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Introdução

Este artigo terá como objetivo discorrer sobre como o problema da tradição foi relevante para a compreensão do contexto da atividade científica como também o foi para a  vida social e para a consolidação da democracia liberal.

Karl_Popper

No campo da política e da teoria social, os anti-racionalistas costumam aceitar a tradição como um dado e veem a inviabilidade de abordá-la por via de uma teoria racional (POPPER, 1982). Quanto à tradição, de acordo com esses teóricos, convém apenas compreender o que ela significa e aceitá-la. A postura dos irracionalistas, portanto, foi subjugar qualquer questionamento à mesma.

Em outro lado, o racionalismo apresenta uma hostilidade tradicional quanto ao tradicionalismo. Não se interessando pela tradição, os racionalistas preferiram emitir seus juízos com base em seus próprios méritos; procurando descobrir as vantagens e desvantagens de seus objetos de análise independente de qualquer tradição existente. Porém, diz Popper, eles assim procedem estando ligados, eles próprios, a uma tradição racionalista. Esse fato, por conseguinte, mostra que o problema da tradição não é de tamanha simplicidade.

Popper, seguindo um caminho diferente, apresenta uma diferenciação entre dois tipos fundamentais de atitude a respeito da tradição. O primeiro tipo consiste em sua aceitação acrítica, conforme já abordado. Essa aceitação dá-se muitas vezes até mesmo sem consciência do que a tradição vigente significa. O nosso autor diz que é possível que não consigamos escapar desse perigo, pois muitas vezes não percebemos quando estamos sendo tocados por uma tradição, e isso consiste em uma anuência acrítica.

O segundo tipo compreende um posicionamento crítico que pode acarretar em uma rejeição ou aceitação de uma tradição. O filósofo austríaco ressalta que reconhecer e compreender uma tradição são dois requisitos básicos antes de criticá-la. Ele, contudo, não acredita que possamos nos livrar completamente da influência de uma tradição. Liberar-se de uma é apenas assumir outra. Desse modo, podemos ser livres apenas em relação aos tabus que são impostos por ela. Libertamo-nos de um tabu, de acordo com o nosso autor, quando refletimos sobre ele e nos perguntamos se devemos aceitá-lo ou recusá-lo. Por isso, uma compreensão adequada da função e do significado das tradições apresenta-se como fundamental. Nessa postura crítica, encaixa-se a tradição científica, interesse especial de Popper.

Com isso, apesar de muitos racionalistas aceitarem a tradição racionalista acriticamente, há pontos dignos de contestação. Um deles é o observacionalismo, isto é, considerar a observação como matéria prima do nosso conhecimento. Esse posicionamento acabou por ser um obstáculo à compreensão do método científico; culminando em todo esforço popperiano para oferecer uma solução ao problema humeano da indução.

1. Tradição e método científico

Quanto à tradição científica, muito já se especulou, diz Popper. Alguns pensadores modernos, diz o filósofo, afirmam que os filósofos gregos, por volta do sexto ou quinto séculos antes de Cristo, foram os primeiros a compreender o que acontece na natureza; porém, de acordo com ele, essa explicação não é satisfatória. Vejamos as razões dessa colocação.

Popper informa que os primeiros filósofos gregos de fato tentaram compreender o que acontecia na natureza, porém, os primitivos, anteriores a eles, já tinham essa motivação. Como, então, diferenciar o padrão primitivo de explicação do padrão seguido pelos filósofos helênicos? Os primitivos ofereciam explicações mitológicas demasiadamente embasadas na tradição religiosa da época. Para esses antigos, os fenômenos naturais tinham como causa a fúria ou benevolência dos deuses enquanto os filósofos, por outro lado, ao invés de aceitar acriticamente a tradição religiosa, passaram a contestá-la inventando até mesmo um novo mito como substituto de um mito tradicional. Isso fez com que a tradição helênica apresentasse uma peculiaridade fulcral.

