O elitismo velado do desarmamento civil

Como Hans-Hermann Hoppe diagnosticou em sua obra “A Produção Privada da Defesa”, e Gustave de Molinari em “A Produção da Segurança”, um dos problemas da sociedade moderna é a confusão entre segurança e justiça, que decorre do fato de que ambos os serviços foram praticamente monopolizados pelo Estado e frequentemente são fornecidos pela mesma corporação estatal. Esta confusão entre dois conceitos distintos é mais evidente quando discutimos os temas da criminalidade, da violência e da segurança pública, por exemplo as questões do desarmamento civil e da redução da maioridade penal.

Continue Lendo “O elitismo velado do desarmamento civil”

Anúncios

Governo tcheco convoca o armamento da população civil contra o terrorismo

O presidente tcheco Miloš Zeman, do Partido dos Direitos Cívicos (em tcheco, Strana Práv Občanů, SPO, de centro-esquerda) solicitou aos cidadãos deste país que se armem contra o terrorismo islâmico. Apesar da população islâmica do país ser pequena em proporção aos 10 milhões de habitantes, a venda de armas no país disparou.

Proarms_Armory_gun_shop_in_Prague
Proarms, uma loja de armas localizada em Praga, Rep. Tcheca.

Continue Lendo “Governo tcheco convoca o armamento da população civil contra o terrorismo”

Indicação de leitura: “Mentiram para mim sobre o desarmamento”

Mentiram para mim

Prezados leitores, queremos indicar nesse post a leitura da obra “Mentiram para mim sobre o desarmamento”, de Flávio Quintela e Bene Barbosa. O livro é, sobre todos os aspectos, espetacular. Conta com argumentos lógicos e dados estatísticos sólidos baseados em fontes seguras e fáceis de consultar. Além disso, a linguagem é muito leve e simples, os capítulos são curtos e o tema é exposto de modo muito objetivo.

Mesmo que você seja a favor do desarmamento da população, leia esse livro. É importante você saber o que o outro lado diz, da boca das próprias pessoas que o defendem. Garanto que, no mínimo, você terá uma visão bem diferente da importância desse debate após a leitura. E como eu disse, não é leitura enfadonha. A obra é bem gostosa de ler e até quem lê devagar e não tem tempo, consegue terminá-la em cinco dias.

Para quem já é a favor do direito de o cidadão honesto portar armas, leia e divulgue amplamente essa obra. Por que isso é tão importante? Porque não estamos falando aqui apenas de uma mera questão de opinião. Há dados estatísticos sólidos demonstrando que o armamento do cidadão honesto é um importante fator na redução da criminalidade violenta e na proteção do povo contra governos com intenções escusas. E o Brasil hoje necessita muito dessas duas coisas.

Então, leiam, divulguem e até comprem para presentear outras pessoas. As informações desse livro precisam ser conhecidas pela galera. É importante. Até para que tenhamos um debate legítimo de ideias.

Violência é Ouro

Por Jack Donovan, publicado originalmente no Arthur’s Hall of Viking Manliness e no site do autor. Traduzido e adaptado para o português do Brasil por Renan Felipe dos Santos. Para ler o artigo original, em inglês, clique aqui.

Muitas pessoas gostam de pensar que são “não-violentas”. Geralmente, as pessoas afirmam “abominar” o uso da violência, e violência é vista negativamente pela maioria das pessoas. Muitos falham em diferenciar a violência justa da injusta. Alguns tipos especialmente vaidosos e hipócritas gostam de pensar que eles ascenderam acima das culturas sórdidas e violentas de seus ancestrais. Eles dizem que “violência não é a solução”. Eles dizem que “a violência não resolve nada.”

Eles estão errados. Cada um deles depende da violência, todo santo dia.

No dia da eleição, pessoas de todos os estilos de vida fazem fila para votar, e fazendo isso elas esperam influenciar quem vai pegar o machado da autoridade. Aqueles que querem acabar com a violência — como se fosse possível ou mesmo desejável — frequentemente buscam desarmar seus concidadãos. Isto não acaba com a violência, na verdade. Isto meramente dá à gentalha do Estado o monopólio da violência. Isto te deixa “mais seguro”, contanto que você não incomode o chefe.

Todos os governos — esquerda, direita ou outros — são por sua própria natureza coercivos. Eles tem de ser.

A Ordem requer violência.

