C.S. Lewis. Sobre a bondade de Deus. Resumo do capítulo dois da obra “O problema do sofrimento.”

Lewis inicia esse capítulo argumentando sobre a existência de uma base moral para se obedecer e amar a Deus. Pois se o nosso conceito de bondade diferir completamente da bondade divina, não há qualquer fundamento moral impresso na expressão: “Deus é bom”, já que tal atributo é totalmente alheio ao entendimento humano. Além disso, o ideal cristão do arrependimento perde o seu sentido, já que Cristo e o Deus do Antigo Testamento censuram os homens pela compreensão que eles têm de justiça, retidão, fidelidade, perdão, etc. embora não pratiquem esses conceitos os homens os compreendem, ainda que de modo imperfeito. Nesse sentido a bondade humana e a divina se diferem, mas elas não se diferenciam no sentido da bondade humana significar como o “branco” e a divina como o “preto”. Lewis as compara de um modo interessante. Ele afirma que a bondade de Deus é como um círculo perfeito e a humana como o círculo desenhado na primeira tentativa por uma criança. Embora sejam diferentes, não se diferem totalmente. Assim, ainda que o ideal humano de bondade seja diferente e inferior ao da bondade divina, esse alvo dos homens espelha o “melhor” que a vontade divina expressa e exige. Logo, quando Deus estabelece uma inversão de senso moral aos que o obedecem, essa inversão será compreendida como melhor e superior, não como algo incognoscível à mente humana. Isso se dá pelo fato do padrão moral divino poder ser conhecido pelos homens, ainda que de modo imperfeito. Os homens que decidem obedecer a Deus aderem a padrões morais superiores, que podem assim ser compreendidos em razão da noção de padrão moral, ainda que inferior, estar impressa nas mentes humanas. Caso contrário, como dito, o chamado cristão ao arrependimento perderia completamente o seu sentido. Jesus disse: “Por que se recusam a ver o que é correto?” Lucas 12, 57.

Lewis difere a bondade do amor. Para ele a bondade é um elemento do amor, mas não o amor em si. A bondade, quando isolada dos demais elementos que compõem o amor, se reduz a uma busca pela felicidade em quaisquer termos. Isto é, a bondade em si deseja a felicidade de seu objeto no sentido de fazer de tudo para que ele não sofra, ainda que essa “felicidade” leve seu objeto a caminhos tortuosos. Lewis argumenta que, no fundo, todos nós gostaríamos de ser amados por Deus dessa forma, porque poderíamos viver como desejássemos e Deus sempre concordaria com as nossas escolhas. A bondade tende a sentir indiferença e desprezo de seu objeto. Como exemplo, Lewis cita os donos de animais que tiram a vida deles para não os verem sofrer. O amor é composto de bondade, mas também é rigoroso no sentido de ser exigente. Ele não deseja apenas que seu objeto seja feliz, mas que seja feliz para se tornar bom. O amor prefere ver seu objeto sofrer a trilhar caminhos inclinados ao mau. E mau para Deus não é exatamente o que consideramos ser mau. Ou seja, Deus nos ama no sentido de desejar a nossa felicidade e essa felicidade implica em trilhar os caminhos que Ele considera bons. Assim, para Deus o sofrimento que alcança os seus filhos é bom, pois os levará aos caminhos corretos. Deus repreende aos que ama. Ele censura, é exigente com os filhos legítimos. Aos demais, entrega-os à bondade indiferente que, embora pareça boa aos olhos humanos, levará o seu objeto a caminhos maus. Lewis exemplifica a diferença entre a bondade, em si mesma, e o amor. Enquanto desejamos a bondade indiferente para as pessoas distantes, desejamos o amor rígido para os nossos entes queridos. Preferimos vê-los sofrer a trilhar caminhos desviados. Mas, aos demais, desejamos simplesmente que sejam felizes nos termos deles. Pelo exposto, considera-se que o conceito humano de amor difere muito do divino.

Lewis argumenta que a relação entre o Criador e suas criaturas é superior a qualquer relação das criaturas umas com as outras, pois Deus está, ao mesmo tempo, mais distante e mais próximo de nós do que qualquer outro ser. Deus está mais distante de nós porque possui o fundamento de existência em Si mesmo, enquanto que a nós esse fundamento é transmitido. Ao mesmo tempo, a intimidade entre Deus e a menor de suas criaturas é maior do que qualquer outra que as criaturas possam alcançar umas com as outras.

Lewis observa que só se torna irreconciliável a existência de um Deus amoroso e a de um mundo sofrido, quando se dá ao amor um significado trivial que coloca o homem no centro de todas as coisas. O homem não é o centro de todas as coisas. Não é a causa da existência nem a causa de si próprio. Deus é a causa e o centro de todas as coisas. Ele é a razão que converge o homem para si mesmo através do sofrimento. A realidade do sofrimento não exclui o amor. O amor na verdade é o instrumento que converge o homem para o centro da vontade de Deus. A natureza de Deus não pode se reconciliar com as nódoas do caráter humano para que possa amá-lo completamente, por isso permite que os homens e as criaturas sofram a fim de aperfeiçoar a criação. Como dito, o verdadeiro amor implica no desejo de aperfeiçoar o ente amado. O que chamamos do aqui e agora de “felicidade” que, como dito, a bondade almeja de modo a combater por todos os meios o sofrimento de seu objeto, não é uma real felicidade. Seremos felizes somente quando Deus nos tornar capazes de ser amados por Ele sem impedimentos. E esse alvo implica a necessidade do sofrimento presente. Muitos objetam enquadrando o amor divino numa espécie de amor egoísta e possessivo, pois o amor deve pensar apenas na felicidade do ente amado. Mas Lewis considera que uma espécie de amor assim não deve ser levada a sério, pois uma amizade em que o amigo pensa apenas na “felicidade” do outro sem protestar contra os erros deste não é uma real amizade.

