Pós-moderniilismos

Estou publicando os poemas do meu novo livro no wattpad. Segue abaixo a sinopse dessa obra de arte literária conservadora, bem como o link de acesso.

SINOPSE:

O niilismo é uma doutrina filosófica que compreende a existência como ausente de qualquer sentido ou propósito último. Pós-modernismo é a era presente em que vivemos, na qual a relativização dos valores e virtudes chega ao nível máximo. Cada qual cria a sua esfera de valores e virtudes. Na verdade essa relativização se autocontradiz, pois ela jamais chega ao máximo de seu propósito que seria o de relativizar a própria relativização. Pois bem. Qual seria o fim dessa mistura? Depressão, isolamento social, virtualização da realidade, mecanização do humano, etc. Sem ter a intenção de ser um tratado filosófico, essa obra de poesia visa promover a reflexão e apontar caminhos.

Link:  https://www.wattpad.com/story/193139190-p%C3%B3s-moderniilismos 

Sobre o Estado de Natureza em John Locke e Thomas Hobbes Parte 01

O que é esse Estado de Natureza?

Em linhas gerais, estado de natureza é a premissa fundamental da teoria política contratualista, a qual defende a tese de que a sociedade civil politicamente organizada (vinculada à existência do Estado político), nasceu a partir da formulação de um contrato social. Antes desse contrato imperava entre os homens um estado natural onde os homens viviam sem a subordinação a uma autoridade superior comum. Para Hobbes esse estado de natureza seria apenas uma elaboração racional hipotética para fundamentar a necessidade da criação do Estado político como o conhecemos hoje. Para John Locke esse estado de natureza consistia numa realidade histórica verificável. Ele chegou a valer-se de relatos etnográficos para comprovar a existência do estado de natureza em seu Segundo Tratado sobre o Governo Civil.

O Estado de Natureza em John Locke e Thomas Hobbes: diferenciações conceituais.