Um regra que não é coberta por uma ameaça de violência em última instância é meramente uma sugestão. Os Estados dependem de leis reforçadas por homens prontos para praticar a violência contra os que violam as leis. Cada imposto, cada código e cada requerimento de licença requer uma progressão escalar de penalidades que, no fim, devem resultar na apreensão forçada de propriedade ou prisão por homens armados preparados para violentar em caso de resistência ou não cumprimento da lei. Toda vez que uma dondoca exige penas mais severas para quem dirige bêbado, vende cigarro para menores, tem um pitbull ou não recicla o lixo, ela está fazendo uma petição ao Estado para que ele use a força para impor a vontade dela. Ela não está mais pedindo numa boa. A viabilidade de cada lei familiar, lei sobre armas, lei de zoneamento, lei de tráfego, lei de imigração, lei de importação, lei de exportação ou regulamentação financeira depende tanto da boa vontade quanto dos meios do grupo para impor a ordem à força.

Quando um ambientalista exige que “salvemos as baleias”, ele está em efeito dizendo que o argumento para salvar as baleias é tão importante que vale a pena machucar humanos que machucam baleias. O pacífico ambientalista está pedindo ao Leviatã que autorize o uso da violência no interesse de proteger leviatãs. Se os líderes do Estado concordarem e expressarem que é, de fato, importante “salvar as baleias”, mas se recusam a penalizar aqueles que causam danos às baleias, ou se recusam a reforçar as penalidades sob ameaça violenta da ação policial ou militar, o argumento expressado seria um gesto sem significado algum. Aqueles que quisessem machucar as baleias sentiriam-se livres para fazer isso, como se diz, na impunidade — sem punição.

Sem ação, palavras são só palavras. Sem violência, leis são só palavras.

A violência não é a única solução, mas é a resposta final.

Pode-se fazer argumentos morais e argumentos éticos, apelos à razão, à emoção e à compaixão. As pessoas são certamente movidas por estes argumentos, e quando bem persuadidas — levando em conta, é claro, que isto não lhes gera inconvenientes excessivos — frequentemente escolhem moderar ou mudar seu comportamento.

Entretanto, a submissão de boa vontade por parte de muitos inevitavelmente cria uma vulnerabilidade esperando por ser explorada por qualquer pessoa que não está nem aí para normas sociais e éticas. Se todos os homens baixam a guarda e se recusam a erguê-la, o primeiro que levantar os braços pode fazer o que quiser. A paz só pode ser mantida sem violência enquanto todos concordam com a barganha, e para manter a paz toda e qualquer pessoa em todas as sucessivas gerações — mesmo após uma guerra esquecida há muito tempo — deve continuar a concordar em permanecer pacífica. Para todo sempre. Nenhum delinquente ou arrivista poderá perguntar “Senão o quê?”, porque numa sociedade realmente pacífica a melhor resposta disponível é “senão vamos achar que você não é uma pessoa legal e não vamos compartilhar com você.” Nosso badernista está livre para responder “Não estou nem aí. Eu vou pegar o que eu quero.”

Violência é a resposta final para a pergunta “Senão o quê?”

Violência é o padrão ouro, a reserva que nos garante ordem. Na verdade, é melhor que o padrão ouro, porque a violência tem valor universal. Violência transcende os ruídos da filosofia, da religião, da tecnologia e da cultura. As pessoas dizem que a música é a língua universal, mas um soco na cara faz o mesmo dano não importa qual língua você fale ou qual tipo de música você goste. Se você está trancado em uma sala comigo e eu pego um pedaço de cano e faço um gesto agressivo demonstrando que vou te bater, não importa quem você seja, o seu cérebro primata vai entender imediatamente “senão o quê.” E assim, uma certa ordem é obtida.

O entendimento prático da violência é tão básico para a vida humana e para a ordem humana como saber que o fogo é quente. Você pode usá-lo, mas deve respeitá-lo. Você pode agir contra ele, e as vezes você pode controlá-lo, mas você não pode simplesmente fazê-lo sumir magicamente. Como um raio, às vezes ele é esmagador e você não perceberá sua presença até que seja tarde demais. Às vezes é maior que você. Pergunte aos cherokees, aos incas, aos romanovs, aos judeus, aos confederados, aos bárbaros e aos romanos. Todos eles conhecem “senão o quê.”

O saber básico de que a ordem requer violência não é uma revelação, mas para alguns para ser como uma. Esta noção em si pode deixar algumas pessoas apopléticas, e algumas vão tentar furiosamente rebatê-la com argumentos distorcidos e hipotéticos, porque isto não soa muito “legal”. Mas algo não precisa ser “legal” para ser verdadeiro. A realidade não se dobra para acomodar-se a suas fantasias ou sentimentos.

