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Por Joaquina Pires-O’Brien, editora da revista eletrônica PortVitoria de atualidades, cultura e política ibérica. O presente artigo foi extraído do seu livro O homem razoável e outros ensaios, disponível na loja da  Amazon.

Friedrich von Hayek (1889-1992) at the end of the 30's . Economist and principal theoretician of the new Liberal Thought from the 70's

Tanto na sua obra quanto na sua vida, Friedrich Hayek (1899-1992) mostrou o que é a liberdade. Em ambas, Hayek defendeu a liberdade contra os que não se importavam em trocá-la por coisas que ele percebia como sendo secundárias. Hayek nasceu e cresceu em Viena, Áustria, numa família católica e repleta de intelectuais. O seu pai e o avô eram ambos biólogos e botânicos, e, através deles, capturou a essência da teoria evolutiva de Charles Darwin. Como se isso não bastasse, ele era primo do filósofo Ludwig Wittgenstein. É natural que Hayek tenha se beneficiado da riqueza intelectual tanto de sua família quanto da sociedade vienense. Após ter lutado na Primeira Guerra Mundial, Hayek completou dois cursos universitários na Universidade de Viena, um em direito e outro em economia. Doutorou-se em economia nessa mesma universidade, sob a orientação de Ludwig von Mises (1881-1973), um especialista em ciclos econômicos e um dos últimos membros do grupo original da ‘escola de economia austríaca’, a qual exerceu influência mundial nas últimas décadas do século XIX e nas primeiras décadas do século XX.

Quando Hayek veio para Londres em 1931, para lecionar na London School of Economics, ele notou na Grã-Bretanha a crescente popularidade do socialismo e um descaso pelos tradicionais valores de liberdade. Hayek sabia que outras nações que enredaram por esse caminho encontraram o totalitarismo[1] e julgou-se na obrigação de alertar o povo britânico. O motivo desse descaminho na Grã-Bretanha era o mesmo em toda a Europa: a depressão econômica resultante do Black Friday da Wall Street, em Nova Iorque, em novembro de 1929.

O Black Friday de 1929 fez com que a maioria dos intelectuais, de dentro e de fora da academia, julgasse que o sistema econômico do capitalismo havia chegado ao fim da linha. Hayek enxergou o caráter cíclico do Black Friday e da depressão resultante do mesmo. Dono de uma longa visão, Hayek logo reconheceu que as perplexidades da época – a depressão econômica da década de 30 – requeriam tempo de reflexão.

Na década de 30, o ditame ‘publicar ou perecer’ (publish or perish) já vigorava no meio acadêmico de primeira ordem. Entretanto, o fato de a maioria dos acadêmicos estar enamorada do socialismo – fato evidenciado pelo enorme crescimento do número de periódicos acadêmicos de esquerda – podia constituir uma barreira para que artigos com ideias dissonantes fossem publicados. Hayek já havia publicado um livro e diversos artigos em alemão, mas, agora que vivia na Inglaterra, precisava publicar em inglês. Havia, na época, dois periódicos de prestígio considerados liberais. O primeiro era The Fourthnightly Review[2], revista quinzenal, fundada, em 1865, pelo escritor Anthony Trollope, com o objetivo de contrabalançar o partidarismo do jornalismo da época. O segundo era Contemporary Review, revista mensal, fundada, em 1866, por Alexander Strahan, com o objetivo de promover opinião independente e inteligente sobre os grandes temas do dia. Em abril de 1938, Hayek publicou em Contemporary Review o ensaio Freedom and the economic system (Liberdade e o sistema econômico), alertando o público britânico sobre a ameaça do socialismo à liberdade que até então era presumida como garantida. Hayek desenvolveu as ideias desse ensaio, e o resultado foi o seu livro O caminho da servidão (The road to serfdom), publicado em 1944.

Em O caminho da servidão, Hayek examina os argumentos a favor do socialismo e conclui que a sua única coisa positiva é a distribuição de riqueza mais equitativa causada pela abolição das diferenças de renda que são vistas na sociedade capitalista. Entretanto, ele apontou como desvantagem o custo de tal sistema em termos de liberdade pessoal, o qual é raramente mencionado. Para Hayek, o planejamento econômico e a manipulação da economia, ao invés da alternativa de deixá-la sob as forças da competição, são os aspectos mais perniciosos do socialismo. A seu ver, “dirigir todas as nossas atividades conforme um único plano pressupõe que cada uma das nossas necessidades recebe um ranque e uma ordem de valores que devem ser suficientemente completos para que seja possível decidir entre todos os diferentes cursos de ação dentre os quais o planejador precisa escolher. Em suma, pressupõe a existência de um código de ética completo dentro do qual cada um dos diferentes valores humanos é alocado no seu devido lugar.”

O caminho da servidão de Hayek critica não apenas o socialismo e os governos totalitários, mas também a democracia. Mostra como democracia costuma ser mal compreendida: “Muitos pensam que é um fim em si própria, mas é um meio para algo muito mais elevado que é a liberdade”. Mostra as variedades de governos democráticos e explica por que esses também precisam ter parâmetros limitadores do poder; também explica por que a democracia não implica necessariamente na liberdade individual. Finalmente, ele mostra a má compreensão dos sistemas econômicos do capitalismo e do socialismo:

A opção aberta a nós não é entre um sistema em que todo ganharão aquilo que merecem de acordo com algum padrão universal de direito, e outro onde as alocações a cada indivíduo são determinadas em parte por acidente ou por uma sorte boa ou má, mas entre um sistema onde as alocações são a vontade de um punhado de pessoas que decide quem recebe o quê, e outro no qual depende pelo menos em parte da capacidade e da iniciativa das pessoas envolvidas e em parte de circunstâncias não previsíveis.