Para John Locke o estado de natureza seria um estado ideal, mas insustentável em razão de determinados comportamentos humanos. Nesse estado impera a liberdade e a igualdade entre os indivíduos que não se subordinam uns aos outros nem a nenhum poder superior comum, exceto ao poder da lei da natureza que consiste no império da razão. Essa razão é o liame subjetivo entre os indivíduos que integram o estado de natureza. Ou seja, enquanto governados pela razão, os indivíduos no estado de natureza governam a si próprios, mas dentro dos limites da lei racional que estabelece nas consciências o imperativo dos direitos subjetivos como o direito à vida, à liberdade, propriedade privada, etc.
De acordo à visão Lockeana, quando os indivíduos desrespeitam a lei natural da razão e equidade para obedecer aos próprios apetites bestiais, eles se tornam semelhantes aos animais e, como consequência, podem ser punidos ou mortos como se fere ou mata a um animal qualquer. Para Locke, em razão de no estado de natureza reinar a liberdade e a igualdade entre os indivíduos que o integram, cada um deles possui o poder e a jurisdição próprias para punir e executar a punição dos infratores da lei da razão. Dessa situação nasce o que Locke chama de estado de guerra, que é o estado de conflito formado pelo duelo de interesses entre os que desejam manter a condição de vida natural e os que se opõem a ela.
Diferente do que propõe Hobbes, Locke entende que o estado de natureza corresponde a um ideal de harmonia e igualdade entre os homens, mas que pontualmente é violado por indivíduos que se recusam a obedecer à lei natural da razão. Para Thomas Hobbes o estado de natureza corresponde a um estado de individualismo, onde todos podem fazer o que bem entendem para a satisfação dos próprios interesses onde reinam a competição, arbitrariedade e a insegurança, uma condição social que é sintetizada por Hobbes na expressão: “a luta de todos os homens contra todos os homens” (OS PENSADORES, 1974).
Diferentemente de Hobbes, para John Locke no estado de natureza havia um razoável grau de organização social e uma economia de mercado, algo impensável na visão Hobbesiana que sequer admitia a existência da propriedade privada na vida humana pré-estatal, onde tudo seria de todos para todos. Segundo Hobbes, a sociedade civil não existe formalmente antes da criação do Estado, como poder político organizado, e das leis. Locke não atribui ao estado de natureza a condição niilista apresentada pela visão Hobbesiana. Ou seja, Thomas Hobbes classifica o estado de natureza como um modo de vida inapelavelmente belicoso (estado de guerra) e dá à sociedade civil o status de organização social onde o Estado, na figura do soberano, garante a instauração da segurança e da ordem entre os homens. Ao contrário dessa posição, Locke define o estado de guerra como uma condição que pode ocorrer tanto no estado de natureza quando no estado civil, desde que os indivíduos abandonem o império da lei natural da razão para satisfazer aos instintos e apetites naturais.
Em síntese, o estado de natureza para Locke se materializa numa condição ideal, mas que está vinculada a conflitos, sejam eles pontuais ou intermitentes, em decorrência do uso da força entre os indivíduos. Esse uso da força viola a essência do estado de natureza que consiste na igualdade e autonomia dos indivíduos, subordinados apenas ao comando imperativo da razão. Torna-se óbvio que os infratores do estado da vida natural devem ser punidos.
Em Locke a punição aos infratores pode ser executada por qualquer indivíduo, haja vista que todos os homens têm a jurisdição necessária para prevenir e reprimir as práticas criminosas, bem como para reparar os danos causados às vítimas. Na visão Hobbesiana, todavia, não há o conflito: defensores da lei da razão versus violadores da ordem natural, vislumbrado na idealização Lockeana. Em Hobbes O estado de natureza é uma condição naturalmente anárquica, individualista, insegura, na qual cada homem é “lobo do outro” e reina a guerra de todos contra todos (HOBBES, 2003). Toda a desordem presente no estado de natureza Hobbesiano expõe a legitimidade do uso da violência para a aquisição de direitos, posses, etc. Assim, em um estado onde nada é de ninguém, todos os bens, direitos, usufrutos, etc. estão à disposição de quem se dedicar à conquista pelo uso da maior força. Não há criminosos nem defensores da lei nessa perspectiva. Há somente uma condição natural de egoísmo e destruição que só pode ser refreada através da criação do Estado civil, representado pela figura do soberano, que deve ser o detentor de todo o poder para assegurar a manutenção da vida e da ordem na sociedade que, sem ele, está inexoravelmente fadada à autodestruição.

Sobre as problemáticas no Estado de Natureza

Para John Locke o problema fundamental do estado de natureza reside na ausência de um juiz imparcial que atue acima dos interesses das partes, capaz de resolver os conflitos derivados da divergência de interesses dos indivíduos. Para Hobbes, no entanto, o problema central do estado de natureza reside na ausência de leis civis que, para ele, são as únicas dotadas de força coativa, pois as leis naturais obrigam apenas moralmente. Assim, em Hobbes, a solução para a natural e insanável anarquia do estado de natureza consiste na criação de um Estado civil, dotado do poder político para elaborar e executar as leis civis.

Conclusão

A diferenciação na abordagem dos problemas do estado de natureza consiste na aplicação de soluções diversas. Como será visto, para Locke o remédio dos males do estado de natureza reside na criação de um Estado limitado e responsável pela tutela dos interesses dos indivíduos-proprietários. Em contrapartida, para Hobbes a solução da anarquia do estado natural está presente na criação de um Estado soberano que possa se utilizar de todos os meios necessários para salvaguardar a paz e a segurança coletivas.

Referências Bibliográficas:

HOBBES, T. Leviatã. Tradução: João Paulo Monteiro e Maria Beatriz Nizza da Silva. São Paulo: Martins Fontes, 2003.
LOCKE, John. Dois Tratados Sobre o Governo. (Tradução de Julio Fischer). São Paulo: Martins Fontes, 1998.

Sobre a moralidade social.

Segundo C. S. Lewis, os grandes mestres da moral não criam morais novas, mas levam as pessoas aos princípios antigos e simples que todos sabem que são corretos, mas se esforçam constantemente para esquecer. Essa consideração se aplica à regra áurea ensinada por Jesus Cristo: “Faça aos outros o mesmo que gostaria que fizessem a você.” Esse tipo de ensinamento é semelhante ao de um pai que leva o filho a revisitar os pontos da matéria que insiste em não estudar. Afinal, como foi dito, a moralidade inerente à Lei Natural não muda, o ponto de vista dos indivíduos acerca dela é que muda.

