O cristão pode usar armas de fogo, reagir e se proteger?

Texto originalmente publicado no blog “Reação Adventista“. Para ler na página original, clique aqui

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Alguns cristãos acreditam que seria errado buscar a autoproteção e reagir à agressões físicas, principalmente utilizando armas de fogo. Um dos textos utilizados para se defender essa concepção passiva em relação à agressões está em Mateus 5:39-41. Nesse texto, Jesus afirma: “Mas eu lhes digo: Não resistam ao perverso. Se alguém o ferir na face direita, ofereça-lhe também a outra. E se alguém quiser processá-lo e tirar-lhe a túnica, deixe que leve também a capa. Se alguém o forçar a caminhar com ele uma milha, vá com ele duas”.

Bom, se Jesus foi literal ao dizer estas palavras, devemos considerar que elas se estendem para todo e qualquer tipo de agressão sofrida. Isso quer dizer que, embora Jesus tenha dado apenas três exemplos, devemos aplicar o pensamento a outros. Sendo assim, segue-se que: (1) Se alguém vier com um pedaço de pau, te der uma cacetada na cabeça e você não desmaiar, ofereça o outro lado da cabeça também; (2) Se alguém vier com um caco de vidro e te cegar um olho, ofereça o outro olho também; (3) Se você é uma menina e um rapaz vem te beijar à força, ofereça outro beijo; (4) Se uma pessoa do seu mesmo sexo que você quiser te beijar à força, também deixe e ofereça outro beijo; (5) Se um estuprador quiser te violentar…

Como fica claro, interpretar as palavras de Jesus como sendo literais traz implicações nefastas. E essas implicações não parecem possuir qualquer ligação com os preceitos cristãos, tampouco possuem alguma utilidade racional. Ao contrário, quando interpretamos Mateus 5:39-41, estamos dizendo que os cristãos devem assumir uma postura de covardia e desvalorização da própria vida, o que não são virtudes cristãs. O cristão, como criatura de Deus, deve zelar por sua vida, a qual não pertence a si mesmo, mas é um dom de Deus. Deve ainda cultivar a coragem em todos os sentidos, já que a própria Palavra ensina que de fora do céu ficarão os covardes (Ap. 21:8). Ser corajoso, no sentido cristão, é não permitir que o medo nos paralise e nos impeça de fazer nossas obrigações. Isso inclui, evidentemente, a obrigação de proteger nosso corpo, nossa saúde, nossa vida, bem como nossa família, nosso próximo e nossos bens (sim, os bens, já que eles também provém de Deus).

Alguém poderá argumentar aqui que os mártires entregaram seus corpos e suas vidas em nome de Cristo e que, portanto, não seria correto tomar uma atitude de proteção da própria vida. Talvez até me citem Mateus 16:25: “Pois quem quiser salvar a sua vida, a perderá, mas quem perder a vida por minha causa, a encontrará”. A argumentação não é válida. Em primeiro lugar, porque eu não estabeleci a autoproteção como princípio máximo. Há ocasiões em que o sacrifício do próprio corpo ou da própria vida será necessário a fim de alcançar um bem maior. A autoproteção vigora como princípio básico apenas enquanto não há nada mais importante que a sua própria vida em jogo. No momento em que sua vida se torna secundária em função de algo superior, o sacrifício não só é permitido como é a cosia certa a se fazer. Num caso desse, negar a sua vida torna-se egoísmo. Essa é, aliás, a argumentação que faz G. K. Chesterton (grande pensador cristão) em um trecho de “Ortodoxia”, onde pontua a diferença entre um mártir e um suicida. Em um dos parágrafos ele afirma:

“O suicídio não só constitui um pecado, ele é o pecado. E o mal extremo e absoluto; a recusa de interessar-se pela existência; a recusa de fazer um juramento de lealdade à vida. O homem que mata um homem, mata um homem. O homem que se mata, mata todos os homens; no que lhe diz respeito, ele elimina o mundo”. Na sequencia, Chesterton continua enfatizando o quão hediondo é o suicidio e então confronta o suicidio com o martírio cristão:

“Obviamente um suicida é o oposto de um mártir. Um mártir é um homem que se preocupa tanto com alguma coisa fora dele que se esquece de sua vida pessoal. Um suicida é um homem que se preocupa tão pouco com tudo o que está fora dele que ele quer ver o fim de tudo. Um quer que alguma coisa comece; o outro, que tudo acabe. Em outras palavras, o mártir é nobre, exatamente porque (embora renuncie ao mundo ou execre toda a humanidade) ele confessa esse supremo laço com a vida; coloca o coração fora de si mesmo: morre para que alguma coisa viva. O suicida é ignóbil porque não tem esse vínculo com a existência: ele é meramente um destruidor. Espiritualmente, ele destrói o universo”.

Então, não, não existe contradição entre o principio da autoproteção e o martírio cristão. O que existe são ocasiões distintas. Há ocasiões em que o martírio suplanta a autoproteção porque o que está em jogo é algo mais importante que a vida. E o que seria mais importante que a nossa própria vida? A lealdade a Deus é o maior exemplo. A vida de um filho geralmente é colocada num patamar acima da autoproteção também. E há quem nobremente coloque sua proteção em risco em prol de pessoas doentes ou em situação de perigo. A isso se chama amar ao próximo. Parafraseando Chesterton, quem age dessa maneira está morrendo para que algo viva.

Infelizmente, às vezes a autoproteção implicará a morte do agressor. Mas não se trata aqui de um caso de assassinato. O mandamento de Deus proíbe o assassinato, que seria um homicídio por motivo torpe ou vingança. Mas Deus outorga o direito de tirar a vida de outro ser humano quando esta é a única maneira de sobreviver a um ataque do mesmo. Isso é legítima defesa. Aliás, abro parênteses para ressaltar que Deus também outorga o direito de tirar vidas ao Estado, quando determinada sociedade resolve que crimes hediondos devem ser punidos com a pena capital. Há quem pense que a pena de morte é proibida pela Bíblia. O fato, no entanto, é que a Bíblia joga essa questão para o âmbito civil, a ser resolvida pela sociedade. Não há qualquer condenação da pena capital nas Escrituras. No Antigo Testamento ela era prescrita na sociedade israelita para alguns crimes. E no Novo Testamento, as poucas passagens que mencionam o assunto, deixam claro que o assunto é de âmbito civil. Em Atos 25:11, por exemplo, Paulo afirma: “Contudo, se fiz qualquer mal ou pratiquei algum crime que mereça a pena de morte, estou pronto para morrer. Mas, se não são verdadeiras as acusações que me afrontam esses homens, ninguém tem o direito de me entregar a eles. Portanto, apelo para César!”. Já em Romanos 13:3-4: “Porque os magistrados não são para temor, quando se faz o bem, e sim quando se faz o mal. Queres tu não temer a autoridade? Faze o bem e terás louvor dela, visto que a autoridade é ministro de Deus para teu bem. Entretanto, se fizeres o mal, teme; porque não é sem motivo que ela traz a espada; pois é ministro de Deus, vingador, para castigar o que pratica o mal”. Em suma, ser contra ou a favor da pena de morte não é irrelevante no tocante à vida cristã, pois não é discussão de cunho religioso, mas civil. Os argumentos, portanto, devem ser de outra natureza que não teológica.

Mas voltando ao texto de Mateus 5, é importante ressaltar que Jesus costumava a usar analogias para enfatizar suas verdades. Algumas delas recorriam à imagens absurdas para impactar as pessoas. Por exemplo, em Mateus 5:29-30 lemos: “Se o teu olho direito te leva a pecar, arranca-o e lança-o fora de ti; pois te é mais proveitoso perder um dos teus membros do que todo o teu corpo ser lançado no inferno. E, se tua mão direita te fizer pecar, corta-a e atira-a para longe de ti; pois te é melhor que um dos teus membros se perca do que todo o teu corpo seja lançado no inferno”. É evidente que esse texto não é literal, pois a automutilação é um pecado. Jesus jamais a receitaria como método para vencer outro pecado. O que Jesus faz aqui é utilizar uma hipótese absurda para enfatizar que, na verdade, só há uma alternativa: abandonar o pecado. As analogias feitas por Jesus em Mateus 5:39-41 são do mesmo tipo; não devem ser entendidas literalmente. A essência do ensinamento de Jesus é bem clara e simples: não devemos procurar vingança pessoal contra as pessoas, mesmo que elas nos causem grandes danos.