Os liberais do século XVIII foram os primeiros a defender a ideia de que o livre mercado era superior ao mercado centralmente controlado. Em O caminho da servidão, Hayek reapresenta essa tese junto com uma ideia dele próprio, mostrando que as tentativas de exercer um controle central da economia levam à perda da liberdade individual, ou seja, ao totalitarismo. A ideia do livre mercado de Hayek e dos liberais do século XVIII não significa que os governos não possam intervir na economia; significa apenas que o nível de interferência governamental na economia deve ser mínimo.

O livro O caminho da servidão deixou transparecer o vastíssimo conhecimento de Hayek no campo da filosofia, disciplina pela qual ele se interessou desde jovem, inspirado pelo filósofo e fisicista Ernst Mach (1938-1916), conhecido pela sua influência junto ao Círculo de Viena, bem como pelo seu papel em ligar o hiato que então existia entre a ciência e a filosofia. É indubitável que esse livro tenha sido um fator importante na mudança acadêmica de Hayek, quando este deixou o campo da teoria econômica e passou para o campo da filosofia política[3], no qual permaneceu até o resto da vida.

Um ano depois da publicação de O caminho, a Segunda Guerra Mundial terminou, criando a conjuntura necessária para a volta do crescimento econômico que culminaria na ‘década dourada’ dos anos 50. O sistema econômico do capitalismo não havia chegado ao final da linha conforme tantos julgaram. A perspicácia de Hayek foi reconhecida, e O caminho da servidão fez um enorme sucesso nos Estados Unidos, para onde Hayek mudou-se em 1950, após ter sido convidado a lecionar na Universidade de Chicago.

Na Universidade de Chicago, Hayek foi apontado professor da Comissão do Pensamento Social (Committee on Social Thought). Consta na sua biografia que ele não entrou para o Departamento de Economia, porque foi barrado por um dos seus membros, devido à sua maneira de pensar consoante com a ‘escola de economia austríaca’. Em 1960, Hayek publicou Os fundamentos da liberdade (The constitution of liberty), livro altamente elogiado pelos críticos da academia e considerado o mais importante de Hayek. Apesar do sucesso no meio acadêmico, o livro não conseguiu repetir o sucesso de O caminho da servidão junto ao público.

Em 1962, Hayek troca a Universidade de Chicago pela Universidade de Freiburg, na Alemanha, onde permanece até 1968, quando se aposenta. Segundo os seus biógrafos, Hayek passou um tempo deprimido após a aposentadoria. Entretanto, como a vida das pessoas também tem os seus ciclos, tudo melhorou após 1974, o ano em que Hayek compartilhou com o colega sueco Gunnar Myrdal (1898-1987) o Prêmio Nobel de Economia por terem mostrado a interdependência entre fatores sociais e os ciclos econômicos, e a falibilidade do conhecimento individual sobre esses temas.

Hayek era admirado por diversos estadistas, incluindo Margareth Thatcher, a primeira-ministra britânica, que ficou nesse posto de 1979 a 1990. Consta que, durante uma das seções de debate no parlamento britânico, ela tirou da sua pasta o livro Os fundamentos da liberdade, e, após mostrá-lo aos presentes, bateu com o mesmo na mesa e disse: ‘Isso é em que acreditamos’. Através da recomendação de Thatcher, Hayek foi apontado membro Ordem dos Companheiros de Honra da Rainha Elizabeth II pelos seus ‘serviços prestados ao estudo da economia’.

As ideias que Hayek deixou gravadas em O caminho da servidão e em Os fundamentos da liberdade continuam correntes no século XXI; e continuam a persuadir os jovens de todo o mundo a optar pelo caminho da liberdade.

Referências

EBENSTEIN, A. The mind of Friedrich Hayek. New York: Palgrave Macmillan, 2003.
HAYEK, F. A. (1944). The road to serfdom. London: Routledge, 2001.
HAYEK, F. A. The Constitution of Liberty. Chicago: University of Chicago Press, 1978.


NOTAS:

[1] O termo ‘totalitarismo’ designa o regime político em que o Estado controla toda a vida dos cidadãos e a economia, mantendo o poder através de propaganda, culto de personalidade, controle da imprensa e vigilância da população. Quem primeiro usou esse termo foi o filósofo nazista Carl Schmitt, no livro The concept of the political (1927). Durante a Guerra Fria, passou a ser usado para designar o regime da União Soviética.

[2] Infelizmente a The Fourthnightly Review cessou de ser publicada em 1954, quando foi incorporada à Contemporary Review e esta cessou de ser publicada em dezembro de 2012 (quando já era trimestral). Contemporary Review é também a revista onde a autora desse livro (JPO) publicou diversos ensaios e resenhas, de 1999 a 2008. Uma nova série da The Fourthnightly Review ressurgiu na forma eletrônica em 2014: http://fortnightlyreview.co.uk/about/

[3] Essa mudança de campo de Hayek serve para demonstrar a enorme liberdade de ação das instituições de ensino superior da Grã-Bretanha e dos Estados Unidos.

 

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