A Conquista do Brasil (Parte VI)

Demorou mas saiu a parte quatro desta série! Hoje vamos tratar de alguns aspectos dos conflitos que se desenvolveram ao longo da conquista do território por parte dos portugueses e luso-brasileiros.

I. Os campos de batalha
A guerra se desenvolve em diferentes tipos de terreno. Tradicionalmente, a guerra ocorre em terra e, com o desenvolvimento da marinha de guerra, na água. Com a invenção dos primeiros balões e aviões, a aeronáutica entra em cena. Em última instância, a guerra também pode ser eletrônica ou informática. Adaptando nossa análise para o contexto da América portuguesa, temos o seguinte:

Terra
Em terra, era de vital importância manter a segurança dos fortes, das vilas e suas roças, das feitorias e postos comerciais, do lado dos colonizadores. Para os nativos, era importante assegurar o território de caça, pesca e coleta, além da aldeia propriamente dita. Os índios tupinambás, por exemplo, entravam em conflito com os portugueses e tupiniquins sobretudo em novembro e agosto, períodos de coleta do abati (milho) e pesca do pirati (tainha). Ao menos uma vez no ano, os jê do interior avançavam para a costa em busca de caju, o que resultava nas guerras do caju. Territórios habitados por guarás, aves de plumas vermelhas usadas para a confecção de indumentárias, eram importantes para o comércio indígena bem como áreas de colheita do algodão.

Além de serem mais numerosos, os nativos viviam de extrativismo e por isso precisavam de áreas de coleta e caça. Disto resulta que a área a ser defendida pelos nativos era muito maior do que aquela de que dependiam os colonizadores: durante muito tempo, a ocupação européia do território brasileiro ficou restrita à costa e este espaço era suficiente para manter a população colonial.

Não haviam Estados formados no Brasil antes da colonização: os europeus e os nativos referiam-se a territórios usando nomes de montanhas, rios ou tribos identificáveis com a região. Exemplos de topônimos tupi-guarani são Araçatuba (terra dos araçás, um tipo de fruto), Iguaçu (rio grande), Guanabara (baía grande) e Ipiranga (rio vermelho). A terra dos mundurucus foi batizada, ao estilo europeu, de Mundurucânia. São facilmente identificáveis demarcações territoriais criadas pelos colonizadores, como as capitanias e sesmarias, as colônias francesas (França Antártica e França Equinocial) e a região de ocupação holandesa (Nova Holanda), bem como a região costeira do Brasil dominada pelos tupis e guaranis, denominada Pindorama.

Na terra, destaca-se um tipo de guerra: expedição de apresamento e guerra de vendeta, realizadas primeiramente entre os índios e depois pelos bandeirantes (em expedições punitivas), e o cerco às vilas fundadas por colonos.

Tropas terrestres
As forças portuguesas eram compostas de colonos armados com bestas (abandonadas em algum ponto entre a segunda metade do século XVI e o início do século XVII), arcabuzes e mosquetes, além da tradicional espada rapieira. Armas de haste como piques e lanças eram raras. Peças de artilharia eram empregadas na defesa de fortificações.

Não havia na época distinção bem marcada entre civis e militares, embora houvesse uma hierarquia, representada pelo capitão. Antes da criação de exércitos nacionais na Europa, o capitão era um nobre responsável pela propriedade, pagamento e comando de uma companhia de militares. O capitão da companhia colocava-a ao serviço do seu senhor feudal ou monarca, em troca de um pagamento.

A cavalaria organizada só viria a surgir com a organização do Regimento de Dragões Auxiliares em Pernambuco, após a guerra contra os holandeses.

Entre os nativos também não havia distinção entre civil e militar.  O armamento típico era o arco e a borduna. Mulheres auxiliavam na logística, como explicado anteriormente, mas há relatos de mulheres guerreiras também. Não haviam rankings militares, sendo a distinção entre os guerreiros feita mais pela glória pessoal do que por uma hierarquia oficial: os índios tupis que sacrificavam mais inimigos no ritual antropofágico adquiriam mais “nomes”, mais esposas e podiam usar mais adereços.

Atribui-se a chegada dos cavalos à região do Prata a dom Pedro de Mendoza, quando fundou pela primeira vez Buenos Aires em 1535, e a Alvar Nuñez Cabeza de Vaca quando trasladou cavalos do Peru para Asunción em 1541. A presença de manadas de cavalo vagando em liberdade na região é atribuída à queda de Buenos Aires, momento em que os cavalos teriam fugido. É difícil estabelecer quando os nativos passaram a usar o cavalo, mas temos um exemplo extremo que mostra o quão bem ele foi utilizado: na segunda metade do século XVIII, calcula-se que os guaicurus tinham cerca de 8 mil cavalos. Ficaram conhecidos como imponentes cavaleiros.

Água
Naturalmente, era importante também a soberania sobre os recursos hídricos, as rotas fluviais e as áreas costeiras. Isto valia tanto para colonizadores quanto para nativos, já que o transporte fluvial era essencial para o comércio de ambos, bem como as áreas de pesca e fontes naturais. No caso dos colonizadores portugueses, era de fundamental importância combater o tráfico realizado por outros europeus (ingleses e franceses) em terras brasileiras. Era comum o enfrentamento com corsários e piratas franceses, por exemplo.

O oceano
Para defender a costa, os colonizadores construíam fortes equipados com muralhas e canhões. Estes tinham por objetivo guardar os portos contra ataques de navios inimigos europeus. Para a defesa da costa, empregavam-se as embarcações à disposição, como o bergantim. Eram armadas com sete peças de artilharia (um falcão e seis berços), de acordo com a ordenança do “Alardo de 1525”. Até que ponto esta padronização era seguida no Brasil, não se sabe ao certo.

Os rios
Nos rios, a embarcação mais utilizada pelos colonizadores portugueses também era o bergantim, embarcação a remos leve, rápida, manobrável e pequena o suficiente para navegar nos principais cursos d’água. Foi muito empregada no combate à pirataria, justamente pela sua manobrabilidade e velocidade. Sua guarnição máxima era de 90 pessoas.

Da parte dos nativos, a única embarcação por eles conhecida era a canoa, que usavam para transporte, comércio e mobilização militar. Há relatos de canoas capazes de transportar até 60 pessoas. Podiam ser facilmente trazidas para a terra, o que aumentava em muito a mobilidade, e relata-se que a sua velocidade era imbatível para as pesadas embarcações europeias.

O uso de “frotas” de numerosas canoas para realizar assaltos às vilas e aldeias rivais era bastante comum. Em sua Carta sobre a fundação de Rio de Janeiro, o missionário José de Anchieta relata um assalto dos tamoios que compreendia mais de oitenta canoas.

Alma
Mais importante do que dominar uma porção de terra e suas hidrovias era manter a população nativa pacificada e aliada aos esforços colonizadores. Seria simplesmente impossível colonizar qualquer porção do continente americano sem estabelecer relações estáveis com os nativos. Um dos instrumentos mais importantes para o estabelecimento destas relações era a conversão dos nativos à fé dos colonizadores.

Católicos
Os primeiros missionários que vieram com Cabral eram franciscanos. Até 1549 os franciscanos foram os únicos missionários no Brasil. A Ordem Franciscana se estabeleceu definitivamente no Brasil somente em 1585.

Em 1549 chegaram à Bahia os seis primeiros Jesuítas, na expedição de Tomé de Souza, tendo como superior o padre Manuel da Nóbrega. Atendiam também fora da Bahia, nas Capitanias próximas.

