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Cada vez mais, temos visto invadir as redes sociais a propaganda de grupos de extrema-esquerda como o Antifa. Cada vez mais, parentes e amigos que antes eram apenas pessoas normais com ideias de esquerda estão “curtindo” a ideia de que socar nazistas está OK, é legal, etc. A premissa embutida neste raciocínio é a de que os nacional-socialistas são uma ameaça premente à democracia e à vida dos seus cidadãos, e que portanto a agressão física contra eles se justifica como legítima defesa. A outra premissa embutida, admitida pelos esquerdistas com muito menos frequência, é a de que a extrema-esquerda tem o direito de rotular de nazista quem ela bem entender, incluindo aí todo mundo de quem ela discorda. Ou seja, estendendo o raciocínio até as suas últimas consequências, está OK socar eleitores do Trump, apoiadores do Bolsonaro, católicos, evangélicos, ativistas pró-vida, ativistas anti-desarmamento civil, conservadores e liberais com gravata-borboleta. Ou seja, está OK agredir fisicamente todo mundo de quem eu discordo.

Antifa

Grupos extremistas como o “Antifa” se orgulham de exibir as armas com as quais praticam a violência política nas ruas. E o pior: justificam suas agressões com ideologia barata.

Não é preciso pensar muito para ver o quanto esta ideia, totalitária já na concepção, está errada: ela legitima o uso da violência política contra opositores em geral. Este tem sido o raciocínio padrão da esquerda marxista-leninista desde sempre, razão pela qual episódios históricos de politicídio fratricida são frequentes nos países onde estas ideias proliferam: Lenin terminou à bala o experimento anarquista de Nestor Makhno na Ucrânia, Stalin mandou executar trotskistas dentro e fora da URSS, social-democratas e comunistas se matavam pelo apoio proletário nas ruas da Berlim do entreguerras, Maduro persegue e assassina opositores da esquerda moderada venezuelana, e assim por diante.

Mesmo que justificássemos socar um nazista pelo passado do nazismo (Holocausto, campos de concentração, etc), isto não daria carta branca para que os anti-comunistas saíssem por aí socando comunistas? Afinal, se formos colocar na ponta do lápis, comunistas mataram tanto quanto os nazistas e cometeram atrocidades do mesmo nível (Holodomor, gulags, etc.). E qual é o próximo passo? Se podemos socar, porque não atropelar? Por que não dar uma paulada, uma facada, um tiro? Ou colocar uma bomba na porta da casa? Podemos ver onde isso chega.

Todo mundo acha bacana socar extremistas até começar a levar soco também. Foi assim que a violência escalou na Alemanha do entreguerras. Ao contrário do que muitos creem, durante a República de Weimar, os nacional-socialistas eram apenas um dos grupos a recorrer à violência política nas ruas e ao paramilitarismo. Além deles, os conservadores, os comunistas e até os social-democratas possuíam militantes dedicados a essas atividades. Só pra ficar em alguns exemplos além das nacional-socialistas, estas eram algumas das organizações paramilitares atuando na República de Weimar:

Roter Frontkämpferbund (comunistas)

Berlin 1927, Reichstreffen RFB, Thälmann, Leow

Líderes da Frente Vermelha, Thälmann e Leow marcham em Berlim, junho 1927. O modo de vestir e atuar não o diferencia em nada de outros grupos paramilitares atuantes na Rep. de Weimar. A RFB era o braço armado do Partido Comunista Alemão (KPD) tinha como objetivo instaurar um regime comunista aos moldes soviéticos.

 

Stahlhelm, Bund der Frontsoldaten (conservadores)

Wilhelm von Preußen beim Stahlhelmtreffen, 1933

Príncipe Guilherme da Prússia participa de um encontro dos “Elmos de Aço”, 1933. A Stahlhelm era formada por veteranos da Primeira Guerra Mundial e suas idéias eram consideradas “reacionárias” para a época, pois eram anti-republicanos e pretendiam a restauração da monarquia na Alemanha. Era o braço armado do Partido Popular Nacional Alemão (DNVP), um partido monarquista, nacionalista e conservador.