Muitos insistem que a igreja deve tomar à dianteira nos assuntos políticos e econômicos para que a regra áurea: “Faça aos outros o mesmo que gostaria que fizessem a você”, se instale na sociedade de modo a instituir uma ordem social cristã. Esses que pedem para a igreja tomar a dianteira nesses assuntos, geralmente se referem às lideranças quando dizem “igrejas”. Mas quem exerce a liderança possui talentos específicos para gerir a vida espiritual de seus liderados, por isso é equivocada essa abordagem de entregar à liderança cristã o papel de transformação social, no que se refere a aspectos que devem ser exercidos pelos leigos cristãos. Para Lewis devem existir economistas, artistas, políticos cristãos, etc. desde que não exerçam funções de liderança como os pastores. A estes cabe a responsabilidade de guiar seus pastoreados nos assuntos de ordem eterna. Logo, deve-se deixar aos leigos os assuntos de ordem terrena. Vale ressaltar que, apesar das diferenças estruturais, as atividades de todos os cristãos devem contribuir de alguma forma para a expansão do reino de Deus. Os pastores devem se voltar para a missão eclesiástica e social, no que tange ao evangelismo em seus diversos vieses, enquanto os leigos devem atuar na sociedade de modo a desenvolver e utilizar as suas habilidades para a glorificação do santo Evangelho.

Como seria uma sociedade plenamente cristã segundo o Novo Testamento?

Para Lewis uma sociedade cristã não há lugar para parasitas. Todos devem trabalhar para auxiliar aos necessitados. Não há espaço para parasitas nem preocupações supérfluas, ostentação ou fanfarronices. Nesse sentido, uma sociedade cristã seria o que, na época de Lewis era conhecido como “esquerda”. Por outro lado, em uma sociedade cristã deve haver obediência. Dos cidadãos às autoridades legitimamente constituídas, dos filhos para os pais, das mulheres para seus maridos. De ser uma sociedade alegre, sem ansiedades nem preocupações. Caso existisse uma sociedade assim, ela deixaria uma impressão interessante em seus habitantes. Seria economicamente socialista, portanto, “progressista” e teria um código moral bastante antiquado ou conservador. Cada um de nós apreciaria um ou alguns dos seus aspectos, mas poucos a apreciariam por inteiro. Lewis entende que é isso o que acontece a tudo o que é verdadeiramente cristão. A maioria se sente atraída por um ou alguns de seus aspectos, mas rejeita o resto. Esse é o motivo porque muitos lutam por valores opostos, mas dizem lutar pelo mesmo cristianismo.

Lewis argumenta que a passagem do Novo Testamento que diz que todos devem trabalhar, dá a essa determinação a finalidade de ajudar aos necessitados. Muitos dizem que a caridade (dar aos pobres) não é mais necessária. Ao invés dela deve-se buscar construir uma sociedade onde não existam pobres. Essa afirmação pode ser verdadeira, mas se esse entendimento compreender que durante a construção dessa sociedade sem pobres, deve-se parar de doar, esse entendimento não obedece à moralidade cristã. Para Lewis, se a nossa caridade não pesar ao menos um pouco em nosso bolso, ela é pequena demais. Caso o nosso gasto com conforto, diversão, bens supérfluos, etc. seja igual ao dos outros (não cristãos) que ganham o mesmo que nós, certamente estamos doando pouco.

Muitos não examinam o cristianismo pra vê-lo como ele é, mas para buscar nele os aspectos que corroborem com sua visão filosófica, moral, político-partidária, etc. A construção de uma sociedade cristã só pode ser alcançada pela vontade de indivíduos que sejam verdadeiramente cristãos, pois a regra áurea: “Faça aos outros o mesmo que gostaria que fizessem a você” só pode ser praticada quando amamos ao próximo como a nós mesmos, mas só podemos amar ao próximo como a nós mesmos quando amamos a Deus e só podemos amá-lo quando aprendemos a obedecê-lo.

