Cinco coisas que você deveria saber sobre o sucesso

O fim de ano está chegando. Esta é a época de fazer votos à sua família e aos seus amigos desejando saúde, alegria e sucesso para o ano que vem. Também o momento de fazer aquela retrospectiva do ano que termina e planos para o ano que inicia. Há itens que não podem faltar: saúde, felicidade, sucesso. Este artigo é sobre o sucesso.

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Taleb para Políticos: Terceiro e Último Princípio

Estratégia Barbell: Intervenção onde Interessa

Investidores costumam adotar uma estratégia chamada de “estratégia Barbell”. Esta estratégia consiste em investir a maior parte do seu dinheiro em investimentos mais conservadores, seguros, e cujos ganhos são mínimos porém certos. A outra parte é investida em ações de alto risco, sem retorno garantido, mas cujos ganhos potenciais são enormes. Há 10 ou 20 anos, seria como investir 90% do seu dinheiro na Poupança da Caixa e os outros 10% em uma startup como Facebook ou Google. Quem fez isso nas décadas de 90 e 2000, certamente está milionário hoje. [17]

barbell stratey

A estratégia Barbell é a aplicação da “Regra 80/20” dentro do contexto dos investimentos. A “Regra 80/20” determina que 80% das consequências vem de 20% das causas. Nas empresas com grandes contratos, 80% da receita vem de 20% dos clientes; num programa de computador, 80% dos bugs vem de 20% do código; numa família de 10 pessoas, 80% dos problemas vem de 20% dos integrantes (a sogra e o cunhado); e assim por diante. Nos investimentos que aplicam a estratégia Barbell, o investidor espera que 80% a 90% dos ganhos virão de 10% a 20% dos investimentos. Segundo Taleb, a “Regra 80/20” e a estratégia Barbell podem ser aplicados para tornar a sociedade mais resistente a Cisnes Negros.

A aplicação desta estratégia em políticas públicas deve ter como fim evitar tragédias sociais, econômicas, ambientais, etc. Estamos falando de uma exceção à regra da não-intervenção, a parte “conservadora” do investimento. Neste caso a intervenção tem o fim claro de evitar impactos extremos sobre a sociedade, e deve ser aplicada mesmo que não haja nenhum benefício no caso da tragédia não acontecer. Na política, a estratégia Barbell não tem o objetivo de gerar ganhos do ponto de vista econômico, mas evitar catástrofes que comprometeriam de modo crítico o bem-estar da população. Alguns exemplos de sua aplicação vão a seguir:

  • Segurança pública – Proibir a posse/porte de armas somente aos cidadãos que tenham histórico de crime violento.
  • Saúde pública – Financiar ou subsidiar somente cirurgias, tratamentos e medicamentos relacionados a problemas de saúde com altas taxas de mortalidade ou transmissão.
  • Habitação – Construir habitações populares com o único propósito de relocar pessoas residentes em áreas de alto risco ambiental.

Dos conceitos de Cisne Negro e Estratégia Barbell formulamos o terceiro e último princípio de atuação política exposto no livro Antifrágil de Nassim Taleb:

III. Prevenção: evitar o mal. Buscar possíveis falhas ou omissões que impliquem em riscos e vulnerabilidades sistêmicas e saná-las antes de que os riscos se convertam em danos, sempre levando em consideração a não-linearidade entre probabilidade e risco (“Regra 80/20”), para que a intervenção seja eficiente e oportuna.

