Um pouco de memória para a Semana Farroupilha

Guerra dos Farrapos ou Revolução Farroupilha são os nomes pelos quais ficou conhecida a revolução de caráter republicano contra o governo imperial do Brasil na então província de São Pedro do Rio Grande do Sul. Há 177 anos, em 1835, surgia a República Rio-Grandense, estado este que foi independente por 10 anos tal qual a República do Texas (1836-1846) na América do Norte. O estado do Rio Grande do Sul ainda carrega na sua bandeira o brasão que ostenta o título de República e a tríade de valores “Liberdade, Igualdade, Humanidade” que inspirava os republicanos de 1835.

Seguindo o exemplo da Província Cisplatina e buscando fugir do caráter unitário do Império, o conflito se originou na política entre liberais e conservadores no que os primeiros buscavam maior autonomia para as províncias e os últimos buscavam uma maior centralização. O fato de o Rio Grande do Sul produzir mais para o mercado interno do Brasil do que outras províncias de economia exportadora complicavam ainda mais a situação dos gaúchos: seus principais produtos, o charque e o couro, eram altamente tributados. A concorrência com as Províncias Unidas do Rio da Prata estava desfavorável ao Rio Grande do Sul, pois seu produto chegava com preço maior no mercado interno e portanto perdia competitividade.

Por não ter sido jamais uma capitania hereditária no período colonial e ter seu território ocupado, desde o século XVII, por um sistema de concessão de terras a chefes militares, havia a capacidade de oposição militar ao fraco exército imperial na região. Os contatos comerciais além das fronteiras do império, como por exemplo com a Cisplatina (outrora parte deste), exibiam as vantagens de uma república para os caudilhos locais. Outro motivo a somar-se foi a imposição, por parte do Governo Imperial, de presidentes provinciais. Porém, as idéias republicanas já estavam presentes na região: houveram tentativas anteriores de criação de uma república, como as três vezes em que Alexandre Luís de Queirós e Vasconcelos proclamou a república no início do século XIX ou ainda a Sedição de 1830 organizada por João Manoel de Lima e Silva, entre outros.

“Farrapo” ou “farroupilha” era um termo originalmente pejorativo usado para referir-se aos sul-rio-grandenses vinculados ao Partido Liberal, oposicionistas e radicais ao governo central. Em 1832 foi fundado o Partido Farroupilha, que se reunia na casa do já referido major João Manoel de Lima e Silva. O restante da história todo gaúcho já sabe – mesmo que não em detalhes – e entende que se resume à luta pela autonomia e liberdade. A Semana Farroupilha, que corre do dia 14 de setembro, três dias depois da proclamação da República Rio-Grandense, a 20 de setembro, dia da declaração da guerra, deve ser não só um momento de refletir sobre a tradição e a cultura gaúcha, mas também sobre os valores que motivaram aquela luta e até hoje são meio deixados de lado não só no Rio Grande do Sul mas no país como um todo. Desejo a todos, desde já, uma excelente Semana Farroupilha!

A Conquista do Brasil (Parte I)

As estimativas referentes à população indígena do território brasileiro em 1500 variam entre 1 e 10 milhões de habitantes. Estima-se que na costa viviam entre 2 e 6 milhões. As estimativas para todo o continente americano são igualmente controversas, variando de 30 milhões à 60 milhões, ou até 100 milhões em alguns casos. Mas como será que toda essa gente chegou aqui? Bom, antes de investigarmos como o Brasil foi povoado, precisamos entender como o homem chegou às Américas.

Migrações humanas: o povoamento das Américas

Do ponto de vista da teoria do povoamento tardio, os paleoamericanos entraram no continente durante a última glaciação, que permitiu a passagem para o Novo Mundo através da Beríngia. Este evento ocorreu entre 14 mil e 13 mil anos antes do presente (AP). A teoria do povoamento primitivo diz que os humanos chegaram à América muito antes, baseando-se no descobrimento de restos cuja datação por carbono 14 dão uma antiguidade maior que 14 mil anos antes do presente (AP). A pesquisa paleoantropológica se soma à informação produzida pela genética, que serviu para reforçar algumas conjecturas sobre a origem dos americanos.