Para Lewis a antítese do amor altruísta versus o amor egoísta, ao ser aplicado ao amor que Deus tem por suas criaturas, ganha uma interpretação ambígua, pois Deus vive fora do mundo, logo, fora desse conflito de interesses dos seres que habitam o mesmo mundo. Deus não compete com as suas criaturas. Quando Deus se encarnou ele adentrou o mundo onde há as condições de altruísmo e egoísmo, mas foi completamente altruísta em decorrência de sua transcendência. Pelo fato de Deus ser a base incondicional de um mundo sujeito a condições, não se pode visualizar Deus como inserido nesse conflito de interesses entre egoístas e generosos. Além disso, chamamos um amor de egoísta quando quem ama satisfaz as próprias necessidades à custa das necessidades do ser amado, desconsiderando que este também possui necessidades e paixões. Ocorre que Deus não possui necessidades. O amor humano, conforme Platão ensina, é filho da Pobreza. Ele existe para suprir uma carência ou ausência. É causado por um bem real ou imaginário existente no ser amado. Esse bem é necessário e desejado pelo amante. Mas Deus não tem necessidades. Ele anseia e necessita de um povo que Ele deu tudo e que nada pode dar a Ele. Deus sente a ausência e deseja os seus filhos simplesmente porque escolheu. Nós satisfazemos a necessidade de Deus que é preenchida pelas qualidades que Ele mesmo criou e doou. Ou seja, Deus nos amou na criação e nos deu tudo que é necessário para que possamos amá-lo e esse amor satisfaz uma necessidade que Deus não tem, mas escolheu ter por razões que ele mesmo criou. Deus tem a necessidade de amar e ser amado pelo seu povo por um ato de livre vontade. Por essa mesma deliberação nos deu o que temos de bom que o agrada. Pois por nós mesmos não teríamos nada que o agradasse. Assim, Deus de nada necessita, mas escolheu ter necessidade de seres ínfimos aos quais Ele dá os atributos necessários para que sejam dignos de seu amor. Deus tem tudo e escolhe necessitar de nós, por isso devemos necessitar de quem de nós necessita. O amor a Deus consiste em submeter as nossas necessidades às Dele, pois somos criaturas. O paciente deve existir em função do agente. Assim como o espelho existe para a luz e o eco existe para a voz. Agir de modo diferente significa agir contra a gramática do ser.

Deus não possui o amor egoísta porque não tem necessidades naturais nem paixões. Caso possua algo que analogamente possa assim ser referido, o possui por vontade própria em função do ente amado: suas criaturas. O lugar para o qual Deus nos destina é o destino para o qual fomos feitos. Quando o alcançamos a nossa natureza é preenchida e, assim, alcançamos a felicidade. Desejar ser algo diferente do que Deus quer que sejamos é desejar algo que não nos trará a felicidade.

As exigências divinas que aos nossos ouvidos naturais soam como ordens despóticas, são exigências de quem ama que nos leva aonde deveríamos querer ir, se soubéssemos o que queremos. Deus exige a nossa obediência e reverência. Mas a nossa desobediência e irreverência não podem diminuir a glória Dele. Ele deseja a nossa adoração em razão do nosso bem porque o nosso bem consiste em amá-lo. Somos criaturas que dependem desse amor responsivo próprio dos seres derivados. Mas, além disso, Deus quer que sejamos participantes dos atributos divinos nos revestindo de Cristo. Deus quer que sejamos semelhantes a Ele. Quer queiramos quer não, Deus nos dá o que necessitamos não o que achamos que necessitamos. Deus dá o que Ele possui. Não o que Ele não possui. Ele dá a felicidade que existe, não a que não existe. A felicidade de Deus é a única que existe, pois ela o é em si mesma. É eterna. Não é derivada de nada nem está sujeita à finitude. Tudo mais não é de fato real porque deixará de existir e existe pelo fato de Deus ser o que É.

Ser Deus. Ser como Deus e partilhar da bondade Dele. Ser miserável. Essas são as únicas alternativas. Quem não deseja comer do único alimento que existe no universo, e nos universos possíveis, viverá eternamente faminto.

Referência:

LEWIS, C.S. O problema do sofrimento. 1ª edição. São Paulo: Editora Vida, 2006, p. 19-29.

Autor: Elicio Santos

Escrevo por prazer e leio por curiosidade. Sou graduado em Direito pela Universidade Estadual de Santa Cruz e aprovado no XXVI Exame de Ordem da OAB.Tenho alguns livros publicados de poesia e ficção. Escrevo para três sites conservadores. Amo ler e escrever sobre teologia, filosofia política e jurídica. Sirvo a Cristo na Igreja Presbiteriana do Brasil.

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