A tradição helênica e a sua busca da compreensão da natureza passou a constituir uma nova tradição, isto é, não apenas narra-se mitos, mas discute-os, questiona-os. Quando um desses filósofos contava um mito, ele se dispunha a ouvir o que os seus demais companheiros pensavam sobre, admitindo que era possível terem uma versão melhor que a sua. Assim procedendo, esses teóricos criavam escolas de pensamento que não tinham como objetivo preservar dogmaticamente as palavras de seus fundadores, mas atualizar com constância o debate crítico sobre as teses formuladas, tendo em vista o reconhecimento da falibilidade humana (PEREIRA, 1993). Temos já aqui um arquétipo da futura ciência de Galileu, sendo importante ressaltar a ideia de Cosmos; isto é, de acordo com essa tradição, não pode haver ciência se a natureza for um caos. Uma ordem natural passível de ser racionalizada é, portanto, fundamental. Assim sendo, a filosofia helênica inaugurou uma tradição de segunda ordem. Nas palavras de Popper:

Antes, só havia uma tradição de primeira ordem: uma estória era transmitida. Agora, continuava a haver naturalmente uma estória a ser transmitida, mas também com ela se comunicava também algo como um texto de acompanhamento: “Passo-te esta tradição, mas deves dizer-me o que pensas dela. Reflete: talvez possas dar-me uma explicação distinta”. Essa tradição de segunda ordem era a atitude crítica e analítica: algo novo, que é o fundamental da tradição científica (POPPER, 1982, p.153).

Esse panorama foi relevante para Popper criticar o observacionalismo, que acabou por muito atrair a tradição racionalista. Do ponto de vista do nosso autor, o desenvolvimento das teorias científicas não deveria ser visto como um resultado do acúmulo de observações; diferentemente, as observações são significativas para  o cientista testar as suas teorias e, se necessário, substituir por teorias melhores ou mais próximas da verdade. O filósofo austríaco denomina essa concepção de “teoria do refletor”, isto é, a ciência está sempre a oferecer novas perspectivas. Ela não só se beneficia com a observação, mas conduz a novas observações.

Logo, Popper reforça que ao procurarmos novas observações com o objetivo de testar a veracidade dos nossos mitos, não é de espantar descobrirmos que eles mudam de caráter e se tornam mais realistas ao se ajustar melhor aos fatos observados. Essa condição é que diferencia os mitos científicos dos mitos religiosos que eram fornecidos pelos primitivos. Porém, o nosso autor faz questão de ressaltar que os mitos científicos não são meros resultados de observações, mas o único papel que a observação tem sobre eles é auxiliar nos testes que conduzem a novos mitos, a novas teorias. Isso é o mais relevante para compreendermos a tradição científica.

2. Tradição, vida social e democracia

Ao analisar o papel da tradição na vida social, Popper planeja examinar brevemente  a função das ciências sociais teóricas. O filósofo austríaco logo ataca aquilo que tem sido uma compreensão errônea muito difundida sobre o papel dessas ciências e que tem levado o mesmo a um objetivo oposto, o que ele denomina de “teoria conspiratória da sociedade” (POPPER, 1982, p.150).

Essa “teoria” contém muito pouca verdade, de acordo com o filósofo. Ele diz que somente quando aqueles que a sustentam chegam ao poder, por possuírem uma trama conspiratória, é que ela passa a explicar as coisas conforme elas realmente acontecem. Porém, essas conspirações nunca se desenvolvem conforme essas pessoas desejam, uma vez que uma das características mais marcantes da vida social é que nada tem os resultados previstos de forma exata. Ao agirmos, temos em mente determinados objetivos que são atingíveis ou não e também existem as consequências inesperadas das nossas ações que, geralmente, não podem ser eliminadas. O papel da ciência social consiste em explicar esse último fato.

Logo, os problemas característicos das ciências sociais resultam do nosso desejo de conhecer as consequências não almejadas das nossas ações – especialmente as que desejamos evitar. De acordo com Popper, isso acontece ou por curiosidade científica ou porque gostaríamos de estar preparados para enfrentá-las. O papel dessas ciências, diferentemente, é analisar a existência e o funcionamento das instituições, tais como a polícia, as empresas, as universidades ou o governo, e das coletividades, tais como Estados, classes ou outros grupos. Os adeptos da teoria conspiratória acreditam que as instituições podem ser perfeitamente compreendidas como resultados de deliberação consciente das coletividades, atribuindo a elas uma “personalidade grupal” (POPPER, 1982, p.152).

