C. S. Lewis e a Maldade Humana. Resumo do capítulo 3 da obra “O Problema do Sofrimento.” (parte 1)

Lewis afirma que os exemplos dados no capítulo anterior tinham o objetivo de demonstrar que o amor pode permitir o sofrimento de seu objeto para que ele possa se alterado a fim de se tornar inteiramente digno de ser amado. Em seguida ele pergunta qual seria a causa dessa alteração necessária na natureza humana para que se torne um objeto digno de ser amado por Deus. Responde que o abuso do livre-arbítrio torna os homens maus. Mas compreende que essa resposta é bem conhecida e necessita de mais explicações para ser compreendida de um modo mais concreto pela mente humana. Em primeiro lugar ele responde que a necessária alteração na alma humana ocorre porque os homens têm se concentrado em duas virtudes: a bondade e a misericórdia e se esquecido das demais.

            Com relação à bondade Lewis observa que é fácil aos homens se sentirem “benevolentes” quando nada os aborrece e, em razão disso, se acham felizes e com o coração no lugar. Isso significa que os seres humanos “atropelam” seus vícios pelo simples fato de não praticar o mal contra o seu semelhante e se consideram “bons” por isso. Mas o mesmo não ocorre em relação às outras virtudes, pois os homens não se consideram castos humildes nem temperantes, pelo simples fato de não praticar o mal contra alguém. A segunda causa para a alteração na natureza humana por meio do sofrimento se dá pelo fato dos homens atribuírem um sentido nocivo à vergonha. Para Lewis a própria natureza humana ou a tradição, de quase toda a humanidade, compara a exposição dos pecados, dos vícios, como motivo de vergonha em termos deprimentes. Insistem que tais defeitos não devem ser considerados motivo de vergonha, mas associados à naturalidade. Lewis argumenta que, a não ser que o cristianismo seja completamente falso, os momentos de vergonha devem ser considerados os momentos de maior verdade. Ao tentar eliminar o sentimento de vergonha dos que se entregam a vícios e delitos, tenta-se na verdade eliminar uma das defesas do espírito humano. A “franqueza” dos que se acham sem-vergonha é a “franqueza” mais medíocre que existe, segundo Lewis.

            O sentido do pecado no cristianismo deve sempre ser priorizado. Apenas os homens que entendem a mensagem de Cristo a respeito da maldade da natureza humana conseguem compreender a mensagem cristã. Os que não sentem a própria maldade, no mais profundo da alma, não compreendem a mensagem cristã. Somente os que têm a consciência preliminar do pecado e por consequência do merecimento da ira divina, conseguem entender a bondade de Deus. Isso se dá, para Lewis, porque ao sentir a própria maldade a ira de Deus se torna inevitável e, por conseguinte, um corolário da bondade Dele. O fato é que não conseguimos dizer a verdade sobre nós mesmos nem expressar verdadeiramente o pior que há em nós.

            Lewis aponta o perigo de utilizarmos uma verdade contra nós mesmos. Ele se refere à culpa coletiva que, embora seja real, pode ser usada pelo inimigo para nos distrair da culpa individual que possuímos. Esse conceito da culpa do “sistema” ou corporativa é usado pela maioria como uma desculpa para se distrair do assunto real que é a própria corrupção individual. O tempo não lava pecados, mas sim o arrependimento pelo sangue de Cristo quando os homens adquirem a consciência da própria maldade e do preço pago pelos pecados que gera um senso de humildade. 

Lewis cogita a possibilidade dos nossos pecados não serem cancelados, pois todos eles aconteceram no tempo que se encontra sempre presente diante de Deus numa linha eterna multidimensional. Assim, nossos momentos pecaminosos podem permanecer eternamente públicos, mas na condição celeste eles não nos trarão vergonha, mas júbilo pelo fato da compaixão de Deus tê-los perdoado. Em sentido oposto, Lewis cogita que os perdidos terão vergonha de ter os seus erros tornados públicos eternamente perante o universo, por isso não terão a ousadia de ir ao céu que, para Lewis, será composto por alegrias inatas a um gosto adquirido (pelo fato de vislumbrarem sensações desconhecidas ao estado atual dos humanos). Gosto esse que os perdidos não poderão adquirir em razão de seu estilo de vida. Ainda que fosse dada a oportunidade aos perdidos de adentrarem o céu como morada eterna, eles não teriam a coragem para tanto nem sentiriam o prazer intrínseco a essa oportunidade. Mas Lewis admite que a possibilidade do não cancelamento dos pecados se resume a uma suposição por ele levantada.