A Ponte da Beríngia, hoje submersa no Estreito de Bering, teria sido o que permitiu a migração dos humanos da Ásia para as Américas. As pesquisas genéticas comprovam uma ancestralidade comum entre mongóis e índios norteamericanos.

Depois que os paleoamericanos entraram no continente, a passagem da Beríngia foi coberta novamente pelo mar, de modo que ficaram praticamente isolados do resto da humanidade.

I. Teoria do povoamento pela Ponte de Bering, o corredor livre de gelo e o Consenso Clovis

Se encontra  provado que durante a última glaciação, a Glaciação de Würm ou Wisconsin, a concentração de gelo nos continentes fez baixar o nível dos oceanos em uns 120 metros. Esta baixa faz com que em vários pontos do planeta se criassem conexões terrestres, como por exemplo Austrália-Tasmânia com Nova Guiné; Filipinas e Indonésia; Japão e Coréia.

Um destes lugares foi Beríngia, nome que recebe a região que compartilham Ásia e América, na zona em que ambos os continentes estão em contato.

Existia então uma ponte terrestre entre a Ásia e o Alasca, que apareceu quando as geleiras do último período glacial estavam em seu máximo. A falta desta água reduziu o nível do mar de Bering em mais de 90 metros, bastantes para converter o estreito em uma ponte de terra que unia os dois continentes.

Surge então a teoria do “corredor livre de gelo”. Segundo esta teoria, nos instantes finais da última glaciação, começaram a derreter-se partes das duas grandes placas de gelo (Placa Laurentina e Placa da Cordilheira) que cobriam o Canadá, abrindo um corredor livre de gelo de uns 25 km de largura. Uma vez aberto o corredor, os seres humanos que estavam em Beríngia poderiam avançar até o interior da América e dirigir-se ao sul. A teoria foi amplamente aceita como parte integrante do Consenso de Clovis.

Esta teoria se articulou com os descobrimentos da Cultura Clovis que datavam do ano 13.500 AP e da qual teriam descendido todas as demais culturas americanas. Esta explicação, conhecida atualmente como teoria do povoamento tardio ou Consenso Clovis, foi aceita de forma generalizada durante a maior parte da segunda metade do século XX.

Mais recentemente tem se fortalecido a possibilidade de que os povoadores da América provenientes da Beríngia tenham utilizado uma rota alternativa até o sul contornando a costa.

II. A crise do Consenso Clovis

A partir das últimas décadas do século XX, as teorias combinadas que constituem o consenso Clovis entraram em crise e tem se questionado a antiguidade da chegada do homem à América.

Cada vez existe mais evidência incontestável de presença humana na América anterior a 14.000 anos AP. A evidência descoberta em Monte Verde (Chile) por Tom Dillehay é incontestável, e foi datada em 12.500 anos AP (Monte Verde I) e 33.000 anos AP (Monte Verde II).  Por sua antiguidade próxima ao ano máximo do consenso Clovis, sua localização no outro extremo do continente, e a ausência de similitudes com a cultura Clovis, o reconhecimento generalizado de Monte Verde supõe o fim da teoria do povoamento tardio como teoria hegemônica na arqueologia do povoamento da América.

Ilustrações das três principais teorias sobre o povoamento das Américas: via Beríngia, via Austrália e via Malásia-Polinésia.

III.  Novas teorias, novos achados e novos estudos

O atual debate sobre a chegada do homem à América se caracteriza pela variedade de teorias e subteorias, os resultados contraditórios, a quantidade de estudos e contraestudos.

Desde a década de 1980, a pesquisa genética tem ocupado um lugar cada vez mais destacado. Os geneticistas utilizam o DNA mitocontrial (DNAmt) para seguir a linhagem feminina e o cromossomo Y (DNA-Y) para seguir a linhagem masculina.

Em 1981, se estabeleceu o mapa do DNA mitocondrial e, em 1990, Douglas C. Wallace determinou que 96,9% dos indígenas da América estavam agrupados em quatro haplogrupos mitocondriais (A, B, C, e D), o que significa uma notável homogeneidade genética.

