconceitos e conflitos até onde não existia e a liberdade religiosa vai por água abaixo. E uma vez travada (ou reduzida) a liberdade religiosa, o governo tem o caminho aberto substituir o culto a Deus pelo culto ao Estado, ao governo, ao partido e ao líder. Foi o que aconteceu em todos os países que tiveram regimes comunistas e é o que acontece em grande parte das democracias ocidentais, embora de maneira camuflada e sem o uso de coerção física (ainda…). À pretexto de tornar o Estado “laico” (como se laico significasse “anti-religioso”) os esquerdistas tem avançado em limitar cada vez mais a expressão das religiões tradicionais e, consequentemente, tornando os Estados mais autoritários.

Aqui é possível entender que o respeito da direita pela religião existe não apenas pelo que a religião representa para a humanidade (independente se há alguma religião correta ou não), mas, sobretudo, porque não respeitá-la é tirar a autonomia do indivíduo e abrir caminho para um agigantamento do poder do Estado. Assim, um bom governo de direita, que realmente prezasse pelos seus princípios, jamais enveredaria por esse caminho. O respeito à religião aqui entra como respeito ao indivíduo. Não há negociação.

Conclusão

Eu tive dois objetivos básicos durante essa série. O primeiro foi fazer o leitor conhecer um pouco mais sobre as propostas de direita e o que a direita pensa sobre os principais temas políticos. A segunda foi deixar claro que na medida em que um governo se afasta dos princípios expostos nesta série, se afasta também da direita. Entender isso evita confusões como a de chamar o Nacional-Socialismo de regime de direita (o que é ridículo). Termino com um breve resumo das ações que vimos:

1)    Diminuição da interferência do governo na economia

2)    Redução da carga tributária e cortes em gastos públicos

3)    Modelo de financiamento público individual na educação

4)    Criação de concorrência no sistema público privado

5)    Endurecimento das leis civis e penais

6)    Privatizações

7)    Concessões de curto prazo

8)    Presídios terceirizados

9)    Abertura para empresas e produtos estrangeiros

10)  Evitar e combater crises através da pouca intervenção

11)  Proteção à natureza através do sistema de lotes

12)  Fim da Previdência Pública obrigatória

13)  Incentivo ao individualismo

14)  Incentivo ao Estado Democrático de Direito

15)  Combate às discriminações através da igualdade cultural e legal

16)  Respeito à religião

…………………………………………………………..

Links para as outras partes dessa série:

Como seria um bom governo de direita – Parte 1

Como seria um bom governo de direita – Parte 2

Como seria um bom governo de direita – Parte 3

Esquerda: uma religião política

Texto meu (Davi Caldas) originalmente publicado no blog Mundo Analista. Para ler o original, clique aqui.

Experimente tentar defender qualquer assunto relacionado ao cristianismo ou à moral judaico-cristã dentro de uma universidade. O resultado, fatalmente, será uma tempestade de críticas de teor bem agressivo. Essa tendência de se enxergar a religião tradicional como uma pedra no sapato do mundo, um empecilho à ciência, um gerador de guerras e um elemento opressor da humanidade não é algo novo, mas se expande em alta velocidade desde que os iluministas começaram acreditar que ser humano é um ser altamente evolutivo e de natureza boa, que é plenamente capaz de criar um paraíso na terra com suas próprias mãos.

Esta perspectiva de alta fé no ser humano, advinda do humanismo e propagada aos quatro ventos pelos iluministas é um dos pilares do pensamento de esquerda (senão, o pilar). E, não é difícil observar como que essa perspectiva entra facilmente em oposição ao pensamento da religião tradicional. Afinal, o que se faz aqui é substituir a fé em um Deus supremo e bom, dono de toda a moral e que promete um mundo novo, pelo ser humano (sempre representado por uma classe específica de seres humanos), que também passa a ser supremo e bom, dono de toda a moral e que promete um mundo novo.

Então, o que vemos aqui é que a disseminação dessa fé descomunal no homem pelos iluministas acarretou em algo muito mais perigoso e letal do que poderia se tornar qualquer religião tradicional: a religião política (mais conhecida como esquerda). Essa religião, diferente da religião tradicional, jamais culpará a natureza do ser humano pelos problemas do mundo. No lugar disso, ela definirá bodes expiatórios que possam levar a culpa de toda a desgraça humana nas costas, e instigará o ódio a esses “culpados”, legi-timando todo o tipo de ação contra eles.

Para se ter ideia do quão perigosa é essa postura, só precisamos observar o que a religião política tem feito ao longo de sua história. Vamos utilizar dois exemplos bem conhecidos. O primeiro é o do comunismo, uma das várias vertentes da esquerda. O que o comunismo prega? Bem, segundo Karl Marx e Friedrich Engels (os fundadores da teoria), a história de toda a sociedade até hoje é a história de lutas de classes. Essas lutas teriam ocorrido desde o início da humanidade entre “homem livre e escravo, patrício e plebeu, barão e servo, mestres e companheiros, numa palavra, opressores e oprimidos”; e agora, estaria alcançando o seu apogeu com a burguesia e o proletariado.

Baseado nisso, o pensamento comunista entende que a culpa da sociedade ser desigual e viver em desarmonia é da burguesia. Afinal, é a burguesia que toma conta dos meios de produção e suga todo o lucro do trabalho do proletariado, que é formado pela maior parte da população. Assim, a riqueza da minoria depende da miséria da maioria. Como é na desigualdade que residem os males, o comunismo sustenta que a sociedade deixará de ser cruel quando o proletariado destruir a burguesia; não havendo mais antagonismos de classes, não haverá luta e não havendo luta, a sociedade será finalmente igual e pacífica (sem necessitar mais de Estado, inclusive).

Veja como todos os elementos da religião política são dispostos cuidadosamente na teoria de Marx e Engels:

(1) defini-se que o mal da sociedade não está na natureza humana;

(2) busca-se um bode expiatório para pôr a culpa desse mal (a burguesia);

(3) instiga-se o ódio aos “culpados”, pois eles não deixam o paraíso ser formado;

(4) legitima-se toda e qualquer ação contra os “culpados”, em prol de um bem maior e supremo, que será alcançado quando eles forem eliminados.