Outros grupos católicos também enviaram missionários para o Brasil: em 1580 chegaram os Beneditinos e em 1584, os Carmelitas.

Protestantes
Os primeiros protestantes no Brasil foram os calvinistas franceses, que chegaram em uma expedição comandada pelo vice-almirante Nicolas Durand de Villegaignon à Baía da Guanabara em 1555.

Villegaignon entrou em atrito com os calvinistas sobre questões teológicas, reproduzindo nos trópicos o que acontecia na Europa. O pastor Chartier foi enviado à França em busca de instruções e os colonos protestantes foram expulsos da pequena ilha em que a colônia estava instalada (Ilha de Villegaignon). A expulsão colocou os calvinistas em contato direto com os tupinambás, sendo esse evento o primeiro contato missionário protestante com um povo não-europeu.

Em 1630, quando os holandeses conquistam Pernambuco, o calvinismo tem sua vida estendida no Brasil (em 14 capitanias do nordeste) por mais 24 anos, pelo menos até o fim da ocupação em 1654. Com a chegada de Maurício de Nassau, implantam a estrutura religiosa calvinista. Até 1654 foram organizadas 24 igrejas e congregações. A experiência terminou com a derrota holandesa.

Nativos
Os pajés estavam relacionados com os movimentos intra e extratribais das populações nativas. Durante as numerosas migrações tupis-guaranis nos tempos pré-cabralinos, a religião garantiram a dispersão com homogeneidade cultural. Eram mediadores na solução dos problemas intra e extratribais, nos quais a cura das doenças era apenas um dos itens.

Entre os Guarani existiam os caraí, que eram bem mais que pajés. Viviam afastados das aldeias e isolados: não pertenciam a uma comunidade específica. Em certos momentos se dirigiam às aldeias para realizarem longos discursos. Transitavam por qualquer aldeia, inclusive as inimigas de seu grupo de origem. Em muitos casos, eram vistos como heróis reencarnados, homens-deuses ou profetas. Só eles seriam capazes de mobilizar um grupo a sair de suas comunidades, largar para trás suas roças, toda a vida social e partir em busca da “Terra sem Mal”. Por sua vida isolada, eram exteriores à aliança política e aos vínculos de parentesco, o que explica porque eram impedimento aos esforços colonizadores: eles ficavam alheios às alianças firmadas entre europeus e chefes militares indígenas, tanto quanto ficavam alheios ao ‘cunhadismo’.

No século XVI, a atividade dos Caraís ainda não era profética. Porém, muitas vezes sob sua liderança se organizou a resistência à colonização. Algumas das guerras contra os espanhóis foram provocadas e dirigidas por profetas: eles tentaram aproveitar a situação criada pela presença dos estrangeiros para garantir seu poder.

II. Alianças
Os índios reagiram de formas distintas à presença dos europeus, mantendo relações pacíficas como o comércio e a aliança militar e conflituosas como a guerra e a revolta. Para os nativos, índios de uma nação rival ou desconhecida eram tão estrangeiros quanto um português ou francês, e por isto é compreensível que tenham se aliado a europeus no combate a outros americanos.

O apoio indígena foi crucial para a vitória da colonização portuguesa. Com este apoio, contudo, as lideranças indígenas tinham seus próprios objetivos: lutar contra seus inimigos tradicionais, que também se aliavam aos inimigos dos portugueses por idênticas razões.

Alguns exemplos das alianças:

  • Temiminós liderados por Araribóia se aliaram aos portugueses na baía da Guanabara para derrotar os franceses, que por sua vez recebiam apoio dos Tamoios.
  • O chefe tupiniquim Tibiriçá, valioso para o avanço português na região de São Vicente e no planalto de Piratininga, combatia rivais tupis e os “tapuias” Guaianá, além de escravizar os Carijós para os portugueses.
  • O chefe potiguar Zorobabé, na Paraíba e Rio Grande do Norte, aliou-se aos franceses, em fins do século XVI, e aos portugueses, tendo sido recrutado para combater os aimorés na Bahia e até para reprimir os nascentes quilombos de escravos africanos.
  • O potiguar Felipe Camarão combateu os holandeses, os tapuias e os próprios potiguares (como Pedro Poti e Antônio Paraupaba), que ao contrário dele, passaram para o lado holandês.
  • Confederações intertribais, como a Confederação dos Tamoios e a Confederação dos Cariris.

Diversas lideranças pró-lusitanas receberam privilégios como sesmarias e títulos nobiliárquicos, criando-se no Brasil autênticas linhagens de chefes indígenas condecorados pela Coroa por sua lealdade a Portugal.

Alianças com invasores contra os colonizadores também ocorreram. Nações inteiras escolheram por se aliarem aos inimigos dos portugueses. Líderes como Antônio Paraupaba chegaram a residir nos Países Baixos para aprender a língua holandesa. O líder Abaupaba retornaria para os Baíses Baixos com os holandeses e lá ficaria até a morte, ainda atuando na política e buscando reestabelecer uma aliança Holanda-Potiguaras e quem sabe reconstruir o que fora perdido pelos holandeses no Brasil.

III. Tipos de guerra
Dependendo do território em disputa, dos objetivos e das nações envolvidas, distintos tipos de guerra podem ser travados. Podemos elencar os seguintes:

Corso – Corsários e piratas contratados por uma potência colonial assaltam cidades, engenhos e o comércio marítimo de outra potência colonial. Acontece no mar ou na costa.

Expedição– Expedições militares encomendadas pela Coroa para reconhecer e colonizar territórios (entradas) ou de caráter punitivo. Há também as financiadas por particulares para apresamento de índios e busca por bens comerciáveis (bandeiras). Foram bastante empregadas contra aldeamentos missionários e tribos hostis (“gentios bravos”). Ocorriam nas regiões sertanejas, e frequentemente envolviam o domínio das vias fluviais.

Guerra colonial – Disputa entre potências coloniais e seus aliados por territórios ainda não colonizados. Pode ou não envolver tropas nativas, e ocorre geralmente em zonas limítrofes de territórios coloniais.

Guerra indígena – Guerra entre um povo ou confederação de povos indígenas e colonizadores ou colonos. Pode ser uma guerrilha de resistência à colonização, uma revolta, um ataque à uma colônia.

Guerra internacional – Guerra entre duas potências estabelecidas e/ou suas colônias, com fins punitivos ou expansivos. Pode envolver tropas nativas, mas seu objetivo é retaliar a potência colonial inimiga ou tomar seus territórios.

Guerra de independência – Guerra de uma colônia, província ou território buscando emancipação do restante do corpo político (potência colonial, estado nacional, etc).

Guerra colonial indígena – Guerra entre povos indígenas apoiados por potências coloniais. Ocorre quando há um interesse militar comum entre uma nação americana e o colonizador europeu, em qualquer dos lados.

Guerra autóctone – Guerra entre povos indígenas, sem apoio de potências coloniais em qualquer dos lados. É a forma de guerra anterior à chegada dos europeus e que continuou ocorrendo em lugares onde a presença do colonizador não chegava.