Nossa complexa sociedade emprega a violência por procuração de modo que muitas pessoas no setor privado podem passar toda sua vida sem sequer ter de entender profundamente a violência, porque elas foram removidas dela. Percebemos ela como um problema distante e abstrato para ser resolvido com uma estratégia bem bolada e algum tipo de programação social. Quando a violência bate à porta, simplesmente fazemos uma ligação e a polícia vem para “parar” a violência. Poucos cidadãos param para pensar que o que estamos fazendo é, essencialmente, pagar pela proteção de um bando armado que vem e ordeiramente pratica a violência em lugar de nós mesmos. Quando aqueles que iriam praticar a violência contra nós são levados pacificamente, a maioria de nós realmente não faz a conexão, nem mesmo é capaz de afirmar a si mesmo que a razão pela qual o perpetrador se deixa prender é a arma na cintura do policial ou o entendimento implícito que ele será eventualmente caçado por mais policiais que tem a autoridade para matá-lo se ele for uma ameaça. Ou seja, se ele for uma ameaça para a ordem.

Há cerca de dois milhões e meio de pessoas encarceradas nos Estados Unidos. Mais de noventa porcento delas são homens. A maioria deles não se entregou. A maioria deles não tenta escapar à noite porque há alguém na torre de vigia pronto para atirar neles. Muitos são ofensores “não-violentos”. Donas de casa, contadores, ativistas célebres e vegetarianos enviam seus dólares via imposto, e por procuração gastam bilhões e bilhões para alimentar um governo armado que mantém a ordem através da violência.

É quando a nossa violência ordenada dá espaço à violência desordenada,  como acontece depois de um desastre natural, que somos forçados a ver como dependemos daqueles que mantém a ordem através da violência. Pessoas pilham porque elas podem, e matam porque acham que não vão ser pegas. Lidar com a violência e encontrar homens violentos que vão te proteger de outros homens violentos repentinamente se torna uma preocupação real e urgente.

Um amigo meu uma vez me contou uma história sobre um incidente recontado por um amigo da família que era policial, e acho que ela vai direto ao ponto. Alguns adolescentes estavam passeando no shopping, em frente a uma livraria. Eles estavam zoando e conversando com alguns policiais que passavam por lá. O policial era um cara relativamente grande, alguém com quem você não gostaria de mexer. Um dos garotos disse ao policial que não via o porquê da sociedade necessitar da polícia.

O policial se inclinou em direção a ele e disse ao garoto esmilinguido, “você tem alguma dúvida de que eu possa quebrar os seus braços e tomar este livro de você se eu quiser?”

O adolescente, obviamente abalado pela brutalidade da pergunta, disse “Não”.

“É por isso que você precisa de policiais, garoto.”

George Orwell escreveu em seu “Notas sobre o Nacionalismo” que, para o pacifista, a verdade que, “Aqueles que ‘renunciam’ à violência só podem fazer isso porque outros estão cometendo violência no lugar deles”, é óbvia mas impossível de aceitar. Muita insensatez flui da inabilidade de aceitar nossa dependência passiva em relação à violência para nossa proteção. Fantasias escapistas do tipo “Imagine” de John Lennon corrompem nossa habilidade de ver o mundo como ele é, e de sermos honestos conosco sobre a natureza da violência no animal humano. Há evidência substancial para apoiar a noção de que a violência sempre foi parte da vida humana. Todo dia, arqueologistas desenterram outra caveira primitiva com danos causados por armas ou traumas gerados por contusão. Os primeiros códigos legais eram chocantes de tão macabros. Se nos sentimos menos ameaçados hoje, se nos sentimos como se vivêssemos numa sociedade não violenta, é só porque cedemos tanto poder ao Estado sobre nossas vidas cotidianas. Alguns chamam isso de razão, mas poderíamos também chamar simplesmente de preguiça. Uma preguiça perigosa, ao que parece, dado o fato de que pessoas confiam muito pouco nos políticos.

Violência não vem dos filmes, dos videogames, ou da música. Violência vem das pessoas. É hora das pessoas acordarem da fumaceira dos anos 60 e começarem a ser honestas sobre a violência novamente. Pessoas são violentas, tudo bem. Você não pode acabar com isso por lei ou acabar com ela na conversa. Com base nas evidências disponíveis, não há razão para acreditar que a paz mundial algum dia será alcançada, ou que a violência algum dia poderá ser “detida”.

É hora de parar de se preocupar e começar a amar o machado de batalha. A História nos ensina que se não o fizermos, outro alguém o fará.


Leia também:

Quem Controlará as Armas?

Por Jack Donovan. Traduzido e adaptado para o português do Brasil por Renan Felipe dos Santos. Conteúdo retirado do site do autor. Para ler o artigo original, em inglês, clique aqui.

Quando as pessoas falam sobre armas em consequência de uma tragédia como os massacres em escolas, elas discutem sobre o que “nós” deveríamos fazer sobre as armas na América.