E qual foi a consequência desse pensamento, obviamente, utópico? Genocídios imensos causados pela União Soviética (de Lênin e Stálin), Camboja (de Pol Pot), China (de Mao Tsé Tung), Cuba (de Fidel Castro), além de terríveis perseguições, totalitarismo, opressão do povo e, finalmente, a não concretização do tal paraíso. Isso, claro, porque o mal reside no ser humano como um todo e não na burguesia.

O segundo exemplo vem do Nacional Socialismo alemão (que é chamado erroneamente de extrema-direita só porque foi anticomunista). Para Hitler, o problema do mundo não estava na natureza humana, mas sim nas “raças” e pessoas “inferiores”. O ser humano realmente bom, supremo, capaz, racional e evoluído era o homem ariano. Os demais eram apenas desviantes biológicos, que deveriam ser destruídos para que a terra retornasse ao seu rumo correto.

Mais uma vez é claro o uso das ideias da religião política (esquerda), baseada no humanismo. A única diferença do nazismo para o comunismo é que no lugar de culpar a burguesia, o nazismo culpou quem não era ariano. E o resultado? Milhões de judeus, negros, homossexuais e deficientes foram exterminados, e o extermínio, legitimado pela ideologia da religião política.

O grande problema da religião política é que ela encara o homem como Deus e culpa quem ela quer pelos problemas. Por isso qualquer ação pode ser legitimada. Ora, se um cristão faz algo ruim, como agredir um adversário, ele não é legitimado pela sua religião, pois a religião tradicional diz: “Ame o próximo” (Tiago 2:8); “todos são pecadores” (Romanos 3:9); “não há um justo sequer” (Romanos 3:10); “a vingança a Deus pertence” (Romanos 12:19); “quem nunca cometeu pecado (ou seja, ninguém) que atire a primeira pedra” (João 8:7). Ele está errado. A religião tradicional condena sua atitude. Deus condena sua atitude.

Mas se um religioso político agride um cristão, por exemplo, ele está certo. Está legitimado. Sob o esquerdista não pesa nenhuma culpa e ele não deve ser recriminado, afinal, ele está dando ao “culpado” pelos problemas do mundo o devido tratamento. O homem é o próprio Deus e por isso está sempre certo.

Por esse motivo é que podemos dizer que a religião política é a mais perigosa das religiões. Ela induz as pessoas a fazerem coisas irracionais como:

(1) depositar sua confiança em grandes líderes (isso também ocorre na religião tradicional, mas não por indução da Bíblia, pois ela deixa claro: “Maldito o homem que confia no homem” – Jeremias 17:5 – além de ensinar que só devemos acreditar em quem age conforme os princípios marais judaico-cristãos);

(2) crer que fazem parte de uma grande revolução que levará a humanidade a um paraíso na terra;

(3) criar bodes expiatórios para os problemas da humanidade e odiá-los;

(4) legitimar toda e qualquer ação contra esses bodes.

E não pensemos que agora, em pleno século XXI, estamos livres das ações da religião política. Como Adolf Hitler costumava dizer: “Uma mentira repetida mil vezes se torna uma verdade”. As inúmeras mentiras da religião política estão por aí, moldando a cabeça das pessoas; sobretudo, nas universidades. Lá, boa parte dos professores é hostil ao cristianismo por crer na religião política e desejar que o ser humano possa ter a mesma autoridade e direito sobre as coisas que tem Deus na religião tradicional.

Mas quem questiona isso? O amigo leitor conhece muitas pessoas que critiquem a religião política com a mesma intensidade com que os religiosos políticos criticam a religião tradicional? Tenho certeza que não. A religião do momento é a religião política e enquanto ela estiver dominando a área acadêmica sem questionamentos (como tem sido), continuará espalhando suas mentiras genocidas. Lembre-se: o ser humano é Deus na religião política. O que quer que a esquerda queira fazer, será legitimada em todo o tempo por essa concepção.

A maldição do bem comum

Por Fábio Blanco. Artigo originalmente publicado no blog Discursos de Cadeira.
Para ler o artigo original, clique aqui.

A Terra dos Ancestrais Esquecidos. Óleo sobre tela de Alla Bartoshchuk em homenagem aos 77 anos do Holodomor em 2010. A pintura é um tributo às 7 milhões de vítimas ucranianas do regime de Stalin, que pereceram no massacre.

O bem se encontra no indivíduo. Nele reside a verdade. Não há nada de real no que é comum, senão a convenção. E esta, invariavelmente, se apresenta como a junção de desejos egoístas e interesses pessoais. Se a verdade apenas pode ser encontrada após um sincero e penoso esforço, não seria uma ilusão esperar que a multidão a possuísse? Por que, então, ainda esperar que algo de bom surgisse do coletivo?

O bem comum é uma maldição e sempre foi homicida. Quando Caifás exclama que convém que morra um só homem pelo povo e que não venha a perecer toda a nação, a maldição sobrepôs-se sobre eles; mataram o próprio Deus e a nação pereceu. Mas a afirmação do sumo sacerdote apenas foi aceita porque fingia preservar a todos. Talvez fosse sincera, provavelmente fruto do zelo sacerdotal. Seu pecado, no entanto, reside no fato de ter como o sentido último da verdade a manutenção da convenção, no caso, uma sociedade sacerdotal montada sobre os desejos humanos, já não correspondentes ao ideal divino há muito prescrito.

Bem mais tarde, vêm os iluministas e seus contratos sociais. Quem é o indivíduo, então, para eles, senão um aglomerado de gente que pode estar do lado dos que detém o poder ou, simplesmente, ser os seus inimigos. Estes, empecilho que eram para o desenvolvimento da nação, obstáculos para o fortalecimento da Razão, verteram seu sangue abundantemente. Milhares de almas sacrificadas em favor de uma ideia que cria-se melhor para todos.

O que não dizer dos Estados coletivistas, criados sobre fundamentos socialistas? Estas nações que, alegando o bem comum e a necessidade do comunismo, sufocaram a individualidade, condenando-a a ser apenas um instrumento do governo? Quem era o homem no socialismo estatal senão um braço ou um corpo servil em prol de uma ideologia que jamais tratou o indivíduo como algo relevante. Tudo para a o Estado, e para seu cidadão apenas o direito de ser seu escravo. Por isso, a morte de milhões, seja na União Soviética, seja na China, não passa de uma necessidade em favor daquilo que trará o bem para todos.

