Democracia, eleição e governo

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O que um absolutista pode nos ensinar sobre a democracia

No século XVII, quando o debate entre absolutismo e liberalismo ainda estava em seu auge, uma figura intelectual foi de extrema importância para o curso da história política mundial: Robert Filmer. Ferrenho defensor do direito divino dos reis ao poder absoluto, a influencia de Filmer não termina nos extintos partidários do Antigo Regime. A sua magnum opus, “Patriarcha”, suscitou tantas polêmicas e réplicas que Filmer terminou sendo ofuscado, ao longo da história, pelos seus rivais intelectuais. O primeiro dos “Dois Tratados sobre o Governo Civil”, a obra de John Locke considerada a pedra angular do ideário liberal, não é mais do que uma resposta à obra de Filmer.

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Em sua obra, usando como base a Bíblia Sagrada, a história universal e uma lógica um tanto quanto questionável, Filmer defende o “direito divino dos reis” ao poder absoluto sobre os súditos. Basicamente ele sustentava que Adão foi o primeiro monarca (e patriarca) da Humanidade porque Deus lhe concedeu poder absoluto e unilateral, inclusive de vida e morte, sobre seus filhos. Como todo monarca descende e é sucessor de Adão, herda este mesmo poder. Uma premissa embutida no raciocínio é que o poder adâmico foi concedido em caráter hereditário, o que o autor trata de provar recorrendo a passagens bíblicas. Para o incrédulo que não se contente com as passagens bíblicas, Filmer recorre a exemplos históricos, demonstrando que ao longo de toda a História da humanidade a democracia sempre foi uma exceção, prevalecendo sempre o governo monárquico, o que provaria que esta é a forma de governo “natural” dos homens.

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No debate sobre a primazia do poder Parlamentar sobre o poder Real, Filmer afirmava que o Parlamento só existe como um poder delegado pelo próprio Rei, atuando em qualidade de procurador e suplente, estando sujeito a ele e podendo ser revogado a qualquer momento. Para provar a afirmação, Filmer recorre a trechos de proclamações, leis e estatutos históricos da Inglaterra. Basicamente, segundo as provas reunidas, o Rei é o Soberano, o árbitro último e final de todas as questões, de onde todo o poder emana e para onde inevitavelmente sempre retorna. Juízes, magistrados e parlamentares só atuam como seus suplentes e delegados temporários, devido à impossibilidade física de que o Rei comunique sua vontade à todos os súditos em todos os lugares. E é aqui onde a coisa começa a ficar interessante. Contra-argumentando os defensores da teoria da Soberania Popular (democracia), Filmer lança a seguinte observação:

“Jamais ouvi falar de que o Povo, por cujas Vozes os Cavaleiros e Burgueses são eleitos, tenha chamado a prestar contas aqueles a quem Elegeu; nem jamais lhes dá Instruções ou Direções sobre o que dizer, ou o que fazer no Parlamento… [O Povo] está tão longe de punir que antes acaba ele mesmo punido por intrometer-se em Assuntos Parlamentares; a ele só compete escolher…”

Ou seja, na prática, os que supomos ser “representantes” do Povo é que mandam nele, e não o contrário. Segundo Filmer, portanto, os parlamentares e aristocratas, longe de ser delegados do povo, não eram mais do que usurpadores de uma prerrogativa do rei que era mandar no Povo. Este é um dado da realidade que se evidencia até hoje nas nossas democracias atuais: se trocamos Cavaleiros e Burgueses por Vereadores, Senadores e Deputados, veremos como esta afirmação se mantém verdadeira até os dias de hoje em nossos governos autoproclamados democráticos, pois o Povo responde aos legisladores, mas os legisladores não respondem ao Povo.

