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por Anselmo Heidrich[ii]

 

 

O pragmatismo que se avizinhava no pós-guerra, pela reconstrução dos países europeus e, do outro lado do Atlântico pelo avanço capitalista e tecnocrático não deixaria a Geografia isenta de sua cota de influência. Em um texto de discussão metodológica e histórica da disciplina, dois professores de Londres comentam:

“Não pretendemos, sem dúvida, sugerir tenha sido prematura a especialização. Ao contrário, foi natural e necessária. E sem o grande acervo de fatos que produziu, não se poderia ter esperanças de alcançar uma síntese geográfica satisfatória. As próprias explorações primárias ainda estavam por terminar quando Humboldt e Ritter redigiram sua obra. O interior da África não seria conhecido, até 1880, sem qualquer acepção que se possa ter, ao passo que uma grande parte da Ásia, sobre a qual escreveram os dois pioneiros, permaneceu, em essência, terra povoada de mistérios até que a desvendaram, na segunda metade do século XIX, os grandes exploradores russos, ao lado de Sven Hedin, Aurel Stein e Richthofen.

Mais importante para o futuro da Geologia, como da Geografia, terá sido, talvez, o trabalho inicial do Levantamento Geológico Americano, as explorações de Hayden e Powell no Oeste árido dos Estados Unidos. Exploração fundamental, quase satisfatoriamente cientifica quanto aos seus métodos, foi igualmente a da expedição do Challenger, empreendida de 1870 a 1873, que estabeleceu, pela primeira vez, a carta das profundidades dos oceanos e examinou, sistematicamente, as características e os movimentos das águas de superfície. Ela proporcionou também os dados para o primeiro levantamento geral satisfatório do clima dos oceanos. Humboldt percebera o valor das linhas isotérmicas e as utilizara, tanto quanto o permitiram os escassos dados então disponíveis. Foi Buchan, porém, meteorologista da expedição do Challenger, o primeiro a desenhar mapas mundiais de temperatura, pressão, etc., os ancestrais das cartas que nos são familiares, encontradas nos atlas modernos.

Igualmente importante para as últimas finalidades da Geografia foi a publicação, pelos Governos, do levantamento de mapas topográficos e geológicos desenhados em grande escala. A França e a Grã-Bretanha já estavam cobertas de mapas topográficos satisfatórios por volta de 1870, e o levantamento geológico primário de ambos os países encontrava-se bastante adiantado. Desenvolvimento paralelo ocorreu em outros países civilizados. O advento dos serviços meteorológicos, durante a segunda metade do século, assinalou o aparecimento da Meteorologia Sinóptica e da Climatologia Local pormenorizada. O crescimento do vulto das estatísticas oficiais sobre população, produção e comércio acrescentou maior soma de material à síntese geográfica em perspectiva, num grau que chegou a ser quase desconcertante.

À luz desse acervo de conhecimentos imensamente aumentado, a obra de Humboldt e Ritter se afigura, de um modo inevitável, desprovida do adequado equipamento. E a tarefa de seus sucessores parece acrescida a um nível quase impossível de atingir-se quanto à sua amplitude e à suas dificuldades. Os homens revelaram poderoso e persistente interesse pelo seu meio, tornando-se, sob múltiplos aspectos, mais conscientes do mesmo. No entanto, o modo de ser desse progresso parecia residir naquela ‘divisão do trabalho’ tão vivamente louvada pelos economistas e tão manifestamente frutífera no campo da produção material. Seria possível a um homem, ou a um grupo de homens, segundo as palavras de Ritter, ‘reunir e organizar, numa bela unidade, tudo quanto sabemos acerca do globo?’ Para muitos, essa tentativa pareceu demasiado ambiciosa, se não quimérica; seria o peso suportado por Atlas, numa versão moderna” (Wooldridge, 1967, p. 21-23. Grifos meus).

