Crise na Venezuela se aprofunda: Colômbia abriga 150 mil refugiados

A Colômbia avança no seu processo de paz com as FARC. O movimento guerrilheiro e terrorista, que assolou o país por mais de 50 anos, finalmente realizou a entrega de armas sob supervisão das Nações Unidas. Após a desmobilização militar, o grupo se lançará na política com um partido regular que operará legalmente no país. Apesar da delicada situação política que a entrada de um partido de extrema-esquerda à democracia implica, o fim do conflito armado com as FARC abre ao governo colombiano a possibilidade de iniciar o processo de reassentamento e restituição de terras à população afetada e reverter, ao menos em parte, a crise migratória interna do país.

protestos na venezuela

Enquanto isso, a ditadura socialista da Venezuela continua contribuindo a aumentar a crise migratória na América Latina: o governo de Nicolás Maduro pretende enfiar goela abaixo da população uma nova constituinte que aprofundará no país a “revolução bolivariana”, que de Bolívar não tem nada além do nome. Temendo o recrudescimento do regime, o aumento da violência e da miséria, cada vez mais venezuelanos estão abandonando a Venezuela em direção aos países vizinhos.

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Os CDR em Cuba

Por que em Cuba ninguém reclama ou exige seus direitos? Porque sempre há um olho na vizinhança que te vê, te denuncia e desgraça a tua vida.

Artigo publicado originalmente, em espanhol, no site do blogueiro cubano Yusnaby Pérez. Tradução para o português de Renan Felipe dos Santos. Para ler o texto publicado no site original, clique aqui.

Há um senhor que toda semana visita a casa da minha vizinha Mercy. A única coisa que sabemos sobre ele é que depois de cada visita alguém no quarteirão recebe uma má notícia: uma vaga de trabalho recusado, uma viagem negada, uma licença não outorgada ou simplesmente um telefone fixo solicitado e jamais habilitado, etc.

cdr-cuba

Mercy é a presidente do CDR da minha rua, uma organização criada em plena efervescência do socialismo em 1960 e cujas siglas correspondem a Comitê de Defesa da Revolução. Em cada canto do meu país há um CDR; um sistema de vigilância contínua entre vizinhos.

Na minha casa quando cozinhamos camarões precisamos fechar completamente as portas e as janelas. O cheiro pode nos delatar a Mercy. No dia seguinte, os restos de comida não podem ser jogados fora no latão de lixo da esquina: preciso descartá-los quatro quadras adiante para que Mercy não nos descubra. Assim também faz meu vizinho Luisito com o quarto que aluga à noite: espera que Mercy durma para deixar entrar os inquilinos que buscam paixões noturnas.

Todos nós tomamos cuidado com ela. Quando a vemos, sorrimos e cumprimentamos, mas sabemos que em sua mente ela está buscando cada detalhe delator de nossos sorrisos. Ela se encarrega de informar ao policial chefe do setor, aos investigadores do Partido Comunista e aos agentes do Departamento de Segurança do Estado ou G2 (polícia política) sobre nossas vidas com riqueza de detalhes. Mercy conta nossas preferências sexuais, nossa atitude ou opinião política; se trabalhamos ou estudamos, e, se não fazemos nenhum dos dois, nos denuncia e nos aplicam a lei de periculosidade. Mercy está a par de com quem nos encontramos, quem visita nossa casa e seus respectivos nomes. Se algum estrangeiro dorme em nossa propriedade, ela chama a imigração e nos multam em milhares de pesos cubanos conversíveis*.

Mercy elaborou uma lista de todo vizinho com familiares no exterior, já que este é um ponto muito investigado. Ela foi orientada a organizar atos de repúdio, ou seja, convocar a maior quantidade possível de vizinhos e ir às casas de “contrarrevolucionários” e atirar pedras, gritar lemas “revolucionários” e provocar uma violenta vexação pública. Nos dias de eleições, ela vai casa por casa verificando quem votou e quem não. Aos que não foram votar, ela os obriga e até mesmo traz a ficha de votação à sua casa para “comodidade” do eleitor. Quem se nega a exercer seu direito ao voto, Mercy inscreve na odiosa lista de “desafetos do quarteirão”.

O futuro de um estudante ou trabalhador está sujeito ao veredito de uma pessoa encarregada de vigiar, que de forma secreta colabora com órgãos públicos. A opinião de Mercy, só por declarar-se fiel aos princípios da “Revolução” está por cima de todo mérito pessoal, acadêmico ou profissional demonstrado pelo indivíduo em questão.

Esta vigilância contínua delata o idoso que vende sacolas “ilegalmente”, o professor que no seu tempo livre dá aulas particulares, o vizinho carpinteiro que não tem licença, o amigo que come carne de gado ou o cidadão que pensa politicamente “diferente”… Por isto, existe a dupla moral em Cuba. Por isto as pessoas, quando criticam o governo, o fazem em voz baixa porque sabem que alguém pode estar escutando através da parede.

Meu amigo Lachy não pode buscar carreira universitária porque o presidente do CDR “informou” que sua família era católica. Durante os primeiros 30 anos de existência desta organização, foi duramente denunciado todo religioso, homossexual ou cubano com família e amigos no exterior.

Quando fiz 14 anos, Mercy automaticamente me adicionou à lista de “cederistas”. Jamais fui consultado! Os que se negam fazer parte dos CDR são vetados e lhes são fechadas as portas em toda oportunidade cotidiana.

A efetividade da polícia política cubana e do Departamento Técnico de Investigações reside na existência dos CDR, que lhes oferece informação próxima, detalhada e permanente dos objetos de investigação.