Outro texto utilizado pelos cristãos defensores da passividade se encontra em Mateus 26:52, onde Pedro recebe uma advertência de Jesus ao tentar defendê-lo dos  soldados romanos no Jardim das Oliveiras: “Guarde a espada! Pois todos os que empunham a espada, pela espada morrerão”. Esse texto, inclusive, é o preferido de cristãos que acreditam ser um pecado possuir armas de fogo. O que se deve perceber aqui é que essa assertiva de Jesus não é um mandamento geral para todas as pessoas de todas as épocas em todas as situações. Na verdade, a assertiva de Jesus é bem mais específica para o contexto do que os cristãos passivos supõem. Vamos analisar.

Em primeiro lugar, a preocupação central de Jesus não é com o fato de que Pedro está armado, nem com o uso que o mesmo faz da arma para enfrentar o soldado que prendia Cristo. A preocupação central de Jesus está no fato de que Ele possuía uma missão clara e que não poderia ser frustrada: morrer pela humanidade. Em outras palavras, ele precisava se entregar. Qualquer pessoa que, naquele momento, intentasse salvá-lo estaria se tornando literalmente um obstáculo aos planos de Deus. O contexto do da própria passagem de Mateus deixa isso claro. Nos versos que se seguem Jesus afirma: “Acaso, pensas que não posso rogar ao meu Pai, e Ele me mandaria neste momento mais de doze legiões de anjos? Como, no entanto, se cumpririam as Escrituras, segundo as quais assim deve suceder?” (Mateus 26:53-54). Aqui Jesus deixa claro que está se deixando prender porque faz parte de sua missão. Cristo está literalmente dizendo: “Não quero sua ajuda, Pedro. Eu vim exatamente para isso”.

A mesma ideia é expressa de modo mais direto no evangelho de João. Ele relata o episódio da seguinte maneira: “Mas Jesus disse a Pedro: ‘Mete a espada na bainha; não beberei, porventura, o cálice que o Pai me deu?'” (João 18:11). Ou seja, a parte central da repreensão é que Pedro estava lutando contra os planos de Deus. O problema não estava no uso da espada, mas no momento, que era inoportuno. Marcos, ao narrar a mesma cena, sequer vê a necessidade de relatar a repreensão de Jesus feita a Pedro. Limita-se a descrever: “Nisto, um dos circunstantes, sacando da espada, feriu o servo do sumo sacerdote e cortou-lhe a orelha” (Marcos 14:47). Já Lucas resume a repreensão de Cristo na seguinte frase: “Mas Jesus acudiu, dizendo: ‘Deixai, basta’. E, tocando-lhe a orelha, o curou” (Lucas 22:51). Em suma, nenhum dos textos oferece qualquer margem para que Jesus estivesse fazendo uma teologia antirreação e antiarmas. Supor isso é forçar os textos a dizerem o que eles não dizem; enfatizar nos textos o que eles não enfatizam; deixar de lado o que realmente os escritores bíblicos querem chamar a atenção no evento narrado.

Em segundo lugar, quando Cristo afirma que “todos os que empunham a espada, pela espada morrerão”, deve-se ter em mente o contexto histórico da época. Israel vivia sob domínio do Império Romano, cujo poderio militar era incrivelmente grande. Roma tinha poder para massacrar qualquer grupo de rebeldes que desejasse. Se, portanto, os discípulos iniciassem seu ministério empunhando espadas por aí, rapidamente seriam vistos por Roma como rebeldes. Principalmente se esses discípulos viessem a matar algum soldado romano. O resultado disso seria, sem dúvida alguma, um rápido extermínio por parte do Império. As palavras de Jesus estavam, na verdade, traçando uma distinção entre a missão de um soldado e a missão de missionário. A missão do soldado é lutar fisicamente e o seu fim geralmente é a morte pelas próprias armas que utiliza. A missão do missionário, entretanto, era viajar por centenas de lugares pregando o evangelho. Longe de estar condenando a missão de um soldado, Jesus estava apenas enfatizando que os discípulos não eram soldados, mas missionários. Não há como ser as duas coisas. Não por haver alguma contradição moral, mas por haver uma incompatibilidade de missões.

Se os discípulos fossem caraterizados e rotulados, desde o início, como uma organização paramilitar, não teriam sequer um momento de paz para pregar o evangelho. O império romano, historicamente, perseguiu os cristãos não de maneira initerrupta, absoluta e geral, mas sim de maneiras localizadas no tempo e no espaço. Houve períodos e lugares com forte perseguição, mas também períodos e lugares em que os cristãos gozaram de liberdade. Mas isso só se deu porque os cristãos não eram soldados. Se fossem, o império romano teria sido absolutamente implacável desde o início, em todos os lugares e o tempo todo. O resultado teria sido a morte do cristianismo logo no seu surgimento.

Ademais, se os discípulos tivessem se caracterizado como soldados, o evangelho adquiriria um caráter distorcido, não mais de uma transformação espiritual e de um volver da mente às coisas celestiais, mas sim de luta política e militar, de guerra terrena, de batalha física, de revolta, conquista e ambição. Tal distorção era, aliás, o que havia tomado conta da teologia judaica sobre o Messias. Os judeus esperavam justamente um Messias político-militar, com uma frota de soldados fieis, que comandaria a destruição dos romanos e a libertação terrena de Israel. A militarização dos discípulos só faria consolidar esta ideia, dando ao evangelho a mesma significação que “revolta civil”, “revolução” e “luta armada”. Neste sentido, deixaria de ser uma fonte de salvação espiritual para ser meramente um movimento terreno por libertação efêmera. E um movimento desses, longe de criar gerar transformação interior e de ligar os homens intimamente a Deus, geraria lutas vis e homens que se uniriam ao movimento unicamente por razões terrenas e até egoístas. Talvez aqui deva-se enfatizar que esta foi a grande diferença entre o cristianismo e o islamismo em suas origens. Enquanto o cristianismo se inicou com missionários, interessados unicamente em pregar a salvação por meio do sacríficio de Cristo Jesus, o islamismo se iniciou com soldados interessados em coisas diversas. A diferença é notável.

Em suma, Jesus não queria que Pedro ou seus demais discípulos fossem soldados, mas missionários. A expansão da Igreja necessitava disso. Cristo necessitava de homens dispostos a abnegar até mesmo seus direitos mais básicos, como o da autoproteção e o da reação, a fim de unicamente anunciar o evangelho e manter intacto o caráter do mesmo. O contexto exigia isso. E ser missionário requer essa abnegação.

De tal fato não se pode depreender que todas as pessoas devem ser missionárias. Missionário, no senso estrito da palavra, é aquele que trabalha integralmente com o evangelho. Este é totalmente guiado pela missão evangelítica. Ele não pregará onde mora; morará onde precisa pregar. Ele não pregará para onde viaja; viajará para onde precisa pregar. Se precisar trabalhar, ele trabalhará para sustentar sua missão. Não pregará onde trabalha, trabalhará onde precisa pregar. O missionário estará pronto para abnegar todos os seus direitos/desejos se for necessário. Talvez o sonho de fazer faculdade, de ser juiz, de ir à Disney, de morar na Suíça, de ser rico, de casar, de ser um jogador de futebol. Ele não é mais um homem da sociedade. Ele é um ambulante, um peregrino, um nômade de futuro incerto que se movimenta em função de sua missão. O missionário é o oposto do homem cristão da sociedade, que desempenha a missão evangelística de acordo com as raízes que fincou na sociedade.

Ambos, no entanto, são importantes. O homem cristão da sociedade precisa existir justamente porque precisa compor a sociedade. A sociedade carece de cristãos espalhados por ela, com suas raízes fincadas, com suas relações na família, na vizinhança, na escola, no trabalho e etc. Nem só de nômades se faz o cristianismo. Além do mais, são os homens da sociedade que, com seu trabalho e sua fixidez social, financiam o trabalho do missionário. Para que haja missionário em tempo integral é necessário haver o cristão da sociedade. Para que haja recursos suficientes para a missão é necessário haver o cristão da sociedade. Repare que os discípulos tornaram-se nômades, mas as igrejas que plantavam em cada região eram feitas de cristãos da sociedade. Nem todo mundo nasceu para ser missionário. Nem todo mundo nasceu para ser cristão de sociedade. Cada qual tem sua importância nos planos de Deus. O evangelho deve ser pregado por ambos, mas as funções são distintas.