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Em outra passagem, Filmer questiona o Poder Popular desde o aspecto teórico: porque o Poder Popular deveria ser sempre delegado em representantes e devolvido ao Povo somente para que ele escolha novamente outros representantes? Se o Povo é realmente soberano, de onde emana todo poder e autoridade, etc., então porque ele sempre delega o poder e jamais o exerce? Isto nos coloca a pensar: se o Povo é soberano, como antes o era o monarca absoluto, ele faz as leis mas não está sujeito a elas. O Povo pode desobedecer toda e qualquer lei que julgar dispensável, e desfazê-las e alterá-las todas como e quando determinar sua Vontade. Tampouco deve obediência alguma aos seus representantes, sejam eles reis, nobres, políticos ou juízes, pois eles estão lá para fazer o trabalho que ele não pode e não quer fazer, não para lhe dar ordens. O Povo também está no direito de remover os seus representantes no momento em que quiser, sem se ater a formalidades e procedimentos estabelecidos. Ele pode puni-los, despojá-los de toda propriedade e até mesmo recorrer à violência se achar conveniente.

Filmer se deu conta do que escreveu nas entrelinhas: uma visão completamente radical  da democracia. Para ele, todas estas prerrogativas pertenciam ao monarca unicamente. O que ele pretendia era lançar um desafio aos defensores da Soberania Popular, desafiá-los a que se atrevessem a levar a democracia à sua última consequência lógica: a admissão de que o Povo soberano exerce poder absoluto sobre todos, inclusive de vida e morte, sem jamais responder a qualquer critério externo de arbitragem e justiça além de Deus. Ou seja, Filmer queria demonstrar que as duas opções disponíveis eram a tirania de um homem só e a tirania da multidão, e ele defendia abertamente a primeira contra a segunda. Ambas as alternativas são puramente teóricas, pois na prática sempre primou a vontade de quem tivesse mais poder, fosse o Monarca, a Nobreza ou o Povo,  e sempre houveram poderes intermediários capazes de colocar freio à qualquer ideia de poder ou vontade absoluta. Mas esta ideia do poder e da autoridade como algo que é delegado de maneira temporária e reversível  é uma ferramenta muito útil para analisar uma democracia contemporânea.

Apesar de recusarmos ambas as alternativas (ditadura do tirano e  ditadura das massas), o desafio de Filmer nos coloca a pensar sobre o excesso de poder que temos dado aos nossos “representantes” hoje em dia, pois não estamos fazendo uso da prerrogativa popular não só de destituir representantes, mas também de revogar parcial ou totalmente os poderes a eles delegados. Ou seja, é prerrogativa do cidadão de uma República não só colocar ou remover pessoas de um cargo público, mas também colocar e remover atribuições do cargo em si.


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O mito do referencial, a vida social e a ciência moderna: algumas considerações popperianas

Resumo

Este artigo terá como objetivo discorrer brevemente sobre alguns fatores relevantes para o crescimento da influência do mito do referencial na vida social e no campo da pesquisa científica. Esse mito, de acordo com Popper, é o que sustenta o relativismo contemporâneo, isto é, a doutrina segundo a qual a verdade é relativa ao nosso referencial ou formação intelectual (POPPER, 2008). Encerraremos apontando alguns perigos relacionados a essa postura relativista quanto ao status da ciência como atividade liberalizadora ou de profuso debate racional; realçando a importância da manutenção de uma noção de verdade objetiva.

Introdução

O mito do referencial, segundo Popper, constitui-se de “[…] uma falsa história amplamente aceita […]” (POPPER, 2008, p.210). Essa história afirma que uma discussão racional frutífera é impossível a não ser que os seus participantes compartilhem um referencial comum de pressupostos básicos. De fato, conforme diz o filósofo austríaco, essa visão é demasiadamente difundida no meio social e não duvido de que o leitor até a aceita, ainda que inconscientemente. Porém, veremos que ela se centra em um erro que tem inviabilizado o debate racional de ideias e que, nos dias atuais, exemplos concretos não têm faltado.