Agora pretendem implantar na Venezuela as chamadas “comunas”; objetivo fixo para semear o medo, a autocensura, a desconfiança entre vizinhos e eliminar na raiz toda forma de oposição ou ativismo cidadão. Prática que funcionou e ainda funciona em Cuba.

Muitos perguntam: por que em meu país ninguém reclama ou exige seus direitos? Porque sempre há um olho na vizinhança que te vê, te denuncia e desgraça a tua vida. No meu caso é a Mercy, presidente do CDR e encarregada da “vigilância revolucionária” como diz o cartaz colado à sua porta.


NOTAS:

*Em Cuba circulam duas moedas: o peso cubano e o peso cubano conversível. O peso cubano conversível tem sua taxa de câmbio artificialmente pareada com o dólar e serve de substituto para o mesmo na ilha. Alguns produtos só podem ser obtidos com esta moeda, e somente cubanos com acesso a divisas -legais ou ilegais- vindas do exterior tem acesso a ela, o que lhes confere um poder de compra pelo menos 24 vezes maior do que o cubano sem acesso a divisas do exterior. Estima-se que 20% de todo o dinheiro que entra em Cuba vem de remessas internacionais por parte de cubanos residentes no exterior, o que garante que os cubanos dentro da ilha sobrevivam apesar das condições de extrema pobreza.

Fascismo do século XXI

O fascismo parecia morto em 1975. Comentei sobre seu ciclo de vida no artigo “Tudo que você deveria saber sobre o fascismo mas não quer” e prometi voltar para falar sobre o neofascismo ou “pós-fascismo”. Cumprirei parte da promessa hoje.

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1. O mundo pós-fascista
Com o fim da Segunda Guerra mundial, o fascismo resistiu como via política somente na Argentina (Perón), na Espanha (Franco) e Portugal (Salazar). Fascistas que não tiveram a mesma sorte, como os da Itália, tiveram de renovar-se para continuar atuando politicamente. Desta revisão do fascismo “ortodoxo” vieram os partidos pós-fascistas que continuaram atuando na política italiana (Fiamma Tricolore, Fronte Nazionale, Movimento Sociale Italiano) e francesa (Front National). Em paralelo, movimentos mais radicais e que não se adaptaram ao novo cenário político continuaram existindo como “grupos de ódio” com atuação mais criminal que política (Ordine Nuovo na Itália, Ordre Nouveau na França) [3]. Estes grupos estão para os partidos neofascistas como os militantes Black Blocs estão para os partidos de extrema-esquerda: são milícias extra-oficiais prontas para atacar os alvos do partido, mas sem vincular seu nome ao dele. Durante o entreguerras, esta tática de violência política era amplamente empregada por comunistas, anarquistas e nacional-sindicalistas (“nazifascistas”).

Mas um terceiro grupo é mais interessante para nós. Lembrem-se que o fascismo, sendo mescla de componentes nacionalistas e socialistas, surgiu como resposta ao subdesenvolvimento de certas regiões da Europa e da crise do liberalismo e do socialismo marxista [1]. O fascismo tem a pretensão de ser a síntese entre o capitalismo de Estado e o socialismo de Estado, de acabar com a luta de classes para edificar uma luta nacional e desafiar as potências internacionais e seu sistema econômico e financeiro [1]. O fascismo é a semente, portanto, do que chamamos hoje “terceiro-mundismo”[2] e lançou as bases da teoria da dependência desenvolvida entre os anos 50 e 70. Na América Latina, na Ásia e na África, serão estas idéias a reavivar o espírito nacionalista e impulsionar povos em sua luta contra o colonialismo e posteriormente contra a globalização.

2. A reintegração do fascismo à esquerda marxista
A absorção das idéias nacionalistas por parte da esquerda pós-guerra refletiu a política soviética de aumentar sua esfera de influência financiando qualquer inimigo potencial dos EUA e da Europa Ocidental. A partir dos anos 50 e 60, a URSS não tentaria mais exportar a revolução comunista exatamente nos moldes soviéticos: trataria de apoiar versões “nacionalizadas” do marxismo-leninismo no exterior, na esperança de ampliar o espectro de nações aliadas pelo mundo. Quando isto não era possível, qualquer governo nacionalista pró-soviético bastava[7]. Ela fez isso sobretudo na Ásia (Vietnã, Coréia, Camboja, Laos) e na África (Etiópia, Eritréia, Angola, Moçambique), mais próximas do alcance do seu apoio militar. O apoio a movimentos paralelos na América Latina aproveitou o sucesso da Revolução Cubana: a URSS apoiou os sandinistas, os senderistas, os tupamaros e as guerrilhas no Brasil, bem como o governo de Allende e, provavelmente, o curto governo de João Goulart que ia pelo mesmo caminho.

Um fato curioso é adesão da esquerda marxista ao anti-semitismo na década de 1950 [4], devido a uma reação de Stalin ao não-alinhamento de Israel com a URSS; a partir de então a URSS investiria pesado no nacionalismo árabe[4]. Este anti-semitismo se agravou na década de 1960[3] devido à cooperação da URSS com Estados árabes em conflito com Israel. O suporte euro-americano a Israel teve peso significativo na decisão da esquerda em optar pelo anti-semitismo [4].

A conflação entre idéias fascistas e socialistas é mais clara no Brasil, onde os descendentes políticos de Getúlio Vargas (João Goulart e Leonel Brizola) eram claramente radicais de esquerda, tão nacionalistas quanto socialistas[5]. A nossa estrutura sindical hoje descende diretamente do fascismo, nunca foi reformada, e continua servindo de ferramenta política para os socialistas de diversos partidos [6]. A rígida estrutura de sindicato como braço do Estado e do partido no governo é um ponto em comum entre a Itália fascista, a URSS, e os “socialistas do século XXI”: Cuba, Venezuela, Argentina e, de certo modo, Brasil.

