A Conquista do Brasil (Parte VI)

Demorou mas saiu a parte quatro desta série! Hoje vamos tratar de alguns aspectos dos conflitos que se desenvolveram ao longo da conquista do território por parte dos portugueses e luso-brasileiros.

I. Os campos de batalha
A guerra se desenvolve em diferentes tipos de terreno. Tradicionalmente, a guerra ocorre em terra e, com o desenvolvimento da marinha de guerra, na água. Com a invenção dos primeiros balões e aviões, a aeronáutica entra em cena. Em última instância, a guerra também pode ser eletrônica ou informática. Adaptando nossa análise para o contexto da América portuguesa, temos o seguinte:

Terra
Em terra, era de vital importância manter a segurança dos fortes, das vilas e suas roças, das feitorias e postos comerciais, do lado dos colonizadores. Para os nativos, era importante assegurar o território de caça, pesca e coleta, além da aldeia propriamente dita. Os índios tupinambás, por exemplo, entravam em conflito com os portugueses e tupiniquins sobretudo em novembro e agosto, períodos de coleta do abati (milho) e pesca do pirati (tainha). Ao menos uma vez no ano, os jê do interior avançavam para a costa em busca de caju, o que resultava nas guerras do caju. Territórios habitados por guarás, aves de plumas vermelhas usadas para a confecção de indumentárias, eram importantes para o comércio indígena bem como áreas de colheita do algodão.

Além de serem mais numerosos, os nativos viviam de extrativismo e por isso precisavam de áreas de coleta e caça. Disto resulta que a área a ser defendida pelos nativos era muito maior do que aquela de que dependiam os colonizadores: durante muito tempo, a ocupação européia do território brasileiro ficou restrita à costa e este espaço era suficiente para manter a população colonial.

Não haviam Estados formados no Brasil antes da colonização: os europeus e os nativos referiam-se a territórios usando nomes de montanhas, rios ou tribos identificáveis com a região. Exemplos de topônimos tupi-guarani são Araçatuba (terra dos araçás, um tipo de fruto), Iguaçu (rio grande), Guanabara (baía grande) e Ipiranga (rio vermelho). A terra dos mundurucus foi batizada, ao estilo europeu, de Mundurucânia. São facilmente identificáveis demarcações territoriais criadas pelos colonizadores, como as capitanias e sesmarias, as colônias francesas (França Antártica e França Equinocial) e a região de ocupação holandesa (Nova Holanda), bem como a região costeira do Brasil dominada pelos tupis e guaranis, denominada Pindorama.

Na terra, destaca-se um tipo de guerra: expedição de apresamento e guerra de vendeta, realizadas primeiramente entre os índios e depois pelos bandeirantes (em expedições punitivas), e o cerco às vilas fundadas por colonos.

Tropas terrestres
As forças portuguesas eram compostas de colonos armados com bestas (abandonadas em algum ponto entre a segunda metade do século XVI e o início do século XVII), arcabuzes e mosquetes, além da tradicional espada rapieira. Armas de haste como piques e lanças eram raras. Peças de artilharia eram empregadas na defesa de fortificações.

Não havia na época distinção bem marcada entre civis e militares, embora houvesse uma hierarquia, representada pelo capitão. Antes da criação de exércitos nacionais na Europa, o capitão era um nobre responsável pela propriedade, pagamento e comando de uma companhia de militares. O capitão da companhia colocava-a ao serviço do seu senhor feudal ou monarca, em troca de um pagamento.

A cavalaria organizada só viria a surgir com a organização do Regimento de Dragões Auxiliares em Pernambuco, após a guerra contra os holandeses.

Entre os nativos também não havia distinção entre civil e militar.  O armamento típico era o arco e a borduna. Mulheres auxiliavam na logística, como explicado anteriormente, mas há relatos de mulheres guerreiras também. Não haviam rankings militares, sendo a distinção entre os guerreiros feita mais pela glória pessoal do que por uma hierarquia oficial: os índios tupis que sacrificavam mais inimigos no ritual antropofágico adquiriam mais “nomes”, mais esposas e podiam usar mais adereços.

Atribui-se a chegada dos cavalos à região do Prata a dom Pedro de Mendoza, quando fundou pela primeira vez Buenos Aires em 1535, e a Alvar Nuñez Cabeza de Vaca quando trasladou cavalos do Peru para Asunción em 1541. A presença de manadas de cavalo vagando em liberdade na região é atribuída à queda de Buenos Aires, momento em que os cavalos teriam fugido. É difícil estabelecer quando os nativos passaram a usar o cavalo, mas temos um exemplo extremo que mostra o quão bem ele foi utilizado: na segunda metade do século XVIII, calcula-se que os guaicurus tinham cerca de 8 mil cavalos. Ficaram conhecidos como imponentes cavaleiros.

Água
Naturalmente, era importante também a soberania sobre os recursos hídricos, as rotas fluviais e as áreas costeiras. Isto valia tanto para colonizadores quanto para nativos, já que o transporte fluvial era essencial para o comércio de ambos, bem como as áreas de pesca e fontes naturais. No caso dos colonizadores portugueses, era de fundamental importância combater o tráfico realizado por outros europeus (ingleses e franceses) em terras brasileiras. Era comum o enfrentamento com corsários e piratas franceses, por exemplo.

O oceano
Para defender a costa, os colonizadores construíam fortes equipados com muralhas e canhões. Estes tinham por objetivo guardar os portos contra ataques de navios inimigos europeus. Para a defesa da costa, empregavam-se as embarcações à disposição, como o bergantim. Eram armadas com sete peças de artilharia (um falcão e seis berços), de acordo com a ordenança do “Alardo de 1525”. Até que ponto esta padronização era seguida no Brasil, não se sabe ao certo.

