C. S. Lewis e a Maldade Humana (parte final)

Para Lewis o padrão moral que parece ter vindo de fora para o “bolsão” acaba sendo terrivelmente essencial para as condições no interior dele. Tanto que uma prática contínua das virtudes oriundas da sociedade superior, ainda que por dez anos, encheria a Terra de pólo a pólo de paz, abundância e prosperidade. Penso que essa passagem pode ser interpretada à luz da identidade que o Cristo dá aos seus discípulos: “Vós sois o Sal da Terra e a luz do mundo.” Isso porque os emissários da doutrina cristã fazem parte dos humanos que entendem ser possível adotar um comportamento diferente do praticado no “bolsão” chamado planeta Terra. Eles internalizam e exteriorizam as virtudes trazidas da “sociedade superior” chamada Reino dos Céus, virtudes que são capazes de frear o ritmo degenerativo empregado pela raça humana ao seu planeta, em razão da desobediência contumaz empreendida contra o seu Criador.

Caso fosse possível à raça humana praticar as virtudes superiores em toda a Terra, ainda que por um curto prazo, certamente o nosso mundo sofrido se encheria de paz, alegria, saúde e tranquilidade. Imaginando-se como real a hipótese de a humanidade caída conseguir respirar os “ares” divinos – com a mesma facilidade que ela tem para pecar – o nosso insignificante globo terrestre seria como um farol de esperança para outros seres afastados de Deus, se é que existem. Assim, o “Sal da Terra” é composto pelo grupo dos seguidores do Cristo. Aqueles que possuem a capacidade de manter as condições degenerativas do “bolsão” terrestre sob algum controle. Da mesma forma que o sal era empregado na conservação dos alimentos, sobretudo na época em que Jesus o utilizou como símbolo espiritual, os cristãos (refiro-me aos genuínos) possuem a prerrogativa moral de “conservar” a moral degenerada da Terra, ao menos até a consumação dos séculos.

Os discípulos da verdade cristã excedem a capacidade que outros mestres éticos (também elevados moralmente) têm de anunciar a inconformidade ao padrão do “bolsão” em que vivem. Excedem-na porque Platão, Sócrates, Buda ou Gandhi, etc. tatearam o padrão superior que ensinaram. Afirmaram verdades porque, como bem disse Agostinho Calvino e muitos outros, toda verdade é verdade de Deus. Não importa quem a proclame, muito menos a forma pela qual ela foi descoberta. Sendo verdade de Deus, ainda que predita em volumes morais de outras religiões, que não a cristã, ou em registros filosóficos diversos, será sempre a verdade. Quando, por exemplo, um crente e um ateu concordam sobre a existência de uma lei que controla a gravidade universal eles atestam uma verdade que independe da vontade de ambos. Isso porque a verdade implica numa declaração que se conforma à realidade. À luz da visão cristã a interpretação adequada da realidade não pode contradizer a verdade divina. (AQUINO, 2017) declarou:

Há, pois, três conhecimentos do homem referentes às coisas divinas: o primeiro, enquanto o homem mediante a luz natural da razão e pelas criaturas sobre até o conhecimento de Deus; o segundo, enquanto a verdade divina que excede o intelecto humano desce até nós pela revelação, não para ser vista como por demonstração, mas para ser crida como pronunciada por palavras; o terceiro, enquanto a mente humana é elevada à perfeita intuição das coisas reveladas.

            A respeito das formas de acesso do intelecto humano ao conhecimento de Deus vale abordar, ainda que de modo sucinto, alguns dos argumentos que dão à Escritura Sagrada (Judaico cristã) a autoridade para referendar ou negar a veracidade dos ensinamentos propagados por quaisquer mestres éticos – incluindo os do homem Jesus.  (GEISLER, 2005) assim os apresenta:

Afirmamos que existem provas claras que apóiam o cristianismo. O que faremos com elas? Desde meados de 1996, viajamos pelo país promovendo um seminário chamado “Os 12 pontos que mostram que o cristianismo é verdadeiro”. Nesse seminário, caminhamos de f!1aneira lógica, partindo da questão da verdade e prosseguindo rumo à conclusão de que a Bíblia é a Palavra de Deus. De modo geral, este livro vai seguir a mesma lógica, fazendo uma progressão em 12 pontos: 1. A verdade sobre a realidade pode ser conhecida. 2. O oposto de verdadeiro é falso. 3. É verdade que o Deus teísta existe. Isso é comprovado pelos seguintes aspectos: a.O início do Universo (argumento cosmológico); b. O planejamento do Universo (argumento teleológico/princípio antrópico); c. O planejamento da vida (argumento teleológico); d. A lei moral (argumento moral). 4. Se Deus existe, os milagres são possíveis. 5. Os milagres podem ser usados para confirmar uma mensagem de Deus (i.e., como atos de Deus para confirmar uma palavra de Deus). 6. O Novo Testamento é historicamente confiável. Isso é comprovado por: a. Testemunhos antigos; b. Relatos de testem unhas oculares; c. Testemunhos não inventados (autênticos); d. Testemunhas oculares que não foram enganadas. 7. O Novo Testamento diz que Jesus afirmava ser Deus. 8. A afirmação de Jesus quanto a ser Deus foi miraculosamente confirmada por: a. Cumprimento de muitas profecias sobre si mesmo; b. Sua vida sem pecado e seus feitos miraculosos; c. A predição e a concretização de sua ressurreição. 9. Portanto, Jesus é Deus. 10. Todos os ensinamentos de Jesus (que é Deus) são verdadeiros. 11. Jesus ensinou que a Bíblia é a Palavra de Deus. 12. Portanto, é verdade que a Bíblia é a Palavra de Deus (e qualquer coisa que se opõe a ela é falsa).

