C. S. Lewis. Respondendo a Objeções Contra a Lei Da Natureza Humana ou Lei Moral.

  1. Essa Lei Moral ou Regra de Boa Conduta não seria apenas um instinto humano mais desenvolvido?

R. Contra o argumento de que a Lei Moral não passa de um mero desenvolvimento instintivo nos seres humanos, consideremos que (é bem verdade) todos os homens possuem impulsos ou instintos como o sexual, o materno, o de sobrevivência, etc. Mas havendo um conflito, entre dois ou mais instintos, percebe-se a existência de um terceiro elemento que informa aos humanos sobre a qual dos instintos devem seguir. Lewis utiliza um exemplo prático como meio de melhor demonstrar essa explanação. Ele apresenta a situação hipotética de um homem que encontra outro pedindo socorro. Geralmente surgirão dois desejos em circunstâncias desse tipo: o de prestar socorro, que deriva de nosso instinto gregário, e o de fugir do perigo, que deriva de nosso instinto de autopreservação. Nesse conflito de desejos ou instintos, um terceiro elemento surge ordenando a qual dos dois instintos obedecer. Esse terceiro elemento surge na consciência informando (de modo imperativo) que devemos prestar o socorro e suprimir o desejo de fugir. Assim, uma coisa é sentir o desejo de ajudar e obedecer a esse instinto. Outra é sentir a obrigação de ajudar mesmo contra a nossa vontade, como quando o ato de prestar socorro pode colocar a nossa própria vida em risco. Esse terceiro elemento que nos ordena a prestar o socorro e a suprimir o desejo de escapar da situação de risco, chama-se Lei Moral ou Lei da Natureza Humana. Lewis compara essa lei a uma partitura musical que determina qual nota deve ser tocada por meio de uma determinada tecla de um piano. A melodia musical ocorre pelas ordens da partitura musical, mas a partitura não equivale às teclas que produzem as notas. As teclas são apenas os instrumentos usados para alcançar o cumprimento das ordens dadas pela partitura musical. Nesse sentido, a Lei Moral equivale à partitura musical e os instintos equivalem às teclas de um piano.

Há ainda outra forma de perceber que a Lei Moral não deriva dos instintos. Lewis argumenta no sentido de que quando há dois instintos em conflito, caso não houvesse mais nada na mente humana além deles, certamente o instinto mais forte prevaleceria. Mas não é isso o que ocorre. No conflito entre dois instintos geralmente surge uma informação que nos leva a seguir o instinto mais fraco. Partido do exemplo apresentado, o desejo de fugir do perigo é muito mais forte do que o de ajudar a alguém envolvido numa situação de risco. Mas a Lei Moral nos obriga (embora possamos desobedecê-la) a estimular o instinto de ajudar que originalmente era mais fraco. Essa lei determina que ajudemos ao nosso semelhante, apesar dos pesares. Esse tipo de comando que num conflito entre dois instintos nos ordena a obedecermos ao instinto mais fraco, certamente não pode ser um comando instintivo. Ele deriva da Lei da Natureza Humana que determina a ação correta a ser praticada, mesmo que o desejo de agir corretamente se apresente de modo mais frágil do que o desejo de agir de modo incorreto. Ora, um instinto não coloca outros instintos “na balança”, muito menos orienta os homens a seguirem seus desejos menos desejados. Lewis novamente equipara a Lei Natural Humana às partituras musicais. Quem ordena ao músico que toque uma nota e rejeite a outra, certamente não pode ser a própria nota. Utilizando o mesmo raciocínio, quem ordena aos homens que sigam a determinados instintos em detrimento de outros, não pode ser um dos instintos.

Lewis aborda ainda uma terceira forma de provar que a Lei Moral ou Regra de Boa Conduta não é um impulso. Se ela fosse um impulso seria possível classificar algum impulso da nossa natureza como sempre “bom”. Mas isso não acontece. Muitos erram ao pensar que impulsos como o amor materno e o patriotismo são sempre bons, enquanto outros impulsos como o sexual e a agressividade são sempre maus. Lewis explica que a Lei Moral encoraja a prática de alguns instintos em mais ocasiões como o instinto materno e o patriotismo, enquanto orienta os homens a inibir, em mais ocasiões, a outros instintos como o sexual e a agressividade. Mas mesmo os instintos que devem ser praticados em mais situações do que outros, também devem ser refreados algumas vezes para se evitar crueldades e injustiças. Uma mãe pode cometer males a outras crianças em nome do amor ao seu filho, assim como um homem pode cometer males a pessoas de outros países em nome de seu patriotismo. Logo, não há instintos bons ou maus, assim como não há notas musicais certas ou erradas. Há apenas notas que serão consideradas “certas” quanto tocadas em alguns momentos, assim como há notas “erradas” em outros momentos. Quem decide qual nota será tocada e qual será “rejeitada”, para se alcançar uma determinada melodia, será a partitura musical. Do mesmo modo ocorre à Lei Natural Humana. Ela é como um maestro que rege aos instintos humanos para alcançar à melodia chamada bondade ou boa conduta. Logo, essa lei que dá ordens aos instintos não pode ser um deles.