Os rios
Nos rios, a embarcação mais utilizada pelos colonizadores portugueses também era o bergantim, embarcação a remos leve, rápida, manobrável e pequena o suficiente para navegar nos principais cursos d’água. Foi muito empregada no combate à pirataria, justamente pela sua manobrabilidade e velocidade. Sua guarnição máxima era de 90 pessoas.

Da parte dos nativos, a única embarcação por eles conhecida era a canoa, que usavam para transporte, comércio e mobilização militar. Há relatos de canoas capazes de transportar até 60 pessoas. Podiam ser facilmente trazidas para a terra, o que aumentava em muito a mobilidade, e relata-se que a sua velocidade era imbatível para as pesadas embarcações europeias.

O uso de “frotas” de numerosas canoas para realizar assaltos às vilas e aldeias rivais era bastante comum. Em sua Carta sobre a fundação de Rio de Janeiro, o missionário José de Anchieta relata um assalto dos tamoios que compreendia mais de oitenta canoas.

Alma
Mais importante do que dominar uma porção de terra e suas hidrovias era manter a população nativa pacificada e aliada aos esforços colonizadores. Seria simplesmente impossível colonizar qualquer porção do continente americano sem estabelecer relações estáveis com os nativos. Um dos instrumentos mais importantes para o estabelecimento destas relações era a conversão dos nativos à fé dos colonizadores.

Católicos
Os primeiros missionários que vieram com Cabral eram franciscanos. Até 1549 os franciscanos foram os únicos missionários no Brasil. A Ordem Franciscana se estabeleceu definitivamente no Brasil somente em 1585.

Em 1549 chegaram à Bahia os seis primeiros Jesuítas, na expedição de Tomé de Souza, tendo como superior o padre Manuel da Nóbrega. Atendiam também fora da Bahia, nas Capitanias próximas.

Outros grupos católicos também enviaram missionários para o Brasil: em 1580 chegaram os Beneditinos e em 1584, os Carmelitas.

Protestantes
Os primeiros protestantes no Brasil foram os calvinistas franceses, que chegaram em uma expedição comandada pelo vice-almirante Nicolas Durand de Villegaignon à Baía da Guanabara em 1555.

Villegaignon entrou em atrito com os calvinistas sobre questões teológicas, reproduzindo nos trópicos o que acontecia na Europa. O pastor Chartier foi enviado à França em busca de instruções e os colonos protestantes foram expulsos da pequena ilha em que a colônia estava instalada (Ilha de Villegaignon). A expulsão colocou os calvinistas em contato direto com os tupinambás, sendo esse evento o primeiro contato missionário protestante com um povo não-europeu.

Em 1630, quando os holandeses conquistam Pernambuco, o calvinismo tem sua vida estendida no Brasil (em 14 capitanias do nordeste) por mais 24 anos, pelo menos até o fim da ocupação em 1654. Com a chegada de Maurício de Nassau, implantam a estrutura religiosa calvinista. Até 1654 foram organizadas 24 igrejas e congregações. A experiência terminou com a derrota holandesa.

Nativos
Os pajés estavam relacionados com os movimentos intra e extratribais das populações nativas. Durante as numerosas migrações tupis-guaranis nos tempos pré-cabralinos, a religião garantiram a dispersão com homogeneidade cultural. Eram mediadores na solução dos problemas intra e extratribais, nos quais a cura das doenças era apenas um dos itens.

Entre os Guarani existiam os caraí, que eram bem mais que pajés. Viviam afastados das aldeias e isolados: não pertenciam a uma comunidade específica. Em certos momentos se dirigiam às aldeias para realizarem longos discursos. Transitavam por qualquer aldeia, inclusive as inimigas de seu grupo de origem. Em muitos casos, eram vistos como heróis reencarnados, homens-deuses ou profetas. Só eles seriam capazes de mobilizar um grupo a sair de suas comunidades, largar para trás suas roças, toda a vida social e partir em busca da “Terra sem Mal”. Por sua vida isolada, eram exteriores à aliança política e aos vínculos de parentesco, o que explica porque eram impedimento aos esforços colonizadores: eles ficavam alheios às alianças firmadas entre europeus e chefes militares indígenas, tanto quanto ficavam alheios ao ‘cunhadismo’.

No século XVI, a atividade dos Caraís ainda não era profética. Porém, muitas vezes sob sua liderança se organizou a resistência à colonização. Algumas das guerras contra os espanhóis foram provocadas e dirigidas por profetas: eles tentaram aproveitar a situação criada pela presença dos estrangeiros para garantir seu poder.

II. Alianças
Os índios reagiram de formas distintas à presença dos europeus, mantendo relações pacíficas como o comércio e a aliança militar e conflituosas como a guerra e a revolta. Para os nativos, índios de uma nação rival ou desconhecida eram tão estrangeiros quanto um português ou francês, e por isto é compreensível que tenham se aliado a europeus no combate a outros americanos.

O apoio indígena foi crucial para a vitória da colonização portuguesa. Com este apoio, contudo, as lideranças indígenas tinham seus próprios objetivos: lutar contra seus inimigos tradicionais, que também se aliavam aos inimigos dos portugueses por idênticas razões.

Alguns exemplos das alianças:

  • Temiminós liderados por Araribóia se aliaram aos portugueses na baía da Guanabara para derrotar os franceses, que por sua vez recebiam apoio dos Tamoios.
  • O chefe tupiniquim Tibiriçá, valioso para o avanço português na região de São Vicente e no planalto de Piratininga, combatia rivais tupis e os “tapuias” Guaianá, além de escravizar os Carijós para os portugueses.
  • O chefe potiguar Zorobabé, na Paraíba e Rio Grande do Norte, aliou-se aos franceses, em fins do século XVI, e aos portugueses, tendo sido recrutado para combater os aimorés na Bahia e até para reprimir os nascentes quilombos de escravos africanos.
  • O potiguar Felipe Camarão combateu os holandeses, os tapuias e os próprios potiguares (como Pedro Poti e Antônio Paraupaba), que ao contrário dele, passaram para o lado holandês.
  • Confederações intertribais, como a Confederação dos Tamoios e a Confederação dos Cariris.