Referência:
LEWIS, C. S. Cristianismo Puro e Simples. 5ª ed. São Paulo: ABU, 1997, pgs. 31-33.

Em que Acreditam os Cristãos? (parte 1)

INTRODUÇÃO

Dando seguimento à série de artigos que pretende resumir o pensamento do escritor inglês C. S. Lewis, esse trabalho aborda a exposição de ideias presente no livro II da obra “Cristianismo Puro e simples”. Utiliza-se uma abordagem parafraseada da obra em questão. Assim, diferente dos demais artigos até aqui produzidos, o nome do autor não será diretamente citado, exceto quando for estritamente necessário.

Sobre a diferença entre o panteísmo e o cristianismo

A fim de apresentar a diferença essencial entre a visão panteísta de mundo e a cristã, C. S. Lewis trata da forma como esses pontos de vista interpretam a natureza do universo, e como ambos relacionam a criação ao criador.

Enquanto o panteísmo atribui ao universo uma natureza “imersa” na divindade, o cristianismo separa-o de seu criador. De modo mais claro, segundo o panteísmo, tudo o que existe no mundo e no universo é parte integrante de Deus. Segundo a visão cristã, o universo existe de modo separado de quem o criou. Embora o cristianismo compreenda que há uma imanência divina na criação, Deus existe de modo infinitamente distinto do universo por ele criado. Talvez o leitor esteja se perguntando: “o que é a imanência de Deus no universo?”. Bem, em linhas gerais, todo o universo é permeado internamente pela ação divina. Ao mesmo tempo em que existem leis que regem a natureza e o universo, Deus realiza uma constante operação interna na criação. As Escrituras Sagradas expressam essa atuação de Deus nas criaturas e no universo em passagens como: “Não está longe de cada um de nós: porque Nele vivemos nos movemos e existimos.” (Atos 17, 27-28). Ele faz com que o seu sol se levante sobre bons e maus, e faz descer a chuva sobre justos e injustos (Mateus 5,45). Nenhum passarinho cai em terra sem a vontade Dele, e os cabelos de nossa cabeça estão todos contados por ele (Mateus 10,29-30). O coração do rei é, nas mãos do Senhor, como ribeiros de águas: que o inclina a todo o Seu querer (Provérbios 21,1). Deus é imanente ao mundo no sentido de que tudo o que existe é controlado e sustentado por Ele. Mas essa atuação divina não exclui as causas secundárias que operam os fenômenos naturais, como as leis da física, por exemplo.

O panteísmo exalta tanto a imanência de Deus na criação que não distingue Deus do universo. Para os panteístas todas as criaturas e o próprio universo são partes de Deus. Ou seja, para eles não existe um Deus separado de sua criação. Tudo o que existe é divino por ser parte de Deus. Essa forma de pensamento anula a transcendência divina, de modo a atribuir o bem ou o mal a simples pontos de vista. Já que os humanos são extensões de Deus, cabe a eles interpretar o que é bom ou mau. Não existem verdades morais absolutas, pois não há um Deus acima da natureza com o qual possamos nos relacionar. A visão panteísta compreende o relacionamento com Deus como um relacionamento com a natureza e o universo. Não há – nessa concepção filosófica – qualquer ente superior ao qual devamos dar satisfações dos nossos atos, logo, não há a necessidade de se preocupar com o pecado nem de se prestar culto a qualquer ente metafísico, já que Deus e o universo são a mesma coisa. Esse posicionamento foi adotado por pensadores famosos como Baruch Espinosa, Albert Einstein e Hegel.

Em síntese, o termo imanência pode ter dois significados. Um legítimo e outro ilegítimo. O legítimo se refere à atuação do ser de Deus na manutenção do ser do universo e de suas criaturas. O ilegítimo afirma que a substância de Deus é inerente à substância do universo. Esse significado da imanência entrelaça a existência de Deus à existência do universo. Raciocinando à luz do panteísmo, caso o universo material deixe de existir (e deixará), Deus também será extinto.