3. O Socialismo Nacional do Século XXI
Mas porque isso aconteceu? Por que os socialistas abriram mão da sua ortodoxia internacionalista e do planejamento totalmente estatal? Em primeiro lugar, porque o sentimento de nacionalidade provou ser um forte obstáculo para a “exportação” do bolchevismo: identidade étnica, nacional e religiosa simplesmente impulsionava os trabalhadores para os sindicatos nacionalistas. Absorvendo as idéias nacionalistas, estava eliminado o obstáculo: transformava-se o inimigo em aliado, e foi o que a URSS fez definitivamente desde o fim da Segunda Guerra [7]. O segundo ponto só foi totalmente abandonado após a falência do modelo soviético em 1989, quando então o mundo respirou novos ares de liberdade sócio-econômica. Não podendo se render ao laissez-faire nem defender um modelo falido, os herdeiros do socialismo agora órfãos e espalhados pela América Latina e África tiveram de adaptar a política e o discurso para acomodar o “empresariado” nacional em um modelo que aparentasse vantagens protecionistas para empresários, segurança social para trabalhadores e desenvolvimento nacional para todos. Qual outra doutrina oferece um sindicalismo governista, um forte mecanismo de repressão e censura, um judiciário dependente do executivo, milícias partidárias e regalias para grandes industriais “politicamente engajados” com o partido, além do próprio fascismo? Os “boliburgueses” do setor petroleiro na Venezuela e da construção civil no Brasil estão aí para não me deixar mentir.

Não se espantem, pois, de encontrar as semelhanças mais profundas entre o atual governo da Venezuela e o da Itália fascista, ou entre o atual governo argentino e seu predecessor peronista. O socialismo nacionalista do século XX e o socialismo do século XXI se parecem não só na imagem e propaganda, não só na violência e aparelhamento de sindicatos e tribunais, mas também na sua agenda política em tudo que diz respeito à economia, aos direitos políticos e às liberdades individuais. Quando o socialista latino-americano xinga o opositor liberal ou conservador de fascista está tentando desmoralizar a oposição acusando-a daquilo que ele é mas não admite, jurando fidelidade àquilo que ele deixou de ser há muito tempo.


Fontes:
[1] Benito Mussolini – The Doctrine of Fascism (1932).
[2] David Ramsay Seele – The Mystery of Fascism (2003).
[3] Jewish Virtual Library – Neo-fascism.
[4] David Cesarani – The Jews and The Left / The Left and The Jews (2004).
[5] Jorge Ferreira – Nasce um líder das esquerdas in Revista de História.
[6] Arion Sayão Romita – A Matriz Ideológica da CLT
[7] Alvin Z. Rubinstein – Moscow’s Third World Strategy

Um atalho para fugir do “paraíso”

Pelo visto, o Brasil, com o programa Mais Médicos, se tornou uma opção para aqueles que planejam fugir do suposto paraíso da América Latina, lugar também conhecido como Cuba.

A médica cubana Ramona Matos Rodriguez abandonou o programa e buscou por asilo não só em terras brasileiras, mas em americanas também. Escolherá aquele que decidir a favor primeiro, e que sua prioridade é “ser livre”. Ramona, que atuava na cidade de Pacajá (PA), buscou abrigo no gabinete da liderança do DEM na Câmara dos Deputados, o deputado Ronaldo Caiado (GO), após abandonar o programa. Ela afirmou que fugiu no dia 1º de fevereiro, após descobrir que médicos de outras nacionalidades recebiam muito mais e um salário “completo”.

Um salário completo seria o salário que um cidadão comum está acostumado. Mas esse não é o caso dos cubanos do programa. O contrato especifica o seguinte: dos mil dólares mensais que o médico recebe, apenas US$ 400 ficam com ele. Os outros US$ 600 vão para Cuba, e com algumas peculiaridades. A família tem acesso a apenas US$ 50, e o restante que for recebido só poderá ser recebido, de fato, no final do programa. Segundo Ramona, os cubanos só ficaram sabendo da quantia e das características do salário no momento da assinatura do contrato. Ainda havia um auxílio moradia, em que ela morava com outras duas cubanas em uma casa da prefeitura, e um auxílio para alimentação, de R$ 750 reais mensais. Havia a possibilidade de trazer familiares de Cuba, mas seria bem improvável, devido a dificuldade em se obter um visto para sair de Cuba.

Havia um controle de locomoção. Para sair da cidade, era necessária uma “autorização” de algumas pessoas que cuidavam do programa na região. Certa vez, foi pedida uma autorização para um passeio em Anapu (PA), que foi concedida. Não poderiam entrar nos “detalhes” do contrato com os outros, e que o simples ato de ter relações amorosas com pessoas que não são cubanas dependia de uma autorização de representantes do governo cubano. Quando realizou um curso em Brasília, soube que os não cubanos recebiam R$ 10.000 por mês. Sentiu-se enganada. Aqui está a ata da audiência no Ministério Público do Trabalho (MPT).

Qualquer um pode observar o claro intuito dessas medidas: forçar com que o médico finalize sua participação e retorne dentro dos (belos) conformes estabelecidos. Porém, fica uma questão que para alguns, é dúvida; para outros, fanáticos e cegos pelo regime, é um mistério – ou mentira, conspiração; e para o restante, é apenas uma simples pergunta retórica: se Cuba é um dos melhores lugares para se viver na América Latina, afastada das amarras do capitalismo, com todo o seu enfoque social a favor do povo, por quais motivos os cubanos não iriam querer voltar?