Aqui fica clara a distinção. O missionário, ao abnegar direitos dados ao cristão de sociedade, acaba por ter de abnegar também o uso de armas para autoproteção e reação. Como já dito, ele encontrou ali um contexto em que sua vida já não é mais prioridade. As armas tornam-se inconvenientes e o sacrifício, a única opção viável. Tal como ocorreu com Jesus.

Em suma, não há como utilizar o texto de Mateus 26:52 para sustentar que seria pecado buscar autoproteção ou reagir a agressões físicas. A passagem deve ser entendida dentro de seu contexto bem específico, no qual: (1) Pedro não deveria sacar sua arma naquele momento, pois Cristo necessitava morrer pelo ser humano; (2) os discípulos não deveriam parecer um grupo paramilitar, a fim de não distorcerem o caráter do evangelho, nem serem vistos pelo Império Romano como uma ameaça; (3) os discípulos não deveriam ser soldados, mas como missionários, abdicando de alguns direitos legítimos para pregar o evangelho intensa e integralmente, espalhando-o pelo mundo. Interpretar além disso é forçar o texto.

O cristão passivo pode tentar argumentar ainda com base em algumas ideias extraídas da Bíblia tais como: “O cristão deve ter fé em Deus e não em armas para protegê-lo”, ou ainda: “O cristão não deve agredir ninguém, mas amar”. Ora, essas ideias são distorções das Escrituras. Analisemos a primeira. Apela-se para a fé em Deus para protegê-lo. É óbvio que devemos ter fé em Deus sempre, mas isso não nos proíbe, tampouco nos exime de fazer a nossa parte. Se a fé em Deus nos desobrigasse de tomar medidas para nossa proteção, não faria sentido trancar a porta de casa com chave, ter extintor no carro, usar cinto de segurança, comprar um computador com garantia de fábrica, guardar pertences valiosos em um cofre, ir ao médico e etc. Na verdade, o próprio Jesus diz a Satanás: “Não tentarás o Senhor teu Deus”. E o texto bíblico que afirma: “Se o Senhor não guardar a cidade, em vão vigia a sentinela” (Salmo 127:1), não exclui a necessidade de um sentinela, embora ele nada possa se Deus não estender sua proteção. O mundo que Deus criou funciona por meio de leis naturais. Não devemos viver nele como se vigorasse a magia. Na vida real devemos fazer a nossa parte à todo o momento. Deus fará a dEle. Ter uma arma ou aprender artes marciais podem ser atitudes importantes para se proteger ou proteger a outros. Não há qualquer passagem bíblica que desabone esse tipo de conduta. Pelo contrário, trata-se de algo prudente. E Deus poderá salvar pessoas através disso, inclusive.

Quanto à segunda ideia, perceba que ela distorce o amor. É evidente que amar não implica permitir que coloquem em risco sua vida ou a vida de alguém ao redor. Imagine que você está andando na rua e encontra um sujeito tentando se aproveitar de sua filha. Qual será sua postura? Deixar que o sujeito abuse de sua filha, alegando que precisa amá-lo e não agredi-lo? Ou tentará salvar sua filha, apartando-o com sua força física ou algum instrumento de proteção? Tenho certeza de que sua postura será a segunda. Não é diferente quando se trata de nossa própria vida em jogo. É perfeitamente possível ser um cristão amoroso, perdoador e que ajuda ao próximo, mas, ao mesmo tempo, que reage quando sua vida ou a vida de pessoas ao seu redor está em perigo.

Enfatizo que toda essa reflexão se refere à autoproteção e não ao uso da violência como forma de vingança, justiça própria e retaliação. A Bíblia é bem clara ao dizer que não devemos nos vingar, no âmbito moral, pois a “vingança” pertence a Deus. E, no âmbito civil, também não devemos buscar justiça com as próprias mãos, pois cabe ao Estado julgar, através do corpo de leis vigentes e de juízes preparados para isso. O próprio princípio do Antigo Testamento “olho por olho, dente por dente”, não passava de uma regra jurídica aplicada apenas por juízes, após um julgamento formal, para determinados tipos de crimes – a saber, crimes de agressão física à inocentes ou falso testemunho (Êxodo 21:22-25, Levítico 24:19-20 e Deuteronômio 19:15-21). Aliás, a crítica de Jesus, no Sermão do Monte, ao princípio “olho por olho, dente por dente” não se referia a sua aplicação jurídica, a qual era legal, mas sim à sua aplicação no âmbito moral. Em outras palavras, muitos utilizavam o princípio como uma justificativa para odiar e retaliar, buscando vingança e justiça com as próprias mãos. Jesus, portanto, faz uma clara distinção entre princípio jurídico e princípio moral, estabelecendo que, no âmbito moral, o individuo deveria estar pronto para liberar perdão, e no âmbito jurídico, deveria deixar o julgamento e a punição à cargo dos juízes. Essa deve ser a postura cristã.

É curioso como que cristãos que sustentam a passividade gostam de pintar um “Jesus Cristo paz e amor” que jamais faria nada agressivo. Um colega chegou mesmo a me dizer, dia desses, que não conseguiria imaginar Jesus andando com uma Ak-47. Pois creio que esses cristãos nunca devem ter lido Apocalipse, por exemplo, que descreve Jesus voltando com uma espada que mata todos os ímpios da terra. A cena é simbólica, claro, mas o morticínio não. E a imagem utilizada para simbolizar essa terrível e gigantesca punição derradeira é justamente a de Jesus armado. Não com uma Ak-47, já que esse tipo de armamento não existia à época que João escreveu o Apocalipse. Mas com uma espada. Sim, a espada, a arma antiga, a arma utilizada pelos exércitos israelitas ao longo de todo o Antigo Testamento. A arma utilizada pelos discípulos enquanto andavam com Jesus. A arma com a qual todo o homem protegia a sua família de perigos. A arma que todo mundo tinha.

Demonizar a autoproteção e os meios com os quais pode-se torná-la efetiva não é uma postura que encontre base bíblica, tampouco lógica. Quando fazemos isso, encontramos inúmeras incoerências pela frente. Uma delas se refere ao próprio trabalho da polícia. Ora, se proteger e reagir são dois pecados e todos deveriam ser passivos em relação aos agressores, então todos os policiais estão em pecado. Sob essa interpretação, a atividade policial é, em si mesma, pecaminosa, imoral, anticristã, pois se baseia justamente em proteger e reagir. Posso imaginar um policial que tenha acabado de se tornar cristão e vê um homem agredindo fisicamente uma mulher. Ele corre para defendê-la, mas então se lembra: “Cristo me ensinou a não reagir”. Então, com a consciência tranquila, deixa que a mulher morra nas mãos de seu agressor. Será mesmo que foi isso que Cristo ensinou? Certamente não! E, sem dúvida, o raciocínio serve para qualquer cidadão. É dever do cristão estar disposto a reagir e proteger, sempre que a situação não requerer a passividade. Fugir a essa obrigação é ser covarde. E os covardes, como já dito, não herdarão o Reino dos Céus.

Concluímos, portanto, que não há absolutamente nenhum ponto na Bíblia em que seja proibido ao cristão buscar a autoproteção, reagir à agressões físicas e utilizar armas para isso. A questão das armas (e atualmente, das armas de fogo) não é uma discussão teológica, mas uma questão civil. A Bíblia não proíbe, como também não impõe, cabendo à sociedade julgar se deve possuir o direito de portar armas ou não.

Indicação de leitura: “Mentiram para mim sobre o desarmamento”

Mentiram para mim

Prezados leitores, queremos indicar nesse post a leitura da obra “Mentiram para mim sobre o desarmamento”, de Flávio Quintela e Bene Barbosa. O livro é, sobre todos os aspectos, espetacular. Conta com argumentos lógicos e dados estatísticos sólidos baseados em fontes seguras e fáceis de consultar. Além disso, a linguagem é muito leve e simples, os capítulos são curtos e o tema é exposto de modo muito objetivo.

Mesmo que você seja a favor do desarmamento da população, leia esse livro. É importante você saber o que o outro lado diz, da boca das próprias pessoas que o defendem. Garanto que, no mínimo, você terá uma visão bem diferente da importância desse debate após a leitura. E como eu disse, não é leitura enfadonha. A obra é bem gostosa de ler e até quem lê devagar e não tem tempo, consegue terminá-la em cinco dias.