O pensamento cristão entende Deus como um ser que permeia a criação, mas independe dela para existir. O Deus bíblico tirou da “mente” o espaço, o tempo, a matéria. Deu ao universo a substância que possui, mas é eternamente autônomo em substância. Deus é. O universo passou a existir em algum momento. Deus sequer integra a existência, pois o que existe está intrinsecamente unido a contingências. Ou seja, tudo o que existe passou a existir em algum instante e poderia não ter existido, da mesma forma que deixará de existir um dia. Deus não passou a existir, por isso não está ligado às contingências. Melhor explicando, o universo material está atrelado a possibilidades. Alguém pode estar vivo amanhã ou não. Podemos adoecer ou não. Alcançar algum objetivo, etc. Para Deus essas possibilidades não existem, pois toda a existência deriva Dele, ao mesmo tempo em que Ele não integra o plano das existências, mas da eternidade. Eternidade no sentido de metafisicamente necessário e qualitativamente inalterável. Assim, Deus transcende a existência. Ele não existe, Ele é. Essa abordagem filosófica do cristianismo apresenta aos homens um Ser superior ao qual devem render obediência e gratidão. A esse respeito Wayne Grudem declarou:

No ensinamento da Bíblia, Deus é ao mesmo tempo infinito e pessoal: ele é infinito porque não está sujeito a nenhuma das limitações da humanidade, ou da criação em geral. É bem maior do que qualquer coisa que exista. Mas é também pessoal: relaciona-se conosco como uma pessoa, e podemos nos relacionar com ele como pessoas. Podemos orar a ele, adorá-lo, obedecer-lhe e amá-lo, e ele pode falar conosco, alegrar-se conosco e nos amar.(GRUDEM, 1999)

(CONTINUA)

Referências:

LEWIS, C. S. Cristianismo Puro e Simples. 5ª ed. São Paulo: ABU, 1997, p. 17-19.

GRUDEM, Wayne A. Teologia Sistemática. São Paulo: Vida Nova, 1999, p.115.

O que existe por trás da Lei Moral (parte final)

Lewis aborda os dois pontos de vista a respeito das origens do universo. O materialista e o religioso. O primeiro defende a existência da matéria e do espaço por meio de combinações aleatórias, que produziram formas de vida menos complexas, as quais evoluíram mediante processos naturais até a produção da forma de vida mais complexa que conhecemos: o ser humano. Não há qualquer vontade ou propósito para a existência do universo, segundo esse ponto de vista. Já a explicação religiosa defende que algo “por trás” do universo o criou por meio de uma escolha e para uma finalidade. Algo mais parecido com uma mente. Algo consciente e pessoal. Muitos desígnios desse ser permanecem ocultos, mas outros são totalmente claros como, por exemplo, o de criar seres semelhantes a Ele. Ou seja, criar seres dotados de mentes.

            Qual dos dois pontos de vista está correto? C. S. Lewis salienta que a ciência observa os fatos da natureza. Ela pode explicar os fenômenos naturais, bem como pode saber a composição dos seres e dos elementos que produzem determinados fenômenos biológicos, climáticos, etc. Mas a ciência não pode dizer se há algo “por trás” dos fatos ou fenômenos da natureza.  A ciência pode conhecer e estudar o universo material. Mas não pode responder às perguntas: “por que o universo existe e continua a existir?” “Qual é o seu significado?”. Essas indagações não são científicas porque suas respostas não podem ser alcançadas por meio do estudo do universo material. A ciência se limita a explicar os fatos observáveis da natureza. Se existe algo ou alguém “por trás” do universo, esse algo ou alguém não pode ser observado. Logo, não pode ser objeto da investigação científica. Caso exista, ou se manterá desconhecido aos homens, ou se revelará por outros meios.

            Em toda a natureza há apenas um único ser que podemos observar por dentro. Um ser que podemos conhecer o interior para estudá-lo além do que se pode observar dele. Esse ser somo nós. Somos capazes de conhecer o interior dos seres humanos porque somos humanos e, a partir desse conhecimento, nos deparamos com a realidade da lei moral que não foi criada por nós. Essa lei nos mostra que há uma influência, uma voz de comando que nos incita a agir de uma forma, enquanto agimos de outra. Alguém que estudasse o homem a partir de seus atos, jamais teria conhecimento da Lei Moral ou Lei da Natureza Humana, pois teria acesso somente ao que fazemos, ao passo que a Lei Moral trata do que devemos ou deveríamos fazer. 