Em 1994, James Neel e Douglas C. Wallace estabeleceram um método para calcular a velocidade em que muda o DNA mitocondrial. Este método permitiu datar a origem do Homo sapiens entre 100.000 e 200.000 anos AP e a saída da África entre 75.000 e 85.000 anos atrás. Aplicando este método, Neel e Wallace estimaram em 1994 que o primeiro grupo humano a ingressar na América o fez entre 22.414 e 29.545 anos atrás.

O mapa da migração humana, de acordo com os haplogrupos identificados pela genética.

O geneticista argentino Néstor Oscar Bianchi analizou a herança genética paterna em comunidades indígenas sulamericanas e concluiu que até 90% dos ameríndios atuais derivam de uma única linhagem paterna fundadora que denominou DYS199T e que colonizou a América desde a Ásia através da Beríngia há uns 22.000 anos.

Mais recentemente, o geneticista estadunidense Andrew Merriwether sustentou que a evidência genética sugere que a América foi povoada por uma só população proveniente da Mongólia, como sustentava Aleš Hrdlička. A razão disto é que na Sibéria os haplogrupos A e B quase não se encontram presentes, enquanto na Mongólia se encontram os quatro principais haplogrupos indoamericanos (A, B, C e D), salvo o X.

Merriwether destaca que os 4 haplogrupos se encontram presentes em toda a América, mas que dentro deles podem localizar-se mutações genéticas diferentes, segundo se trate de indígenas da América do Sul ou do Norte. Isto sugeriria que, uma vez entrando na América, alguns grupos migraram rapidamente até a América do Sul, enquanto outros povoaram a América do Norte e a América Central. Por sua vez, as mutações genéticas mostram migrações entre a América do Sul e a América Central (Panamá e Costa Rica), mas não mais além.

Em 2007, um grupo de geneticistas estimou que a saída da Beríngia deve ter-se produzido seguindo a rota costeira do Pacífico, em um período que inicia há mais ou menos 19–18 mil anos e termina até mais ou menos 16–15 mil anos.

IV. A antiguidade
A antiguidade do homem na América está sujeita à grande controvérsia científica. A data mais tardia é a que sustentam os defensores da teoria do povoamento tardio e está relacionada com a Cultura Clovis, que estabeleceu sem dúvidas uma presença humana há 13.500 anos. Os defensores desta teoria sustentam que a data de entrada ao continente não pode ser posterior a 14.000 AP. Porém diversas investigações científicas tem proposto datas muito diferentes e bem mais antigas, de 60.000 AP (Pedra Furada – Brasil) à 33.000 AP (Monte Verde II – Chile).

Pintura rupestre na Toca do Boqueirão da Pedra Furada.

A data mais antiga proposta até o momento foi publicada pelos cientistas brasileiros Maria da Conceição de M. C. Beltrão, Jacques Abulafia Danon e Francisco Antônio de Moraes Accioli Doria, que sustentam ter encontrado algumas ferramentas de quartzito no sítio de Toca da Esperança, que foram datadas em 295.000 a 204.000 anos de antiguidade, o que indicaria presença humana anterior ao Homo sapiens. Para Maria Beltrão e Rhoneds Aldora Perez, foi possível um povoamento humano na América anterior ao Homo sapiens, há mais de 300 mil anos durante a glaciação illinoiense, realizada por alguma variante do Homo erectus, com uma indústria lítica de bordas e lascas. De qualquer forma, não foram encontrados fósseis humanos nem apresentadas outras provas que confirmem isto.

V. América do Sul primeiro?
Um dos elementos que tem chamado a atenção de alguns pesquisadores é a presença de sítios de grande antiguidade na América do Sul e a escassa quantidade dos mesmos na América do Norte. O dado é chamativo porque, se a América foi povoada desde a Sibéria, os sítios mais antigos deveriam achar-se no norte.

Alguns estudos tem detectado entre os paleoíndios sulamericanos e norteamericanos diferenças em matéria de genes e fenótipos: os do sul com traços mais australóides e os do norte mais mongolóides. Estes elementos tem causado uma crescente adesão de alguns investigadores à hipóteses de um povoamento autônomo da América do Sul, não proveniente da América do Norte. Esta hipótese se relaciona estreitamente com a teoria da entrada pela Antártida desde a Austrália.