Diversas lideranças pró-lusitanas receberam privilégios como sesmarias e títulos nobiliárquicos, criando-se no Brasil autênticas linhagens de chefes indígenas condecorados pela Coroa por sua lealdade a Portugal.

Alianças com invasores contra os colonizadores também ocorreram. Nações inteiras escolheram por se aliarem aos inimigos dos portugueses. Líderes como Antônio Paraupaba chegaram a residir nos Países Baixos para aprender a língua holandesa. O líder Abaupaba retornaria para os Baíses Baixos com os holandeses e lá ficaria até a morte, ainda atuando na política e buscando reestabelecer uma aliança Holanda-Potiguaras e quem sabe reconstruir o que fora perdido pelos holandeses no Brasil.

III. Tipos de guerra
Dependendo do território em disputa, dos objetivos e das nações envolvidas, distintos tipos de guerra podem ser travados. Podemos elencar os seguintes:

Corso – Corsários e piratas contratados por uma potência colonial assaltam cidades, engenhos e o comércio marítimo de outra potência colonial. Acontece no mar ou na costa.

Expedição– Expedições militares encomendadas pela Coroa para reconhecer e colonizar territórios (entradas) ou de caráter punitivo. Há também as financiadas por particulares para apresamento de índios e busca por bens comerciáveis (bandeiras). Foram bastante empregadas contra aldeamentos missionários e tribos hostis (“gentios bravos”). Ocorriam nas regiões sertanejas, e frequentemente envolviam o domínio das vias fluviais.

Guerra colonial – Disputa entre potências coloniais e seus aliados por territórios ainda não colonizados. Pode ou não envolver tropas nativas, e ocorre geralmente em zonas limítrofes de territórios coloniais.

Guerra indígena – Guerra entre um povo ou confederação de povos indígenas e colonizadores ou colonos. Pode ser uma guerrilha de resistência à colonização, uma revolta, um ataque à uma colônia.

Guerra internacional – Guerra entre duas potências estabelecidas e/ou suas colônias, com fins punitivos ou expansivos. Pode envolver tropas nativas, mas seu objetivo é retaliar a potência colonial inimiga ou tomar seus territórios.

Guerra de independência – Guerra de uma colônia, província ou território buscando emancipação do restante do corpo político (potência colonial, estado nacional, etc).

Guerra colonial indígena – Guerra entre povos indígenas apoiados por potências coloniais. Ocorre quando há um interesse militar comum entre uma nação americana e o colonizador europeu, em qualquer dos lados.

Guerra autóctone – Guerra entre povos indígenas, sem apoio de potências coloniais em qualquer dos lados. É a forma de guerra anterior à chegada dos europeus e que continuou ocorrendo em lugares onde a presença do colonizador não chegava.

O período a ser estudado vai de 1534 até a Independência do Brasil e a consequente fundação do Império, quando então está todo o território submetido à uma administração monárquica típica do mundo ocidental de sua época. O objetivo de restringir o escopo de estudo é excluir dele movimentos e guerras de cunho emancipatório das províncias como a Inconfidência Mineira, a Conjuração Baiana, ou a Revolução Farroupilha. Estes, apesar de representarem alterações potenciais e significativas no território do Brasil, não representam um conflito entre “conquistadores” ou colonizadores, uma vez que estas áreas já estavam colonizadas e já compartilhavam de uma história comum com outros brasileiros ou lusos.

OUTRAS PARTES DA SÉRIE:

FONTES E REFERÊNCIAS:

Web

Livros, revistas, artigos e entrevistas

Olha o buraco!

Ao ouvir falar em Paraguai, o que vem à mente de um brasileiro?

Corrupção, contrabando de armas e cigarros, compras baratas, falsificações diversas de produtos, papel moeda? Reportagens policiais envolvendo agentes federais brasileiros? Enfim, uma série de conceitos sobre um país muito menor que o Brasil em área territorial, população, economia e desenvolvimento de infraestrutura.

Frequentemente, é notícia nos jornais brasileiros, normalmente nas páginas policiais que relatam as ações da polícia brasileira na repressão ao contrabando de armas, cigarros e demais produtos adquiridos no país guarani. Produtos estes que se tornam protagonistas de um crime “horrível”, “hediondo” simplesmente por não terem sido “declarados” junto a um posto da Receita Federal na fronteira ou no aeroporto e que estão sujeitos a cotas, limites de valores que permitem sua entrada no Brasil sem a obrigatoriedade de pagamento de taxas e impostos.

O Paraguai da violência, do clima de tensão entre os brasileiros proprietários de terras paraguaias que vivem próximos da fronteira, chamados de “brasiguaios” e os cidadãos natos do país, dos assassinatos políticos, da própria instabilidade política que somente agora, no início deste século, começa a se reduzir, após um período de regime ditatorial que durou 35 anos, de 1954 a 1989, em que o General Alfredo Stroessner governou o país com mãos de ferro.

General Alfredo Stroessner Matiauda, o chefe de Estado que por mais tempo permaneceu no poder, dentre os países da América Latina, além de Fidel Castro: 35 anos – 1954/1989. Deixou o Paraguai, após sofrer um golpe de Estado liderado pelo General Andrés Rodriguez, em direção ao Brasil e faleceu no exílio em Brasília, no ano de 2006

O Paraguai que teve dois terços de sua população masculina adulta mortos durante a conhecida Guerra de La Triple Alianza (Guerra do Paraguai – 1864/1870) contra Brasil, Argentina e Uruguai (Tríplice Aliança apoiada pela Inglaterra), de diversos regimes ditatoriais, guerras civis, golpes de Estado, que teve a predominância absoluta do Partido Colorado no poder, até a eleição, em 2008, do socialista ex-bispo católico Fernando Lugo, da Alianza Patriotica para El Cambio (APC), um dos partidos oriundos do antigo rival dos colorados, o Partido Liberal, da posição neutra adotada durante as Guerras Mundiais.