A ciência observa a natureza pelo exterior. Jamais poderíamos chegar ao algo ou alguém “por trás” do universo, senão por meio dos seres humanos porque é somente nele que se manifesta uma lei que transcende aos fatos observáveis. Os homens agem de uma forma, mas a lei os influencia a agir diferente. De onde vêm esses comandos? De uma convenção humana? Se todos os homens chegassem a um consenso sobre a moralidade, por que a Lei Moral quase sempre os influencia a se comportar de um modo diferente do que eles desejam?   De onde vem essa noção de certo e errado que transcende épocas, culturas e opiniões pessoais? O egoísmo é proveitoso em muitos casos, então por que os homens concordam acerca da negatividade desse comportamento? O altruísmo tende a trazer mais incômodos do que benefícios a seus adeptos, então por que ele é considerado positivamente?

A partir desses dados é possível deduzir que esse Algo “por trás” do universo existe e se parece com uma mente. Se tudo o que existe no universo se limita à matéria, de onde vem essa Lei Moral que mais parece produto de uma mente? Onde há uma mente pode existir uma pessoa. Mas não entremos agora nesse mérito.

CONCLUSÃO

            Segundo o ponto de vista materialista para a origem do universo, tudo o que existe é a realidade material. Não há nada “atrás” ou “acima” dos fatos observáveis da natureza que a ciência estuda. Mas essa afirmação dada pela ciência não é científica, pois como a ciência pode dar respostas acerca de realidades que ela não pode observar e, consequentemente, estudar? Outro ponto deve ser reiterado. Se tudo o que existe é o universo material, de onde vem essa voz de comando que incita os homens a praticar o certo e gera neles o incômodo pelos erros cometidos? Essa influência vem da Lei Moral ou Lei do Certo e do Errado, que nos leva à existência de Algo “por trás” dessa lei. Esse Algo mais se assemelha a uma mente e onde há uma mente há uma pessoa. Um legislador universal, talvez.

Em suma: o ponto de vista materialista não explica a origem nem a razão de existir dessa Lei Natural. Assim, o ponto de vista religioso, para a explicação das origens do universo, se mostra mais coerente. Segundo essa visão o universo é regido por leis fixas, mas há um Ser superior que criou tanto o universo quanto essas leis fixas que o regem. Esse Ser transcende a natureza, por isso não pode ser observado nem estudado pela investigação científica. Quem é esse Ser? Essa resposta exige outra espécie de argumentação.   

Referência:

LEWIS, C. S. Cristianismo Puro e Simples. 5ª ed. São Paulo: ABU, 1997, p. 17-19.

O que existe por trás da Lei Moral? (parte 1)

O QUE EXISTE POR TRÁS DA LEI MORAL?

Em resumo ao que Lewis considerou sobre a Lei Moral ou Lei da Natureza Humana, lembremos que as pedras, as árvores, os elementos da natureza em si, são regidos por leis naturais. Todavia, ao nos referirmos a essas leis naturais, nos voltamos não a leis propriamente ditas. Ou seja, ao afirmarmos que existe uma Lei da Natureza que rege os seres e o universo, estamos afirmando na verdade como a natureza de fato se comporta. Como foi explicado, ao se dizer que as pedras obedecem à Lei da Gravidade, tudo o que se está afirmando é como as pedras se comportam ao serem lançadas ao ar: elas caem.

Quando as árvores possuem formas que não beneficiam aos homens, seja porque elas não fornecem sombra o suficiente ou por qualquer outra razão, elas não são consideradas culpadas por isso. As árvores possuem determinado formato ou altura porque são assim e ponto final. Não existe a menor evidência de que elas se comportam de uma forma, mas há alguma lei que as incite a agir de outra maneira. O modo como as pedras, as plantas, os animais, o sol, a lua, as estrelas se comportam, reflete exatamente o que esses elementos são. Logo, a Lei da Natureza é apenas uma força de expressão para Lewis. Sim, porque dizer que a natureza é governada por leis significa apenas dizer que a natureza se comporta de uma determinada maneira.

