O Outro: uma instância ética para além das fronteiras ideológicas

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Faço deste meu primeiro e breve artigo de 2019 um convite à reflexão sobre um tema que muito tem intrigado aqueles que defendem a liberdade por inteiro. Atentados contra a vida e contra a democracia, como foi o assassinato da vereadora Marielle Franco há um ano, e, até mesmo, a morte de um inocente, tal como a do neto do ex-presidente Lula, no início deste mês, acometido de meningite, trazem a oportunidade de reflexão acerca de uma questão muito inquietante: até quando divergências políticas, ideológicas, religiosas ou de qualquer outro tipo continuarão a ser sobrelevadas em relação ao Outro, instância ética sagrada, não apenas fonte de valores, mas inviolável em sua dignidade e direitos, que deve ser tratado sempre como um fim em si mesmo e nunca como meio?

O liberalismo ético-filosófico concebe o individualismo, conforme expressa o Prof. Roque Spencer Maciel de Barros (1927-99), no ensaio Ética e cultura, como uma afirmação, de caráter decisivo, da pessoa humana como um valor inegociável e, também, superior a qualquer outro. Tamanha consideração não cabe apenas a um ou a outro indivíduo, mas a todas as individualidades singulares, verdadeiras entidades livres e dotadas de responsabilidades, instâncias éticas.

No Brasil dos últimos anos, o acirramento da polarização ideológica levou a uma constante carnificina retórica, para usar expressão de Ricardo Boechat, cuja perda, bastante recente, muito nos dói. Nas redes sociais, principalmente, o vale tudo se instaurou. O debate racional foi substituído pela verborragia massacrante e pelo regozijo contra outrem que, apenas por professar uma ideologia, crença ou posição política diversa a determinada claque, torna-se alvo de chacotas e xingamentos até mesmo quando perde a vida acometido por uma doença, vítima da violência ou de uma terrível tragédia – e, por falar nisso, como este ano tem, em só três meses, nos assustado. Cômico para não ser trágico são aqueles que se dizem “liberais”, apenas por defenderem liberdades econômicas, e surfam nessa onda, de mãos dadas com a esquerda, de politizar tragédias apenas para manter o status que seus obstinados seguidores conclamam. São, e não faltam exemplos na história de nosso país, “liberais de ocasião” cujas atitudes podem, vira e mexe, ser fatais para o desenvolvimento de um liberalismo genuíno por nossas terras.

Os tempos são duros e, em constante conversa com aqueles efetivamente comprometidos com a liberdade, como o meu amigo Alberto Oliva, sentimos a necessidade de um efetivo compromisso com as ideias genuinamente liberais. O debate sobre a liberdade, e suas formas, se reascendeu como nunca, mas se encontra em um grande jogo, sob risco de ser assassinado pelos oportunistas de nossa era. Com esse pano de fundo, manter a coerência é fundamental, não importa que sejamos desmerecidos por alguns ou tomemos unfollows em redes sociais por parte daqueles que nos procuram e esperam que nós, como seguindo uma manada, adotemos uma atitude agressiva e não nos solidarizemos com os males que afligem os que pensam diferente da gente. Mantenhamos, com paciência, distância da rusticidade reacionária e dos coletivismos totalizantes daqueles que são adeptos da ideologia revolucionária que foi destroçada com a queda do Muro de Berlim. Em outras palavras: é possível humanitarismo e senso de justiça estando entre o dogmatismo arrogante e o desespero cético.

Deixo os meus votos, nessa estreia, de dias melhores. Não percamos a esperança de superar tamanha hecatombe moral. Esse é o meu espírito e o valorizarei ainda mais ao longo de minhas próximas publicações.

Referência

BARROS, Roque Spencer Maciel de. Ética e cultura. In Razão e racionalidade: ensaios de filosofia. São Paulo: T.A. Queiroz, 1993. Pp. 59-86.

 

Autor: Daniel Mota

Licenciado e, atualmente, mestrando em Filosofia pela UFRRJ. Pesquisador em filosofia política e epistemologia, com ênfase em Karl Popper. Defendeu a sua monografia sobre a importância da noção de verdade objetiva para a filosofia da ciência popperiana, intitulada 'Popper, verdade e progresso científico: possibilidades e limites na elaboração de uma epistemologia objetiva' (Publicada pela Editora Fi). Interesses em estudos sobre o desenvolvimento do pensamento liberal no Brasil, física, principalmente na física moderna, e na história da ciência.

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