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Por David Hines, publicado originalmente na revista Jacobite. Traduzido, resumido e adaptado para o português por Renan Felipe dos Santos. Para ler o artigo original em inglês, clique aqui.


Se há uma coisa na qual os direitistas acreditam, é que eles podem ganhar dos esquerdistas em uma briga.

PSTU

Só nesta foto você está vendo a coordenação de protestos de um partido político, dois sindicatos e uma associação de estudantes. Qual foi a última vez que você viu algo assim na direita?

Esta atitude se reflete a com tanta frequência que provavelmente já está arraigada na mente da direita. Virjões otakus morando na garagem dos pais contra a máquina mortífera da estratégia? Pfff, eles não tem a menor chance. Vejam, os direitistas tem as armas, a polícia e o exército do seu lado. Se algum dia a chapa esquentar, os direitistas simplesmente se organizarão por trás de uma liderança militar, coordenarão suas ações com os militares da ativa, atirarão todos os esquerdistas de helicópteros e viverão felizes para sempre, correto?

Era isso aí que os russos pensavam dos bolcheviques, e olha só no que deu.

Do ponto de vista de um direitista ordinário a favor do direito de ter e portar armas, esta atitude conformista é bastante familiar. É a mesma atitude daquele cara que compra uma arma “só para garantir” mas nunca vai ao estande de tiro praticar e só descobre que não sabe a diferença entre a trava de segurança e o retém do carregador quando alguém arromba sua casa às três da manhã. Organização exige tempo, comunicação, networking e, acima de tudo, prática, e são pouquíssimos os direitistas interessados em assumir todo este trabalho necessário.

Em parte isso se deve à desilusão. A determinação de certos sedizentes políticos de direita em negar aos seus eleitores o que eles pedem motivou, como era de se esperar, um número cada vez maior de direitistas (sobretudo neo-reacionários) a se voltar à pós-política. Assim, a direita não consegue alcançar seus objetivos por meio da participação no sistema político; o que a direita precisa é de uma restauração: demitir e reconstruir o governo de uma tacada só. A idéia é construir estruturas de direita antes de que a realidade da seleção natural se livre das formas ineficientes (a esquerda) somente quando estas já não consigam se propagar. A entropia ocorrerá e, talvez, haja uma hora da verdade.

Claro que isto não acontecerá necessariamente. A violência política não é divertida para toda a família: demora, é feia, todo mundo sofre. Quando tem uma Grande Causa ninguém pensa que talvez, apenas talvez, a sua Grande Causa não vencerá. E aí, o que fazer? “Pior do que está não fica” é o tipo de coisa que golpistas turcos dizem antes do seu fracasso retumbante e de sua entrada para as listas de expurgo. Quando falamos de violência política, todo mundo se imagina pilotando o helicóptero; ninguém se imagina como o cara desesperado pendurado nos esquis de pouso.

Há uma caricatura famoso de Sidney Harris que mostra alguns pesquisadores em frente a um quadro-negro onde está uma série de equações matemáticas complicadíssimas. No meio do quadro está a frase “aí um milagre acontece”. Na legenda da caricatura, o diálogo de um pesquisador para o outro: “Acho que você deveria ser mais específico aqui no segundo passo.”

THEN A MIRACLE OCCURS

“Aí um milagre acontece” é uma tentação fantasiosa da direita de longa data. Você a vê em todo lugar: no influente A Revolta de Atlas de Ayn Rand, assim que um cientista solitário se muda para Galt’s Gulch (uma espécie de éden tecnológico e objetivista) e se livra dos parasitas sociais, ele literalmente cura o câncer. Sendo direto: “Aí um milagre acontece” equivale a “Não tenho que mudar ou fazer qualquer esforço. Algum dia eu serei grande e as pessoas gostarão de mim como eu sou.” Como os direitistas já sabem, isto é algo que só pessoas preguiçosas e desajustadas dizem.

A capacidade de organização necessária para construir um novo mundo é a mesma capacidade de organização que os esquerdistas têm para pressionar o governo. Então, quem você acha que está em melhores condições de dar forma à “hora da verdade” quando ela chegar? Diabos, se a civilização fosse para as cucunhas amanhã e estivéssemos no cenário do Mad Max, quem teria à sua disposição as comunidades locais com quem trabalhar e se comunicar regularmente? A resposta para ambas as perguntas é: a direita é que não.

Os conformistas afirmam que o ativismo não leva a nada. Mas ele leva a algo: à prática. Prática em networking, prática em participação, prática em velocidade, prática em trabalho de equipe. Qualquer um que tenha tentado alguma vez organizar um juntar para cinco pessoas sabe que é difícil, mas veja os protestos que a esquerda consegue organizar contra as reformas trabalhista e previdenciária em um piscar de olhos. Esqueça um plano detalhado e específico: digamos que o caos se deflagrasse de uma hora para outra. Nos primeiros cinco minutos você saberia quem chamar? Não as forças armadas que você sonha que salvarão o país, não um homem forte imaginário, você. Saberia?

Os esquerdistas saberiam. E é por isso que os direitistas que afirmam que a direita não tem nada a aprender com a esquerda estão errados. É por isso que direitistas não leem livros esquerdistas. Eu leio livros e manuais de organização dos esquerdistas e posso garantir para você: eles são espertos.

De fato, os direitistas enfrentam dois desafios principais: organizar coisas e entender os pontos fortes e fracos e as táticas da sua oposição esquerdista. Pode que direitistas não façam as mesmas coisas que a esquerda, ou não as façam da mesma maneira, mas isto não significa que não podemos aprender algo com eles.

A primeira coisa que os direitistas precisam entender sobre os esquerdistas é que eles têm muito mais prática construindo suas próprias instituições e assumindo o controle das já existentes do que a direita, e eles compartilham a sua experiência prática entre eles.