O período a ser estudado vai de 1534 até a Independência do Brasil e a consequente fundação do Império, quando então está todo o território submetido à uma administração monárquica típica do mundo ocidental de sua época. O objetivo de restringir o escopo de estudo é excluir dele movimentos e guerras de cunho emancipatório das províncias como a Inconfidência Mineira, a Conjuração Baiana, ou a Revolução Farroupilha. Estes, apesar de representarem alterações potenciais e significativas no território do Brasil, não representam um conflito entre “conquistadores” ou colonizadores, uma vez que estas áreas já estavam colonizadas e já compartilhavam de uma história comum com outros brasileiros ou lusos.

OUTRAS PARTES DA SÉRIE:

FONTES E REFERÊNCIAS:

Web

Livros, revistas, artigos e entrevistas

A Conquista do Brasil (Parte V)

Dando continuidade à série de artigos sobre a História do Brasil, hoje vamos entrar um pouco na questão de como eram travadas as guerras em solo brasileiro e com que tipo de tecnologia.

I. A guerra moderna

Com relação aos europeus, sua arte militar encontrava-se bem avançada e podia ser classificada como moderna (Idade Moderna). Identificam-se com a guerra da idade moderna a construção de fortes poligonais, o uso de armas de fogo (sobretudo arcabuzes) e artilharia e armaduras de placas de metal (sobretudo pela cavalaria). Este período se classifica também pela perda de importância da cavalaria pesada em campo de batalha, por causa do uso da pólvora.

No entanto, guerras coloniais não podiam ser travadas do mesmo modo que eram no continente europeu. Era inútil, além de inviável, reunir o contingente e a formação das tropas no modo tradicional. A manutenção do modo de guerrear europeu só era possível com adversários europeus. Em menor número, os portugueses se viram obrigados a adotar o modelo de guerra nativo, com aliados nativos, para empreender a colonização. O mesmo lhes ocorreu na África, e o mesmo ocorreu com os espanhóis na América Espanhola e com praticamente todas as potências coloniais.

Alguns dos avanços da guerra moderna: fortes poligonais, armaduras de placas de metal e arcabuzes.

Sendo a ocupação do Brasil anterior à Revolução Industrial, não havia um meio de produção padronizada e massiva: as armas, em ambos os lados, não eram padronizadas e eram produzidas manual e individualmente. Haviam modelos difundidos, mas isto não implica que as armas vinham de um mesmo fabricante ou seguiam um padrão.

A aquisição de armas não era feita pelo exército ou pelo governo, mas por cada militar de acordo com suas preferências e condições financeiras. O costume dos soldados pagarem pelo material que usavam chegava ao ponto destes pagarem até a munição que usavam. A “vida útil” de uma arma era longa, de forma que armas muito antigas podiam conviver com equipamentos de última geração.

II. A guerra indígena

Como tradicionalmente a expansão da agricultura e a domesticação de animais (em especial bois, cavalos, ovelhas, cabras e porcos) funcionam como marcos para o início da construção de sociedades urbanizadas e complexas, isto coloca alguns empecilhos quando vamos estudar sociedades que se desenvolveram no continente americano, onde a população humana é relativamente mais recente e animais como o touro e o cavalo não existem na natureza. O que é certo, no entanto, é que os americanos viveram isolados das culturas africanas, europeias e asiáticas, o que explicaria o desenvolvimento deficitário da navegação, a baixa difusão da metalurgia e o desconhecimento de metais como o ferro e o bronze.

A arte militar dos povos indígenas do Brasil, de um modo geral, não chegava ao nível daquela da Antiguidade de povos europeus ou asiáticos: não possuíam armas de metal, cavalaria, fortificações de pedra, nem marinha de guerra. Contudo, este desequilíbrio tecnológico é contrabalançado ao longo do período colonial com a adoção, por parte dos nativos, da tecnologia europeia. São notáveis os casos da metalurgia e da domesticação do cavalo, além da aquisição de armas de fogo. Os nativos abruptamente saíam da “Idade da Pedra” para a Idade do Ferro.

Podemos dizer que os grupos indígenas davam uma grande importância à guerra. Esta era parte fundamental de sua cultura, em diversos momentos, como na captura de mulheres para casamento ou no esquema que se chama de guerra de vendeta (vingança): os conflitos se iniciavam para vingar ofensas passadas. O objetivo maior era a captura de prisioneiros para que estes fossem sacrificados e devorados de forma ritual, completando a vingança. Naturalmente estes rituais e as baixas em combate levavam a novas vinganças, reiniciando o processo. Este ciclo de captura, execução e canibalização do inimigo era especialmente importante para os índios tupis: marcava o início da vida adulta de um homem, lhe permitindo o casamento. A própria reprodução e sobrevivência da tribo dependia do sucesso na guerra, da captura, execução e consumo de muitos inimigos.

Uma das conseqüências desse modo de fazer a guerra era um procedimento ritual de combater, onde os guerreiros procuravam afirmar sua masculinidade através da forma como lutavam e capturavam os inimigos para o sacrifício, bem diferente de uma guerra europeia ou asiática. Havia a necessidade do combate aproximado, o que favoreceu o desenvolvimento de armas específicas para a luta corpo-a-corpo, que se somavam ao arco e flecha, de uso cotidiano de todas as culturas indígenas.

Ilustração de um combate entre tupinambás e maracajás. Não está claro qual dos lados é qual. Repare nas armas: borduna, arco e escudo.

As armas usadas não empregavam metais, desconhecidos pelos nativos, sendo os elementos cortantes feitos com as matérias-primas disponíveis na natureza: madeira (endurecida a fogo ou não), ossos e principalmente pedras, como o quartzo e o sílex.

A guerra, portanto, não é uma guerra de conquista: é uma guerra ritual. É importante, no entanto, levar em consideração que guerras tribais costumam ser mais violentas em termos de baixas relativas. Proporcionalmente, guerras tribais matam mais do que guerras convencionais.

III. O mito do bom selvagem
War Before Civilization: the Myth of the Peaceful Savage
é um livro de Lawrence H. Keeley, um professor de arqueologia na University of Illinois especializado na Europa pré-histórica. O livro trata de guerras conduzidas ao longo da história humana por sociedades com pouca tecnologia. Keeley conduz uma busca por evidências arqueológicas de violência pré-histórica, incluindo assassinatos, massacres e guerras. Ele também observa sociedades de períodos mais recentes – que nomeamos como tribos ou povos – e sua propensão à guerra.

Se sabe há muito tempo, por exemplo, que muitas tribos das florestas tropicais sulamericanas se envolvem em guerras frequentes e terríficas, mas alguns acadêmicos haviam atribuído seu vício à violência como uma má influência da cultura ocidental.

Keeley diz que sociedades pacíficas são uma exceção: entre 90 e 95% das sociedades conhecidas dedicam-se à guerra. O atrito de numerosas batalhas a curta distância, característica da guerra em sociedades guerreiras tribais, produz um índice de mortandade de até 60%, comparado com o 1% dos combatentes de uma típica guerra moderna.

Massacres ocorreram entre inúmeros povos americanos. As mortes em massa ocorriam muito antes de qualquer contato com o europeu. Os registros de missionários nas áreas fronteiriças entre Brasil e Venezuela mostram uma constante luta entre tribos Yanomami por mulheres ou prestígio, e evidenciam a guerra contínua para a escravidão de tribos vizinhas como os Macu, antes da chegada de colonizadores europeus com seu governo. Mais de um terço dos homens Yanomami, em média, morrem na guerra.

A cabeça do inimigo: um troféu de guerra para os Munduruku do Brasil pré-cabralino.