Em sequência Lewis aborda o perigo de encontrar segurança nos “números”. Ou seja, pelo fato de todos os homens serem maus (como afirma o cristianismo) não significa que devemos qualificar a maldade como justificável. Ele usa uma analogia. Compara uma escola onde todos os alunos colaram na prova à outra onde noventa por centos dos alunos passaram nas mesmas provas sem colar. O que poderia parecer, aos professores, um recurso utilizado pelos alunos em razão da dificuldade das provas, torna-se um defeito moral dos alunos, quando a atitude dos que colaram é comparada aos que foram aprovados sem colar sendo submetidos à mesma avaliação. Lewis afirma que há bolsões na sociedade humana que podem ser escolas, faculdades, algum bairro ou uma cidade. Nesses bolsões os maus comportamentos são considerados naturais, enquanto os comportamentos virtuosos são considerados inviáveis e quixotescos (utópicos). Mas ao sair desse bolsão ou má sociedade seus moradores descobrem, para o horror deles, que o comportamento “natural” é o mais vil que nenhum homem em sã consciência deveria sequer sonhar em praticar e o comportamento “quixotesco” é o exigido aos homens que possuem um padrão mínimo de decência. Os comportamentos que pareciam ser desnecessários no bolsão se tornam os únicos momentos de sanidade vividos ali. Lewis nota a possibilidade da raça humana (insignificante perante o universo) ser uma espécie de bolsão local de maldade. O mínimo de decência entre os humanos é tido como virtude heróica, enquanto a total corrupção é perdoável. Mas há alguma prova de que a raça humana seja esse bolsão perante o universo fora da visão cristã? Lewis entende que sim e passa a exemplificar os motivos de pensar assim.

Em primeiro lugar, Lewis interpreta a raça humana como um bolsão local de maldade perante o universo, pelo fato de existirem pessoas que não se adéquam ao comportamento do bolsão e anunciam a preocupante verdade de que é possível praticar outra espécie de comportamento. Em segundo, essas pessoas concordam entre si como se tivessem contato com uma realidade moral superior que existe fora do bolsão. São elas, por exemplo, Zaratustra, Jeremias, Buda, Gandhi, Sócrates e o próprio Cristo que Lewis equipara aos outros professores éticos. Para Lewis o que diferencia o Cristo desses outros mestres não é o seu ensino ético, mas a sua Pessoa e ministério. A verdade da existência de um comportamento superior ao do bolsão é equiparada entre esses grandes mestres da humanidade, que concordam entre si, como se tendo o mesmo contato de uma realidade superior.

Em terceiro, há a aprovação teórica dessas virtudes. Ainda que não as pratiquemos devidamente, ninguém considera a justiça, a misericórdia, a fidelidade ou a temperança como desprezíveis. Apenas as consideramos de acordo ao contexto do bolsão e as praticamos conforme seja possível, à luz do contexto moral depravado em que vivemos. Lewis compara essas regras negligenciadas, ainda quem em uma escola de má qualidade, como regras ligadas a um mundo maior que, ao final do ano, pode nos defrontar perante a opinião pública desse mundo superior. Essa analogia, a meu ver, se refere à raça humana. O bolsão que, embora não despreze, negligencia os valores oriundos da lei moral superior que vem de Deus, ao final da vida terrena, terá a sua negligência confrontada aos valores morais superiores que, como ocorre aos alunos no final de período escolar, serão aprovados ou reprovados.

A “sociedade superior” a qual Lewis faz referência pode não existir para algumas pessoas e o próprio Lewis admite que nós não podemos alcançar essa “sociedade superior” pela experiência, pois não vemos anjos nem seres não decaídos em nosso mundo. Mas ele argumenta que podemos vislumbrá-la mesmo em nossa raça pelo fato de as sociedades, ao longo das eras e costumes, considerarem umas às outras como “bolsões”. Como exemplo, somos tentados a pensar que a sociedade ocidental pós-moderna é menos cruel do que a de nossos ancestrais da antiguidade. Lewis fez essa consideração se referindo à época dele e o mesmo acontece conosco. Enquanto uma sociedade se julga menos cruel do que a sua antecessora, a sucessora se pareceria mais mundana e covarde à anterior, caso esta ainda existisse e fizesse a mesma comparação. Entendo que Lewis se referiu ao julgamento moral dos povos no sentido de argumentar que assim como humanos de uma era vislumbram o “bolsão moral” existente no povo de outra geração seja em maior ou menor grau, perante Deus todos os homens são vistos como igualmente maus. Isso ocorre porque a “qualidade moral” de um povo é logo sobrepujada pelos seus defeitos e vice-versa. Faz-se relevante referir partes da citação comentada:

A sociedade maior com que contrasto aqui o “bolsão” pode não existir segundo algumas pessoas, e em qualquer caso não temos experiência quanto a ela. Não encontramos anjos ou raças não decaídas. Mas podemos ter algum vislumbre da verdade mesmo em nossa própria raça. As diferentes eras e costumes podem ser considerados como “bolsões” em relação umas às outras (…). Através da consideração de como a crueldade de nossos ancestrais se afigura a nós, você pode ter um vislumbre de como a nossa fraqueza, mundanismo e timidez teria parecido a eles e, portanto como ambos devemos parecer aos olhos de Deus (LEWIS, 2006, p. 35).

Referência:

LEWIS, C.S. O problema do sofrimento. A Maldade Humana. 1. edição. São Paulo: Editora Vida, 2006. pgs. 30-37.

Autor: Elicio Santos

Escrevo por prazer e leio por curiosidade. Sou graduado em Direito pela Universidade Estadual de Santa Cruz e advogado. Curso pós-graduação em Direito do Trabalho e Previdenciário. Tenho alguns livros publicados de poesia e ficção. Escrevo para três sites conservadores. Amo ler e escrever sobre teologia, filosofia política e jurídica. Sirvo a Cristo na Igreja Presbiteriana do Brasil.

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