E por que não, o Paraguai futebolístico do lendário goleiro-artilheiro José Chilavert, Carlos Gamarra (conhecido entre palmeirenses, corintianos e colorados do “Inter” de Porto Alegre), Roque Santa Cruz, Salvador Cabañas (baleado na cabeça durante uma confusão que se envolveu numa casa noturna no México mas que se recuperou e já pensa num retorno ao futebol)? Do eterno rival do Cerro Porteño (“El Ciclone” – o maior time em número de torcida), Olimpia, conhecido como “El Rey de Copas” ou simplesmente “El Rey” entre os paraguaios, campeão da Libertadores e Mundial de 1991? Olimpia é o único campeão da Recopa Sulamericana (título disputado em duas partidas no sistema “ida e volta” entre o campeão da Libertadores e o campeão da Super Copa dos Campeões da CONMEBOL – sendo esta última, substituida pela Copa Sulamericana – do ano anterior) até hoje sem ter disputado essa partida, já que, no ano anterior, em 1990, fora campeão de ambos os torneios da mesma CONMEBOL (Confederación Sudamericana de Fútbol), entidade ligada à FIFA responsável pelo futebol sulamericano com sede na cidade de Luque.

José Chilavert, Carlos Gamarra, Roque Santa Cruz e Salvador Cabañas

Quartel-General da Confederação Sulamericana de Futebol (CONMEBOL). À direita, o Hotel Bourbon, na cidade de Luque, Departamento Central

Ou o Paraguai de Larissa Riquelme, modelo famosa graças a um programa de reality show de um canal de televisão local, a cantora Perla, que vive no Brasil desde os anos 70, José Asunción Flores, um dos maiores nomes do país, compositor da famosa canção “Índia”, interpretada por diversos artistas brasileiros como Roberto Carlos até os dias atuais e também o grande criador do rítmo musical “guarânia”, retratando a natureza heróica do povo paraguaio, sendo o mais importante fenômeno musical do século XX no país? Um rítmo lento, melancólico, em contraposição à Polca Paraguaia, mais agitada e rápida, como na canção “Galopeira”, igualmente regravada e interpretada por artistas brasileiros?

José Asunción Flores (morto em 1972), Perla (foto de 1980) e Larissa Riquelme

Tem-se ainda, o Paraguai da rede de supermercados Ycuá Bolaños, onde uma de suas unidades de Asunción, na esquina da Avenida Santissima Trinidad com Avenida Artigas, no Bairro Trinidad fora palco de uma das maiores tragédias ocorridas no país dos últimos 50 anos, ocorrida em agosto de 2004, com um incêndio seguido de duas explosões que levou sete horas para ser controlado pelos Bombeiros. Em meio ao pânico que tomou conta do local, os donos do estabelecimento decidiram fechar as portas para evitar que as pessoas saissem sem pagar pelas mercadorias. O resultado: 370 mortos e mais de 500 feridos. Em Caazapá, cidade vizinha a Asunción, local de nascimento do fundador da rede de supermercados Juan Pio Paiva, há um santuário em homenagem às vítimas e, segundo a crença popular, sua fonte de água possui propriedades curativas. Em 2008, todos os envolvidos, inclusive Juan Paiva e seu filho Victor Daniel, gerente da loja e o chefe de segurança que fechou as portas, Daniel Areco e o acionista Humberto Casaccia foram condenados a penas de prisão de 12, 10, 5 e 2 anos, respectivamente, por homicídio negligente e exposição de pessoas ao perigo no trabalho.

Santuário de Ycuá Bolaños

Entrada permitida somente aos familiares das vítimas

Pode-se perceber, a partir dai, que o Paraguai, país sem litoral, de sete milhões e trezentos mil habitantes (10% vivem na capital Asunción), com área pouco maior que o estado brasileiro do Mato Grosso do Sul, sem dúvidas, é muito mais do que “compras”, “contrabando”, ou a sensação de “terra sem lei”. Na verdade, há dois (ou até mais) Paraguais em um só. Um, evidentemente, dos crimes violentos, atentados e ameaças políticas, de todos os demais aspectos negativos que recebem “vistas grossas” de autoridades do outro lado da fronteira, existente nas proximidades da mesma com o Brasil. E outro, feito de uma nação culturalmente riquíssima preservadora de tradições autóctones indígenas, onde 90% dos nativos são bilingues, falantes do guarani (idioma autóctone) e do espanhol, ambos idiomas oficiais. O Paraguai é o único país da América Latina em que a maioria, quase a totalidade de seus habitantes fala o idioma autôctone, em conjunto com o idioma do colonizador. Tradições culturais nativas estas que, de forma alguma, entram em contraste com a herança colonial deixada pelos espanhóis. Uma nação em que o alimento é variado, ambundante e não sofre incidência de impostos, grandes regulamentações, podendo ser produzido livremente, em todas as extensões de terras, sem restrições maiores. Um país único em vários aspectos.

