O que existe por trás da Lei Moral (parte final)

Lewis aborda os dois pontos de vista a respeito das origens do universo. O materialista e o religioso. O primeiro defende a existência da matéria e do espaço por meio de combinações aleatórias, que produziram formas de vida menos complexas, as quais evoluíram mediante processos naturais até a produção da forma de vida mais complexa que conhecemos: o ser humano. Não há qualquer vontade ou propósito para a existência do universo, segundo esse ponto de vista. Já a explicação religiosa defende que algo “por trás” do universo o criou por meio de uma escolha e para uma finalidade. Algo mais parecido com uma mente. Algo consciente e pessoal. Muitos desígnios desse ser permanecem ocultos, mas outros são totalmente claros como, por exemplo, o de criar seres semelhantes a Ele. Ou seja, criar seres dotados de mentes.

            Qual dos dois pontos de vista está correto? C. S. Lewis salienta que a ciência observa os fatos da natureza. Ela pode explicar os fenômenos naturais, bem como pode saber a composição dos seres e dos elementos que produzem determinados fenômenos biológicos, climáticos, etc. Mas a ciência não pode dizer se há algo “por trás” dos fatos ou fenômenos da natureza.  A ciência pode conhecer e estudar o universo material. Mas não pode responder às perguntas: “por que o universo existe e continua a existir?” “Qual é o seu significado?”. Essas indagações não são científicas porque suas respostas não podem ser alcançadas por meio do estudo do universo material. A ciência se limita a explicar os fatos observáveis da natureza. Se existe algo ou alguém “por trás” do universo, esse algo ou alguém não pode ser observado. Logo, não pode ser objeto da investigação científica. Caso exista, ou se manterá desconhecido aos homens, ou se revelará por outros meios.

            Em toda a natureza há apenas um único ser que podemos observar por dentro. Um ser que podemos conhecer o interior para estudá-lo além do que se pode observar dele. Esse ser somo nós. Somos capazes de conhecer o interior dos seres humanos porque somos humanos e, a partir desse conhecimento, nos deparamos com a realidade da lei moral que não foi criada por nós. Essa lei nos mostra que há uma influência, uma voz de comando que nos incita a agir de uma forma, enquanto agimos de outra. Alguém que estudasse o homem a partir de seus atos, jamais teria conhecimento da Lei Moral ou Lei da Natureza Humana, pois teria acesso somente ao que fazemos, ao passo que a Lei Moral trata do que devemos ou deveríamos fazer. 

A ciência observa a natureza pelo exterior. Jamais poderíamos chegar ao algo ou alguém “por trás” do universo, senão por meio dos seres humanos porque é somente nele que se manifesta uma lei que transcende aos fatos observáveis. Os homens agem de uma forma, mas a lei os influencia a agir diferente. De onde vêm esses comandos? De uma convenção humana? Se todos os homens chegassem a um consenso sobre a moralidade, por que a Lei Moral quase sempre os influencia a se comportar de um modo diferente do que eles desejam?   De onde vem essa noção de certo e errado que transcende épocas, culturas e opiniões pessoais? O egoísmo é proveitoso em muitos casos, então por que os homens concordam acerca da negatividade desse comportamento? O altruísmo tende a trazer mais incômodos do que benefícios a seus adeptos, então por que ele é considerado positivamente?

A partir desses dados é possível deduzir que esse Algo “por trás” do universo existe e se parece com uma mente. Se tudo o que existe no universo se limita à matéria, de onde vem essa Lei Moral que mais parece produto de uma mente? Onde há uma mente pode existir uma pessoa. Mas não entremos agora nesse mérito.

CONCLUSÃO

            Segundo o ponto de vista materialista para a origem do universo, tudo o que existe é a realidade material. Não há nada “atrás” ou “acima” dos fatos observáveis da natureza que a ciência estuda. Mas essa afirmação dada pela ciência não é científica, pois como a ciência pode dar respostas acerca de realidades que ela não pode observar e, consequentemente, estudar? Outro ponto deve ser reiterado. Se tudo o que existe é o universo material, de onde vem essa voz de comando que incita os homens a praticar o certo e gera neles o incômodo pelos erros cometidos? Essa influência vem da Lei Moral ou Lei do Certo e do Errado, que nos leva à existência de Algo “por trás” dessa lei. Esse Algo mais se assemelha a uma mente e onde há uma mente há uma pessoa. Um legislador universal, talvez.

Em suma: o ponto de vista materialista não explica a origem nem a razão de existir dessa Lei Natural. Assim, o ponto de vista religioso, para a explicação das origens do universo, se mostra mais coerente. Segundo essa visão o universo é regido por leis fixas, mas há um Ser superior que criou tanto o universo quanto essas leis fixas que o regem. Esse Ser transcende a natureza, por isso não pode ser observado nem estudado pela investigação científica. Quem é esse Ser? Essa resposta exige outra espécie de argumentação.   

Referência:

LEWIS, C. S. Cristianismo Puro e Simples. 5ª ed. São Paulo: ABU, 1997, p. 17-19.

Autor: Elicio Santos

Escrevo por prazer e leio por curiosidade. Sou graduado em Direito pela Universidade Estadual de Santa Cruz e advogado. Curso pós-graduação em Direito do Trabalho e Previdenciário. Tenho alguns livros publicados de poesia e ficção. Escrevo para três sites conservadores. Amo ler e escrever sobre teologia, filosofia política e jurídica. Sirvo a Cristo na Igreja Presbiteriana do Brasil.

3 comentários em “O que existe por trás da Lei Moral (parte final)”

  1. Apenas gostaria de parabenizar por dói motivos: clareza e coerência nos textos e em segundo , pelo “ direitasja “ espaço virtual onde obtém – se leituras sóbrias , sinceras , éticas e inspiradoras
    Sugiro a VS acrescentar ao rol dos pensadores “ direitos “ o próprio CS Lewis , o velho e no Chesterton
    Creio e Iris Murdoch
    Talvez valha sobre sua obra uma possível reflexão ! Abraços e saúde

    1. Muito obrigado, amigo. Depoimentos como o seu me inspiram a continuar escrevendo. Obrigado pela dica. Eu pretendo abordar todo o pensamento de C.S. Lewis para depois começar uma série de artigos sobre o pensamento de Chesterton e futuramente o de Santo Agostinho e São Tomás de Aquino. Forte abraço!

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