Para quem já é a favor do direito de o cidadão honesto portar armas, leia e divulgue amplamente essa obra. Por que isso é tão importante? Porque não estamos falando aqui apenas de uma mera questão de opinião. Há dados estatísticos sólidos demonstrando que o armamento do cidadão honesto é um importante fator na redução da criminalidade violenta e na proteção do povo contra governos com intenções escusas. E o Brasil hoje necessita muito dessas duas coisas.

Então, leiam, divulguem e até comprem para presentear outras pessoas. As informações desse livro precisam ser conhecidas pela galera. É importante. Até para que tenhamos um debate legítimo de ideias.

A arma é civilização

Maj. L Caudill USMC (Ret)

 

Manifestação do Major L. Caudill – Corpo de Fuzileiros Navais dos EUA – USMC

As pessoas só possuem duas maneiras de lidar umas com as outras: pela razão e pela força. Se você quer que eu faça algo para você, você tem a opção de me convencer via argumentos ou me obrigar a me submeter à sua vontade pela força. Todas as interações humanas recaem em uma dessas duas categorias, sem exceções. Razão ou força, só isso. Em uma sociedade realmente moral e civilizada, as pessoas somente interagem pela persuasão.
A força não tem lugar como método válido de interação social e a única coisa que remove a força da equação é uma arma de fogo (de uso pessoal), por mais paradoxal que isso possa parecer.
Quando eu porto uma arma, você não pode lidar comigo pela Força. Você precisa usar a Razão para tentar me persuadir, porque eu possuo uma maneira de anular suas ameaças ou uso da Força.
A arma de fogo é o único instrumento que coloca em pé de igualdade uma mulher de 50 Kg e um assaltante de 105 Kg; um aposentado de 75 anos e um marginal de 19, e um único indivíduo contra um carro cheio de bêbados com bastões de baseball.
A arma de fogo remove a disparidade de força física, tamanho ou número entre atacantes em potencial e alguém se defendendo.

Há muitas pessoas que consideram a arma de fogo como a causa do desequilíbrio de forças. São essas pessoas que pensam que seríamos mais civilizados se todas as armas de fogo fossem removidas da sociedade, porque uma arma de fogo deixaria o trabalho de um assaltante (armado) mais fácil. Isso, obviamente, somente é verdade se a maioria das vítimas em potencial do assaltante estiver desarmada, seja por opção, seja em virtude de leis – isso não tem validade alguma se a maioria das potenciais vítimas estiver armada.
Quem advoga pelo banimento das armas de fogo opta automaticamente pelo governo do jovem, do forte e dos em maior número, e isso é o exato oposto de uma sociedade civilizada. Um marginal, mesmo armado, só consegue ser bem sucedido em uma sociedade onde o Estado lhe garantiu o monopólio da força.
Há também o argumento de que as armas de fogo transformam em letais confrontos os que de outra maneira apenas resultariam em ferimentos. Esse argumento é falacioso sob diversos aspectos. Sem armas envolvidas, os confrontos são sempre vencidos pelos fisicamente superiores, infligindo ferimentos seríssimos sobre os vencidos.
Quem pensa que os punhos, bastões, porretes e pedras não constituem força letal, estão assistindo muita TV, onde as pessoas são espancadas e sofrem no máximo um pequeno corte no lábio. O fato de que as armas aumentam a letalidade dos confrontos só funciona em favor do defensor mais fraco, não do atacante mais forte. Se ambos estão armados, o campo está nivelado. A arma de fogo é o único instrumento que é igualmente letal nas mãos de um octogenário quanto de um halterofilista.

Elas simplesmente não funcionariam como equalizador de Forças se não fossem igualmente letais e facilmente empregáveis.
Quando eu porto uma arma, eu não o faço porque estou procurando encrenca, mas por que espero ser deixado em paz. A arma na minha cintura significa que eu não posso ser forçado, somente persuadido. Eu não porto arma porque tenho medo, mas porque ela me permite não ter medo. Ela não limita as ações daqueles que iriam interagir comigo pela razão, somente daqueles que pretenderiam fazê-lo pela força. Ela remove a força da equação. E é por isso que portar uma arma é um ato civilizado.
Então, a maior civilização é onde todos os cidadãos estão igualmente armados e só podem ser persuadidos, nunca forçados.

Porte de armas: defesa, um direito humano.

Não amo a espada pelo seu fio, nem a flecha pela sua rapidez, nem o guerreiro pela sua glória. Eu amo somente aquilo que eles defendem.
J. R. Tolkien, em As Duas Torres

A primeira pergunta que muitas pessoas fazem é: “Por que armas?” Alguns perguntam mais genericamente, “por que defender o porte de armas?” A resposta não é simples, mas é lógica. Vejamos.

Nós, humanos, temos uma invejável posição no topo da cadeia alimentar. Ainda que alguns indivíduos ocasionalmente sejam predados por animais, estamos seguros enquanto espécie, exceto de nós mesmos. Sendo um onívoro de bom tamanho, chegamos à esta posição através do nosso uso de ferramentas. Ferramentas não se limitam às armas: como espécie, nós somos definidos como feitores e utilizadores de ferramentas.

Também, felizmente, a maioria dos humanos está disposta a cooperar com os outros. Entretanto, as exceções à esta maioria são suficientes para fazer o porte de armas uma necessidade para o resto. A agressão humana ocorre em dois níveis: individual e organizada. Vamos considerá-las separadamente.

Tornar-se adulto envolve aprender a respeitar os outros e assumir a responsabilidade por nossas próprias ações. A maioria das pessoas aprende essas habilidades e aprecia os valores em que a coexistência pacífica é um princípio. Infelizmente, uma minoria de pessoas, menos de 2%, nega-se a se comportar de maneira civilizada. Comportamento civilizado, no propósito de nossa discussão, poderia ser descrito como agir com humanidade para com os outros, mesmo que nenhuma punição seja aplicada quando se está agindo de maneira mesquinha.

Alguns seres humanos vis não se detém em prejudicar os outros por qualquer consideração. Tais pessoas são, felizmente, muito raras e eventualmente aparecem nas notícias policiais. No entanto, a maioria destes indivíduos, inclusive os que consideramos loucos, se comportam racionalmente, mesmo na busca de objetivos irracionais. Tais pessoas pesam os custos e benefícios de suas ações e assim tentar escolher as vítimas que não podem revidar ou resistir.

Aqui chegamos ao primeiro benefício da posse de armas. Você pode não estar armado, mas aquele que quer prejudicá-lo, seja por prazer ou por fins lucrativos não têm nenhuma maneira de saber isso. Com o tempo, correm um risco real de atacar acidentalmente uma pessoa armada. Dessa forma, a tradição geral de ser capaz de resistir ao mal lhe proporciona alguma proteção por mimetismo de proteção. Na natureza, um animal inofensivo poderia imitar uma espécie mais agressiva e, assim, coibir os supostos predadores.

Da mesma forma, os predadores que selecionam as vítimas com base na incapacidade para resistir, muitas vezes desistem quando até mesmo um pequeno número das marcas de periculosidade (ex.: cores fortes, espinhos) são visíveis. Por exemplo, onde se sabe que algumas mulheres andam armadas, todas as mulheres se beneficiam da redução no número de tentativas de estupro e outros crimes violentos. O fato de não haver diferenças externas que indicam se pessoa está indefesa ou não deixa a todos nós mais seguros.

Ninguém no seu perfeito juízo, seja um humano pacífico ou um predador, gostaria de um tiroteio. A segurança dos seres humanos melhora muito quando predadores têm de entrar em combate para conseguir o que querem, sem garantia de vitória, e com um grave risco para a sua pele. O conceito de paz através da capacidade de vencer uma guerra pode parecer insolente, mas o sentimento é baseada na razão.

Assim como um predador individual age em seu interesse próprio, também o fazem organizações e Estados. Historicamente, as ações do governo contra grupos minoritários têm sido motivadas pela ganância, a intolerância religiosa ou étnica, a necessidade de encontrar bodes expiatórios e muitas outras razões igualmente desagradáveis. As consequências para os civis que não puderam se proteger, como os huguenotes parisienses em 1572 ou os judeus poloneses em 1939 ou a intelligencia do Camboja em 1975, foram invariavelmente catastróficas. Considerando a freqüência e a eficiência cada vez maior de genocídios, contar o número de vítimas é impraticável.

Alguns dizem que pela simples capacidade de resistir ao mal nos tornamos o mesmo mal que combatemos. Essa visão iguala a iniciação de agressão com a defesa de si e da família. Na minha humilde opinião, os dois não são iguais. Proteção de inocentes é uma causa nobre. Falhar em planejar ou omissão, quando necessário, não é nobre mas simplesmente irresponsável. Isto leva à extinção e incentiva os predadores a vitimar outros além de nós.

