Dávila: aforismos reacionários

Nicolás Gómez Dávila (Bogotá, Colombia, 18 de maio de 1913 – Bogotá, 17 de maio de 1994) foi um escritor e filósofo colombiano e um dos críticos mais radicais da modernidade. Alcançou reconhecimento internacional apenas alguns anos antes de seu falecimento, graças às traduções alemãs de algumas de suas obras.

Gómez Dávila passou a maior parte de sua vida entre seu círculo de amigos e os limites de sua biblioteca. Pertenceu à alta sociedade colombiana e se educou em Paris. Devido a uma severa pneumonia, passou cerca de dois anos em sua casa, onde seria educado por professores particulares e desenvolveria sua admiração pela literatura clássica. Entretanto, nunca frequentou uma universidade. Na década de 1930, retornou à Colômbia e nunca voltou a visitar a Europa, exceto por uma estada de seis meses com sua esposa em 1949. Reuniu uma biblioteca pessoal imensa que continha mais de 30.000 volumes (conservada atualmente pela Biblioteca Luis Ángel Arango de Bogotá) em torno dos quais centrou toda sua existência filosófica e literária. Em 1948 ajudou a fundar a Universidad de Los Andes em Bogotá.

Extraordinariamente erudito, profundo conhecedor de línguas clássicas, defendeu uma antropologia cética fundada no estudo profundo de Tucídides e Jacob Burckhardt. Considerava que as estruturas hierárquicas deviam ordenar a sociedade, a Igreja e o Estado. Criticou o conceito de soberania popular e também algumas mudanças introduzidas na Igreja Católica pelo Concílio Vaticano II, em particular a renúncia à celebração da missa em latim. Igual a Donoso Cortés, Gómez Dávila cria que todos os erros políticos resultavam, em última instância, de erros teológicos. Esta foi a razão pela qual seu pensamento se descreve como uma forma de teologia política.

Católico e de princípios profundos, sua obra é uma crítica aberta a certas expressões da “modernidade”, às ideologias marxistas e algumas manifestações da democracia e do liberalismo, pela decadência e corrupção que abrigam. Seus aforismos (que denominava escolios) estão carregados de uma ironia corrosiva, de inteligência, e de paradoxos profundos.

Deixamos com nossos leitores uma pequena seleção dos seus aforismos, traduzidas livremente pelo autor deste artigo, retirados da sua obra mais conhecida, Escolios a Un Texto Implícito.


Anarquia

  • A anarquia que ameaça uma sociedade que se envilece não é seu castigo, senão seu remédio.
  • Ordem é o que resulta espontaneamente de uma norma. Não o que umas regras impõem.
  • De seu crescente cativeiro só resgatarão a humanidade vários séculos de anarquia.
  • Nenhuma classe social explorou mais descaradamente as outras que a que hoje chama a si mesma “Estado”.

 Arte

  • Uma vocação genuína leva o escritor a escrever só para si mesmo: primeiro por orgulho, depois por humildade.
  • A originalidade não é algo que se busca, senão algo que se encontra.
  • A mais grave acusação contra o mundo moderno é sua arquitetura.

 Conservadorismo

  • A medida que o Estado cresce o indivíduo diminui.
  • Os parlamentos, no Estado moderno, são resquícios feudais que tendem a desaparecer.
  • Onde se pense que o legislador não é onipotente, a herança medieval subsiste.
  • A política sábia é a arte de vigorizar a sociedade e de debilitar o Estado
  • A regra de ouro na política está em não realizar senão mudanças mínimas e fazê-las com a maior lentidão possível
  • A maioria das tarefas que o governante típico deste século se crê obrigado a assumir não são mais que abusos de poder.
  • Sendo a arte do possível, a política carece de interesse em certas épocas.
  • A ciência política é a arte de dosar a quantidade de liberdade que o homem suporta e a quantidade de servidão que necessita.
  • As sociedades não são nem mecanismos, nem organismos, mas estruturas. Podemos, portanto, sustentar a priori que o número de formas sociais corretas é inferior ao de combinações possíveis.
  • A falta de imaginação preserva um povo de muitas catástrofes.
  • Os conservadores atuais não são mais que liberais maltratados pela democracia.
  • Para que a sociedade floresça se requer um Estado fraco e um governo forte.