O bem comum despreza a verdade. Isso porque a verdade não pode ser encontrada nos movimentos coletivos. A verdade é encontrada como fruto do esforço de cada homem, do mergulho sincero e laborioso na busca de compreender as razões que se colocam sobre e além da confusão da vista comum. Por isso, é impossível que os povos a descubram. Por isso, toda a decisão baseada unicamente no bem comum está condenada ao erro.

O bem comum despreza o indivíduo. No entanto, Deus se relaciona com indivíduos. Também Cristo afirma a sua importância, quando conta-nos as parábolas da ovelha e da dracma perdidas. São as almas individuais que são julgadas, não os Estados, não as nações. O céu e o inferno são destinos para os homens, não para os países. Quando o bem comum é o fundamento das decisões, quem responderá pelas mazelas causadas. Se a busca é pelo que é melhor para todos, como condenar os que praticam os atos homicidas?

Todas as guerras, morticínios, genocídios e assasinatos estatais foram decididos e aceitos por todos com base no bem comum. Porém, quem deve ser julgados por eles? Apenas Stálin, apenas Mao, apenas Napoleão? E todos aqueles que executaram suas ordens, que promoveram esses malditos atos sem sequer ter suas consciências amortecidas afetadas, estão eles livres de suas culpas, simplesmente porque acreditaram fazer tudo em favor do bem comum? Não sei. O que vejo é que essa maldição faz isso mesmo: exime o indivíduo de sua responsabilidade, transferindo-a para um ente fictício chamado Estado, em prol de algo inatacável segundo seus preceitos: o melhor para todos.

Por isso, o bem comum é a maior arma da tirania. Sempre foi e continuará sendo usada para impor sobre os homens a vontade dos poderosos, hipnotizando as consciências, fazendo-as crer que seus atos são justificáveis quando buscarem o melhor para a coletividade.

Por que eu não sou um neo-ateu

Alguns ficam confusos com a minha posição quanto à religião. Alguns chegam a pensar que sou católico e quando digo que sou ateu se assustam. Isto porque não me engajo em militância ateísta, não me identifico com os “neo-ateus” e acho a antirreligião uma babaquice que vai contra os princípios de liberdade individual ao culto, à associação e à expressão.

Sou um ateu despreocupado. Não me preocupo se as pessoas adoram Javé, Allah, ou Iansã. Isto não é relevante para mim. Deuses não são relevantes para mim. Eu os desconsidero em toda e qualquer atividade cotidiana da minha vida. Penso que a religião é um hábito, uma tradição da maioria das pessoas, embora hajam aqueles que de fato tenham e vivam a fé.

Tive minha fase de contestação da religião e de “neo-ateísmo”, mas nunca tive uma oposição forte à “rebeldia” inicial por causa da educação que minha mãe, descrente, me deu. Por isso acho muito infantil o modo como se portam hoje ateus de mais de 20 anos na cara que parecem pré-adolescentes com oxiúros. Por isso listei dez razões para que você, ateu level 1, não seja um neo-ateu por muito tempo.

1. Ateísmo não é diploma
Descobriu que é ateu ontem? Ótimo. Não precisa usar as palavras “lógica”, “razão” e “argumento” cinco vezes por frase. O fato de ser ateu não te faz mais inteligente, melhor informado ou maior conhecedor da ciência. Na verdade, grandes gênios da humanidade foram crentes até o final de suas vidas e grandes nomes da ciência hoje continuam sendo crentes. Considere que ateísmo, apesar de não ser recente, é uma filosofia minoritária entre as pessoas. A maioria das pessoas é crente e não deixa de desenvolver habilidades fantásticas por causa disso.

O grande problema dos neo-ateus é justamente o proselitismo. A maioria está recém se descobrindo como ateu e precisa se afirmar de um jeito ou de outro. O resultado é um púbere falando besteira e ofendendo os outros porque acha que é um iluminado que descobriu a verdade.

2. Religião não é doença
O neo-ateu acha que foi milagrosamente curado, e acredita que deve curar os outros “doentes”. Insiste que a religião é um mal no mundo e que ela precisa ser eliminada. Na sua cabeça, a religião é instrumento de poder, de dominação, de enganação, etc.

Iludido pela novidade, embarca numa verdadeira pregação do Devangelho. É um dever moral fazer o maior número possível de desconversões.

Não sabe portanto que a religião nunca foi o mal, e sim a repressão religiosa. Repressão religiosa é feita de religião para religião e de ideologias políticas para religiões em geral. Quando sustentamos que a religião é um mal a ser eliminado, estamos perpetuando justamente a repressão religiosa.

3. Ignorância não é força
Caindo na ilusão de que tudo que é contra a religião é “científico”, o neo-ateu pensa que crer em figuras do “ateísmo” é um tipo de ceticismo ou livre pensamento. Repete ipsis literis as besteiras de Sam Harris e Richard Dawkins sem considerar se estas pessoas estão habilitadas para discutir o assunto ou se o que dizem é lógico e faz sentido. Acreditar no que diz Dawkins sobre Teologia é como acreditar no que diz Craig sobre zoologia. Ambos podem emitir opinião sobre o assunto, mas nenhum está qualificado para discuti-lo com propriedade. Dawkins é um excelente zoólogo, e só isso.

 

Para deixar o estado de credulidade do neo-ateu, é necessário que ele entenda que o ateísmo é uma postura filosófica como as outras, que precisa ser estudada se pretende levá-la à sério. Não se pode discutir religião sem entender religião. E entendê-las não através de esteriótipos desenhados por aqueles que as atacam. Sem conhecer os argumentos do outro lado, jamais se pode ter segurança e convicção da própria posição, mas sim uma opinião escorada na credulidade, como a de um crente fanático  sem conhecimento da própria doutrina religiosa.

É mais fácil ler críticas contundentes à religião em autores que escreveram há séculos como Locke, Paine e Mill, ou até religiosos como Erasmo de Roterdã, do que nos livros de comédia e ficção de nova seita antiteísta.