De forma oposta, o cientista social deve reconhecer que a persistência das instituições e coletividades no meio social gera um problema que também será resolvido por via da análise das ações sociais dos indivíduos e seus efeitos sociais não pretendidos. A partir disso, Popper concebe que a função de uma teoria da tradição poderá ser vista de forma similar, pois raramente as pessoas deliberam criar uma tradição e por mais que deliberem é provável que não consigam criá-la. No lado oposto, pessoas que nunca sonharam em criar uma tradição podem fazê-lo sem jamais ter tal intenção. Esse é um dos problemas mais básicos da teoria da tradição, de acordo com o filósofo austríaco: saber como surgem as tradições e, mais, como elas se mantêm na qualidade de consequências possivelmente não deliberadas das nossas ações.

Com esse panorama, já avistamos a dimensão do papel desempenhado pela tradição na nossa vida social. Se o mundo não apresentasse um grande número de regularidades às quais nós podemos nos ajustar, viveríamos ansiosos, repletos de incertezas. A vida social exige tradições, sejam elas racionais ou não. Popper, assim, faz uma analogia entre a criação de tradições e a criação de teorias científicas: a função prática das teorias científicas é impor alguma ordem ao caos que vivenciamos enquanto a criação de tradições, as nossas leis são bons exemplos, tem a função prática de impor certa ordem e previsibilidade ao mundo social; sendo impossível agir racionalmente sem a ideia de como o mundo pode responder às nossas ações.

As tradições também têm a função de nos dar algo para criticar e alterar. Popper reprova aqueles reformistas sociais que acham que deveríamos construir um novo mundo sem nada aproveitar do antigo. De acordo com o filósofo, não há razão para crer que esse novo mundo seria um mundo feliz e será muito mais razoável aceitar o que temos e fazer as alterações possíveis, tendo certeza das dificuldades e dos defeitos que teremos que corrigir. Eliminar a tradição acarreta a eliminação das nossas ideias e planos para o futuro. Nas palavras do nosso autor:

Não há motivo para pensar que um mundo artificialmente planejado seria melhor do que o mundo que temos para viver. Por que razão seria melhor? Um engenheiro não cria um motor apenas com planos; ele o desenvolve a partir de modelos anteriores, que modifica constantemente. Se o mundo social que conhecemos desaparecesse, com suas tradições, substituído por um mundo novo artificialmente concebido, não tardaríamos a precisar reajustá-lo (POPPER, 1982, p.157).

Tendo isso em vista, poderíamos pensar, agora, sobre as consequências da opção de Popper pelo racionalismo crítico e a relevância da valorização do papel da tradição para a democracia liberal.

Conforme este artigo pode apontar, Popper distingue entre dois tipos de racionalismo, o crítico e o não crítico (PEREIRA, 1993). O racionalismo não crítico caracteriza-se pela recusa a tudo aquilo que não possa ser defendido por meio da argumentação ou da experiência. Para o filósofo austríaco, esse tipo de posição é inconsistente pois uma vez que toda argumentação se baseia em suposições, o próprio princípio do racionalismo não crítico não pode ser fundamentado sob pena de gerar uma regressão infinita. A grande diferença apresentada pelo racionalismo crítico é a confiança inescapável ou fé irracional na razão. Um trecho da Lógica da Investigação Científica, no qual o filósofo rebate a completa rejeição da metafísica por parte dos positivistas lógicos, ilustra essa posição:

[…] não se pode negar que juntamente com as ideias metafísicas que obstruíram o avanço da ciência existiram outras – tais como o atomismo especulativo – que a auxiliaram. E, olhando a questão sob o ângulo psicológico, estou inclinado a pensar que a investigação científica é impossível sem a fé em ideias que possuem uma índole puramente especulativa, algumas vezes até mesmo bastante nebulosa; uma fé que é completamente desnecessária do ponto de vista da ciência, e que, nessa medida, é “metafísica” (POPPER, 1975, p.273).

