20 anos sem Roque Spencer Maciel de Barros: homenagem a uma grande inspiração intelectual

Existem autores que nos REtransmitem grandes ensinamentos e, também, existem autores que, além de transmitir novos saberes, marcam a nossa vida. Como grande estudioso da filosofia liberal devo muito a John Locke (1632-1704), Karl Popper (1902-94) e, claro, a autores brasileiros cujo maior conhecimento deles seria de grande valia para as atuais e inquietantes discussões no nosso país. Posso mencionar, como belos exemplos, Alberto Oliva, Francisco de Araújo Santos, José Guilherme Merquior (1941-91) e Roque Spencer Maciel de Barros (1927-99). Quanto a este, uma inspiração especial para eu encarar a vida, estamos completando, nesta quarta, 20 anos de sua partida. Gostaria de falar um pouco mais acerca de sua relevância para as minhas empreitadas intelectuais.

Roque Spencer nasceu em Bariri, interior de São Paulo, em 5 de abril de 1927. Graduado em Filosofia, bacharelado e licenciatura, pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP, foi professor secundário entre 1949 e 1950. Doutorou-se em Educação, também pela USP, com a tese A evolução do pensamento de Pereira Barreto e o seu significado pedagógico e obteve, em 1959, a sua livre-docência em História e Filosofia da Educação, pela USP, com a tese A ilustração brasileira e a ideia de universidade. Foi professor titular de Filosofia da Educação da Faculdade de Educação da USP entre 1973 e 1984, apresentando o livro O significado educativo do romantismo brasileiro: Gonçalves de Magalhães. Integrou a comissão editorial da EDUSP, o grupo de trabalho da Reforma Universitária, em 1968, e também foi chefe do Departamento de Filosofia e Ciências da Educação da Universidade de São Paulo. Roque Spencer também se destacou como redator auxiliar do jornal O Estado de São Paulo, entre os anos de 1948 e 1951, e como articulista do extinto Jornal da Tarde.

O filósofo publicou várias obras, entre elas, as que tive prazer de ler: Ensaios sobre educação (Grijalbo; EDUSP, 1971), Estudos liberais (T.A. Queiroz, 1992), Razão e racionalidade: ensaios de filosofia (T.A. Queiroz, 1993) e Poemas (T.A. Queiroz, 1997). Obras estas marcadas por uma grande defesa do liberalismo e, em tempos de grande confusão conceitual, não falamos aqui apenas de liberdade econômica, o capitalismo tout court, mas do liberalismo em sua dimensão ético-filosófica. Conforme ressaltado em artigo de 1989:

A defesa liberal do “liberalismo econômico” e, portanto, do Estado mínimo, atuante apenas nos setores que não paralisem a capacidade inventiva e criadora do homem; a opção liberal por um sistema “capitalista” humanizado e corrigido não é, pois, um dogma, mas o produto de uma verificação empírica e pragmática. O autêntico compromisso liberal é com o homem, respeitado na sua individualidade e na sua substância ética – e não com a economia (BARROS, 1992, p.103).

As inquietações existenciais apresentadas nos escritos de Roque vão muito ao encontro das minhas inquietações desde mais jovem. Como únicos responsáveis por dar uma significação à nossa vida, não nos limitamos a um só ângulo, pelo contrário, deformamos nosso conjunto de visões, ou horizonte de expectativas, como diz Popper, em vista das circunstâncias históricas e psicológicas, a fim de que não fiquemos na dimensão angustiante do ser-para-a-morte ou do ser nauseado, de acordo com a nomenclatura do existencialismo do século passado. Somos, também, “ser-para-a-vida”, habitantes de um mundo ético, dignos de ser tratados como um fim em si mesmos, e a variável predominância de uma face ou outra da existência depende dos momentos que vivemos, das dores e das dificuldades, da personalidade e, ainda mais em um mundo de acirrada competição como o de hoje, dos desempenhos que obtemos em nossos projetos; e outros possíveis fatores (BARROS, 1993).