Comunismo, Marxismo e Socialismo

  • Chama-se comunista quem luta para que o Estado lhe assegure uma existência burguesa.
  • O comunista odeia o capitalismo com o complexo de Édipo. O reacionário apenas o vê com xenofobia.
  • O leitor contemporâneo ri quando o cronista medieval fala de “paladinos romanos”, mas fica sério quando o marxista disserta sobre a “burguesia grega” ou o “feudalismo americano”.
  • A propaganda, na Rússia como na China, seleciona tão intencionalmente os argumentos grosseiros e as falsificações óbvias que é necessário atribuir o triunfo do comunismo ao desdém com que trata a inteligência das multidões.
  • O socialismo deste século não herdou da sociedade burguesa que sepulta senão as deformidades denunciadas pelo socialismo do século passado.
  • O estado socialista cura o proletariado da febre que a doutrina socialista lhe inocula.
  • Um “socialismo com cara humana” é uma aguardente sem álcool.
  • “Social” é o adjetivo que serve de pretexto a todos os engodos.
  • O socialismo é reflexo enantiomorfo da sociedade medieval. Como as hierarquias infernais das hierarquias angélicas.
  • No lugar do paternalismo, o socialismo patrocina a disciplina dos orfanatos.
  • Na estepe rasa o indivíduo não acha abrigo contra a inclemência da natureza, nem na sociedade igualitária contra a inclemência do homem.
  • Para desacreditar os burgueses, Marx, simpaticamente, coloca a serviço do proletariado a noção de “classe social sem interesses particulares” que Voltaire inventou em proveito da burguesia.
  • A verdadeira eloquência estremece o auditório mas não o convence. Sem promessa de butim não há oratória eficaz.

Direito

  • A plétora de leis é indício de que ninguém mais sabe mandar com inteligência. Ou de que ninguém mais sabe obedecer com liberdade.
  • As sociedades moribundas acumulam leis como os moribundos acumulam remédios.
  • Não legislemos para a humanidade. Nem em público, nem em privado.
  • Sem propriedade “injusta” amparada por uma legislação “classista”, ninguém escapa à necessidade de viver em postura servil.
  • O ato de despojar de seus bens a um indivíduo se chama roubo, quando outro indivíduo o despoja. E justiça social, quando uma coletividade inteira o rouba.
  • “Justiça social” é o termo para exigir qualquer coisa que não tenhamos direito.

 Espiritualidade, Religião e Deus

  • O importante não é crer em Deus, senão que Deus exista.
  • Limitemos nossa ambição a praticar contra o mundo moderno uma metódica sabotagem espiritual.
  • Nos séculos espiritualmente desérticos, só se dá conta de que o século está morrendo de sede o que ainda capta águas subterrâneas.
  • Não pertenço a um mundo que perece. Prolongo e transmito uma verdade que não morre.
  • Abundam os que se creem inimigos de Deus e só alcançam ser inimigos do sacristão.
  • Religião e ciência não devem firmar pactos de limites, senão tratados de desconhecimento mútuo.
  • A Igreja deve intervir na política. Mas sem programa político.

 