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Os relativistas colocam diante de nós padrões de entendimento mútuo que são irrealisticamente elevados e que caso não sejam atendidos, o entendimento torna-se impossível. Popper, contrariamente, argumenta que com esforço e boa-vontade é possível um consenso de amplo alcance. Além do mais, todo esse esforço pode ser bem recompensado pelo que aprendemos, numa discussão, acerca dos próprios pontos de vista que sustentamos e também acerca daqueles que estamos dispostos a entender.

Por outro lado, o mito do referencial contém uma parcela de verdade, pois embora Popper sustente que é um grande exagero dizer que uma discussão racional é frutífera apenas se seus participantes compartilham um referencial de pressupostos, a discussão entre dois indivíduos que não compartilham um referencial sequer pode ser difícil. Da mesma forma, também será difícil se seus referenciais tiverem pouco em comum e, opostamente, mais fácil quanto maior a superposição deles.

Quanto à fecundidade do mito, argumentaremos, à luz da exposição popperiana, que uma discussão entre duas pessoas que compartilham um mesmo ponto de vista pode até ser agradável, mas não frutífera. Uma discussão será, assim, frutífera, quanto menos pressupostos o interlocutor e o locutor compartilharem. Poderemos até achá-la desagradável, mas, gradativamente, também podemos aprender a gostar dela.

Assim procedendo, relacionaremos essa discussão crítica do mito do referencial ao método científico e mostraremos que apesar de os nossos pontos de vista sobre o mundo estarem impregnados de teoria, tal fato não nos impede de avançar para teorias ainda melhores; o que realça a importância da discussão crítica das teorias, tradição fundada pelos filósofos pré-socráticos. Concluiremos ressaltando a importância da noção de verdade objetiva no contexto atual de modismos e pressão social que acabam influindo no trabalho dos cientistas.

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Hayek sobre as origens socialistas do nazismo

Artigo original de Byron Chiado, publicado em inglês no seu blog. Para ler o artigo original, clique aqui.

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O Caminho da Servidão, de F.A. Hayek, é um dos livros mais envolventes e acessíveis na tradição econômica austríaca. A maior parte do livro constrói o argumento de que o planejamento central e o intervencionismo inevitavelmente levam ao autoritarismo, em uma linguagem clara e simples que influenciou a venda de mais de 350.000 cópias da obra.

Ao final do livro, ele se dirige aos inegáveis autoritários do seu tempo e exibe o movimento nacional-socialista como um movimento construído sobre a aversão ao liberalismo. Nascido em Viena e educado na Universidade de Viena, Hayek se apoia em uma íntima educação na tradição socialista alemã para ilustrar suas origens como fundamentalmente antagônicas ao laissez faire, e especificamente seus proponentes mercantis ingleses. Ele inclui nesta linhagem o Partido Nazista, que estava no poder na época em que o livro foi escrito.

As doutrinas que guiaram os governantes na Alemanha desde a última geração não se opunham ao socialismo no Marxismo, mas aos seus elementos liberais, seu internacionalismo e sua democracia.

Seu primeiro estudo de caso é Werner Sombart, tido por Friedrich Engels como “o primeiro professor universitário alemão a ver, nos escritos de Marx, o que Marx realmente disse”.  Tendo realizado sua dissertação sobre Marx, Sombart promoveu e contribuiu ao programa marxista até 1909.

Ele fez mais do que qualquer outro para difundir as ideias socialistas e o ressentimento anti-capitalista de todos os matizes por toda a Alemanha; e se o pensamento alemão impregnou-se de elementos marxistas de uma maneira nunca antes vista até a Revolução Russa, isto foi em boa parte graças a Sombart.

Sombart, como muitos alemães do início do século XX, foi atraído pela proposta de uma guerra entre a Inglaterra e a Alemanha tendo como fundamento a ideia de que a Inglaterra havia perdido todo o instinto guerreiro em sua busca pela felicidade individual, o que ele via como uma doença contraída por uma sociedade construída sobre o comercialismo. O laissez-faire era uma ordem anárquica e anti-natural que produzia parasitas e mercadores desonestos, enquanto o conceito alemão de Estado derivava de uma aristocracia natural e heroica jamais redutível a esta baixeza.

