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Uma coisa que sempre me deixou estupefato nos meus compatriotas é a sua crença em algo que eles chamam de “sistema”. É uma espécie de ser metafísico, intangível e invisível, que parece agir em nosso favor se fizermos os sacrifícios corretos e cumprirmos com os ritos estabelecidos, de quatro em quatro anos. A esperança na onipotência e onibenevolência do sistema oscila conforme a situação política, as vezes aumentando e as vezes diminuindo, mas parece não ter qualquer conexão com a vida real dos brasileiros, dado o fato de que nenhuma das esperanças depositadas na divindade jamais se cumprem. A sede do culto fica em Brasília.

Epiteto-senhor de si mesmo

Em uma conversa que tive com uma familiar, por exemplo, perguntei-lhe porque não considerava retirar a filha da escola e educá-la em casa, considerando que a qualidade do ensino na escola pública era péssima e se somava a outros problemas que punham até a vida da filha em risco, como o narcotráfico que opera na vizinhança. A resposta dela foi algo do tipo “porque isso não resolve o problema, temos que mudar o sistema”. É triste, mas é o tipo de resposta que nos revela um aspecto negativo da cultura brasileira. Um aspecto que nos impede de resolver nossos problemas mais imediatos, porque priorizamos não-problemas de importância supostamente superior. Afinal, do que adianta saldar a conta com o Zé do bar da esquina se a dívida externa nacional ainda não foi paga, não é mesmo?

Como a falácia do Nirvana, esta forma de pensamento é um modo de escapismo: porque eu não posso fazer muito, então não farei nada. E assim vamos nos escusando de pagar nossas dívidas, dar a nossos filhos uma boa educação, precavernos contra uma tragédia, progredir na vida e não estar reclamando o tempo todo. Em suma, abrimos mão do controle sobre nossas vidas. Quer alguns exemplos práticos? Quando você atravessa a rua sem olhar para os lados ou sem atentar para o semáforo, você está literalmente colocando na mão de algum motorista a decisão sobre a sua vida continuar ou não. Quando você não compra de maneira consciente e programada nem controla suas finanças, você está permitindo que vendedores e publicitários decidam o que você compra e quanto dinheiro você gasta. Quando você não educa os seus filhos, está deixando que eles aprendam do que vêem na escola, na rua e na internet. Quando você usa uma droga alteradora da consciência, você está abrindo mão de todas as decisões que tomará sob os efeitos dela. E assim por diante.

Esta “terceirização” da vida já é desastrosa para uma pessoa. Imagine quando milhões de pessoas decidem fazer o mesmo. O resultado é uma nação miserável, tanto no aspecto econômico como no aspecto moral, pois os indivíduos que a compõem postergam infinitamente as decisões que deveriam tomar, esperando uma intervenção externa e superior do “sistema”. As pessoas reclamam que não há emprego, mas não dedicam o seu tempo para trabalhar em um pequeno empreendimento próprio. Reclamam que a escola pública é péssima e que a privada é cara, mas jamais consideram a possibilidade de recorrer a um modelo alternativo de educação. A passagem do ônibus está muito cara, mas andar de bicicleta? Jamais! A comida industrializada é uma porcaria, mas plantar ou comprar produtos ôrganicos direto do produtor dá uma preguiça. A polícia é disfuncional e a criminalidade só aumenta, mas adquirir e aprender a usar uma arma é coisa de gente violenta, incivilizada. Resumindo, as pessoas se aferraram à idéia vã de que “é o sistema que tem que mudar”. E para que o sistema mude precisamos votar em tal ou qual presidente, senador, deputado, governador, prefeito, e esperar que esta classe iluminada crie as leis que farão tudo melhor. Mais uma vez, delegamos as decisões sobre o nosso futuro e as nossas vidas aos outros, os mais desinteressados entre nós, os políticos.

Em que momento passamos a acreditar que são os políticos os que devem decidir sobre que transporte usamos, que alimentos consumimos ou como nossos filhos devem ser educados? No momento em que abrimos mão da nossa dignidade humana, porque a escravidão é a negação da dignidade humana. Somos todos escravos, não porque tenhamos senhores, mas porque não somos senhores de nós mesmos. Não basta que um homem esteja livre da imposição de outro para ser livre. Só é livre o homem que impõe deveres a si mesmo, que é mestre de si mesmo. Aquele que não o faz, reage à vida como o gado, sendo controlado pela vontade alheia, pelas circunstâncias externas, do ambiente, ou internas, dos instintos. Como brasileiros, pensamos que podemos usar como desculpa para os nossos fracassos o nosso cenário político-econômico corrupto e deficiente, mas na verdade a própria cultura que temos de fugir das nossas responsabilidades e colocar tudo sob controle do “sistema” é o que nos tem arruinados.

Não é o sistema que tem que mudar. A sua responsabilidade não é com o sistema: tome as rédeas da sua vida.

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