Um pouco antes, no final de janeiro, Ortelio Jaime Guerra anunciou em seu Facebook um feito mais ambicioso: fugiu para os Estados Unidos. Ao invés de, em Cuba, se lançar em alto mar rumo ao sul da Flórida, aproveitou a (não tão mais) livre situação política brasileira e foi para lá, muito provavelmente, confortável na poltrona de um avião. Entretanto, a Secretaria Municipal de Saúde de Pariquera-Açu (SP), cidade na qual ele trabalhava, só noticiou o caso na segunda-feira, 10 de fevereiro.

Perfil de Ortelio na rede social, local aonde avisou sobre o que estava fazendo.

Ortelio afirmou que fugiu sem avisar ninguém por questões de segurança e que, no momento da publicação, já estava nos EUA. Agradeceu àqueles que ficaram ao seu redor durante seu tempo no Brasil, citando alguns nomes. Se desculpou pelo português que teve pouco tempo para aperfeiçoar e, logo em seguida, mais uma publicação, agora em espanhol. Afirmou que precisava dar esse passo, se orgulhava de sua terra e suas raízes, e agradeceu por toda a preocupação.

Segundo o diretor de Saúde de Pariquera-Açu, Willian Rodrigo de Souza, o motivo da fuga de Ortelio ainda é desconhecido. “Os próprios colegas que moravam com ele, em uma residência alocada pelo município, não sabem o que aconteceu.” Só pode estar brincando. Ortelio fugiu pelo mesmo motivo que toda aquela, literalmente, maré de cubanos que já tentaram atravessar o estreito da Flórida: fugir de Cuba, arriscando a própria vida em busca de algo melhor no capitalismo dos EUA. Não parece nada razoável que alguém que dispunha de uma boa vida se sujeitasse a isso. Talvez seja, simplesmente, que a vida não fosse boa, como alguns socialistas – que em lá não moram, e muito provavelmente nunca irão – teimam em afirmar.

Obviamente, a esquerda socialista brasileira não gostou dos acontecimentos. O caso de Ramona seria apenas mais uma grande farsa montada para benefício próprio e para enganar o povo brasileiro – apesar de os mesmos problemas ocorrerem em nossos vizinhos bolivarianos, incluindo até sutis toques de recolher depois das seis da tarde. Que se há problemas em relação ao governo cubano, isso é problema deles e que brasileiros não deveriam julgar – é claro que, para eles, o mesmo não é válido para os erros dos EUA. Aqui uma entrevista dela, se defendendo das acusações.

Supondo, para o bem do debate, que Ramona tenha se aproveitado do Brasil e feito mídia em cima, diferente de Ortelio, que fugiu sem ninguém ficar sabendo. Pois bem. O que muda é um caso em específico, e não todo o contexto. Pode até ser verdade que apenas 24 médicos dentre milhares abandonaram o programa.  Entretanto, não é fácil tomar uma decisão radical como essa adotada pelos dois, principalmente se tratando do governo cubano. Se apenas esses casos ocorreram, não quer dizer que outros cubanos não estejam planejando o mesmo para o futuro, aguardando uma oportunidade – Ramona conhecia pessoas que estavam aqui no Brasil e puderam ajudá-la em sua empreitada. Porém, não é de estranhar se boa parte dos cubanos do programa – e também daqueles que estão vivendo neste exato momento em Cuba – desejarem o mesmo caminho.

Esses fatos recentes reforçam a crítica ao modelo cubano. Afinal de contas, se aquele lugar é tão vantajoso, por qual motivo as pessoas de lá iriam querer morar em outras países? Por que são encantadas por uma mentira, assim como um rato e uma ratoeira? Difícil de acreditar em algo do tipo, principalmente com um fluxo migratório tão negativo como o cubano – desde a Revolução Cubana mais pessoas saem (fogem) de lá do que novos moradores chegam ao país do regime castrista. Negar que as pessoas façam isso pois Cuba não é o paraíso que os socialistas imaginam é negar a racionalidade humana, que busca sempre melhorar de vida sob um ponto de vista subjetivo.

O medo da deflação, a Europa e os mitos econômicos

No início do mês, o Banco Central Europeu (BCE) manteve a taxa de juros em seu atual valor, 0,25%, uma mínima recorde. Essa postura do BCE leva em conta, entre outros fatores, o medo de supostos problemas que surgiriam com uma deflação, algo que seria desastroso para a zona do euro. Não apenas o BCE está temeroso, mas governos e o mercado financeiro também.

Essa postura possui seus motivos, mas são infundados. Muito em parte pelo fato de existirem mitos em torno da “temível” deflação, e de que a economia europeia sofre por distorções causadas pelas intervenções estatais.

Deflação monetária e de preços

Se com o conceito de inflação já ocorrem algumas distorções, não é de se estranhar que com a deflação o mesmo ocorra. Inflação é o aumento na quantidade de moeda; inflação de preços é o aumento de preços, obviamente. A inflação de preços é medida por vários índices de preços diferentes, escolhendo determinados itens, locais, e fazendo alguma média ponderada, definida conforme a metodologia necessária.

O problema com os índices de preços é que eles podem maquiar informações importantes.  Distorções causadas por inflações monetárias (aumento da quantidade de dinheiro) não são apresentadas e podem ficar ocultas. Na década de 20, nos EUA, os índices de preços eram relativamente estáveis, mesmo com um castelo de cartas sendo construído por causa da política monetária americana. Os índices apresentavam valores estáveis mesmo com um aumento na quantidade de dinheiro pois naquela época os ganhos de produtividade eram exponenciais.