Tererê – bebida típica paraguaia, extremamente popular e consumida, feita de água – diferente do chimarrão, é sempre gelada -, erva-mate (Ilex paraguariensis) ou sucos de hortelã (Mentha arvensis), limão, cedrón (Lippia citriodora), cocú (Allophylus edulis) e outras mais

“Termo” – acessório portátil para o consumo do tererê, fácil de ser encontrada com transeuntes nas ruas e dentro de veículos, cujo revestimento pode ser feito de vários materiais como couro ou plástico, além de comumente personalizado com nomes, desenhos, escudos de times de futebol e até fotos de entes queridos do dono. O recipiente maior é uma garrafa térmica com biqueira para se colocar e conservar água gelada, enquanto que o menor é a guampa (também térmica) com a bomba (normalmente feita de alumínio)

Mesmo uma maioria da população vivendo com uma baixa renda, se comparada à média brasileira, não se observa no Paraguai indivíduos famintos, nem em locais mais afastados dos maiores centros, como ocorre no Sertão do Nordeste brasileiro. Evidente que há pobreza no país, porém são bem poucos os mendigos pelas ruas de Asunción, considerada uma das capitais mais seguras da América Latina no que diz respeito a crimes violentos, à exceção de alguns elementos etilistas desocupados (bêbados vagabundos), “batedores de carteira” ou assentados reinvidicantes de terras. Em vez de pedintes, é comum ver pelas ruas (não somente em semáforos de cruzamentos de avenidas) pessoas vendendo frutas, legumes e até tasers para defesa pessoal. O IDH da cidade de Asunción é de 0,837 contra 0,841 da maior e mais rica cidade brasileira, São Paulo. Desconfia-se ainda, que os paraguaios evitam declarar sua renda real, a fim de evitar problemas com o governo, mesmo que as taxações de impostos, em geral, não ultrapassem os 13%, em qualquer situação ou objeto.

Notas de Guarani, a moeda paraguaia. As cédulas de 500 e 1000 foram substituidas pelas plastificadas de 2.000 guaranis. Pela cotação atual (2011/2012), um real brasileiro equivale aproximadamente a 2.250 guaranis. O dólar americano também é muito utilizado, especialmente para compras à vista de eletrônicos, veículos e demais bens de valor considerável

A sonegação de impostos é muito comum, porém não chega a ser um crime punível com cadeia na prática, muito diferente do que ocorre no Brasil. No máximo, o cidadão pode sofrer algumas restrições financeiras ou civis como aquisição de propriedades. Na prática, “só paga imposto quem quer” e nem mesmo o Poder Público parece flertar com alguma mudança quanto a isso. Talvez pelo fato da torneira não ser tão aberta e faltar justamente “poder” econômico necessário para fiscalizações.

Em bastante comuns dias muito quentes, moradores de favelas de Asunción, em especial uma que fica bem próxima ao Palácio de Los López (sede do governo paraguaio), costumam sentar-se ao ar livre, conversar com vizinhos, tomando tererê (paixão nacional, mais que a cerveja no Brasil) enquanto as crianças brincam livremente pelas ruas. Não há o temor de uma tensão iminente de uma possível troca de tiros entre traficantes ou com a polícia, embora saiba-se que alguns deles estão por ali. Não se percebe maiores hostilidades nos olhares com a presença de carros (que são dos mesmos tipos encontrados em qualquer outro lugar da cidade), inclusive da própria polícia. E, claro, pequenos negócios comerciais (não-ilegais) não faltam. É possível tomar uma cerveja tranquilamente e conversar com os locais, inclusive, sobre política. Sim, o povo paraguaio, morador de favela, é muito mais politizado que o brasileiro nas mesmas condições ou até melhores. Mas não sobre partidos e sim por idéias. E o liberalismo ali é latente, mesmo que não saibam exatamente o que isso significa, na teoria. Sabem bem o que é, na prática.

O salário mínimo paraguaio é de G$ 1.650.000,00 (guaranis) ou R$ 733,00 pela cotação aproximada atual. Na maioria dos estabelecimentos, há uma placa com essa informação pública, sobre o mínimo que é pago aos funcionários que ali trabalham. Porém, por não haver leis trabalhistas burocráticas, a maioria dos contratos é feita individualmente e o cidadão opta por benefícios oferecidos pelo empregador ou dinheiro em espécie. O mínimo pode ser reduzido, caso o empregado opte pelos benefícios. Tem o segundo maior salário mínimo da América do Sul, superado apenas pela Argentina que paga o equivalente a R$ 996,00 e também é o segundo em Paridade do Poder de Compra, igualmente atrás da Argentina. Dados da OIT de 2009.

O país investe muito pouco em propaganda externa. Propositalmente. Não parece desejar grandes investimentos estrangeiros como grandes indústrias. A demanda por emprego é baixa, devido à população reduzida. Porém, os sábios indígenas temem que a presença maciça de indústrias poderá acarretar prejuizos ambientais, desvalorização das já comercialmente baratas terras, riquíssimas em recursos naturais, especialmente água e a consequente elevação do custo de vida. Possuem extremo apego às suas terras e não somente do ponto de vista material ou comercial. Consideram mais vantajoso permanecer importando quase todos os produtos que consomem, principalmente do Brasil e da Argentina e manter a autossuficiência somente em bens de primeira necessidade (arroz, ervas para tererê, carne, demais alimentos) também sejam produzidos dentro do próprio país. Não há qualquer tipo de tributação sobre alimentos, importados inclusos. Os preços de produtos alimentícios industrializados são bem próximos entre nacionais e importados. As carnes consumidas no país são puras e de primeira qualidade pois não há seleção obrigatória de peças feita pelo governo para exportação.

O cidadão paraguaio consome a carne de seu lomito, uma espécie de sanduíche gigante feito de carne bovina que necessariamente deve ser preparada sem gordura e nervos, ficando por conta do cliente a adição de ingredientes como molhos, grãos de milho, ervilha, temperos, etc. no formato self service, vendidos em lanchonetes ou barracas (chamadas de lomiterias) que substitui o “cachorro quente” no Brasil. Carne, mesmo na mais humilde lomiteria, servida sem aqueles “nervos”, gordura, sebo ou cartilagens, comuns nas carnes brasileiras para consumo interno. Outras iguarias típicas locais são a chipaguazú, uma torta feita de milho, queijo, creme de leite; os empanados de carne, que popularmente substituem os pastéis brasileiros, porém com uma massa mais grossa e a sopa que, apesar do nome, come-se com garfo e faca.