Esquerda

  • As revoluções da esquerda só mudam a ordem dos naipes. A Revolução é inútil enquanto não se inventem baralhos novos com novos naipes.
  • As idéias de esquerda engendram as revoluções, as revoluções engendram as idéias de direita.
  • O esquerdista inteligente admite que sua geração não construirá a sociedade perfeita, mas confia em uma geração futura. Sua inteligência descobre sua impotência pessoal, mas seu esquerdismo lhe impede descobrir a impotência do homem.
  • A esquerda finge que o culpado do conflito não é o que cobiça os bens alheios, senão o que defende os próprios.
  • Pedir ao Estado o que só a sociedade deve fazer é o erro da esquerda.
  • A falsificação do passado é a maneira como a esquerda tem pretendido elaborar o futuro.
  • A imprensa de esquerda fabrica para a esquerda os grandes homens que a natureza e a história não lhe fabricaram.
  • Erudição e experiência são os adversários invencíveis da esquerda.
  • Os outros me devem o que me prometeram, não o que opino que devam prometer-me. Sobre o cadáver desta obviedade, imolada como vítima sacrificial aos deuses infernais, se levantam os cimentos do pensamento de esquerda.
  • O intelectual de esquerda não ataca com intrepidez nem arrogância senão as idéias que acredita estarem mortas.
  • O mau humor é secreção específica do intelecto de esquerda.
  • A esquerda atual corteja a revolução como um cinquentão caquético a uma secretária.
  • A nova esquerda congrega os que confessam a ineficácia do remédio sem deixar de crer na receita.
  • Sem mãos sujas, para o esquerdista não há consciência limpa.
  • Na “nova esquerda” se recrutará a infantaria da reação.
  • O esquerdismo não é ideologia de uma determinada condição social, senão uma definível deformação mental.
  • Existem hoje duas classes de movimentos subversivos: os que um grupo de especialistas metodicamente promove e os que unanime e espontaneamente estouram. Os primeiros são conspirações de esquerda, os segundos insurreições contra a esquerda.
  • O entusiasmo, nos regimes de esquerda, é um produto sintético elaborado pela polícia.
  • Para escandalizar o esquerdista basta dizer a verdade.
  • O esquerdista evita com tato milagro pisar os calos do poderoso autêntico. O esquerdista só vilipendia os simulacros de poder.

 

Filosofia

  • A dialética é a simulação de um diálogo dentro de um solilóquio.
  • Toda proposição universal é falsa. Menos esta.
  • Nunca é tarde demais para nada verdadeiramente importante.
  • O relativista dificilmente relativiza a si mesmo.
  • O relativismo é a solução do que é incapaz de por as coisas em ordem.
  • As verdades não são relativas. O relativo são as opiniões sobre a verdade.
  • Quem se empenha em refutar argumentos imbecis acaba fazendo-o com raciocínios estúpidos.

Liberalismo

  • Existem duas interpretações do voto popular: uma democrática, outra liberal. Segundo a interpretação democrática é verdade o que a maioria resolve; segundo a interpretação liberal a maioria meramente escolhe uma opinião. Interpretação dogmática e absolutista uma; interpretação cética e discreta, a outra.
  • A discussão do reacionário com o democrata é estéril porque nada têm em comum; por outro lado, a discussão com o liberal pode ser fértil porque compartilham vários postulados.
  • A separação dos poderes é a condição da liberdade.
  • Na sociedade moderna, o capitalismo é a única barreira ao espontâneo totalitarismo do sistema industrial.

 

 

Mundo moderno e Estado moderno

  • No Estado moderno as classes com interesses opostos não são tanto a burguesia e o proletariado como a classe que paga impostos e a classe que deles vive.
  • É difícil simpatizar com o clero moderno desde que se tornou anticlerical.
  • Ideário do homem moderno: comprar o maior número de objetos; fazer ol maior número de viagens; copular o maior número de vezes.
  • Os Evangelhos e o Manifesto comunista palidecem; o futuro do mundo está em poder da coca-cola e da pornografia.
  • O Estado moderno realizará sua essência quando a polícia, como Deus, presencie todos os atos do homem
  • A nova estupidez permite a cada época debochar das estupidezes precedentes.
  • O Estado moderno fabrica as opiniões que recolhe depois respeitosamente com o nome de opinião pública.

 

Outros

  • Respeitar a nossos superiores é antes de mais nada uma prova de bom gosto.
  • Com bom humor e pessimismo não é possível nem errar nem entediar-se.
  • Nenhum ser merece nosso interesse mais de um instante, ou menos de uma vida.

 

Pobreza e Riqueza

  • Aos ricos e aos pobres hoje só diferencia o dinheiro.
  • Já não há classe alta, nem povo; só há plebe pobre e plebe rica.
  • O amor à pobreza é cristão, mas a adulação ao pobre é mera técnica de recrutamento eleitoral.
  • Os pobres, na verdade, só odeiam a riqueza estúpida.
  • Só escapam da veneração ao dinheiro os que escolhem a pobreza, ou os que herdam sua fortuna. A herança é a forma nobre da riqueza.
  • O político democrata se vende sempre. Aos ricos, à vista. Aos pobres, à prazo.
  • Quando os exploradores desaparecem, os explorados se dividem em exploradores e explorados.