4. Antiteísmo não é ateísmo
Chame como quiser: neo-ateísmo, ateísmo militante, humanismo secular, fundamentalismo ateu, etc. Antiteísmo não é ateísmo. Ateísmo, com prefixo -a-, indica uma ausência: ausência de crença, de religião, de deus ou deuses. Um ateu não acredita que deuses existem (ou acredita que deuses não existem, dá na mesma), e não segue religião teísta alguma. É só isso. Ateísmo acaba aí.

O único mandamento ateu: não seja um c*zão.

Hoje em dia pouca gente pensa nisso, mas um ateu poderia acreditar em espíritos, forças sobrenaturais e planos não-materiais. É suficiente para ser ateu que não se acredite em divindades. Nada impede a existência de um espiritismo ateu, por exemplo. De fato, existem até religiões ateístas como o positivismo (religião da humanidade), o humanismo, a cientologia, etc.

Antiteísmo é oposição às religiões teístas e ao pensamento teísta. Na prática, significa que o antiteísta acredita que a religião e a crença em deuses são um mal a ser eliminado. O antiteísmo é portanto tão intrusivo quanto uma religião expansionista, já que busca a conversão. Ou, neste caso, a “desconversão”.

5. Se fosse para pregar, eu seria crente
O antiteísta não se contenta em pregar que a religião é nociva e (des)converter os outros para a sua seita. O neo-ateu também se congrega em igrejas, virtuais ou não. Eles se juntam em congregações como a ATEA, a Liga Humanista Secular, etc.

Se fosse para pregar, ter liturgia, ir numa congregação e ter discurso oficial, eu seria crente. Qual o sentido de se congregar em torno de uma descrença? É como juntar pessoas num clube de não-torcedores do Flamengo, ou numa associação de não-moradores da Vila Cruzeiro. É óbvio que as associações se dão em razão de características comuns e positivas: torcedores do Flamengo e moradores da Vila Cruzeiro. Anticomunistas se associam, antifascistas se associam, anticapitalistas se associam. No caso dos neo-ateus, são antiteístas e antirreligiosos se associando em prol de uma doutrina política antirreligiosa.

O que não falta é religião ateísta. Desde as mais respeitáveis e milenares como Budismo, Taoísmo e Confucianismo às mais recentes e cientificistas Religião da Humanidade, Culto da Razão, Cientologia, etc. É inevitável: quanto mais ateus dogmatizam o próprio pensamento para combater religiões e quanto mais incentivam o “ateísmo organizado”, mais os “ateus” entram em esquemas prontos que formatam seu pensamento numa doutrina religiosa. Se religião fosse um problema, antiteísmo não teria virado uma.

6. O antiteísmo tem um passado imundo (e um presente também)
Toda perseguição religiosa trouxe efeitos devastadores  quando tomou o poder político. Da Guerra Cristera provocada por Plutarco Elías Calles no México aos verdadeiros massacres cometidos na União Soviética, na China, na Albânia e em todo lugar onde o comunismo se instalou ou tentou se instalar, podemos tirar a lição de que o sectarismo ateu não é menos nocivo que o religioso.

Se neo-ateus acham que podem julgar cristãos por causa das Cruzadas ou da Inquisição, desconhecem que a militância ateísta fez coisa semelhante em lugares onde crentes foram fuzilados e a religião, proibida.

Palden Choetso, monja budista, suicida-se por auto-imolação em protesto contra a repressão religiosa e a ocupação chinesa no Tibet. Protestos deste tipo são frequentes, mas pouco reportados pela mídia.

É difícil calcular quantas foram as mortes decorrentes da repressão à religião. Mas podemos citar alguns eventos desagradáveis decorrentes dela:

  • A Guerra Cristera provocada por Plutarco Elías Calles, que matou mais de 30 mil cristeros e 50 mil soldados federais.
  • O massacre de religiosos pelos republicanos espanhóis durante a Guerra Civil Espanhola que totaliza umas 6,8 mil pessoas.
  • Campanhas de “reeducação” e campanhas “anti-reacionárias” do Partido Comunista Chinês durante o governo de Mao Zedong. Um exemplo é a Revolução Cultural que matou cerca de 500 mil pessoas, o que inclui muitos religiosos já que a China era e é um Estado Ateu.
  • Os expurgos socialistas na Mongólia para erradicar o Lamaísmo, que custaram entre 30 mil e 35 mil vidas.
  • A repressão religiosa do governo de Enver Hoxha na Albânia.
  • A repressão comunista no Camboja, que mandou para os campos da morte  Chams (cambojanos muçulmanos), cambojanos cristãos e monges budistas.
  • As campanhas antirreligiosas da União Soviética de 1917-1921, de 1921-1928, 1928-1941, de 1958-1964, e de 1970-1990, cujo número de vítimas não é conhecido.
  • A completa repressão religiosa na Coréia do Norte, que impôs o culto ateísta ao Estado (Juche).
  • A repressão religiosa por Estados Ateus como a República Popular da China, o Laos, o Vietnã, e a Coréia do Norte, que resiste até hoje.

7. O neo-ateísmo desrespeita a liberdade de pensamento
Longe de ser um grupo aberto ao diálogo, os neo-ateus são combativos e desrespeitosos. Não admitem diálogo: para eles a religião é uma enganação, e um mal a ser extirpado.

Nesta posição, sua reação é o fechamento ao debate. As verdades estão evidentes e as peças estão dispostas no tabuleiro: de um lado os religiosos fanáticos, do outro os iluminados defensores da razão e da ciência. Incapaz de um diálogo interreligioso, ele resume sua linguagem à mera afronta à doutrina religiosa que escarnece. Não dialoga: xinga; não argumenta: faz deboche; não aceita negociação: ou você está do lado da razão ou você é um crente que precisa ser desiludido.

Não havendo espaço para diálogo, o objetivo dele é um só: calar a boca dos crentes. Ele quer que retirem as cruzes dos tribunais, que retirem a palavra “Deus” da Constituição e das notas de real, que se acabe com o ensino religioso, que se proíba os crentes de manifestar publicamente a fé ou divulgar as suas opiniões e a sua ideologia na mídia. Combatem, assim, não só a liberdade de culto como também a liberdade de expressão.