“Nós deveríamos limitar a capacidade das lojas. Ninguém precisa disparar centenas de balas.”

“Deveríamos banir rifles de assalto. Ninguém precisa deste tipo de arma. Ela foi desenvolvida para uso militar.”

“Deveríamos impedir as pessoas de comprar coletes a prova de balas. Ninguém precisa deste tipo de proteção.”

“Deveríamos impedir pessoas “mentalmente instáveis” de ter acesso a armas.”

Se você diz coisas como estas, você deve estar fora da casinha.

Quem é este “nós”? Você e o seu voto? É você e seus representantes eleitos no Congresso – aqueles morais bem-feitores que tem uma taxa de aprovação beirando os 20%? É você e eles? Os seus trutas?

Quando você diz “nós” devemos controlar as armas, você está efetivamente dizendo que “eles” deveriam controlar as armas. Afinal, a menos que você seja um legislador ou oficial da justiça, você não vai escrever ou aplicar leis, ou mesmo controlar as armas. Outra pessoa vai estar fazendo isso. E esta pessoa terá uma arma, ou estará na frente de alguém que tenha.

Quem vai decidir quem é mentalmente instável? Você é que não.

Quem vai decidir quanta munição você precisa ou quanto de proteção você precisa? Você é que não.

Eles cuidarão disso para você. Você não terá poder de parar eles. Você não terá poder para fazer qualquer outra coisa a não ser gritar, chorar e “protestar”. E tome cuidado, porque se você gritar demais, eles podem te declarar mentamente instável. Quem vai pará-los? Quem poderia? Você é que não.

Recentemente, o documentarista Michael Moore fez um emocionado discurso na televisão sobre a necessidade de mais leis para controlar as armas. Moore se especializou em filmes sobre a corrupção do Estado e de grandes empresas. Se os americanos concordarem amanhã em entregar pacificamente as suas armas para o Estado, esta corrupção acabaria? As corporações globais, os interesses estrangeiros e os extremamente ricos parariam de influenciar as políticas públicas?

É claro que não.

Moore também foi um dos apoiadores do movimento “Occupy Wall Street” que criticava o “um porcento” dos americanos que controlavam praticamente a metade da riqueza da nação. O “um porcento” sem dúvidas é responsável por boa parte da injustiça e , obviamente, desempenha um grande papel na corrupção estatal. Se o “um porcento” controla o Estado, também controla a maioria das armas por procuração. Afinal – se Moore e outros devem ser acreditados – a América não vai à guerra principalmente para proteger os interesses financeiros do “um porcento”?

As pessoas dizem que querem “igualdade”. Bem, armas são ótimos equalizadores.

Não é importante para os cidadãos ter armas para caçar ou praticar tiro esportivo. Auto-defesa é uma boa razão para ter uma arma, mas não é a mais importante. A mais importante razão para cidadãos terem armas é como uma forma de impedimento contra a corrupção e a tirania do Estado. O Estado não luta com espadas ou varinhas mágicas. Ele luta com armas. Americanos precisam de rifles de assalto precisamente porque foram desenhados para uso militar. Americanos precisam de armas porque sem elas americanos nunca poderão fazer o que os seus Founding Fathers fizeram. Sem armas, americanos nunca mais serão capazes de dizer CHEGA de um modo que importa. Claro, poderão gritar, chorar e protestar. Mas, o que acontece com protestantes quando são confrontados com poder de fogo superior? Eventualmente eles vão para  casa ou para a cadeia. O que mais poderiam fazer? Não obtém nada, porque não tem o poder que importa. O “um porcento” permanece no comando. As armas mudam as coisas a favor dos “noventa e nove porcento”.

Mao Zedong escreveu uma citação famosa: “o poder político nasce do cano de uma arma.” Ele estava certo. Violência é ouro. Dar ao Estado o completo controle sobre tal poder significa dar cem porcento do poder ao “um porcento” que controla o Estado corrupto.

Homens sem armas estão à mercê dos homens que tem armas. Se o Estado controla todas as armas, as pessoas estão à mercê do Estado. Tudo que elas podem fazer é implorar. Homens que não tem permissão e acesso aos meios de combater a tirania não são mais homens livres. Eles são súditos, possivelmente até escravos. Um país onde o povo não tem o poder que importa não pode mais se chamar um país livre. Um Estado onde o povo precisa confiar na benevolência de uma pequena classe toda-poderosa que mantém completo controle e monopólio da violência é um Estado Policial.

O Estado Policial controla as armas, e usa as armas para controlar você.

Defensores do controle de armas estão, efetivamente, exigindo um Estado Policial.