 

 Povo e Democracia

  • Em tempos aristocráticos o que tem valor não tem preço; em tempos democráticos o que não tem preço não tem valor.
  • O povo não se rebela nunca contra o despotismo senão contra a má alimentação.
  • O problema da educação dos educadores é problema que o democrata esquece em seu entusiasmo pela educação dos educandos.
  • O povo reivindica a liberdade de ser seu próprio tirano
  • Soberania do povo não significa consenso popular, senão atropelo por uma maioria.
  • Os pecados que escandalizam o público são menos graves que os que ele tolera.
  • Ao democrata não basta que respeitemos o que quer fazer com sua vida, exige também que respeitemos o que quer fazer com a nossa.
  • Um democrata se indigna que suas vítimas se indignem.
  • A porcentagem de eleitores que se abstém de votar mede o grau de liberdade concreta em uma democracia. Onde a liberdade é fictícia, ou onde está ameaçada, a porcentagem tende a zero.
  • Os tribunais democráticos não fazem tremer o culpado, mas o acusado.
  • “Justiça popular” é eufemismo para degola.
  • Os partidos políticos não disputam hoje pelos programas. Ao contrário, disputam os programas.

 

Progressismo

  • O progressista crê que tudo se torna logo obsoleto, salvo suas idéias.
  • O “sentido da história” seria insignificante, se nossa inteligência conseguisse entendê-lo.
  • O progressista se irrita, quando velho, ao ver que a história arquiva o que chamou de progresso quando jovem.
  • O homem é um animal educável, desde que não caia em mãos de pedagogos progressistas
  • Quando se diz que pertence a seu tempo só se está dizendo que coincide com o maior número de idiotas do momento.
  • Ninguém pode escapar de sua época, mas com um pouco de tato pode eludir suas trivialidades.
  • Nada mais perigoso que resolver problemas transitórios com soluções permanentes.
  • Os preconceitos de outras épocas nos são incompreensíveis quando os nossos nos cegam.
  • O progresso é filho do conhecimento da natureza. A fé no progresso é filha da ignorância da história.
  • O clero progressista não decepciona nunca o aficionado ao ridículo.
  • O raciocínio cardeal do progressista é belíssimo: o melhor sempre triunfa, porque se chama melhor ao que triunfa.
  • O clérigo progressista, em tempos revolucionários, acaba morto, mas não como mártir.
  • Saber quais são as reformas que o mundo necessita é o único sintoma inequívoco de estupidez.

 

Reacionários

  • A reação explícita começa no final do século XVIII; mas a reação implícita começa com a expulsão do diabo.
  • Nós reacionários concedemos aos tolos o prazer de sentir-se atrevidos pensadores de vanguarda.
  • Os textos reacionários parecem obsoletos aos contemporâneos e de uma atualidad surpreendente à posteridade.
  • Ao democrata, para refutar os argumentos do reacionário, só lhe ocorre dizer que são argumentos de reacionário.
  • O marxista não duvida da perversidade do seu adversário. O reacionário meramente suspeita que o seu seja estúpido.
  • O socialista não entende que os que prevêm o triunfo do socialismo são reacionários. Quando precisamente o são porque o prevêm.
  • Só um talento evidente faz com que perdoem as idéias de um reacionário, enquanto que as idéias do esquerdista fazem com que o perdoem por sua falta de talento.
  • O reacionário não se torna conservador senão nas épocas que guardam algo digno de ser conservado.
  • Tratar o inferior com respeito e carinho é a síndrome clássica da psicose reacionária.
  • Não é uma restauração o que o reacionário espera, senão um novo milagre.
  • O pensamento reacionário não é reação de medo, é reação ante o crime.
  • Os reacionários se recrutam entre os espectadores de primeira fila de uma revolução.
  • A emigração é o último recurso do reacionário. O último recurso do democrata é o terror.
  • O reacionário não condena a mentalidade burguesa, senão seu predomínio. O que nós reacionários deploramos é a absorção da aristocracia e do povo pela burguesia.
  • Ao esquerdista que proteste igualmente contra crimes de direita ou de esquerda, seus camaradas, com razão, lhe dizem reacionário.