8. Darwin não é deus e ciência não é religião
A mentira mais repetida por e para neo-ateus é que religião é inimiga da ciência. É claro, se você fingir que a comunidade científica ocidental não nasceu dentro da Igreja Católica e que todo o sistema universitário ocidental não é baseado num modelo acadêmico estabelecido pela Igreja.

Outra idiotice é militar pelo evolucionismo como se fosse a corporificação da ciência e da razão. Uma teoria científica, válida hoje, pode estar refutada amanhã. O que farão se o evolucionismo for posto em cheque? Admitirão que militavam por uma mentira ou vão cair na real, que não existem “fatos científicos”, verdades incontestáveis? Outra é atacar ad nauseam o criacionismo como se todo cristão fizesse interpretação literal do Gênesis, e esquecendo que quem formulou a teoria do Big Bang era um padre. Um indivíduo pode perfeitamente ser crente e lidar com ciências sem problemas.

Típicos crentes anti-ciência: Pascal, Descartes, Newton, Mendel, Faraday, Lamaître e Schrödinger.

O pior não é ver alguém militar pelo “evolucionismo”, mas ver que o mesmo sujeito não entende a Teoria da Evolução: diz que “animais passam por mutações” ou que “o homem descende do macaco”. Para piorar, louva este ou aquele cientista e sua teoria como se fossem santos e padroeiros da ciência. Darwin, Newton e Einstein foram importantes, mas fazer desta pessoas e de deturpações de suas teorias uma bandeira de militância é idiota, deturpa a visão das pessoas da ciência, tornando-a cada vez mais impopular entre crentes.

Por fim, o cientificismo. A idéia idiota de derivar padrões morais da ciência. A ciência, assim como a filosofia e a religião, tem um escopo, um campo limitado de atuação. Ciência serve para descobrirmos coisas novas e acumular conhecimento, e não ditar como devemos empregar o conhecimento. Podemos usar energia nuclear para iluminar cidades inteiras ou para fazer armas de destruição em massa. O que determina o que fazer com os avanços científicos depende de um padrão moral extrínseco à ciência: vem de uma doutrina política, filosófica ou religiosa.

9. O ateísmo não propõe coisa alguma
Você propõe alguma coisa? Fale por si. O ateísmo não propõe coisa alguma. Ateísmo é não acreditar em deuses e religiões teístas. Ponto. Qualquer coisa além disso é parte de uma doutrina, ideologia e filosofia pessoal sua. Não existe medida científica para o bem e o mal e não vai ser você quem vai inventar.

Se você defende a política X ou Y, você fala de um conjunto de idéias políticas suas. Ateísmo é outra coisa.

10. O antiteísmo sabota a causa da razão.
Qual o sentido de difamar algo que não existe? Que tipo de pessoa escreve livros, faz vídeos e dá palestras para criticar algo que não existe? Das duas uma: ou esta pessoa quer ganhar dinheiro de trouxas, ou ela está conduzindo uma cruzada contra a lógica. Você conhece alguém que escreve livros ou faz vídeos para contestar a existência de duendes, de fadas do dente, do coelhinho da páscoa ou do papai noel? Então porque seria menos ridículo alguém que escreve para contestar a existência de deuses ou espíritos?

Dentre os males causados pelo neo-ateísmo, podemos mencionar:

  • Emperra o diálogo interreligioso.
  • Inculca nos crentes o ódio pela ciência, em vez de estimular a sua apreciação.
  • Deturpa as ciências pela propagação de versões caricaturizadas de teorias científicas.
  • Cria um tumulto em torno de um ente que não existe, provocando mais militância de ambos os lados.
  • Desvia o foco do estudo das ciências de questões mais proveitosas para questões que tem pouca aplicação prática.
  • Pseudoceticismo: fomenta a blindagem cerebral ao aceitar credulamente qualquer coisa com o rótulo de “científica” e ao rejeitar qualquer coisa com o rótulo de “religiosa”.
  • Dogmafobia. O medo de ter princípios morais  e fazer o julgamento da realidade com base em princípios, em vez de fins. O resultado é que o sujeito ataca qualquer coisa “moral” e defenderá qualquer coisa imoral que tenha a pecha de “científica”.
  • Tornar-se um pé no saco. O sujeito começa a evitar igrejas, grupos de amigos, foge quando alguém reza antes do almoço, critica até a avó porque ela lê a Bíblia, quer discutir com pastor, etc.

Conclusão:
Se você ainda está na fase de contestar os dogmas, mitos e tradições religiosas da sua sociedade para afirmar-se, esqueça esta militância. O ateísmo não é um fenômeno novo, não apresenta nenhum tipo de avanço ou progresso da sociedade moderna. É mais provável que ele seja anterior a qualquer religião que tenha existido, e é portanto mais antigo do que qualquer tradição religiosa. Não se preocupe em desconverter as pessoas, preocupe-se em transmitir os valores que tornam a sociedade melhor: a tolerância, o diálogo, a liberdade individual, a liberdade de expressão. As verdades, “científicas” ou não, cedo ou tarde vão sendo descobertas.


Gostou do conteúdo? Deixe uma gorjeta:
Donate with PayPal

Sete razões para não temer os muçulmanos

Nota de 27/01/2017: Este artigo foi escrito 4 ou 5 anos ANTES da crise migratória européia (2016-?) e, portanto, não leva em consideração a imigração massiva de países muçulmanos para a Europa. A assimilação pacífica da comunidade muçulmana aos países europeus e americanos só foi possível em séculos anteriores porque esta migração se dava de maneira individual e paulatina, não massiva e repentina como vem ocorrendo nos últimos anos. Sobre o caráter islâmico (ou não) do terrorismo, o autor em breve publicará uma revisão deste artigo.


1 – O terrorismo “islâmico” não existe
Yuri Bezmenov, dissidente do serviço secreto soviético, já explicava isso décadas atrás: “Believe me please, there was no grass, no root, no revolution, and least of all Islam. There is no such thing as an Islamic revolution. Revolution has nothing to do with Islam. There is no such thing as Islamic terrorists. (Em negrito: “Não há revolução islâmica. Revolução não tem nada a ver com Islã. Não existem terroristas islâmicos.”)