De acordo com Keeley, entre os povos indígenas das Américas, somente 13% não se envolvia em guerras com os vizinhos ao menos uma vez ao ano. A prática pré-colombiana de usar escalpos humanos como troféus de guerra é bem documentada. Outras práticas incluem a coleção de troféus, como a cabeça do inimigo.

Documentam-se ainda guerras cíclicas, como a guerra do caju, a guerra do milho e a guerra da piracema.

IV. A mobilização militar e a logística militar indígena

Segundo Thevet, as batalhas indígenas de grandes aldeias poderiam envolver seis,  dez ou até doze mil homens. Para tal, era necessária uma mobilização e uma preparação antes de atacar uma aldeia inimiga. Outra questão levantada por ele é “o fato de os selvagens americanos jamais assinarem tréguas, ou pactos, qualquer que seja o grau de inimizade entre si, como fazem as demais nações, mesmo as mais cruéis e bárbaras”, embora tenhamos conhecimento de que os índios usavam a diplomacia para angariar aliados europeus na sua luta contra os inimigos americanos tradicionais.

Os tupinambás reuniam-se em uma espécie de assembléia, composta exclusivamente por homens adultos, onde decidiam os assuntos militares. O ato preliminar da guerra é este conselho dos anciãos guerreiros da tribo, no qual todos se expressam. O local da reunião é o centro da aldeia e as mulheres não tomam parte na cerimônia.  Se os maiores manifestam-se favoráveis à guerra, a ordem de mobilização é imediatamente levada a todos. Nessa ocasião, também se determina o tempo da partida, que coincide com o da safra de algum fruto como o caju (guerra do caju), o milho (guerra do avati) ou a época da desova de algum peixe, como a tainha (guerra da piracema).

Construídas as canoas, aceradas as flechas, cozida a farinha, consulta-se novamente o pajé, que aguarda o desígnio dos sonhos. Se os sonhos são favoráveis, partem os guerreiros, após as danças e libações rituais do costume. As plumas e adornos em geral fazem parte do material bélico. Uma descrição de Thevet revela um pouco da divisão de tarefas:

Seguem as esposas a seus maridos na guerra, não porque vão combater, a exemplo das amazonas, mas porque precisam carregar os alimentos e deles cuidar, assim como transportar outras munições necessárias à guerra (pois, algumas vezes, empreendem viagens, que duram de cinco a seis meses). E, quando partem para essas longas guerras, os selvagens lançam fogo às suas palhoças, ocultando, na terra, os bens de maior valor, que só tornam a buscar quando regressam da empresa.

Na ato da partida (também em todas as ocasiões em que levantam acampamento), os “roncadores” fazem soar a inúbia, espécie de oboé destinado a alvoroçar e a incentivar os guerreiros. Cada guerreiro transporta suas armas, a rede e sua porção de farinha. Os líderes são acompanhados pelas mulheres. Marcham em fila indiana, os mais valentes na dianteira. No mar, não se afastam muito da costa. Assim que se atingem terras alheias, o espia trata de abrir o caminho ao exército.

Com relação à capacidade de mobilização, para a guerra de cerco, André Thevet relata expedições militares que duram até um semestre. Hans Staden testemunha um cerco de quase um mês. José de Anchieta testemunha operações militares dos tamoios envolvendo quarenta e oito canoas, o que na média significava uma tropa de quase quinhentos guerreiros.

V. A batalha indígena

Dois dias antes chegar na aldeia inimiga acampam, mas não fazem fogo, para não serem percebidos. Os ataques são feitos geralmente à noite, quando se reúnem em massa. Assim que são advertidos ou suspeitam da vinda de inimigos, fincam no chão, ao redor da sua posição, numerosos paus afiados, cujas pontas, embora saindo à flor da terra, quase que não se veem. Estas estrepes improvisadas ferem os inimigos nos pés ou outras partes do corpo.

A fim de surpreender o inimigo, ocultam-se nos matos à noite, ali permanecendo o espaço de tempo necessário para o assalto. Quando atacada a aldeia inimiga, ateiam fogo às cabanas, afim de obrigá-los a sair do abrigo, juntamente com sua bagagem, suas mulheres e seus filhos.

Se encontram as aldeias protegidas de caiçaras, erguem outra cerca de ramos e espinhos, próxima do acampamento inimigo, e de construção em construção, em breve estão juntos sitiantes e sitiados. Ao lado dos redutos, abrem buracos no chão e constroem estrepes. Nos sítios ou cercos, usam flechas inflamadas e asfixiam os inimigos com fumo de pimenta.

No entanto, como este tipo de expedição era frustrado pelos colonizadores, os nativos também optam por outros meios de combate. Dizia-se dos aimorés, por exemplo:

Nunca andam juntos, senão poucos, e, sem serem vistos, cercam a gente e a matam, e com tanta ligeireza se tornam a recolher e meter pelo mato como se foram cabras silvestres, correndo muitas vezes sobre os pés e as mãos, com o arco e flecha sobre as costas, e por isso se lhes não pode fazer guerra, nem com ela prevalecem contra eles, porque nunca pelejam em esquadrão feito, nem em campo descoberto, senão com ciladas e assaltos repentinos, por detrás das moitas e árvores, sem os homens os poderem ver, se não quando se sentem flechados, e por este modo de tal maneira tem infestado toda a costa do mar (…)

Parecem empregar suas estratégias furtivas de caça para atuar como guerrilhas nos matos. Talvez esta estratégia de combate tenha impedido os aimorés de serem expulsos da costa pelos tupis, como outros tantos grupos provavelmente foram. No entanto, Hans Staden também é capturado assim pelos Tupinambás: em vez de sofrer um ataque em sua posição fortificada, é pego fora dela por um pequeno grupo hostil.

VI. As armas e tecnologias indígenas
Algumas das armas e tecnologias bélicas à disposição dos índios estão listadas a seguir. Vale lembrar que nem todas elas foram empregadas por todos os grupos e em todas as épocas. Por exemplo, as boleadeiras só eram empregadas pelos índios da região Sul, nos Pampas e na Patagônia, e os venenos extraídos da Strychnos toxifera e dos sapos dendrobatídeos só podiam ser obtidos na Amazônia. As armas também não permaneceram sempre as mesmas: ao entrar em contato com europeus, os índios adquiriam armas de ferro, armas de fogo ou cavalos.

Borduna, tacape ou ibirapema – Parte importante da cultura bélica indígena, não era uma ferramenta de uso diário como o arco e flecha, mas feita unicamente para a guerra e para o sacrifício ritual. Nada mais era do que uma clava. As formas dessa arma e até os nomes variam de grupo indígena para grupo indígena.

Não se encontra registro do uso de machados ou bordunas com bordas cortantes, feitos de peças de sílex ou quartzo, em combates no Brasil, apesar dos machados serem ferramentas de uso diário.

A borduna ou tacape dos tupinambás é descrito assim em Histoire d’un Voyage Faict en la Terre du Brésil por Jean de Léry:

(…) sua forma é chata ovalada num extremo, medindo dois palmos de diâmetro na parte mais larga, e depois cilíndrica, medindo duas polegadas também de diâmetro. As bordas da parte oval são afiadas como machados, e como eles cortam, visto serem feitos de madeiras duríssimas.(…)

Arco e flecha – A principal arma. Devido à sua cultura, as atividade de caça eram constantes entre os homens e estes, desde a infância, treinavam com eles, adquirindo grande habilidade em seu manejo.