A moeda, assim como os bens, também está sob oferta e demanda. Se a quantidade (oferta) de moeda aumentar e a quantidade (oferta) de bens permanecer praticamente inalterada, há uma enorme tendência de inflação, pois há mais moeda para a mesma quantia de bens; uma unidade da moeda agora vale menos para uma unidade de um bem.

Naquela época americana, desde o século XIX, com os ganhos de produtividade, naturais em economias mais livres, acontecia o seguinte: mesmo com um aumento (um pouco que lento, se comparado aos padrões atuais) da oferta de moeda, esses ganhos resultavam em cada vez mais bens e serviços; a quantidade de moeda aumentava, só que a quantidade de bens e serviços aumentava ainda mais, e cada unidade de moeda valia mais perante os bens e serviços da economia. Entre 1866 e 1913, nos EUA, os preços caíram, em média anual, 1%. Grosso modo, se a oferta de bens aumenta 3%, mas a quantidade de moeda aumenta em apenas 2%, a moeda tende a valer 1% a mais perante os bens. Se o leitor quiser, aqui está o link para verificar estatísticas econômicas da época.

Com a deflação, ocorrem as mesmas distorções a respeito de sua conceituação. Deflação de preços é quando a inflação é negativa – os preços, no geral, caem. Deflação é quando ocorre uma diminuição na oferta de moeda. Há uma mistura entre ambos os conceitos e equívocos ocorrem com isso. Por exemplo, como visto acima, se a oferta de moeda aumentar mais devagar que a oferta de bens e serviços, haverá deflação de preços, mesmo com um aumento na quantia de moeda. Além disso, a deflação – de preços – está, no “entendimento” de muitos, relacionada diretamente como um prenúncio de graves problemas econômicos, problemas esses se manifestam após uma deflação – na oferta de moeda. Como tudo isso é conceituado como “deflação”, fica complicado definir o que é causa, o que é efeito e o que não está relacionado. Dessa forma, fica fácil entender uma parte do medo que surge quando preços passam a cair.

E há sim a possibilidade de crise depois de uma contração de moeda. Todavia, isso geralmente acontece após um período em que houve expansão na oferta monetária. Explicando: o dinheiro existente em uma conta corrente em um banco é resultado, em parte, de um processo de geração de dinheiro, possível por questões contábeis, por parte dos bancos, e de política monetária, por parte do governo.

Suponha que José realize a criação de uma conta corrente num banco X e faça um depósito de R$ 1000. O banco, agora, possui em seu passivo um valor de R$ 1000 (a obrigação para com o dinheiro do cliente) e em seu ativo um valor de R$ 1000 (o depósito). João, que está endividado, precisa de um empréstimo para pagar suas contas. O banco X oferece a ele R$ 800. Esses R$ 800 vieram de que lugar? São R$ 800 do depósito do José. Agora, existem R$ 1.800 na economia – R$ 1000 do depósito de José e R$ 800 emprestados ao João. Entretanto, os R$ 800 reais de João “não existem”; existem em cima do depósito de José, o qual ele tem total acesso. Se ele quiser sacar os R$ 1000 o banco quebra, pois o ele simplesmente não tem esse dinheiro. Geralmente, quando os correntistas tentam fazer isso já no momento de contração da economia, descrito em maiores detalhes aqui.

A seguir, alguns mitos que permeiam a mentalidade das pessoas no que diz respeito a deflação, e a relação específica dela com a Europa.

Primeiro mito: não há possibilidade de lucros

Em um ambiente deflacionário, a receita das empresas cai – todos os preços caem. Assim sendo, em um primeiro momento, a empresa tem seus custos e suas despesas. No segundo momento, suas receitas, finalizando com o seu lucro (ou prejuízo). A questão é: se a empresa, em no primeiro momento x1 teve R$ 525 de custos e despesas, e R$ 700 em receitas em x2, esses R$ 700 não valem o mesmo que valiam em x1, no momento dos custos. Dessa forma, seria necessário ajustar a receita com um índice de preços que refletisse a atual deflação, o que poderia demonstrar um prejuízo.

Nesse exemplo, a empresa teve um lucro nominal de R$ 175. Mas, se ajustando à deflação, pode ser que tenha tido um prejuízo. Tudo depende da intensidade da deflação. Entretanto, nesse caso, para que ela tivesse prejuízo, a deflação teria que ser acima de 25% para o período, um valor altíssimo. Para que empresas tivessem muitos prejuízos com a deflação, é necessária uma alta deflação. Nos EUA, no período descrito acima, a maior deflação verificada em um ano foi de 6,82%, em 1867, e lembrando que a média anual nas quedas de preços era de apenas 1%. No caso da empresa descrita, a receita real no ano de 1867 seria de R$ 652,26, com um lucro real de R$ 127,26.

Para saber o quanto a deflação tem que ser para acabar com a lucratividade de uma empresa se pode calcular a lucratividade em função do faturamento. É necessário apenas dividir o lucro líquido disponível pelo faturamento líquido, ambos nominais. No caso da empresa acima, se chega ao valor de 25%. Portanto, uma deflação de magnitude superior a 25% acaba com o lucro real dela.