Por meio de um simples raciocínio é possível deduzir que verdades relativas não são capazes de medir a veracidade ou a falsidade de um ensino ou conceito em razão delas serem incapazes de se impor para outros, senão para quem as profere. A mera intenção de difundir uma verdade para todos os homens, ou mesmo para alguns, exige dela um fundamento absoluto. Quando uma verdade relativa afirma de modo categórico a sua natureza, caso essa afirmação deva ser aceita sem reservas por todos os seus destinatários, essa verdade relativa se torna absoluta. Assim, quando algum relativista propaga: “Não há verdade absoluta” ele, indiretamente, está impondo a sua premissa como uma verdade absoluta. Pois a premissa: “Não há verdade absoluta” deve ser absoluta para ter algum sentido. Bem, a maioria de nós tende a aceitar facilmente a objetividade de conceitos científicos, mas reluta quando alguma objetividade é atribuída a valores morais ou religiosos. Após ouvir a declaração de Jesus sobre o testemunho da verdade, Pilatos perguntou ao mestre: “O que é a verdade?” (João 19, 37-38). Em termos conceituais a verdade tem como designação o fato de poder se fundamentar na realidade, seja ela empírica ou filosófica.  

Sem querer me aprofundar nesse ponto, o fato de os grandes mestres éticos da humanidade terem compreendido e ensinado verdades, não significa que eles compreenderam e ensinaram a verdade em sua plenitude. Dentro de uma cosmovisão cristã (a proposta por Lewis), somente as verdades que não contradizem os ensinos de Jesus Cristo são verdades. Por quê? Pelo simples fato de Jesus Cristo ser a verdade em sua plenitude: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14,6).   Essa declaração ousada traz a resposta à pergunta de Pilatos e materializa o transcendente às dores humanas. No Cristo a verdade toma corpo. Ela sangra, chora, sente fome, frio. Ela perdoa aos inimigos e sente angústia diante da morte. Ela testemunha as virtudes superiores na encarnação do humano Deus que dá aos discípulos a capacidade de afirmarem: “O que era desde o princípio, o que temos ouvido o que temos visto com os nossos próprios olhos, o que contemplamos e as nossas mãos apalparam, dizem respeito ao Verbo da vida”. (1ª carta de João 1,1.). Verbo aqui no grego significa o que não veio a existir, no sentido de se referir ao ente co-eterno com o Pai, a segunda Pessoa da Trindade ou, melhor dito, Triunidade divina. Não desejo me aqui ater a pormenores teológicos, mas a verdade anunciada pelos discípulos do Cristo – que são o “Sal da Terra” e a “Luz do Mundo” – é a que melhor interpreta o padrão moral superior transmitido ao “bolsão” terreno idealizado por Lewis. Além de frear a completa degeneração moral do “bolsão” onde estão inseridos os discípulos encaminham a vida dos habitantes da sociedade inferior à sociedade superior, por meio de uma práxis virtuosa que materializa o padrão de um mundo superior invisível.

Para não encerrar um comentário de modo a deixar os leitores com dúvidas, entendo ser relevante me ater – ainda que de modo breve – à diferenciação entre a verdade anunciada pelos grandes mestres morais que a História humana conheceu, mesmo quando imersos em contextos morais deprimentes, e a verdade moral da doutrina cristã.