Roque Spencer também se destacou no estudo do fenômeno totalitário. O anseio por uma ordem totalitária, segundo o filósofo, faz parte da própria ambiguidade, que a seu ver, é constitutiva da natureza do ente humano. Esse ente habita entre a singularidade e a totalidade. No âmbito da singularidade, em sua consciência, ele, e aqui está o aspecto trágico, depara-se com o grande desafio da responsabilidade pessoal e da incumbência de dar um sentido à sua vida e, diante de tantos revezes, pode encontrar-se desamparado. Essa pessoa, instância ética singular, pode ver, no horizonte, a solução de refugiar-se em uma totalidade, na dissolução de sua individualidade em uma ordem coletiva na qual o domínio da responsabilidade pessoal ceda lugar ao domínio do igual, de uma total transparência, da vivência e das decisões coletivas. O sonho totalitário mostra-se, portanto, como a válvula de escape para o pesadelo cotidiano do encontrar-se consigo mesmo. Em um poema juvenil, de 7 de março de 1946, denominado Ensaio de interpretação da liberdade, Roque expõe essa dimensão trágica de forma fascinante:

Emerges lentamente

 do universo

para, transcendendo, te fazeres homem.

Trazes nos olhos uma tragédia não desvendada

que te separa do mundo ventre, opaco e neutro.

Emparedado na tua liberdade,

estás irremediavelmente só no centro do universo.

E carregarás tua solidão e teu abismo,

lúcido e livre,

até a queda no todo indiferente.

Só e livre,

à espera do gozo amargo da dissolução na morte.

(BARROS, 1997, p.3)

Em tempos de acirrada polarização política, onde o debate racional dá lugar à infâmia, à difamação e à instrumentalização do Outro em vista do poder, conferir as lições de Roque é, como nunca, de extrema importância para quem deseja continuar trilhando o caminho da sensatez e da moderação. Autor que é uma enorme fonte de inspiração intelectual para todos os liberais genuínos, amantes da liberdade e de uma educação honrada em seu digno objetivo: formar pessoas, sobretudo, humanas. A instituições educacionais, diz o filósofo Roque, ocupam-se da formação técnica, no entanto, tal preocupação não é a fundamental:

Seja em uma sociedade de abundância, com mais recursos, grande número de professores, excelentes laboratórios e bibliotecas, seja em uma sociedade de carências, certamente com menores recursos, menor número de docentes, bibliotecas e laboratórios não tão excelentes, uma Universidade moderna, fiel à sua missão e aos valores da inteligência, capaz de desempenhar aquele papel de poder espiritual que a converte numa potência a serviço da liberdade e da verdade, deve estruturar-se segundo princípios mais altos do que os da simples formação profissional, a fim de que a formação profissional que nela se adquire seja mais rica e aberta, mais fecunda e mais plástica, mais eficaz e mais humana (BARROS, 1971, p.209)

Atualmente, como liberal e estudante de pós-graduação, busco honrar sua memória e legado. É uma pena que muitos de nossos grandes liberais estejam postos de lado e muitos recorram a meros curiosos que se dizem portadores de incríveis saberes e que, pela retórica, atraem em massa. Vivemos em um momento em que, para o nosso país, com um governo conservador com pretensões liberais no âmbito econômico, nunca foi tão necessária uma oposição liberal consistente. Aprovando no que é digno e reprovando naquilo que atenta contra a liberdade e suas brilhantes consequências; cujos exemplos encontram-se de forma evidente nas sociedades desenvolvidas. O resto representa o abismo do populismo e da demagogia; o “nós x eles” que levou o nosso país a essa atual e nefasta crise de representatividade.

Referências

BARROS, Roque Spencer Maciel de. Ensaios sobre educação. São Paulo: EDUSP; Grijalbo, 1971.

_____________________________. Estudos Liberais. São Paulo: T.A. Queiroz, 1992.

_____________________________. Poemas. São Paulo: T.A. Queiroz, 1997.

_____________________________. Razão e racionalidade: ensaios de filosofia. São Paulo: T.A. Queiroz, 1993.

Autor: Daniel Mota

Licenciado e, atualmente, mestrando em Filosofia pela UFRRJ. Pesquisador em filosofia política e epistemologia, com ênfase em Karl Popper. Defendeu a sua monografia sobre a importância da noção de verdade objetiva para a filosofia da ciência popperiana, intitulada 'Popper, verdade e progresso científico: possibilidades e limites na elaboração de uma epistemologia objetiva' (Publicada pela Editora Fi). Interesses em estudos sobre o desenvolvimento do pensamento liberal no Brasil, física, principalmente na física moderna, e na história da ciência.

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