Não há qualquer indício de que realmente exista uma lei independente dos fatos ligados ao comportamento da natureza. Isto é, o que observamos da natureza é tudo o que podemos extrair dela. Não podemos afirmar, nem há qualquer “rastro” da realidade da Lei da Natureza como algo acima ou independente do comportamento dos elementos naturais. Mas o mesmo não ocorre em relação aos homens. A Lei da Natureza Humana ou Lei Moral nos mostra uma realidade transcendente ao comportamento humano. Ela nos diz algo que supera o que podemos observar do comportamento dos homens. Enquanto os homens se comportam de uma forma, essa lei nos diz como os homens devem se comportar. Algumas vezes há uma harmonia entre os deveres morais impostos por essa lei e a forma como agimos, mas na grande maioria do tempo vivemos num conflito. Agimos de uma forma, mas sabemos que deveríamos ter agido de modo diferente. Nisso se resume a realidade da Lei da Natureza Humana ou Lei Moral Objetiva. Uma lei que não inventamos, mas sabemos que devemos obedecer, embora não a obedeçamos na maioria das vezes.

A esse respeito, vale destacar um trecho da obra que resumimos:

No caso das pedras, das árvores e de coisas dessa natureza, o que chamamos de Lei Natural pode não ser nada além de uma força de expressão. Quando você diz que a natureza é governada por certas leis, quer dizer apenas que a natureza, de fato, se comporta de certa forma. As chamadas “leis” talvez não tenham realidade própria, talvez não estejam além e acima dos fatos que podemos observar. No caso do homem, porém, percebemos que as coisas não são bem assim. A Lei da Natureza Humana, ou Lei do Certo e do Errado, é algo que transcende os fatos do comportamento humano. Neste caso, além dos fatos em si, existe outra coisa – uma verdadeira lei que não inventamos e à qual sabemos que devemos obedecer (LEWIS, 1997).

            Lewis aborda os dois pontos de vista a respeito das origens do universo. O materialista e o religioso. O primeiro defende a existência da matéria e do espaço por meio de combinações aleatórias, que produziram formas de vida menos complexas, as quais evoluíram mediante processos naturais até a produção das formas de vida mais complexas que conhecemos como seres humanos. Não há qualquer senso de escolha, vontade ou finalidade para a existência do universo nesse ponto de vista. Já o ponto de vista religioso defende que existe algo “por trás” do universo. Algo mais parecido com uma mente. Algo consciente. Dotado de escolhas, vontade e propósito. Essa visão defende que um ser dotado de mente criou o universo. Muitos desígnios desse ser permanecem ocultos, mas outros são totalmente claros como, por exemplo, o de criar seres semelhantes a Ele. Ou seja, criar seres que possuem mentes.

CONTINUA

Referência:

LEWIS, C. S. Cristianismo Puro e Simples. 5ª ed. São Paulo: ABU, 1997, páginas 14-15.

A Realidade da Lei Moral

O Certo e o Errado existem?

Afinal, existe realmente uma lei que determina a forma como os homens devem se comportar que é diferente do comportamento efetivo deles? Bem, Lewis responde a essa pergunta partindo da ideia de que há um padrão de comportamento que os homens se sentem obrigados a obedecer, mas que, efetivamente, não conseguem praticar integralmente. Para ele esse padrão é a decência, lei natural ou moral. Da qual não podemos fugir. Ele se utiliza de alguns argumentos que aponta como evidências da realidade dessa lei.

Em primeiro lugar, ele afirma que os homens se culpam ou culpam uns aos outros, por não agirem quando deveriam agir, ou por agirem da forma errada. Ora, os humanos culpam uma pedra ou uma árvore por possuírem determinadas características? Por exemplo, culpamos uma pedra por não ter uma forma específica, ou uma árvore por não nos fornecer sombra o suficiente? Quando isso ocorre o que está em jogo é o uso que podemos fazer desses elementos, mas uma árvore ou uma pedra obedecem somente à natureza que a elas é inerente. A “culpa” de uma pedra por não ter o formato necessário para ser utilizada em uma construção, ou a culpa de uma árvore por não ser capaz de fornecer a sombra da qual alguém precisa, são “culpas” que na verdade não existem. Ou seja, quando consideramos uma pedra ou uma árvore como “má” ou “boa”, em razão do uso que podemos fazer desses elementos, atribuímos a eles qualificações de acordo ao nosso ponto de vista. Tanto a pedra quanto a árvore continuarão sendo obedientes à própria natureza, independentemente do que pensemos a respeito delas.