Todos os arcos brasileiros têm, basicamente, a mesma característica – são de madeira e de construção singela, o que limitava a sua força e alcance efetivo, (cerca de 30 metros). Cada grupo indígena tem suas variações quanto ao comprimento da arma (e portanto a força do arco), como as cordas eram colocadas, o tipo de haste das flechas e de pontas, tipo de empenagem e decoração.

O arco é assim descrito em Histoire d’un Voyage Faict en la Terre du Brésil, por Jean de Léry, um arco tupinambá:

Depois vem o arco, ou arapá, feito de madeira negra, mais comprido e grosso que o que temos aqui, de modo que um europeu não pode atirar com ele, coisa fácil, aliás, a um tupinambazinho de dez anos.

As cordas são de tucum, tão resistentes, apesar de finas, que um cavalo com elas pode tirar um veículo.

Quanto às flechas, medem quase uma braça e compõem-se de três partes, a saber: a parte média, de caniço, e as extremas, de madeira dura, primorosamente ligadas com embira. Numa ponta vão duas penas, ajustadas e ligadas com fio de algodão; na outra vai ou osso pontiagudo ou lasca de bambú acerado como lanceta.

Usam ainda o ferrão da cauda da arraia, o qual é venenoso. Depois da chegada dos franceses e peros passaram a utilizar-se de pregos.

Pero Vaz de Caminha também faz uma descrição do arcos tupiniquim, com as flechas de ponta feita de cana cortada:

Os arcos são pretos e compridos, as setas também compridas e os ferros delas de canas aparadas, segundo Vossa Alteza verá por alguns que – eu creio — o Capitão a Ela há de enviar.

Flechas envenenadas: usa-se venenos nas pontas das flechas ou dardos para paralisar a presa. As toxinas do veneno se ligam ao sítio fixador de acetilcolina, neurotransmissor responsável pelas junções neuromusculares. Assim, essa toxina compete com a acetilcolina por esse receptor e isso debilita a função muscular. Esse déficit é fatal caso músculos da respiração sejam afetados.

Strychos toxífera, da qual se extrai o curare, veneno paralisante e letal com o qual os índios embebem as pontas das flechas e lanças. Um de seus subprodutos é a estricnina, um alcalóide cristalino muito tóxico.

As pontas dessas flechas são embebidas em substâncias que agem analogamente ao veneno da cobra, ou seja, competem pelos receptores de acetilcolina. Os índios sul-americanos utilizam curare. O curare atua como relaxante muscular que prejudica relevantemente a fisiologia muscular.

Outra fonte de veneno letal para os índios, pelo menos os amazônicos, são os alcalóides letais contidos na pele de batráquios. No extremo leste da Floresta Amazônica, na Colômbia, reside o animal mais venenoso do planeta: Phyllobates terribilis, uma espécie de rã amarela cuja toxina – a homobatracotoxina – causa a falência múltipla dos órgãos em humanos.

O uso do aguilhão da arraia como ponta de flecha também é registrado. O veneno da arraia, embora não seja fatal quando não atinge o peito ou o abdômen, causa dores musculares terríveis.

Zarabatana – Uma arma que consiste num tubo originalmente de madeira, pelo qual são soprados pequenos dardos, setas ou projéteis.

As zarabatanas eram utilizadas pelos povos indígenas da América do Sul (Amazônia e Guianas) e Sudeste da Ásia, e por algumas tribos da América do Norte, para caçar pequenos animais, como pássaros, esquilos, macacos e coelhos. As setas utilizadas, muito leves, possuíam em média de 10 a 15 cm, e tinham pontas embebidas em venenos ou substâncias tóxicas — curare, secreção de sapos e seivas venenosas. As seivas eram extraídas de plantas como a Antiares toxicaria e a Palicourea marcgravii, entre outras. Não era comumente usada como arma de combate, apenas para caça e ação furtiva.

Lança – Arma menos difundida que as anteriores. Pode ser dividida em três tipos distintos: as azagaias, as lanças de uso a pé e as de uso a cavalo. As lanças a cavalo não são pré-cabralinas, já que só foram empregadas após a chegada do Europeu e da difusão do cavalo como animal de montaria, pois este não era nativo das Américas. Contudo a importância do cavalo para determinadas tribos indígenas como os guaicuru e a influência que essas tiveram na formação de uma “cultura” na Cavalaria Brasileira, não pode ser menosprezada.

As azagaias (ou dardos) eram armas curtas de arremesso usadas em substituição ao arco e flecha em algumas tribos do alto amazonas.

As lanças de uso a pé eram armas perfurantes, assim como as de uso a cavalo, mas o seu emprego foi mais restrito no Brasil. Índios que se adequaram ao uso do cavalo, como os guaicurus e charruas, fizeram mais uso da lança.

Fogo – Os índios também empregavam táticas incendiárias, tanto para a caça como para a guerra. Em Singularidades da França Antártica, Thevet descreve o uso do fogo como meio de disseminar o pânico e forçar os inimigos a sair de posições fortificadas:

[…]quando alcança a aldeia, usam o artificio de lançar fogo às cabanas dos adversários, afim de obrigá-los a sair do abrigo, juntamente com sua bagagem, suas mulheres e seus filhos.

É registrado o seu uso em cercos a aldeias rivais e fortificações portuguesas. O objetivo da chuva de flechas incendiárias que antecedem a investida é atear fogo às coberturas das cabanas, feitas de palha.

Fumaça de pimenta – A pimenta também funcionava como arma de cerco. Fazia-se “fumo de pimenta” para forçar os ocupantes de uma determinada posição a abandoná-la. Isso se dá pelo composto químico capsaicina, que é irritante para os mamíferos e produz a sensação de queimação em qualquer tecido com o qual entre em contato.

Hans Staden documenta o uso da pimenta como arma em seu livro Duas Viagens ao Brasil:

Ouvi-lhes dizer também que utilizam pimenta, que há em sua terra, e com que conseguem afugentar das fortificações seus inimigos. Isto se dá da seguinte maneira: quando o vento sopra, fazem uma grande fogueira e lançam-lhe dentro um montão de pés de pimenta. Se a fumaça dá de encontro às cabanas, o inimigo tem então de sair para fora.

Hans Staden no seu relato Viagem ao Brasil relata o uso desta arma contra embarcações portuguesas:

Os selvagens nada nos puderam fazer nas embarbações; arrumaram, porém, porção de lenha entre a margem e os barcos, a que deitaram fogo, a ver se nos incendiavam, e queimavam uma espécie de pimenta, que lá cresce, com o fim de nos fazerem abandonar as embarcações por causa da fumaça.

Boleadeiras – Arma e instrumento de caça dos indígenas da Patagônia e dos Pampas.

Consta de duas ou três bolas de pedra polida. O diâmetro de cada bola é de uns 10 cm nas boleadeiras de combate. As pedras são unidas unidas por tientos ou guascas, tiras de couro. Os indígenas usavam como matéria prima para os tientos o couro de guanaco e o couro do pescoço ou tendão da pata de nhandú (ema), antes de usarem o couro bovino.

Os europeus notaram a existência desta arma no início da Conquista, quando a viram nas mãos de hets, charruas, tehuelches, mapuches e pampas em 1520. Foi muito efetiva na Guerra de Arauco, onde os mapuches conseguiam neutralizar a ação da cavalaria espanhola.