Estar seguro não significa que todos nós devemos colocar arame farpado em volta de nossas casas, colocar minas no gramado da frente e sentar-se atrás de janelas e sacos de areia para antecipar-se às tropas hostis. Levar vidas direitas, pacíficas, ser bom para os outros, trabalhar para melhorar a nós mesmos e o mundo faria muito para melhorar nossa segurança. No entanto, assim como a boa saúde não depende só da abundância de excercício ou de uma boa dieta, a segurança não depende apenas de estar armado ou ser um humano decente. Cada um é um componente essencial do todo.

Estar armado não significa que temos medo do nosso ambiente. Simplificando, estar preparado reduz a predação criminal a um problema resolvido. Afinal, ter sabonete no banheiro não indica um medo paranóico de germes, apenas o reconhecimento de um problema e uma solução pronta para ele. Da mesma forma, carregar uma arma para evitar problemas é razoável. Rebocar um canhão atrás de seu carro seria esforço excessivo em relação aos riscos moderados que enfrentamos.

Na cabeça de alguns, as armas estão ligadas a assassinato e outras utilizações ilegais. No entanto, as pessoas raramente veem gasolina, fósforos, arame, ou facas de cozinha como instrumentos de violência. As pessoas estão familiarizadas com os objetos do cotidiano e sabem que eles não são máquinas de matar. A vontade de matar é o ingrediente primordial no número de homicídios. Sem isto, nenhuma arma iria levantar-se para prejudicar um ser humano.

Condicionamento pela televisão ou jornais é o que faz com que alguns vejam cada arma como uma tragédia. O noticiário da noite muitas vezes mostra uma foto de uma arma, mesmo quando se fala de uma surra que envolveu os socos e pontapés. Sem uma base real para comparação, é fácil supor que armas de fogo são dotadas de poderes sobrenaturais. Afinal, se o nosso entendimento de computadores fosse baseado em Hollywood, não viveríamos com medo de robôs assassinos e grandes conspirações?

O uso criterioso de ferramentas complexas separa os seres humanos de todas as outras espécies. Jogar fora uma dos nossos principais realizações evolutivas por medo equivocado é como querer um cérebro menos desenvolvido para facilitar o parto. A perda de funcionalidade para nós como seres humanos seria muito maior do que qualquer ganho potencial com esta troca.

Um verdadeiro soldado não luta porque odeia o que tem na sua frente, mas porque ama o que tem atrás de si.
G. K. Chesterton

Tradução e adaptação do artigo “Fight, Flight or Surrender?” do blog A Human Right por Renan Felipe dos Santos. Para ler o artigo original em inglês, clique aqui.

Olha o buraco!

Ao ouvir falar em Paraguai, o que vem à mente de um brasileiro?

Corrupção, contrabando de armas e cigarros, compras baratas, falsificações diversas de produtos, papel moeda? Reportagens policiais envolvendo agentes federais brasileiros? Enfim, uma série de conceitos sobre um país muito menor que o Brasil em área territorial, população, economia e desenvolvimento de infraestrutura.

Frequentemente, é notícia nos jornais brasileiros, normalmente nas páginas policiais que relatam as ações da polícia brasileira na repressão ao contrabando de armas, cigarros e demais produtos adquiridos no país guarani. Produtos estes que se tornam protagonistas de um crime “horrível”, “hediondo” simplesmente por não terem sido “declarados” junto a um posto da Receita Federal na fronteira ou no aeroporto e que estão sujeitos a cotas, limites de valores que permitem sua entrada no Brasil sem a obrigatoriedade de pagamento de taxas e impostos.

O Paraguai da violência, do clima de tensão entre os brasileiros proprietários de terras paraguaias que vivem próximos da fronteira, chamados de “brasiguaios” e os cidadãos natos do país, dos assassinatos políticos, da própria instabilidade política que somente agora, no início deste século, começa a se reduzir, após um período de regime ditatorial que durou 35 anos, de 1954 a 1989, em que o General Alfredo Stroessner governou o país com mãos de ferro.

General Alfredo Stroessner Matiauda, o chefe de Estado que por mais tempo permaneceu no poder, dentre os países da América Latina, além de Fidel Castro: 35 anos – 1954/1989. Deixou o Paraguai, após sofrer um golpe de Estado liderado pelo General Andrés Rodriguez, em direção ao Brasil e faleceu no exílio em Brasília, no ano de 2006

O Paraguai que teve dois terços de sua população masculina adulta mortos durante a conhecida Guerra de La Triple Alianza (Guerra do Paraguai – 1864/1870) contra Brasil, Argentina e Uruguai (Tríplice Aliança apoiada pela Inglaterra), de diversos regimes ditatoriais, guerras civis, golpes de Estado, que teve a predominância absoluta do Partido Colorado no poder, até a eleição, em 2008, do socialista ex-bispo católico Fernando Lugo, da Alianza Patriotica para El Cambio (APC), um dos partidos oriundos do antigo rival dos colorados, o Partido Liberal, da posição neutra adotada durante as Guerras Mundiais.

E por que não, o Paraguai futebolístico do lendário goleiro-artilheiro José Chilavert, Carlos Gamarra (conhecido entre palmeirenses, corintianos e colorados do “Inter” de Porto Alegre), Roque Santa Cruz, Salvador Cabañas (baleado na cabeça durante uma confusão que se envolveu numa casa noturna no México mas que se recuperou e já pensa num retorno ao futebol)? Do eterno rival do Cerro Porteño (“El Ciclone” – o maior time em número de torcida), Olimpia, conhecido como “El Rey de Copas” ou simplesmente “El Rey” entre os paraguaios, campeão da Libertadores e Mundial de 1991? Olimpia é o único campeão da Recopa Sulamericana (título disputado em duas partidas no sistema “ida e volta” entre o campeão da Libertadores e o campeão da Super Copa dos Campeões da CONMEBOL – sendo esta última, substituida pela Copa Sulamericana – do ano anterior) até hoje sem ter disputado essa partida, já que, no ano anterior, em 1990, fora campeão de ambos os torneios da mesma CONMEBOL (Confederación Sudamericana de Fútbol), entidade ligada à FIFA responsável pelo futebol sulamericano com sede na cidade de Luque.

José Chilavert, Carlos Gamarra, Roque Santa Cruz e Salvador Cabañas

Quartel-General da Confederação Sulamericana de Futebol (CONMEBOL). À direita, o Hotel Bourbon, na cidade de Luque, Departamento Central

Ou o Paraguai de Larissa Riquelme, modelo famosa graças a um programa de reality show de um canal de televisão local, a cantora Perla, que vive no Brasil desde os anos 70, José Asunción Flores, um dos maiores nomes do país, compositor da famosa canção “Índia”, interpretada por diversos artistas brasileiros como Roberto Carlos até os dias atuais e também o grande criador do rítmo musical “guarânia”, retratando a natureza heróica do povo paraguaio, sendo o mais importante fenômeno musical do século XX no país? Um rítmo lento, melancólico, em contraposição à Polca Paraguaia, mais agitada e rápida, como na canção “Galopeira”, igualmente regravada e interpretada por artistas brasileiros?

José Asunción Flores (morto em 1972), Perla (foto de 1980) e Larissa Riquelme

Tem-se ainda, o Paraguai da rede de supermercados Ycuá Bolaños, onde uma de suas unidades de Asunción, na esquina da Avenida Santissima Trinidad com Avenida Artigas, no Bairro Trinidad fora palco de uma das maiores tragédias ocorridas no país dos últimos 50 anos, ocorrida em agosto de 2004, com um incêndio seguido de duas explosões que levou sete horas para ser controlado pelos Bombeiros. Em meio ao pânico que tomou conta do local, os donos do estabelecimento decidiram fechar as portas para evitar que as pessoas saissem sem pagar pelas mercadorias. O resultado: 370 mortos e mais de 500 feridos. Em Caazapá, cidade vizinha a Asunción, local de nascimento do fundador da rede de supermercados Juan Pio Paiva, há um santuário em homenagem às vítimas e, segundo a crença popular, sua fonte de água possui propriedades curativas. Em 2008, todos os envolvidos, inclusive Juan Paiva e seu filho Victor Daniel, gerente da loja e o chefe de segurança que fechou as portas, Daniel Areco e o acionista Humberto Casaccia foram condenados a penas de prisão de 12, 10, 5 e 2 anos, respectivamente, por homicídio negligente e exposição de pessoas ao perigo no trabalho.