Direitistas que gostam de construir igrejas construirão uma igreja e rezarão nela. Esquerdistas que gostam de construir igrejas construirão uma igreja, escreverão um livro ensinando a construir igrejas, sairão convencendo as pessoas que construir igrejas é o certo a se fazer, ministrarão seminários sobre como financiar, construir e registrar igrejas, e então se oferecerão como palestrantes nas igrejas para pregar seu esquerdismo.

Os direitistas precisam melhorar a maneira como ensinam uns aos outros. E não só aqueles próximos a eles. Os grupos mais organizados na direita são os pró-vida e os armamentistas americanos; todos os demais direitistas deveriam estar aprendendo com eles.

A segunda coisa a entender sobre os esquerdistas é como eles realmente operam. Eles agem de maneira independente. Os direitistas gostam de hierarquia, tanto que eles acham que os esquerdistas protestam sob ordens do George Soros ou outro vilão dentro de uma hierarquia diabólica. Não é o caso. Muitas organizações de esquerda são bastante descentralizadas, e elas negociam com outros grupos de esquerda sobre como agir sem que uma prejudique o trabalho da outra, de modo que o protesto dos sindicalistas não é perturbado por black-blocs (leia por exemplo Direct Action, uma excelente história da esquerda dos anos 60 em diante, escrita por L.A. Kauffman).

Os esquerdistas chamam isso de “abraçar a diversidade de táticas”, o que levado à sua culminação lógica é apenas uma maneira verborrágica de dizer que a esquerda mainstream se conforma com a violência da esquerda radical. As pessoas não gostam de falar disso. Mas enquanto é impossível imaginar alguém que plantou uma bomba numa clínica de abortos recebendo um cargo bem remunerado em uma universidade de ponta, isto é exatamente o que aconteceu com diversos terroristas de extrema-esquerda da década de 70. Enquanto estavam foragidos, eles eram financiados e apoiados operacionalmente por advogados de esquerda. Passados os anos de chumbo, eles viraram professores de universidade, jornalistas, políticos, etc. Um terrorista de direita passaria os restos dos seus dias se escondendo no mato e comendo lixo. O custo de oportunidade para um extremista de direita em potencial é muito maior do que o de um extremista de esquerda.

Sabe porque a extrema-esquerda e seus grupos terroristas continuam existindo até hoje? Por que têm o apoio da esquerda “moderada” no poder.

Os direitistas acusam os esquerdistas de colocar protestantes pagos quando eles conseguem reunir muita gente para suas marchas. Errado, não é assim que funciona. Pense nos protestos da esquerda como um show de música eletrônica. Muita gente foi paga para o show de música eletrônica: os DJs, os auxiliares, etc. Mas os fãs que foram ao show não foram pagos: eles não são DJs nem trabalham na organização do evento. Eles estão lá porque curtem a música.

Os esquerdistas não são excelentes em armar protestos porque pagam gente para protestar, mas porque eles profissionalizaram a atividade de organizar protestos, como você descobrirá se ler algum dos seus livros. Os protestantes não são pagos; os organizadores são. As pessoas que treinam os organizadores também são. É como se uma marcha ou protesto esquerdista funcionasse como a organização de um show.

Os esquerdistas combinam infraestrutura centralizada com descentralizada, porque possuem diferentes tipos de grupos. Alguns grupos usam a organização centralizada: eles montam quiosques, recrutam pessoas, tentam crescer. Outros grupos, particularmente os anarquistas, favorecem uma abordagem descentralizada, onde as ações se desenvolvem por meio das ações colaborativas de diversos grupos pequenos conhecidos como grupos de afinidade.

Os grupos de afinidade começaram na Espanha: os anarquistas espanhóis se organizavam em pequenos grupos de amigos próximos que se conheciam muito bem. Estes grupos pequenos são difíceis de infiltrar e, mesmo que sejam infiltrados, a exposição de um grupo não compromete toda a organização.

As esquerdas americana e brasileira começaram a usar os grupos de afinidade no final dos anos 60. Começaram como um meio de organizar protesto e se tornaram um meio de organizar movimentos. Para coordenar, eles enviam membros daqui para lá e de lá para cá em assembléias. A idéia é criar uma discussão bem colaborativa. E assim o movimento vai se disseminando, porque os esquerdistas em diversos momentos conversam entre eles e se reúnem o tempo todo.

Pelo contrário, as organizações de direita sempre foram organizadas de maneira lenta. Quando se organizam, os ativistas de direita tendem a ficar só no seu quadrado e não colaboram, não se comunicam, os seguidores dos movimentos não se apoiam mutuamente. Pense na salada de frutas que são as placas de um típico protesto esquerdista e depois tente lembrar qual foi a última vez que você viu, digamos, uma placa pró-vida em um protesto armamentista e vice-versa. Quando resolvem partir para a ativa, os direitistas escrevem em um blog, publicam um vídeo no YouTube ou publicam um artigo em uma revista. Só querem saber de pregar e não saem às ruas.

Os esquerdistas trabalham no mundo real. Adivinha quem ganha?

Os enfrentamentos entre direitistas e esquerdistas nos protestos dos últimos demonstram que a direita tem potencial de se engajar nas ruas, mas a experiência ensinou os esquerdistas que a mentalidade monolítica é uma ótima maneira de permitir que o seu oponente aprenda a combater você. Se os direitistas querem construir algo, precisam ver como os esquerdistas estão fazendo, porque eles já estão construindo há quarenta anos. Parafraseando Trotsky, você pode até não se interessar pela política, mas a política se interessa por você – e você pode aprender muito daqueles que têm usado a política em vantagem própria.

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