Acho que deveríamos chamá-los assim. Deveríamos começar a referir-nos a eles como “defensores do Estado Policial”, porque um Estado Policial é essencialmente o que eles estão pedindo.

Os americanos hoje estão distraídos por idéias superficiais do que a liberdade significa. Para muitos, “liberdade” significa legalizar a maconha e o casamento gay. Nenhuma destas “liberdades” ameaça o Estado Policial.

De qualquer formas — nossos manipuladores dirão — fique chapado e case com seu namorado gay se isto te faz sentir “livre”. Só não se oponha a nossa autoridade crescente e intrusiva, nem ameace nossos interesses financeiros. Dê-nos suas armas, e nunca mais diga CHEGA de um modo que importe.

É para o seu próprio bem, vejam. Não queremos que vocês se machuquem ou machuquem uns aos outros.


Leia também:

Páginas recomendadas:

O negro e a direita

A direita negra, ou conservadorismo negro, é um movimento político e social enraizado nas comunidades de descendentes de africanos que se alinham ao movimento conservador ou liberal. Entre os americanos, é referido como conservadorismo negro (em inglês, conservative ou conservador é um termo quase equivalente ao “direitista” aqui). O direitismo negro americano enfatiza o tradicionalismo, o patriotismo, o capitalismo, o livre mercado e um forte conservadorismo social dentro do contexto da Black Church.

I. Conceitos-chave:

Black church – Igrejas que ministram para congregações predominantemente negras nos Estados Unidos. Algumas são de denominações predominantemente negras como a Igreja Episcopal Metodista Africana (AME). A maioria das primeiras congregações e igrejas negras formaram-se antes de 1800 por negros livres – por exemplo, na Filadélfia (Pensilvânia), Petersburgo (Virgínia) e Savana (Geórgia). A mais antiga igreja batista negra fica em Kentucky.

Empowerment – Aumentar a força espiritual, política, social, educacional ou econômica de indivíduos e comunidades. Dentro de um contexto empresarial, refere-se a garantir maior poder de decisão para funcionários.

Black empowerment – Empowerment de indivíduos ou comunidades negras através do aprimoramento acadêmico e profissional, estabelecimento de fortes relações econômicas ou mesmo estimulando a responsabilidade familiar e a gestão de negócios familiares.

Welfare State – Também chamado “estado do bem-estar social”, é um tipo de organização política e econômica que coloca o Estado  como agente da promoção social e organizador da economia. Nesta orientação, o Estado é o agente regulamentador de toda vida e saúde social, política e econômica do país em conluio com sindicatos e empresas privadas, em níveis diferentes, de acordo com o país em questão.

Beloved Community – Conceito central da filosofia de Martin Luther King Jr. King o define assim o seu objetivo: “é a reconciliação, … redenção, a criação de uma amada comunidade.” Junto à SCLC, King definia: “O objetivo final da SCLC é promover e criar a ‘amada comunidade’ na América, onde a irmandade é uma realidade… A SCLC trabalha pela integração. Nosso objetivo é a genuína vida interpessoal e intergrupal — integração.” E em seu último livro ele declara: “Nossas lealdades devem transcender nossa raça, nossa tribo, nossa classe, e nossa nação…”

A visão da sociedade de King era a de uma sociedade completamente integrada, uma comunidade de amor e justiça dentro da qual a irmandade seria uma realidade em toda a vida social. Em sua mente, esta comunidade seria a expressão corpórea ideal da fé cristã.

II. Características da direita entre os negros americanos
Algumas das principais características da direita entre os negros americanos é a ênfase na escolha pessoal e nas responsabilidades acima do status sócio-econômico e do racismo institucional. Tradicionalmente, políticos negros americanos tendem a alinhar-se com o pensamento de Booker T. Washington. Para muitos direitistas negros, a missão principal é trazer sucesso à comunidade negra aplicando os seguintes princípios fundamentais:

  • A busca da excelência educacional e profissional como um meio de avançar dentro da sociedade;
  • Políticas que promovam segurança na comunidade além da típica rotulação de criminosos como “vítimas” do racismo da sociedade.
  • Desenvolvimento econômico local através da livre empresa, em vez de buscar por assistência do governo.
  • Empowerment do indivíduo através do auto-desenvolvimento (virtude), consciência e graça. (o último conceito é espiritual, e tem a ver com a Black Church)

Conservadores negros podem ter idéias em comum com nacionalistas negros dada a sua crença compartilhada no black empowerment e na teoria de que os negros tem sido enganados pelo Welfare state.