Lomito – substitui o “cachorro-quente” brasileiro – uma delícia!

Chipaguazú – pode ser consumido com pães, torradas ou no prato com arroz

Empanados de carne – melhor que pastel!

O Paraguai possui quatro operadoras de telefonia celular GSM: Claro, Hola, Tigo e Personal. Um a mais do que países maiores e mais populosos como Argentina e México que possuem três cada um. Em relação à area para cobertura de sinal e o contingente populacional, a disputa de mercado é mais acirrada que nesses países, o que se reflete também na grande variedade de marcas de demais produtos (quase todos importados de vários países). E a presença de uma grande concorrência é mais um fator que torna os produtos comercializados no Paraguai, em média, 50% mais baratos que no Brasil. Comprovado na prática.

Não há dados oficiais do governo que separam a população por etnia ou raça, já que o órgão responsável pelas estatísticas e censos não inclui esse item. Apenas contabilizam o número de indígenas “puros” que vivem nas florestas do Chaco Ocidental, em torno de 40.000 (dados de 2002) ou algo em torno de 1,8% da população. Portanto, mesmo com uma grande variedade étnica, composta de descendentes de espanhóis, italianos, alemães, brasileiros, árabes e comunidades indígenas mais isoladas que sequer falam o espanhol, somente o guarani, a possibilidade de uma guerra étnica é praticamente nula, diferente do que ocorre na vizinha Bolívia e, em menor grau, no Brasil. Ou seja, no Paraguai não há cotas raciais e todos, de fato, têm os mesmos direitos e deveres no que tangem suas etnias. Não há sequer um precedente para que haja tais cotas.

A capital respira comércio, liberdade individual, civil e econômica, em meio a uma infraestrutura deficiente de pavimentação de ruas e do transporte, sob um governo esquerdista e, por definição, contrário a uma economia mais livre. Mesmo em bairros onde vivem políticos (incluindo a própria residência presidencial, localizada em avenida de grande movimento), diplomatas e militares das Forças Armadas, bem como os quartéis, não é difícil encontrar ruas esburacadas e mal conservadas. Algumas nem mesmo asfaltadas. Mas isso não parece incomodar muito aos munícipes.

Vista a partir do alto do prédio do Shopping Mariscal López, o principal de Asunción

Típico coletivo assuncenho

Restaurantes, danceterias, cassinos (proibidos no Brasil) por vários pontos de Asunción. Mulheres atraentes paradas na porta dos cassinos oferecendo cigarros aos clientes. Há fumódromos abertos e fechados nos shoppings, onde é possível tanto tomar uma cerveja quanto comer lanches do McDonald’s, enquanto se fuma cômoda e tranquilamente um cigarro, sem maiores infortúnios. Fumódromos, inclusive, mantidos e patrocinados por marcas de cigarro como o Palermo. Não há proibição expressa para fumar em coletivos, embora por educação, os fumantes paraguaios evitem. . E se o fazem é de forma a não incomodar muito aos demais. É algo como não furar filas de bancos ou de terminais de ônibus. A boa notícia é que ninguém ouve “funk” ou qualquer outra porcaria rebolante imbecilizante em coletivos sem o devido fone de ouvido. Não há uma paranóia antitabagista, o que pode ser percebido assim que se desembarca do avião no Aeroporto Silvio Pettirossi, principal do país: um enorme banner luminoso com propaganda da marca Camel, sem falar nos inúmeros outdoors da Marlboro, Palermo e outras marcas, espalhados pela cidade. O cigarro é considerado um símbolo do capitalismo, juntamente com a Coca Cola e o McDonald’s.

FUCK OFF, José Serra, Dráuzio Varella e demais antitobs paranóicos!

Por falar em Coca Cola, as garrafas mais vendidas são as de 2,5 litros. A preço de uma latinha vendida em pontos de consumo final imediato de 350 mililitros no Brasil: R$ 3,00 ou G$ 6.750,00 (guaranis). Produzida no Paraguai mesmo. Levemente mais doce que a Coca Cola brasileira, o que também tem uma explicação: o clima muito quente do país. Coca Cola para ser tomada com gelo, sem perder muito o gosto.

O contraste entre a frota de antiquíssimos ônibus e os modernos carros importados do Japão e da Alemanha, cuja maioria dos modelos sequer existe comercialmente no Brasil, é notório. Carros estes que a população, mesmo de baixa renda, possui um relativo acesso mais facilitado, em relação ao brasileiro médio, com o detalhe em que o paraguaio não valoriza a idade do veículo e sim apenas a sua funcionalidade. Não faz questão de ter sempre um “carro novo na garagem”. Modelos brasileiros circulando pelas ruas de Asunción como VW Gol, Fiat Uno, entre outros populares, existem. Mas são muito poucos, nos dias atuais. Diferente de até os anos 80, quando o Paraguai vivia um certo isolamento econômico nas mãos de Stroessner e que carros brasileiros roubados eram diuturnamente trazidos ao país. Havia demanda a ser suprida, já que o Paraguai nunca produziu carros. Hoje, com o mercado absolutamente aberto, a presença de carros roubados brasileiro diminuiu bastante e a preferência e predominância é das marcas japonesas: Mitsubishi, Nissan, Toyota, Honda e também a coreana Hyundai, fabricados nos anos 90 e início dos 2000, embora haja vários modelos dessas marcas fabricados após esses anos sob propriedade de pessoas nem tão abonadas assim.