Diversos líderes de movimentos africanos, indianos, árabes e sul-americanos de “libertação nacional” foram treinados por oficiais da própria KGB (no caso dos sul-americanos, em Cuba) em seus centros de formação de líderes políticos durante a Guerra Fria. Eestes mesmos líderes levaram adiante guerras civis, golpes e revoluções armadas de todo tipo a seus países de origem para desestabilizar os regimes e, se possível, instalar um governo socialista alinhado com o Kremlin.

Hoje, membros destes mesmos grupos “islâmicos” operam redes internacionais de terrorismo. Portanto, é mais fácil traçar a origem dos terroristas “islâmicos” até a KGB ou a CIA do que ao Corão.

2 – Religião islâmica e lei islâmica não são sinônimos
Dos aproximadamente cinquenta Estados de população majoritariamente islâmica, apenas 6 são Estados islâmicos. E destes seis, dois são aliados dos EUA (Arábia Saudita e Paquistão). Outros doze tem o islamismo como religião oficial. Vinte são Estados seculares.

Dos estados do mundo, cerca de 14 adotam leis religiosas. Dentre estes, os mais conhecidos são o Irã, a Arábia Saudita, o Iêmen e o Vaticano. O mais poderoso destes, em relação ao Oriente Médio e toda a Liga Árabe, é a Arábia Saudita, país que mantém sólidas relações comerciais e diplomáticas com os EUA.

3 – Muçulmanos são tão diversos quanto os cristãos
Assim como entre os cristãos, há diferentes denominações muçulmanas.

A maior delas é o Sunni (sunitas). É considerada a versão “ortodoxa” da religião. Os sunitas acreditam que após a morte de Maomé, o novo líder religioso seria eleito e não um descendente, parente ou indicado do profeta Maomé. Possui quatro escolas de pensamento: Hanafi, Maliki, Shafi’i e Hanbali. Há uma quinta, ultra-ordoxa, a Wahabbi.

Os sunitas acreditam na autoridade religiosa da razão e da legalidade.

Os xiitas são a segunda maior denominação muçulmana. Compoem de 10 a 20% da população muçulmana mundial. Creem na infalibilidade do Imam (seu líder religioso) – descendente de Ali, o sucessor de Maomé na liderança dos muçulmanos.

Os xiitas acreditam na autoridade religiosa hereditária e divina.

Além dos sunitas e xiitas, há os sufis, os ahmadiyya, os ibadi, os coranistas, etc.
Some a isso as culturas locais de povos que vão desde os africanos do Mali até os indonésios passando pelos turcos, persas e uigures.

Diferenças entre culturas: tártaras em trajes típicos, uma albanesa votando e iranianas comprando cosméticos e maquiagens.

4 – Os muçulmanos são bons de negócio

Reformas: Metade das economias no mundo árabe reformaram suas regulamentações em termos de negócio nos anos de 2009 e 2010, mais do que na América Latina e no Caribe.[1]

Liberdade econômica: De acordo com o ranking da Heritage de liberdade econômica, Irã, Turcomenistão, Mauritânia, Iêmen, Indonésia, Marrocos, Jordânia e Catar apresentaram melhorias.

Bahrain e Catar fazem parte dos países majoritariamente livres (score entre 79.9 e 70)

Jordânia, Cazaquistão, Kuwait, Turquia, Marrocos, Quirguistão, Malta, Arábia Saudita e Líbano fazem parte dos países moderadamente livres (grupo que inclui Israel, Coréia do Sul e África do Sul).

Azerbaijão, Egito, Tunísia, Iêmen, Paquistão, Tadjiquistão, Bangladesh, Mauritânia, Indonésia e Mali se encontram no grupo majoritariamente reprimido. Fazem parte deste grupo membros do BRIC (Brasil, Índia, Rússia e China).[2]

Desenvolvimento econômico: A Liga Árabe, composta por países muçulmanos em maioria, é a 6ª organização com maior PIB, estando à frente da Rússia. Em termos de PIB per capita, está à frente da China e da Índia. A mesma mantém relações comerciais com a União Africana, a União Européia, os Estados Unidos, a China e a UNASUL.

Direitos de propriedade: Com relação à defesa dos direitos de propriedade, os países do norte da África e do Oriente Médio (muçulmanos em sua maioria) estão melhores do que a América Latina e Caribe. De acordo com o International Property Rights Index de 2011, a região Norte da Áfica e Oriente Médio tem uma média de 5.7, superando os 5 pontos da América Latina e Caribe.[4]

Comparando-se o PIB per capita, o “mundo islâmico” não se sai tão mal quando comparado com os países do BRIC:

Os países mais próximos do roxo são os com o mair PIB per capita. Em comparação com os BRICS, o mundo islâmico não está muito atrasado, inclusive contando com membros excepcionais que se aproximam mais dos níveis europeus.

Com relação ao IDH, muitos países tipicamente muçulmanos são mais desenvolvidos do que os tais BRICs. A Rússia é o membro do BRIC com o maior IDH (0.755), e está atrás da Líbia (0.760) que é o 6º país muçulmano num ranking de IDH. À frente da Líbia ainda está o Kuwait, a Arábia Saudita, o Bahrain, o Catar e o mais desenvolvido deles, os Emirados Árabes Unidos com invejáveis 0.855. Para se ter uma idéia, o IDH do Brasil (2º entre os BRICs) é de 0.718 e o da Índia (menor entre os BRICs) é de 0.547. [5]

Vale lembrar que um dos maiores parceiros comerciais dos EUA no mercado de Petróleo é a Arábia Saudita. [6]

5 – Judaísmo, cristianismo e islamismo são parentes
Judaísmo, cristianismo e islamismo fazem parte de um mesmo grupo de doutrinas religiosas. São as chamadas religiões abrâmicas (relativo a Abraão). Abraão é o profeta que “faz a liga” entre estas três religiões.

Ainda que elas tenham grandes diferenças entre si, há também pontos em comum. O deus, por exemplo, é o mesmo. O deus dos judeus é o mesmo deus dos cristãos e o mesmo deus dos muçulmanos. A palavra “Allah” vem do árabe e significa simplesmente “deus”.

Abraão. Pintura de József Molnár.