 

Revolução

  • As revoluções não são filhas de pobres invejosos ou famélicos senão de ricos pusilânimes ou ambiciosos.
  • A justiça imanente postula que só um revolucionário fuzile a outro.
  • As burocracias não sucedem casualmente as revoluções. As revoluções são os partos sangrentos das burocracias.
  • A agitação revolucionária é endemia urbana e só epidemia camponesa.
  • O revolucionário quer mudar de baralho, contrarrevolucionário, de jogo.
  • Toda revolução agrava os males contra os quais eclode.
  • A estupidez é o combustível da revolução.
  • O revolucionário é, depois de tudo, um indivíduo que não se atreve a roubar sozinho.
  • A rebelião é reação contra uma condição intolerável; a revolução é técnica de um projeto burguês.
  • A falta de vergonha com que o revolucionário mata espanta mais que suas matanças.
  • A revolução absoluta é o tema predileto dos que nem sequer se atrevem a protestar quando os pisam.
  • As revoluções tem por função destruir as ilusões que as causam.
  • A estupidez é a mãe das atrocidades revolucionárias. A ferocidade é só a madrinha.

 

Sabedoria, Inteligência e Maturidade

  • A sabedoria consiste em resignar-se ao único possível sem proclamá-lo o único necessário.
  • Ser jovem é temer que nos creiam estúpidos; amadurecer é temer sê-lo.
  • Amadurecer não consiste em renunciar a nossos desejos, senão em admitir que o mundo não está obrigado a realizá-los.
  • Quem tenha curiosidade de medir sua estupidez, que conte o número de coisas que lhe parecem óbvias.
  • Exigir à inteligência que se abstenha de julgar lhe mutila sua faculdade de compreender.
  • A maturidade do espírito começa quando deixamos de sentir-nos encarregados do mundo.

Totalitarismo

  • O Estado é totalitário por essência. O despotismo total é a forma à qual espontaneamente tende.
  • Totalitarismo é a fusão sinistra de religião e estado.
  • A unanimidade, em uma sociedade sem classes, não resulta da ausência de classes, mas da presença da polícia.

O reacionário autêntico

Por Nicolás Gómez Dávila. Originalmente publicado na revista da Universidad de Antioquia, Nº 240 (Abril–Junho de 1995), p. 16-19. Traduzido e adaptado do espanhol para o português do Brasil por Renan Felipe dos Santos. Para ler o artigo original, em espanhol, clique aqui.

"Cristo no Deserto", de Ivan Kramskoi.
“Cristo no Deserto”, de Ivan Kramskoi.

A existência do reacionário autêntico escandaliza ao progressista. Sua presença vagamente o incomoda. Ante a atitude reacionária o progressista sente um leve menosprezo, acompanhado de surpresa e desassossego. Para aplacar seus receios, o progressista costuma interpretar esta atitude intempestiva e chocante como disfarce de interesses ou como sintoma de estultícia; mas só o jornalista, o político e o tolo não se embaraçam, secretamente, ante a tenacidade com que as mais altas inteligências do Ocidente, já há cento e cinquenta anos, acumulam objeções contra o mundo moderno. Um desdém complacente não parece, de fato, a contestação adequada a uma atitude onde se irmana um Goethe a um Dostoievski. Mas se todas as teses do reacionário surpreendem ao progressista, a mera postura reacionária o desconcerta.

Que o reacionário proteste contra a sociedade progressista, a julgue e a condene, mas que se resigne, entretanto, ao seu atual monopólio da história, lhe parece uma posição extravagante. O progressista radical, por uma parte, não compreende como o reacionário condena um fato que admite, e o progressista liberal, por outra, não entende como admite um fato que condena. O primeiro lhe exige que renuncie a condenar se reconhece que o fato é necessário, e o segundo que não se limite a abster-se se confessa que o fato é reprovável. Aquele o incita a render-se, este a agir. Ambos censuram sua passiva lealdade à derrota. O progressista radical e o progressista liberal, de fato, repreendem ao reacionário de maneira distinta, porque um sustenta que a necessidade é razão enquanto o outro afirma que a razão é liberdade. Uma visão distinta da história condiciona suas críticas. Para o progressista radical, necessidade e razão são sinônimos: a razão é a substância da necessidade, e a necessidade é o processo em que a razão se realiza. Ambas são uma só torrente de existências.