Inicialmente os aborígenes usavam uma só pedra polida e circundada por um sulco no qual se atava um só tiento ou corda bastante grande e, com isto, golpeavam à distância sem perder a pedra. Esta arma funcionava foi chamada pelos espanhóis e crioulos de bola perdida. Quando faltavam pedras se improvisavam boleadeiras com bodoques de terracota ou mesmo osso. Na região patagônica se usava o nodo esférico que o fungo llao llao (Cyttaria darwinii) provoca nos ramos do ñiré (Nothofagus antarctica) na falta de pedras.

“Potreira”

A forma de uso mais comum desta arma é o “rebolear”, que consiste em girar as pedras pelos tientos por sobre a cabeça e jogá-la contra o alvo. Se é jogada com o objetivo de capturar uma presa, a boleadeira é lançada às pernas ou patas, para que os tientos se enrosquem ao redor delas. Em combates corpo a corpo era frequente não soltar a boleadeira mas sim usar uma das pedras como maça, principalmente sobre a cabeça do oponente.

À direita, uma maça inca. O formato lembra o que seria uma ‘bola perdida’, ou a boleadeira de uma pedra só. Esta seria a origem dos outros tipos.

Tipos de boleadeiras: A boleadeira pequena e de apenas duas bolas é chamada “ñanducera” (nhanduzeira) e era conhecida com o nome de chumé ou ‘tálakgáp’n pelos tehuelches. É usada para a caça ou captura de pequenos animais. A boleadeira de três bolas e maiores dimensões, conhecida como “potrera” (potreira) e chamada yachiko pelos tehuelches, se usa para o combate ou para capturar animais grandes como cavalos ou touros.

Escudos – Os índios, historicamente, ainda faziam uso de outros equipamentos de combate, como escudos, feitos de madeira ou de couro de anta, mas os registros sobre estes são escassos, apesar de alguns cronistas como Thevet terem ficado muito impressionados com eles, como mostra a seguinte passagem:

A terceira peça de seu armamento é o largo escudo que usam nos combates. Ele é feito de couro de um animal local, semelhante às nossas vacas no que se refere à cor, mas diferentes no tamanho. Estes escudos são tão fortes e resistentes quanto os broquéis barceloneses, não se deixando penetrar nem mesmo pelas balas dos arcabuzes!

Em História de uma Viagem Feita à Terra do Brasil, de Jean de Léry, também há uma breve descrição:

Finalmente, usam de rodelas de couro de tapiraçú, largas como um fundo de tamboril alemão. Quando brigam não se cobrem com eles, como praticam os nossos, mas deles se utilizam para resguardo contra as setas inimigas.

O Escudo do Uaupés, feito de trançado, mede 64 cm de diâmetro.

Um escudo feito de trançado, usado pelos índios Tukano, foi encontrado na região do Alto Rio Negro, noroeste do Amazonas em 1861 por uma expedição de Gonçalves Dias que assim o descreve:

Objeto raro, e tanto que há muitos na província que lhe ignoram a serventia. Bem tecido resiste à ponta de taquara ou do Curabi; leve, não cansa, e pode-se manejar com ele uma boa arma de defesa; facilmente portátil não embaraça a carreira.

Proteção corporal – A ausência de lâminas cortantes no combate pode ser o motivo de não existirem registros referentes ao uso de armaduras por parte dos indígenas. No entanto, índios dos pampas como charruas e minuanos usavam uma peça de roupa feita de couro de boi, com o pelo voltado para dentro, coberta com grafismos na parte externa. Era chamada pelos charruas de quillapi e pelos minuanos de cayapi.

Armadilhas, estruturas e fortificações

Estrepes – Thevet descreve o uso de dispositivos para ferir os pés do inimigo e impedir o seu avanço. Porém, não dá nenhuma descrição em detalhes da aparência ou de como é feito.

Ao lado dos redutos, abrem-se buracos no chão e constroem-se estrepes

Um outro dispositivo, que Thevet compara à este, também é descrito:

(…) plantam em terra, em redor de seus tugúrios, a cerca de um tiro de arco, numerosos paus agudíssimos, cujas pontas, embora saindo à flor da terra, quase que não se veem (comparáveis em tudo aos estrepes), nos quais os inimigos ferem os pés descalços, ou mesmo outra qualquer parte do corpo.

Caiçara – Palavra indígena para cerca de proteção. Eram postes dispostos ao redor da aldeia para proteger de ataques de tribos inimigas ou onças.

Em seu livro Duas Viagens ao Brasil, Hans Staden faz a seguinte descrição:

[…] levantam ao redor das cabanas uma cerca de varapaus feitas de troncos de palmeiras rachados. Fazem esta cerca, com aproximadamente uma braça e meia de altura, tão cerrada que nenhuma flecha pode passar por elas. Mas têm pequenos buracos a partir dos quais atiram para fora. Ao redor desta cerca de varapaus levantam outra cerca, uma paliçada de estacas longas e grossas, mas não colocam as estacas tocando-se umas às outras, e sim apenas próximas o suficiente para que uma pessoa não consiga passar por elas. […]

Tricheiras e barricadas – Hans Staden, em seus relatos, menciona a construção de fortificações improvisadas com troncos e buracos abertos pelos índios. Não menciona com que ferramenta os índios cavaram os buracos e derrubaram os troncos, no entanto.

Ao redor do lugar onde estávamos sitiados havia uma mata, na qual tinham construído dois redutos de troncos grossos, onde se recolhiam à noite; e quando nós os atacávamos, para lá se refugiavam. Ao pé destes redutos abriam buracos no chão, onde se metiam durante o dia e de onde saíam para nos guerrilhar.

Bloqueio das vias fluviais – Hans Staden no seu relato Viagem ao Brasil relata uma tática adotada pelos índios para parar as embarcações enquanto estas navegavam pelos rios: derrubar troncos de árvore ao longo da via.

Os selvagens, porém, tinham atravessado grandes troncos de árvores no rio e se postaram muitos deles nas duas margens, com o intuito de impedir a nossa viagem. Forçamos, porém, a tranqueira e ao meio dia mais ou menos estavamos de volta sãos e salvos.

Numa segunda tentativa, os índios tentam acertar com os troncos diretamente sobre a embarcação, na tentativa de pará-la:

[…] voltamos, outra vez, para o lugar sitiado. No mesmo ponto em antes haviam posto obstáculos tinham os selvagens de novo derrubado árvores, como anteriormente; mas acima do nível d’água e, na margem, tinham cortado duas árvores de modo a ficarem ainda em pé. Nas ramagens amarrarm-lhes uns liames chamados cipós que crescem como lúpulo, porém mais grossos. As extremidades ficavam amarradas nas estacadas e, puxando por elas, era seu intento fazer tombar as árvores caindo sobre as nossas embarcações. Avançamos para lá; forçamos a passagem, caindo a primeira das árvores para o lado da estacada e a outra na água, um pouco atrás do nosso barco.

Tecnologia naval indígena
A principal, e bem dizer a única, embarcação indígena era a canoa. Feita a partir de um único tronco de madeira escavado, a canoa é, junto com a balsa, uma das mais antigas embarcações utilizadas pelo homem. Aparentemente tosca, sobrevive há milênios graças à facilidade construtiva e ao seu poder de se moldar às necessidades.

Segundo todos os depoimentos, as canoas indígenas anteriores ao Descobrimento locomoviam-se a remos, inexistindo o uso ou o conhecimento da vela em toda a América. Os índios navegavam pela costa e pelos rios dentro das canoas e diz-se que guerreavam dentro delas mesmo, com seus arcos, quando necessário.