Basicamente, os muçulmanos não afirmam que judaísmo ou cristianismo são religiões falsas. Na concepção muçulmana, estas religiões estão ligadas ao islamismo. Os muçulmanos usam a expressão “adeptos do livro” ou “seguidores do livro” para referir-se a judeus e cristãos. Mas porque não usam a palavra “infiel”? Por que consideram que há três livros sagrados, revelados progressivamente: o primeiro é a Torá, o segundo é a Bíblia (no caso, o Novo Testamento) e o terceiro é o Corão.

Os muçulmanos não aceitam Jesus como filho de Deus, mas o aceitam como profeta e duvidam da sua morte carnal afirmando que ele ascendeu aos céus diretamente para a presença de Allah. Jesus é considerado um profeta do Islã, como é Maomé. O motivo pelo qual os muçulmanos dão tanta atenção a Maomé é porque ele é considerado nesta religião o último profeta a receber revelações diretamente de Allah. A crença é de que Allah tenha ditado o livro sagrado (Corão) para Maomé ao longo de um período de 23 anos nas peregrinações entre duas cidades (Medina e Meca).

O que o Islã condena não é o judaísmo ou o cristianismo, mas o politeísmo e o ateísmo (a palavra “infiel” se refere a quem não é adepto dos livros sagrados).

Outras coisas que podemos constatar: a proibição do consumo da carne de porco e a cultura de cobrir a cabeça das mulheres vem desde o judaísmo. Ainda hoje, judeus e muçulmanos não comem carne de porco – algo comum para cristãos. Judias ortodoxas cobrem a cabeça até hoje. Entre as cristãs, o costume de cobrir a cabeça ficou restrito às freiras, não sendo imposto às cristãs leigas.

As três religiões abrâmicas tinham a cultura do véu. Com o tempo, o costume do uso foi sendo abandonado por correntes do judaísmo, e entre os cristãos o seu uso acabou restrito a freiras e irmãs. Entre a maioria dos muçulmanos esta cultura resiste. Em países como a Albânia e a Turquia, o uso varia conforme as tradições familiares.

Tanto cristianismo quanto o islamismo são religiões expansionistas, o que significa que ambas buscam expandir o número de fiéis através da conversão. Longe de serem ideologias destrutivas ou xenofóbicas, elas buscam a assimilação e são universalistas.

A julgar que, historicamente, entre os cristãos católicos e protestantes já houveram grandes e violentos conflitos que acabaram posteriormente sendo esquecidos para dar lugar à convivência pacífica sob o princípio do ecumenismo, não é difícil conceber que se possam conciliar as três religiões abrâmicas como outrora foi feito na Espanha moura, durante o período conhecido como La Convivencia.

6 – O que muçulmanos vestem, comem ou fazem não é da nossa conta

É tão simples quanto poderia ser: cada cultura tem seus códigos de etiqueta, sua culinária, sua música e claro, seu código alimentar e de vestuário. O fato de nós ocidentais termos mais liberdade em vestir o que nos convém não indica que há algo no hijab, niqab ou na burqa que os torne intrinsecamente ruins e opressores.

Escoceses usam kilt, árabes usam dishdasha. Problem?

Devemos entender que para a maioria das mulheres muçulmanas, vestir-se do modo como se vestem é normal, digno e belo. Dentro da cultura ocidental, com o regimento das leis, estas mulheres tem o direito de recusar o uso dos mesmos, mas obrigá-las a tirar (como foi feito na França) é uma tirania. Se somos pela liberdade, não podemos jamais admitir que o governo dite o que um cidadão deve ou não deve vestir.


O mesmo vale para a alimentação. Muçulmanos, assim como os judeus, não comem carne de porco porque ela vai contra um código alimentar instituído pela religião e pela tradição. No caso dos judeus, é o kashrut e no caso dos muçulmanos, é o halal. Para os muçulmanos, a carne precisa ser preparada de um modo especial para que possa ser consumida (halal = permitido), do contrário ela não pode ser consumida por um muçulmano (haram = proibido). Isto significa que para atender a um consumidor muçulmano ou judeu, certas regras e padrões culturais devem ser atendidos no preparo das refeições. É um direito do consumidor escolher não consumir os produtos que vão contra a sua crença religiosa, e isso é de fundamental importância.

Por último, mas não menos importante, é a questão da política e da religião. Por mais que as leis dos países islâmicos possam nos ser estranhas (sobretudo naqueles onde a Sharia é a lei), temos que entender que as leis serão estranhas para nós em qualquer sistema político diferente daquele que estamos acostumados.

Nós ocidentais temos padrões ocidentais e leis que seguem escolas de pensamento ocidentais. Os muçulmanos, que são africanos, orientais e asiáticos em sua maioria, não seguem os mesmos padrões que nós. Os sistemas políticos que se desenvolveram nestas culturas está adaptado a elas e foi desenvolvido e mantido por elas. Cabe a elas decidir quando, como e o que mudar.

Amamos a democracia e a liberdade de expressão e culto, e devemos assegurá-la sobretudo aqui nas Américas ou na Europa, mas não temos nem o dever e nem o direito de querer impor nossos sistemas na “casa” dos outros. Contanto que a democracia, o rigor da lei, a liberdade e a propriedade estejam asseguradas no Ocidente – para os muçulmanos que aqui vivem, inclusive – estaremos com nosso dever cumprido. Antes de nos preocuparmos com o que se passa lá, temos que dar especial atenção aos valores que cultivamos aqui: liberdade de culto, liberdade de expressão, liberdade de escolha.

7 – Eles estão entre nós
Na Europa: Dentro da Europa, as tradições islâmicas são encontradas sobretudo em territórios que já estiveram sob administração do Império Otomano, como os balcãs, e no tartaristão (Federação Russa). A península ibérica também já foi islâmica, tendo sido reintegrada à Cristandade durante a Reconquista.

Na Albânia, o congresso muçulmano sediado na capital (Tirana) rompeu com o Califado em 1923, estabelecendo uma nova forma de culto, banindo a poligamia e instituindo o uso do véu para as mulheres em público.