Santuário de Ycuá Bolaños

Entrada permitida somente aos familiares das vítimas

Pode-se perceber, a partir dai, que o Paraguai, país sem litoral, de sete milhões e trezentos mil habitantes (10% vivem na capital Asunción), com área pouco maior que o estado brasileiro do Mato Grosso do Sul, sem dúvidas, é muito mais do que “compras”, “contrabando”, ou a sensação de “terra sem lei”. Na verdade, há dois (ou até mais) Paraguais em um só. Um, evidentemente, dos crimes violentos, atentados e ameaças políticas, de todos os demais aspectos negativos que recebem “vistas grossas” de autoridades do outro lado da fronteira, existente nas proximidades da mesma com o Brasil. E outro, feito de uma nação culturalmente riquíssima preservadora de tradições autóctones indígenas, onde 90% dos nativos são bilingues, falantes do guarani (idioma autóctone) e do espanhol, ambos idiomas oficiais. O Paraguai é o único país da América Latina em que a maioria, quase a totalidade de seus habitantes fala o idioma autôctone, em conjunto com o idioma do colonizador. Tradições culturais nativas estas que, de forma alguma, entram em contraste com a herança colonial deixada pelos espanhóis. Uma nação em que o alimento é variado, ambundante e não sofre incidência de impostos, grandes regulamentações, podendo ser produzido livremente, em todas as extensões de terras, sem restrições maiores. Um país único em vários aspectos.

Tererê – bebida típica paraguaia, extremamente popular e consumida, feita de água – diferente do chimarrão, é sempre gelada -, erva-mate (Ilex paraguariensis) ou sucos de hortelã (Mentha arvensis), limão, cedrón (Lippia citriodora), cocú (Allophylus edulis) e outras mais

“Termo” – acessório portátil para o consumo do tererê, fácil de ser encontrada com transeuntes nas ruas e dentro de veículos, cujo revestimento pode ser feito de vários materiais como couro ou plástico, além de comumente personalizado com nomes, desenhos, escudos de times de futebol e até fotos de entes queridos do dono. O recipiente maior é uma garrafa térmica com biqueira para se colocar e conservar água gelada, enquanto que o menor é a guampa (também térmica) com a bomba (normalmente feita de alumínio)

Mesmo uma maioria da população vivendo com uma baixa renda, se comparada à média brasileira, não se observa no Paraguai indivíduos famintos, nem em locais mais afastados dos maiores centros, como ocorre no Sertão do Nordeste brasileiro. Evidente que há pobreza no país, porém são bem poucos os mendigos pelas ruas de Asunción, considerada uma das capitais mais seguras da América Latina no que diz respeito a crimes violentos, à exceção de alguns elementos etilistas desocupados (bêbados vagabundos), “batedores de carteira” ou assentados reinvidicantes de terras. Em vez de pedintes, é comum ver pelas ruas (não somente em semáforos de cruzamentos de avenidas) pessoas vendendo frutas, legumes e até tasers para defesa pessoal. O IDH da cidade de Asunción é de 0,837 contra 0,841 da maior e mais rica cidade brasileira, São Paulo. Desconfia-se ainda, que os paraguaios evitam declarar sua renda real, a fim de evitar problemas com o governo, mesmo que as taxações de impostos, em geral, não ultrapassem os 13%, em qualquer situação ou objeto.

Notas de Guarani, a moeda paraguaia. As cédulas de 500 e 1000 foram substituidas pelas plastificadas de 2.000 guaranis. Pela cotação atual (2011/2012), um real brasileiro equivale aproximadamente a 2.250 guaranis. O dólar americano também é muito utilizado, especialmente para compras à vista de eletrônicos, veículos e demais bens de valor considerável

A sonegação de impostos é muito comum, porém não chega a ser um crime punível com cadeia na prática, muito diferente do que ocorre no Brasil. No máximo, o cidadão pode sofrer algumas restrições financeiras ou civis como aquisição de propriedades. Na prática, “só paga imposto quem quer” e nem mesmo o Poder Público parece flertar com alguma mudança quanto a isso. Talvez pelo fato da torneira não ser tão aberta e faltar justamente “poder” econômico necessário para fiscalizações.

Em bastante comuns dias muito quentes, moradores de favelas de Asunción, em especial uma que fica bem próxima ao Palácio de Los López (sede do governo paraguaio), costumam sentar-se ao ar livre, conversar com vizinhos, tomando tererê (paixão nacional, mais que a cerveja no Brasil) enquanto as crianças brincam livremente pelas ruas. Não há o temor de uma tensão iminente de uma possível troca de tiros entre traficantes ou com a polícia, embora saiba-se que alguns deles estão por ali. Não se percebe maiores hostilidades nos olhares com a presença de carros (que são dos mesmos tipos encontrados em qualquer outro lugar da cidade), inclusive da própria polícia. E, claro, pequenos negócios comerciais (não-ilegais) não faltam. É possível tomar uma cerveja tranquilamente e conversar com os locais, inclusive, sobre política. Sim, o povo paraguaio, morador de favela, é muito mais politizado que o brasileiro nas mesmas condições ou até melhores. Mas não sobre partidos e sim por idéias. E o liberalismo ali é latente, mesmo que não saibam exatamente o que isso significa, na teoria. Sabem bem o que é, na prática.

O salário mínimo paraguaio é de G$ 1.650.000,00 (guaranis) ou R$ 733,00 pela cotação aproximada atual. Na maioria dos estabelecimentos, há uma placa com essa informação pública, sobre o mínimo que é pago aos funcionários que ali trabalham. Porém, por não haver leis trabalhistas burocráticas, a maioria dos contratos é feita individualmente e o cidadão opta por benefícios oferecidos pelo empregador ou dinheiro em espécie. O mínimo pode ser reduzido, caso o empregado opte pelos benefícios. Tem o segundo maior salário mínimo da América do Sul, superado apenas pela Argentina que paga o equivalente a R$ 996,00 e também é o segundo em Paridade do Poder de Compra, igualmente atrás da Argentina. Dados da OIT de 2009.

O país investe muito pouco em propaganda externa. Propositalmente. Não parece desejar grandes investimentos estrangeiros como grandes indústrias. A demanda por emprego é baixa, devido à população reduzida. Porém, os sábios indígenas temem que a presença maciça de indústrias poderá acarretar prejuizos ambientais, desvalorização das já comercialmente baratas terras, riquíssimas em recursos naturais, especialmente água e a consequente elevação do custo de vida. Possuem extremo apego às suas terras e não somente do ponto de vista material ou comercial. Consideram mais vantajoso permanecer importando quase todos os produtos que consomem, principalmente do Brasil e da Argentina e manter a autossuficiência somente em bens de primeira necessidade (arroz, ervas para tererê, carne, demais alimentos) também sejam produzidos dentro do próprio país. Não há qualquer tipo de tributação sobre alimentos, importados inclusos. Os preços de produtos alimentícios industrializados são bem próximos entre nacionais e importados. As carnes consumidas no país são puras e de primeira qualidade pois não há seleção obrigatória de peças feita pelo governo para exportação.

O cidadão paraguaio consome a carne de seu lomito, uma espécie de sanduíche gigante feito de carne bovina que necessariamente deve ser preparada sem gordura e nervos, ficando por conta do cliente a adição de ingredientes como molhos, grãos de milho, ervilha, temperos, etc. no formato self service, vendidos em lanchonetes ou barracas (chamadas de lomiterias) que substitui o “cachorro quente” no Brasil. Carne, mesmo na mais humilde lomiteria, servida sem aqueles “nervos”, gordura, sebo ou cartilagens, comuns nas carnes brasileiras para consumo interno. Outras iguarias típicas locais são a chipaguazú, uma torta feita de milho, queijo, creme de leite; os empanados de carne, que popularmente substituem os pastéis brasileiros, porém com uma massa mais grossa e a sopa que, apesar do nome, come-se com garfo e faca.

Lomito – substitui o “cachorro-quente” brasileiro – uma delícia!

Chipaguazú – pode ser consumido com pães, torradas ou no prato com arroz

Empanados de carne – melhor que pastel!