Quando uma pedra obedece à lei da gravidade, por exemplo, ela simplesmente é o que é. Não há a menor probabilidade de uma pedra cair porque ela se lembra do dever de cair. Tanto as pedras quanto os demais objetos pesados caem porque são o que são. Não porque a eles é imposto algum dever de comportamento. Mas isso não ocorre com os seres humanos. Nenhum homem culpa uma pedra por ser o que é, mas os homens elogiam ou condenam a forma de agir uns aos outros.

No resto do universo não há certeza alguma, nem ao menos evidências, de que a natureza se comporte de uma forma, ao mesmo tempo em que exista algo acima da natureza que exija dela um comportamento diferente. Mas a lei da natureza humana se relaciona à exigência de um padrão de comportamento que impõe aos homens uma determinada forma de agir, a qual os humanos nem sempre conseguem obedecer.

Uma das falsas explicações à existência da lei moral ou natural é a de que quando consideramos uma conduta como errada, esse julgamento é igual ao praticado quando avaliamos o “erro” na forma de uma pedra ou de uma árvore. Isto é, as pessoas classificam condutas como certas quando essas condutas são convenientes para elas, enquanto consideram erradas as condutas que para elas são desfavoráveis ou inconvenientes. Lewis refuta essa pretensa explicação de um modo simples.

Quando na guerra, por exemplo, os oponentes se utilizam de traidores para adquirir informações privilegiadas, eles ganham vantagens e dão recompensas a seus informantes, mas os consideram vermes em forma humana. Assim, a conduta dos traidores é avaliada como repugnante, mesmo para quem dela retira enorme utilidade. Da mesma forma a boa conduta pode trazer desvantagens, como quando alguém diz a verdade e dela obtém algum sofrimento, ou quando pode copiar o dever de casa sem cansaço, mas se esmera para fazê-lo honestamente. Por essa simples didática Lewis refuta o argumento que dá à conveniência humana o condão de qualificar condutas como boas ou más, apenas quando delas retira benefícios ou prejuízos, respectivamente.

Outros afirmam que os homens taxam determinadas condutas, como boas, quando elas contribuem para o bem da sociedade. Mas Lewis objeta. Existem condutas que são consideradas boas, mas não são convenientes para quem as pratica, como exposto acima. Quando se pergunta: “Por que devo ser altruísta?” Os contrários à lei natural respondem: “Por que você deve contribuir para o bem da sociedade.” Ocorre que, mesmo quando se age para o bem da sociedade, é possível praticar condutas injustas ou más. Antes foi dado o exemplo de alguém que, separado do conceito de justiça, falsifica provas judiciais ou compra testemunhas para alcançar algum benefício coletivo (acréscimo meu).

CONCLUSÃO

As condutas que os homens chamam de boas ou más, nem sempre são assim tratadas por produzirem benefícios, muitas vezes ocorre o oposto. Os homens não se comportam de uma forma que exclua o dever de se comportar de uma maneira diferente. Todos sabem quando agem de uma forma contrária à que deveriam ter agido. Isso não ocorre com os demais seres, eles apenas agem da forma que são. Agem conforme a própria natureza e ponto final. Não podem ser culpados por serem o que são. Há condutas certas e erradas. Mesmo quando o bem produz resultados inconvenientes e o mal traz benefícios, o mal sempre é reconhecido como mal e o bem como bem.

A lei natural ou a lei do “certo” e o “errado” não é produto de uma conveniência humana, pois os bons comportamentos (na maioria das vezes) não são convenientes, assim como as más ações nem sempre são inconvenientes aos seus praticantes. Dessa forma, há bons indícios de que essa lei é real, não uma invenção humana como muitos alegam. Ela está acima dos fatos ligados ao comportamento humano, caso contrário não haveria a contradição – da qual não conseguimos fugir – entre o que fazemos e o que devemos fazer.