 Cabe aqui considerar a lei moral que se encontra impressa na mente dos homens, mesmo quando eles a tentam negar, a qual faz parte da revelação geral de Deus acessível aos homens, sejam crentes ou incrédulos. Darei a essa lei moral mais atenção quando resumir as considerações de Lewis a respeito na obra “Cristianismo Puro e Simples.” Bem, essa lei geral da moralidade imprime nas consciências a realidade de que valores como o altruísmo, a fidelidade e a misericórdia são admiráveis, ao passo que a realidade do egoísmo, ódio, infidelidade, etc. são sempre consideradas de modo negativo pela totalidade dos homens independentemente da cultura, costume ou contexto histórico em que estejam inseridos. Em linhas gerais, essa lei faz parte da revelação divina que pode ser alcançada pelo intelecto humano. Lembremos a citação de Tomás de Aquino que afirma ser possível à mente humana obter acesso a algumas verdades divinas. Dentre elas – segundo Aquino – encontram-se a verdade da existência de Deus e da criação do universo por Ele, bem como as verdades morais objetivas. É desse padrão revelado que os mestres éticos retiraram a noção de comportamento superior em relação à praticada nos “bolsões” em que viviam. Mas a respeito da revelação especial esses mestres não tiveram qualquer noção. Ao me referir à revelação especial eu me dirijo à Escritura Sagrada. Enquanto a revelação geral diz: “Existe um Criador”, a especial descreve quem é esse Criador. E enquanto a revelação geral transmite valores oriundos de uma realidade superior, a especial detalha (ainda que de modo incompleto) que realidade é essa e como os humanos podem trilhá-la. É nesse sentido que eu me reportei aos discípulos de Cristo como os que possuem uma mensagem superior a dos demais mestres éticos. Enquanto os primeiros ensinam e praticam as virtudes de uma realidade superior, de modo a levar seus ouvintes à origem absoluta do que vivem e ensinam, os últimos se limitam a anunciar as virtudes dessa realidade, mas sem conhecer nada a respeito da origem caminho ou destino para essa realidade maior.

Lewis aponta o erro dos homens que teimam em reduzir as virtudes morais à bondade. Ele afirma que Platão bem informou quando resumiu todas as virtudes morais em uma. Isso significa que, para ser bom, o homem precisa obter também as demais virtudes. Lewis entende que qualquer virtude isolada pode ser transformada num instrumento de crueldade. Para ele todas as virtudes devem ser controladas pela lei moral como um todo, pois nela se concentram todas as virtudes. Mas também informa que a santidade de Deus supera em muito a simples obrigação moral, pois Deus é mais do que a bondade moral, não menos. A lei moral existe para ser transcendida. Mas não pode ser transcendida, senão por aqueles que reconheçam francamente a incapacidade de praticá-la. Ele aponta as escolas de pensamento que, de modo errôneo, encorajam os homens a retirarem de seus ombros a responsabilidade do próprio comportamento em defesa da manutenção de necessidades naturais o que, indiretamente, atribui a responsabilidade ao Criador. Dessas escolas ele cita a evolucionista, que atribui à maldade o rótulo de herança inevitável legada de nossos ancestrais irracionais, e a escola idealista que relaciona a maldade à finitude humana. Lewis observa o risco dos homens se evadirem de suas responsabilidades morais pelo fato de não poderem praticar a lei moral divina. Na verdade esse tipo de fuga ocorre aos homens não arrependidos, pois os que se arrependem sabem de suas responsabilidades perante Deus e tentam ser obedientes à lei moral inscrita em seus corações, a despeito da consciência de suas incapacidades.

Sobre o sentimento de vergonha, oriundo do arrependimento, Lewis atribui a ele  um caráter intelectual, não emocional. Ao caráter intelectual ele se refere à percepção que esse tipo de vergonha gera por meio do arrependimento. Essa vergonha se relaciona à santidade, pois quanto mais santo é o homem mais ele entende a sua condição decaída e miserável. Mas Lewis não conecta essa percepção da vergonha arrependida à doutrina da depravação total, já que Lewis não acredita nela. Não acredita pelo fato de considerar elementos bons na natureza humana, através da experiência, e por entender que se todos os homens fossem totalmente depravados, nenhum deles seria capaz de saber que é totalmente depravado. Mas já que essa percepção de natural corrupção interior, após o arrependimento, não brota de uma depravação total, enquanto um estado natural humano após a queda, de onde ela brota? Lewis se propõe a dar uma resposta cristã a essa pergunta (resposta não calvinista) no capítulo seguinte.

            Referências:

LEWIS, C.S. O problema do sofrimento. A Maldade Humana. 1ª. ed. São Paulo: Editora Vida, 2006. pgs. 30-37.

AQUINO, Tomás de. Suma Contra os Gentios. 2ª ed. São Paulo: Eclesiae, 2017. Livro IV, p.691.

GEISLER, Norman; TUREK, Frank. Não Tenho Fé Suficiente Para Ser Ateu. São Paulo: Vida Nova, 2005. São Paulo, p.14.

Autor: Elicio Santos

Escrevo por prazer e leio por curiosidade. Sou graduado em Direito pela Universidade Estadual de Santa Cruz e aprovado no XXVI Exame de Ordem da OAB.Tenho alguns livros publicados de poesia e ficção. Escrevo para três sites conservadores. Amo ler e escrever sobre teologia, filosofia política e jurídica. Sirvo a Cristo na Igreja Presbiteriana do Brasil.

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