O Paraguai possui quatro operadoras de telefonia celular GSM: Claro, Hola, Tigo e Personal. Um a mais do que países maiores e mais populosos como Argentina e México que possuem três cada um. Em relação à area para cobertura de sinal e o contingente populacional, a disputa de mercado é mais acirrada que nesses países, o que se reflete também na grande variedade de marcas de demais produtos (quase todos importados de vários países). E a presença de uma grande concorrência é mais um fator que torna os produtos comercializados no Paraguai, em média, 50% mais baratos que no Brasil. Comprovado na prática.

Não há dados oficiais do governo que separam a população por etnia ou raça, já que o órgão responsável pelas estatísticas e censos não inclui esse item. Apenas contabilizam o número de indígenas “puros” que vivem nas florestas do Chaco Ocidental, em torno de 40.000 (dados de 2002) ou algo em torno de 1,8% da população. Portanto, mesmo com uma grande variedade étnica, composta de descendentes de espanhóis, italianos, alemães, brasileiros, árabes e comunidades indígenas mais isoladas que sequer falam o espanhol, somente o guarani, a possibilidade de uma guerra étnica é praticamente nula, diferente do que ocorre na vizinha Bolívia e, em menor grau, no Brasil. Ou seja, no Paraguai não há cotas raciais e todos, de fato, têm os mesmos direitos e deveres no que tangem suas etnias. Não há sequer um precedente para que haja tais cotas.

A capital respira comércio, liberdade individual, civil e econômica, em meio a uma infraestrutura deficiente de pavimentação de ruas e do transporte, sob um governo esquerdista e, por definição, contrário a uma economia mais livre. Mesmo em bairros onde vivem políticos (incluindo a própria residência presidencial, localizada em avenida de grande movimento), diplomatas e militares das Forças Armadas, bem como os quartéis, não é difícil encontrar ruas esburacadas e mal conservadas. Algumas nem mesmo asfaltadas. Mas isso não parece incomodar muito aos munícipes.

Vista a partir do alto do prédio do Shopping Mariscal López, o principal de Asunción

Típico coletivo assuncenho

Restaurantes, danceterias, cassinos (proibidos no Brasil) por vários pontos de Asunción. Mulheres atraentes paradas na porta dos cassinos oferecendo cigarros aos clientes. Há fumódromos abertos e fechados nos shoppings, onde é possível tanto tomar uma cerveja quanto comer lanches do McDonald’s, enquanto se fuma cômoda e tranquilamente um cigarro, sem maiores infortúnios. Fumódromos, inclusive, mantidos e patrocinados por marcas de cigarro como o Palermo. Não há proibição expressa para fumar em coletivos, embora por educação, os fumantes paraguaios evitem. . E se o fazem é de forma a não incomodar muito aos demais. É algo como não furar filas de bancos ou de terminais de ônibus. A boa notícia é que ninguém ouve “funk” ou qualquer outra porcaria rebolante imbecilizante em coletivos sem o devido fone de ouvido. Não há uma paranóia antitabagista, o que pode ser percebido assim que se desembarca do avião no Aeroporto Silvio Pettirossi, principal do país: um enorme banner luminoso com propaganda da marca Camel, sem falar nos inúmeros outdoors da Marlboro, Palermo e outras marcas, espalhados pela cidade. O cigarro é considerado um símbolo do capitalismo, juntamente com a Coca Cola e o McDonald’s.

FUCK OFF, José Serra, Dráuzio Varella e demais antitobs paranóicos!

Por falar em Coca Cola, as garrafas mais vendidas são as de 2,5 litros. A preço de uma latinha vendida em pontos de consumo final imediato de 350 mililitros no Brasil: R$ 3,00 ou G$ 6.750,00 (guaranis). Produzida no Paraguai mesmo. Levemente mais doce que a Coca Cola brasileira, o que também tem uma explicação: o clima muito quente do país. Coca Cola para ser tomada com gelo, sem perder muito o gosto.

O contraste entre a frota de antiquíssimos ônibus e os modernos carros importados do Japão e da Alemanha, cuja maioria dos modelos sequer existe comercialmente no Brasil, é notório. Carros estes que a população, mesmo de baixa renda, possui um relativo acesso mais facilitado, em relação ao brasileiro médio, com o detalhe em que o paraguaio não valoriza a idade do veículo e sim apenas a sua funcionalidade. Não faz questão de ter sempre um “carro novo na garagem”. Modelos brasileiros circulando pelas ruas de Asunción como VW Gol, Fiat Uno, entre outros populares, existem. Mas são muito poucos, nos dias atuais. Diferente de até os anos 80, quando o Paraguai vivia um certo isolamento econômico nas mãos de Stroessner e que carros brasileiros roubados eram diuturnamente trazidos ao país. Havia demanda a ser suprida, já que o Paraguai nunca produziu carros. Hoje, com o mercado absolutamente aberto, a presença de carros roubados brasileiro diminuiu bastante e a preferência e predominância é das marcas japonesas: Mitsubishi, Nissan, Toyota, Honda e também a coreana Hyundai, fabricados nos anos 90 e início dos 2000, embora haja vários modelos dessas marcas fabricados após esses anos sob propriedade de pessoas nem tão abonadas assim.

Veículos de todos os anos, todos os modelos disponíveis. Por não ter indústrias próprias, montadoras de veículos, portanto, sem a possibilidade de formação de cartéis, aliado às baixas incidências de impostos, a diferença de preço dos carros comercializados no país e no Brasil é bem acentuada. Não há o conceito de “carro popular”, a não ser quando se refere a carros brasileiros. Pode-se utilizar tanto o dólar americano quanto o guarani para aquisição de veículos, bem como para comprar qualquer coisa, até um simples chocolate em barra ou uma garrafa de Coca Cola. Parte dos carros utilizados no país é produzida no Chile, na Argentina ou importada diretamente da Alemanha e do Japão. Alguns japoneses chegam às ruas ainda com a direção invertida (no lado direito), em “english way”. Não é raro ver um nessas condições nas ruas. E não há qualquer obrigação regulamentar do proprietário em converter o veículo. A maioria opta por converter apenas por mera conveniência e facilidade pelo fato do país não adotar a “mão inglesa” no trânsito. Quase todos os veículos, seja qual for a marca, ano ou modelo, possuem ar condicionado e direção hidráulica. O aparelho de ar condicionado é praticamente um item obrigatório, tanto nos carros quanto nos aposentos de residências, já que o clima de Asunción registra temperaturas acima dos 40°C com facilidade.

Além dos tasers para defesa pessoal sendo vendidos livremente por ambulantes nas ruas, a aquisição de armas de fogo é extremamente fácil e sem burocracias. É possível comprar pistolas “.40”, “9mm”, espingardas “calibre 12” e outras armas consideradas “de uso exclusivo das Forças Armadas” no Brasil até mesmo em supermercados, junto com frutas, verduras, legumes, enlatados e engarrafados, bastando apresentar um documento de identidade (pela lei paraguaia, é necessário ser cidadão paraguaio) e um atestado de “bons antecedentes criminais”. Não é exigido qualquer tipo de exame ou teste. Há lojas especializadas em armas em qualquer canto de Asunción, bem como em outras cidades com as mesmas facilidades.

A compra dessas armas no “mercado negro” só possui as vantagens de ter um preço menor e uma variedade maior, incluindo armas mais pesadas como metralhadoras, fuzis israelenses como o Uzi, americanos como AR-15 e brasileiros como o FAL, além de alemães como o Luger e o austríaco Glock, sendo esses dois últimos, o “filé” desse mercado, cujos preços, variam de acordo com sua disponibilidade.

A maioria das armas é fabricada nos Estados Unidos e na Europa. O Brasil suspendeu a venda de armas para o comércio paraguaio em 1999. Os únicos contratos mantidos com fabricantes brasileiros estão nas Forças Armadas e na Polícia. Supõe-se, a partir dai, que as armas acessíveis aos cidadãos possam ser bem melhores que aquelas utilizadas pela polícia paraguaia.

Polícia esta que é unificada em todo o país, chamada de “Polícia Nacional”. Não há polícias estaduais. Ao menos na capital, viaturas policiais estão sempre presentes na maioria das esquinas e ruas. Dizem os habitantes locais que é para “agarrar una pelota“, ou seja, conseguir uma extorsão diante de alguma irregularidade (com outra irregularidade, do ponto de vista legal) mas que, no final, faz com que a lei acabe sendo cumprida, afinal, ninguém quer ser extorquido.