Todavia, é preciso lembrar que no cenário atual, de inflação (leve e controlada, é verdade) almejada pelos burocratas do governo, as empresas também precisam realizar cálculos em cima de custos e receitas para se obter a um resultado real, só que com menor poder de compra. Além disso, com uma inflação acima de 25%, a empresa do artigo também não seria lucrativa. Ou seja, independente de inflação ou deflação, há a possibilidade de lucros, contanto que eles sejam em taxas superiores às das alterações nos preços. Bons empreendedores conseguirão encontrar lucros em ambos os cenários, desde que as alterações nos preços não sejam muito extremadas. Além disso, em um determinado momento x3, os custos iriam cair novamente, pois não é somente a receita que cai – cairá só em x4. Os custos cairão novamente em x5, e assim sucessivamente.

O Japão poderia ter aproveitado de um período assim recentemente: com preços em queda, negócios se expandiam, o consumo aumentou, o padrão de vida aumentou e as pessoas ficaram mais felizes. Não fosse o problema fiscal de governos que gastam muito e do envelhecimento da população, a economia nipônica teria ficado ainda melhor. Mas é claro que o governo interveio para acabar com essa “catástrofe”. O iene está cada vez mais desvalorizado, e a inflação, mesmo que ainda bem tímida, está crescendo.

Já para a Europa, não há motivos para pânico no que diz respeito a altas deflações.

Aumento do M2 na Europa, composto por dinheiro em circulação e depósitos à prazo, mas de curto prazo.

O M2, entre 2011 e o começo de 2014, aumentou mais de 9% nesse período. A quantidade de moeda continua aumentando.

Produtividade na zona do euro, entre 2010 e 2013.

Como se pode ver, a produtividade na zona do euro está estagnada, crescendo menos que a oferta de moeda. A única possibilidade de uma forte deflação seria por meio de um colapso no sistema bancário, mas levando em consideração o caso das frágeis economias da Grécia e do Chipre que chegaram a ter, no máximo, 3% na queda dos preços, é de se duvidar do tamanho da deflação. Só lembrando que o colapso não ocorreu por causa da deflação, e sim por causa de políticas monetárias extremamente irresponsáveis, muito distantes de algo deflacionário, inclusive.

Segundo mito: desemprego em massa

Um segundo mito que existe em torno da deflação é o desemprego em massa. Como há a mistura entre os conceitos de deflação, pode ocorrer desemprego em massa numa deflação monetária pois ela caracteriza o final do ciclo econômico artificial e inflacionista criado pelos governos, em que a economia se encontra em seu estágio mais fragilizado.

Falando da deflação de preços, há uma extensão do mito da impossibilidade de lucros. Tanto as receitas quanto os custos cairiam. E entre os custos e despesas, há insumos, há aluguéis, há (principalmente) impostos, entre outros. Mas uma variável é mais importante e recebe maior atenção: os salários. Uma queda nos salários representaria uma queda no consumo, o que diminuiria o lucro das empresas, que por sua vez diminuiria os investimentos, e posteriormente o consumo, e assim sucessivamente, numa espiral negativa.

Mas há uma tendência, que se origina na própria oferta e demanda, que protege os salários reais numa deflação, potencializando-os. A oferta de mão de obra tende a ser estável, e a de bens e serviços, crescente. Assim sendo, não há problemas quanto ao poder de compra, pois como a oferta de trabalhadores é estável e a de bens e serviços é crescente, o preço do trabalhador (seu salário) cai mais lentamente que os outros itens da economia, e o aumento real no salário surge dessa diferença. Com o aumento real do salário, o consumo tende a aumentar, não diminuir, pois o indivíduo pode comprar mais com menos, um incentivo a consumir mais.

O problema surgiria conforme a política trabalhista do governo, e aí a Europa enfrentaria um problema. Boa parte dos maiores salários do mundo são pagos lá, pressionados para cima conforme a intervenção dos governos. Claro que o continente é produtivo, possui mais capital e condições de pagar salários superiores aos de boa parte do mundo, mas a questão do salário mínimo, numa deflação, é importantíssima. Num ambiente deflacionário, tanto custos quanto receitas caem. Se os salários não caírem, os custos não cairão tanto e podem cair menos do que as receitas, diminuindo a lucratividade e causando até um eventual prejuízo. Com o prejuízo, a empresa cortará o gasto que está pesando em seu orçamento: os salários. Entretanto, como ela está amarrada em políticas trabalhistas de salários nominais altos, será necessário mexer nos empregos, visto que nos salários não é possível. Surgiria, então, o desemprego em massa, pois isso ocorreria com boa parte das empresas, dando início a espiral negativa no consumo, tão temida por keynesianos. Isso ocorreu na crise de 1929, em que houve deflação (chegou a 10,31% em 1932), e com as intervenções do governo para salvar a economia, o que incluía rigidez nos salários e preços, forçando-os para cima, não é de se estranhar que houve um colapso e uma crise que só foi terminar de fato depois da Segunda Guerra Mundial.

Terceiro mito: o fardo das dívidas

Um terceiro problema que surgiria com a deflação seria que dívidas se tornariam fardos cada vez maiores. Suponha um empréstimo de R$ 10.000. Com o passar do tempo, em um ambiente deflacionário, esses R$ 10.000 passariam a valer mais, diferente dos tempos atuais, principalmente o de países da América Latina, que vivem sofrendo com alta inflação. Assim sendo, com uma queda do valor do dinheiro mas uma manutenção do valor nominal da dívida, fica cada vez mais difícil de realizar seu pagamento conforme o tempo passa, pois ela receberá reduções no seu pagamento, mas ainda possui a obrigação de pagar uma dívida de R$ 10.000.