O Estado alemão é a Volksgemeinschaft, ou “Comunidade Popular”, onde o indivíduo não tem direitos, só deveres. Hayek credita a formação desta linha de pensamento a Johan Fichte, Ferdinand Lasalle e Johann Karl Rodbertus, entre outros notáveis socialistas alemães.

Para Sombart, a guerra é a consumação do modo de vida heroico, e a guerra contra a Inglaterra é a guerra contra o ideal antagônico, o ideal comercial da liberdade individual e do conforto inglês, que em sua visão têm sua expressão mais desprezível nas lâminas de barbear encontradas nas trincheiras inglesas.

Ele continua o estudo com outro marxista, o sociólogo Johann Plenge, e seu livro que detalha o conflito entre as “Ideias de 1789” e as “Ideias de 1914”.  No livro de Plenge, 1789 e 1914: Os Anos Simbólicos na História da Mentalidade Política, o ideal de 1789 era a liberdade, e as ideias modernas de 1914 apoiam o ideal da organização. Plenge afirma, corretamente segundo Hayek, que a organização é a verdadeira essência do socialismo. Hayek afirma que todos os socialistas até Marx compartilhavam esta ideia, e que Marx tentou em vão abrir um espaço para a liberdade na sua moderna ideia alemã de uma grande organização.

Começando com a mesma linguagem liberal de Marx, Plengue paulatinamente abandonou o uso de termos liberais e burgueses, abraçando desavergonhadamente os domínios totalitários que atraíram a tantos líderes marxistas:

Já é passada a hora de reconhecer o fato de que o socialismo é uma política de poder, porque é organização. O socialismo precisa ganhar poder: jamais destruir o poder às cegas.

Hayek demonstra em seguida como um político do Partido Social Democrata, Paul Lensch, aplica uma análise marxista às políticas de planejamento e protecionismo industrial de Otto Von Bismarck:

O resultado da decisão de Bismarck no ano de 1879 foi que a Alemanha assumiu um papel revolucionário; ou seja, o de um Estado cuja posição em relação ao resto do mundo é a de representante de um sistema econômico mais avançado e mais elevado. Entendendo isto, devemos perceber que na atual Revolução Mundial a Alemanha representa o lado revolucionário, e seu maior antagonista, a Inglaterra, o contrarrevolucionário.

Esta unidade entre a identidade nacional prussiana e o projeto revolucionário socialista guia o pensamento de figuras importantes do Partido Nazista, como A. Moeller van den Bruck.  Hayek cita e parafraseia do seu livro Prussianismo e Socialismo:

“O antigo espírito prussiano e a convicção socialista, que hoje se odeiam como irmãos, são um só.” Os representantes da civilização ocidental na Alemanha, os liberais alemães, são “o exército inglês invisível, deixado atrás por Napoleão em solo alemão após a batalha de Jena”

Hayek fundamenta mais esta versão dos eventos, antes de alertar a Inglaterra de que o “socialismo conservador” em voga na época era uma exportação alemã, a qual, por razões que ele detalha ao longo do livro, inevitavelmente se tornará totalitária. É interessante notar que a obra foi escrita antes de que os grandes crimes do Holocausto viessem a conhecimento público e o regime nazista fosse universalmente execrado.

Esta não foi uma tentativa sensacionalista de provar seu argumento. Hayek costumava argumentar e demonstrar comedidamente o tipo de governo que se poderia esperar de uma sociedade que abriu mão do liberalismo em troca do planejamento. Os alertas mais extremos de Hayek em O Caminho da Servidão terminaram se tornando realidade no caso da Alemanha dos anos 1940.