A história do progressista radical não é a soma do meramente acontecido, senão uma epifania da razão. Ainda quando ensine que o conflito é o mecanismo vetor da história, toda superação resulta de um ato necessário, e a série descontínua dos atos é a senda que traçam, ao avançar sobre a carne vencida, os passos da razão indeclinável. O progressista radical só adere à idéia que a história cauciona, porque o perfil da necessidade revela os traços da razão nascente. Do próprio curso da história emerge a norma ideal que o nimba. Convencido da racionalidade da história, o progressista radical se atribui o dever de colaborar com seu sucesso. A raiz da obrigação ética jaz, para ele, na nossa possibilidade de impulsionar a história a seus próprios fins. O progressista radical se inclina sobre o fato iminente para favorecer sua vinda, porque ao atuar no sentido da história a razão individual coincide com a razão do mundo. Para o progressista radical, pois, condenar a história não é só uma empresa vã, mas também uma empresa estúpida. Empresa vã porque a história é necessidade; empresa estúpida porque a história é razão.

O progressista liberal, por outro lado, se instala na pura contingência. A liberdade, para ele, é substância da razão, e a história é o processo em que o homem realiza sua liberdade. A história do progressista liberal não é um processo necessário, mas a ascensão da liberdade humana à plena posse de si mesma. O homem forja sua história impondo à natureza a decisão de sua livre vontade. Se o ódio e a cobiça arrastam ao homem entre labirintos sangrentos, a luta se realiza entre liberdades pervertidas e liberdades retas. A necessidade é, meramente, o peso opaco de nossa própria inércia, e o progressista liberal estima que a boa vontade pode resgatar o homem, em qualquer instante, das servidões que o oprimem.

O progressista liberal exige que a história se comporte de acordo com o que sua razão postula, posto que a liberdade a cria; e como sua liberdade também engendra as causas que defende, nenhum fato pode primar contra o direito que a liberdade estabelece. O ato revolucionário condensa a obrigação ética do progressista liberal, porque romper o que a estorva é o ato essencial da liberdade que se realiza. A história é uma matéria inerte moldada por uma vontade soberana. Para o progressista liberal, pois, resignar-se à história é uma atitude imoral e estúpida. Estúpida porque a história é liberdade; imoral porque a liberdade é nossa essência.

O reacionário, no entanto, é o estulto que assume a vaidade de condenar a história, e a imoralidade de resignar-se a ela. Progressismo radical e progressismo liberal elaboram visões parciais. A história não é necessidade, nem liberdade, senão sua integração flexível. A história, de fato, não é um monstro divino. A cortina de poeira humana não parece levantar-se como sob o hálito de uma besta sagrada; as épocas não parecem ordenar-se como estágios na embriogenia de um animal metafísico; os fatos não se imbricam uns aos outros como escamas de um peixe celeste. Mas se a história não é um sistema abstrato que germina sob leis implacáveis, tampouco é o dócil alimento da loucura humana. A gana e vontade gratuita do homem não são seu reitor supremo. Os fatos não se moldam, como uma pasta viscosa e plástica, entre dedos afanosos.

De fato, a história não resulta de uma necessidade impessoal, nem de um capricho humano, senão de uma dialética da vontade onde a opção livre se desenvolve em conseqüências necessárias. A história não se desenvolve como um processo dialético único e autônomo, que prolonga em dialética vital a dialética da natureza inanimada, senão em um pluralismo de processos dialéticos, numerosos como os atos livres e atados à diversidade de seus solos carnais. Se a liberdade é o ato criador da história, se cada ato livre engendra uma história nova, o livre ato criador se projeta sobre o mundo em um processo irrevogável. A liberdade secreta a história como uma aranha metafísica a geometria de sua teia. A liberdade, de fato, se aliena no próprio gesto em que se assume, porque o ato livre possui uma estrutura coerente, uma organização interna, uma proliferação normal de seqüelas. O ato se desdobra, dilata e expande de acordo com seu caráter íntimo e com sua natureza inteligível. Cada ato submete uma parte do mundo a uma configuração específica.