É claro que ter que cada vez mais dificuldade para pagar uma dívida não é bom. Só que no ambiente atual, as coisas não são tão fáceis também. Os bancos trabalham com a expectativa de inflação em suas taxas de juros, que existem sobre os empréstimos. Portanto, um empréstimo de R$ 10.000 não será um empréstimo de R$ 10.000, pois juros serão cobrados em cima deles e muito provavelmente serão superiores à inflação, aumentando o valor real do pagamento. Todavia, com deflação, o poder de compra da pessoa aumenta, e se ela manter um padrão de vida sem grandes alterações conforme os preços caírem, ela poderá comprar tudo o que comprava antes só que mais baratas, sobrando mais dinheiro no bolso, que poderá ser usado para pagar o empréstimo e depois conseguir aproveitar ao máximo os benefícios da deflação. Já com inflação, o dinheiro vale cada vez menos, então a pessoa precisará arcar cada vez mais para pelo menos manter seu padrão de vida, e se quiser aumentá-lo, terá de gastar ainda mais. Para manter o padrão de vida e pagar a dívida, teria que receber aumentos reais no salário, cada vez mais difíceis conforme maior for a inflação, ao passo que a deflação, por si só, já é um aumento real do salário nominal.

Já para a Europa, o caso é mais delicado. O continente figura, também, entre os mais endividados do mundo, principalmente a zona do euro. Com dívidas altíssimas, os fardos para pagar dívidas são altíssimos também.

Tamanho da dívida em relação ao PIB, em porcentagem.

Ano passado, a dívida dos países da zona do euro chegou na casa dos 90% do PIB, o que dá trilhões de euros. Aumentos singelos na deflação já aumentaria muito o fardo dos países endividados, pois a dívida, em dólares, ultrapassa os US$ 14 trilhões. 1% sobre isso são US$ 140 bilhões, valores difíceis de serem pagos.

Porém, debitar na conta da deflação o problema de não conseguir pagar enormes dívidas é culpar o fato errado. A deflação apenas dificulta o pagamento da dívida. O problema são dívidas com valores astronômicos, não a deflação. Dívidas que surgiram com governos adeptos de políticas keynesianas, heterodoxas, de enormes gastos públicos e políticas de combate à, entre outros, a deflação. Se endividar mais como um meio de evitar ter maiores dívidas reais decorrentes da deflação é uma contradição por si só.

A deflação força que governos, empresas e pessoas físicas sejam mais prudentes. Mas não é essa opção política que a Europa quer. Os governantes querem que as pessoas consumam mais, devido à “demanda agregada”, mesmo que isso signifique altos endividamentos. O mesmo vale para eles. Querem gastar cada vez mais, mostrar “serviço”, não querem austeridade, não querem responsabilidade. Gastar bilhões, trilhões de euros com possíveis eleitores é uma opção de curto prazo muito boa para atrair eleitores. Só que no longo prazo, quando a conta chega, os problemas surgem, e os eleitores se revoltam. E com deflação, o fardo dessas dívidas seria cada vez maior. Portanto, não é de se estranhar que os principais nomes da política europeia sejam contra a deflação, visto que ela transforma uma máquina de votos em uma bomba.

Conclusão

O atual ambiente econômico em que vivemos corrói o poder de compra do dinheiro do cidadão. Com o tempo, o dinheiro vale cada vez menos, e os indivíduos buscam aplicações financeiras que possam, pelo menos, manter o seu poder de compra. Já com a deflação, a própria manutenção do dinheiro já gera uma “remuneração”: ele vale cada vez mais com o passar do tempo. Até colocar dinheiro debaixo do travesseiro vira um investimento.

Entretanto, há alguns que não enxergam assim. Acreditam que é preciso criar enormes quantias de moeda, pois isso estimulará a “demanda agregada” e fornecerá as bases do crescimento. A inflação decorrente, que desequilibra as relações dentro de uma economia e corrói o valor da moeda, vem por uma boa causa. De qualquer forma, ela não seria tão ruim quanto a deflação, um monstro que destruiria toda a economia.

Evidente que uma alta deflação no curto prazo não é desejável, pois os mesmos desiquilíbrios existentes com uma alta inflação surgiriam, com alguns adicionais. Só que o presente artigo não apresenta uma defesa a esse caso. É uma explanação sobre os benefícios de uma leve deflação de longo prazo. A história de comprar amanhã pois amanhã estará mais barato é uma manifestação de uma deflação altíssima, não de algo benéfico. Mas não é o caso de uma oferta monetária mais constante, acompanhada de um aumento na quantidade de bens e serviços. Não há motivos para crer que haveria reduções significativas nos lucros e nos empregos em uma economia assim, e que surgiriam problemas decorrentes da prudência com empréstimos em uma ambiente deflacionário.

América Latina: Projetos e Projeções

Uma maior integração entre os mercados latinoamericanos passará, necessariamente, por importantes reformas nas estruturas viárias de seus países. Para que bens transitem livre e eficientemente, são necessárias rodovias, ferrovias e hidrovias modernas e bem-conservadas, além das políticas de livre comércio.

Importantes iniciativas estão sendo tomadas neste sentido, e esperamos que elas se concretizem, e as que já estão em andamento se consolidem cada vez mais. Algumas destas importantes iniciativas são:

Aliança do Pacífico

Fundada em 2012, é um bloco comercial líder em exportações e comércio exterior de toda a América Latina visando tornar-se o maior e mais ambicioso bloco comercial da América Latina. Atualmente, o bloco representa a oitava maior economia do mundo, seus quatro países membro reunindo cerca de 40% de todo o PIB da América Latina. Segundo a Organização Mundial do Comércio, os países da Aliança do Pacífico exportaram em conjunto cerca de U$445 bilhões em 2010, quase 60% mais que o Mercosul exportou no mesmo ano.