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MENTIRAM PARA VOCÊ SOBRE A EDUCAÇÃO FÍSICA NO REGIME MILITAR

Por: Alessandro Barreta Garcia; Eduardo Francisco Clementino. Professores de educação física

É patente à maioria da sociedade que há uma doutrinação ideológica na educação brasileira, mas são raras as menções das táticas e estratégias usadas pelos professores de educação física para doutrinarem seus alunos. O presente texto dispõe-se a trazer à tona tais manobras.

É patente à maioria da sociedade que há uma doutrinação ideológica na educação brasileira, mas são raras as menções das táticas e estratégias usadas pelos professores de educação física para doutrinarem seus alunos. Tal doutrinação, de viés esquerdista, ocorre no âmbito da história da educação física e chega às escolas, por exemplo, com o discurso de demonização da técnica e do esporte tradicional.

A partir do fim do regime militar em 1985 (Garcia, 2015), tivemos novas discussões concernentes à forma à qual a educação física dever-se-ia apresentar-se na educação básica. Ondas marxistas e neomarxistas vicejavam a educação brasileira e o resultado foi à entrada incisiva do marxismo cultural no esporte (marxismo cultural é a mudança do marxismo clássico que pegava em armas para um marxismo ideológico que substituiu as armas pela infiltração de intelectuais orgânicos em todas as esferas da sociedade).

A teoria crítica surgiu opondo-se ao que os autores chamam de educação mecânica, vista como uma espécie de ferramenta de controle ideológico, sendo implantada pelos militares no período do regime militar. Na lógica dos autores, como todo bom marxista acredita que toda análise histórica pode ser vista pela ótica econômica, és o que Marx e Engels chamavam de determinismo econômico, ou seja, a interpretação da história da sociedade a partir do aspecto material.

Frequentemente os autores correlacionam a educação técnica com os meios de produção, sendo o tecnicismo um meio para produzir cidadãos passivos e escravos do capitalismo. Quando se fala em didática da educação física, autores como Taborda de Oliveira, entre outros, sempre tendem a atrasar os fatos, quando não, os ignora.

Taborda de Oliveira (2003), afirma que o primeiro texto subsidiando a prática profissional da educação física escolar, surge em 1971, denominado “Programa de Educação por Temporada”; conforme o autor, este texto surge devido à necessidade do banimento da improvisação (aulas não sistematizadas, sem sequenciamento pedagógico).

O programa de Educação Física por Temporada empresta sua denominação das competições esportivas. Refere-se a uma forma de organização do trabalho pedagógico de Educação Física em que cada período de tempo (mês, bimestre, trimestre ou outros) se desenvolve determinada modalidade esportiva. Daí resultou a tradicional forma de organização da Educação Física escolar. (Taborda de Oliveira, 2003, p. 173)

Entretanto, conforme Faria Junior (2014), o programa por temporada surge para o professor de educação física na década de 60, tendo como idealizador Julio Mazzei no qual publica em 1960, o livro “Novas Concepções do Programa por Temporada”, que volta a ser publicado junto a uma coleção em 1967, coleção denominada de “Cultura, Educação, Educação Física, Esportes e Recreação”. Como continuidade do programa por temporada, surge sob o comando do professor Alfredo Gomes de Faria Junior a ideia de programa por unidades didáticas.

No período de 1975 a 1978, foi concebido o documento denominado “Segundo Plano de Educação”, nesse documento se estabeleciam os núcleos comunitários — instituições educacionais regidas por três estruturas integradas de ensino: a unidade de educação, a unidade de saúde e a unidade social (Henklein; Silva, 2012).

Segundo Henklein e Silva (2012), “neste documento pode-se notar uma política educacional mais ampla, que pretendia abarcar também a comunidade”.

Assim como Taborda de Oliveira, Henklein e Silva também atrasam os fatos, campeonatos estudantis já existiam pelo menos desde 1941, se isto não é integrar a comunidade, não sei mais o que é (Campeonato Intercolegial de Educação Física, 1941).