Conclusão e Resumo

As três regras que podemos aprender da leitura do livro são as seguintes:

  1. Não causar o mal.
  2. Não perpetuar o mal.
  3. Evitar o mal.

As regras estão em ordem de importância e de execução. Considerando esta hierarquia, todas as regras devem ser aplicadas. A não aplicação de uma das regras, ou a sua aplicação sem consideração pela hierarquia de importância e precedência resulta nos seguintes erros, muito comuns na política:

  • Sob o mandamento da regra 1, não agir quando se deve agir (2 e 3). Falhar em intervir preventivamente ou em realizar as reformas quando necessário.Ex.:
    Em nome da não-intervenção, impedir o estabelecimento de novas leis para impedir a ocupação habitacional de zonas de risco geológico (falha da regra 3).Em nome da não-intervenção, permitir que os governos municipais continuem protegendo cartéis e monopólios privados no setor de transporte coletivo (falha da regra 2).
  • Sob o mandamento da regra 2, falhar em avaliar o mal menor na aplicação das outras regras (1 e 3). Ao fazer uma reforma, causar um novo mal paralelo ao já existente, gerando um círculo vicioso. Falhar em adotar medidas preventivas por focar exclusivamente nos males já em curso.Ex.:
    Buscando remover habitantes das zonas de risco para reassentá-los em zonas habitáveis, utilizar a força e causar conflitos entre a população local e a polícia, resultando em mortos e feridos (falha da regra 1).Na saúde pública, aumentar a atenção aos pacientes com doenças respiratórias, mas na política ambiental falhar em adotar medidas para reduzir a poluição do ar (falha da regra 3).
  • Sob o mandamento da regra 3, falhar em aplicar as outras regras (1 e 3). Tentar impedir o mal sem avaliar o potencial dano iatrogênico da intervenção, resultando em uma intervenção nociva que agrava os males em curso ou cria novos males. Tentar impedir o mal sem antes cessar os males atuais, permitindo que os mesmos se perpetuem e sigam crescendo, resultando em uma intervenção ineficiente.Ex.:
    Buscando evitar uma futura escassez de água, estatizar todo o serviço de purificação e distribuição de água, causando escassez atual (falha da regra 1).Forçar os bancos públicos a adotar políticas mais rígidas para as futuras análises de crédito, mas continuar cobrindo suas perdas por inadimplência de empréstimos contraídos no passado (falha da regra 2).

Com base na interpretação do seu livro, chegamos então à conclusão de que o autor não defende uma política de completa não-intervenção. Uma política “talebiana” se basearia no princípio da não-maleficiência para evitar intervenções nocivas, no princípio da via negativa para realizar reformas regressivas, e na estratégia Barbell para realizar intervenções críticas para o bem-estar da sociedade.

O resultado desejado seria um ambiente econômico dinâmico e de rápido crescimento, cheio de riscos e oportunidades, antifrágil; e uma sociedade menos vulnerável e mais protegida contra catástrofes naturais ou antropogênicas, resiliente.


NOTAS:

[17] Acertar em qual empresa apostar seria um “Cisne Negro positivo”, pois:

  1. Devido ao risco, o sucesso do seu investimento era imprevisível ou improvável.
  2. O impacto do investimento sobre o seu dinheiro será extremamente positivo, já que os ganhos eram impossíveis de estimar. Provavelmente, o investimento mínimo que você fez trará muito mais benefício que os 90% investidos nas opções seguras.
  3. Estaremos tentados a cair na falácia narrativa de acreditar que o investidor pôde “prever” o sucesso da empresa, quando na verdade ele simplesmente estava fazendo um uso racional do risco, um “chute inteligente”.

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Taleb para Políticos: Primeiro Princípio

O primeiro princípio político é um princípio “importado” da ética médica e que faz muita falta na área política. Veremos como, a partir dos conceitos desenvolvidos por Taleb, chegamos à conclusão de que o excesso de intervenção pode ser considerado uma violação do princípio da não-maleficiência.

ética médica

Antifragilidade vs. Resiliência

Coisas frágeis são aquelas que se buscam estabilidade e evitam riscos. Usando um exemplo do livro, uma xícara de porcelana é frágil porque ela não se beneficia de estar sobre uma superfície instável, e menos ainda de uma queda. Ela quebra.

Coisas que não sofrem danos, que saem intactas dos impactos aplicados sobre elas, são “resilientes”. Uma xícara de titânio, por exemplo.