Veículos de todos os anos, todos os modelos disponíveis. Por não ter indústrias próprias, montadoras de veículos, portanto, sem a possibilidade de formação de cartéis, aliado às baixas incidências de impostos, a diferença de preço dos carros comercializados no país e no Brasil é bem acentuada. Não há o conceito de “carro popular”, a não ser quando se refere a carros brasileiros. Pode-se utilizar tanto o dólar americano quanto o guarani para aquisição de veículos, bem como para comprar qualquer coisa, até um simples chocolate em barra ou uma garrafa de Coca Cola. Parte dos carros utilizados no país é produzida no Chile, na Argentina ou importada diretamente da Alemanha e do Japão. Alguns japoneses chegam às ruas ainda com a direção invertida (no lado direito), em “english way”. Não é raro ver um nessas condições nas ruas. E não há qualquer obrigação regulamentar do proprietário em converter o veículo. A maioria opta por converter apenas por mera conveniência e facilidade pelo fato do país não adotar a “mão inglesa” no trânsito. Quase todos os veículos, seja qual for a marca, ano ou modelo, possuem ar condicionado e direção hidráulica. O aparelho de ar condicionado é praticamente um item obrigatório, tanto nos carros quanto nos aposentos de residências, já que o clima de Asunción registra temperaturas acima dos 40°C com facilidade.

Além dos tasers para defesa pessoal sendo vendidos livremente por ambulantes nas ruas, a aquisição de armas de fogo é extremamente fácil e sem burocracias. É possível comprar pistolas “.40”, “9mm”, espingardas “calibre 12” e outras armas consideradas “de uso exclusivo das Forças Armadas” no Brasil até mesmo em supermercados, junto com frutas, verduras, legumes, enlatados e engarrafados, bastando apresentar um documento de identidade (pela lei paraguaia, é necessário ser cidadão paraguaio) e um atestado de “bons antecedentes criminais”. Não é exigido qualquer tipo de exame ou teste. Há lojas especializadas em armas em qualquer canto de Asunción, bem como em outras cidades com as mesmas facilidades.

A compra dessas armas no “mercado negro” só possui as vantagens de ter um preço menor e uma variedade maior, incluindo armas mais pesadas como metralhadoras, fuzis israelenses como o Uzi, americanos como AR-15 e brasileiros como o FAL, além de alemães como o Luger e o austríaco Glock, sendo esses dois últimos, o “filé” desse mercado, cujos preços, variam de acordo com sua disponibilidade.

A maioria das armas é fabricada nos Estados Unidos e na Europa. O Brasil suspendeu a venda de armas para o comércio paraguaio em 1999. Os únicos contratos mantidos com fabricantes brasileiros estão nas Forças Armadas e na Polícia. Supõe-se, a partir dai, que as armas acessíveis aos cidadãos possam ser bem melhores que aquelas utilizadas pela polícia paraguaia.

Polícia esta que é unificada em todo o país, chamada de “Polícia Nacional”. Não há polícias estaduais. Ao menos na capital, viaturas policiais estão sempre presentes na maioria das esquinas e ruas. Dizem os habitantes locais que é para “agarrar una pelota“, ou seja, conseguir uma extorsão diante de alguma irregularidade (com outra irregularidade, do ponto de vista legal) mas que, no final, faz com que a lei acabe sendo cumprida, afinal, ninguém quer ser extorquido.

Esta pode ser uma das explicações para o fato da cidade de Asunción ser bem segura, em relação às demais capitais da América Latina. Tão segura que é absolutamente normal e comum cidadãos entrarem e sairem de bancos com enormes quantias de dinheiro em espécie, em maletas e sacolas, de saques (não criminosos, evidentemente) ou para depósitos sem serem importunados por quem quer que seja, o que seria impraticável no Brasil, devido ao alto grau de violência e banditismo. Seguranças de bancos, casas de câmbio e lojas comerciais quase sempre estão armados com fuzis e escopetas de grosso calibre, naturalmente exibindo-os. Andar à noite pelo centro da cidade não é tão tenso como seria em qualquer cidade brasileira de médio ou grande porte. A rejeição ao desarmamento civil é quase que unânime. Na verdade, sequer é pauta de discussões, possível reflexo histórico dos temores de invasões territoriais que caracterizaram a própria formação do Estado paraguaio e que ficou embutido no próprio jeito de ser do cidadão nativo.

No campo político, entre golpes de Estado e levantes populares, o Paraguai esteve dominado há mais de um século pelo Partido Colorado, de orientação conservadora e nacionalista, com exceção de alguns poucos períodos e, ininterruptamente no poder por mais de 60 anos (boa parte deles como o único partido legalizado) até a eleição do atual presidente Fernando Lugo, da Alianza Patriotica para El Cambio (APC), partido de centro-esquerda, de orientação progressista, em 2008.

A vitória de Lugo foi uma consequência direta das trapalhadas administrativas de seu antecessor, o último presidente colorado Nicanor Duarte, o único não-católico (Duarte é protestante) a governar o país em toda a História. Apesar de estar num partido conservador, Duarte possui tendências bem esquerdistas. Criticou e rechaçou o porcamente chamado “neoliberalismo“, fez oposição à ALCA e sempre foi bem próximo de Lula, Chávez e Kirschner, embora tenha recebido críticas de dirigentes latinoamericanos por ter permitido tropas americanas em território paraguaio, a fim de realizar exercícios militares em conjunto, além da construção de base militar americana a fim de combater o narcotráfico e o terrorismo islâmico na Tríplice Fronteira. Além de exercer dois cargos simultaneamente (presidente do país e de seu partido), o que é proibido pela Constituição paraguaia, apesar de ter sido autorizado pela Suprema Corte de Justiça, ainda tentou uma manobra constitucional para incluir a reeleição presidencial, a exemplo de FHC no Brasil. Porém, ao contrário do presidente brasileiro, o plano de Duarte, que por essas e outras, já não contava com o apoio de quase nenhum de seus partidários, incluindo seu vice-presidente, não deu certo. Um protesto de aproximadamente 40 mil pessoas (lideradas por Fernando Lugo, então Monsenhor de San Pedro) em frente à residência presidencial demonstrou todo o repúdio ao então presidente, abrindo caminho para a eleição do agora ex-bispo.