Após a queda de o governo militar fez-se necessário uma “renovação” da educação física escolar; podemos notar o erro inicial da renovação, conforme Henklein e Silva (2012), os profissionais de educação física não foram convocados a participar do novo referencial, mas sim pedagogos que nada entendem de motricidade humana. Para Ulrich Celeste (1977): “A Educação Física encontra-se nos movimentos planejados de um indivíduo; movimentos que são estruturados quanto à forma, sensação e resultado”.

Convocar pedagogos para debater sobre o destino educacional da educação física parece-me que as aulas desta área de conhecimento eram consideradas uma ocasião de juntar certo número de alunos, a qual qualquer adulto pode mantê-los afastados de travessuras. Desconfio que ainda sejam assim consideradas, haja vista que algumas escolas particulares optam por pedagogos ministrarem as aulas de educação física.

Ainda segundo Henklein e Silva (2012), nesse novo documento datado entre os anos de 1975 e 1985, é possível constatar uma “nova” proposta na educação básica o chamado programa de educação física por temporada.

As autoras do artigo aqui exposto enaltecem a superioridade deste novo texto em relação ao anterior salientando que é “uma sofisticação do papel da escola, que não se restringiu somente ao aluno, mas também ao meio em que estava inserido” (Henklein; Silva, 2012).

É possível notar uma grande falácia nesta argumentação, pois o programa por temporada desenvolvido por Julio Mazzei (Faria Junior, 2014) já propunha a partir da divisão do ano letivo em temporadas, ou seja, por esportes. O programa por temporada propiciava a prática dos esportes mais tradicionais do país, assim valorizando a cultura do aluno. Este programa tinha um teor mais esportivo, mas não somente esportivo, nota-se a sua superioridade em relação ao atual programa, pois o mesmo compreendia que o processo de aprendizagem é complexo e lento, “não sendo possível assim, do “nada saber” aos domínios das habilidades desejadas com uma aula, por mais “magistral” que esta tenha sido” (Faria Junior, 1969, p.206).

Em 1975 surge o “Programa de Educação Física e Recreação Orientada”, material que fora reunido por profissionais da educação física, tornou-se uma espécie de tratado da educação física, propondo um plano que abrangia todo o estado de Curitiba. Henklein e Silva (2012), afirmam que este programa teria um viés biológico, incorporado às ideias de meritocracia, da hierarquia, do individualismo, da ordem, que são características típicas do esporte, mas para as autoras isto parece ser algo nocivo no meio escolar.

Outro ponto enaltecido por Henklein e Silva (2012) é a metodologia aplicada no programa, uma formação pautada na pedagogia tecnicista dos profissionais de educação física da época refletia na escolha do melhor método a ser utilizado no processo de ensino-aprendizagem. As autoras mencionam o nome que fora atribuído ao programa “A BÍBLIA”, com certo tom de jocosidade, como se o cristianismo, assim como a pedagogia tecnicista a elas fosse um meio de controle social.

O programa por temporada, proposto por Julio Mazzei, propiciou a difusão do desporto no âmbito escolar. O programa por temporada evoluiu para o trabalho por unidades didáticas mais de acordo com a filosofia do humanismo (Faria Junior, 2014).

Mas, mesmo sendo o idealizador do programa por temporada, o nome de Julio Mazzei não é mencionado uma vez sequer no trabalho de Henklein e Silva; é uma absoluta falta de compromisso com a verdade. Uma tentativa descarada de omitir a verdade.

Segundo Faria Junior (2014), “No Programa por Temporada predominavam os desportos, enquanto que no Trabalho por Unidades Didáticas ao desporto somavam-se outras unidades, como as Danças, à Ginástica Feminina Moderna, o Folclore”.

Desta forma podemos notar que a valorização da cultura do discente, a diversidade de práticas corporais e o respeito às limitações dos alunos já estavam presentes na educação física desde a década de 60, período que antecede o regime militar.