Hans Staden comenta, em 1556, o processo de produção das canoas a partir de peças inteiras de madeira extraídas de troncos:

Existe lá um tipo de árvore a que chamam de Igá-Ibira. As cascas dessa árvore desprendem-se de cima até embaixo num único pedaço, e, para tanto, eles erigem uma proteção especial em torno da árvore, de forma a que se desprenda inteira. Em seguida pegam a casca e levam-na da montanha até o mar. Aquecem-na com fogo e curvam-na para cima na frente e atrás, mas antes disso amarram no centro pedaços de madeira no sentido transversal, para que não se deforme. Assim fazem canoas onde até trinta deles podem ir à guerra. As cascas têm uma polegada de espessura, cerca de quatro pés de largura e quarenta de comprimento. Remam com essas canoas rapidamente e viajam até onde quiserem. Quando o mar está revolto, puxam as canoas para a praia até que o tempo volte a ficar bom. Não vão mais do que duas milhas mar adentro, mas viajam por longas distâncias ao longo da costa.

Quanto aos carijós (guaranis), usavam duas espécies de canoas: uma construída de um pau só, que cavavam a frio quando a madeira era mole ou por meio do fogo,  e que era chamada igára (y-gára, a que flutua). As grandes canoas deste tipo chamavam igára-açu (canoa grande) ou igára-tê (canoa verdadeira), e comportavam de 40 a 60 pessoas. As pequenas eram conhecidas por igára mirim (canoa pequena). O outro tipo de canoa era construído de casca de certas árvores escoradas por dentro, tendo os extremos ligados com cipó. As canoas deste tipo eram menores e mais fracas. Chamavam-nas ubá (uba-yá, casca aberta) ou piroga (esfolada). Denominavam as maiores embarcações deste tipo ubá-açú ou bacuçú.

Conta Thevet que estas embarcações feitas de casca tinham de 5 a 6 braças de comprimento e 3 pés de largura, comportando de 40 a 50 homens e mulheres. As mulheres eram empregadas na remoção da água que entrava na canoa. Remavam de pé com um remo chato dos dois lados, o qual seguram pelo meio.

Tanto as igáras, como as ubás e pirogas eram usadas na pesca, no comércio e na guerra. As destinadas a este último propósito, nas quais iam o chefe tuxaua, traziam como distintivo um maracá à proa e por isso eram denominadas igatim (canoa de bico) ou maracá-tim.

VII. As armas européias

Armaduras – As armaduras na Europa foram ficando cada vez mais raras com a difusão das armas de fogo. Uma conseqüência disso foi que as espadas passaram a ser mais leves e manejáveis, com guardas mais complexas para proteger a mão sem armadura. Espadas com estas linha gerais permaneceram em uso até o fim do uso da arma branca como equipamento bélico. Gradualmente, a partir do meio do século XVI, peças da armadura foram discartadas para aliviar o peso dos soldados. De fato, a única proteção disponível contra as armas de fogo eram barreiras como paredes de pedra, fortificações, trincheiras, rochas ou árvores.

Rapieira – No final do século XVI começaram a se tornar predominantes na Europa as espadas para uso diário denominada rapieiras (“espada ropera”, espada que se usa com roupa e não armadura), em detrimento das espadas exclusivas para o combate. Eram armas mais adequadas para a esgrima (os primeiros manuais de esgrima são escritos para essa arma), tendo lâminas longas e guardas elaboradas para proteger as mãos e prender a arma do adversário.

Era uma peça de uso cotidiano de militares e também de civis, mesmo porque a distinção entre civis e militares não era clara nos séculos XVI e XVII. A ética que permeou o período colonial tinha a espada como atributo da nobreza (os plebeus não usavam armas), de forma que os que podiam buscavam adquirir e andar permanentemente com uma espada.

Faca e adaga – Ferramenta de uso quase obrigatório e diário num período em que era o único talher disponível, além de ser empregada em trabalhos rotineiros. Todos carregavam uma adaga ou faca. A adaga de uso bélico também era conhecida como “misericórdia”, termo que vem da Idade Média, quando os cavaleiros carregavam uma adaga para enfiar nas juntas da armadura de um adversário derrotado.

Armas de haste – Um dos artefatos bélicos mais comuns do século XVI na Europa. Devido às características das lutas que aqui se travaram, é possível que não tenham sido comuns no Brasil.

A única arma de haste que aparece em registros históricos do Brasil em números razoáveis era o pique. O Regimento de Tomé de Souza, de 1548, determinava que cada capitão-mor e senhor de engenho tivesse um determinado número de lanças ou chuços (piques).

O pique era uma longa lança, fundamental na Europa para a defesa da infantaria contra a cavalaria, ameaça que não existia no Brasil dos séculos XVI e XVII, justificando a pouca importância desta arma aqui.

Besta – A base das milícias portuguesas desde o século XIII eram os besteiros do conto, cidadãos chamados para o serviço militar que deveriam ser equipados com uma besta de polé. No século XVI as bestas já se estavam em decadência por causa da difusão das armas de fogo.

Tiveram uso no Brasil até a segunda metade do século XVI. A primeira fortificação construída no país, em 1502, foi guarnecida por doze besteiros (de um total de vinte e quatro homens). Uma das primeiras “entradas” feitas, em 1530, era composta por oitenta homens, dos quais quarenta besteiros. O Regimento de Tomé de Souza (1548) determinava que os capitães-mores e senhores de engenho tivessem um número idêntico de armas de fogo e bestas em seus arsenais. Esta é uma das últimas referências ao uso desta arma no Brasil. Os termos do Regimento de Tomé de Souza referentes à defesa foram reeditados em 1612 para o Governador Gaspar de Souza. Neste novo documento as bestas foram substituídas por mosquetes.

Espingarda – Nome genérico das armas de fogo usadas em Portugal no início do século XVI. O termo espingarda já convive com o nome arcabuz em meados do século XVI, como no caso do regimento de Tomé de Souza (1548) que determinava que os capitães eram obrigados a ter “vinte arcabuzes ou espingardas”.

De forma genérica, a arma tinha cerca de 1,2 m a 1,5 m de comprimento e de 4 a 6 kg de peso. Dispava uma bala esférica de chumbo, de 15 a 20 mm de diâmetro, que era capaz de penetrar a maior parte das armaduras usadas na Europa e em todas as proteções disponíveis para os indígenas das Américas.

Arcabuz – Não apresentava diferenças marcantes em relação à anterior, sendo uma arma portátil, de peso por volta de 5 kg e com calibre na faixa de 15 a 20 mm. Seu alcance máximo era de até 800 metros, mas nunca era empregada em distâncias superiores a 150 metros, pois as chances de se atingir um alvo a esta distância eram desprezíveis – mesmo que este fosse muito grande.

Apesar de ser a arma mais utilizada e apropriada para o Brasil dos séculos XVI e XVII, não era a preferida: o mosquete, apesar de mais pesado, dava maior status (e soldo), de forma que estes preferiam ser classificados como “mosqueteiros”.

Mosquete – Arma introduzida no final do século XVI, em função do uso, na cavalaria, de uma armadura reforçada capaz de resistir ao disparo de um arcabuz. Tinha um calibre mais reforçado, sendo mais pesada que o arcabuz. Chegava a pesar 11 kg, com calibre de até 24 mm e um alcance de cerca de 220 metros (embora a possibilidade de acertar a esta distância fosse pequena). Para ser disparada, era usada com uma forquilha.

