Sobre a moralidade social.

Segundo C. S. Lewis, os grandes mestres da moral não criam morais novas, mas levam as pessoas aos princípios antigos e simples que todos sabem que são corretos, mas se esforçam constantemente para esquecer. Essa consideração se aplica à regra áurea ensinada por Jesus Cristo: “Faça aos outros o mesmo que gostaria que fizessem a você.” Esse tipo de ensinamento é semelhante ao de um pai que leva o filho a revisitar os pontos da matéria que insiste em não estudar. Afinal, como foi dito, a moralidade inerente à Lei Natural não muda, o ponto de vista dos indivíduos acerca dela é que muda.

Muitos insistem que a igreja deve tomar à dianteira nos assuntos políticos e econômicos para que a regra áurea: “Faça aos outros o mesmo que gostaria que fizessem a você”, se instale na sociedade de modo a instituir uma ordem social cristã. Esses que pedem para a igreja tomar a dianteira nesses assuntos, geralmente se referem às lideranças quando dizem “igrejas”. Mas quem exerce a liderança possui talentos específicos para gerir a vida espiritual de seus liderados, por isso é equivocada essa abordagem de entregar à liderança cristã o papel de transformação social, no que se refere a aspectos que devem ser exercidos pelos leigos cristãos. Para Lewis devem existir economistas, artistas, políticos cristãos, etc. desde que não exerçam funções de liderança como os pastores. A estes cabe a responsabilidade de guiar seus pastoreados nos assuntos de ordem eterna. Logo, deve-se deixar aos leigos os assuntos de ordem terrena. Vale ressaltar que, apesar das diferenças estruturais, as atividades de todos os cristãos devem contribuir de alguma forma para a expansão do reino de Deus. Os pastores devem se voltar para a missão eclesiástica e social, no que tange ao evangelismo em seus diversos vieses, enquanto os leigos devem atuar na sociedade de modo a desenvolver e utilizar as suas habilidades para a glorificação do santo Evangelho.

Como seria uma sociedade plenamente cristã segundo o Novo Testamento?

Para Lewis uma sociedade cristã não há lugar para parasitas. Todos devem trabalhar para auxiliar aos necessitados. Não há espaço para parasitas nem preocupações supérfluas, ostentação ou fanfarronices. Nesse sentido, uma sociedade cristã seria o que, na época de Lewis era conhecido como “esquerda”. Por outro lado, em uma sociedade cristã deve haver obediência. Dos cidadãos às autoridades legitimamente constituídas, dos filhos para os pais, das mulheres para seus maridos. De ser uma sociedade alegre, sem ansiedades nem preocupações. Caso existisse uma sociedade assim, ela deixaria uma impressão interessante em seus habitantes. Seria economicamente socialista, portanto, “progressista” e teria um código moral bastante antiquado ou conservador. Cada um de nós apreciaria um ou alguns dos seus aspectos, mas poucos a apreciariam por inteiro. Lewis entende que é isso o que acontece a tudo o que é verdadeiramente cristão. A maioria se sente atraída por um ou alguns de seus aspectos, mas rejeita o resto. Esse é o motivo porque muitos lutam por valores opostos, mas dizem lutar pelo mesmo cristianismo.

Lewis argumenta que a passagem do Novo Testamento que diz que todos devem trabalhar, dá a essa determinação a finalidade de ajudar aos necessitados. Muitos dizem que a caridade (dar aos pobres) não é mais necessária. Ao invés dela deve-se buscar construir uma sociedade onde não existam pobres. Essa afirmação pode ser verdadeira, mas se esse entendimento compreender que durante a construção dessa sociedade sem pobres, deve-se parar de doar, esse entendimento não obedece à moralidade cristã. Para Lewis, se a nossa caridade não pesar ao menos um pouco em nosso bolso, ela é pequena demais. Caso o nosso gasto com conforto, diversão, bens supérfluos, etc. seja igual ao dos outros (não cristãos) que ganham o mesmo que nós, certamente estamos doando pouco.

Muitos não examinam o cristianismo pra vê-lo como ele é, mas para buscar nele os aspectos que corroborem com sua visão filosófica, moral, político-partidária, etc. A construção de uma sociedade cristã só pode ser alcançada pela vontade de indivíduos que sejam verdadeiramente cristãos, pois a regra áurea: “Faça aos outros o mesmo que gostaria que fizessem a você” só pode ser praticada quando amamos ao próximo como a nós mesmos, mas só podemos amar ao próximo como a nós mesmos quando amamos a Deus e só podemos amá-lo quando aprendemos a obedecê-lo.

Referência:
LEWIS, C. S. Cristianismo Puro e Simples. 5ª ed. São Paulo: ABU, 1997, pgs. 31-33.

Autor: Elicio Santos

Escrevo por prazer e leio por curiosidade. Sou graduado em Direito pela Universidade Estadual de Santa Cruz e aprovado no XXVI Exame de Ordem da OAB.Tenho alguns livros publicados de poesia e ficção. Escrevo para três sites conservadores. Amo ler e escrever sobre teologia, filosofia política e jurídica. Sirvo a Cristo na Igreja Presbiteriana do Brasil.

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