O relato que acabamos de ler é sobre uma geografia em estado de arte. Saibam que ela não morreu, continua vivíssima, mas por paradoxal que seja, não ganha atenção e representação nos centros acadêmicos como ocorre, efusivamente, no mercado privado. Estranho, não? Não. Para quem acompanha a intensa ideologização acadêmica nos EUA e Europa de pós-guerra e no Brasil a partir dos anos 70, isto soa muito natural. Mas observem como o autor dos excertos acima se surpreende com a produtividade alcançada e atribui isto, como uma descoberta fosse à divisão de tarefas tão “louvada pelos economistas”, em suas palavras. Para aqueles, como nós, que nos guiamos pelo liberalismo enquanto filosofia e arcabouço teórico-metodológico para muitas de nossas análises, o fenômeno é amplamente conhecido desde Adam Smith. Não por acaso, este foi seu apelido, Geografia Pragmática, ou Teorética,[1] como veio a ser conhecida mais tarde no Brasil. Esta contribuição foi acentuada pelos anglo-saxões, que desenvolveram uma geografia com modelos estatísticos para alocação de recursos e assessoria governamental ao planejamento econômico. Malgrado, como já observamos, foi no seio da própria sociedade americana que o marxismo, chamado de geografia crítica se alastrou para o resto do mundo. E, como não poderia deixar de ser, no chamado Terceiro Mundo “deu como um inço”, campo fértil para doses cavalares de ressentimento político associada a uma imaginação socialista. O impressionante é que, apesar de vivermos em épocas com maior disponibilidade de dados para esclarecimento da realidade, a fé, pois o marxismo não deixa de ser um tipo de fé… Avançou e continua avançando com outras roupagens, seja ambiental, cultural etc., do que se deduz que se tratando de obscurantista, de pouco ou nada adianta um debate racional. Resultante disto, temos mantras como este que, repetidos à exaustão pelos professores marxistas para que se tornem verdades inquestionáveis, sequer tentam sua comprovação empírica ou refutação de teorias opostas:

“A rápida expansão do modo capitalista de produção dá-se a partir do aprofundamento da divisão do trabalho que vai desembocar nas ‘forças produtivas capitalistas’. Ao atingir esta etapa o capital ampliar-se-á ampliando a base de suas próprias contradições estruturais, como a que antepõe as duas classes fundamentais de capitalismo no seio mesmo do processo do trabalho. Assim, o capitalismo precisará crescer para além de suas fronteiras e seus níveis qualitativos.

No plano do processo do trabalho a expansão capitalista traduz-se como elevação constante da composição orgânica do capital, isto é, um aumento em ritmo maior de emprego de máquinas que o ritmo de emprego de operários. Uma vez que a mais-valia é a origem do lucro e que é o operário e não a máquina quem produz mais-valia, tende a haver um declínio contínuo da taxa de lucro. Isto não cocorre em vista de que o próprio processo que gera a tendência produz contratendências. Uma delas é a concentração da produção em caráter monopolista; uma segunda é a fusão dos monopólios industriais e bancários que promove o nascimento do capital financeiro; uma terceira é a exportação de capitais que é ilustrativa a expansão ferroviária em escala mundial; uma quarta é a integração da produção agrícola à industrial que força para baixo a reprodução da força de trabalho (mais-valia relativa) e para cima a taxa da mais-valia; uma quinta é a deterioração da qualidade do produto para acelerar a velocidade das trocas; uma sexta é a expansão do circuito mercantil para a periferia do capitalismo; uma sétima é a socialização, via Estado, das despesas de inversões com capital fixo.

Em suma, o capitalismo passa da fase concorrencial para a fase monopolista, entrando na fase imperialista. Primeiro na fase imperialista de redivisão dos mercados mundiais e, a seguir, na fase do capitalismo monopolista de estado.

Crescendo sobre a periferia o capitalismo internacionaliza-se, reproduzindo em escala mundial a base sobre a qual nasce historicamente: proletarizando o homem, alienando-o da natureza e dos outros homens, do saber e do poder” (Moreira, 1981, p. 102-104. Grifos meus).