Apesar do prestígio dessa arma, ela foi desaparecendo ao longo da segunda metade do século XVII, pois a cavalaria abandonou qualquer tentativa de proteção contra as balas dos atiradores. No final do século, o mosquete já tinha sido totalmente substituído pelos arcabuzes, agora rebatizados de espingarda.

Artilharia
Nos navios, empregavam-se as colubrinas como peças de artilharia naval (para afundar outros navios) e os falconetes como artilharia anti-pessoal. É provável que o falconete tenha sido empregado nos bergantins dos colonizadores contra ataques que viessem a sofrer enquanto navegavam pelos rios.

Um falconete.

Hans Staden menciona que fez guarda num posto avançado guarnecido por peças de artilharia, mas não especifica qual tipo de peça. A julgar pelo tipo de inimigos que enfrentavam, provavelmente eram falconetes. O falconete era a mais ligeira das peças de artilharia utilizada a bordo dos navios dos séculos XV e XVI, e a maioria dos navios portugueses que se lançavam ao mar tinham este como armamento.

VIII. Tropas mistas

Para encerrar, é necessário compreender que não há uma oposição entre estes dois conjuntos. Ou seja, não há uma “guerra primitiva contra uma guerra moderna”. Os portugueses precisavam adequar-se ao contexto americano, fazendo alianças e  guerreando no modo nativo. Os indígenas, por sua vez, assimilavam tecnologia fosse pela compra ou toma, fosse pela aliança com inimigos dos portugueses. Para se ter uma ideia, numa bandeira, a proporção de indígenas era sempre maior que a de brancos, quase sempre mais que o dobro.

Indígenas guerreavam entre si tanto quanto europeus guerreavam entre si. O uso de artilharia naval, navios e fortes por parte de portugueses e espanhóis era dedicado exclusivamente ao combate de traficantes, corsários e invasores europeus como os franceses, os holandeses, os ingleses. As tropas indígenas tomavam parte nos combates por todos os lados, e não havia a possibilidade de se guerrear por aqui sem a mescla dos elementos europeus aos nativos.

OUTRAS PARTES DA SÉRIE:

FONTES E REFERÊNCIAS:

Web

Livros, revistas, artigos e entrevistas

O Brasil e o Federalismo

Gostaria de apontar um problema crônico brasileiro: não respeitar seu próprio modelo de governo. Apesar de se chamar República Federativa do Brasil, de federativo não tem muito. Aproxima-se, sim, de um Estado Unitário. E se cada unidade federativa em tese teria certa autonomia legislativa e tributária, a força do governo central cria uma burocracia insuportável. Voltemos, então, ao federalismo.

1. Histórico

Boston Tea Party
Boston Tea Party - O início da revolta

O federalismo é um modelo de governo que praticamente nasceu com os Estados Unidos da América. Em uma época em que as colônias americanas eram sufocadas pelos arbitrários impostos ingleses, o desejo de independência era generalizado. E as colônias esparsas não tinham muita força, então começaram a lutar em conjunto contra a dominação inglesa. Desenvolveram uma constituição que as unisse, mas tomaram cuidado para não acontecer apenas uma coisa: a perda da autonomia de cada colônia. A cultura de cada uma e o modelo de governo deveria ser respeitado, devendo o governo central prover a segurança nacional e a emissão de moedas. Até hoje os estados americanos gozam de autonomia.

2. O excesso de burocracia desnecessária

Todos os Estados desrespeitou: mesmo assim, até hoje é idolatrado.

Querendo adotar modelo parecido, fomos divididos em unidades federativas. Um movimento que começou internamente, por ordens emanadas do centro. O contrário dos EUA, em que o movimento foi de união. Mesmo com isso em mente, fica claro o fracasso de nosso federalismo. A queima da bandeira dos estados por Getúlio demonstra o desrespeito que nutrimos por esse modelo, considerando as unidades federativas meras convenções e divisões territoriais. O sistema aqui criado é cômico:

1) A unidade federativa gera recursos;

2) A unidade federativa os envia à União;

3) A unidade federativa mendiga os recursos que gerou.

É como uma fazenda que produz toneladas de soja, envia para o governo para então mendigar pelo menos alguns poucos quilos do produto que produziu. Burocracia desnecessária e que não garante uma boa alocação de recursos, visto que os estados que mais recebem verbas não necessariamente se desenvolvem. O dinheiro passa por tantas mãos que a corrupção é inevitável.

3. As possibilidades

Que os pais do federalismo nos sirvam de inspiração!

Apesar de bem restritiva, a constituição brasileira prevê certa descentralização da administração. Existem muitas matérias que não são exclusivas da união, apesar de atualmente reguladas por ela. E se existe a proposição de uma reforma tributária, a descentralização da coleta seria um ponto vital: cada Estado taxa de acordo com suas necessidades, enquanto o governo federal recolhe apenas aquilo que é necessário e proveniente dos impostos federais. Se um Estado vê na redução uma oportunidade de crescimento, deve possuir os meios de fazê-lo.

Outro problema é uma CLT engessada. A realidade trabalhista é diferente em cada estado, e isso deve ser respeitado. Estados agrários não devem ter leis semelhantes a estados majoritariamente industriais, visto que suas necessidades e regimes laborais não são os mesmos. A realidade social de cada pequena extensão de terra merece tratamento especial e minucioso.

Um modelo que poderia nos inspirar educacionalmente é o chileno: a municipalização das escolas e universidades. O município engloba a universidade. Brasília está longe. Brasília não conhece a precariedade dos laboratórios, as necessidades dos professores, as condições das bibliotecas, o aprendizado dos alunos. Brasília conhece privilégios e corrupção. O governo é claro em sua política de assistência à base aliada e renegação dos locais governados pela oposição.

4. A descentralização de atribuições

Quem sabe ao invés de um sistema único de saúde, um sistema descentralizado não fosse mais eficaz...

O que ocorre é uma distribuição patética de recursos sendo que todos os estados tem as mesmas atribuições. Existe um excesso de deveres comparado com os recursos que o estado possui. A descentralização é essencial para que cada governo encontre as necessidades gerais e veja o que é mais urgente para seu povo. O que cada povo considera básico.

Ocorre na governança o mesmo que citei no exemplo universitário: de longe, Brasília não conhece as necessidades de cada região. Apenas age com seus tentáculos abocanhando recursos e os distribuindo a seu bel prazer. Um Estado que mantenha para si pelo menos grande parte do que produz pode absorver as atribuições do governo federal e as realizar com muito maior eficácia.

5. A descentralização da cultura

Algo patético que ocorre a tempos é a tentativa frustrada de unificar a cultura brasileira. A cultura de exportação não é a presente em todo o Brasil. Somos um país multicultural que abarca as mais diversas formas de celebração cultural. E todas devem ser respeitadas. O que ocorre hoje no Brasil é uma tentativa de proteção das julgadas excluídas de modo a englobar todas as outras. Desrespeito generalizado.

 

Enfim, para um país do tamanho do Brasil, tamanha burocracia é prejudicial. Propicia a corrupção e evita uma alocação inteligente de recursos. Evita uma prestação eficiente de serviços, dos mais básicos. Evita uma liberalização em locais onde esta seria essencial para uma explosão de crescimento. Mas o lema aqui é igualdade, mesmo que isso signifique que todos devam continuar na merda.