Os direitistas negros, tipicamente, se opoem às chamadas “ações afirmativas”. Argumentam que os esforços para obter algum tipo de “reparação” pela escravidão são tanto equivocados como contra-produtivos. Direitistas negros famosos são Thomas Sowell, Armstrong Williams, Walter Williams e Clarence Thomas, além de outras figuras históricas memoráveis como Frederick Douglass, Martin Luther King Jr., Booker T. Washington, etc. Os conservadores negros são a favor da integração e consequentemente entram em desacordo com nacionalistas negros, que são mais nativistas e segregacionistas. São mais inclinados a apoiar políticas econômicas de globalização, livre mercado e cortes na tributação.

O termo “Black Republican” (Negro Republicano) foi criado pelos Democratas (partido de esquerda americano) em 1854 para descrever o recém-formado Partido Republicano. Ainda que a maioria dos republicanos da época fossem brancos, o Republican Party foi fundado por abolicionistas e apoiava a igualdade racial. Os democratas sulistas usavam o termo de forma pejorativa, acreditando que a vitória de Abraham Lincoln em 1860 levaria a revoltas dos escravos. O uso do termo continuou após a Guerra Civil Americana para refletir a visão dos opositores aos republicanos radicais (uma facção do Republican Party) durante o período da Reconstrução (período da história americana pós-guerra civil que vai de 1865 a 1877).  No século seguinte o termo passou a designar especificamente os negros afiliados ou eleitores do Partido Republicano.

Republicanos negros, como Colin Powell, são adeptos de idéias sociais articuladas pelos primeiros republicanos radicais, como Frederick Douglass, ao mesmo tempo que apoiam a mensagem de auto-empowerment de Booker T. Washington. Muitos conservadores sociais negros mantém uma visão bíblica de empowerment, ainda que apreciem a ênfase de Booker na realização pessoal.

III. Pensadores

Booker Taliaferro Washington

Booker Taliaferro Washington (5 de abril de 1856-14 de novembro de 1915), educador e reformador, primeiro presidente e principal desenvolvedor do Tuskegee Normal and Industrial Institute (hoje Tuskegee University), e o mais influente porta-voz dos negros americanos entre 1895 e 1915.

Washington acreditava que os melhores interesses dos negros na era pós-Reconstrução poderiam ser realizados através da educação nas habilidades manuais e industriais e no cultivo das virtudes da paciência, do empreendedorismo, e da poupança. Incitava outros negros a cultivar suas habilidades na indústria e na agricultura para adquirir segurança econômica. Assim, a aquisição de riqueza e cultura iria gradualmente ganhar respeito e aceitação para eles. Isto levaria à derrubada das divisões entre as duas raças e levar à igualdade de cidadania para os negros afinal. No seu discurso histórico (18 de setembro de 1895) para uma audiência racialmente mista, numa exposição em Atlanta, Washington expôs sua abordagem pragmática na famosa frase: “Em tudo que é puramente social podemos estar separados como dedos e ainda assim ser um só, como uma mão, em tudo que é essencial ao progresso mútuo.”

Frederick Douglass
Frederick Douglass foi uma testemunha e uma vítima da escravidão e do preconceito. Sofreu com a separação de sua família pelo seu mestre, e foi submetido a castigos físicos como chicotadas. No sul dos EUA, antes da guerra civil, era ilegal ensinar escravos a ler e escrever, mas Douglass aprendeu de qualquer jeito, e secretamente educou outros escravos. Depois de conseguir escapar, participou exaustivamente de reuniões dos movimentos anti-escravagistas no norte dos EUA por mais de duas décadas.

Douglass adotou o ideal de liberdade igualitária. Apoiava o sufrágio feminino, confiante de que as mulheres tem o mesmo direito a tudo que os homens tem. Buscava a tolerância para imigrantes perseguidos. Além-mar, uniu-se a Daniel O’Connell na demanda pela liberdade aos irlandeses, e conferenciava junto com Richard Cobden e John Bright, discursando sobre o livre comércio.

Douglass acreditava que a propriedade privada, o empreendedorismo competitivo e a auto-ajuda são essenciais para o progresso humano. A propriedade, escrevia, produziria para nós a única condição sobre a qual qualquer pessoa pode atingir a dignidade e a verdadeira humanidade… conhecimento, sabedoria, refinamento, educação, todos são fundados no trabalho e na riqueza que o labor traz… sem dinheiro, não há tempo livre, sem tempo livre não há pensamentos, sem pensamentos não há progresso.

Martin Luther King Jr.
Destacado orador e ativista pelos direitos civis, Martin Luther King Jr. é melhor conhecido pela sua luta na igualdade de direitos para os negros americanos. Envolveu-se no movimento do boicote aos ônibus em Montgomery contra a segregação racial no transporte público, e lutou pela reforma do direito ao voto (Voting Rights Act). Evangélico da tradição batista, fez dos seus ensinamentos uma verdadeira doutrina de amor ao próximo e de como melhorar o mundo de maneira não-violenta. King, em oposição a radicais como Malcolm X, defendia que a luta pelos direitos deveria ser feita de maneira pacífica, pois a não-violência é um modo de protesto que só os homens de coragem podem enfrentar.