Coisas “antifrágeis” são aquelas que se beneficiam de impactos, riscos e instabilidade. Um exemplo de antifragilidade é o gel desenvolvido pela empresa D3O, uma substância que endurece conforme o impacto aplicado sobre ela. Quanto maior o impacto sobre ela, mais resistente ela se torna. Nosso sistema imunológico também é um exemplo de antifragilidade, pois se torna mais forte a cada ameaça superada. Antifrágil é aquilo que se torna mais forte frente às adversidades. [1]

A proposta de Taleb é tornar nossos sistemas financeiros, sociais e políticos antifrágeis, ou pelo menos mais robustos. Mas como podemos fazer isso? Algumas pistas serão dadas nas seções seguintes.

Fragilidade Sistêmica

Para que um sistema se torne antifrágil, suas partes precisam ser frágeis. Voltando ao exemplo do sistema imunológico, para que o sistema se torne mais forte, ele precisa ser atacado e que algumas células morram no processo. Não significa que devemos sacrificar os indivíduos pelo bem do “sistema” (a sociedade). Precisamos que eles sejam frágeis.

Fragilidade significa que as partes de um todo (pessoas em uma sociedade, empresas em uma economia, jogadores em um time de futebol) precisam estar expostos a riscos e às consequências dos seus atos. Para isto elas precisam de liberdade para agir.

Para construir uma economia robusta, as empresas precisam ser frágeis. [2] O motivo pelo qual países capitalistas se desenvolvem mais do que os socialistas não é a eficiência ou a otimização gerada pelo capitalismo: a razão por trás do desenvolvimento ocidental está no fato de que as suas empresas têm mais oportunidades e assumem mais riscos. Este ambiente permite que as empresas falhem em uma velocidade muito maior e aprendam empiricamente a oferecer melhores produtos, melhores serviços e tecnologias mais avançadas [3].

O protecionismo é uma violação clara da definição acima, de um ambiente onde a oportunidade e risco, liberdade e responsabilidade, andam de mãos dadas. A máxima “proteção desprotege” não serve somente às mães, mas também a um governo saudável. A proteção, ao mesmo tempo que torna algumas empresas resilientes à concorrência, torna todo um sistema econômico e a população que depende dele mais frágeis. E esta ação, bem-intencionada mas com resultados catastróficos, tem um nome.

Iatrogenia

Iatrogenia, no contexto médico, é o nome dado à intervenção médica que em vez de resultar em benefícios para o paciente causa danos a ele ou o expõe a riscos desnecessários. É diferente da negligência, ou de uma ação mal-intencionada e proposital: a iatrogenia é o mal causado com a boa e legítima intenção de curar. O mal vai desde submeter o paciente a um procedimento cirúrgico desnecessário a interná-lo em um hospital onde as chances de ele contrair outras doenças aumenta exponencialmente o seu risco de morrer.

A iatrogenia – o mal causado por quem tem a intenção de curar – está tão ou mais presente na Política do que na área da saúde, e tem sua origem em duas coisas:

  1. a) O conflito de interesses das partes envolvidas, problema conhecido também como “problema do principal-agente” ou “dilema da agência”. [4] Significa que um agente tem a opção e a oportunidade de agir em interesse próprio em prejuízo de quem deveria representar.
  2. b) Há incentivos morais e financeiros para as ações, mas não para as omissões. [5] Omissões, mesmo aquelas que evitam grandes riscos ou consequências catastróficas, não costumam ser reconhecidas como “boas ações”, ao contrário de ações iatrogênicas no longo prazo, mas com efeitos benéficos superficiais no curto prazo.

Pela própria natureza da sua profissão, os políticos têm uma mentalidade muito intervencionista. Eles são eleitos para “fazer alguma coisa”, não para “deixar de fazer alguma coisa”. Consequentemente, são os responsáveis pelas maiores “catástrofes iatrogênicas” da História.