A Geografia Crítica, também conhecida por Geocrítica surge em 1970 na França e

sudamerica1946

A chamada geocrítica, geografia humana de viés marxista procura dramatizar até mesmo a cartografia, como se as visões tradicionais fossem fruto de uma manipulação histórica. 

rapidamente se espalha para outros países, onde iria despontar no Brasil na década de 80. O que nós acabamos de ler acima é simplesmente marxismo, nada de novo até então, mas o detalhe é que a ciência geográfica, nesta visão, se submete totalmente à metodologia e filosofia marxistas. Dentre as várias críticas que podem ser feitas, ao marxismo mesmo, como sua teoria do valor-trabalho ou o “etapismo histórico” configurado nos parágrafos acima (que desconsidera importantes particularidades regionais), o mais gritante é o que é feito com a geografia mesmo. A riqueza dessa ciência está na avaliação das diversidades, uma vez que se apresenta como um estudo com base na superfície da terra, “ciência dos lugares”, como chamava La Blache. Nesta visão “crítica”, a geografia é apresentada de modo grotescamente simplista, pois todas as regiões e áreas passíveis de avaliação na Terra se submeteriam a esta “lógica do Capital”. Para que isto apresente um mínimo de coerência há que se descartar a presença da história particular de cada nação, povo ou etnia; se descartar o peso institucional e estatal; religiões então, nem pensar, não passam de superestruturas, representações mentais para defender interesses (da “classe dominante”). Algo assim não parece geografia… E não é mesmo. Lembrem-se da bela escrita de Paul Vidal de La Blache dizendo que a Geografia não é a “ciência dos homens”, mas a “ciência dos lugares”, que envolve a humanidade, mas em sua relação com o ambiente. Como fica a análise ambiental na geocrítica? Não existe. Para marxistas genuínos, a 2ª natureza (como Marx chamava as transformações ocorridas nos territórios) suplanta e submete completamente a 1ª natureza (a original, “natureza natural”). Até aí reconhecemos a interferência de um sobre o outro, mas como Marx não pretendia constituir uma especialidade do conhecimento e sim uma “ciência da história” que contivesse um método capaz de abranger qualquer tradição de pensamento, os estudos ambientais desaparecem. Não é preciso dizer que os ambientalistas nunca absorveram esta visão pura do marxismo, mas sim do esquerdismo anticapitalista. Pode se dizer que o marxismo entrou na temática ambiental por vias indiretas, antes pelo ativismo político do que por sua estruturação acadêmica. Ou seja, o pensamento marxista se metamorfoseou, se tornando um “marxismo heterodoxo” e é, justamente, por isto que ele resiste. Se fosse o contrário, uma visão original, muitos não o adotariam porque iriam perceber sua defasagem em relação à realidade, a confrontação das teorias marxistas com a realidade etc., mas o que subsiste com força é o aspecto puramente ideológico, normativo, daquilo que “não aconteceu mas que pode acontecer, afinal, o verdadeiro comunismo nunca existiu de acordo com a teoria marxista…” Quantas e quantas já não ouvimos isto? Mas daí eu vos pergunto, quem lê integral ou parcialmente a obra marxista? Aqueles especialistas que, na sua maioria, já são adeptos ou simpatizantes. Portanto, uma de nossas principais tarefas para extirpar esta chaga é “traduzir”, divulgar o cerne da obra marxista para que, como uma vacina, mostrar aos novos leitores o que realmente lhes manipulará ao repetir clichês e enunciados sem maiores discussões e considerações.

 

(Continua…)

 

Referências:

MOREIRA, Ruy. O que é Geografia. São Paulo : Brasiliense, 1981.

WOOLDRIDGE, S.W.; EAST, W.G. Espírito e Propósitos da Geografia. 2ª Ed. Rio de Janeiro : Zahar Editores, 1967.

[1] Termo este que resultou de uma má tradução do inglês, theoretical, que significa simplesmente teórica.

[i] Confira também a primeira parte deste artigo aqui e, a segunda aqui.

[ii] Professor de geografia licenciado pela UFRGS em 1987 e mestre em geografia humana pela USP em 2008. Co-autor do livro Não Culpe o Capitalismo.