Logo, é uma falácia pregar um evolucionismo da educação física da escola nova da década de 80, Henklein e Silva tentam atribuir qualidades de uma nova abordagem da educação física que na verdade não tem nada de novo.

REFERÊNCIAS

CAMPEONATO INTERCOLEGIAL DE EDUCAÇÃO FÍSICA. Departamento de Educação: Departamento de Educação Física — Prefeitura Municipal de Santos, 1941.

CARVALHO, O. Do marxismo cultural. O Globo, 8 de junho de 2002. Disponível em:<http://www.olavodecarvalho.org/do-marxismo-cultural/> Acesso em: 10 dez. 2017.

FARIA JUNIOR, A. G. DE. Os currículos de educação física e o ensino por unidades didáticas. Corpus Sci, Rio de Janeiro, v. 10, n.2, p. 16–32, jun/dez. 2014.

GARCIA, A. B. Educação física e regime militar: uma guerra contra o marxismo. Jundiaí: Paco Editorial, 2015.

HENKLEIN, A. P, et al. Do tecnicismo ao discurso crítico: a educação física nos documentos da rede municipal de ensino de Curitiba (1968–1997). Revista Mackenzie de Educação Física e Esporte, v. 10, n. 2, 2012.

ULRICH, C. O. D. Educação Física: manual de princípios para estudantes de educação física. São Paulo: Universidade de São Paulo, 1977.

FARIA JUNIOR, Alfredo Gomes de. Introdução a Didática de Educação Física. Brasília, DF: MEC, 1969.

O desemprego tecnológico e o desenvolvimento econômico

O Pew Research Center, organização americana que conduz, entre outros, pesquisas de opinião pública e levantamentos demográficos, fez pesquisas de opinião nos Estados Unidos buscando entender como o povo americano está reagindo com a possibilidade de a tecnologia mudar a economia e acabar com os empregos que não seriam mais necessários na nova economia. Ou seja, o famigerado desemprego tecnológico.

Em resumo, os resultados do levantamento não são muito surpreendentes: no geral, as pessoas acreditam que esse tipo de mudança pode até trazer melhorias, mas estão preocupadas em como isso irá ocorrer e quais serão os malefícios de tais mudanças, principalmente o aumento da desigualdade. A pesquisa na íntegra pode ser lida aqui.

Na verdade, boa parte da preocupação dos entrevistados é resolvida pela própria revolução tecnológica.

Desemprego tecnológico no geral

Os EUA tinham apenas cerca de cinco milhões de habitantes em 1800, setenta e seis milhões em 1900, e mais de trezentos e vinte milhões atualmente. O Brasil, por sua vez, tinha cerca de dezessete milhões de habitantes em 1900 e mais de duzentos milhões de habitantes atualmente. Algo que ambos os países têm em comum é que são nações que cresceram muito com a força do imigrante, ou seja, além da população crescer vegetativamente com mais pessoas nascendo do que morrendo, cresceram com imigrantes de todas as partes do globo.

No caso dos EUA, por exemplo, a taxa de desemprego entre o final da década de 1940 até aos dias atuais foi de menos de 6% na média.

United States Unemployment Rate

Ou seja, desde os últimos séculos países como Brasil e Estados Unidos estão empregando não apenas pessoas nativas, mas também imigrantes. E é notório que desde a Revolução Industrial constantemente empregos foram “destruídos” por inovações tecnológicas. Por exemplo, o movimento ludista no começo do século XIX era composto por operários que literalmente destruíam máquinas que otimizavam a produção industrial em forma de protesto.