IV. Na cultura popular
Talvez a série de televisão que melhor apresenta personagens negros e conservadores seja Um Maluco No Pedaço (The Fresh Prince of Bel-Air). O personagem de Will Smith, um jovem malandro e irresponsável da Filadélfia, confronta uma realidade diferente quando vai morar com a sua tia, na casa da família Banks em Bel-Air (Los Angeles). A cultura da casa é conservadora e ordeira. Os residentes, em sua maioria, primam pela responsabilidade, pela coesão familiar, e pelo desenvolvimento individual de cada um. Os exemplos mais fortes:

Philip Banks (Tio Phill), um conceituado advogado de Bel-Air. Rigoroso e orgulhoso de seu trabalho, preocupa-se com sua imagem pública. É um pai e marido atencioso: preza rigorosamente pela educação de seus filhos Carlton, Hillary e Ashley.

Carlton Banks, extremo oposto do Will. Com aparência e comportamento de “mauricinho”, inteligente embora não muito esperto, veste-se, via de regra, com uma roupa social bem característica dele, e que é motivo de chacota para o Will. No entanto, é o Carlton que ajuda o Will quando este precisa. E não são poucas vezes: para estudar, para conseguir dinheiro ou até mesmo para conseguir conquistar uma gata mais “refinada”.

Geoffrey Barbara Buttler, o mordomo da casa. Acostumado a trabalhar com aristocratas ingleses, Geoffrey, mesmo em sua posição de empregado, é o mais esnobe e ao mesmo tempo o mais refinado na casa dos Banks. No entanto, Geoffrey também é um personagem sarcástico, e não perde uma boa oportunidade de tirar com a cara do Will. Devido ao fato dos telespectadores americanos não estarem familiarizados com ingleses negros, a personalidade de Geoffrey foi mudando ao longo da série para americanizá-lo. Ao longo da série ele fica mais sarcástico e bem-humorado, e menos metódico também.

V. No Brasil:
Embora hoje no Brasil a direita não esteja representada partidariamente, ela é visível em manifestações daqueles grupos a que a mídia se refere como “bancada evangélica” ou “bancada ruralista” e mais recentemente nas marchas contra o aborto e marchas contra a corrupção. Conforme pesquisas e referendos confirmam, o brasileiro é um povo bastante conservador. É a favor do porte de armas, de penas mais severas para os bandidos, da redução da maioridade penal, é contrário ao aborto, a legalização das drogas, da prostituição, etc.

Os negros brasileiros não estão de fora, embora não formem um movimento organizado como o que vemos nos EUA.

Estima-se que a população negra no Brasil represente uns 6,9% do total. Em números absolutos, seriam cerca de 13 milhões de pessoas. Estima-se também que a maioria dos negros (11 milhões) pertença a alguma denominação religiosa de cunho evangélico. No entanto, existem também grupos negros entre os católicos, como a tradicional Irmandade dos Homens Pretos que tem mais de 320 anos de existência.

A Irmandade dos Homens Pretos, associação cristã negra mais tradicional do Brasil.

Figuras Históricas que podem ser relacionadas com a direita, entre os negros, no Brasil:

Agostinho José Pereira
Agostinho José Pereira é considerado pelo Movimento Evangélico Negro como o pioneiro do protestantismo no Brasil. Fundador da Igreja do Divino Mestre, que é considerada pelo Movimento Evangélico Negro como a primeira igreja protestante no Brasil, apesar de a historiografia “oficial” não a reconhecer como tal.

Tal como muitos ativistas cristãos da época, Agostinho defendia a libertação dos escravos desde uma perspectiva bíblica. Pregava para negros e negras libertos, ensinava-os a ler e escrever, e foi responsável pela difusão do Evangelho entre os negros livres do Brasil em plena época da escravidão, e sob forte repressão do Estado à liberdade religiosa.

João Cândido Felisberto


Gaúcho e descendente de ex-escravos, João Cândido Felisberto ingressou na escola Companhia de Artífices Militares e Menores Aprendizes no Arsenal de Guerra de Porto Alegre aos 13 anos, por recomendação de um amigo da família, o capitão-de-fragata Alexandrino de Alencar. Ainda antes de ingressar nesta escola, e portanto antes mesmo de ser marinheiro, João Cândido Felisberto foi soldado sob comando do General Pinheiro Machado na Revolução Federalista, ao lado dos federalistas e em oposição aos republicanos (que defendiam  um governo mais centralizado).