Essa opção moral pelo racionalismo com base na fé resulta não apenas na sustentação da atividade científica, conforme o trecho acima pode demonstrar, mas na construção de uma Sociedade Aberta (PEREIRA, 1993). Existe, assim, uma circularidade fundamental, pois sendo a decisão pelo racionalismo uma decisão moral, ela desde já está condicionada pela tradição na qual está inserida. Essa tradição não tem sustento em uma decisão racional por ser, como já vimos, mais uma consequência não deliberada da ação humana; e, sendo a história indeterminada, essa indeterminação apresenta como contrapartida a admissão da irracionalidade fundamental que está na base de todas as ações humanas. Essa irracionalidade de base, inclusive,  não deixa de ameaçar o projeto de uma Sociedade Aberta na medida em que é possível afirmar que a opção por essa não deixa de ser considerada tradicional. Apenas em um segundo momento quando a opção é feita, como uma questão de sorte, será possível argumentar em prol de sua legitimidade. Isto posto, a sorte que temos de dispor de uma tradição que torne concreta a liberdade é, portanto, imensa. Ela é um bom fruto do acaso histórico.

3. Conclusão: tradição e democracia como indissociáveis

Ao longo da discussão precedente, vimos que o problema da tradição, tal como Popper nos apresenta, é um problema indissociável em relação aos empreendimentos humanos, sejam eles científicos, políticos ou sociais. Tradições podem surgir sem que tenhamos a intenção de criá-las e constantemente os nossos comportamentos pautam-se em tradições já fixadas há tempo. O problema da tradição, além disso, traz à luz o desenvolvimento da ciência moderna, quando houve, na tentativa de explicar a natureza, o avanço da aceitabilidade acrítica dos mitos religiosos à discussão e constante revisão dos mitos oferecidos pelos filósofos helênicos.

Esse panorama nos leva a entender que a democracia é um regime de gradativo aperfeiçoamento e inerente à tradição. Ela não é um artigo de exportação ou mesmo de precoce implantação; não sendo um objeto de uso pleno e imediato (POPPER, 1981). Não conseguiríamos trazer estabilidade democrática à Venezuela ou à Coreia do Norte em uma semana ou em um mês. Ela se dá não apenas com meros discursos de conscientização sobre a importância da liberdade, mas com o aperfeiçoamento das instituições, fundadas na tradição, e direcionamento delas a seu devido papel social.  Em uma entrevista ao jornal austríaco Die Presse, Popper afirma:

[…] quando escrevi a “Sociedade Aberta”, deixei claro que democracia não é artigo de exportação. Eu sempre considerei as tentativas de exportar democracia com grandes restrições. Estas tentativas foram feitas. Mas não era de se esperar que tivessem sucesso. A democracia baseia-se essencialmente em uma tradição, e sem tradição a democracia conduz à ditadura (POPPER, 1981, p.55).

Em um contexto como o atual, de pluralismo lógico, muito tem se discutido sobre a normatividade da razão e a opção por uma postura pragmática muito tem sido assumida. A validação das ações e a verdade das teorias são dadas de acordo com suas utilidades dentro de um momento específico, engendrando uma visão de que a busca por instrumentos poderosos, que tragam favorecimentos ao sujeito em uma dada situação, é mais interessante do que a própria busca da verdade. Podemos, então, aqui, distinguir entre busca do conhecimento e busca do poder (POPPER, 1982). Podemos muito bem na busca do poder dispor de teorias que sabemos ser falsas, mas, na busca do conhecimento, encontrar teorias que estejam mais perto da verdade, revisando nossas conjecturas quando necessário, a meu ver, é o que está por trás tanto do método científico quanto da democracia liberal enquanto instâncias de profuso debate racional. 

Referências

PEREIRA, Julio Cesar R. Epistemologia e Liberalismo. Uma Introdução à Filosofia de Karl R. Popper. Porto Alegre: EDIPUCRS, 1993.

POPPER, K.R. A Lógica da Investigação Científica. In: Popper, Schlick e Carnap. Tradução de Pablo Rubén Mariconda. Coleção Os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1975.

POPPER, K.R. Conjecturas e Refutações. Tradução de Sérgio Bath. Brasília: Editora da Universidade de Brasília, 1982.

POPPER, K.R. O racionalismo crítico na política. Tradução de Maria da Conceição Côrte-Real. Brasília: Editora da Universidade de Brasília, 1981.

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