VI. Outras teorias, outras rotas possíveis propostas

Península de Kamchatka-ilhas Aleutas-Península de Alasca-Arquipélago Alexander-Ilha de Vancouver. Procedência asiática. Teriam utilizado embarcações muito primitivas para o transporte e viagem.

Oceania-Antártida-América do Sul. Também teriam utilizado balsas. O antropólogo português A. Mendes Correia, que sustentou esta hipótese em 1928, descartou outras rotas de migração.

Melanésia-Polinésia-América. Também teriam utilizado balsas primitivas. O antropólogo francês Paul Rivet, que desenvolveu esta teoria em 1943, disse que o homem americano é de origem multirracial, e portanto não negava outra rota de imigração. Isto foi contrário aos desenvolvimentos de Aleš Hrdlička e Mendes Correia, que sustentaram que a procedência era de uma só raça.

Europa-Oceano Atlântico-América. Remy Cottevieille-Giraudet documentou entre 1928 e 1931 a hipótese da origem européia (Cro-Magnon) dos “peles vermelhas” (algonquinos). Em 1963, Emerson Greenman desenvolveu a rota hipotética da migração européia à América durante o paleolítico superior e a origem européia dos beotucos (beothuks) de Terranova. Bruce Bradley e Dennis Stanford repensaram em 1999 a existência desta migração baseados nas similitudes entre a indústria lítica solutrense e a Cultura Clovis, endossados pelas pesquisas de DNA mitocondrial realizadas por Michael Brown. A teoria, conhecida como Solução solutrense, supõe que antigos habitantes da Europa Ocidental navegaram pelo Atlântico da era glacial, deslocando-se entre os gelos flutuantes, de maneira parecida com a dos esquimós, até alcançar a costa ocidental da América do Norte.

Em 1950, o espanhol radicado na Argentina Salvador Canals Frau propôs a hipótese de quatro grandes correntes migratórias: a pé pela Beríngia, navegando em canoas pelas Ilhas Aleutas, navegando através do Oceano Pacífico para desembarcar na América Central e navegando através do oceano Pacífico para desembarcar na América do Sul.

Migração seguida de extinção. Também pode ter ocorrido uma ou várias migrações há 40.000 anos ou ainda mais antigas, que tenham deixado traços isolados desta presença, mas com o resultado de que estes grupos tenham logo sido extintos antes ou contemporaneamente a ondas migratórias humanas posteriores. A respeito desta razoável hipótese não existem confirmacões conclusivas, ainda que certamente ela permitiria compatibilizar a diversidade de teorias.

VII. Algumas conclusões provisórias
Apesar dos debates em curso e a grande quantidade de perguntas e contradições que se apresentam no debate científico atual é possível realizar algumas conclusões precárias:

  1. É altamente provável que o homem americano primitivo proceda do continente asiático, especialmente das estepes siberianas ou da região do Sudeste asiático.
  2. As culturas pré-históricas e as civilizações da América se desenvolveram de maneira isolada do resto do planeta.
  3. A Revolução Neolítica americana é original e não tem qualquer relação com a que se produziu na Mesopotâmia asiática.
  4. Não existem provas sérias da chegada à América do Norte de seres humanos logo depois do fechamento da Ponte da Beríngia há 11 mil anos (Scott A. Elias). Em 982 os vikings começaram a exploração da Groenlândia e do Canadá, mas sua penetração no continente não foi significativa.

OUTRAS PARTES DA SÉRIE:

FONTES E REFERÊNCIAS:

Web

Livros, revistas, artigos e entrevistas

  • Peopling the New World: a mitochondrial view. D. Andrew Merriwether entrevistado por Sheri Fink, Academy Briefings, New York Academy of Sciences, 1º de dezembro de 2004
  • Fagundes et al. Mitochondrial Population Genomics Supports a Single Pre-Clovis Origin with a Coastal Route for the Peopling of the Americas, The American Journal of Human Genetics (2008)
  • Bischoff, J.L., R.J. Shlemon, T.L. Ku, R.D. Simpson, R.J. Rosenbauer, & F.E. Budinger, Jr., 1981 Uranium-series and Soils-geomorphic Dating of the Calico Archaeological Site, California, Geology V9 (12)
  • Simpson, Ruth D.; L. Paterson & C. Singer (1986). Lithic Technology of the Calico Mountains Site, Southern California; A. Bryan (ed.) New Evidence of the Pleistocene People of Americas: 89-105. Orono (Maine): center of Study of the Early Man.
  • Payen, L. (1982). Artifacts or geofacts at Calico: Application of the Barnes test; J. Ericson; R. Taylor & R. Berger (eds.) Peopling of the New World: 193–201. Los Altos, California: Ballena Press.
  • Irving, W.L. A. Jopling & B.F. Beebe (1986). Stratigraphic, sedimentological and faunal evidence for the ocurrence of Pre-Sangamonian artefacts in Northern Yukon; Artic 34 (1): 3-33.
  • Beltrão, Maria da Conceição de M. C.; Jacques Abulafia Danon e Francisco Antônio de Moraes A. Doria (1987). Datação absoluta a mais antiga para a presença humana na América, Editora UFRJ.
  • Beltrão, M.C. de M.C. e Rh. A. R. Perez (2007). O Homem nas Americas; XX Congresso Brasileiro de Paleontologia, Rio de Janeiro.
  • Mann, Charles C. (2006). 1491: una nueva historia de las Américas antes de Colón. Madrid:Taurus, pag. 232-234.
  • Canals Frau, Salvador (1950). Prehistoria de América. Buenos Aires: Sudamericana.

O capitalismo no Canadá

É comum ver pessoas que ao pensar em capitalismo se lembram dos Estados Unidos. Porém, atualmente na América do Norte a referência capitalista está se tornando o vizinho mais ao norte, o Canadá.

No passado, assim como os EUA, o Canadá era uma uma nação focada na liberdade individual (de certa forma, inspirada no modelo americano). Wilfrid Laurier, que foi primeiro-ministro de 1896 a 1911, era um dos principais nomes dessa época. Laurier foi o primeiro francófono primeiro-ministro do Canadá e diferente de muitos ele defendia a união entre o “Canadá francês” com o “Canadá inglês”. Grande defensor da liberdade individual e do federalismo (modelo descentralizado), fez grandes discursos e os colocou em prática, como “o Canadá é livre e liberdade é sua nacionalidade” e “nada vai me parar no objetivo de continuar a preservar sob todos os custos nossa liberdade civil”.

Sir Wilfrid Laurier

Como resultado, Laurier foi o quarto primeiro-ministro que mais tempo exerceu o cargo, porém vencendo quatro vezes consecutivas (e que continua como o atual recorde), além de quinze anos consecutivos no cargo, outro recorde. Trabalhou quarenta e cinco anos no parlamento canadense (de 1874 até 1919, ano de sua morte), mais um recorde, além de ser o líder do partido (o Partido Liberal, antes do mesmo se aproximar da social-democracia) por mais de trinta e um anos. Naquele período, o Canadá teve o maior crescimento econômico do mundo, junto com os EUA.

Durante a Primeira Guerra Mundial, houve um crescimento econômico artificial baseado na guerra. Após a guerra, o capital produtivo precisou ser realocado para gerar um crescimento econômico real. Depois dessa pequena porém severa recessão, a economia voltou a crescer. Mas com a Grande Depressão, a situação complicou-se bastante, pois a economia canadense tinha grandes relações com os EUA. O desemprego e a violência aumentaram, ao passo que a imigração teve de diminuir. Não houve nenhum New Deal no Canadá, mas somente a Segunda Guerra Mundial já foi o suficiente para maquiar bastante as dificuldades decorrentes da crise de 1929, principalmente o desemprego, artificialmente zerado.

Após a guerra, seguiu-se mais um bom período de crescimento pois todo o empenho para a produção bélica passou a ser utilizado para produção de bens e serviços. Porém, assim como diversos outros países, também surge um Estado de bem-estar social, criado pelo Partido Liberal, mudando as ações partidárias do tempo de Laurier. Com o tempo, surgiram déficits governamentais. No final dos anos 90, iniciou-se uma abertura econômica e hoje a economia do Canadá é mais liberal que a dos EUA em diversos aspectos.

Lago Moraine e Calgary, maravilhas de Alberta: glaciais e metrópoles.