Diante da possibilidade de causar danos irreversíveis (como na política e na medicina), é um dever moral que a decisão seja tomada com informação e consentimento da parte interessada, o que raramente acontece devido ao já mencionado problema da agência. Na impossibilidade de contar com o consentimento informado dos demais, o único caminho é a abstenção. Elaboramos então o nosso primeiro princípio político:

  1. Não-maleficiência: não causar o malAvaliar toda e qualquer nova política, antes da sua adoção, buscando por potenciais danos colaterais, efeitos adversos ou consequências indesejadas que não tenham sido previstas. Em caso afirmativo, não implementar a política. Dentro do possível barrar toda e qualquer nova política que implique aumento de impostos, restrições, regulações, proibições ou subsídios. Enfim, toda aquela política que tente construir a resiliência individual ao custo da fragilização de todo o sistema.

NOTAS:

[1] Um exemplo na área da saúde é o crescimento pós-traumático.

[2] Motivo pelo qual economias estatizadas, como as socialistas, são as mais frágeis e vulneráveis a crises e escassez crônica. Privando empresas de riscos, o socialismo impede a destruição criativa e suas economia estanca, passando a viver de importação ou imitação do que é produzido no exterior.

[3] Em inglês esta propriedade é chamada de “Fail-fast”. Os erros que cometemos fornecem informação sobre o mundo ou sobre nós mesmos, gerando feedback imediato que nos permite melhorar. Melhorias rápidas e significativas exigem que muitos erros sejam cometidos rápida e sucessivamente, desde que não sejam erros fatais que comprometam o sistema inteiro. Uma citação de Thomas Edison ilustra bem este princípio: “Eu não errei dez mil vezes tentando inventar a lâmpada elétrica. Eu descobri dez mil maneiras pelas quais ela não deveria ser feita”.

[4] O problema da agência é disseminado na política: há uma sensação generalizada da desconexão entre os interesses da classe política e do seu público eleitor. O político moderno não busca representar um setor da população, ele busca que um setor da população se identifique com ele e suas propostas, impondo as suas ideias à força em caso de dissidência.

[5] Os médicos tem um incentivo financeiro e moral para intervir na sua saúde, mas nenhum incentivo financeiro ou moral para não intervir. Muitas cirurgias potencialmente mortais são realizadas todos os anos em pacientes que poderiam dispensá-las, adotando formas alternativas de tratamento. Há casos de pacientes que, recusando cirurgias de alto risco na coluna, terminaram curados sem intervenção médica alguma.

A capacidade auto-curativa do nosso próprio corpo é frequentemente subestimada e definitivamente há espaço para uma política de “não-intervenção” na área da saúde e da medicina.


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Série de Artigos: Taleb para Políticos

Nassim Nicholas Taleb, nascido em 1960, é um ensaísta, acadêmico, estatístico e analista de risco líbano-americano cuja obra está focada em problemas como a aleatoriedade, a probabilidade e a incerteza. Seu livro de 2007 A Lógica do Cisne Negro foi considerado um dos doze livros mais influentes desde a Segunda Guerra Mundial.

Nassim Taleb

Crítico dos métodos de gestão de risco usados pela indústria financeira, advertiu sobre a crise financeira do final dos anos 2000 e lucrou com ela apostando na fragilidade do sistema financeiro. Defende o que chama de sociedade “robusta contra Cisnes Negros”, o que significa uma sociedade capaz de resistir a eventos de difícil previsão. Propõe a construção da antifragilidade em sistemas, ou seja, a habilidade de se beneficiar e crescer diante de certos tipos de eventos aleatórios, erros e volatilidade.

Antifrágil: Coisas que se beneficiam com o caos é o seu livro mais recente, publicado em 2012. A série de artigos Taleb para Políticos, que iniciará na próxima segunda-feira dia 7 de setembro, pretende interpretar as idéias do autor como expostas neste livro, e a partir desta interpretação formular princípios fundamentais e sua possível aplicação na política.


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