A história, portanto, é uma liga de liberdades endurecidas em processos dialéticos. Quanto mais fundo seja o estrato de onde brota o ato livre, mais variadas são as zonas de atividade que o processo determina, e maior sua duração. O ato superficial e periférico se esgota em episódios biográficos, enquanto o ato central e profundo pode criar uma época para uma sociedade inteira. A história se articula, assim, em instantes e em épocas: em atos livres e em processos dialéticos. Os instantes são sua alma fugitiva, as épocas seu corpo tangível. As épocas se estendem como trechos entre dois instantes: seu instante germinal, e o instante onde clausura o ato incoativo de uma nova vida. Sobre dobradiças de liberdade giram portas de bronze. As épocas têm uma duração irrevogável: o encontro com processos surgidos desde uma maior profundidade pode interrompê-las, a inércia da vontade pode prolongá-las. A conversão é possível, a passividade familiar. A história é uma necessidade que a liberdade engendra e a casualidade destroça.

As épocas coletivas são o resultado de uma comunhão ativa em uma decisão idêntica, ou da contaminação passiva de vontades inertes; mas enquanto dura o processo dialético para o qual as liberdades se inclinaram, a liberdade do inconforme se retorce em uma ineficaz rebeldia. A liberdade social não é opção permanente, mas brandura repentina na conjuntura das coisas. O exercício da liberdade supõe uma inteligência sensível à história, porque ante a liberdade alienada de uma sociedade inteira o homem só pode ouvir o ruído da necessidade que se quebra. Todo propósito se frustra se não se insere nas fendas cardeais de uma vida.

Frente à história só surge a obrigação ética de atuar quando a consciência aprova a finalidade que momentaneamente impera ou quando as circunstâncias culminam em uma conjuntura propícia à nossa liberdade. O homem que o destino coloca em uma época sem fim previsível, e cujo caráter fere os mais profundos nervos de seu ser, não pode sacrificar, atropeladamente, sua repugnância a seus brios, nem sua inteligência à sua vaidade. O gesto espetacular e vão merece o aplauso público, e o desdém daqueles a quem a meditação reclama. Nas paragens sombrias da história, o homem deve resignar-se a minar com paciência as soberbas humanas. O homem pode, assim, condenar a necessidade sem contradizer-se, ainda que não possa agir senão quando a necessidade se derruba. Se o reacionário admite a atual esterilidade de seus princípios e a inutilidade de suas censuras, não é porque lhe baste o espetáculo das confusões humanas. O reacionário não se abstém de agir porque o risco o espanta, mas porque estima que atualmente as forças sociais inclinam-se rapidamente para uma meta que desdenha. Dentro do atual processo, as forças sociais cavaram seu curso na rocha, e nada mudará seu rumo enquanto não deságüem no raso de uma planície incerta. A gesticulação dos náufragos só faz fluir seus corpos paralelamente à outra margem. Mas se o reacionário é impotente em nosso tempo, sua condição o obriga a testemunhar seu asco. A liberdade, para o reacionário, é submissão a um mandato.

De fato, ainda quando não seja nem necessidade, nem capricho, a história, para o reacionário, não é, entretanto, dialética da vontade imanente, senão aventura temporal entre o homem e o que lhe transcende. Suas obras são traços, sobre a areia revolvida, do corpo do homem e do corpo do anjo. A história do reacionário é um farrapo, rasgado pela liberdade do homem, que oscila ao sopro do destino. O reacionário não pode calar-se porque sua liberdade não é meramente o asilo onde o homem escapa ao tráfego que o aturde, e onde se refugia para assumir-se a si mesmo. No ato livre o reacionário não toma, tão somente, posse de sua essência. A liberdade não é uma possibilidade abstrata de escolher entre bens conhecidos, mas a concreta condição dentro da qual nos é outorgada a posse de novos bens. A liberdade não é instância que decide pleitos entre instintos, senão a montanha desde a qual o homem contempla a ascensão de novas estrelas, entre o pó luminoso do céu estrelado. A liberdade coloca o homem entre proibições que não são físicas e imperativos que não são vitais. O instante livre dissipa a vã claridade do dia, para que se erga, sobre o horizonte da alma, o imóvel universo que desliza suas luzes transeuntes sobre o tremor de nossa carne. Se o progressista se inclina ao futuro, e o conservador ao passado, o reacionário não mede seus desejos com a história de ontem ou com a história de amanhã. O reacionário não clama o que há de trazer a próxima alvorada, nem se aferra às últimas sombras da noite. Sua morada se levanta neste espaço luminoso onde as essências o interpelam com suas presenças imortais. O reacionário escapa à servidão da história, porque persegue na selva humana a pegada de passos divinos. Os homens e os fatos são, para o reacionário, uma carne servil e mortal que alentam sopros tramontanos. Ser reacionário é defender causas que não rodam sobre o tabuleiro da história, causas que não importa perder. Ser reacionário é saber que apenas descobrimos o que cremos inventar; é admitir que nossa imaginação não cria, senão desnuda corpos brandos. Ser reacionário não é abraçar determinadas causas, nem advogar por determinados fins, senão submeter nossa vontade à necessidade que não constrange, render nossa liberdade à exigência que não compele; é encontrar as evidências que nos guiam adormecidos à margem de lagoas milenares. O reacionário não é o sonhador nostálgico de passados abolidos, é o caçador de sombras sagradas sobre as colinas eternas.