Os últimos presidentes do Paraguai de 1954 a 2008 e o vice-presidente eleito Luis Maria Argaña, assassinado a tiros em 1999. Argaña era vice de Raul Cubas Grau, o qual foi acusado, juntamente com o General Lino Oviedo (que no ano seguinte, em 2000, tentaria um golpe de Estado com militares rebelados, chegou a ser preso pela Polícia Federal brasileira em Foz do Iguaçu e retornou ao país em 2004), como os mandantes do crime; Em 2003, Luis Macchi sofreu um processo de impeachment por desviar US$ 16 milhões dos cofres públicos mas o processo foi rejeitado pelo Senado paraguaio por 25 votos a 45, sendo necessário mais 5 votos para completar os dois terços. Pelo menos, alguém “pensou” em retirar um corrupto do poder democraticamente (e por muito menos do que um certo petista), ao contrário de “uns e outros”!

Pai biológico de uma criança, comprovado por exame de DNA em 2009, resultado de um relacionamento com Viviana Carrillo que nasceu em 1983, levantando suspeitas de que esse relacionamento tenha existido quando Viviana ainda era menor de idade, Fernando Lugo hoje enfrenta um câncer linfático que, no momento, parece estabilizado e também o afastamento político-ideológico de seu vice-presidente, Federico Franco, do Partido Liberal Radical Autentico (PLRA), cada vez mais discordante de seus posicionamentos e decisões. O Senador do PLRA Juan Carlos Ramirez Montalbetti acusa Lugo de ligações com grupos guerrilheiros que atuam na Tríplice Fronteira, como o EPP (Exército do Povo Paraguaio).

Mesmo sem exercer as funções clericais na Igreja Católica, mas ainda bispo, portanto ligado à entidade religiosa, Lugo se candidatou e venceu as eleições de 2008 com 40% dos votos contra 30% de Blanca Ovelar (Partido Colorado) e os demais votos divididos entre o polêmico General Lino Oviedo, o direitista liberal Pedro Fadul e outros (não há segundo turno no Paraguai). A lei paraguaia proibe que autoridades religiosas concorram a cargos eletivos, exigindo a desvinculação no ato da concorrência. Tomou posse em 15 de agosto daquele ano, duas semanas após o Papa Bento XVI ter aceitado oficialmente a renúncia ao estado eclesial, solicitado pelo próprio Lugo. Foi o primeiro bispo católico a ser eleito chefe de Estado em toda a História do mundo.

Apesar de ter tido grande apoio popular no início de seu governo, fatos como o aparecimento de Viviana Carrillo reclamando a paternidade de seu filho a Lugo e principalmente, o fato de Lugo ter ocultado e mentido sobre esse outro fato têm deixado a população dividida entre os que ainda apóiam suas decisões e os que o criticam duramente. Houve ainda outros dois relatos que não excluem a possibilidade de mais mulheres com queixas exigindo o reconhecimento de paternidade de seus filhos. De fato, o presidente não está tendo vida fácil no governo.

Fernando Lugo, ex-bispo católico, adepto à Teologia da Libertação, pai biológico do filho de Viviana Carrillo (e, provavelmente, de outras crianças filhas de outras mulheres), atual presidente do Paraguai, eleito em 2008 com 40% dos votos contra 30% da segunda colocada, a colorada Blanca Ovelar. Nota: o antivírus do meu computador detectou “ameaça”, no exato momento que fui baixar a foto do cidadão acima! =P

A política paraguaia não parece ter grandes influências sobre a população, desde sempre, acostumada a viver por si só, sem os assistencialismos estatais como “Bolsa Família” no Brasil. Até o habitante mais simples de uma favela entende que deve aprender a se manter desde cedo, mesmo que seja com um simples negócio próprio, uma barraca comercial. Por terem um grande apreço pela liberdade, pela propriedade e o temor de ver seu custo de vida subir, preferem viver alheios à política (mas não às idéias). Contudo, não significa que deixarão o campo aberto para qualquer intento “progressista”. Prova disso é que o presidente Fernando Lugo, que enfrenta uma oposição ferrenha do Partido Colorado (ainda, disparadamente o maior do país) não consegue engatar quase nenhum dos projetos antiliberais, embora segundo o próprio Lugo, sua principal meta seja a questão energética do país e a revisão do Acordo de Itaipú com o Brasil e, ironicamente, as melhorias das relações diplomáticas com o “grande satã capitalista imperialista malvadão duzinferno” Estados Unidos da América. Um sinal claro de que o governo tem a ciência de não conseguir arrecadar verbas extorquindo a população com impostos. A reação pode ser violenta.

Eis uma possível conclusão que se pode tirar de uma viagem de alguns dias ao Paraguai, regada a conversas com locais, depoimentos e constatações próprias in loco. E o que resta da volta ao Brasil, além dos produtos adquiridos, câmeras, videogame, cigarros, cerveja argentina, alguns trocados de guaranis e dólares? A horrível sensação de um alemão oriental ou soviético dissidente dos respectivos regimes em ser deportado de volta ao seu país de origem. Impedido de se defender por si só, já que o Estado se outorga na exclusividade do fornecimento da segurança, pagar tributos abusivos dos quais não se vê nenhum retorno, conviver com cartéis, monopólios, proibições absurdas, regulamentações escrotas, patrulha do politicamente correto antitabagista, gayzista, feminista, abortista, desarmamentista de um povo que muito tem a aprender com os vizinhos guaranis.

MONEY!!! O “troquinho” que sobrou da viagem!

Time to go home! Aeroporto Silvio Pettirossi (ASU), na cidade de Luque

A pergunta que fica: ainda vale a pena trocar a liberdade (civil, econômica), o poder de compra por uma suposta segurança não garantida pelo Estado, uma rua mais “bonitinha”, sem buracos ou um ônibus novinho em folha?