Atualmente, existem algumas disparidades no Canadá. O Quebec, por exemplo, após o crescimento do estado de bem-estar social, manteve suas políticas social-democratas. Porém Alberta, uma das províncias das pradarias canadenses, vem chamando a atenção: mescla um conservadorismo social com liberdade econômica, isso tudo aliado a descoberta de petróleo.

Alberta hoje tem o maior IDH do Canadá, além do segundo maior PIB per capita, atrás apenas dos Territórios do Noroeste. Porém, os territórios mais ao norte são subsidiados pelo governo federal e têm uma pequena população, jogando indicadores econômicos para cima. Além disso, segundo recente estudo do Fraser Institute, Alberta é a jurisdição mais economicamente liberal não só do Canadá mas também da América do Norte. A consequência é que atualmente Alberta apresenta o menor desemprego no Canadá e constante crescimento econômico.

Porém, não é apenas Alberta. Saskatchewan, província vizinha, é a segunda mais liberal e “disputa” com Alberta pelo menor desemprego e maior crescimento. Saskatchewan, desde 2007, vem tendo grande influência do conservadorismo social e liberalismo econômico do Saskatchewan Party.

Saskatchewan: a tranquilidade das pradarias concorre com a vida noturna de Saskatoon.

Infelizmente, nem tudo são flores. O governo federal e os provinciais cometem alguns erros básicos mas que trazem muitas complicações. Um exemplo são leis de altos salários minímos, que complicam a vida de imigrantes recém chegados (além dos jovens). Muitos trabalhariam por menos do que o valor que o salário mínimo estabelece, mas perdem essa possibilidade graças às intervenções. O salário mínimo (estabelecido pelas províncias) varia de 9 a 11 dólares canadenses/hora, o que resulta em cerca de 1.600 dólares por mês.

A considerar que imigrantes do programa Skilled Worker (que compõe a maioria deles) precisam comprovar fundos que variam de cerca de 10 mil dólares ou mais (aumentando conforme o tamanho da família que está imigrando), seria possível conseguir um emprego de forma mais rápida, já que o imigrante poderia trabalhar por um salário menor do que o de um canadense, aumentando a competitividade no mercado de trabalho.

Falando em imigrantes, uma forma mais rápida e menos burocrática para imigrar é tendo uma proposta concreta de emprego no Canadá. Empregadores topam fazer isso, pois conseguem trabalhadores que aceitam trabalhar por menos e que estão dispostos a mostrar serviço no novo país. Mas o governo dificulta essa negociação, pois a contratação precisa ser questionada e aprovada pelo HRSDC (Departamento de Recursos Humanos e Desenvolvimento). O departamento irá questionar sobre porque contratar alguém de outro país sendo que podem existir candidatos para a vaga já morando no Canadá. Isso leva ao fato de que o empregador deve procurar primeiramente dentro de sua região para só depois tentar contratar alguém de fora.

Não obstante, o governo cobra equivalências de diplomas (geralmente para a área de saúde ou engenharia, por exemplo). Não é muito difícil encontrar empregadores que não querem saber de equivalência de diploma e que confiam nas instituições de outros países. Muitos imigrantes conseguiram emprego sem precisar disso. Porém, a área de saúde (que precisa de funcionários) é extremamente burocratizada e dificulta a contratação de imigrantes para preencher as brechas no mercado. Um dentista, por exemplo, teria que enfrentar diversas dificuldades para continuar a exercer sua profissão, mesmo tendo muito conhecimento teórico e prático no seu país de origem.

Para contornar esses problemas, o ministro da imigração Jason Kenney quer integrar empresas com imigrantes em um novo sistema de imigração, em que o imigrante qualificado já chegaria no país empregado. Mas para isso, é necessário desburocratizar bastante o mercado de trabalho, pois não é fácil conseguir imigrar com uma proposta concreta.

Portanto o Canadá, assim como diversos outros países, já passou por épocas mais liberais e também mais assistencialistas. Hoje, consegue ir bem na liberdade econômica, mas peca em alguns aspectos como gastos públicos (embora os déficits estejam diminuindo gradualmente a alguns anos, eles ainda existem) e burocracia em alguns setores da economia, porém não todos. Isso gera um atraso econômico, que poderia ser revertido se inspirando no próprio passado do país.