Qualquer instinto que seja considerado em padrão absoluto pode tornar os homens desleais e corruptos. É por isso que a Lei Natural deve contrabalançar os instintos humanos em nome da boa conduta. A esse respeito Lewis cita um instinto que pode ser considerado absoluto por algumas pessoas. Ele aborda o amor pela humanidade como um exemplo de que nenhum instinto pode ser erigido à categoria de absolutamente bom. Nessa exemplificação Lewis afirma que, caso esse amor pela humanidade seja concebido à parte do senso de justiça, os homens logo estarão violando acordos e falsificando provas judiciais em nome desse pretenso “amor pela humanidade.”

CONCLUSÃO

Conclui-se que, resumidamente, a Lei Natural ou Regra de Boa Conduta não pode ser um instinto pelo fato de:

Ordenar às consciências o instinto que deve ser obedecido em situações onde houver conflito entre instintos.

A ordem de obedecer a um instinto e de suprimir a outro, geralmente, ordena aos homens que obedeçam ao instinto originalmente mais fraco. Caso houvesse apenas instintos envolvidos nas questões morais humanas, os instintos mais fortes prevaleceriam.

A rigor não existem instintos bons nem instintos maus. Existem instintos que a Lei Moral encoraja aos homens praticar em mais situações, como o materno e o patriotismo. Da mesma forma existem instintos que a Lei Moral orienta aos homens a inibir em mais ocasiões, como o sexual e a agressividade. Mas mesmo os instintos mais encorajados pela Lei Moral devem ser reprimidos em outras ocasiões, assim como os instintos que a Lei Moral manda suprimir, em mais situações, devem ser encorajados em outros contextos. Por exemplo, a agressividade do soldado e o impulso sexual dos casados são necessários para a manutenção de seus papéis. Caso a Lei Moral ou Regra de Boa Conduta fosse apenas um instinto, ela seria somente um bom instinto desenvolvido. Mas – como dito – instintos bons e maus não existem. A Lei Moral é a regente desses instintos que passam a ser “bons” ou “maus” para determinadas ocasiões, a fim de se alcançar a prática da bondade ou boa conduta.

Mais uma objeção pode ser levantada por alguns contra a lei moral objetiva: não seria ela fruto de mera convenção social? No próximo artigo será abordada a resposta de Lewis a essa objeção. (CONTINUA)

Referência:

LEWIS, C. S. Cristianismo Puro e Simples. 5ª ed. São Paulo: ABU, 1997, pg. 11-12.

Autor: Elicio Santos

Escrevo por prazer e leio por curiosidade. Sou graduado em Direito pela Universidade Estadual de Santa Cruz e advogado. Curso pós-graduação em Direito do Trabalho e Previdenciário. Tenho alguns livros publicados de poesia e ficção. Escrevo para três sites conservadores. Amo ler e escrever sobre teologia, filosofia política e jurídica. Sirvo a Cristo na Igreja Presbiteriana do Brasil.

2 comentários em “C. S. Lewis. Respondendo a Objeções Contra a Lei Da Natureza Humana ou Lei Moral.”

  1. A PAZ irmão- creio que os instintos humanos do homem caído são iguais aos dos animais- logo quando ele é salvo por Jesus é habitado pelo Espírito santo que o inclina para os frutos do Espírito de Gálatas 5.

    1. A Paz de Cristo. O que apresento nesse artigo é a refutação de C. S. Lewis aos que comparam a lei moral objetiva ou Lei Natural a um subproduto dos instintos humanos. Os ateus argumentam que não existe nenhuma lei moral objetiva, mas apenas instintos que se aperfeiçoaram na espécie humana durante o seu processo evolucionário por meio da seleção natural das espécies. Os instintos favoráveis à preservação da espécie humana foram preservados, enquanto os contrários foram descartados ao longo dos milênios. Lewis rebate esse tipo de argumento por meio de três pressupostos: 1) Havendo conflitos de instintos como quando, por exemplo, uma pessoa tem de escolher entre ajudar a alguém em perigo e fugir da situação de risco (instinto de auxílio versus o de autopreservação) existe um comando na consciência humana que ordena a qual instinto se deve obedecer. Esse comando existe de modo independente aos instintos, logo não pode ser um deles. 2) Considerando a mesma situação hipotética, esse comando geralmente ordena os homens a obedecerem ao instinto mais fraco, no caso em questão, o de ajudar a pessoa em perigo. Caso não existisse uma lei moral, mas apenas instintos na mente humana, o instinto mais forte prevaleceria, mas não é o que acontece geralmente. 3) Não há instintos bons ou maus, há apenas instintos que a lei moral oriente os homens a inibir em mais situações, como o instinto sexual e a agressividade, por exemplo, e há instintos que a lei moral encoraja a prática em mais ocasiões, como o amor materno e o patriotismo, por exemplo. Já que não há instintos bons ou maus, a lei moral não pode ser um instinto, porque se fosse seria um instinto bom o qual, como citei, não existe. Lewis conclui que a Lei Moral ou Natural ou Regra de Boa Conduta, assemelha-se a uma partitura musical que determina qual será a melodia a ser alcançada por meio de algumas notas, mas a partitura não é nota alguma. Da mesma forma a Lei Moral não é um instinto. Ela é como a partitura musical. Determina qual instinto deve ser obedecido em uma dada situação para se alcançar a bondade ou boa conduta. Vale ressaltar que as ordens da lei moral podem ser desobedecidas, ao contrário das leis biológica ou da lei gravitacional. Espero ter resumido aqui as principais ideias do meu artigo que aborda a visão de C. S. Lewis a respeito da lei moral objetiva. Abraço!

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