Esta pode ser uma das explicações para o fato da cidade de Asunción ser bem segura, em relação às demais capitais da América Latina. Tão segura que é absolutamente normal e comum cidadãos entrarem e sairem de bancos com enormes quantias de dinheiro em espécie, em maletas e sacolas, de saques (não criminosos, evidentemente) ou para depósitos sem serem importunados por quem quer que seja, o que seria impraticável no Brasil, devido ao alto grau de violência e banditismo. Seguranças de bancos, casas de câmbio e lojas comerciais quase sempre estão armados com fuzis e escopetas de grosso calibre, naturalmente exibindo-os. Andar à noite pelo centro da cidade não é tão tenso como seria em qualquer cidade brasileira de médio ou grande porte. A rejeição ao desarmamento civil é quase que unânime. Na verdade, sequer é pauta de discussões, possível reflexo histórico dos temores de invasões territoriais que caracterizaram a própria formação do Estado paraguaio e que ficou embutido no próprio jeito de ser do cidadão nativo.

No campo político, entre golpes de Estado e levantes populares, o Paraguai esteve dominado há mais de um século pelo Partido Colorado, de orientação conservadora e nacionalista, com exceção de alguns poucos períodos e, ininterruptamente no poder por mais de 60 anos (boa parte deles como o único partido legalizado) até a eleição do atual presidente Fernando Lugo, da Alianza Patriotica para El Cambio (APC), partido de centro-esquerda, de orientação progressista, em 2008.

A vitória de Lugo foi uma consequência direta das trapalhadas administrativas de seu antecessor, o último presidente colorado Nicanor Duarte, o único não-católico (Duarte é protestante) a governar o país em toda a História. Apesar de estar num partido conservador, Duarte possui tendências bem esquerdistas. Criticou e rechaçou o porcamente chamado “neoliberalismo“, fez oposição à ALCA e sempre foi bem próximo de Lula, Chávez e Kirschner, embora tenha recebido críticas de dirigentes latinoamericanos por ter permitido tropas americanas em território paraguaio, a fim de realizar exercícios militares em conjunto, além da construção de base militar americana a fim de combater o narcotráfico e o terrorismo islâmico na Tríplice Fronteira. Além de exercer dois cargos simultaneamente (presidente do país e de seu partido), o que é proibido pela Constituição paraguaia, apesar de ter sido autorizado pela Suprema Corte de Justiça, ainda tentou uma manobra constitucional para incluir a reeleição presidencial, a exemplo de FHC no Brasil. Porém, ao contrário do presidente brasileiro, o plano de Duarte, que por essas e outras, já não contava com o apoio de quase nenhum de seus partidários, incluindo seu vice-presidente, não deu certo. Um protesto de aproximadamente 40 mil pessoas (lideradas por Fernando Lugo, então Monsenhor de San Pedro) em frente à residência presidencial demonstrou todo o repúdio ao então presidente, abrindo caminho para a eleição do agora ex-bispo.

Os últimos presidentes do Paraguai de 1954 a 2008 e o vice-presidente eleito Luis Maria Argaña, assassinado a tiros em 1999. Argaña era vice de Raul Cubas Grau, o qual foi acusado, juntamente com o General Lino Oviedo (que no ano seguinte, em 2000, tentaria um golpe de Estado com militares rebelados, chegou a ser preso pela Polícia Federal brasileira em Foz do Iguaçu e retornou ao país em 2004), como os mandantes do crime; Em 2003, Luis Macchi sofreu um processo de impeachment por desviar US$ 16 milhões dos cofres públicos mas o processo foi rejeitado pelo Senado paraguaio por 25 votos a 45, sendo necessário mais 5 votos para completar os dois terços. Pelo menos, alguém “pensou” em retirar um corrupto do poder democraticamente (e por muito menos do que um certo petista), ao contrário de “uns e outros”!

Pai biológico de uma criança, comprovado por exame de DNA em 2009, resultado de um relacionamento com Viviana Carrillo que nasceu em 1983, levantando suspeitas de que esse relacionamento tenha existido quando Viviana ainda era menor de idade, Fernando Lugo hoje enfrenta um câncer linfático que, no momento, parece estabilizado e também o afastamento político-ideológico de seu vice-presidente, Federico Franco, do Partido Liberal Radical Autentico (PLRA), cada vez mais discordante de seus posicionamentos e decisões. O Senador do PLRA Juan Carlos Ramirez Montalbetti acusa Lugo de ligações com grupos guerrilheiros que atuam na Tríplice Fronteira, como o EPP (Exército do Povo Paraguaio).

Mesmo sem exercer as funções clericais na Igreja Católica, mas ainda bispo, portanto ligado à entidade religiosa, Lugo se candidatou e venceu as eleições de 2008 com 40% dos votos contra 30% de Blanca Ovelar (Partido Colorado) e os demais votos divididos entre o polêmico General Lino Oviedo, o direitista liberal Pedro Fadul e outros (não há segundo turno no Paraguai). A lei paraguaia proibe que autoridades religiosas concorram a cargos eletivos, exigindo a desvinculação no ato da concorrência. Tomou posse em 15 de agosto daquele ano, duas semanas após o Papa Bento XVI ter aceitado oficialmente a renúncia ao estado eclesial, solicitado pelo próprio Lugo. Foi o primeiro bispo católico a ser eleito chefe de Estado em toda a História do mundo.

Apesar de ter tido grande apoio popular no início de seu governo, fatos como o aparecimento de Viviana Carrillo reclamando a paternidade de seu filho a Lugo e principalmente, o fato de Lugo ter ocultado e mentido sobre esse outro fato têm deixado a população dividida entre os que ainda apóiam suas decisões e os que o criticam duramente. Houve ainda outros dois relatos que não excluem a possibilidade de mais mulheres com queixas exigindo o reconhecimento de paternidade de seus filhos. De fato, o presidente não está tendo vida fácil no governo.

Fernando Lugo, ex-bispo católico, adepto à Teologia da Libertação, pai biológico do filho de Viviana Carrillo (e, provavelmente, de outras crianças filhas de outras mulheres), atual presidente do Paraguai, eleito em 2008 com 40% dos votos contra 30% da segunda colocada, a colorada Blanca Ovelar. Nota: o antivírus do meu computador detectou “ameaça”, no exato momento que fui baixar a foto do cidadão acima! =P

A política paraguaia não parece ter grandes influências sobre a população, desde sempre, acostumada a viver por si só, sem os assistencialismos estatais como “Bolsa Família” no Brasil. Até o habitante mais simples de uma favela entende que deve aprender a se manter desde cedo, mesmo que seja com um simples negócio próprio, uma barraca comercial. Por terem um grande apreço pela liberdade, pela propriedade e o temor de ver seu custo de vida subir, preferem viver alheios à política (mas não às idéias). Contudo, não significa que deixarão o campo aberto para qualquer intento “progressista”. Prova disso é que o presidente Fernando Lugo, que enfrenta uma oposição ferrenha do Partido Colorado (ainda, disparadamente o maior do país) não consegue engatar quase nenhum dos projetos antiliberais, embora segundo o próprio Lugo, sua principal meta seja a questão energética do país e a revisão do Acordo de Itaipú com o Brasil e, ironicamente, as melhorias das relações diplomáticas com o “grande satã capitalista imperialista malvadão duzinferno” Estados Unidos da América. Um sinal claro de que o governo tem a ciência de não conseguir arrecadar verbas extorquindo a população com impostos. A reação pode ser violenta.

Eis uma possível conclusão que se pode tirar de uma viagem de alguns dias ao Paraguai, regada a conversas com locais, depoimentos e constatações próprias in loco. E o que resta da volta ao Brasil, além dos produtos adquiridos, câmeras, videogame, cigarros, cerveja argentina, alguns trocados de guaranis e dólares? A horrível sensação de um alemão oriental ou soviético dissidente dos respectivos regimes em ser deportado de volta ao seu país de origem. Impedido de se defender por si só, já que o Estado se outorga na exclusividade do fornecimento da segurança, pagar tributos abusivos dos quais não se vê nenhum retorno, conviver com cartéis, monopólios, proibições absurdas, regulamentações escrotas, patrulha do politicamente correto antitabagista, gayzista, feminista, abortista, desarmamentista de um povo que muito tem a aprender com os vizinhos guaranis.

MONEY!!! O “troquinho” que sobrou da viagem!

Time to go home! Aeroporto Silvio Pettirossi (ASU), na cidade de Luque

A pergunta que fica: ainda vale a pena trocar a liberdade (civil, econômica), o poder de compra por uma suposta segurança não garantida pelo Estado, uma rua mais “bonitinha”, sem buracos ou um ônibus novinho em folha?