Reichsbanner Schwarz-Rot-Gold e Eiserne Front (social-democratas)

Brandenburg/Havel, Reichsbanner-Gautag

Eiserne_Front_12_Februar_1932

Tanto a Reichsbanner Schwarz-Rot-Gold como o Eiserne Front defendiam o status quo da República de Weimar, ou seja, a manutenção de um governo social-democrata de esquerda moderada e a rejeição tanto da monarquia aristocrática da era anterior como do republicanismo totalitário dos comunistas e nacional-socialistas. Acima, em foto de 1928, a RSRG, que era o braço armado da coalisão governista que agrupava o Partido Social-Democrata (SPD), o Partido Centrista Alemão (DZP) e o Partido Democrático Alemão (DDP). Abaixo, a “Frente de Ferro” que atuava como braço armado exclusivo do SPD. Nesta foto de 12 de fevereiro de 1932, vemos os seus membros marchando em Munique com o punho em riste, seu símbolo de luta.

Vale lembrar que os paramilitares do SPD (Partido Social-Democrata alemão) também se opunham à esquerda bolchevique (soviética, leninista, stalinista, etc) e resolviam suas diferenças na base da violência. Antes mesmo do surgimento destes grupos, os anarquistas já vinham exercendo a violência política há mais de 10 anos através da “ação direta” que incluía assaltos a banco, ataques a bomba e assassinatos políticos. Os nacional-socialistas foram apenas o grupo mais bem-sucedido no uso da violência política, pois conseguiram inculcar no povo uma hostilidade maior aos seus rivais e criar uma aparência de oficialidade ao aliar-se com os Freikorps.

Assumir o nacional-socialismo como uma exceção monstruosa em termos de violência política é uma ideia reconfortante e preguiçosa. Gostamos de pensar que somos todos o oposto disso e que jamais seremos iguais a eles ou faremos o que eles fizeram. Esta ideia é perigosa, porque impede as pessoas de entender e aceitar como a violência política realmente surge, e portanto as impede de preveni-la e combatê-la. Precisamos entender que, assim como o terrorismo, o paramilitarismo é uma ferramenta na mão de um grupo político e não o fim último das suas ideias. Assumir que um grupo opositor é incorrigivelmente mau e só se pode lidar com ele através do ataque “preventivo” já é o primeiro passo para legitimar o uso da violência política e contribuir precisamente com a proliferação do extremismo. A violência escala conforme os grupos políticos vão pondo à prova a eficácia do poder constituído em combatê-la: quando um grupo consegue colocar em prática a violência política sem sofrer punição ou contando com apoio encoberto da polícia, isso incentiva outros grupos a adotar as mesmas práticas. Primeiro, porque não temem uma punição; segundo, porque entendem que não estarão amparados pelo poder constituído caso sejam vítimas da violência de grupos rivais.

Neste momento, a extrema-esquerda assume (com razão) que os governos progressistas estão ao seu lado e que, enquanto a extrema-direita é perseguida e punida pelo poder constituído, as suas hostes permanecerão intactas pela leniência dos seus aliados na política mainstream. Mas, como a história nos ensina, esse cenário pode mudar radicalmente da noite para o dia. A escalada da violência pode levar ao surgimento de outros grupos, cada vez mais numerosos e violentos, que colocam o país à beira de uma guerra civil ou de um golpe. Já vimos esta situação ocorrer nos anos 60, sabemos onde ela nos levou, e não queremos ver a história se repetindo.

Todo ser humano tem o direito de expressar as suas ideias usando meios pacíficos e, embora comunistas e nazistas não devem ter direito a representação política partidária em uma democracia, devem poder protestar, publicar e argumentar. Nenhum uso da força fora do poder constituído se justifica se não for em legítima defesa. Todo e qualquer grupo político que recorra às armas e à violência para impor e propagar as suas idéias deve ser duramente reprimido pelo poder constituído, sem importar o seu matiz ideológico. Fora disso, nenhum cidadão tem o direito de agredir fisicamente a outro por causa das suas idéias. Portanto não, socar nazistas, comunistas ou o que seja, não está OK.

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