Na Polônia, as tradições sunitas tártaras foram preservadas. Isto levou à formação de uma distinta cultura muçulmana na Europa Central, na qual elementos da ortodoxia muçulmana misturaram-se à tolerância religiosa de uma sociedade relativamente liberal. Os tártaros polacos são considerados um exemplo de sucesso na integração sócio-cultural com a sociedade cristã.

1 – uma pequena mesquita na Polônia. 2 – a grande mesquita Qolşärif em Kazan, capital do Tataristão. 3 – Um casamento tártaro. Os tártaros são um povo majoritariamente muçulmano que vive na Rússia, na Ucrânia e na Polônia.

Entre os europeus, acredita-se que esteja emergindo uma nova ramificação do islã que combina os princípios e deveres desta religião com valores da Europa pós-iluminista como direitos humanos, o estado de direito, a democracia e a igualdade entre homens e mulheres.

Acredita-se que a população muçulmana na Europa hoje seja superior a 53 milhões, mais de 7% da população. Em alguns países europeus esta proporção é ainda maior: Bulgária, Montenegro e Rússia tem entre 10% e 20% de população muçulmana. O Chipre, entre 20% e 30%. Macedônia, entre 30% e 40%, Bósnia e Herzegóvina entre 40% e 50%, na Albânia são entre 80% e 90%, e em Kosovo chega a 95%.

Nos Estados Unidos: Entre os anos de 1880 e 1914, milhares de muçulmanos migraram do Império Otomano para os Estados Unidos, assimilando-se à sociedade. Graças à imigração, a conversão e altas taxas de natalidade, os Estados Unidos viram a sua população muçulmana crescer muito nos séculos XX e XXI. Só em 2005, o número de novos residentes muçulmanos legais nos estados unidos foi de aproximadamente 96.000: mais do que em qualquer ano das duas décadas anteriores.

O seriado “All-American Muslim” foca no dia-a-dia de americanos muçulmanos.

A mais duradoura comunidade muçulmana incorporada à sociedade norte-americana é a dos bósnios, que em 1906 criaram a Džemijetul Hajrije (Jamaat al-Khayriyya), uma organização de serviços sociais para muçulmanos bósnios. Os muçulmanos bósnios também abriram a primeira escola dominical muçulmana com currículos e literatura muçulmana. A primeira organização muçulmana em Nova Iorque, a Sociedade Maometana Americana, foi fundada em 1907 por tártaros Lipka da região de Podlasie (Polônia). Em 1915 foi fundada aquela que provavelmente é a primeira mesquita americana, por muçulmanos albaneses em Biddeford, Maine. Um cemitério muçulmano ainda existe lá. E esta história se arrasta pelo século seguinte.

O número estimado de muçulmanos vivendo nos EUA hoje é de 2,6 milhões – menos de 1% da população.

Centro Islâmico da América em Dearborn, Michigan

No Brasil: A imigração árabe no Brasil tem início com a chegada de imigrantes árabes que começaram a desembarcar no País em fins do século XIX. No início do século XX, esse fluxo imigratório cresceu e passou a se tornar importante. Um fator predominante foi a Primeira Guerra Mundial, que acelerou a imigração de pessoas que viviam no Império Otomano. Outros conflitos que causaram aumento na imigração de muçulmanos foram as guerras no Oriente Médio (Guerra do Líbano, conflitos entre árabes e israelenses, conflitos no Iraque).

Porém, a imigração de muçulmanos para o Brasil é muito anterior. Muitos dos negros escravizados na África e trazidos para o Brasil já eram muçulmanos. A chamada Revolta dos Malês de 24 a 25 de janeiro de 1835, ocorrida na cidade de Salvador, foi uma sublevação de escravos africanos de religião islâmica. “Malê” era o termo que se utilizava para referir-se aos escravos muçulmanos.

Atualmente, 15 milhões de brasileiros possuem ascendência árabe. A maioria é de origem libanesa, enquanto o restante é, predominantemente, de origem síria. O Islã no Brasil conta com 27.239 seguidores, segundo dados do censo demográfico de 2000 do IBGE. Porém, algumas instituições islâmicas brasileiras consideram que o número de seguidores é muito superior a isso. A Federação Islâmica Brasileira defende que há cerca de 1,5 milhão de fiéis do Islã no país.

Mesquita Omar Ibn Al-Khattab, em Foz do Iguaçu, Paraná. A cidade abriga a maior comunidade muçulmana do Brasil.

Na cidade de São Paulo existem cerca de dez mesquitas, dentre as quais a Mesquita Brasil, na Avenida do Estado (centro da cidade) – cujas obras de construção começaram em 1929 e que foi a primeira mesquita edificada na América Latina.

No mundo: Somos praticamente 7 bilhões. Cristãos são entre 1,9 e 2,1 bilhões – ou seja, de 29% a 32% da população do mundo. Os muçulmanos são cerca de 1,57 bilhões – de 20 a 25%. Com toda essa gente, é melhor arranjar uma maneira de conviver. Para isto, existe o que chamamos de diálogo inter-religioso. Com relação à Igreja Católica, já existe uma iniciativa de diálogo entre católicos e muçulmanos: em 2008 reuniram-se no Vaticano autoridades religiosas católicas e islâmicas para um diálogo inter-religioso, e há uma iniciativa para que esta cúpula seja permanente. A primeira cúpula produziu um documento que afirma um compromisso mútuo de incentivo à tolerância. O mesmo pode ser lido em inglês aqui.

Não fuja do conflito: Talvez você tenha vizinhos muçulmanos, ou já os tenha visto caminhando nas ruas da sua cidade. É possível que você passe pela frente de centros muçulmanos sem nem perceber. Para vencer as barreiras impostas pela caricaturização típica da propaganda de guerra com que somos bombardeados diariamente, é necessário conhecer “o inimigo”. Ouse ler o Corão, permita-se conversar com muçulmanos, visite um centro islâmico. Você verá que mais do que diferenças, há muitas semelhanças entre você e eles: a valorização da família, um senso de responsabilidade, um desejo forte de ascender na vida honestamente, a dedicação aos estudos, etc. Encerro este artigo com uma citação de Chesterton:

A Bíblia nos manda amar nosso próximo, e também nossos inimigos; provavelmente porque eles são, geralmente, a mesma pessoa.

– G. K. Chesterton