O Reaça Interior

Cheguei à conclusão de que todo esquerdista tem um reacionário dentro de si. Daqueles bem rabugentos, que gritam aos quatro ventos a decadência e a promiscuidade do mundo moderno. Agora é mais fácil entender como socialistas convertem-se ao fascismo, as vezes sem nem perceber.

Podemos ver isso facilmente analisando uma série de aspectos presentes no esquerdista típico.

O esquerdista típico é, em primeiro lugar, anticapitalista. Mas o que o esquerdista vulgar compreende por capitalismo não é somente um modelo econômico: é o mundo moderno como um todo. Por capitalismo, ele assume não só a propriedade privada dos meios de produção e o livre mercado, mas também vícios humanos como o egoísmo, a arrogância, a ganância, a corrupção, a superficialidade, a promiscuidade, a avareza, enfim, “a Babilônia” com toda a sua imoralidade cosmopolita e opulenta.

Em segundo lugar, o esquerdista é antiliberal. Acredita que a liberdade do indivíduo deve ser restrita o quanto possível pela autoridade pública (seja o Estado ou ‘o Coletivo’) para colocá-lo na “senda reta” da moralidade, do altruísmo, da cooperação, etc. É bastante visível quando se trata de Economia, que é o campo em que o esquerdista mais abertamente defende o dirigismo e o autoritarismo: lucrar é obsceno, o Estado deve fazer da Economia um distribuidor de bens e serviços, não um mercado.

Em decorrência do abordado anteriormente, o esquerdista é autoritário. Ou seja, acredita que trocas e acordos feitos de mútuo acordo podem e devem sofrer interferência da autoridade pública. A escolha, o acordo mútuo, a concordância, a vontade das partes é irrelevante porque não conferem valor algum às relações sociais: as pessoas não sabem o que é melhor para elas, e a autoridade pública tem o dever de impedi-los de escolher quando lhe der na telha.

Conforme prenunciado pelo item anterior, o esquerdista também é absolutista. Um absolutista porque é indiferente a valoração subjetiva de cada indivíduo atuando livremente. O esquerdista crê que as coisas tem algum tipo de valor intrínseco, um valor em si, algo que não está sujeito a negociação entre as partes envolvidas, mas que ele conhece e que deve ser tomado como lei.

Por fim, o esquerdista é um moralista. A sua principal objeção ao estado de coisas atual não é pragmática ou utilitária: a ele pouco importa se a economia de mercado é ou não mais eficiente na satisfação da demanda por bens e serviços. Seu ódio ao mundo moderno é resultado de uma objeção àquilo que ele vê como imoral: o lucro, o consumismo, a desigualdade econômica, a urbanização, a industrialização, o êxodo rural, a globalização.

Toda esta aversão ao mundo moderno, “à Babilônia”, é conhecida há eras, desde os tempos bíblicos. A aversão ao dinheiro, às máquinas, à Cidade, cosmopolita e cheia de empresários, operários e prostitutas nada tem de revolucionária. O nome disso é anti-modernismo, e é um componente essencial de ideologias reacionárias. E é por isso que a maioria dos esquerdistas se parece mais com crentes pregando nas ruas dos centros urbanos do que com revolucionários propriamente ditos.


Leia também:

Livro recomendado:

  • Ocidentalismo – Ian Buruma e Avishai Margalit.