Para o desespero dos ludistas (e para o bem da sociedade) as inovações produtivas perduram até hoje, e mesmo assim a taxa de desemprego não explodiu nas economias desenvolvidas. Isso ocorreu porque se mesmo num primeiro momento de curto prazo o desemprego aumentou, a redução nos custos, o aumento da produtividade e a posterior expansão dos negócios e do consumo possibilitou ainda mais geração de emprego e renda para a sociedade. Usando nossos exemplos, a economia americana emprega quatro vezes mais pessoas do que em 1900, e a brasileira, mais de dez vezes mais. E, claro, o padrão de vida das pessoas em 2017 é muito superior ao das pessoas em 1900.

Desemprego tecnológico no século XXI: e com a digitalização do trabalho? Será que a história irá se repetir?

É exatamente a mesma lógica: antes eram apenas as máquinas, agora os computadores também cumprem o papel de “destruir” empregos. E a digitalização da economia é ainda melhor do que a mecanização do trabalho na geração de oportunidades para os mais desprovidos de recursos: os custos são cada vez menores, e isso vale para criar e manter um negócio.

Nos séculos anteriores as maiores empresas eram grandes indústrias com muito capital físico, empregados e matéria-prima, algo muito difícil para alguém que quisesse criar uma grande empresa. Já no século XXI empresas com estruturas enxutas operando no mercado digital criaram novos modelos de negócios para consumo das grandes massas que são muito mais factíveis para novos empreendedores, algo que tornou o mercado mais “justo”, tanto para os empresários quanto para os consumidores. O Facebook, por exemplo, já tinha mais de dois bilhões de usuários em todo o globo e com uma equipe de pouco mais de vinte mil pessoas. Google, por sua vez, possibilita mais de três bilhões de pesquisas por dia e toda a operação da empresa (abrangendo todos os outros produtos dela) emprega quase sessenta mil pessoas. O Walmart, empresa de maior faturamento no mundo em 2016, precisa de mais de dois milhões de pessoas para sustentar sua operação.

Portanto, apesar do temor social a respeito das mudanças inevitáveis da economia, as inovações tecnológicas estão desde os últimos séculos melhorando o padrão de vida das pessoas e gerando emprego e renda. Que venham novas inovações!

Está OK socar nazistas?

Cada vez mais, temos visto invadir as redes sociais a propaganda de grupos de extrema-esquerda como o Antifa. Cada vez mais, parentes e amigos que antes eram apenas pessoas normais com ideias de esquerda estão “curtindo” a ideia de que socar nazistas está OK, é legal, etc. A premissa embutida neste raciocínio é a de que os nacional-socialistas são uma ameaça premente à democracia e à vida dos seus cidadãos, e que portanto a agressão física contra eles se justifica como legítima defesa. A outra premissa embutida, admitida pelos esquerdistas com muito menos frequência, é a de que a extrema-esquerda tem o direito de rotular de nazista quem ela bem entender, incluindo aí todo mundo de quem ela discorda. Ou seja, estendendo o raciocínio até as suas últimas consequências, está OK socar eleitores do Trump, apoiadores do Bolsonaro, católicos, evangélicos, ativistas pró-vida, ativistas anti-desarmamento civil, conservadores e liberais com gravata-borboleta. Ou seja, está OK agredir fisicamente todo mundo de quem eu discordo.

Antifa
Grupos extremistas como o “Antifa” se orgulham de exibir as armas com as quais praticam a violência política nas ruas. E o pior: justificam suas agressões com ideologia barata.

Não é preciso pensar muito para ver o quanto esta ideia, totalitária já na concepção, está errada: ela legitima o uso da violência política contra opositores em geral. Este tem sido o raciocínio padrão da esquerda marxista-leninista desde sempre, razão pela qual episódios históricos de politicídio fratricida são frequentes nos países onde estas ideias proliferam: Lenin terminou à bala o experimento anarquista de Nestor Makhno na Ucrânia, Stalin mandou executar trotskistas dentro e fora da URSS, social-democratas e comunistas se matavam pelo apoio proletário nas ruas da Berlim do entreguerras, Maduro persegue e assassina opositores da esquerda moderada venezuelana, e assim por diante.

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