A Aliança stá composta de quatro países latinoamericanos com costa no Oceano Pacífico: Chile, Colômbia, Peru e México. Costa Rica passará a ser o primeiro país observador a aderir à aliança como o quinto membro pleno uma vez que ratifique o Tratado de Livre Comércio com a Colômbia, assim como o Acordo Marco da Aliança do Pacífico, processo que se espera acabar em 2013. Entre os acordos para integrar a Aliança se estabelece como requisito essencial a vigência de um Estado de Direito, da democracia e da ordem constitucional.

A intenção desta aliança, segundo a Declaración de Lima é “alentar a integração regional, assim como um maior crescimento, desenvolvimento e competitividade” das economias de seus países, uma vez que se comprometeram em “avançar progressivamente ao objetivo de alcançar a livre circulação de bens, serviços, capitais e pessoas”.

Corredor Bioceânico Aconcágua

Também aproveitando o processo de globalização do Pacífico, este projeto visa conectar melhor os mercados do cone sul ao tráfego de bens por este Oceano. O meio pensado para atingir isto é a transposição da Cordilheira dos Andes através de um túnel bioceânico ligando o Atlântico Sul ao Pacífico por uma ferrovia. Atualmente, as Cordilheiras são contornadas por rotas longas e caras em termos logísticos.

Para estimar a nova demanda estudaram-se os tráficos potenciais que a nova passagem internacional pode atrair. Este projeto compreende o crescimento da demanda e a possibilidade de gerar novos tráficos. Conforme os estudos para este projeto, a demanda atingiria em 2020 os 25 milhões de toneladas de carga, e em 2040 mais de 70 milhões de toneladas, considerando que diante de maior infraestrutura logística de otimização do transporte, maior é o incremento da demanda.

Os tráficos potenciais da Argentina seriam o Chile, o Peru, o Equador, os Estados Unidos, o México, a América Central, a Oceania e o Oriente. Por outro lado, os tráficos potenciais para o Chile estariam representados pela Argentina, o Brasil, o Norte da Europa, o Mediterrâneo, a África Central e os países do Oceano Índico. Também incluíram na análise os possíveis tráficos entre o Brasil e o Oriente, pelo grande volume.

É possível chegar aos destinos antes mencionados de forma mais econômica a partir de um porto argentino que de um chileno. Portanto, qualquer tráfico com origem no Chile e cujo destino seja, por exemplo, o Brasil ou a Europa é um tráfico potencial para o CBA. Qualquer tráfico originado na Argentina e com destino ao Pacífico, como por exemplo os Estados Unidos ou os mercados do Oriente, é um potencial interessado em utilizar o Corredor Bioceânico Aconcágua.

O projeto, com estimativa de conclusão para 2020, promete os seguintes benefícios: uma conexão bioceânica comercial e estratégica confiável e de longo prazo, disponibilidade operacional o ano inteiro, crescimento de longo prazo planejado em etapas, redução de até 70% do consumo energético por tonelada de carga, transporte de caminhões e contêineres, redução do tráfico rodoviário de caminhões, menor poluição, 80% menos acidentes fatais contra cargas viárias e maior velocidade de transporte de carga (até 60% mais rápido).

Hidrovia do Mercosul

Prevista para iniciar operações em 2014, a Hidrovia do Mercosul ligando o Brasil ao Uruguai será feita através das lagoas Mirim e Dos Patos no Rio Grande do Sul. Com a dragagem do canal do Sangradouro, será possível que embarcações uruguaias tenham acesso aos portos gaúchos como os de Rio Grande e Estrela, o que também promete acelerar projetos de terminais hidroviários sendo desenvolvidos no Uruguai por empresas como a Timonsur e a Hidrovia del Este.

Ligando as lagoas Mirim e dos Patos no Estado do Rio Grande do Sul aos rios Quaraí e Uruguai, esta hidrovia pode impulsionar o comércio fluvial entre os países cortados por estes rios: Argentina, Brasil e Uruguai.

Saiba mais sobre os projetos:

Vargas Llosa diz que o socialismo do século XXI morreu com Chávez

“Com o comandante Chávez morreu o socialismo do século XXI através de uma eleição que acabamos de ver. O povo venezuelano reagiu”, observou o escritor peruano numa conferência no Rio de Janeiro, Brasil.

Vargas Llosa afirmou que o resultado das presidenciais de domingo na Venezuela, vencidas por Nicolás Maduro com uma pequena margem face ao opositor, Henrique Capriles, revela que o “populismo começou a retroceder” na América Latina.

“Estão enganados os que pensam que a América Latina está entre a democracia e o populismo autoritário”, disse durante uma conferência do Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais sobre “A nova era de incerteza — Para compreender o século XXI”.

Vargas Llosa, fervoroso defensor da liberdade e democracia, constatou que a história recente da Venezuela é a de um “regime populista” guiado por um “caudilho messiânico” que, com petrodólares, exportou o seu modelo de socialismo a “facções” de outros países da região e o que conseguiu foi “semear a confusão na América Latina”.

“O socialismo do século XXI é uma ficção ideológica que não se diferencia do socialismo autoritário de Cuba”, defendeu.

Para Llosa, a “democracia na América Latina já não é frágil” como há décadas e na região há mais motivos para o otimismo do que para o pessimismo.

“Na América Latina nos nossos dias há um rumor de progresso, uma música que desconhecíamos até há pouco”, disse, salientando que “o caminho do verdadeiro progresso é o da liberdade, não o da intolerância”.

O escritor exortou o povo da América Latina a renunciar à utopia da sociedade perfeita, em que todos são felizes, porque “isso não existe”, alertando que essa ideologia tem trazido a região mais males do que benefícios.