O uso da chibata na Marinha, para castigos corporais, havia sido oficialmente abolido em 1889, mas continuava a ser usado a critério dos oficiais.

Em 22 de novembro de 1910, ele assume o comando do encouraçado Minas Gerais e da esquadra a ele subordinada – somando 2.379 homens, 3 encouraçados e um cruzador – na sublevação contra os castigos corporais aplicados aos marinheiros. Este episódio fica registrado na história como Revolta da Chibata.

André Pinto Rebouças

Engenheiro, inventor e abolicionista, ganhou fama no Rio de Janeiro, então Capital do Império, ao solucionar o problema de abastecimento de água, trazendo-a de mananciais fora da cidade.

Servindo como engenheiro militar na guerra do Paraguai, André Rebouças desenvolveu o torpedo, uma inovação tecnológica nunca oficialmente reconhecida e creditada a ele, mas que viria a provar seu poder como arma marítima nas guerras de tonagem da Marinha Alemã na Primeira e na Segunda Guerra Mundial.

Ao lado de Machado de Assis, foi um dos representantes da classe média brasileira com patente ascendência africana e uma das vozes mais importantes em prol da abolição da escravatura. Foi, além de articulista, tesoureiro da Confederação Abolicionista e um dos grandes financiadores da campanha da mesma no Rio de Janeiro.

André Rebouças foi integrante dos Voluntários da Pátria, participando do Cerco de Uruguaiana e fazendo amizade com o Conde D’Eu. Participa também do combate em Passo da Pátria e da defesa de Tuiuti.

Fiel à monarquia, opôs-se aos republicanos e acompanhou a Família Imperial brasileira a caminho do exílio.

Uma história a desbravar
É pouco estudada, na historiografia brasileira, o papel ativo do negro na sociedade. Via de regra, ele é sempre exibido nos livros ou como uma personagem passiva ou reativa. Dá-se pouca visibilidade ao que o negro atingiu por si e pela sua integração social, em vez daquilo que autoridades decidiam em seu nome. Nem todos sabem, por exemplo, que quando foi promulgada a Lei Áurea, mais de 90% dos negros brasileiros já eram livres – porque arranjaram meios de comprar a própria alforria ou de fugir, ou que as conhecidas “sinhás pretas” enriqueciam e prosperavam através do comércio. O que se sabe também sobre movimentos políticos organizados por negros, como a FNB (Frente Negra Brasileira) ou a Ação Imperial Patrianovista Brasileira, é muito pouco. Outro aspecto interessante, pouco mencionado: até o início da década de XX, os negros identificavam-se majoritariamente com a Monarquia, em detrimento da República. O movimento patrianovista, por exemplo, pretendia a restauração da monarquia e um Estado confessional.

VI. Conclusão
Talvez pelo fato da identificação racial não ser algo tão característico no brasileiro como é no americano, pela falta de representatividade partidária e, ultimamente, pela exposição excessiva à retórica classista da esquerda e sua ilusão sedutora de um racismo institucional benéfico, os negros no Brasil não tenham ainda se organizado em torno de um partido mais conservador para defender seus interesses na arena política.

O resultado disso é que o negro acaba sendo engolido pela retórica populista do apelo às minorias: deixa de ser agente político para ser agenda política. Diluída sua identidade dentro do discurso das minorias, ele é forçado por associação a assumir uma não-identidade: o não-branco, o não-maioria, o não-careta. A obliteração da sua real identidade e dos seus reais interesses, se dá pela política do balaião: minorias somadas são maioria. Como se fosse um preço a pagar por ser minoria, o negro é obrigado a aceitar coisas que ele repudia, porque está impelido a isso por associação com outras minorias ou grupos militantes, que pouco ou nada tem a ver com suas necessidades, interesses e valores.

Qual seria a saída? Um resgate histórico das tradições e valores que se foram perdendo ao longo do processo de “minorificação” da política e sua obliteração da identidade negra? A organização de uma nova frente negra brasileira dedicada ao empowerment de suas comunidades, através da educação e da transmissão de valores familiares? Um compromisso sério de fortalecer estas mesmas comunidades através do empreendedorismo? A dedicação individual ao estudo, à formação e o desenvolvimento pessoal? Não sei. A resposta para essas perguntas vai depender do quanto os movimentos políticos já organizados estão conscientes da importância destes brasileiros, de quão desejosos e receptivos estão para sua participação política e para sua força como agente de transformação e recuperação das instituições democráticas, tão abaladas pelo discurso maniqueísta da guerra de classes, pela política do balaião, pelo escambo de votos por cotas e pelo jogo de interesses completamente alheios aos interesses do cidadão.